NA: Valeu Dana Norram por betar este capítulo.

Capítulo 4

Briga de Cachorro Grande

- Nada? – Draco murmurou, andando de um lado para o outro dentro da sala de conferência, parando apenas por alguns segundos para pensar uma coisa ou outra e depois, voltar a andar. Lee Jordan e Gregory Goyle apenas observavam o passear de seu líder em silêncio, esperando que o rapaz processasse o que eles tinham acabado de dizer. Ambos haviam rodado por todos os pontos de referência do mundo mágico, penetrado estrategicamente em alguns lugares trouxas e arriscando-se incrivelmente em territórios demoníacos, mas poucas coisas conseguiram descobrir sobre e tal ameaça oculta da qual Draco falara. Lee por muitas vezes tinha resmungado que o loiro estava ficando senil na tenra idade, ganhando um olhar irritado de Gregory que tentava, ao mesmo tempo, suprimir uma risada.

Goyle conhecia Draco desde que este era bebê, embora não houvesse uma grande diferença de idade entre os dois. Talvez o homem mais alto e troncudo fosse somente um ano mais velho que o jovem Malfoy, mas, mesmo assim, desde pequeno tinha prometido a si mesmo e ao pai do rapaz que cuidaria dele. Não poderia dizer que eram grandes amigos, já que para isso precisava mais do que confiança, mas sim uma grande intimidade. Porém, Draco não confessava seus medos, anseios e pensamentos a ele, como amigos faziam. Se bem que, Draco não confessava nada a ninguém, guardando tudo dentro de si. Contudo, ele não podia dizer que a relação deles era ruim. Estudaram juntos em Hogwarts, em anos diferentes claro, mas se esbarraram por muitas vezes na sala comunal da Sonserina e nos treinos do time de Quadribol. Eram dois rapazes calados e reservados que gostavam de fazer companhia um ao outro de vez enquanto, nada de anormal.

No entanto, com Lee, o caso era diferente. Lee fora um grifinório, melhor amigo dos gêmeos Weasley, que, milagrosamente, eram neutros sobre o assunto de Draco merecer ou não a posição de líder dos bruxos, mas, mesmo assim, o rapaz ainda tinha aquela coisa toda de coragem e lealdade que o fazia muitas vezes questionar as decisões do ex-sonserino. Mas, ao mesmo tempo que Jordan questionava as decisões, enchia a boca para dizer que era um dos espiões mais requisitados por Draco. Uma controvérsia para alguém que achava que o loiro nunca chegaria aos pés de Dumbledore.

- A única coisa que descobrimos foram alguns relatos estranhos, mais nada. – Jordan deu de ombros. – Se ao menos você nos dissesse o que estamos procurando. – Draco parou de perambular e virou-se bruscamente em direção ao rapaz mais velho, comprimindo os lábios firmemente em uma expressão de desagrado. Ele mesmo não fazia a mínima idéia do que procuravam e tudo o que tinha como pista era uma maldita visão que Potter teve.

- Nenhum movimento suspeito? Você disse que ouviu relatos estranhos. – inquiriu firmemente e Lee e Gregory se entreolharam, antes do homem mais novo dar um passo a frente e encarar Malfoy com a sua expressão eternamente carrancuda e séria.

- Ouvimos umas histórias ao redor de Little Hangleton. Bruxos desaparecidos, carcaças de alguns demônios de baixa classe aparecendo na floresta ao redor da pequena cidade. Sinceramente não considero tal informação relevante. O vilarejo é extremamente isolado de qualquer outro centro urbano onde já ocorreu alguma batalha e eu não duvido nada que poucos saibam sobre a guerra naquele lugar. Acho que apenas estão fazendo um alarde diante dessa mudança em sua rotina. – comentou Goyle em um tom monocórdio.

- Você disse Little Hangleton? – Draco perguntou e Gregory acenou com a cabeça, observando o rapaz caminhar até a pilha de mapas que estava sobre a mesa de reuniões, desenrolando um grande e antigo mapa da Inglaterra. – O vilarejo não está marcado como território bruxo, na verdade ele é um território não demarcado. Fica num buraco, não é estratégico, não serve para nada. Não é classificado como território puramente mágico. Isso quer dizer que é uma cidade trouxa. – desviou os olhos do mapa para poder encarar seus dois espiões que assentiram positivamente com a cabeça, não entendendo onde Malfoy queria chegar. – Então, como foi que bruxos desapareceram na região?

- Eles viviam entre os trouxas. Eram renegados. – explicou Lee e Draco fez um meneio com a cabeça, agora entendendo a situação. Bruxos renegados eram aqueles que eram fortemente contra a guerra e se recusavam a ter qualquer participação nela, por mais que desprezassem os demônios e fossem indiferentes aos trouxas. Preferiam viver no exílio e por isso costumavam refugiar-se em cidadezinhas que não oferecessem nenhum risco de se tornar território de qualquer um dos povos.

- Tem certeza que não foram os próprios trouxas que deram cabo desses bruxos? – perguntou desconfiado e Lee deu uma negativa com a cabeça.

- Não sabiam que eram bruxos, descobrimos por causa de pequenos detalhes ao visitarmos as famílias dos desaparecidos. Desconfiam que foi algum demônio que estivesse rondando pela floresta do lugar. – Jordan soltou uma risadinha de escárnio. – Mas eu duvido. Aquele lugar é ponto próximo ao fim do mundo e precisaria de muito mais que um demônio de baixa classe para dar cabo de algum bruxo.

- Sem contar que eles vivem da caça. Ouvimos alguns caçadores reclamarem que os animais estavam sumindo da floresta. – completou Goyle e Draco soltou um bufo entre os dentes, mirando-os ferozmente com seus olhos cinzentos.

- Vocês dois são os espiões mais incompetentes com que eu já tive o desprazer de trabalhar. – ralhou em um tom de desprezo e os dois homens recuaram espantados diante dessa atitude do loiro. Por todo o tempo em que trabalharam sob as ordens do rapaz eles nunca deram motivos ao mesmo de serem repreendidos. Então, o que tinham feito de errado? – Se na floresta a única coisa que tinha eram demônios de baixa classe e esses estão mortos, não deve ter mais demônios lá para fazer desaparecer nenhum bruxo. E vocês disseram que animais estão desaparecendo. Animais não fogem nem mesmo na presença de demônios de classe A. Isso só pode significar uma coisa…

- Que o que quer que esteja causando essa mudança no ambiente de Little Hangleton é muito maior e muito mais perigoso do que possamos imaginar. – completou Goyle, rolando os olhos ao perceber o quão estúpidos eles foram.

- Droga! – resmungou Lee ao chegar à mesma conclusão do outro rapaz. – Se é assim nós podemos voltar… - sugeriu o ex-grifinório, ansioso em consertar o seu erro, mas um gesto de Draco o fez ficar quieto.

- Não! No momento não seria prudente. Até porque sabemos da presença de alguém estranho naquela área, mas não sabemos o que é. De mais a mais, pode ser qualquer coisa. Um demônio errante, um bruxo doido que resolveu pregar uma peça, uma armadilha, qualquer coisa. Eu vou mandar… - Draco passou a mão pelos cabelos, um pouco indeciso. Não poderia mandar Jordan e Goyle novamente ao vilarejo, já que os rostos deles poderiam ter sido marcados por algum habitante mais atencioso. Precisaria de alguém para montar posto na cidade e passar o mais despercebido possível. Alguém que não daria pinta de bruxo, que não levantaria suspeitas como forasteiro. Alguém como… - Vou mandar Longobottom como homem de base.

- Longbottom? – Gregory soltou um grunhido de desprezo. Longobottom era a criatura mais atrapalhada que conhecera e o homem se perguntava como é que ele tinha conseguido viver por tanto tempo. Certo que tinha um vasto conhecimento, coisas que aprendeu com os pais, mas mesmo assim uma missão de infiltração era algo muito grande e muito complicado para um simples aprendiz de Herbologia.

- Tem certeza? – indagou Lee. Não que não achasse a proposta de Draco de toda ruim. Sabia que por meses, desde que entrara na resistência, Neville estava procurando um modo de provar o seu valor. Mas, no momento, ele não deveria estar com cabeça para isso diante da morte recente da mãe e do estado de saúde inconstante do pai. – A Sra. Longbottom foi enterrada ontem e eu não acredito que Neville esteja com cabeça para voltar a ativa. Ele pode cometer um erro grave.

- Quando é que ele não está cometendo erros? – desdenhou Goyle. O garoto era um desastre sobre duas pernas.

- Longbottom sempre está me pedindo uma chance, e agora eu vou dar a ele. – concluiu Draco em um tom sério e Lee franziu a testa em desagrado. O que Malfoy queria? Enviar o pobre ex-grifinório para a morte? Neville ainda estava sofrendo pela mãe e andava mais desligado do mundo que o normal e isso acabaria o matando.

- Malfoy… - ele tentou argumentar, mas Draco o cortou bruscamente.

- Dispensados. – ordenou, dando as costas para os dois espiões. – E mande o Longbottom vir falar comigo. – pediu com os olhos fixos nos mapas sobre a mesa, não vendo o aceno positivo de cabeça que Goyle deu ou a hesitação de Lee de sair da sala. Assim que ouviu o clique da porta se fechando o loiro relaxou os ombros, dando um relance por cima de um deles para certificar-se de que estava realmente sozinho. Cansado, deixou seu corpo cair sobre uma das cadeiras da sala de reuniões e cruzou os braços sobre a mesa, repousando a cabeça entre eles.

Estava ficando cansado. Será que era uma má hora para largar tudo para trás? De certo modo gostava do cargo a qual fora confiado. Gostava de estar no "topo do mundo", por assim dizer. Mas, por outro lado, às vezes, sentia que o que fazia era errado. Ele só tinha dezoito anos, por Deus, idade em que muitos garotos como ele não saberiam escolher direito o que queriam para a vida.

Soltou um resmungo. Seu pai com certeza ficaria orgulhoso ao vê-lo em tal posição. Mas a sua mãe, ele podia pintar claramente o belo rosto dela contorcido em uma feia expressão de desagrado ao ver seu bebê em tal situação.

Afundou a cabeça ainda mais sobre os braços cruzados, soltando um bocejo abafado. Fazia dois dias que não conseguia dormir direito, sempre tirando um cochilo aqui e acolá quando sobrava algum tempo. O ataque em Londres ainda enchendo a sua cabeça assim como o seqüestro de Remus e a teimosia de Potter em mantê-lo cativo. Às vezes tinha vontade de jogar todas essas porcarias de estratégias e treinamento de guerra e juntar um esquadrão e invadir a Mansão Potter em missão de resgate, só por teimosia. Ou então mandar Granger e seus amiguinhos trouxas por inferno e pedir para que eles não o amolassem mais.

Mas não podia fazer isso, não podia ser espontâneo e irresponsável. Afinal, ele era…

- O responsável pela segurança e sobrevivência de uma sociedade inteira. – resmungou com uma voz em falsete por entre os braços, dando um outro longo bocejo ao relembrar do discurso que Dumbledore havia feito a ele quando assumiu o cargo de chefia da Ordem da Fênix.

Sentindo todos os músculos doerem por causa das últimas batalhas, Draco permitiu que os olhos fechassem lentamente, deixando seu corpo relaxar mais ainda sobre a mesa. Talvez não fosse de todo mal tirar um cochilo agora. Pensou segundos antes de adormecer sobre mapas e mais mapas da Inglaterra.


Remus jogou a cabeça novamente para trás, soltando um longo e grave uivo e depois mirando os dois demônios do outro lado das barras. Um rosnado passou por entre os caninos afiados e rapidamente o grande animal correu em direção a porta, chocando-se violentamente contra as barras e as fazendo vibrar intensamente. Harry e Sirius recuaram diante dessa investida do lobisomem, tentando ficar o mais longe o possível das garras mortais que passavam entre as frestas e tentavam alcançá-los.

- Você – Potter virou-se para o padrinho, dando um sonoro tapa na cabeça do demônio mais velho. – é a criatura mais idiota que eu já conheci. Olha a confusão que foi me arrumar! – ralhou, vendo o rosto de Black contorcer-se em várias expressões diferentes. Primeiro surpresa por causa do aparecimento do lobisomem, depois raiva por causa do tapa de Harry e, por fim, nojo. Eles estavam com um mestiço como prisioneiro e tal espécie não era muito bem vinda em nenhum dos mundos. Ainda mais lobisomens que, assim como vampiros, podiam passar a sua maldição de maneira irrefreável.

Não se sabia muito bem de onde essa criatura surgira. Lendas diziam que era resultado de uma maldição lançada por bruxos antigos sobre o filho de uma jovem que infelizmente envolveu-se com um demônio canino que acabou a abandonando. Nisso surgiu esse meio humano, meio demônio, que somente aparecia nas luas cheias. Os demônios não os aceitavam por causa de sua fraqueza humana nos outros dias que não eram de lua. Os trouxas morriam de medo deles e os bruxos os consideravam uma aberração. Aqueles que eram mordidos, bruxos ou trouxas, estavam condenados ao exílio e poucos eram aqueles que tinham sorte de serem acolhidos por seu povo.

- Eu voto em devolvê-lo ao Malfoy. – Sirius rosnou irritado ainda mais quando o lobisomem novamente se lançou contra as grades em uma clara indicação que não estava gostando nada, nada de estar preso naquele cubículo.

- E eu voto em você ficar aqui vigiando e não deixar ninguém se aproximar. Com certeza a casa inteira ouviu os uivos e se os outros souberem… - Harry fez um gesto largo com as mãos. Se os outros demônios soubessem o que estava escondido nas profundezas da mansão com certeza iriam querer esfolar Remus vivo por tal abominação ter infectado seu lar.

- E eu voto em deixar os outros lidarem com ele. Admito que não foi um movimento esperto seqüestrá-lo, mas acontece que não estava escrito na testa dele lobisomem. Sinceramente, os bruxos deveriam marcar esses mestiços e catalogá-los, não deixá-los soltos por aí! – comentou com extremo desdém, dando outro olhar enojado ao lobo que soltou um perigoso rosnado como se tivesse compreendido a ofensa proferida por Sirius.

- Certo… - Harry respondeu longamente, rolando os olhos. O desprezo do padrinho pelo mestiço estava sobrepondo-se o raciocínio dele. – Deixemos os outros matá-lo e você vai encarar um Malfoy furioso quando este souber que o comandante dele não está mais vivo.

- E qual é o problema. Não é como se aquele fedelho pudesse fazer tanto estrago. – resmungou Sirius e Harry deu um sorriso enviesado. Black nunca tinha lutado com Malfoy, ou mesmo Dumbledore, diretamente, no máximo batalhou com os seus subordinados mais poderosos, então o demônio não fazia a mínima idéia do tamanho do estrago que o garoto poderia fazer e não seria Harry a contar. Afinal, seu orgulho não permitia ficar dizendo por aí que Draco quase o derrotou uma vez.

- Sirius, não reclama! – ordenou já ouvindo com sua audição apurada o barulho dos passos vindo em direção a onde eles estavam, com certeza atraídos pelos uivos do lobisomem. – Apenas – fez um gesto firme com as mãos, apontando as palmas para o chão. – fique aqui. – concluiu entre dentes, correndo em direção a saída para impedir que o primeiro demônio, cuja sombra passava por debaixo da porta do corredor, entrasse.

- Fique aqui, fique aqui. – resmungou Sirius, vendo o afilhado sumir pela porta no fim do corredor. Outro balançar das grades chamou a atenção do demônio para o atual problema deles: o lobisomem que rosnava e se debatia dentro da cela. – Você quer ficar quieto, mestiço infeliz! – ordenou com uma voz firme e num passe de mágica Remus parou de fazer estardalhaço, piscando intensos olhos castanhos e mirando Sirius por um longo tempo. Black também piscou surpreso por sua ordem ter sido atendida. Lobisomens, todos sabiam, eram criaturas irracionais. Quando se transformavam perdiam toda e qualquer humanidade, podendo atacar qualquer um, desde melhores amigos a parentes. Não gostavam de serem aprisionados e menos ainda de receber ordens. No entanto cá estava esse lobo, que no momento rodava em círculos dentro do pequeno quarto, quieto por causa de um simples comando de Sirius.

O demônio deu um sorriso enviesado, coçando o queixo com a barba por fazer, pensando no próximo passo e o quão arriscado ele seria. Não temia ser mordido, pois era um demônio sangue puro e a sua energia demoníaca iria sobrepor-se a qualquer maldição que os fracos humanos não conseguiam. Contudo, entrar em uma briga de garras poderia ser bem doloroso, ainda mais que Lupin parecia ter unhas bem afiadas. Mirou seus olhos azuis na porta do corredor que estava fechada e apurou os ouvidos em busca de qualquer barulho. Nada. Com certeza Harry havia conseguido afastar qualquer intruso e somente os Deuses saberiam dizer quando ele iria voltar.

- Hei! – gritou, chamando a atenção do lobisomem que parou de rodar de um lado para o outro na cela, fixando seus orbes castanhos no homem do outro lado da barra, esperando algum movimento dele. Elegantemente sentou-se nas patas traseiras e Sirius poderia jurar que o animal o estava desafiando com o olhar. Se sentido extremamente aventureiro, ainda mais que estava ficando entediado, Black com um gesto de mão desmanchou as barras, entrando na cela vagarosamente sem tirar os olhos do lobo que o esperava de maneira majestosa. Agora sim iria testar qual era deste mestiço que ousava mostrar o canino para ele em uma ameaça territorial. – Vamos ver do que você é feito, mestiço. – desdenhou maldosamente e deixou o seu corpo relaxar em ir mudando aos poucos em frente aos olhos atentos de Lupin.

Braços e pernas transformaram-se em patas, pêlos negros começaram a espalhar-se pelo corpo forte enquanto pontudas orelhas felpudas despontavam no topo da cabeça ao mesmo tempo em que um focinho arredondado surgia no rosto de Sirius. Aos poucos a energia foi retrocedendo para dar lugar a um grande e magnífico lobo negro que, assim como Remus depois da transformação, jogou a cabeça para trás e soltou um longo e amedrontador uivo. Em algum lugar da mansão Harry soltou um gemido frustrado ao ouvir o uivo ao longe, o reconhecendo imediatamente. Não queria nem pensar no que o seu padrinho estava aprontando com o prisioneiro, pois sabia que isso só faria a sua cabeça doer mais ainda.

Sirius balançou as orelhas negras, colocando lentamente uma pata em frente à outra, quase hesitante em andar. A cabeça baixa mostrava que o demônio estava na defensiva, esperando qualquer reação de seu rival. Remus ergueu-se lentamente, adotando uma postura igual à de Sirius. A cauda castanha e peluda balançava vagarosamente atrás de seu corpo enquanto ele dava mais um passo a frente, diminuindo a distância entre eles. Um rosnado passou por entre os dentes do lobisomem e isso foi sinal suficiente para Black atacar.

Com um pulo ambos encontraram-se no meio do ar, caindo no chão pesadamente com uma mistura de patas, dentes e rosnados. Remus mordeu fortemente Sirius pela nuca, não parecendo abalado pelo outro lobo ser muito maior que ele, e jogou o demônio violentamente contra a parede oposta. Black soltou um pequeno ganido de dor e abaixou-se quando viu Lupin vir em sua direção. Diferente do lobisomem, Black ainda possuía todas as suas faculdades mentais na forma de lobo, podendo facilmente montar estratégias de ataque, diferente de Remus que agia por instinto. Entretanto, quando Lupin lhe deu uma patada que causou três cortes doloridos em seu focinho, toda a racionalidade de Sirius foi as favas.

Rosnando como uma besta enfurecida, o demônio partiu para cima do lobisomem, mordendo a pata direita traseira e o arrastando pelo chão do quarto. Rapidamente Remus enterrou as suas garras dianteiras nas pedras do piso, fixando-se no lugar. Se pudesse, Sirius sorriria diante da teimosia daquele mestiço. Ele era mais duro na queda do que tinha pensado e ficava feliz de saber que não tinha cometido uma besteira por completo. Realmente o cheiro que ele havia sentido no campo de batalha era de um bruxo promissor, e Lupin estava se mostrando alguém duro de derrubar. Sentindo a energia da batalha apoderar-se de si, Black mordeu com mais força, arrancando um ganido de dor do lobisomem que fincou mais ainda as garras no chão para não se mover. Uma cauda castanha mexeu-se fortemente no ar, acertando o focinho do demônio que, surpreso, largou a pata do outro animal.

Lupin não ficou muito tempo avaliando o estrago em sua pata que agora sangrava fortemente por causa da mordida, ao invés disso soltou um grunhido enfurecido e partiu para cima de Black, ocasionando um rolar de corpos pelo chão, mais mordidas e arranhões. Furiosamente, ele mordeu o pescoço do demônio, cravando as suas garras no dorso do mesmo e fazendo Sirius emitir um grito de dor. Com força o lançou contra as barras e adotou uma postura ofensiva, esperando qualquer movimento do corpo caído do outro lado do quarto. Sentindo os músculos doloridos, Black ergueu-se vagarosamente, virando-se para Remus apenas para ver dois orbes castanhos brilhando em um canto escuro da cela. Soltou um rosnado ameaçador e estava pronto para pular pra outro ataque quando sentiu poderosos caninos o puxarem pela nuca e o tirar de dentro do quarto. Foi jogado novamente contra a parede a tempo de ver o lobisomem chocar-se contra as barras de ferro que terminavam de se solidificar em uma porta.

Olhos azuis piscaram surpresos apenas para se verem mirados por furiosos olhos verdes. Um outro lobo negro estava em frente à Sirius, os pêlos das costas eriçados em uma clara indicação de que a situação não era das mais favoráveis para o demônio ainda caído no chão. Brancos e perigosos caninos estavam expostos para o lobo caído que tentou colocar a melhor das suas expressões de inocente no focinho longo.

- Eu não te deixei sozinho nem por cinco minutos e você me apronta essa! – a voz de Harry ecoou no corredor quando o lobo deu lugar ao homem. Atrás dele Remus rosnava e arranhava a porta da cela, com certeza ainda disposto a continuar a briga. – O que eu falei para não fazer nenhum mal ao Lupin? Por acaso está ficando surdo com a idade, Black? – o tom autoritário fez Sirius rapidamente perceber que o homem fumegando na sua frente não era o seu adorado afilhado, mas sim o líder dos demônios, aquele que era temido por todas as raças deste planeta. Aquele que, apesar de tudo, Sirius devia respeito. Voltando a sua forma humana, Black abaixou a cabeça envergonhado por ter desapontado o seu líder e sentiu todos os seus músculos protestarem por causa dessa brincadeira de brigar com o lobisomem.

- Me desculpe… mas é que eu estava entediado. – tentou explicar-se e encolheu os ombros quando ouviu Harry soltar um sibilo raivoso por entre os dentes. O rapaz às vezes não entendia quem era o pai e quem era o filho nessa relação deturpada deles dois.

- Eu preciso de folga. – soltou um suspiro, passando as mãos pelos rebeldes cabelos negros. – E você! – apontou ferozmente para o padrinho como se estivesse falando com uma criança de sete anos levada. – Vai ver um curandeiro para dar jeito nessas feridas e a partir de agora fique longe do Lupin! – ordenou, dando a meia volta e cruzando o corredor a passos largos. Ele realmente precisava sair dali, aquela casa já o estava sufocando. As perguntas dos outros demônios sobre o barulho que ouvira lhe deixaram com a cabeça pesada e as atitudes infantis de Sirius apenas faziam o seu temperamento extremamente instável borbulhar ainda mais.

Assim que pôs os pés para fora da mansão Harry novamente assumiu a sua forma de lobo e sumiu por entre os grossos troncos da floresta de Godric's Hollow, não planejando voltar tão cedo para casa.


- Malfoy? Malfoy! – Draco soltou um resmungo entre os braços sem abrir os olhos, erguendo uma mão para poder estapear o intruso. Virou-se sobre a mesa, ignorando quem quer que estivesse chamando o seu nome e permitiu que o sono o clamasse de novo. Cinco segundos depois novamente podia sentir seu corpo ser balançado por alguém enquanto uma voz irritante quase gritava em seu ouvido. – MALFOY! – em um pulo Draco sentou-se ereto na sua cadeira e sacou a varinha, virando-se rapidamente em direção a quem estava lhe perturbando e apontando o objeto para ele.

- Longbottom. – rosnou com uma voz arrastada por causa do sono, não abaixando a varinha que mirava entre os olhos azul bebê de Neville. Por um tempo ambos ficaram imóveis até que Draco piscou os olhos, espantando os últimos resquícios de sono e finalmente abaixando a varinha, olhando a sua volta um pouco desnorteado, tentando entender onde estava. Fracos raios de sol entravam pelos vidros foscos da sala e ao longo algumas nuvens negras poderiam ser vistas sobre os montes atrás de Hogsmeade. – Que horas são?

- Seis e alguma coisa. Mandou me chamar, Malfoy? – respondeu o rapaz com as sobrancelhas franzidas. Podia contar nos dedos de uma mão todas as vezes que falou diretamente com Draco Malfoy e as únicas duas vezes foi para poder levar uma bronca do mesmo.

- Eu te mandei chamar ontem à noite, Longbottom! – lentamente o loiro ergueu-se de sua cadeira com o seu corpo todo protestando por ter dormido em uma posição extremamente ruim. Suas juntas doíam assim como as suas costas estalavam vez ou outra enquanto tentava esticar a coluna e espantar mais ainda o cansaço. – Caso você não tenha notado, não é mais noite. – apontou displicente para a janela, caminhando a passos lentos para uma pequena bancada onde os elfos domésticos costumavam deixar uma bandeja com aperitivos para os dias de reuniões prolongadas. Parecia que eles tinham adivinhado que Draco havia dormido na sala, de novo, sobre mapas e planos de combate, pois em cima da mesa estava uma jarra de café recém feito e cujo aroma era bastante promissor.

- Desculpe, mas é que eu… - começou Neville, mas outro gesto displicente de Draco o calou. Não estava interessado nas desculpas dele, ainda mais quando elas não eram nada criativas. Soltando um bocejo e passando a mão pelos cabelos para desfazer a zona que com certeza eles estavam, Malfoy começou a encher uma grande caneca com uma boa porção de café bem forte, adicionando várias colheres de açúcar.

- Eu tenho uma missão para você. – declarou em um tom de pouco caso, tomando um gole do seu café e soltando um gemido de apreciação quando o líquido morno fez acordar os membros do seu corpo ainda adormecido. – Missão de infiltração. – continuou, voltando a sua atenção para Neville que estava parado no meio da sala de reuniões, observando atentamente cada passo dado por Draco. Não podia dizer que gostava do loiro, mas com certeza o respeitava e, por muitas vezes, o temia. Malfoy transmitia uma confiança sobre o que fazia que Neville tinha certeza que se estivesse no lugar do ex-sonserino já teria arrumado grandes problemas.

- Infiltração? – arregalou os olhos, surpreso. No máximo o que fazia era algumas missões de campo, poucas, pois a sua mãe não gostava da idéia de vê-lo tão ativo na guerra, menos ainda seu pai. Mas Alice agora estava morta e Frank em coma sem previsão de acordar ou melhorar e Neville, sinceramente, já estava ficando cansado de cultivar plantas para as poções que Snape fazia para os outros combatentes. Queria ser mais ativo nesta situação, pois sentia que não estava fazendo muita coisa, mesmo que algumas pessoas dissessem o contrário. – Lee e Goyle não são os nossos espiões? – perguntou confuso.

- Sim. Mas eles já deram as caras em Little Hangleton e podem ter sido marcados, preciso de alguém menos chamativo no vilarejo para me passar informações. – atestou, fixando seus olhos cinza no rosto do ex-grifinório, tentando ler qualquer reação dele. O rosto redondo de Neville oscilou de surpresa a temor, não tendo muita certeza se era bom para a missão. Nunca tinha espionado antes, não sabia o que era preciso para poder fazer isso. – Acha que pode fazer isso? – perguntou em um tom de desafio, com uma sobrancelha erguida como se esperasse que Longbottom dissesse não a sua proposta. E o mais estranho de tudo era que Draco realmente estava lhe dando a opção de negar e não simplesmente o mandando fazer o trabalho.

- Sim senhor. – respondeu o ex-grifinório com uma voz firme, sabendo que não teria uma outra chance como essa tão cedo.

- Ótimo! Procure Goyle ou Jordan que eles te darão todos os detalhes da missão. – o tom indicava claramente que a conversa havia sido encerrada e que Neville estava sendo dispensado. O rapaz apenas deu um aceno positivo de cabeça em resposta e caminhou rapidamente para a porta, parando apenas alguns segundos nela e dando um relance por cima do ombro.

- Malfoy? – chamou e Draco ergue os olhos do mapa sobre a mesa onde ele se apoiava com uma mão enquanto a outra ainda segurava a caneca de café.

- Hum? – respondeu sem erguer os olhos dos pergaminhos a sua frente.

- Tire um dia de folga, você parece cansado. – completou o jovem herbologista, não sabendo direito por que tinha sugerido isso. Talvez tenha sido a atitude passiva de Draco durante a curta reunião deles que mostrou que o loiro não estava em seu estado normal, ou talvez tenha sido o fato de que Neville o flagrara dormindo sobre a mesa, mas mesmo assim algo o incitou a dizer isso, sabendo que no máximo o que conseguiria era levar um fora.

- Dispensado, Longbottom. – Draco retrucou com entre dentes e rapidamente o outro rapaz saiu da sala. O ex-sonserino deixou-se cair na cadeira assim que a porta da sala se fechou e mordeu o lábio inferior, pensativo, olhando para o sol que terminava de nascer atrás dos morros da cidade. Franzindo as sobrancelhas o loiro começou a considerar a proposta de Neville.

Realmente um dia de folga não seria de todo ruim. No momento as coisas estavam calmas, pois nada mais aconteceu desde que ele sofreu aquele ataque em Londres. Ainda não tinha ouvido nada dos demônios sobre Lupin e por isso arriscava a dizer que o lobisomem ainda estava vivo e qualquer coisa nova sobre Little Hangleton ele iria descobrir agora com a partida de Longbottom. É um dia de folga não seria de todo ruim. Erguendo-se da cadeira rumou rapidamente em direção aos seus aposentos para poder preparar a sua saída.

Meia hora depois Draco descia pelo caminho que levava a Hogsmeade, dando uma olhada por cima do ombro para Hogwarts, que já estava ficando agitada por causa de mais uma manhã de aula. Cautelosamente atravessou os grandes portões, soltando um suspiro por ter passado despercebido pelas gárgulas que guardavam a entrada. Elas sempre tinham a irritante mania de reportar a Snape qualquer movimento dele. Aparentemente não era seguro o líder andar por aí sozinho. Rolou os olhos diante do pensamento. Ele sabia se cuidar, muito obrigado.

Assim que chegou à entrada da cidade, ergueu o capuz do casaco de moletom que usava, cobrindo assim seus tradicionais cabelos platinados e ocultando um pouco os olhos diante da sombra que a roupa causava em seu rosto. Não queria ser reconhecido, pois sabia que assim que o morador soubesse quem ele era iria correndo dizer a Dumbledore e aí teria que ouvir outro sermão do velho sobre auto confiança demais e baixar a guarda. Enfiou as mãos dentro da jaqueta jeans que estava sobre o casaco e cumprimentou-se mentalmente por sua astúcia. Vestido dessa maneira, como um trouxa, ninguém iria desconfiar que fosse ele, pois jamais esperariam que ele usasse tais roupas. Olhos cinzentos vasculharam o local e Draco abriu um sorriso genuíno ao ver que a Dedosdemel tinha acabado de abrir e doces sempre foram seu fraco — o que deixava claro qual seria a sua primeira parada no vilarejo.

O sino soou no topo da porta quando Draco a abriu, mas os vendedores que estavam ao fundo da loja não ergueram os olhos para ver quem era o novo cliente. Satisfeito pela indiferença dos donos da doceria, o rapaz caminhou em direção a estante onde diversas guloseimas estavam a amostra. Rapidamente enfiou a mão dentro de uma jarra de confeitos, os colocando em um saco da loja, pouco depois foi uma mão cheia de jujubas acompanhadas de balinhas de caramelos. Uns cinco pirulitos foram fazer companhia aos outros doces enquanto Draco desembrulhava um sexto e colocava na boca. Cinco minutos e quatro sacos cheios de doce depois, o loiro encaminhou-se para o balcão, o pirulito de chocolate e morango ainda dançando dentro de sua boca, e com alguns nuques pagou a mercadoria, a encolhendo com a varinha e a guardando nos bolsos de sua jaqueta. Próxima parada era a loja de artigos de Quadribol.

O reflexo de um adolescente vestido com calça e jaqueta jeans trouxa e tênis apareceu na vitrine da loja de esportes. A haste do pirulito ficava deslizando de um lado para o outro entre os lábios rosados enquanto olhos ocultados pelo capuz observavam com uma fascinação infantil a nova e mais veloz vassoura do mercado. Uma Firebolt. Seus dedos comicharam dentro dos bolsos da jaqueta, tocando a bolsa de couro onde havia alguns galões. Poderia simplesmente entrar na loja e comprar a vassoura, mas isso não serviria de muita coisa.

Sua Nimbus 2001 ainda esta nova e ele não jogava Quadribol desde que se formara em Hogwarts, assim como não voava a um bom tempo. Voltou a sua atenção para um pôster ao canto da vitrine. Era do Puddlemere United, seu time favorito. Draco às vezes se perguntava como o Ministério ainda conseguia promover partidas de Quadribol e Copas Mundiais com a guerra, mas aí ele se lembrava que era a Inglaterra que tinha o maior número de estragos por causa dessa briga. Alguns pequenos países da Europa ainda permaneciam intactos enquanto os grandes lutavam por eles. O mesmo acontecia na América e Ásia. O loiro ainda se recorda até hoje a primeira vez que não se sentiu tão confiante quando teve que encontrar os outros líderes de Resistências de outras comunidades bruxas. Ele era o comandante mais jovem entre todos os povos mágicos do mundo.

Um movimento de canto de olho lhe chamou a atenção e Malfoy virou a cabeça um pouco em direção ao que parecia ser um animal atravessando a rua de Hogsmeade. Quando virou o corpo inteiro para poder ver o que era, tudo o que conseguiu presenciar era a ponta de uma cauda negra sumindo atrás do prédio do Três Vassouras. Draco fez uma careta de desagrado, livrando-se dos restos do doce na primeira lixeira e não querendo nem pensar a quem aquela cauda pertencia. Poderia ser um cachorro qualquer ou, na pior das hipóteses… Sacudiu a cabeça, incitando os seus pés a seguirem o animal que desapareceu atrás da construção. Lentamente colocou a sua cabeça para dentro do beco que se formava entre a parede dos fundos do pub e os fundos de uma grande e velha casa bruxa. Vagarosamente apareceu na entrada no lugar apenas para ver duas esferas verdes brilhando na escuridão do beco.

- Você enlouqueceu? – sibilou raivoso, entrando no local para poder assim não chamar a atenção de transeuntes que começavam a encher o vilarejo. Os orbes verdes brilharam mais ainda, como se estivessem rindo do loiro que fez uma expressão de desagrado mais feia ainda. – Vira-lata. – resmungou, dando as costas para o animal, pronto para ir embora e deixá-lo ali. O lobo rosnou e num salto pulou sobre Draco, o derrubando no chão e deixando seus dentes afiados bem próximos do rosto irritado do bruxo. – Se você não sair de cima de mim, Potter, eu vou castrar você. – ameaçou em um tom autoritário e assistiu inabalado quando o lobo cedeu lugar a um Harry Potter com uma expressão totalmente desgostosa no rosto.

- Eu não achei graça Malfoy. – grunhiu, aproximando-se ainda mais do bruxo preso sob si. – Agora eu tenho um maldito mestiço na minha casa e demônios curiosos para saber o que está acontecendo. – protestou e sentiu ânsias de fatiar o garoto embaixo de seu corpo quando esse deu seu famoso sorriso escarninho.

- Eu falei para me devolver o Lupin, Potter, mas você não quis me ouvir. Me diz, ele deu muito trabalho? Sem a poção mata-cão Moony tende a ficar um pouco… rebelde. – gracejou e Harry piscou um pouco.

- Moony? – indagou franzindo as grossas sobrancelhas negras.

- O fato de Remus ser um lobisomem é de conhecimento de poucos, por isso usamos um codinome para nos referirmos a ele. Não ficaria bem se outros bruxos descobrissem esse segredinho. – disse displicente, dando de ombros e os sujando com a terra do chão onde estava deitado.

- E eu fico surpreso como um orgulhoso bruxo sangue puro como você pode ter um lobisomem como segundo comandante. – perguntou curioso e o sorriso escarninho de Draco aumentou mais ainda.

- Oras, você não sabe? Pensei que já tinha descoberto, afinal foi você mesmo que manteve Lupin cativo para se divertir com ele. Como é que ainda não percebeu porque ele é meu comandante. Remus é cheio de 'talentos'. – cutucou querendo loucamente saber qual seria a reação de Potter diante dessa indireta e não ficou surpreso quando olhos verdes escureceram e caninos afiados e brancos apareceram por entre lábios rosados, um rosnado profundo e ameaçador fechando o quadro.

- Pelos Deuses é bom você estar brincando, Malfoy! – rosnou mais perigosamente, erguendo uma mão com garras afiadas na direção do rosto de Draco. – Senão eu mato você e aquele maldito mestiço.

- Com ciúmes, Potter? – provocou, erguendo um pouco a cabeça para poder aproximar-se do rosto de Harry, o capuz caindo e deixando amostra rebeldes fios de cabelo loiro.

- Vai sonhando. – rebateu o moreno, também se aproximando de Draco o suficiente para roçar sua bochecha na bochecha macia do loiro, enterrando o nariz no pescoço dele e sentindo o cheiro gostos dos cabelos claros. As pálpebras do bruxo tremularam, fechando-se lentamente enquanto sentia os lábios quentes de Harry começarem a percorrer seu rosto em um suave toque. Primeiro a testa, depois os olhos, passando pelas bochechas e finalmente aproximando-se da boca de Draco que se entreabriu para poder captar uma golfada de ar, esperando ansiosamente pelo próximo passo do demônio.

Algo no fundo da sua mente lhe dizia que ele não deveria permitir isso, que eles não podiam fazer isso, eles tinham um acordo, mas tudo sumiu rapidamente quando a respiração quente de Harry tocou seu rosto e ele pôde sentir os lábios do moreno roçar o seu em um toque quase inexistente.

Num rompante a cabeça de Harry ergueu-se e Draco soltou um grunhido de desagrado pela interrupção do quase beijo. O demônio fungou um pouco o ar, sentindo um cheiro diferente na atmosfera enquanto sua audição captava o barulho de estalos ao longo do vilarejo. Potter voltou a sua atenção para o bruxo sob si e totalmente entregue. Ele era uma tentação no momento com os olhos fechados, os cabelos despenteados e o rosto rosado, mas neste instante havia algo maior acontecendo e Draco teria que esperar, infelizmente.

- Malfoy! – chamou, fazendo o loiro abrir os olhos e torcer o rosto em uma careta da raiva.

- O quê? – retrucou irritado por quase ter sucumbido ao Potter.

- Parece que seu adorado vilarejo está sob ataque. – explicou com uma expressão divertida e fixou seus olhos no pescoço pálido de Draco quando esse jogou a cabeça para trás para confirmar que realmente havia algo de errado acontecendo.

- Potter! – rugiu, fechando o punho no colarinho da camisa branca de Harry que ele usava sob o seu tradicional sobretudo de couro. – Se essa palhaçada toda foi apenas uma distração para os seus amigos sarnentos atacarem Hogsmeade, eu sugiro que bata em retirada… AGORA! – ordenou e Harry riu.

- Não seja idiota, Malfoy. Acha mesmo que eu arriscaria a minha matilha em um ataque suicida? Muita magia na região, destruiria metade dos meus soldados que são de classe mais baixa. Eu vim aqui apenas para tirar satisfações sobre a sua gracinha em relação ao Lupin. – deu de ombros, levantando-se e saindo de cima de Draco, ajeitando algumas dobras de sua roupa que surgiram nesse embate. – Além do mais, aquilo lá me parece bem mágico. – e apontou para o céu onde uma estranha marca brilhava. Era uma caveira esverdeada com uma cobra saindo da boca dela. Algo que o bruxo jamais tinha visto na vida. Barulho do que parecia ser aparatações finalmente chegaram aos ouvidos do loiro que hesitante caminhou para a entrada do beco para presenciar uma visão para lá de bizarra. Criaturas vestidas de negro com pontudos capuzes e máscaras em forma de caveira atacavam moradores do vilarejo com… varinhas.

Malfoy recuou para as sombras quando um desses atacantes passou perto do beco e pode ver que a mão que segurava a varinha sob as vestes de bruxo não parecia ser muito humana. Ela era pálida, cinzenta, quase escamosa. Virando-se para mirar Harry viu que esse não estava fazendo nada em relação aos bruxos atacados ou os que atacavam — como se realmente Potter fosse fazer alguma coisa para ajudar o inimigo. Retirando a sua do bolso de sua calça o rapaz a apontou pro céu.

- Focus Fênix! – gritou e o que pareceu ser uma enorme fênix de fogo despontou da ponta da varinha e voou em direção aos céus. Harry arregalou um pouco os olhos, pois somente tinha visto aquela fênix poucas vezes em campo de batalha. Aquele era o sinal de ajuda que o líder conjurava quando havia um ataque surpresa. – Eu se fosse você iria embora. – aconselhou Draco dando uma ultima olhada para o demônio e correndo em direção à avenida principal do vilarejo, freando apenas por um tempo para poder lançar um estupefaça em um dos encapuzados.

Harry ocultou-se na sombra que o prédio do Três Vassouras fazia na entrada do beco, recostando-se na curva da parede para poder ter uma visão melhor da rua e do que estava acontecendo. Sabia que realmente tinha que ouvir Malfoy e ir embora, pois se os bruxos o pegassem ali haveria uma grande confusão. Mas ele estava curioso. Todas as vezes que vira Draco batalhar ele era a pessoa com quem o loiro estava lutando. Nunca, realmente, fora um completo espectador e agora queria saber se era apenas com ele que o bruxo dava tudo de si ou ele sempre se entregava em cada combate.

Encolheu os ombros quando viu que por pouco Malfoy não havia sido acertado por um feitiço. O loiro apenas inclinou o corpo saindo do caminho da magia e ergueu a varinha, gritando um feitiço de volta. Deu um sorriso torto quando um dos encapuzados deu uma chave de braço no rapaz. Rapidamente o bruxo pisou com força no pé do seu captor, dando uma cabeçada nele e quebrando o nariz do sujeito. Violentamente ele virou-se e fechou o punho pálido, descendo um soco no rosto mascarado e outro na boca do estômago, finalizando com algum feitiço qualquer que deixou a criatura desacordada.

Íris verdes apenas observavam com interesse Draco ir derrubando seus inimigos enquanto mais e mais agentes da Ordem da Fênix chegavam ao vilarejo para ajudá-lo. Alguns iam direto para a batalha enquanto outros auxiliavam moradores feridos a procurarem refugio. Viu com surpresa quando Malfoy derrubou um encapuzado e voltou a sua atenção para uma mãe e seu filho encolhidos a um canto de um dos prédios da cidade, indo verificar os ferimentos da mulher e da criança. Suas garras estalaram quando viu o rapaz agachar-se em frente à mulher, totalmente alheio a um armário de preto que vinha em sua direção. O grito da bruxa fez seu ouvido zumbir e segundos depois se podia ver o ex-sonserino preso entre os braços fortes e anormalmente peludos do inimigo. Seu rosto pálido estava ficando vermelho por causa da falta de ar e seus braços, ao mesmo tempo em que tentavam se livrar da prisão, esticavam-se em direção a varinha caída no chão perto da mulher que estava assustada demais para se mexer.

Um rosnado pareceu ecoar na rua e um vulto negro surgiu no meio da batalha. O armário encapuzado soltou um rugido de dor quando sentiu quatro objetos pontudos enterrarem-se na carne de suas costas, isso o fez rapidamente soltar Draco que de joelhos no chão e já estava ficando roxo pela falta de ar.

- Ac-accio varinha! – ordenou entre ofegadas e a varinha que estava caída perto dos pés da mulher veio para a sua mão. Malfoy virou-se para poder ver quem o tinha ajudado e arregalou os olhos ao ver Harry lutando como uma besta enlouquecida contra a criatura que o tinha atacado. O demônio grunhiu ferozmente e com uns três golpes de suas garras levou o sujeito ao chão.

Muito chocado com o que tinha acabado de presenciar, Draco ainda levou um tempo para poder se recuperar do susto de ver Harry ali e somente saiu do seu estupor completo quando o mesmo o puxou pelo braço, o colocando de pé.

- O que foi? O cachorro comeu a sua língua. – zombou o moreno e Malfoy piscou, puxando o seu braço com força e o tirando de entre os dedos fortes de Potter.

- Eu não mandei você ir embora? – sibilou perto do rosto do outro. – Se a Ordem te pegar aqui eu nem quero…

- DRACO! – o loiro congelou ao ouvir a voz familiar de seu tutor soar na rua. Hesitante ele virou-se apenas para ver o pior, a batalha estava se dissipando. A Ordem havia conseguido capturar alguns encapuzados enquanto outros conseguiram fugir. Bruxos e bruxas ajudavam companheiros feridos enquanto agentes da resistência vinha em direção ao líder com as varinhas erguidas.

- Isso não vai prestar. – virou-se desesperado para Harry que não havia movido um músculo. – O que você ainda ta fazendo aqui Potter? – grunhiu para o demônio que permanecia no mesmo lugar mesmo diante da ameaça de vários bruxos que estavam se aproximando com as varinhas em riste. Tudo que o moreno fez foi dar um passo para o lado usando o corpo de Draco como escudo para os inimigos enfurecidos.

- Caso você não tenha notado, não vai ser tão fácil fugir assim. – sussurrou na orelha do loiro que estremeceu diante desse ato. – Estamos cercados. – concluiu olhando a sua volta para os humanos que os rodeavam. – E eu não sei fazer aquele negócio de aparatear. – concluiu em um tom de desprezo.

- Potter! – Snape desdenhou, sendo o primeiro a aproximar-se dos dois. – Draco, venha para cá! – ordenou e estendeu a mão para o garoto enquanto a outra ainda apontava a varinha para Harry, os olhos negros fixados no moreno e em qualquer movimento que ele pudesse fazer. Draco mordeu o lábio inferior. A única coisa que impedia os outros de atacarem Harry era ele. Seus olhos se encontraram com os de Dumbledore, que fazia parte do grupo de resgate, e viu que por detrás dos óculos de meia lua eles cintilavam. Odiava aquele brilho nos olhos do diretor, apenas indicava que ele estava se divertindo muito com a situação e sabia de alguma coisa que os outros não sabiam.

- Malfoy! Ficou surdo por um acaso? – Draco inclinou a cabeça na direção da voz somente para ver Ronald Weasley empunhar a varinha com mais firmeza, podia ver pela postura dele que qualquer ação do Potter seria o suficiente para ele soltar um feitiço pra cima do demônio. – Venha para cá!

- Não me dê ordens, Weasley! – rebateu e fez um pequeno movimento de corpo, esbarrando sem querer em Harry que por pouco perdeu o balanço. O que aconteceu a seguir foi rápido demais para alguém conseguir compreender direito e somente uma visão bem treinada presenciou melhor a cena. O movimento de perna de Potter para obter um melhor equilíbrio fez Ron reagir rapidamente abrindo a boca para proferir um feitiço, achando que eles seriam atacados. Prevendo isso Draco desenrolou o cordão dourado em seu pulso, aquele que muitos de seus companheiros consideravam apenas um enfeite pra lá de feminino, e num estalo o cordão cruzou o ar, derrubando a varinha de Ronald no chão e antes que esse pudesse reagir o cordão estalou de novo, envolvendo-se no tornozelo do ruivo e com um puxão do ex-sonserino o derrubando no chão. Mais um estalo e o cordão recolheu-se e agora era fortemente segurado pelas mãos de Draco que esticava a arma em frente ao seu corpo em uma postura defensiva.

Queixos caíram diante do que tinha acabado de acontecer. Na sua posição, Draco fez uma careta ao perceber o que tinha acabado de fazer e se não estivesse na defensiva com certeza teria dado um tapa na cabeça diante de tamanha burrice. Novamente seus olhos se encontraram com os de Dumbledore, que cintilavam como nunca ao mesmo tempo em que um sorriso surgia no rosto marcado pelo tempo.

- Senhores, abaixem as varinhas! – Dumbledore bateu palmas, chamando a atenção dos bruxos abismados com o que tinha acabado de acontecer. Malfoy tinha protegido Potter. Como podia ser? – Lorde Potter, se o senhor fizer a gentileza. – Harry franziu a testa em desconfiança quando viu o velho bruxo indicar o caminho em direção a Hogwarts que despontava imperiosa no alto de um monte. Vagarosamente ele deu um passo à frente e depois outro, e mais outro, até que as suas pernas adquiriram uma velocidade continua e ele estava ao lado de Dumbledore, acompanhando o homem em direção a escola. A sua volta os bruxos saíram lentamente de se estado de choque e começaram a acompanhar o ex-líder, não sabendo direito o que ele pretendia convidando o demônio para ir com ele, mas mesmo assim mantendo a guarda erguida e as mãos nas varinhas caso Potter resolvesse fazer alguma gracinha.

Ainda surpreso, Severo virou-se para Draco cujos ombros estavam tensos e as mãos ainda apertavam firmemente o cordão. Com um puxão de braço o mestre de poções colocou Ron em pé e segurou o ruivo no lugar para que esse não avançasse em cima do outro bruxo. Depois de segundos de silêncio tenso em trocas de olhares mortais entre Draco e Ron, o último finalmente soltou-se do aperto da mão de Snape em seu braço e virou-se bruscamente, seguindo os outros bruxos da Ordem em direção ao castelo.

- O que você pensava que estava fazendo? – Snape sibilou para Draco que deu de ombros. Ele mesmo não sabia direito o que estava pensando quando instintivamente resolveu proteger Harry de um propenso ataque do Weasley. – Você acabou de assinar sua sentença de morte, Malfoy. – disse duramente, já farto de todas as atitudes irresponsáveis de Draco. – Depois dessa, com certeza, você será deposto do cargo. Se não for exilado. – e com o seu tradicional farfalhar de capa ele partiu para Hogwarts.

O loiro soltou um suspiro, relaxando levemente os ombros e recolheu seu cordão, o envolvendo lentamente no pulso. O desastre já estava feito e a não ser que ele não quisesse ser esfolado vivo, precisaria arrumar uma boa desculpa, e uma bem rápida antes de chegar ao castelo. Dando uma rápida olhada ao seu redor percebeu que as coisas agora estavam mais tranqüilas já que o ataque surpresa fora encerrado. Virando os olhos para o céu notou que a misteriosa marca sumira. Considerou por alguns segundos simplesmente desaparecer pelo vilarejo e atrasar o máximo qualquer explicação que tivesse que dar aos outros, mas…

- DRACO! – Snape gritou no topo do monte, perto da entrada da escola, e Draco soltou um grunhido, estalando o pescoço e os punhos, pronto para encarar o pior enquanto caminhava de volta ao castelo.