Capítulo 2
Something wicked this way comes
O grito pareceu estremecer as paredes de pedra maciça do castelo de Hogwarts. Cortinas balançaram enquanto um loiro irado passava pelos corredores a passos apressados, desviando-se dos poucos alunos que ainda vagavam pelas propriedades da escola àquela hora da madrugada. Todos sabiam, até os trouxas, que Hogwarts era o lugar mais seguro dentro do mundo mágico, indestrutível e impenetrável. Era uma mistura de escola com quartel general, era para lá que as famílias bruxas inglesas mandavam os seus filhos para serem educados com a cultura de seu povo. Era lá que residia à resistência da Ordem da Fênix, onde a maioria de seus soldados e líderes moravam. E era este mesmo castelo que agora tremia nas bases por causa da fúria do jovem líder. Dizer que Draco Malfoy estava irritado era pouco, na verdade ele estava colérico, não podendo acreditar na ousadia do inimigo.
Os demônios não costumavam fazer prisioneiros, e se faziam sempre capturavam alguém com o intuito de afetar o alto escalão da Ordem da Fênix. O problema é que quando Dumbledore estava no poder ele não possuía um ponto fraco, alguém próximo o suficiente que poderia ser usado em uma negociação e, nesse quesito, Draco resolveu seguir o exemplo do velho mentor. Não tinha amigos, não tinha amantes, seus poucos homens de confiança eram os únicos com o conhecimento de que eles eram da confiança do rapaz. Não havia como o Potter saber da importância de Lupin dentro do seu círculo pessoal, talvez soubesse apenas do status dele como comandante, mas isso não era relevante. Então, porque ele seqüestrou o bruxo?
Draco abriu a porta de seu quarto com um chute, a fazendo bater com um estrondo na parede de pedra e voltar com força ao batente, causando outro estrondo e fazendo lascas de madeira se soltarem dela. Ainda fumegando de raiva ele entrou no quarto, retirando o longo e pesado casaco e o jogando com violência no chão, pisando em cima dele e soltando impropérios como uma criança mimada que não conseguiu o presente de Natal que queria. Ele queria socar algo, qualquer coisa, e de preferência alguma coisa que pudesse sentir dor, para assim sentir-se melhor ao ver o sofrimento alheio.
Não, pensando melhor, ele queira socar Harry Potter, pois era a segunda vez que o demônio o desagradava em apenas uma noite. Certo que Potter costumava desagradá-lo sempre, afinal, eles estavam em guerra e ser inimigos não implicava em fazer coisas que cairia nas boas graças alheia, mas esta noite ele tinha passado dos limites. Prendê-lo em Londres enquanto bolava um ataque surpresa… Seqüestrar um de seus mentores… Isso não combinava com o Potter e o seu patético código de honra. Soltou uma risada de escárnio. Um demônio que tinha como estilo de vida a guerra ter código de honra, chegava a ser hilário. Chegava a ser um livro de romance samurai de quinta categoria.
- Soube que o ataque a Durham nos custou mais uma cidade. – Draco virou-se tão depressa que seus pés acabaram prendendo no casaco o fazendo cair sentado no chão. Na sua frente, com uma expressão divertida no rosto marcado pelo tempo, estava Albus Dumbledore.
- Velho imbecil, o que você está fazendo aqui? – resmungou mal humorado, soltando os seus pés do casaco e levantando-se rapidamente, vendo com desagrado que a expressão divertida ainda estava no rosto do diretor e que a sua ofensa não fez nada para tirar o bom humor dele. Dumbledore deu um último sorriso antes de calmamente recolher o casaco destruído no chão e olhar para a porta quebrada na entrada do quarto. Deu um aceno negativo de cabeça em sinal de reprovação e soltou um suspiro cansado. Foi com muita hesitação que ele aceitou a sugestão de Draco ser o seu substituto na liderança da Ordem, pois o rapaz ainda era novo demais, além de estar no meio da fase escolar. Mas o seu treinamento já havia encerrado e ele possuía mais conhecimento que qualquer adolescente na idade dele, além da doutrina Malfoy que lhe foi passada através de Snape o que havia lhe dado mais maturidade que qualquer garoto que o velho bruxo já tinha conhecido.
O jovem era inteligente, habilidoso nas artes mágicas e de combate, sabia ser distante e impessoal e sabia reger a pulso firme os soldados da resistência. E, embora fosse cheio de defeitos no caráter, ainda sim não deixava de ser um bom candidato. O problema era que ele era novo demais e com um temperamento difícil, o que ocasionava crises como essa que Dumbledore acabou de presenciar. Às vezes, quando não era bem sucedido em algo, Draco agia como uma criança e essa não era uma atitude aceitável em um líder.
- Draco, você sabe por que foi escolhido como meu sucessor? – começou Albus em um tom calmo e sábio e Draco ergueu uma sobrancelha loira e deu um sorriso torto, passando a mão pelos fios loiros despenteados e empinando o nariz.
- Porque eu sou esperto e descolado? – respondeu prepotente e o diretor deu uma negativa com a cabeça em sinal de repreensão, ficando sério rapidamente, pois não tinha ido a aquele quarto para ouvir as tiradas arrogantes do menino.
- Porque você era apto para o cargo, porque você tinha as qualidades para poder liderar um povo inteiro. Por isso. – respondeu em seu usual tom calmo e Draco soltou outro resmungo.
- Era? Tinha? Por acaso não estou mais qualificado para o cargo? Talvez um dos idiotas dos Weasley estejam! Vamos ser pacifistas, vamos tentar conviver com os trouxas. – gracejou numa voz em falsete. – Mais bruxos morreram nas mãos dos trouxas em duzentos anos do que nos mil anos de guerra com os demônios. Se é isso que você quer para a sua estimada Ordem, vá em frente, coloque um Weasley no poder e teremos vinte bruxos morrendo por dia e uma guerra eterna.
- Ao menos em um ponto concordamos, não é jovem Malfoy? De que queremos o fim da guerra. – disse Albus enquanto puxava uma cadeira e sentava-se no meio do quarto, encarando Draco que ainda estava em pé na sua frente.
- Meu Merlin, se você vai vir com essa conversa de novo de que devemos nos unir, eu estou indo embora. – fez menção de sair, mas parou no meio do caminho ao lembrar-se de que aquele era o seu quarto. – Não, você vai embora, porque este quarto é meu e eu não te dei permissão de entrar aqui! – respondeu presunçoso e Dumbledore deu um pequeno sorriso. Ainda era uma criança, apesar do status e poder adquirido, ele ainda não passava de uma criança, o que sempre fazia o velho bruxo ponderar se tinha feito a coisa certa. Colocar esta responsabilidade em um jovem que até os dezesseis anos tudo o que conhecia eram os muros protegidos do castelo e as fronteiras bem guardadas de Hogsmeade poderia ser um grande choque para o dito jovem.
Draco fora extremamente mimado e super-protegido por Snape depois que os pais do garoto morreram e a guerra não chegou a afetar-lhe tanto como os outros e Severo apenas permitiu que o garoto saísse em batalhas quando esse estava com o seu treinamento terminado. Ou seja, até dois anos atrás Draco nunca tinha encarado um demônio de perto, mas nos poucos meses desde a sua primeira participação na guerra, tinha ganhado pontos o suficiente para estar onde estava hoje.
- E você não acha que eu tenho razão? – ponderou Dumbledore e Draco rolou os olhos claros em sinal de exasperação. – Mas não vamos discutir sobre isso, pois este não é o motivo de eu estar aqui. Mas sim para saber o que aconteceu em Durham. – o jovem bruxo soltou um grunhido frustrado. Novamente eles estavam na velha rotina. Sempre depois de uma batalha Dumbledore o procurava – porque nada faria Draco ir até o homem de livre e espontânea vontade – para saber os recentes acontecimentos.
- Durham está perdida, sucumbiu aos demônios. – quis adicionar um 'sinto muito' diante do olhar que viu no rosto do velho bruxo, um olhar cansado, o olhar de um homem que já viveu mais de um século dentro de uma guerra, mas ele não era alguém de se desculpar tão facilmente. – E… – começou, mas parou por alguns segundos ponderando qual seria a reação do diretor diante da novidade. Remus Lupin fora um pupilo querido de Dumbledore, assim como vários outros, e todos que conheciam o mestre de Defesa Contra as Artes das Trevas sabia disso, e se o velho bruxo soubesse que um de seus favoritos fora capturado, talvez morto, cabeças iriam rolar. Sem contar que Remus fazia parte do Conselho da Ordem, e tinha muitos amigos dentro dele, amigos que não iam com a cara de Draco, amigos que estavam procurando qualquer motivo para livrar-se do rapaz. Afinal, um Malfoy nunca foi flor que se cheire, vide o nome, e se não fosse pela guerra e pelo fato de que demônios jamais os aceitariam dentro do círculo deles, eles já teriam mudado de lado há muito tempo, indo para o lado que lhe convinha, para o lado vencedor, não importasse qual este fosse.
– Lupin foi capturado. – concluiu com um tom de malícia em sua voz, seus gestos corporais indicando claramente o que este fato estava ocasionando em sua mente. Albus olhou intensamente o garoto, agora entendendo o motivo do acesso de raiva dele, apenas ainda não tinha compreendido se a frustração era por causa da captura de Remus ou porque os demônios venceram mais esta batalha e ainda levaram um dos seus soldados. Draco era um quebra cabeça difícil de montar e cada vez que Dumbledore achava que já o tinha resolvido, uma peça nova aparecia e complicava o jogo novamente.
- E o que você fará em relação a isso? – perguntou calmamente e Draco o encarou surpreso. Certo que Dumbledore não era o tipo de homem de perder a compostura tão facilmente, mas quando queria o diretor sabia impor respeito e temor. E uma razão para fazer isso era quando alguém que lhe era querido fosse ferido, física ou mentalmente.
- O que você acha que eu farei? – perguntou como se fosse à coisa mais estúpida da face da Terra. Albus apenas ergueu-se lentamente de sua cadeira, caminhando vagarosamente até a porta e parando no batente, não se virando para poder encarar Draco.
- Acho que antes de você mandar um grupo de buscas arriscar a sua vida pela de Remus, que tal tentar alguma negociação com lorde Potter? – sugeriu e Draco mordeu o lábio inferior, estreitando os olhos na direção do bruxo mais velho.
- Por que eu faria isso? Não é como se eu soubesse onde encontrá-lo, sem contar que uma reunião entre nós dois só terminaria em desastre. – atestou e pelo fato de ainda estar de costas para o loiro é que Draco não viu o sorriso sábio que Dumbledore deu.
- Será? – questionou numa voz melodiosa e antes de esperar a resposta do loiro, saiu do quarto apressadamente, deixando Draco parado no meio do aposento com uma expressão intrigada e confusa no rosto.
Harry não sabia como o seu padrinho poderia ser tão irresponsável às vezes. Este tipo de atitude ele esperaria de um demônio de classe baixa, mas de ninguém poderoso e treinado como Sirius. Ele tinha anos de experiência o suficiente para saber que fazer prisioneiros somente em última necessidade, pois isto atraía o inimigo ao território deles, o que ocasionava batalhas desnecessárias. E se fosse fazer prisioneiro, para levar a lugares onde os ataques não causariam tantos danos e não trazer ao quartel general deles. Era burrice, e se isso era mais uma definição de Sirius para piadas de mau gosto, o mataria neste instante, sem piedade, não importasse o quanto o demônio mais velho fosse superior a ele… ou querido por ele.
- Como você sabe disso? – perguntou Sirius enquanto via o rapaz andar de um lado para o outro no meio da sala de estar. O corpo inconsciente de Remus havia sido colocado sobre uma poltrona e o bruxo parecia que não iria acordar tão cedo, com certeza por causa dos ferimentos e da energia gasta no último embate.
- Sei do quê? – retrucou Harry, parando de andar e mirando o padrinho. Nos últimos minutos depois da descoberta, tudo o que ele tinha feito era ir de um lado para o outro pensando em um modo de se livrar desse problema que Sirius o tinha arrumado. Malfoy ficaria possesso e um Malfoy irritado significava menos demônios para o seu lado. Aquele garoto com raiva ficava mais poderoso do que aparentava ser e pobre daquele que entrasse em seu caminho.
- Quem é esse cara. – indicou Black o corpo estirado na poltrona.
- Você mesmo me ensinou para nós conhecermos bem o nosso inimigo. Eu sei quem são os principais comandantes do Malfoy e da Granger, muito obrigado. – retrucou resoluto, mas isso não parece convencer Sirius. Descobrir quem são os homens de confiança de uma líder trouxa era fácil, mas penetrar dentro do círculo pessoal de Draco Malfoy era trabalho que exigia muito talento em espionagem. Bruxos não baixavam a guarda tão fácil, ainda mais bruxos eternamente desconfiados como o Malfoy. – E por que você o trouxe aqui? – finalmente soltou o que estava entalado na sua garganta desde que vira Remus caído no chão da sua sala.
- Achei que você precisava relaxar. – respondeu Sirius em um tom displicente, dando de ombros e olhando com desinteresse para as suas unhas que mais pareciam garras. A boca e os olhos de Harry se alargaram, não acreditando no que estava ouvindo. Ele tinha raptado alguém apenas porque sentiu vontade de fazê-lo?
- Você o seqüestrou – apontou descrente para um Remus ainda dormindo. – porque achou que eu precisava de uma prostituta particular para aliviar o estresse? – Sirius apenas deu um aceno positivo com a cabeça. Harry inspirou profundamente por longos segundos para ver se recuperava a calma e não esganava o padrinho. Com certeza essa era mais uma das traquinagens de Sirius Black, podia apostar nisso. – Eu repito… VOCÊ ENLOUQUECEU? Se eu quisesse desestressar usava a Parkinson para isso. – desdenhou e o demônio mais velho soltou uma risada semelhante a um latido.
- Está bem, eu confesso, eu acho que na verdade está na hora de você arrumar alguém, formar uma família. Estamos em guerra Harry e infelizmente os bruxos, e até mesmo os trouxas, estão se tornando poderosos ao ponto de ficarem em pé de igualdade com a gente em algumas ocasiões. Seria bom que você arrumasse um parceiro e um herdeiro, para não extinguir a linhagem dos Potter. E eu achei que esse cara fosse perfeito pra você. Ele me pareceu bem forte. – deu de ombros e Harry não pôde acreditar no que estava ouvindo. Alguém tinha que colocar senso na cabeça do padrinho, e esse alguém, infelizmente, seria ele.
- Sirius! Primeiro de tudo, ele é um homem! – e apontou ferozmente para Remus, como se para mostrar claramente o que ele pretendia explicar com isso. – Homens não engravidam.
- Mas eu ouvi histórias de que com alguns feitiços e poções eles podem…
- São histórias Sirius! E não passam disso, histórias! – interrompeu exasperado. Como um homem brilhante como o seu padrinho poderia ter sido levado por histórias? – Segundo, eu não preciso de um parceiro! Estou bem como estou! – gritou a beira da histeria e isso fez toda a atitude despreocupada de Sirius sumir de seu ser, o fazendo se levantar para poder encarar o afilhado nos olhos.
- Aí que você se engana. Você já passou há anos da sua idade de maturidade e até hoje não arrumou um parceiro, o que me leva a pensar em como você ainda está inteiro. – indagou com as sobrancelhas franzidas e Harry acalmou-se um pouco. Não era de conhecimento geral, apenas dos demônios, que tal raça apenas tinha um parceiro para toda a vida, alguém que seria literalmente a sua outra metade.
Tornar-se o parceiro de um demônio ocasionava uma forte ligação entre o demônio e o seu prometido, que durava por uma eternidade por assim dizer, uma ligação que permitia o demônio saber o que seu parceiro sentia, saber se estava em perigo ou não, e lhe dar forças para ele sobreviver e ser digno de ser o parceiro de um demônio, às vezes, prolongando por mais tempo a sua vida. E também era de conhecimento apenas desta raça específica que um demônio sem parceiro se tornaria a cada ano que passasse sem esta outra metade ao seu lado ainda mais irracional. A não ser, é claro, que o demônio fosse forte o suficiente para poder superar seu lado instintivo. Porém, por mais poderoso que Harry fosse, ainda sim não havia como ele ficar mais de cem anos sem ter encontrado alguém. Era impossível.
- Não se pode acreditar em tudo o que dizem sobre ligações demoníacas, não é mesmo? – deu de ombros, tentando fazer o padrinho esquecer daquele assunto. Há vinte anos que Sirius estava batendo na mesma tecla, o que fazia Harry pensar se o sujeito estivesse doido para ter alguém o chamando de avô, mesmo que ele vivesse dizendo que não estava velho. Vai entender como funcionava a mente deturpada de Sirius Black. Seu pai costumava dizer que os poucos parafusos soltos que Sirius tinha afrouxaram de vez depois que o mesmo passou uma temporada sendo prisioneiro dos bruxos, sofrendo nas mãos deles sabe-se lá o que. E não seria Harry a perguntar para poder cavar ainda mais a ferida. – Mas agora me diz: o que eu vou fazer com ele? – perguntou, dando um relance para Remus que tinha soltado um gemido em seu sono e revirado no sofá. Sirius deu de ombros, ele realmente não tinha pensado no que fazer com o bruxo caso Harry o recusasse. O demônio mais novo balançou a cabeça em uma negativa diante da reação do mais velho, atitudes inconseqüentes como essas eram tão Sirius que o rapaz não entendia por que ele ainda se surpreendia.
- Nós podemos… sei lá, devolvê-lo? – ofereceu o comandante e Harry rolou os olhos ao ver a expressão divertida no rosto mais velho. Não poderia devolvê-lo assim, sem mais nem menos, aos bruxos que com certeza, há essa altura, já estariam atrás deles com as foices e facões erguidos numa caçada a cabeça daqueles que seqüestraram um dos seus, não poderia devolver Lupin ao Malfoy sem correr o risco de sair com membros faltando de seu corpo neste encontro. Teria que esperar as coisas esfriarem um pouco, investigar a quantas andavam os grupos de busca por Remus e depois oferecer uma negociação pelo prisioneiro.
- Tranque-o em um dos quartos de hóspedes. – ordenou em um tom resignado e Sirius bateu continência para ele, com um sorriso maroto no rosto, ganhando outro rolar de olhos de Harry, e jogou novamente Remus por cima do ombro o levando para um dos quartinhos nas profundezas da mansão e que eram usados como celas para prisioneiros.
O rapaz novamente se jogou no sofá, o mesmo em que estava antes de Sirius chegar e derrubar aquela bomba aos seus pés, e inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos e soltando um longo suspiro cansado. Sua audição apurada conseguia ouvir todo e qualquer barulho da casa, por mais distante que fosse, e por isso ele conseguia localizar onde estava qualquer habitante, empregado, intruso, o que estivesse dentro da mansão. Podia ouvir os gritos das cozinheiras quando Sirius passou pela área de serviço, com certeza flertando e as provocando. Podia ouvir a voz irritante de Pansy novamente discutindo com Crabbe. Podia ouvir o burburinho dos soldados que tinham voltado da batalha, suas risadas, o estalar de copos na visível comemoração de mais um ataque bem sucedido. E, o principal, podia ouvir o reboar de asas que invadiu a sala.
Tentou ignorar esse barulho incomodo, mas um bater de asas é fácil de ser dispensado, o difícil é dispensar algo fino e duro o bicando na ponta da orelha. Irritado, abriu os olhos verdes apenas para se deparar com as íris douradas de uma coruja branca como a neve. Soltou um rosnado ao ver o animal ali, esperando que ela se assustasse e fosse embora, mas a criatura era tão teimosa e arrogante quanto o seu dono. Os orbes verdes alargaram um pouco quando viram que ela não carregava o usual pergaminho amarelado, mas sim um envelope vermelho que estava começando a soltar uma fumaça estranha. Nunca tinha visto aquele tipo de carta, mas já tinha ouvido falar dela. Assustado, soltou o envelope com um puxão da pata da coruja e como um tornado sumiu da sala indo trancar-se em seu quarto no extremo da ala norte, onde só havia o aposento dele e onde somente ele poderia ouvir os gritos. Assim que bateu a porta atrás de si a carta soltou mais uma baforada de fumaça antes de abrir-se automaticamente e a voz grave ressoar nas paredes de concreto como um trovão.
- EU QUERO O MEU COMANDANTE DE VOLTA POTTER, E QUERO AGORA! SE VOCÊ NÃO O TROUXER ESTA NOITE, NO LOCAL DE SEMPRE, PODE SE CONSIDERAR UM DEMÔNIO MORTO, ESTAMOS ENTENDIDOS? – e com isso ela desfez-se em chamas. Não precisaria nomes serem citados para ele saber a quem o remetente estava referindo-se e quem foi que enviou a carta.
Um pio chamou-lhe a atenção e ele desviou os olhos das cinzas do envelope que estavam no chão, para a coruja branca que de algum modo tinha conseguido acompanhá-lo até o seu quarto. Será que Malfoy não tinha um animal mais discreto do que esse? Uma coruja branca? Qualquer um poderia reconhecer aquela ave como sendo a ave de estimação do líder bruxo. E ele ainda tinha a ousadia de enviá-la a sua casa. Quem deveria morrer era aquele loiro e não ele. Resignado, sentou-se sobre o colchão macio de sua cama e pôs-se a olhar o sol nascendo no horizonte, se perguntando como ainda não tinha mandado aquele menino mimado para o outro mundo. Malfoy não o temia, não se importava em desafiá-lo, como se tivesse a eterna certeza de que fora do campo de batalha, quando eles se encontravam, Harry não teria a coragem de lhe fazer algum mau. Era assim desde que o conheceu, quando ainda era um moleque, e ainda podia lembrar-se claramente daquele dia.
Floresta da Mansão Malfoy, janeiro 1988
A tentativa de conquista de Londres novamente tinha se provado falha e Harry queria saber como meros humanos sem nenhum poder mágico, os tais de trouxas, conseguiram sustentar bravamente uma batalha contra os demônios por aquele território. Será que era aquilo que eles chamavam de força de vontade? Será que era aquilo que Sirius dizia ser o instinto de sobrevivência humano? Não pensava que eles tivessem isso, mas não se surpreendia, afinal, eles evoluíram do macaco, mas desde quando macacos tinham instintos de sobrevivência? Não saberia dizer, nunca tinha conhecido um demônio macaco na vida, com certeza os deuses reservaram tal espécie inferior apenas para os humanos mesmo, tendo apenas piedade dos bruxos e cedendo a eles algum diferencial: a magia.
Frustrado, começou a abrir caminho pela floresta, não sabendo direito para onde estava indo. Desde a derrota vergonhosa deles há dias atrás que Harry havia ido se refugiar em algum lugar perdido e isolado da ilha, não querendo contato com ninguém enquanto repensava aonde ele tinha errado neste ataque. Deixou as suas pernas cederem a um ponto da caminhada e caiu sentado no chão, começando a socar com os punhos fechados a terra fria e úmida por causa do sereno da noite anterior.
- Isto não dói não? – a voz aguda o fez levantar a cabeça num estalo e os olhos arregalarem ao ver o menino parado tão perto de si. Como ele não pôde ter sentido a presença daquela criança? Fungou um pouco o ar, atestando que aquela realmente era uma criança humana, o que tornava mais impossível ainda a sua aproximação sem o conhecimento de Harry. O moreno logo estreitou os olhos, torcendo os lábios e deixando amostra um canino afiado de forma ameaçadora, mas o garotinho pareceu não se afetar com aquela reação, apenas aproximou-se mais e ajoelhou-se em frente ao demônio, olhando com curiosidade para os punhos sujos de lama e folhas.
– Caramba! Nem ta sangrando. – falou surpreso, seus olhos azuis, quase cinzas, alargando-se consideravelmente. – Quando Snape ta com raiva ele costuma socar a parede, não sei por que. Eu acho idiotice já que no fim ele vai sentir mais dor do que a parede, mas ele me falou que é um bom meio de liberar as frustrações. Eu acho que se é para sentir dor, faça outro sentir dor. Quanto eu to com raiva eu soco o sardento do Weasley. – soltou uma risadinha maldosa e depois ergueu seus olhos para poder encarar o homem mais velho.
Harry piscou surpreso, pois tinha certeza que toda a sua linguagem corporal estava na defensiva, o que o fazia ganhar um aspecto perigoso, mas este menino parecia nem se importar com quem ou o que estava lidando. O demônio abriu a boca para poder mandar o garoto embora, mas este o interrompeu rapidamente.
– Você é um demônio, não é? – perguntou, mais afirmando do que indagando. – Nunca vi um demônio de perto, não desde que meus pais morreram. Meu pai foi morto por um demônio em uma batalha. – torceu um pouco os lábios pequenos e rosados em uma expressão triste. Seu pai era um homem sério e distante e nunca foi de demonstrar muita compaixão, mas ainda sim era o seu pai e sabia agir como tal quando precisava. Sua mãe tendia a ser a mais emotiva nesta relação entre pais e filhos. – Mas levou o bastardo junto. – afirmou orgulhoso e Harry ergueu uma sobrancelha.
- Não deveria falar dessa maneira na presença de um demônio, ou então vai fazer companhia aos seus pais. – Draco pareceu extasiado por finalmente ouvir a voz do estranho, mas não ficou muito abalado com a ameaça subentendida naquela frase, apenas deu um sorriso provocador, estrangeiro no rosto de uma criança de oito anos, e ergueu-se do chão, batendo as pequenas mãos nos joelhos pálidos e livrando-se da sujeira neles.
- Você está no meu território demônio, e por isso tem que sair daqui. – disse com autoridade e Harry quis rir diante da prepotência daquele menino. Se aquele era mesmo o território dele, o garoto, que parecia conhecer algumas leis demoníacas de proclamação de terras, estava no seu direito de exigir que o demônio saísse daquela área, mas geralmente essa exigência era seguida por uma luta de posse e o menino não parecia estar apto a lutar por nada, por mais que ele estufasse o peito e esticasse o corpo para parecer maior do que era.
Harry riu, um riso que pareceu um uivo, e Draco o olhou com mais curiosidade ainda. – Você é um demônio cachorro? – perguntou interessado, a pose arrogante tendo sido substituída pela genuína curiosidade infantil. Harry apenas rosnou ameaçador para ele.
- Olha como fala humano, não sou cachorro, sou um lobo. – o menino inclinou a cabeça para o lado, tentando achar traços que caracterizavam os demônios caninos e encontrou alguns. As mãos que pareciam garras, os olhos brilhantes, os cabelos longos – a lenda dizia que os longos cabelos representavam à cauda desses demônios quando estavam na forma humana – e as orelhas levemente pontiagudas, tudo ali como descrito no livro que ele estudou na semana passada. – E você – fungou mais uma vez o ar. – é um bruxo. – atestou surpreso.
Como ele não tinha percebido isso antes? Ele sempre conseguia reconhecer bruxos só com o olhar, podia sentir a magia deles, mesmo que eles fossem meras crianças, mas este menino além de ter se aproximado dele sorrateiramente, ainda tinha conseguido ocultar a sua magia. Afinal, quem era esse menino? Quem foram os pais dele?
- E você ainda está no meu território. – Draco repetiu, voltando a arrogância de antes. Harry desta vez riu divertido diante da ousadia do garoto, o que deixou o menino loiro extremamente irritado pelo demônio ter caçoado dele desta maneira. Ninguém ria dele, ninguém! Irritado e sem pensar direito no que estava fazendo, o menino fechou a pequena mão em um punho e a desceu com força contra o rosto de Harry, pegando este de surpresa diante do ataque imprevisto. Olhos verdes brilharam raivosos assim que as risadas morreram e encararam o rosto vermelho do loiro a sua frente. Num pulo o demônio pôs-se de pé, a sua sombra encobrindo o pequeno corpo de Draco, o intimidando, mas não o suficiente para fazer o bruxo recuar.
- Criança, se você escolheu hoje o dia da sua morte, terá seu desejo atendido. – rosnou, segurando o pulso magro e puxando o garoto em sua direção, inclinando o corpo para fazer o seu rosto ficar perto do dele. – Me diga, vai querer do modo lento e doloroso ou rápido e indolor? – Draco apenas empinou ainda mais o nariz e fez um biquinho contrariado, erguendo uma perna com rapidez e descendo seu pé sobre o pé de Harry, pisando nele dolorosamente. Harry soltou o menino diante da agressão sofrida e recuou mais uma vez surpreso por ter sido pego desprevenido. Era o segundo ataque que sofria de uma mera criança de oito anos. Como isso era possível?
- Eu não tenho medo de você. – gritou petulante e cruzou os braços sobre o peito franzino, empinando ainda mais o nariz se fosse impossível. Os olhos vivamente verdes de Harry ficaram do tamanho de dois pires e a raiva antes sentida começou a ser substituída por outra sensação: divertimento. O garotinho era extremamente abusado, mas essa arrogância dele apenas fazia o demônio se divertir mais do que ficar irritado. Certo que os golpes do menino tinham doído, mais do que deveria normalmente doer, na verdade o golpe de uma criança não deveria afetá-lo, mas podia sentir que este garoto era diferente, ele era especial. Endireitando-se e ignorando o latejar em seu pé, ele mirou o garotinho loiro que ainda permanecia firme encarando o demônio como se fosse gente grande.
Harry deu um sorrisinho divertido e sacudiu a cabeça de um lado para o outro. Draco descruzou os braços e fez uma careta desgostosa com os lábios, gostando menos ainda que o lobo estivesse achando graça dele e não o respeitando como deveria respeitar. Ele era um Malfoy, uma das mais influentes e poderosas famílias do mundo mágico, ele ainda seria grande um dia, como Snape costumava dizer, e por isso não aceitava que este demônio que invadiu as suas terras, sabe-se lá como passando pelas defesas mágicas da propriedade, risse dele.
- Não é engraçado! – Draco rosnou com as bochechas vermelhas e Harry não pôde evitar pensar em como o menino era, de um certo modo, adorável. Endireitando-se mais ainda o moreno ficou mais alto do que normalmente era, sabendo que agora estava impondo um certo medo e respeito no garoto, pois este recuou um passo, os olhos cinzentos ficando um pouco largos. Quando segundos se passaram sem Harry fazer nada, o menino relaxou e voltou à postura petulante.
- Qual é o seu nome menino? – perguntou curioso, estendendo um braço e tocando na bochecha rosada. Draco deu um pulo diante do gesto, mas permaneceu firme na sua decisão. Ele agora era o senhor da fortuna e das tradições dos Malfoy e por isso não poderia fraquejar.
- Draco Malfoy – falou firmemente. – E o seu? – Harry deu um pequeno sorriso, podia ver grandes coisas no futuro deste menino, coisas que o seu dom de vidente o permitia ver. Ainda havia caminhos nublados no futuro dele, mas Harry já sabia que neste garotinho arrogante estava o seu próximo adversário, alguém finalmente a sua altura já que Dumbledore estava ficando velho.
- Harry Potter. – respondeu, afastando-se dele e recolhendo a sua mão. Draco engasgou e seus olhos ficaram maiores do que já eram. Já tinha lido sobre Harry Potter em seus livros, ele era o atual e mais forte líder que os demônios já tiveram. Sentiu um calor subir pelo seu corpo e um grande sorriso brotar em seu rosto. Ele tinha batalhado com Harry Potter, batido nele duas vezes e saído vivo para contar história. Harry suprimiu o seu sorriso, pois sabia exatamente no que o garotinho estava pensando. Sabia da grandeza de seu nome entre os três povos e, com certeza, o menininho estava extremamente orgulhoso de ter conseguido bater nele, coisa que muitos homens crescidos não conseguiam. Quando ele pensou que o garoto começaria a pular em comemoração, viu o loiro parar com um biquinho nos lábios e um olhar chateado.
- Droga! Não vou poder contar ao Snape que encontrei e combati o grande Harry Potter, senão ele vai saber que eu fugi das minhas lições e vai ficar chateado por eu ter saído pela propriedade. – resmungou contrariado e Harry segurou-se ainda mais para não rir.
- Mas um grande guerreiro não é aquele que fica cantando as suas vitórias, mas sim aquele que deixa que os outros a cantem por si. – disse com um tom sério na voz e o rosto de Draco iluminou-se em mais um sorriso.
- Mas como os outros saberão que eu lutei com você? – perguntou intrigado e Harry deu uma piscadela de olho para ele.
- Acredite, eles saberão… um dia. – e com certeza iriam continuar conversando se um grito zangado não tivesse soado pelas árvores. Draco fez uma careta de desagrado e olhou por cima do ombro em direção ao grito.
- É o Snape. Hum, acho que depois dessa ele realmente vai cumprir a sua promessa. – resmungou. Snape estava ameaçando há meses que se Draco fizesse outra molecagem dessas de sair pela floresta da propriedade Malfoy sozinho, que ele levaria o garoto para morar definitivamente em Hogwarts e ficar restrito somente ao castelo. Embora o menino adorasse Hogwarts, ainda sim a escola não era nada perto da sua casa, última lembrança que tinha dos pais.
- É melhor eu ir então. – Harry falou e com um impulso deu um grande salto, repousando no galho grosso de uma árvore acima da cabeça de Draco, que o olhou impressionado.
- Nos veremos de novo? – perguntou com um tom inocente, os olhos brilhando em expectativa de reencontrar o demônio. Harry apenas sorriu, um sorriso sábio.
- Com certeza. – e sumiu floresta adentro, deixando esta promessa vagando pelo ar.
Isso havia sido há dez anos e somente oito anos depois do primeiro encontro deles é que os dois se reencontraram, no campo de batalha, pouco depois de Draco ter sido nomeado líder dos bruxos. O menino havia crescido, estava mais forte, mais maduro, os traços haviam deixado de ser infantis, mas mesmo assim ele ainda era o mesmo garoto petulante que conheceu. Ele não o temia, ele o desafiava. Não abaixava a cabeça na presença de Harry e sempre o encarava nos olhos. Dumbledore ainda mostrava respeito pelo moreno que apesar de aparentar juventude, tinha anos de experiência a mais que o velho bruxo. Mas Malfoy não, ele carregava a pompa e o orgulho de sua família até os extremos e não permitia que nada, nem ninguém, o questionassem.
Edwiges novamente piou no espaldar da cadeira e Harry, que estava deitado na cama, ergueu uma ponta do travesseiro que lhe cobria a cabeça e mirou a coruja com interesse.
- O que foi? – rosnou para o animal que ruflou as penas brancas e estufou o peito, voando até ele e começando a lhe bicar as pontas dos dedos. Quando o moreno ameaçou erguer a mão para poder espantá-la, ela afastou-se dele e voltou para o encosto da cadeira o olhando duramente. Harry soltou um bufo entre os dentes. Sabia o que a coruja queria, queria uma resposta afirmativa sobre a proposta do Malfoy em relação ao encontro. Irritado, ergueu-se de sua cama e caminhou a passos pesados até a mesa de estudos em seu quarto, pegando um pedaço de papel e rabiscando nele um okay. Mal se virou para entregar a coruja e essa já planou perto de suas mãos, arrancando o recado delas e voando janela afora. Harry rolou os olhos exasperado e voltou para a cama, deixando o corpo cair nela e fechando os olhos. Ainda tinha algumas horas até o encontro com o loiro, e aproveitaria isso para dormir.
Draco sentou-se no balanço daquela pracinha encoberta pela névoa e soltou um suspiro, apoiando os cotovelos sobre os joelhos, a cabeça nas mãos e mirando os seus olhos nas luzes fracas e distantes das casas padronizadas e de classe média que havia naquele bairro. Olhou para o seu relógio de pulso que marcava duas da manhã daquela noite fria e rangeu os dentes. Ele estava atrasado, meia hora atrasado, e se ele pensava que por causa disso Draco iria desistir do encontro e deixar Lupin a mercê deles, Potter poderia tirar a sua matilha da chuva.
E falando em chuva, um trovão ressoou pelo céu, com o seu raio iluminando boa parte daquela rua escurecida. Gotas grossas começaram a cair, fazendo os brinquedos da praça tilintar diante do choque e logo sumirem na massa de água que formava uma cortina branca sobre a cidade. Draco soltou um grande e desagradável resmungo sob a respiração enquanto sentia os fios de seu cabelo começarem a grudar em sua nuca e rosto. Potter teria apenas mais dois minutos para aparecer antes que ele começasse a caçar o demônio dentro daquele covil que ele chamava de casa, mesmo que não soubesse onde tal casa ficava. O vento soprando pelos arbustos da rua e a chuva chocando-se contra os telhados das casas o fez ficar mais alerta. Latidos de cachorros começaram a ecoar rua abaixo e Draco ergueu-se do balanço, estreitando os olhos cinzentos quando viu um vulto vir em sua direção, sendo ocultado pela água da chuva.
- Está atrasado. – sibilou raivoso e, mesmo que não pudesse ver, ainda sim sabia que havia um sorriso de escárnio no rosto do demônio.
- Me desculpe, eu fiquei preso nas… comemorações. – Harry fez um gesto displicente com as mãos enquanto um raio que acabara de cair do céu iluminava o seu rosto, mostrando os longos fios negros presos firmemente em uma trança apertada. Draco rosnou baixinho, dando um passo a frente, sua mão pálida repousando no punho de sua espada e atraindo a atenção de Harry para ela. Normalmente quando ia se encontrar com o demônio não costumava carregar muitas armas, mas esta noite era exceção. Potter tinha algo que ele queria de volta e estaria disposto a lutar, se fosse preciso, por ele.
- Onde está Lupin, Potter? – indagou autoritário, ignorando o comentário provocativo sobre a vitória de Harry na cidade de Durham.
- Quem? – Harry perguntou em um tom desentendido, pulando em cima de uma gangorra e se equilibrando no centro desta, fazendo o brinquedo oscilar de um lado para o outro enquanto o vento forte e a chuva tentavam derrubá-lo no chão.
- O bruxo que o vira-lata pulguento do seu padrinho seqüestrou em Durham. – grunhiu, dando um chute e um dos extremos da gangorra e a fazendo se inclinar totalmente, quase derrubando Harry no chão se não fosse por sua agilidade e reflexos rápidos que o fez dar um grande salto ao mesmo tempo em que o bruxo chutou o brinquedo. O moreno caiu de pé sobre uma estrutura de metal trançado que as crianças usavam para se pendurar e de lá de cima mirou um Draco frustrado no chão gramado do parquinho.
- Este Lupin. – deu de ombros, andando com passos leves por sobre as finas barras de metal e depois pulando delas, caindo de pé em frente ao loiro. – Ele está bem… na Mansão Potter. – respondeu casualmente.
- E por que ele não está aqui? – indagou Draco, já ficando irritado com o vai e vem do Potter pelo parque, se dependurando nos brinquedos que lá tinham. – E você faria o favor de parar com isso? – finalmente perdendo a paciência ele sacou a sua espada, cortando o ar e acertando a corrente do balanço onde Harry estava, quebrando o brinquedo e fazendo um demônio surpreso cair sentado no chão enlameado. – Por que ele ainda está lá Potter? – continuou, ignorando o olhar irado do demônio sobre si. Agora perdendo todo o seu bom humor, Harry ergueu-se do chão e bateu nas pernas de sua cara calça negra, tentando ver se conseguia se livrar da lama que prendeu nela, e mirou olhos verdes furiosos no bruxo a sua frente que agora sorria triunfante por finalmente ter destruído a animação do demônio. – Se for por informações, avise ao pulguento do seu padrinho que Remus morre antes de dizer qualquer coisa. – concluiu, guardando a sua espada novamente na bainha.
- Eu sei. – Harry murmurou desgostoso, mas logo seu rosto contorceu-se num sorriso sádico, coisa rara nas expressões do demônio. Apesar de pertencer a tal raça, Harry Potter poderia ser considerado diferente do que os livros antigos costumavam dizer sobre os demônios. Ele era distante, sim, frio e por vezes impessoal, mas quando alguém conquistava a sua confiança, amizade, ou amor, ele sabia ser caloroso e carinhoso, além de divertido, bem humorado e leal. E nunca, nunca mesmo era injusto e nutria prazer em ver as pessoas sofrerem sem um motivo justificável para isso. Claro que todas essas regras eram mudadas quando o mesmo Harry estava lidando com Draco Malfoy. – Mas acho que a única morte que Lupin vai sofrer no momento é uma morte provocada por prazer. – continuou, ignorando o olhar desconfiado do loiro. – Veja bem – disse displicente. – Sirius achou que eu precisava relaxar e viu no Remus um bom candidato para esta tarefa. – e deu de ombros, fingindo não perceber como o corpo de Draco retesou diante desta revelação. Estava claramente implícito nas entrelinhas que Remus estava sendo mantido cativo para ser a prostituta de luxo do Potter.
Outro raio iluminou o local fazendo um brilho dourado ser refletido por sob as gotas de chuva e rapidamente uma cena comum poderia ser vista entre os dois inimigos. Draco estava parado a alguns metros de distância do demônio segurando o que parecia ser um longo cordão de contas douradas, enquanto Harry estava em frente ao loiro com o seu pescoço sendo envolvido por este mesmo cordão.
- Isto não tem graça Malfoy. – rosnou para o bruxo, segurando com uma mão o cordão, uma das principais e pouco conhecidas armas de Draco. A primeira vista ela parecia ser inofensiva, como uma pulseira que vivia sempre enrolada no pulso do rapaz, uma jóia qualquer. Mas, quando preciso, ela se tornava uma arma perigosa e mortal, como uma um chicote afiado que poderia matar ou ferir o inimigo de diversas formas diferentes. Draco nunca a havia usado contra Harry, mas para tudo tinha uma primeira vez.
- Você está me vendo rir? – comentou ácido e com os olhos azuis gélidos, puxando mais ainda o cordão quando Harry tentou soltá-lo do pescoço, marcando a pele morena do demônio e provocando pequenos cortes cujo sangue era lavado pela água da chuva. – Me devolva o Lupin, Potter. – Harry apenas riu provocativo diante dessa ordem. Não sabia se Draco estava furioso por causa da honra de seu comandante, furioso por uma ordem sua ter sido ignorada, ou furioso por que estava com ciúmes. De que, Harry não saberia dizer e nem saberia sentir, pois os sentimentos do loiro estavam tão ocultos que no momento o corpo dele não emanava nada além de frieza.
- Chega de criancice Malfoy. – sua voz saiu séria e autoritária, já cansado daquela atitude do garoto, e com um tapa no cordão Harry o desenrolou de seu pescoço. Aquela pulseira realmente era uma arma poderosa que com certeza trouxe a ruína de muitos, mas que nunca funcionaria com Harry. Afinal, ele a fez, ele a deu para Draco, e isso era uma coisa que ninguém jamais iria saber ou desconfiar. A arma encolheu-se e voltou para o pulso do bruxo como num passe de mágica, mas Malfoy ainda não desfez a sua postura defensiva e não saiu do lugar quando viu Potter se aproximar dele. – Meu comandante, Potter! – exigiu novamente e Harry riu, chegando perto o suficiente para segurar o queixo de Draco com as pontas dos dedos e trazer o rosto dele para bem perto do seu, perto o suficiente para ver todos os detalhes da íris acinzentada.
- Não! Só por causa dessa sua atitude infantil eu manterei o Lupin por mais alguns dias comigo, por… diversão. – provocou agora sendo mais rápido do que o loiro ao segurar o braço que ele ergueu para poder bater em si.
- Se é assim Potter – sibilou Draco entre dentes. – boa sorte amanhã. – e desta vez ele deu um sorriso sádico e misterioso, aproximando-se ainda mais, o suficiente para os seus narizes se tocarem.
- O que você quer dizer com isso? – exigiu e Draco alargou o sorriso.
- Você vai descobrir. – silêncio imperou dentro do parque, sendo interrompido apenas pelo barulho da chuva, a tensão ainda estava densa o suficiente para ser cortada com uma faca e os rostos próximos apenas faziam as respirações quentes de misturarem em uma só. Os olhos verdes de Harry fixaram-se nos cinzentos de Draco, sua mão ainda segurando o rosto do rapaz firmemente e de modo inconsciente o trazendo para mais perto de si. Algo brilhou dentro dos orbes tempestade e uma voz sussurrada e distante penetrou na mente enevoada do demônio.
– Não… – parecia ser a voz de Draco, mas ela estava tão distante embora ele estivesse tão perto. Perto o suficiente para Harry poder beijá-lo. – Não. – repetiu a voz ainda fraca. – Não po… – um poste de luz piscou intensamente no final da sua até que se apagou de vez. Um relâmpago cruzou o firmamento e o trovão pareceu ter estremecido Londres inteira. Outro poste piscou e apagou e com isso uma reação em cadeia começou, provocando a separação de Harry e Draco. Um atrás do outro os postes começaram a apagar até que o bairro ficou na completa escuridão.
Rapidamente a visão de Potter ajustou-se ao escuro e ele segurou o pulso de Draco o trazendo para mais perto de si. Sabia que o loiro conseguiria enxergar naquele breu, mas não tão bem quanto ele. A chuva pareceu ficar ainda mais forte, o que ocasionou uma queda na temperatura. Um foco de luz surgiu entre eles e Harry baixou os olhos para ver a ponta da varinha de Draco brilhando enquanto o próprio olhava a rua de cima abaixo até que seus olhos se voltaram para o demônio e as sobrancelhas loiras franziram sob os fios molhados do cabelo.
- O que foi? – perguntou quando viu o olhar curioso do bruxo sobre si. A varinha na mão dele foi direcionada ao chão e foi a vez de Harry erguer as sobrancelhas ao ver que algumas poças d'água estavam congelando.
- Por Merlin, me diz que é você que está fazendo isto só pra me irritar. – falou sisudo e Harry o mirou surpreso. Não era Draco que estava fazendo aquilo?
- Isto parece coisa de bruxo e, pelo que me lembro, você é o único bruxo aqui. – respondeu e alargou os olhos quando viu a luz da varinha de Draco começar a enfraquecer até apagar-se totalmente. A chuva que antes caía em gotas pesadas agora era flocos de neve que a cada segundo ficavam mais endurecidos ao ponto de pedras de gelo começarem a destruir vidros dos carros e os telhados das casas. Harry puxou Draco pelo braço, levando os dois para se refugiarem sob a varanda de uma das casas e sentiu um frio descer a espinha quando um vento fez a sua trança balançar atrás de si, um vento que mais lembrava o bater de asas. Vultos negros começaram a passar pela rua, atraindo a atenção de Harry para eles, os olhos do demônio prenderam-se nas figuras que mais pareciam deslizar sob o asfalto e que viravam as suas cabeças encapuzadas de um lado para o outro. Draco, que apesar da escuridão, conseguia distinguir um pouco do movimento dos vultos, encolheu-se contra a parede da casa, tentando tornar-se invisível a essas criaturas.
Não conseguia distinguir a sua fisionomia, mas algo lhe dizia que era melhor passar despercebido por elas. Harry seguiu o exemplo de sua companhia e tentou camuflar-se como pôde sem atrair a atenção delas, mas, sem mais nem menos, uma delas virou seu rosto para eles e ambos arregalaram os olhos com o que viram sob o capuz.
Um rosto sem olhos e nariz os encarou, onde uma boca grande sugava o ar com um barulho horrível que lembrava um garfo sendo passado sobre uma lousa. Mãos de dedos longos, podres e finos poderiam ser vistas saindo das vestes negras e despedaçadas e por instinto Harry colocou-se na frente de Draco quando viu a criatura vir na direção deles, começando a ser acompanhada por outras. O demônio flexionou a mão direita, estalando seus dedos e fazendo as suas garras crescerem, pronto para o ataque e esperando que o primeiro chegasse perto o suficiente para dar o bote.
O frio parecia aumentar à medida que as criaturas se aproximavam e quando elas estavam perto o suficiente Harry esticou o braço pronto para despedaçá-las, mas não conseguiu o seu intento, pois logo uma cegante luz amarelada refletiu na rua inteira e o som do que pareceu ser tiros ecoou pelo local, afastando o que quer que fosse aquilo que estava lá. Rapidamente o ar deixou de ser tão frio, a chuva voltou a ser simplesmente chuva e pouco a pouco as luzes dos postes voltaram a brilhar, incitando os dois homens a saírem de seu esconderijo e irem para o meio da rua, olhando com interesse na direção que as criaturas estranhas fugiram.
- O que era aquilo? – perguntou Harry a ninguém em particular.
- Me diga você. – uma voz feminina soou na rua e os dois homens se viraram para ver um grupo de pessoas paradas em frente a eles, com armas em punho e o que parecia ser um lança chamas nas mãos de alguns. Potter soltou um grunhido desgosto diante da sorte deles e Draco ao seu lado resmungou algo que soou muito como: só pode ser brincadeira.
- Granger, que surpresa vê-la aqui. – disse o loiro em desdém e Hermione Granger, que estava à frente do grupo armado, ergueu uma sobrancelha castanha para eles.
- Não tão surpresa quanto eu estou ao vê-los aqui Malfoy… Potter. – retrucou a líder trouxa que com um sinal de mão fez todos os seus acompanhantes levantarem as armas e as apontarem para os outros dois lideres, que rolaram os olhos em exasperação.
- Vamos nos unir aos trouxas. – resmungou Draco sob a respiração ao se lembrar das palavras de Arthur Weasley. – Se eu sair dessa Weasley, juro que dou você para os demônios brincarem. – resmungou antes do primeiro tiro ressoar pela rua.
