Lorenzo

Por mais de cem anos tenho vivido completamente distante da humanidade, tenho vivido entre as sombras do submundo, cercado por meus semelhantes, mas agora tudo isso mudou. Compreendo o risco que estou correndo, mas tudo isso é para algo muito maior que eu...

Quando os rumores da guerra submundana começaram a se espalhar, minha espécie foi obrigada a se fortalecer com novos integrantes e eu fui enviado para o Brasil para observar e relatar futuros candidatos a uma transformação.

Tenho ciência de que todos nós temos um lado obscuro em nossa alma, e o meu é banhado em escarlate, banhado em sangue... Eu sou um vampiro.

- Socorro!

A voz da garota ecoa por entre as árvores, galhos quebravam abaixo de seus sapatos enquanto ela corria desesperadamente e eu a seguia sem emitir o mais leve som. Eu não era de machucar humanos, geralmente os atraía, bebia seu sangue e dava um pouco do meu para curar seus ferimentos, apagando sua memória em seguida. Dessa vez, por conta de uma distração quando um corvo tentou me atacar, ela acabou fugindo de mim.

Cansado de persegui-la, uso minha velocidade para alcançá-la em segundos, mas antes que eu pudesse encostar nela, uma figura pula das árvores, agarrando a garota. Pelo seu odor, era claro que era outro vampiro, eu só não conseguia ver seu rosto devido ao capuz de sua jaqueta estar levantado.

O vampiro ataca o pescoço da garota, começando a tomar seu sangue, permaneço observando-o a alguns passos de distância. Ao terminar de se alimentar da garota, ele se afasta alguns centímetros e em um movimento rápido quebra seu pescoço, deixando o corpo humano cair aos seus pés.

Eu podia ver um sorriso debochado, mas continuava sem saber quem era aquele, já que o capuz cobria metade de seu rosto. Instintivamente, assumo posição de ataque enquanto soltava um rosnado baixo, havia algo naquele vampiro que fazia-me sentir ameaçado.

Lentamente suas mãos seguram a barra do capuz, tirando-o e revelando seu rosto. Ver aquela pessoa em minha frente era como receber uma estaca no coração, ainda mais sabendo o que ele fazia aqui. Giuseppe Vincenzo fazia de tudo para destruir minha felicidade e adorava me ver fracassar.

- Olá querido... -- seu sorriso se alarga, exibindo suas presas ainda alongadas - Que ótima recepção, ainda me trouxe um lanchinho.

Observo-o com incredulidade, afinal faziam-se anos que eu não o via. Seus cabelos ruivos balançavam com a leve brisa, seus olhos ainda vermelhos, pela recente ingestão de sangue, estavam fixos em mim. Ele usa os polegares para limpar o sangue que escorria no canto de sua boca, em seguida dá um sorriso ladino, era como se o começo de toda essa raiva passasse diante de meus olhos.

Nova York, 1920

Estávamos escondidos em um beco que havia atrás de uma das principais danceterias da cidade, em meio ao lixo e os roedores que esgueiravam-se por ali. Giuseppe beijava meu pescoço e dava leves mordiscadas, suas mãos agarravam minha camisa firmemente, empurrando-me contra a parede de concreto.

- Aqui não, por favor... - falo, afastando-me de seus lábios - Se alguém flagrar-nos, teremos problemas.

- Não. - sua voz rouca soa decidida em minha orelha - Se formos vistos, eu os farei esquecer.

Estávamos namorando desde os seus quinze anos, e como eu era um pouco mais velho, sempre tentava resolver as confusões em que ele se metia. Giuseppe Vincenzo vivia a vida perigosamente, muitas vezes ameaçava nos expor e eu era obrigado a intervir. Eu gostava dele, afinal nosso namoro já havia durado quase trinta anos, trinta anos vagando pelo mundo inteiro, explorando e criando confusões... Mas eu não imaginava o quão longe ele poderia ir, nem que ele pudesse ser alguém tão maldoso.

Ouço o som de saltos altos caminhando contra o chão irregular do beco, ao olhar em direção, vejo Edith, minha melhor amiga que juntara-se a nós em nossas aventuras, caminhando até nós.

Sua pele oliva estava em contraste com seu vestido de franjas branco, a gargantilha branca de paetês e a faixa com uma flor artificial que segurava seus cachos curtos e escuros.

- Que deselegante garotos, deixando uma dama sozinha - ela sorri tragando o cigarro em sua piteira elegante e logo soprando a fumaça - Não existem mais cavalheiros como na época vitoriana...

- Perdoe-nos Edith, sabes que Giuseppe não possui modos - dou um sorriso e afasto-me do ruivo, enquanto ajeito meu blazer preto, minha gravata borboleta e coloco meu chapéu na cabeça.

Sigo-a para fora do beco, a calçada na frente da danceteria estava lotada de pessoas que saíam do local para tomar um ar, atrás de mim, Giuseppe ainda praguejava pela interrupção de Edith.

Assim que entro no ambiente fechado, sou atingido pelo forte odor de cigarro, luzes piscavam forte enquanto pessoas dançavam pela pista de dança enquanto a banda estava no palco, tocando melodias dançantes. Acompanho minha melhor amiga em direção ao bar, enquanto meu namorado desaparece em meio a multidão.

Debruço-me sobre o balcão de mogno, enquanto Edith senta ao meu lado, o cigarro já havia sumido de suas mãos, provavelmente devolvido para sua verdadeira dona.

- Um dry martini para mim e para o cavalheiro ao meu lado, por favor - ela pede para o homem do bar, que lhe lança um sorriso ladino quase encoberto por seu grande bigode escuro.

Enquanto nossos drinques eram preparados, lanço um olhar sobre meu ombro direito, observando as pessoas dançando o jazz quase de forma descontrolada, como se suas vidas dependessem disso.

- O que eles dão para deixar essas pessoas tão eufóricas? - pergunto baixo para Edith, enquanto temos nossas bebidas entregues.

- Bom, talvez sejam as bebidas preparadas por bruxos - ela fala enquanto come uma das azeitonas de sua taça - E com certeza, a música cantada por uma bela sereia.

- Como? - olho para o homem no bar, em seguida para a cantora no palco. Seus cabelos loiros eram compridos, seu vestido vermelho de paetês estava bastante colado no corpo, um tanto vulgar para a época, mas ninguém parecia se importar.

- Também temos lobos e nós, vampiros - ela olha para o outro lado do salão, ao seguir seu olhar vejo um homem grande sentado em meio a algumas garotas, eu podia sentir o cheiro de cachorro molhado, claramente era um lobisomem - Se não passasse tanto tempo resolvendo os problemas de Giuseppe, já teria notado o quanto os submundanos estão entre os humanos.

Antes que pudesse respondê-la, sinto uma mão encostar em meu ombro, ao virar-me para ver quem era, vejo Giuseppe sério, suas irís vermelhas exibiam que ele havia acabado de se alimentar de alguém.

- Preciso conversar com você agora - ele sussurra de forma séria, o que era deveras raro - Acho que acabei de fazer uma grande besteira.

- Lorenzo, pode ir - Edith sorri, apontando para sua taça - Eu estou em ótima companhia com o Sr. Martini.

- Volto logo - digo por fim, acompanhando Giuseppe até a saída dos fundos e parando assim que chegamos na porta de metal - O que você aprontou?

- Sinto muito... - ele fala, ainda sério.

- O quê...? - antes que pudesse terminar a pergunta, sou interrompido pelo som alto de tiros, gritos e vidro quebrando.

Ao olhar para o salão, vejo um grupo de mascarados com estranhas armas de fogo, enquanto as pessoas corriam, vi um dos tiros acertar o peito do lobisomem, derrubando-o instantâneamente. Um dos tiros atingem o ombro de Edith e ela simplesmente desmaia, ao tentar correr em sua direção, tenho meus ombros segurados pelo garoto.

- Eu estava parado diante do corpo do homem que me alimentei quando eles chegaram... Tive sorte de estar escuro e eles não conseguirem enxergar o vermelho em meus olhos - ele fala perto de minha orelha - Soube que são experientes em nos matar, então quando perguntaram-me se eu sabia quem cometera o assassinato, não cogitei outra opção a não ser entregá-la para nos salvar.

Fico totalmente sem reação, um dos homens de máscara caminha até o corpo de Edith, tirando uma estaca do bolso e em um movimento rápido apunhalando o peito da minha melhor amiga. Observo as veias do corpo dela ficarem escuras enquanto uma raiva crescia dentro de mim. Ela estava morta.

- Eles tem balas de prata e verbena, fujam daqui - a sereia que antes cantava nos alerta, passando correndo por nós.

Liberto-me das mãos de Giuseppe, agarrando-o pelo colarinho do terno e o jogando para fora da danceteria pela porta de metal, seguindo-o para o beco onde estivemos mais cedo. O ruivo cai sobre os sacos de lixo violentamente, enquanto pragueja, parto para cima dele.

- Eu tive que fazer isso para nos salvar... - ele fala irritado.

- Nos salvar? Você só se importa consigo mesmo! - grito de volta - É capaz de tudo para salvar a própia pele.

- Lorenzo...

Em menos de um segundo, interrompo o que ele iria dizer, segurando-o pelo pescoço e erguendo-o do chão.

- Eu te odeio Giuseppe... Eu gostava de você, mesmo sabendo que você era uma pessoa ruim, mas você foi longe demais - empurro seu corpo contra a parede - Eu não quero te ver nunca mais, seu monstro.

- Você vai se arrepender disso... - ele responde, mas não dou ouvidos. Saio dali o mais rápido possível, correndo para longe.

Giuseppe Vincenzo cumpriu sua palavra, fez de tudo para fazer eu me arrepender daquele dia.

Alguns anos depois, descobriu que eu estava me envolvendo com a sereia que cantava na danceteria naquela noite, e fizera questão de caça-la com um grupo de piratas.

Desde então, tem matado todos que me apaixonei só pelo prazer de me ver sofrer por tê-lo deixado.

Guarujá, dias atuais

Com um rosnado alto, avanço para o garoto, fazendo-nos acertar uma árvore, que acaba entortando com a força do impacto.

- O que você está fazendo aqui? - pergunto entre dentes - Porque não me deixa em paz?

- Porque acha que tudo sempre é sobre você? - ele fala após uma risada debochada - Fui mandado para cá junto com a sua querida irmã pela Guarda, já que está claro que você está sentindo algo pelo humano e isso poderia te fazer perder o controle da situação.

- Porque você é tão desprezível? - pergunto.

- Vocês me rotularam como o "Vampiro Malvado Sem Emoções" - ele fala, fazendo aspas com os dedos - Eu apenas vesti a roupa que me era servida... Aliás, irei adiantá-lo que realmente serei capaz de fazer qualquer coisa para salvar nossa espécie, mesmo que precise machucar aquele garoto.

Repentinamente meu celular toca, fazendo-me soltar o garoto para atender. Ao pegar o celular do bolso, vejo o contato de minha irmã e atendo rapidamente.

- Milenna? O que houve?

- Passei no hospital e Yuki pediu-me para te ligar... - ela fala em um tom sério - Fui totalmente contra te avisar, mas o pai de Danilo foi atacado. Ouvi dizer que não irá durar nem mesmo até o amanhecer. O garoto está aqui...

- Eu estou chegando.

Desligo e devolvo o celular ao bolso, ao erguer a cabeça, vejo que Giuseppe não estava mais ali. Então logo começo a correr para o hospital.