Danilo

Eu sempre detestei hospitais, sempre senti aquela energia pesada, quase mórbida, o que era estranho pois ali era um lugar de cura, mas também era um lugar onde dezenas haviam morrido… O fato de ser a segunda vez que eu estava ali em poucos dias, piorava tudo.

Um calafrio desce por minha espinha, fazendo-me levantar da cadeira da sala de espera no mesmo instante. Eu estava impaciente pela falta de notícias, Samanta já havia seguido para sua casa, precisava descansar um pouco e evitar situações de estresse pelo bem de sua gravidez, acabei decidindo passar a noite ali.

Em minha volta haviam pessoas tão apreensivas quanto eu, enquanto esperavam notícias ou atendimento médico.

— Danilo? – ouço a voz de Dr. Yuki e sinto sua mão tocar meu ombro, fazendo-me virar em sua direção – Seu pai está acordado e gostaria de falar com você.

— Vamos… – respondo, já caminhando ansiosamente em direção ao elevador – Como ele está?

— Instável – ele aperta o botão do elevador e aguardamos lado a lado – Os ferimentos foram graves, nos deram bastante trabalho.

As portas metálicas finalmente se abrem e eu entro dentro do elevador rapidamente, Yuki aperta o botão para o último andar, onde encontrava-se a UTI.

Em instantes o elevador começa a subir, coloco as mãos no bolso, observando os números dos andares que passávamos sendo exibidos em vermelho no painel, enquanto Dr. Yuki examinava algo em sua prancheta.

— Alguém já sabe o que o atacou? – pergunto, ainda fitando o painel.

— A polícia veio interrogá-lo, ele não estava dizendo nada que tivesse sentido – o médico me responde – Ainda está em choque, assustado pelo ocorrido.

— Eu acho estranho essa história de ataques animais – digo olhando para o doutor, que desvia o olhar para mim, momentaneamente interessado – Quer dizer, a cidade nunca teve nenhum problema assim. Porque começaria agora?

— Com os humanos desmatando a natureza, não me surpreende muito que os animais comecem a invadir as cidades com áreas de mata – ele responde, as portas do elevador abrem-se e saímos para um corredor com luzes brancas fortes.

Enquanto caminho ao lado de Dr. Yuki, percebo o silêncio que instalava-se naquela ala do hospital, era tão silencioso ao ponto de nossos passos ecoarem pelo corredor vazio exceto por alguns enfermeiros e médicos que passavam rapidamente para cumprir seu trabalho.

Paramos diante de portas duplas, enquanto o médico novamente analisava algo em sua prancheta, até que o mesmo volta a falar.

— Seu pai está aqui, pode entrar – seus olhos azuis focam-se em meu rosto, deixando-me estranhamente nervoso – Eu precisarei dar alta para uma paciente na outra sala, mas há alguma enfermeira aí dentro.

Após eu assentir, ele se afasta em passos rápidos pelo corredor comprido, giro a maçaneta da porta lentamente, abrindo-a e adentrando o quarto em seguida.

A luz no local era deveras fraca, eu sentia medo enquanto observava a cama de hospital no quarto ocupada por uma silhueta, era como se a qualquer momento algo ruim fosse sair das sombras do quarto. O único barulho era o dos batimentos cardíacos de meu pai sendo marcados por um aparelho que estava ao lado da sua cama.

— Filho, pode acender a luz por favor? – a voz de meu pai soou baixa e rouca,mas quebrara o silêncio de forma tão repentina que causou-me um susto.

Em reflexo ao seu pedido, minhas mãos buscam o interruptor na parede, ligando-o ao finalmente encontrá-lo.

Leonardo estava mais pálido que o normal, olheiras escuras e profundas encontravam-se abaixo de seus olhos e vários arranhões espalhavam-se por todo seu rosto e pelas partes do corpo que estavam descobertas. Seu corpo estava meio sentado e meio deitado, ele parecia extremamente cansado, como se cada mínimo movimento exigisse muito de si.

— O doutor disse que você queria falar comigo – digo, aproximando-me lentamente de seu leito.

— Sim, eu ainda tenho algumas coisas para te dizer – ele vira a cabeça para o outro lado, cortando o contato visual antes de voltar a falar – Antes que seja tarde demais…

Me perco do que ele dizia ao notar um curativo grande no lado exposto de seu pescoço, uma grande mancha avermelhada manchava a gaze branca, deixando-a em um vermelho desbotado. Logo acima do curativo havia um corte, acompanhado por alguns pontos, fazendo-me perguntar qual animal teria causado tantos machucados.

— Pai? Você se lembra do que aconteceu? – pergunto, colocando minha mão sobre a sua – Lembra-se do animal que te atacou?

— Foi… Tão rápido… – ele me olha com uma expressão assustada, seu corpo se contraindo de dor – Haviam olhos azuis, que depois ficaram negros como a noite, e dentes… Dentes longos e afiados…

Uma crise de tosses fortes interrompe seu delírio, observo-o cobrir a boca com a palma da mão e ao afastar, assusto-me ao ver a mesma suja de sangue.

— Eu vou chamar a enfermeira – digo virando em direção a saída, mas tenho meu antebraço segurado por sua mão sangrenta, sujando minha pele com o líquido vermelho – Pai…

— Me perdoe por não ter sido um bom pai – ele me interrompe com um sorriso fraco, seus lábios estavam vermelhos pelo sangue – Obrigado por ter tentando me consertar e por ser uma boa pessoa.

— Você fez o seu melhor – digo sentindo um nó formando-se em minha garganta – E-eu deveria ter sido mais presente… Me desculpa.

— Eu tenho orgulho de você – uma lágrima escorre por seu rosto enquanto ele se esforçava em continuar falando.

— Isso não é uma despedida, pare de agir como se fosse – digo com a voz falhada, sentindo o rosto esquentar ao sinal das primeiras lágrimas.

— Sua avó biológica, deixou algo para quando meu primeiro filho completasse dezoito anos – sua voz soava cada vez mais baixa – Mas acho que não poderei esperar até lá, então procure na última gaveta da cômoda do meu quarto e vai achar.

— Você nunca me disse que era adotado – minha voz sai em um sussurro – O que ela deixou para mim?

Não houve resposta. Meu pai estava paralisado, seus olhos fixos em mim, mas sem realmente enxergar-me, ele estava imóvel. Seu aperto em meu braço se afrouxa e no mesmo instante o aparelho que marcava seus batimentos começa a emitir um zumbido estridente.

— Não… Pai? Por favor, não... – as lágrimas quentes haviam começado a escorrer por meu rosto, dificultando minha visão, eu começava a desesperar-me – Enfermeira! Alguém! Por favor!

Escancaro a maldita porta do quarto hospitalar enquanto gritava para o corredor visivelmente vazio.

Ouço um guincho alto, como o raspar de unhas em um quadro negro, vindo logo atrás de mim, onde meu pai estava.

Ao olhar para trás, vejo uma sombra saindo de seu corpo imóvel, arrastando-se em minha direção. Os gritos ficaram presos em minha garganta, a única coisa que eu consegui fazer foi dar passos para fora do quarto de forma instintiva. Observando o fim do corredor, na esperança de alguém aparecer, mas eu estava sozinho ali e para meu desespero, as luzes do corredor começaram a apagar no começo e no fim do mesmo, fazendo a escuridão avançar em minha direção a cada lâmpada apagada.

Escosto-me na parede do outro lado do corredor, iluminado apenas por uma luminária que estava logo acima de mim, cercado de escuridão pois agora até o quarto em que eu estivera outrora mergulhava em um profundo breu.

Novamente ouço o barulho agoniante e vejo a sombra parada no chão diante de mim, eu estava estático, incapaz de mover um músculo sequer. A sombra avança em minha direção com velocidade, atingindo-me com um tranco e fazendo um grito escapar de meus lábios.

— TIREM ELE DAQUI! – ouço Yuki gritar, em um piscar de olhos eu estava de volta ao quarto de hospital que agora estava cheio de médicos e enfermeiros.

A enfermeira ruiva que cuidara de meu tornozelo a alguns dias atrás segurava meu braço, arrancando-me do quarto com fortes puxões.

Fico parado no corredor entorpecido, sem saber o que fazer, totalmente perdido. Os olhos verdes da enfermeira estavam fixos nos meus.

— Danilo? – ela me chama, mas eu não consigo respondê-la, fazendo-nos cair em silêncio.

Novamente ouço o som do aparelho de batimentos cardíacos zumbindo, a ruiva olha sobre o ombro com pesar enquanto eu simplesmente não conseguia tirar os olhos da porta branca do quarto que estava fechada. Ele estava morto.

Lorenzo

De cima daquela árvore eu podia enxergar a maioria das lápides daquele cemitério, incluindo o pequeno grupo que participava do enterro do ente querido que havia sido mais uma vítima da onda de ataques aos humanos da cidade.

Entre eles, um pouco mais distante dos demais, estava Danilo. Travaja roupas brancas ao invés das típicas roupas escuras que as pessoas normalmente usavam em ocasiões de luto.

Uma única lágrima escorre pelo lado direito de seu rosto, enquanto ele voltava ao seu lugar, após deixar flores em cima do caixão escuro de seu pai. Allyson, sua melhor amiga, estava ao seu lado, com a mão no ombro do garoto, tentando reconforta-lo.

— Eles morrem tão fácil não é? – ouço a voz que eu menos queria ouvir e logo vejo Giuseppe apoiado no galho ao meu lado.

— O que faz aqui? – pergunto com incredulidade – Veio ver o resultado de suas ações irresponsáveis? Você fez mais uma vítima.

— Enzo... Eu já disse que não fui eu – ele olha para mim sério, por mais que fosse dificil confiar naquele crápula, eu sabia que ele dizia a verdade – Lenna e eu viemos para cá justamente para investigar os assassinatos.

— Como assim? – pergunto com o cenho franzido.

— Nossos pais, têm quase certeza de que Leonel está na cidade – Giuseppe fala parecendo preocupado enquanto eu entrava em choque – Vários candidatos a juntar-se a Guarda já foram assassinados – seu olhar desvia para o garoto humano – Ele sabe que você está o protegendo, sabe que você está sentindo algo por ele, e virá atrás dele a qualquer momento só para te atingir...

Danilo

Todos já haviam ido embora, mas eu era o único que ainda estava ali. Estava abalado não só pela morte de meu pai, como pelo acontecido logo em seguida, com aquela sombra. Havia sido real demais, ao ponto de deixar-me apavorado até aquele momento.

Enquanto chegava a conclusão de procurar um psiquiatra, sinto uma mão gelada encostar em meu ombro, fazendo-me pular de susto e quase caindo ao deparar-me com Lorenzo Marchezoni.

— Me desculpe – ele recolhe a mão rapidamente, parecendo não saber o que fazer – Eu soube do ocorrido e pensei em prestar meu apoio, mas acho que cheguei um pouco tarde…

— Sim, todo mundo já foi embora – passo a mão por meu cabelo embaraçado – Só eu fiquei.

Meu olhar corre até a lápide onde estava escrito o nome de meu pai.

Leonardo Carvalho 1980 2018.

Uma foto sua estava emoldurada na lápide, éramos tão parecidos… Eu havia puxado pouquíssimo da aparência de minha mãe, mas vários traços de mim vinham de meu pai.

— Minhas condolências – ouço a voz de Lorenzo, meu olhar encontra seus olhos azuis e eu imediatamente sinto-me reconfortado.

— Obrigado – digo forçando um sorriso.

— Posso te dar uma carona? Você não parece bem o suficiente para pegar um ônibus – ele sugere, com um sorriso amigável.