Capítulo 3
Hoje a noite é de Lua
Harry ergueu as pontas dos dedos e tocou o pequeno corte que a bala provocou em sua bochecha ao passar a centímetros de seu rosto. Trouxe a mão para frente dos seus olhos apenas para confirmar que estava sangrando. Torceu os lábios numa expressão de desagrado e as suas pupilas dilataram ao mesmo tempo em que as pálpebras se contraíram ao ver que outros trouxas estavam prontos para atirar neles sem dó.
Uns idiotas, na verdade, já que uma bala não seria o suficiente para derrubar Harry, que conseguia superar a velocidade do projétil quando preciso. Então por que eles ainda apontavam aquelas pistolas e espingardas para eles? Draco também era outro que não podia ser derrubado facilmente, pois conhecia dezenas de poderosos feitiços escudos. Era simplesmente perda de tempo.
A mulher a frente do grupo novamente ergueu a mão e algumas armas foram abaixadas enquanto ela dava lentamente um passo a frente. Seus cabelos castanhos e cheios estavam presos em um firme coque enquanto o corpo da jovem de vinte cinco anos era contornado pelas simples roupas trouxas que usava. Quem a visse em calças jeans e camiseta não diria que ela era uma grande líder, apenas diria que era uma humana normal se não fosse pelos punhos das duas armas que estavam escondidas sob a jaqueta surrada que ela usava.
- O líder dos bruxos – começou em um tom firme, mirando seus olhos castanhos no loiro a sua frente. – e o líder dos demônios. – voltou os orbes chocolate para Harry, que deu um sorriso charmoso para ela, a fazendo contorcer o rosto em uma careta de nojo. – Perdidos em Londres, por quê? – perguntou com escárnio. Isto não era algo que se via todos os dias, dois grandes senhores da guerra tendo um encontro em território inimigo. Hermione duvidava que o fato deles estarem na cidade e na mesma rua tenha sido apenas coincidência.
- Por que o quê, Granger? – Draco retrucou em um tom de desdém enquanto seus dedos tamborilavam levemente sobre a sua coxa, especificamente no local onde costumava camuflar a sua varinha. – Por acaso não temos mais o direito de ir e vir? – deu um passo a frente, mas parou abruptamente quando um dos trouxas ergueu a sua arma e a mirou no loiro. O bruxo ergueu ambas as mãos em sinal de rendição e recuou um passo. Ao seu lado, Harry olhava com grande interesse para a mulher a frente do grupo de humanos.
Então aquela que era Hermione Granger. Já tinha ouvido falar dela, sabia até por descrição como era a sua fisionomia, mas nunca a tinha encontrado. Ela era mais nova do que ele havia imaginado, mas não muito diferente de como a tinha pintado em sua cabeça.
- Claro que vocês têm. Mas Londres ainda é nosso território, Malfoy, e vocês foram banidos daqui. Portanto, vão embora! – ameaçou e Harry deu uma pequena gargalhada, chamando a atenção da mulher para ele.
- Olha só Malfoy, ela me lembra alguém. – gracejou, mirando seus olhos verdes no rosto de Draco, dando-lhe um grande sorriso provocador. O loiro fez uma expressão desgostosa, sabendo de quem o demônio estava falando. Estava falando dele e da vez que um garoto de oito anos tentou expulsar um demônio das terras de sua família. – Londres não será sua por muito tempo, humana. – voltou-se para Hermione, que estreitou os olhos diante das palavras de Harry. – Por isso não me ameace! – a mulher apenas deu a ele um sorriso malicioso e ergueu uma sobrancelha castanha.
- Por que não, Potter? Caso você não tenha percebido – estendeu os braços para mostrar o grupo de vinte e tantas pessoas, quase trinta, atrás de si, e parecia que mais estavam chegando, saindo das casas que adornavam a rua e unindo-se a eles. – somos a maioria aqui. Creio que você não tem muita chance contra nós, e nem muita ajuda. – e mirou seus olhos em Draco, sabendo que esse não moveria um músculo se o demônio fosse atacado. O loiro deu um sorriso escarninho e arqueou as sobrancelhas para ela, como se soubesse exatamente o que ela estava pensando.
- Sabe, ela tem razão. – o loiro soltou uma risadinha matreira, cruzando os braços atrás da cabeça e olhando para o céu, vendo que finalmente a chuva tinha parado e as nuvens estavam se dispersando, deixando amostra a lua brilhante e quase cheia que estava se destacando dentro daquele manto negro. – Você anda em minoria aqui. – zombou, abaixando a cabeça para poder encarar Harry que rolou os olhos diante das atitudes tolas do loiro. Às vezes ele regredia a infância de uma maneira extremamente irritante.
- Você também não me parece muito em vantagem aqui. E além do mais, eu posso derrubar esse bando de idiotas num golpe só. E quanto a você? Depois de meia dúzia de feitiços lançados já vai estar botando os bofes para fora, como sempre. Vocês bruxos se cansam muito fácil, ou será que é a idade? Você não tem mais dezesseis anos Malfoy. – rebateu sabendo que a sua pequena piadinha renderia uma longa discussão.
- Está me chamando de velho, Potter? – Draco perguntou ultrajado e Hermione arregalou os olhos não acreditando no que estava vendo. Lá estavam os dois destemidos líderes cercados por dezenas de soldados inimigos e em vez de ficarem alertas, o que eles faziam? Simplesmente começavam a discutir… como uma dupla de velhos casados há mais de cinqüenta anos. – Caso tenha esquecido, não sou eu que tenho trezentos anos e cacetada nas costas. – botou as mãos na cintura, empinando o nariz em uma pose triunfante.
- Mas ao menos eu não tenho cabelos brancos. – deu o golpe de misericórdia e sorriu abertamente quando viu Draco soltar um gritinho agudo e começar a puxar os fios platinados do cabelo molhado, procurando por qualquer reflexo branco nele. Hermione ainda observava pasmada enquanto o líder bruxo puxava o cabelo e ficava rodando em volta do próprio corpo como um cachorro perseguindo o rabo, não conseguindo acreditar que aquele homem fora o responsável por mandar vários dos seus ao hospital ou ao túmulo mais cedo. Draco começou a pular no lugar enquanto ainda mexia nos cabelos, os bagunçando consideravelmente.
A sua volta, os trouxas não sabiam como reagir diante dessa atitude do loiro que parecia ter enlouquecido e, por causa disso, não tiveram tempo de processar nada quando o primeiro feixe de luz estourou na rua e meia dúzia deles caíram no chão desacordados.
Hermione apenas voltou à realidade quando viu que agora Harry investia contra os seus homens enquanto Draco disparava feitiço atrás de feitiço em outros, não podendo conceber o fato de ter sido tão desleixada. Aquela cena ridícula toda do bruxo fora uma distração tão perfeita que ela nem viu o momento que ele puxou a sua varinha. Os olhos castanhos alargaram um pouco quando viram o demônio prestes a investir em um de seus mais jovens companheiros e a morena reagiu rapidamente, puxando as armas de dentro da sua jaqueta e as apontando para as costas do Potter que estava quase alcançando o jovem Creevey.
Os dedos repousaram nos gatilhos e quando ia apertá-los, algo pareceu estalar no ar e num piscar de olhos as suas armas estavam no chão e as suas mãos sangravam por causa do corte que agora havia nelas, provocado por alguma coisa que a atacou. Granger virou o rosto a tempo de ver o que parecia ser um chicote de ouro ser recolhido pelas mãos de Draco e esse dar a ela uma negativa com o dedo, como se estivesse repreendendo uma criança pequena. Era impressão sua ou o bruxo tinha acabado de salvar a vida do demônio? Alarmada, ela voltou sua atenção para Harry apenas para ver, com alívio, que ele não teve tempo de chegar a Colin, pois a ação de Draco lhe chamou a atenção no meio do ataque.
- Mas olha só! Quem está em desvantagem agora? – Harry gracejou e Hermione olhou a sua volta apenas para constatar que metade de seus companheiros estavam caídos inconscientes pela rua enquanto a outra metade tinha ferimentos no corpo que os impedia de revidar qualquer ataque, os fazendo recuar mesmo sem uma ordem direta dela.
- O que vão fazer agora? Me matar? – perguntou desafiadora, encarando os dois firmemente e erguendo o queixo. Se fosse morrer agora, morreria com orgulho e olhando para o seu inimigo, sem recuar. Draco rolou os olhos em direção ao céu negro pensando na possibilidade enquanto Harry passou uma mão pelos longos cabelos escuros, ajeitando um fio solto aqui e acolá, também pensando na possibilidade.
Depois de alguns segundos de tenso silêncio o bruxo loiro deu de ombros e virou-se, dando as costas para os dois e começando a andar rua abaixo. Hermione ergueu as sobrancelhas ao ver o rapaz dar as costas ao inimigo. Certo que os seus homens não poderiam fazer nada contra ele, mas Potter ainda estava ali e poderia atacá-lo. Como o jovem tinha tanta certeza que o demônio não faria isso, como ele podia confiar tanto no Potter?
- O que eram aquelas coisas? – Harry perguntou, ignorando a atitude de Draco, sabendo que com certeza o rapaz ainda estava irritado com ele por sua negativa em devolver-lhe Remus. Granger arregalou um pouco os olhos castanhos e a sua boca abriu-se em uma expressão surpresa. O demônio não sabia o que eram aquelas coisas? Como?
- Como assim? – sua voz saiu num tom irritado, pois ela tinha certeza que ele estava se fazendo de inocente. – Aquilo são demônios, com certeza são, pois com bruxos que não se parecem. Vocês os viram, viram como eles atacam. Já vimos como eles atacam. O primeiro aviso é a ausência de luz, depois vem o frio e finalmente a aparição deles. Eles sugam almas ou então matam a sangue frio. Os chamamos de estripadores. E como pode você não reconhecer um dos seus? – ralhou e Harry arqueou as sobrancelhas confuso.
- Aquilo não faz parte do meu povo. – defendeu-se. Nunca tinha visto aquelas criaturas antes e se elas realmente fossem demônios, ele saberia. Sempre sabia o que acontecia ou deixava de acontecer com o seu povo. – Malfoy? – chamou o bruxo que estava na metade do caminho, mas com os ouvidos atentos na conversa deles. O loiro parou, não se virando para eles, e deu de ombros.
- Não estão na lista de criaturas mágicas, Potter. Saberíamos se tivesse uma coisa dessas dentro do nosso povo. – e virou-se, encarando profundamente os dois líderes. – Resumindo, não veio do mundo bruxo, com certeza não é trouxa – disse a palavra com nojo e Hermione torceu o nariz enraivecida. – e menos ainda são demônios. Eles nos atacaram – apontou para si e para Harry. – e andam atacando seu povo. – e apontou para Hermione. – Talvez… – ficou em silêncio, voltando sérios olhos cinzentos para o demônio. Esse era o tal inimigo que Potter tinha previsto? Harry deu uma negativa com a cabeça, sabendo exatamente o que ele estava pensando.
- Acho que isso é apenas a ponta do iceberg. – respondeu a pergunta muda dele e Hermione ficou olhando de um para o outro, tentando entender o que estava acontecendo, que comunicação silenciosa era aquela? Os dois eram muito estranhos… muito próximos para o gosto dela. E havia algo extremamente de errado nisso.
- Está tarde. – murmurou Draco. – Eu vou pra casa, pesquisar sobre eles. Talvez a biblioteca de Hogwarts tenha alguma coisa. – virou-se para partir, mas parou no meio do caminho. – Potter, o meu comandan…
- Não, Malfoy! – negou veementemente com um sorriso escarninho no rosto. Draco sabia que era inútil pedir, mas não custava tentar apenas mais uma vez. O loiro retribuiu o sorriso com um parecido e mais malicioso. Se era assim que Potter queria, ótimo, ele que agüentasse as conseqüências.
- Okay! Boa sorte amanhã então Potter! – desejou mais uma vez, deixando Harry confuso, e com um girar de corpo desaparatou da rua. O moreno voltou o seu olhar para o grupo trouxa ainda caído na rua, vendo que alguns já estavam se recuperando do ataque mais cedo e erguendo-se do chão, recolhendo as suas armas e fixando a sua atenção no demônio, que deu um sorriso charmoso para Hermione, percebendo que esta seria uma boa hora de bater em retirada.
- Bem, Mione, acho que nossa conversa se encerra aqui. – fez uma reverência polida para a mulher, mas sem desviar os olhos de qualquer movimento que os humanos estivessem fazendo, ainda mais que Hermione lentamente abaixou-se para recolher as suas armas que foram jogadas no chão devido ao ataque de Draco.
Harry deu um sorrisinho torto ao ver a marca nas mãos pálidas da morena, a marca da estrela de oito pontas que adornava uma das extremidades do cordão que o bruxo carregava. Bem, a teoria dela tinha caído por terra, já que, no final, esta batalha ele não lutou sozinho. – Foi um prazer encontrar você. – disse com uma voz cortês, sorrindo divertido ao ver a expressão surpresa e desconfiada que estava adornando o belo rosto dela. – Mas para mim esta noite já se encerrou. – e com um último relance para os outros humanos, sumiu numa rajada de vento.
Finalmente relaxando o corpo e remexendo os ombros para poder sumir com a tensão que estava neles, Hermione guardou as suas armas novamente no coldre escondido pela jaqueta, mirando as suas mãos onde o sangue seco as manchava. Soltou um suspiro, ainda extremamente confusa com tudo o que tinha acontecido no momento.
Eles tinham detectado um ataque de estripadores graças aos sensores de temperatura que instalaram em vários pontos estratégicos de Londres. Estavam sempre alertas para qualquer aparecimento desses demônios, mas ela nunca pensou que, esta noite, quando saiu de sua base para lidar com mais um ataque, encontraria os dois outros lideres perdidos nas ruas de sua cidade. E ainda não conseguia entender o que eles dois estavam fazendo ali, pois não aparentavam estarem em uma briga.
Malfoy e Potter não eram estúpidos em travar uma batalha em território inimigo e sem seus exércitos, eles eram mais treinados do que isso. Sem contar que as atitudes deles eram completamente bizarras. Hermione em todos os seus anos de liderança apenas participou de duas ou três batalhas que envolviam as três raças, e testemunhara apenas uma vez uma briga entre os dois homens, e fora uma coisa feroz, sem proporções, o que fez a mulher pensar se era sensato o seu povo estar nesta guerra, visto que os inimigos eram mais poderosos. Mas eles precisavam se defender e quando lutavam, os demônios e os bruxos não viam o que havia no caminho ou quem atingiam, o que os obrigava a participar desse conflito também como instinto de sobrevivência. Os trouxas, como os magos costumavam chamá-los, não mais estavam interessados em ser novamente a raça predominante neste planeta. Agora eles estavam apenas interessados em ainda existir neste planeta, como os outros.
- Hermione? – Seamus Finningan aproximou-se dela, tocando-lhe levemente no braço para lhe chamar a atenção. A mulher virou-se e encarou o companheiro e torceu os lábios em uma expressão intrigada.
- O que eu acabei de presenciar aqui, Seamus? – perguntou ao irlandês que deu de ombros, não entendendo o que ela queria dizer. – Dois homens que supostamente são rivais e agem como se fossem amigos de longa data.
- Eles não me pareceram muito amigos, Mione. – argumentou o rapaz e Hermione deu uma leve negativa com a cabeça. – Eles estavam discutindo intensamente antes de nos atacar. – argumentou e Hermione balançou a cabeça em negativa com mais força.
- Eles armaram um plano de distração para assim nos atacar. Aquele show ridículo do Malfoy foi uma distração para não percebermos o ataque. Não viu? Potter o provocou como um sinal para ele se preparar, Malfoy decodificou o sinal e fez aquela palhaçada toda e, no fim, eles investiram. – concluiu, caminhando até um grupo de homens que socorriam e erguiam do chão algumas pessoas, verificando a extensão dos danos nos feridos por cima dos ombros deles e vendo que não era nada muito grave. – E o Malfoy me atacou. – concluiu, mostrando ao Seamus as suas mãos feridas.
- E daí? – deu de ombros. Malfoy tinha atacado metade daquele grupamento.
- Para salvar o Potter. – concluiu sombria e o rapaz arregalou um pouco os olhos. Isso sim era estranho, muito estranho mesmo. – Coloque os feridos na caminhonete e siga para o QG. Chame o Justin e recolha aqueles que ainda estão aptos a lutar. Vamos atrás desses estripadores. Eles não conseguiram nada esta noite e com certeza ainda vão atacar de novo. Precisamos descobrir o que são agora que… – se calou, suas feições ficando fechadas por causa deste pensamento.
Sentia-se segura quando achava que as novas ameaças eram mais uma arma de ataque dos demônios. Mas agora, o próprio líder deles disse que aquelas criaturas não pertenciam ao seu povo, e o líder dos bruxos disse o mesmo e ela precisava descobrir de onde àquelas coisas tinha vindo, pois se elas não pertenciam a nenhum dos povos isso só poderia significar uma coisa: Um novo adversário entrou nesta guerra.
- Eu realmente gostaria de saber aonde você foi. – Harry virou-se num pulo para poder encarar o padrinho escondido nas sombras da sala de estar escurecida.
- Sirius? O que está fazendo acordado tão tarde? – perguntou num sussurro, sabendo que àquela hora metade da mansão estava adormecida e que, sendo demônios, todos tinham uma audição apurada onde qualquer barulho que fosse seria capaz de acordar os adormecidos. E lobos insones era a pior coisa que existia no mundo.
- Me perguntando onde o meu afilhado se enfiou que ninguém conseguiu encontrá-lo a noite inteira. – respondeu em um tom de repreensão e Harry encolheu os ombros, sabendo que Sirius estava encarnando, no momento, o papel de pai super protetor e, quando ele fazia isso, não havia desculpa que fizesse o jovem demônio se livrar de qualquer sermão que estivesse por vir. Uma vez o homem mais velho foi audaz o bastante até para colocar Harry de castigo.
- Eu fui… dar uma volta. – mentiu descaradamente, dando as costas para Sirius quando o viu desencostar da parede onde estava apoiado e vir em sua direção.
- E bateu de frente com quem no processo? – resmungou, segurando no ombro do afilhado e o virando bruscamente, usando as pontas dos dedos para segurar o queixo do rapaz e virar o rosto dele de um lado para o outro. A bochecha esquerda continha uma trilha de sangue seco e um corte avermelhado que estava quase cicatrizado devido ao processo de cura rápida que os demônios possuíam. O mesmo acontecia para os ferimentos no pescoço que agora não passavam apenas de suaves marcas sob a pele morena.
- Como está o nosso convidado? – perguntou, mudando visivelmente de assunto e Sirius soltou o rosto dele, mirando seus intensos olhos azuis nos verdes do afilhado. Se Harry não queria lhe contar nada, tudo bem, não iria forçar, mas um dia o jovem teria que abrir a boca e lhe dizer onde andava se enfiando pelas madrugadas sem avisar a ninguém.
- Ainda não acordou. Considerei em mandar algum de nossos curandeiros lá, mas a energia dele está estável e tudo leva a concluir que ele está apenas cansado. – respondeu com um balançar de ombros.
- Malfoy o quer de volta. – informou Harry, deixando de fora que ele tinha recebido esta manhã um berrador onde Draco exigia a devolução de seu comandante, sem contar as marcas em seu pescoço que também era obra do loiro, resultado de ter o seu pedido negado.
- Como você sabe disso? – indagou. Harry sempre sabia mais sobre o líder dos bruxos que qualquer outro demônio. Certo que como o primeiro no escalão de comando era função do rapaz conhecer o inimigo. Mas este era Malfoy, o mesmo o qual a vida privada era mais secreta do que os tesouros guardados nos cofres do Gringotes, o impenetrável banco bruxo. Potter apenas deu de ombros em uma clara indicação de que este era um segredo que ele ainda não estava disposto a compartilhar, mesmo que a pessoa perguntando fosse Sirius, a criatura a quem ele confiava a sua vida, mas não os seus pensamentos. Harry era uma mistura da imprudência e inteligência de James com a reserva e a suavidade de Lily. Não podia negar ser filho de quem era e Sirius, apesar dos pesares, tinha orgulho do menino, mesmo quando ele não confiava em si.
- Lupin ficará conosco por mais algum tempo. Talvez ele tenha alguma utilidade. – comentou displicente, como se o fato de Remus ficar ou partir não o importasse em nada. Na verdade ele só mantinha o bruxo prisioneiro para irritar mais ainda Draco e para descobrir sobre o que o loiro estava falando quando disse que era para ele agüentar as conseqüências de sua teimosia. – Eu estou cansado, vou dormir. – resmungou e sumiu casa adentro antes mesmo que Sirius pudesse abrir a boca para dizer qualquer coisa.
A porta do quarto rangeu nas dobradiças e Harry fez uma careta quando o barulho metálico penetrou em seu cérebro cansado. Com um chute a colocou de volta no portal assim que passou por ela e arrastando os pés caminhou até a sua cama quente e convidativa, deixando o casaco molhado e pesado cair no chão com um barulho abafado. Sentando-se pesadamente no colchão desafivelou as amarras de sua pesada bota de combate, usando os próprios pés para poder se livrar delas e com um grande suspiro deixou o corpo cansado cair sobre as cobertas macias, fechando os olhos instantaneamente e adormecendo.
Não conhecia aquele lugar, mas tinha a certeza que ainda estava na Grã-Bretanha. Era frio, sombrio, as paredes de madeira comida pelos cupins não aparentavam ser muito seguras, nem as escadas por onde subia. Luzes fracas de lampiões criavam sombras fantasmagóricas pelos corredores e cada porta guiava para uma escuridão que ele não estava disposto a desvendar. Barulhos foram captados pelos seus ouvidos, barulhos de vozes, vozes que lhes eram desconhecidas. As seguiu, continuando pelo corredor que não lhe parecia seguro até uma porta que, diferente das outras, não levava a escuridão, apenas ao desconhecido. Sua mão ergueu-se para poder empurrar a porta de madeira podre e mais sombras o cumprimentaram. E, diferente das outras vezes, seus olhos não se acostumaram automaticamente com a mudança de luz, mas os seus ouvidos conseguiam ouvir claramente o que estava sendo dito.
- Eles me rejeitaram. – veio a voz parecida com um sibilo e Harry virou-se na direção do som, não conseguindo ver quem estava sendo ocultado pelas sombras. – Não era qualificado para entrar em seus mundos patéticos. Não era poderoso o suficiente, não era puro o suficiente, não era normal o suficiente. Agora sou tudo o que eles disseram que eu não seria capaz de alcançar. Eles se matam querendo o domínio deste mundo, o mundo do qual eles me baniram. Todos eles! Agora eu mostrarei que apenas uma pessoa tem direito sobre este mundo. Eu! Eu que sou a evolução, que sou aquele mais capaz de viver sobre estas terras.
- Sim mestre. – outra voz respondeu, fazendo o demônio virar-se para poder ver a pessoa que também estava ocultada pelas sombras. O barulho de algo deslizando pelo chão lhe chamou a atenção e o moreno apenas conseguiu sentir alguma coisa gelada roçar as suas pernas, mas não pôde ver o que.
- Meus servos vieram esta noite me dizer que encontraram os outros dois lideres. – o som de uma inspirada de ar pareceu ecoar por aquela misteriosa sala. – Primeiro serão os desprezíveis mortais e, no fim, os demônios. Eles nem saberão o que os atingiu e quando se derem conta, este mundo pelo qual eles lutam tanto será meu! – uma risada sinistra ecoou pelo local, fazendo um arrepio descer pela sua espinha. O desconhecido virou-se em sua direção e duas brilhantes íris vermelhas pareceram olhar prontamente através de sua alma, fazendo Harry dar um pulo de susto e tudo desaparecer subitamente em frente aos seus olhos.
Harry acordou num rompante, respirando pesadamente e com um suor frio escorrendo pela sua têmpora. Olhou janela afora onde as luzes dos raios que a tempestade produzia passavam por entre os panos grossos das longas cortinas. Não sabia dizer se era madrugada, manhã, tarde ou noite. Relaxou o corpo, voltando a deitar na cama e a encarar o teto branco de seu quarto. Aquilo havia sido uma visão? Parecia que sim. E como ele odiava as suas visões. Eram tão realísticas que quase podia senti-las na pele, assim como o medo que sentiu com essa. Nunca, em todos os seus anos de existência, um inimigo desconhecido trazido por uma visão o fez se sentir apavorado desta maneira. Mas tinha algo nesse sujeito, algo no modo como ele o olhou, como se soubesse que o demônio estava lá, que fez Harry sentir medo e ficar extremamente alerta. Algo no novo inimigo o fazia se sentir cauteloso, mesmo que a sua visão não tivesse revelado nada sobre ele. Porém, cuidado foi o que manteve o líder dos demônios vivo por todos esses anos, e não seria agora que ele baixaria a guarda.
Hermione Granger soltou um longo suspiro cansado ao entrar em seu pequeno apartamento em um prédio residencial do subúrbio de Londres. Era um local escondido cuja entrada se dava em um beco sem saída ao lado de uma velha loja de livros e discos usados. Tinha no máximo uns quatro andares acima do solo e um abaixo dele que era reservado para a garagem. Garagem essa que não era usada, pois a sua entrada havia sido lacrada e camuflada, impedindo a passagem de qualquer veículo de grande porte. Na verdade, o que deveria ser garagem era a sala de armamentos e reuniões da resistência trouxa. Lá estavam os equipamentos necessários para aquele prédio base se conectar com os outros escondidos pela cidade, lá estavam as armas necessárias para quando eles fossem sair em combate e naquele prédio era onde moravam os principais integrantes da resistência e as suas famílias, ou o que restou delas. Como era o caso de Hermione.
O apartamento onde morava foi herança de seus pais, uma das tantas baixas de guerra. A posição que ocupava dentro da comunidade trouxa também havia sido herança de seu pai. Crescera ouvindo o homem falar sobre igualdade e direitos. Seu pai era um político, era um humanitário, era um soldado. Tudo o que sabia, tudo o que aprendeu, veio dele e por isso lhe doeu ter que enterrá-lo quando ainda era uma jovem de vinte anos. Não estava preparada para deixar seu pai partir depois de ter perdido a sua mãe quando menina. Assim como não estava preparada para assumir a liderança daquele povo que agora estava desamparado diante do falecimento de Harmond Granger.
Jogou as chaves sobre a pequena estante que abrigava um velho aparelho de televisão e se sentou pesadamente no sofá, retirando dos coldres em seus ombros as duas armas que sempre carregava e onde no punho estava entalhado as iniciais: H.G, as iniciais de seu pai, outra herança que recebeu dele. Pensou em o que ele deveria estar pensando, onde quer que esteja, sobre a sua única filha estar liderando o seu povo na guerra e quase poderia ouvir a voz dele lhe sussurrar no ouvido: Você é melhor que isso minha querida, não deveria estar afundada nesta lama. Esta não é a vida que eu sonhei para você.
E com certeza não era. Harmond não queria ver Hermione crescer em um mundo de guerra, mortes e derramamento de sangue. Sonhara em conseguir a paz antes que aquela menina que ele tanto amava se tornasse uma mulher. Porém, morreu tentando realizar esse sonho. Tateando as almofadas do sofá, rapidamente ela encontrou o controle do aparelho de som e o ligou, sintonizando em uma estação de rádio qualquer. As notícias da noite passada vieram rapidamente através da voz frenética do locutor que relatava mais um ataque dos estripadores havia ocorrido ao redor de Surrey.
Hermione fez uma careta ao lembrar-se disso. Depois da partida de Malfoy e Potter, outro ataque ocorrera. Três pessoas haviam sido encontradas em choque e duas estavam "sem vida", por assim dizer. A mulher não tinha certeza o que os estripadores faziam além de matar a sangue frio, mas parecia que um de seus ataques constituía em algo que deixava o ser humano incapaz de qualquer relação com o mundo exterior. Era como se ele estivesse em coma, com a diferença de que estava acordado. Mas o pior não era isso, era saber que esses novos seres não pertenciam nem ao mundo bruxo e nem ao demoníaco.
- Pensando no quê? – Hermione virou a cabeça para poder olhar Seamus na porta de sua casa. Sorriu um pouco. Finningan era o seu melhor "arromba e entra". Ou seja, se você queria alguém para desativar complexos sistemas de segurança era com ele mesmo. Claro que todo o talento do rapaz não funcionava com o sistema de proteção mágico, mas alguns demônios costumavam, por mais que desprezassem dito povo, usar tecnologia trouxa para combate e proteção. Afinal, nem todos os demônios tinham poderes elementares. E Hermione ficou sabendo que somente os de classe mais alta eram agraciados com esse dom.
- No combate de hoje. – murmurou e o irlandês rolou os olhos de maneira exasperada. Conhecia Hermione desde que eram crianças, foram praticamente criados juntos, e a compreendia o suficiente para poder decifrar claramente a expressão que estava no rosto dela. A mulher estava intrigada, intrigada pelos acontecimentos estranhos da noite passada, intrigada por saber que tinham um novo inimigo.
- Sinceramente Hermione, é assustador saber que os estripadores não são de conhecimento dos bruxos ou demônios, mas você não precisa perder noites de sono por causa disso. – tentou conciliar, sentando-se ao lado da jovem no sofá e a encarando fixamente.
- Claro que preciso! – Hermione ergueu-se agitada, encarando Seamus com os olhos largos. O rapaz sempre foi do tipo que só se preocupava na última hora, somente quando via o perigo iminente, nunca por antecedência. – O desconhecido sempre deve ser temido. – retrucou sombriamente e Seamus quis rir. Hermione sempre temia qualquer coisa que ela não conseguia encontrar as respostas nos livros ou na internet. Então, qual era a novidade? Sem contar que ele ouvira claramente o Malfoy falar que iria pesquisar sobre essas criaturas, que se tornaram de conhecimento do inimigo e assim teriam mais gente alerta. Isso sim que era bizarro, o fato de agora eles não estarem mais se preocupando com um possível ataque dos demônios ou dos bruxos, assim como os bruxos e demônios ficariam um tempo sem se preocuparem com ataques dos trouxas. Agora eles estavam todos com o objetivo mútuo de descobrir o que eram aquelas coisas. Sinistro, realmente sinistro.
- Certo! – suspirou derrotado, sabendo que ela não sossegaria até conseguir respostas ou um meio de eliminar essa nova ameaça. – O que você pretende fazer? – era uma pergunta idiota, pois ele tinha certeza do que ela iria fazer. Hermione juntaria os seus melhores homens…
- Junte os melhores homens e espalhem pela cidade. – às vezes ela era tão previsível, mas não podia negar que este era ainda um dos melhores métodos de coleta de informações. Espionagem. Levantando-se do sofá o rapaz deu um pequeno aceno positivo com a cabeça, entendendo claramente as suas ordens, e sumiu pela mesma porta que tinha arrombado mais cedo. Com passos largos Hermione caminhou até a janela, olhando atentamente para a chuva que caía fortemente sobre a cidade. Meia hora depois os olhos castanhos voltavam-se para a calçada onde um pequeno grupo com uns três homens e duas mulheres saía do prédio e sumiam por entre becos, vielas e ruas. Eram os seus espiões e ficaria atenta e alerta até que eles voltassem com alguma informação. Nem que para isso precisasse passar outra noite em claro.
Susan Bones deu um gritinho quando foi jogada violentamente no chão pelo loiro que parecia cortar os corredores do castelo como um tornado. As meninas ao seu lado encolheram-se umas contras as outras ao ver orbes cinzentos e enraivecidos sobre elas. Bufando de frustração o rapaz ergueu-se do piso duro, batendo as mãos espalmadas em suas roupas úmidas, ignorando a pobre lufa-lufa ainda caída no chão de pedra com os livros a envolvendo e o uniforme da escola desajeitado por causa da trombada.
- É cega por um acaso? – rosnou ferozmente para ela e a menina encolheu-se diante do tom de voz dele. Embora Draco fosse o sonho de consumo de metade das adolescentes que estudavam em Hogwarts, seu gênio o fazia cair vários pontos no conceito delas, perdendo o primeiro lugar na lista de homens perfeitos para se relacionar.
- Me… me desculpe Sr. Malfoy. – pediu com a voz fraca, ainda esparramada no chão.
- Pelo quê? Pela trombada ou a sua completa incapacidade de raciocinar e andar ao mesmo tempo? – desdenhou, não se importando que as suas palavras estivessem gerando lágrimas nos olhos claros da menina. Lançando um último olhar enraivecido ao grupo, Draco continuou o seu caminho apressado em direção a biblioteca da escola, fazendo um escândalo ao abrir as grandes e pesadas portas do lugar, o que o fez ganhar uma expressão de desgosto da sisuda Madame Pince.
- Senhor Malfoy, mesmo depois de formado o senhor ainda não adquiriu nenhum respeito pelas regras impostas às dependências da escola. – esbravejou enquanto saia detrás de sua mesa e caminhava até o ex-sonserino com um dedo em riste. Em resposta Draco apenas fechou a porta com mais barulho atrás de si, assustando alguns estudantes que ainda não tinham se dado conta da presença do rapaz dentro da biblioteca.
- E mesmo com o passar dos anos você continua sendo a mesma velha repetitiva e enfadonha. Está em segundo lugar da lista dos mais tediosos de Hogwarts, depois do Binns, claro! Continue assim Pince, quem sabe ano que vem você se torne a campeã. – rebateu com o cenho franzido em uma clara indicação de que aquele não era um belo dia para entrar no caminho do rapaz, pois não estava custando nada ele lançar uma imperdoável em alguém. O rosto de Madame Pince contorceu-se em uma desagradável careta diante daquela falta de respeito, e ficou ainda pior quando a mulher pôde ouvir alguns risinhos abafados vindos de cantos diversos da biblioteca.
- Senhor Malfoy! – gritou ultrajada com as faces pálidas ganhando intensos tons de vermelho sangue e mais risadas soaram dentro do local fechado. Draco apenas deu seu patenteado sorriso escarninho e virou-se sob os pés, dando as costas a mulher antes que ela tivesse tempo de realmente assimilar tudo o que tinha acontecido nos últimos minutos, sumindo por entre as estantes da Seção Restrita. Com um olhar feroz para os alunos risonhos, Pince voltou a sua sala e lá ficou trancada até o jantar.
Enquanto isso, entre as estantes da Seção Restrita, Draco caminhava vagarosamente com os orbes cinza fixos nas espinhas dos livros velhos e empoeirados. Cruzou com um ou dois alunos do sétimo ano, que olharam para ele como boa parte dos bruxos jovens o olhavam, da mesma maneira que os mais velhos costumavam olhar para Dumbledore, como se ele fosse um Deus, um herói da humanidade.
Draco não era herói de nada e nem de ninguém e às vezes, mesmo que ele nunca admitisse, sentia medo. Medo de falhar com todos que contavam com ele, medo de desapontá-los. Cada vez que voltava de batalha e tinha que dizer a esposas ansiosas, mães preocupadas, filhos curiosos, que seu ente querido tinha perecido, sentia vontade de largar tudo, correr para o mais longe possível até que todos esquecessem que ele existia. Até esquecer tudo o que tinha acontecido. Mas não podia fazer isso, seu orgulho era maior que seu temor, sua vontade de vencer era maior que as suas inseguranças, sua máscara de indiferença conseguia suprimir esses pensamentos e fazê-lo seguir em frente, carregando meio mundo nas suas costas.
O rapaz parou entre duas grandes estantes mais ao fundo da biblioteca, olhando para a placa de identificação sobre uma delas. Criaturas das Trevas, era a seção onde ele estava. Franziu as sobrancelhas, pensativo. Até agora o que sabia daqueles seres? Eram feios, obviamente, tinham aversão à claridade e ao calor, visto que cada vez que atacavam as luzes sumiam e o local tendia a ficar frio. E, ponderou um pouco ao recordar o ataque, parecia que perto deles tudo ficava mais depressivo sem contar que Draco tinha certeza que quanto mais eles se aproximavam do Potter e de si, mais o loiro tinha a impressão de que velhas e desagradáveis memórias pareciam ressurgir de algum ponto obscuro da sua mente. Na verdade, agora que parava para analisar tudo sem ter suas idéias nubladas pela raiva que estava sentindo do Potter, pelo susto do ataque surpresa e pela adrenalina causada por causa de seu encontro com os trouxas, o loiro tinha a vaga sensação de que essas características lhe pareciam familiar.
Soltou um longo e sofrido suspiro. O que não daria para ter Lupin com ele neste momento. O homem era uma enciclopédia viva, com certeza sabia de cor todos os livros dessa biblioteca e mais alguns. Mas não, Potter resolveu bancar o demoniozinho mimado e manter seu comandante cativo, apenas para irritá-lo. Pois bem, que Potter ficasse com Lupin e que segurasse o tranco por causa de sua teimosia.
Irritado por ver tantos títulos que não lhe traziam nenhuma lembrança sobre as criaturas que o atacou, Draco espalmou a mão fortemente contra a estante, a fazendo balançar levemente nas bases e soltar uma pequena nuvem de poeira. Fechando os olhos o loiro percorreu os dedos pálidos por sobre os livros, como se quisesse ler seus títulos apenas com as pontas dos dedos. Parou em um livro qualquer e inspirou profundamente, o tirando de seu lugar, confiando na sorte para ver se ela lhe guiava para o caminho certo. Abriu novamente os olhos, os mirando na capa velha do livro: Vampiros, criatura das trevas ou mito? Leu na capa de couro e franziu a testa. Em que isso o ajudaria. Soltando um bufo por entre os dentes largou o livro sobre a mesa em frente a estante e abriu na primeira página, deslizando a ponta do dedo sobre o sumário, tentando buscar alguma elucidação nele.
- Vampiros são da Transilvânia ou Nova Iorque? Criaturas das trevas ou apenas mito? Origens Mitológicas, Nascimento e morte, Parentescos… - murmurava à medida que lia cada título de cada capítulo. – Semelhantes: Dementadores, vampiros ou aberrações da natureza? – parou curioso, aproximando mais o rosto do livro e relendo o subtítulo do capítulo sobre parentescos.
O que eram Dementadores? Observou melhor para ver em qual página que estava este capítulo e abriu nela, vendo que, na verdade, sobre o assunto só tinha mesmo um parágrafo. – Dementos, do latim, significa sugadores. Criaturas vis sem precedentes históricos, sem origens datadas e sem raça definida. Foram classificadas há quatrocentos anos como parentes de vampiros pela sua capacidade de sugar a vida alheia, com a diferença que em vez de sangue, eles se alimentam das almas e dos sentimentos depressivos dos humanos. Nunca mais foram vistos vagando por essas terras desde que os demônios fugiram do submundo onde foram aprisionados. – fechou o livro com um estalo, o encarando por longos minutos em silêncio.
Não havia descrição de como eles eram, por isso Draco não tinha tanta certeza se o trecho estava realmente falando das criaturas que o atacou na noite anterior. Porém, alguma coisa lhe dizia que eram elas, a falta de informação e o fato de lhe serem desconhecidas só o levava a esta conclusão. Contudo, agora que tinha uma vaga idéia do que elas eram, o que faria com isso? Ainda não dizia qual era a raça pertencente dos Dementadores, embora os associassem com os vampiros. Mas vampiros não era uma raça definida, eles eram mestiços como muitas outras espécies de Criaturas das Trevas dentro do mundo bruxo. E aquelas coisas não pareciam ser mestiços, nem pareciam ser criaturas vivas. Ainda pensativo, o rapaz colocou o livro de volta a estante e o ficou encarando por longos minutos, ignorando tudo ao seu redor.
- Malfoy? – o chamado o fez virar bruscamente e encarar com os olhos estreitos a pessoa que quase lhe dera um ataque do coração.
- Weasley. – sibilou para a figura de Ron parado na entrada do corredor formado pelas duas estantes. – O que quer? – resmungou, passando pelo ruivo e dando um encontrão no ombro dele, quase desequilibrando o outro rapaz.
- Educado como sempre, Malfoy. – rebateu o ex-grifinório, olhando com desprezo para o jovem loiro.
- Idiota como sempre, Weasley. – retrucou, continuando seu caminho pela biblioteca e usando toda a sua força de vontade para ignorar o rapaz que o seguia como um cachorrinho perdido. Para alguém que não gostava de si, Weasley realmente tinha a irritante mania de ficar o seguindo para cima e para baixo.
- Jordan e Goyle voltaram de onde quer que os tenha mandado, e querem falar com você. – informou enquanto seguia o loiro pelos corredores da escola, passando em frente às portas abertas do Salão Principal, onde os alunos começavam a se amontoar para o jantar. Draco parou abruptamente, mirando seus olhos cinzentos para dentro do salão, especificamente para a mesa dos professores que ficava no palanque um nível acima das mesas das casas. Todas as cadeiras estavam ocupadas, exceto por uma, a cadeira de Defesa Contras as Artes das Trevas. A cadeira do Lupin. Ver isso apenas piorou o humor do rapaz, que deu as costas para o salão e continuou seu caminho para as profundezas do castelo onde ficavam os seus aposentos.
- Escuta Weasley… – Draco parou abruptamente depois de descer o quarto lance de escada e perceber que Ron ainda o seguia. – Há alguma coisa que queira me dizer ou você sente um estranho prazer em seguir a minha adorável pessoa para cima e para baixo? – desdenhou, virando-se no último degrau perto do chão dos corredores das masmorras enquanto encarava Ron alguns degraus acima.
- Sobre o Remus, Malfoy. Que fim ele levou? Você ao menos sabe se ele ainda está vivo?
- Não faz nem quarenta e oito horas que o Lupin foi capturado Weasley, é óbvio que ele ainda está vivo. – rebateu irritado, já querendo se livrar daquela praga ruiva.
- Como você pode ter tanta certeza? – perguntou Ron desconfiado. Fazia tempos que andava com o pé atrás, mais que o normal, com o Malfoy. O loiro sabia muitas coisas sobre os demônios, informações que bruxos mais velhos e mais experientes não conseguiriam obter em anos. Sem contar que já testemunhara uma das famosas fugas noturnas de Draco, quando o rapaz resolvia sumir no meio da noite sem avisar para onde ia o que iria fazer. Ron já até comentara isso com Dumbledore, dizendo que era arriscado Malfoy sair assim, sem nenhuma proteção, mas tudo o que o velho bruxo tinha dado como resposta foi um sorriso e a certeza de que estava tudo bem. Mas o ruivo não se enganava fácil, seu sexto sentido lhe dizia que havia algo mais nessas escapadas.
- Lógica Weasley! Lupin é uma pessoa importante na cadeia de comando e com certeza os demônios descobriram isso. Então, acha mesmo que eles o matariam sem ao menos conseguir uma informação relevante antes?
- Então ele está sendo torturado enquanto você está aqui, com os pés para cima sem ao menos mandar uma equipe de busca atrás dele. – contestou. Remus havia sido seu professor na época de escola e ele tinha um grande apego pelo homem, muitos que estudaram com ele ou ainda estudam tinham um grande apego pelo bruxo e sentiam a sua falta, e estavam irritados porque até agora Malfoy não tinha feito nada para trazer Lupin de volta, o que apenas fazia o jovem líder cair ainda mais no conceito de muitos. Draco estava cavando a sua própria sepultura ao não fazer nada para resgatar alguém de tamanho carisma dentro da resistência.
- Ele não está sendo torturado, Weasley. – afirmou, dando as costas para o outro adolescente e terminando de descer as escadas, satisfeito ao perceber que não ouvia mais os barulhos dos passos pesados do ruivo o seguindo.
- Como você sabe disso? – Ron chamou em um grito, fazendo Draco parar no meio do caminho. Como ele sabia disso? Potter tinha lhe dito. Sabia que Potter não faria nada ao Remus e que só o manteria com ele por prazer em ver Draco fumegar de ódio. Talvez o demônio tentasse tirar uma informação ou outra, mas acabaria não conseguindo nada e o devolveria quando se cansasse desse joguinho que inventou. Contudo, o loiro não podia dizer isso ao Weasley, não sem revelar a ele o quão bem conhecia o líder dos demônios e compreendia o que se passava naquela mente. Isso sim seria a sua condenação. Não o fato de que ele estava se associando com o Potter e o encontrando as escondidas para trocar informações, mas o fato de que eles… Sacudiu a cabeça, não querendo pensar nisso. Eles tinham um acordo, um acordo que Harry quase quebrou na noite passada. Suspirando pesadamente, o loiro virou-se para poder encarar Ron novamente.
- Não preciso lhe dar satisfações Weasley. E quanto ao grupo de busca. Para onde eu mandaria, heim? Acha, realmente, que eu já não tentei rastrear o Lupin? Ele está em um ponto onde a minha magia não consegue localizá-lo. – resmungou. Cada vez que um novo bruxo subia ao posto de líder, ele tinha a sua magia sempre conectada aos integrantes do alto escalão da resistência, pois esses sempre eram os primeiros alvos do inimigo, e tal condição também foi imposta a Draco quando ele assumiu a liderança do seu povo. - Por isso, não me amole. Não vou arriscar um grupamento inteiro por causa de um homem. – Ron eriçou-se ao ouvir o descaso na voz de Draco. Como ele poderia deixar Remus para trás? Dumbledore nunca deixava ninguém para trás. Esse garoto não seria a salvação do povo deles, seria a sua ruína. – Não me olhe com essa cara anormalmente feia, Weasley. Lupin, melhor do que ninguém, sabe que eu agiria assim se isso acontecesse. E creio que ele não deve nem estar esperando um resgate. Por isso, conforme-se. E mande Goyle e Jordan aos meus aposentos. – e deu as costas novamente ao rapaz, sumindo o mais rápido possível antes que Ron explodisse de raiva e começasse uma discussão inútil, agravando ainda mais a enxaqueca que começava a surgir em sua cabeça.
Rolou sobre a cama dura e piscou os olhos lentamente, os abrindo para ser cumprimentado pela fraca luz que vinha do único lampião dentro do quarto. Soltou um baixo gemido ao sentir todos os músculos de seu corpo repuxarem e retorcerem enquanto os seus ossos estalavam sob a sua pele. Sentia como se tivesse encarado uma manada de hipogrifos enlouquecidos. Virou-se de bruços, espalmando ambas as mãos sobre o colchão cheio de calombos e impulsionando o corpo para assim se levantar, apoiando um joelho na cama e depois o outro, sentando-se sobre as pernas e observando a sua volta. Sua cabeça latejava por causa de uma enjoada enxaqueca e fios castanhos do cabelo caíam irritantemente sobre os seus olhos, o fazendo tirá-los do caminho a força, quase os arrancando do couro cabeludo.
- Que buraco é esse? – murmurou baixinho ao conseguir distinguir entre as sombras o tamanho do cubículo onde estava preso. Lentamente ergueu-se da cama, tateando suas roupas sujas e rasgadas à procura de sua varinha e, surpresa, surpresa, não encontrando nada.
Era prisioneiro, podia sentir isso, seus sentidos o alertavam do perigo iminente e ele estava começando a gostar menos ainda daquele lugar. Caminhou arrastando os pés até a porta de entrada e tentou movê-la para somente atestar que estava trancada e era pesada o suficiente para impedi-lo de promover qualquer espécie de fuga. Voltou para onde estava a pequena e velha cama e sentou-se pesadamente sobre ela, ouvindo com desagrado a armação de ferro ranger dolorosamente sob si. Apoio os cotovelos sobre os joelhos e repousou a cabeça sobre as mãos abertas, encarando a porta de ferro fixamente, pensando no que fazer.
Sabia que não era prisioneiro dos trouxas, mas a última coisa que se lembrava era de um demônio o atacando e então ele estava aqui. Também sabia que se era prisioneiro de Harry Potter, aqui ficaria por um bom tempo e que Draco nada faria para salvá-lo. Não por opção do jovem loiro, claro, mas por sua mesmo. Remus o havia feito prometer que se isto um dia acontecesse que o rapaz não desperdiçasse homens atrás dele. Não precisa dizer que tal pedido deixou o ex-sonserino possesso diante de tamanho absurdo, mas no fim ele acabou concordando.
- Vejo que finalmente acordou. – Remus piscou assustado ao ver que a porta agora tinha se convertido de uma massa sólida para algo com grades e por detrás dela estava à mesma figura que o capturara acompanhado pelo famigerado Harry Potter. Rapidamente franziu as sobrancelhas e torceu o rosto em uma expressão contrariada, erguendo-se e caminhando em direção a entrada, mas não se aproximando o suficiente para ficar ao alcance dos braços dos dois demônios.
- Potter e… - virou-se com desinteresse olhando o outro demônio de cima a baixo. Ele era muito mais alto que si e parecia do tipo que atacava primeiro e perguntava depois, ainda mais que os olhos azuis possuíam um brilho que era uma mistura de selvageria com divertimento.
- Sirius Black. – respondeu o demônio desconhecido e Remus alargou um pouco os olhos. Então este era o famoso braço direito do Potter? Pensava que ele fosse… mais velho. Mas o que o encarava na verdade era o rosto jovial de um homem que não aparentava ter mais do que trinta anos, mas que com certeza tinha muito mais do que isso.
- Estou curioso. – Harry aproximou-se das barras de ferro e recostou-se no batente da porta, cruzando os braços displicente e inspirando profundamente, ficando em silêncio por alguns segundos antes de continuar. – Malfoy exigiu que eu o devolvesse. – disse e ignorou o olhar surpreso que Sirius lhe lançou. Quando foi que o bruxo tinha contatado seu afilhado sobre o prisioneiro? E quando foi que Harry encontrou o loiro para discutir acordos de soltura? – Mas, obviamente, eu neguei. – respondeu com um sorriso maroto e Remus ergueu apenas uma sobrancelha com a expressão impassível. Draco tinha se arriscado dessa maneira para poder libertá-lo? Por quê? – Porém! – Harry fez um gesto largo e teatral, assustando Lupin que ainda estava divagando sobre o líder bruxo que arriscou a sua vida pela dele. – Malfoy me disse que por causa da minha teimosia eu teria que agüentar as conseqüências e é isso que me intriga. – o demônio aproximou-se da grade e segurou firmemente as barras com ambas as mãos, os olhos estreitando-se sob a pouca luz do corredor o que os fazia ficar mais escuros do que normalmente eram. Instintivamente Remus recuou um passo. – Que conseqüências são essas Sr. Lupin? – perguntou educadamente e ao lado dele Sirius soltou um rosnado entre os dentes.
Harry sempre era educado com os prisioneiros, coisa que com certeza herdou de Lily. A mulher detestava grosserias, com que quer que fosse, e fez de tudo para transmitir isso ao filho para ele não ficar parecido, e nisso Sirius citava a falecida ruiva, com o selvagem do meu marido. Era o que ela sempre dizia com um sorriso ameaçando surgir nos lábios vermelhos.
- Sr. Potter. – finalmente Remus abriu a boca para dizer alguma coisa. – Aprendi com os anos que dizer as nossas fraquezas ao inimigo é uma jogada arriscada. – comentou polido, voltando-se para a cama e sentando-se levemente sobre o colchão velho, encarando os dois demônios através da grade com olhos firmes e expressão impassível. – E como sei que ficarei um bom tempo por aqui, vocês acabarão descobrindo mais cedo ou mais tarde.
- Que tal mais cedo? – Sirius comentou grosseiro, estalando os dedos e mostrando as garras perigosamente para um Remus inabalado. Harry rolou os olhos. O padrinho sempre fora um sujeito impaciente, para não dizer extremamente curioso. Com certeza ele estava doido para saber qual era o tal segredo de Lupin o qual Draco havia mencionado. Porém, como ele havia desconfiado, Remus não era o tipo de homem que soltava informações importantes mesmo sob ameaças ou torturas e como ele próprio dissera, era somente eles esperarem para saber o que realmente estava acontecendo.
- Depende. – continuou o bruxo, fixando seus olhos castanhos nos azulados do demônio, prendendo-se neles por longos segundos. Sirius recolheu as garras, afastando-se um pouco das grades, incomodado por estar sob aquele olhar. Parecia que Remus estava tentando ler a sua alma… e conseguindo, e isso amedrontava um pouco o demônio. A última pessoa que ele conheceu que tentava sempre avaliá-lo dessa maneira foi James, que com o seu olhar escuro parecia compreendê-lo mais do que qualquer outra criatura no mundo. Contudo, James apenas o deixava inquieto por seus segredos estarem sendo revelados, este homem, diferente de seu falecido amigo, realmente o perturbava. – De que horas são. – disse calmamente, virando-se para olhar um ponto qualquer na parede mofada. Sirius e Harry entreolharam-se, não entendo o pedido do homem, mas mesmo assim acataram quando o demônio mais jovem puxou de dentro do bolso um velho relógio de ouro que fora presente de seu avô.
- Cinco minutos para as sete. – respondeu e Remus deu um aceno positivo de cabeça. Então, estava quase escurecendo e, pelas suas contas, esta noite era a noite. – Por quê? – prosseguiu Harry. O bruxo não estava soltando muitas informações importantes, mas se ele soubesse guiar a conversa de maneira certa conseguiria algumas pistas e respostas para as suas dúvidas, mas, principalmente, mais um motivo para arrumar um encontro com o Malfoy. Estava ficando sem desculpas ultimamente para poder ver o loiro. Entretanto Remus permaneceu calado em uma clara indicação de que a conversa havia terminado, não olhando para os dois demônios na porta por nada deste mundo, os ignorando como se eles não estivessem lá.
- Hei! – Sirius gritou irritado pela indiferença do homem, como se Harry e ele não fossem bons o suficiente para merecer a atenção do bruxo. – Harry te fez uma pergunta. – rosnou enfurecido e Harry resolveu que era hora de intervir antes que o padrinho partisse para a violência por causa da sua impaciência. Depositando uma mão sobre o braço largo do homem, Potter deu um aceno negativo de cabeça para Black dizendo claramente que não era para ele se exaltar por causa disso.
- Se assim deseja Sr. Lupin. Nos veremos mais tarde então. – afastou-se das barras, trazendo Sirius consigo e com um movimento de mão elas solidificaram-se novamente transformando-se em uma porta plana de madeira. Remus voltou-se para a porta fechada que tornou o quarto novamente escurecido, e soltou um longo suspiro, retirando metodicamente a sua capa de bruxo a e dobrando com cuidado sobre a cama. Item por item ele foi retirando as suas peças de roupas até que quando estava nu caminhou até o centro do quarto, sentando-se no chão frio de pedra e pondo-se a esperar.
Atrás de um largo monte ao fim de Godric's Hollow a lua cheia e brilhante erguia-se imponente no céu, com os seus raios começando a iluminar os caminhos de poucas luzes artificiais. Dentro de seu quarto Remus sentiu a primeira espetada de dor sob a pele, como se os seus músculos estivessem se retesando. Logo depois uma nova onda de dor transpassou o seu corpo. Ossos estalavam enquanto pêlos grossos e castanhos brotavam dos poros da pele pálida. Olhos amêndoas escureciam de forma a demonstrar que o homem que um dia existiu estava dando lugar a uma besta. Um urro de dor passou por entre os lábios finos antes do rosto alongar-se em um focinho afilado. Mãos transformavam-se em peludas patas, uma cauda surgia na base das costas de Remus enquanto as unhas cresciam tornando-se perigosas garras. Quando a lua terminou de posicionar-se no céu, um lobo grande e castanho sentou-se no meio do quarto e jogou a cabeça para trás, soltando um longo e sofrido uivo.
Na saída do corredor, Harry e Sirius estacaram ao ouvir o som animalesco vindo do quarto do prisioneiro e com um virar rápido de corpo ambos voltaram correndo pelo caminho do qual vieram. Rapidamente Potter parou em frente a porta, detectando um cheiro que antes não estava naquele quarto. Ainda era o cheiro de Lupin, mas com certeza tinha algo de extremamente diferente na essência que passava pelas frestas da madeira. Era um cheiro que comumente se era sentido nos demônios.
Olhando para Sirius com uma expressão curiosa, Harry perguntou-se se o padrinho tinha percebido a mesma coisa e viu a resposta rapidamente no franzir de sobrancelhas do homem mais velho. Hesitante ergueu a mão, pensando se deveria fazer isso ou não. Seu sexto sentido lhe dizia que o que ele encontraria do outro lado da porta era apenas perigo, mas a sua curiosidade o cutucava pedindo que ele continuasse. Resoluto acenou de maneira displicente e transformou novamente a porta em barras de ferro, apenas para poder ver, sentado e imponente no centro do quarto como se fosse dono do local, o que parecia ser Remus Lupin.
- Bem, acho que está respondida a nossa pergunta. – murmurou quando ouviu um rosnado feroz vir de dentro do aposento. – Feliz agora, Black? – comentou irritado, pois agora ele via que um prisioneiro desse porte apenas lhe traria problemas com os outros demônios. Afinal, eles não gostariam de saber que dentro de sua casa estava sendo guardado um mestiço que eles consideravam da pior espécie. Com certeza, agora, Harry teria uma extrema dor de cabeça porque seu padrinho lhe fizera o favor de capturar um lobisomem.
