Capítulo 7
O Quarto Lado
Os passos pesados de Harry ecoaram nas paredes da mansão à medida que o demônio aprofundava-se ainda mais na casa. Sem dar atenção a criados e soldados que passavam por ele, todos com a mesma expressão confusa no rosto que perguntava onde o homem tinha se enfiado o dia inteiro, Potter desceu as escadarias que levavam ao subterrâneo da construção onde normalmente os prisioneiros eram colocados. Onde Lupin estava e, ele esperava, ainda vivo. Por mais que fosse divertido ver a cara indignada do Malfoy cada vez que exigia seu comandante, Harry tinha que confessar que agora a situação tinha perdido um pouco a graça já que eles estavam prestes a fazer uma aliança. Pena, Draco sempre ficava sexy quando não tinha nenhum controle das suas emoções. Teria que arrumar rapidamente um novo motivo para fazer o loiro perder a compostura.
Alcançou o penúltimo degrau, pulando o último e pousando no chão de cimento com um som abafado. Suas botas mal emitiam ruídos agora que estava nas profundezas da casa. Calmamente começou a caminhar em direção a cela do prisioneiro, não prestando muita atenção nos arredores que já lhe eram mais do que familiar. Depois de três minutos de caminhada langorosa, Harry parou em frente à cela e fez um gesto contido com a mão, transformando a porta em barras de ferros. Seus olhos se ajustaram à escuridão do local e começaram a vasculhar o pequeno espaço apenas para atestar uma coisa: Remus não estava lá.
Seu cérebro pareceu entrar em choque, descargas elétricas corriam por seus neurônios tentando processar o mais rápido possível o que estava acontecendo. Seu nariz captou um cheiro a mais além do de Lupin na cela e a ausência de uma aura de batalha o fez perceber que o homem não tinha sido atacado por alguém de seu bando. Ninguém em sã consciência ousaria desafiar as ordens de Harry. Seu olho esquerdo deu um leve tremular nervoso enquanto as suas mãos abriam e fechavam como se estivessem prestes a esganar alguém. Algo brotou do fundo de seu peito, uma raiva imensa, uma frustração contida, um bolo irreconhecível e antes que ele pudesse segurar, estava transpassando a sua boca.
- SIIIIRIUUUUUS! – o grito tremeu todas as bases da Mansão Potter e em seus aposentos, Sirius ergueu a cabeça em um estalo, mirando com olhos largos a porta de entrada do quarto. Remus, que nas últimas horas tinha se acostumado um pouco com a presença do demônio no mesmo aposento que ele, desviou a sua atenção da paisagem que via através das grandes janelas e mirou seus olhos escuros no homem sobre a cama. Ergueu uma sobrancelha castanha como se perguntando o que estava acontecendo e, como resposta, Black lhe deu um sorriso amarelo, levantando-se trêmulo do colchão e caminhando até a entrada.
Sirius deu um profundo suspiro, olhando por cima do ombro o bruxo que permaneceu imóvel no canto do quarto por horas. Tinha aparecido mais cedo para ver como estava o prisioneiro e pegar alguns documentos que estavam no local, mas no momento em que ele pisou dentro do quarto pôde farejar o nervosismo de Remus e sentiu-se vitorioso por saber que agora sim impunha algum medo no mestiço. Por estar de bom humor resolveu dar uma folga ao homem e sair do lugar para ver a papelada em outra parte da casa, mas quando ouviu o suspiro quase inaudível de alívio que o bruxo deu mudou de idéia, entrando no aposento e instalando-se na cama como se fosse dono do lugar. Bem, tecnicamente, ele era realmente dono daquele lugar. Por três horas um fez companhia ao outro em um silêncio tenso e por três horas Remus permaneceu em pé perto da janela acompanhando qualquer movimento suspeito de Sirius com o canto dos olhos, como se estivesse preparado para pular janela afora caso o demônio tentasse qualquer coisa.
Com mais um sorriso amarelado para Remus, que estava se segurando para não começar a gargalhar diante da ironia da situação, o demônio abriu a porta para ver o que Harry queria. Contudo, foi só ele terminar de mover a madeira e seus olhos arregalaram mais uma vez e outro sorriso sem graça brotou no rosto do moreno. Parado no batente estava Potter, nem ao menos um minuto depois de gritar o nome do homem, com os braços cruzados sobre o peito e a coluna rígida o fazendo parecer maior do que normalmente era. Neste momento Black sentiu-se novamente como um filhote de lobo e recuou aos tropeços para dentro do quarto, caindo desajeitado sobre o colchão. Em seu posto de vigília Lupin soltou um resmungo que se assemelhou muito a uma gargalhada contida.
- SIRIUS BLACK ONDE É QUE ESTÁ O NOSSO... – Harry foi entrando no quarto, batendo a porta atrás de si e pronto para entrar em uma briga de mordidas e garras se fosse preciso com o demônio mais velho. Porém, quando ele já estava completamente dentro do aposento com a sua voz elevando a cada palavra, pronto para repreender o homem, é que ele notou a outra presença no lugar. Seus olhos verdes faiscaram ao ver Remus Lupin parado perto da grande janela e o seu olhar vagou do bruxo ao padrinho e no padrinho fixou-se. Desta vez o sorriso de Sirius foi de pura inocência.
- Harry… - começou Black com uma voz melodiosa. – voltou cedo. – seu sorriso alargou-se.
- Não me venha com esse sorriso de tubarão, Black! O que ele está fazendo aqui? Por que não está na cela? – sibilou, apontando um dedo em riste para Lupin.
- Ele estava ferido… achei que a cama desconfortável daquela cela não seria bom para os ferimentos dele. O curandeiro falou que ele tinha que repousar bastante. – explicou-se Sirius, erguendo-se da cama e ajeitando qualquer dobra nas suas roupas com as pontas dos dedos.
- E precisava ser no seu quarto? – Harry cruzou os braços sobre o peito novamente totalmente de mau humor e lançando um olhar azedo para Remus, o avaliando de cima a baixo para ver qual foi o estrago que Sirius tinha feito no comandante. Não podia entregar Lupin totalmente descacetado de volta para o Malfoy ou não iria ouvir jamais o fim da história.
- Pelo seu tom e seu mau humor – a voz de Remus interrompeu qualquer discussão que pudesse surgir entre os dois homens, seu tom calmo mostrando que não estava nada abalado em estar na presença dos demônios. – acredito que você se encontrou com o Draco. – finalizou, tendo o conhecimento de que apenas Malfoy conseguia realmente tirar Potter do sério. Sem contar que aquilo não era uma pergunta, era uma afirmação e Harry tentou compreender o que estava implícito nas entrelinhas.
- Como? – fez-se de idiota, o que na adolescência era a sua grande especialidade.
- Você está com o cheiro dele por todo o seu corpo. Bem, eu acredito que você sempre esteve com o cheiro dele pelo seu corpo, como Draco sempre está com o seu cheiro no corpo dele. – encerrou dando de ombros, como se a sua revelação não fosse nada mais do que um comentário sobre o tempo. Harry num reflexo ergueu o pulso e fungou longamente a essência que emanava da sua pele, atestando que, realmente, o cheiro do jovem bruxo estava misturado com o seu, porém ele já não percebia mais a diferença depois de dois anos convivendo com ela.
O moreno soltou um grito surpreso quando se sentiu ser puxado pela gola de sua camisa de encontro ao corpo de Sirius e o nariz desse entrar em contato com a pele de seu pescoço. Black soltou o afilhado com um empurrão e os seus olhos azuis pareceram escurecer consideravelmente. Agora os papéis estavam invertidos e Potter podia sentir que tinha se metido em uma encrenca tamanha.
- Como eu pude ter sido tão burro! – rugiu o comandante, começando a perambular pelo quarto. – Seu cheiro tinha mudado, mas eu não dei confiança, achei que você andava farreando por aí para aliviar o estresse… mas você… você… Você já passou da maturidade e até hoje não encontrou um parceiro… – resmungava mais para si do que para os outros que estavam no quarto, tentando trazer a sua memória todas as evidências que foram apontadas por causa de um simples comentário de Remus. – Harry… ELE É O INIMIGO! – terminou com a única coisa que o seu cérebro conseguiu associar e Harry enrijeceu os ombros diante da fúria que emanou do padrinho. Agora era ele que se sentia como se novamente fosse um filhote.
O que se seguiu foi uma longa discussão entre os dois demônios, cada um querendo provar o seu ponto de vista. De um lado havia Sirius dizendo que era loucura associar-se a um bruxo, ainda mais um tão novo. Do outro era Harry tentando fazer o padrinho ver que era impossível para eles escolherem os parceiros. Cada um mais teimoso que o outro, cada um não querendo ceder em suas convicções. Black usou argumentos como "o que Lílian e James diriam sobre o filho associando-se com aquela escória?" e Harry rebatia furioso com um "dobre a língua antes de falar mal do Draco". Sirius continuava a permanecer firme atestando que era o mesmo Malfoy que tentou matá-los várias vezes e Potter ria debochado respondendo que todo casamento tinha seus conflitos.
- CONFLITOS, HARRY? Uma coisa é você dormir no sofá por ter discordado do seu conjugue, outra é ele tentar arrancar a sua cabeça fora com uma espada. Isso não é conflito… É GUERRA! – finalizou, estufando o peito arrogante e cruzando os braços sobre ele, olhando Harry de maneira superior. Potter repetiu o gesto, não querendo ser vencido nessa discussão pelo padrinho.
- Hunf! – um resmungo veio do canto do quarto e as atenções voltaram-se para o esquecido Remus que acompanhava a discussão entre os dois como se estivesse presenciando uma briga entre terceiroanistas da Grifinória e Sonserina. – Se vocês já terminaram, queiram fazer o favor de retornar dos cinco anos de idade pra onde regrediram e me dizer o que o Lorde Potter quer comigo? – os dois homens pareceram murchar diante do puxão de orelha e Harry soltou um longo e sofrido suspiro, lançando um olhar ao padrinho que dizia "nós terminamos isso mais tarde".
- Reúna os outros superiores e Lupin. – ordenou para Sirius. – Estamos indo para Hogwarts. – deu um sorriso torto quando viu o rosto de Remus empalidecer e seus olhos castanhos arregalaram-se. – Não se preocupe mestiço, não vamos atacar, pelo contrário, vamos conversar. – assegurou antes de sair do quarto, mas, de algum modo, Lupin não se sentiu mais tranqüilo por causa disso.
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Poucas coisas na vida já impressionaram Hermione Granger. Quando era adolescente e ainda estudava no St. Barthes, muitos rapazes tentavam chamar a atenção da jovem mais inteligente da escola fazendo peripécias apenas para impressioná-la. Tudo, claro, sendo esforço inútil. Granger era o que muitos chamavam de filho da guerra, nascera em meio a batalhas e era afetada diretamente por elas, vira coisas em tenra idade que metade dos seus colegas de classe jamais poderiam fantasiar e por isso não seria um moleque que fazia bolhas em seu refrigerante usando canudos presos ao nariz que iria afetá-la. Sem contar que a cena em si era extremamente nojenta. Contudo, nada poderia tê-la preparado para a grandeza que estava a sua frente: Hogwarts, enorme, milenar e poderosa com as suas simples paredes de pedra pareceu ter tirado o fôlego do grupo de trouxas que acompanhava Snape, além de ter chocado Hermione completamente.
- Vão ficar parados aí o dia inteiro ou vão me acompanhar? – a voz de Severo pareceu acordar o grupo de seu transe e Granger foi a primeira a se mover, acompanhando o homem para dentro do castelo. Subiram os degraus hesitantes, olhando a sua volta com extremo interesse e uma curiosidade quase infantil. Um quadro deu um olá para Colin e este pulou assustado, escondendo-se atrás de Seamus que soltou uma risada diante da atitude do garoto.
Estavam tão absortos com os seus arredores que quando a sineta de término das aulas soou, o grupo sentiu o coração dar um salto de susto e começar a bater em compasso com os tremores de passos que ecoavam pelo castelo. O barulho de vozes soava por todos os cantos e Hermione virava a cabeça de um lado para o outro querendo prever de onde as pessoas surgiriam. Seus dedos estavam quase próximos ao cós da sua calça, onde sua inseparável arma repousava e os orbes castanhos se fixaram em um lance de escadas de onde despontou uma horda de alunos direto no corredor principal da escola e a caminho do Salão Principal para o almoço.
Grifinórios riam na companhia de alguns Lufas e um grupo de sextoanistas da Corvinal passou por eles os mirando de maneira curiosa, como se nunca tivessem vistos seres humanos antes. Colin escondeu-se mais ainda atrás de Seamus, o usando como escudo para aquele bando de bruxos. Uma jovem de cabelos cor de fogo subiu as escadas correndo e gritando para as suas colegas e parou abruptamente quando viu o Mestre de Poções parado no meio do corredor.
- Dez pontos a menos para a Grifinória pela gritaria srta. Weasley! – repreendeu Snape de maneira amarga. – E creio que a sua mãe a ensinou a andar feito um animal racional, então coloque este aprendizado em prática. – o rosto de Ginny contorceu-se em uma careta de desagrado, mas ela manteve-se quieta, endireitando o corpo e caminhando a passos mais calmos em direção as suas amigas que tinham parado para esperá-la.
Hermione acompanhou com os olhos a menina sumir no final do corredor e deu um pequeno sorriso divertido ao ouvir os resmungos que se seguiram. Novamente passos ecoaram como um trovão pelo castelo e mais uma vez duas cabeças ruivas despontaram no topo das escadarias que, para a surpresa da mulher, moviam-se e mudavam de lugar. Fred e Jorge surgiram de um corredor que dava acesso às torres e começaram a descer as escadas de dois em dois degraus, olhando nervosamente por cima do ombro e ignorando os visitantes. Logo depois que os gêmeos apareceram, um grito ressoou pelo castelo.
- WEASLEYYYYYYYYY! – Colin deu mais um pulo de susto e arregalou os olhos enquanto os quadros das paredes tapavam os ouvidos diante do som estridente. Cinco segundos depois um rapaz aparecia vindo do mesmo corredor que os ruivos. Seus cabelos, um dia loiros prateados, agora estavam em um tom rosa pink sendo destacados mais ainda por causa do glitter dourado que brilhava em algumas das mechas. Sem pensar duas vezes Draco sacou a varinha e apontou para os irmãos fugitivos, disparando azaração atrás de azaração que acabavam ricocheteando nas paredes.
Snape, em sua posição, quis cavar um buraco e sumir diante da humilhação que sentia. Havia criado Draco com toda a rigidez para ele ser um rapaz sensato e responsável, mas na primeira traquinagem dos gêmeos Weasley o loiro perdia toda a compostura e partia para a violência e irracionalidade, não se importando quem estava a sua volta. Hermione, por sua vez, estava dividida entre ficar chocada e rolar de rir. Nunca tinha visto Malfoy além da sua postura séria e na sua concepção sempre considerou os bruxos umas criaturas frígidas e sem sentimentos, vide Snape, por exemplo. Porém, estar parada neste momento dentro do quartel general deles, ter cruzado com um grupo de adolescentes como qualquer outro, ver um professor repreendê-los e ver o líder dos bruxos reagir furioso a uma brincadeira fez algo iluminar dentro da sua mente e perceber que, apesar da magia, eles também eram humanos.
- Talvez seu adorado maridinho goste da mudança! – Fred gritou por sobre o ombro, disparando pelo corredor atrás do irmão. Draco pulou os últimos quatro degraus e alcançou o térreo com os seus olhos escurecidos de ódio. Ninguém mexia no seu cabelo e saía vivo para contar história. Colérico, ele desenrolou a pulseira em seu braço e o estalo familiar ecoou no ar. Jorge arregalou os olhos e virou-se bem a tempo de ver o cordão dourado envolver-se no calcanhar do seu gêmeo e esse ser derrubado dolorosamente no chão. Num movimento rápido Malfoy recolheu a sua arma e plantou o pé sobre o peito de Fred, a bota pesada fazendo o ruivo permanecer estatelado contra a pedra fria.
- Comece a fazer as suas preces Weasley. – rosnou enfurecido, apontando a varinha entre os olhos castanhos do jovem.
- Qual é Malfoy, foi só uma piada. – Jorge tentou argumentar, aproximando-se lentamente de Draco. Enfurecer o loiro era tão fácil, assim como era fácil armar traquinagens para ele. Como é que o homem poderia deixar a sua guarda baixar tanto? Sem bem que Jorge tinha uma vaga idéia do por que. Afinal, nenhuma piada que eles aprontavam com o Draco saía impune e sempre havia uma revanche digna de entrar na lista das melhores piadas pregadas sobre os gêmeos Weasley, pois o loiro além de ser criativo sabia ser cruel.
- E veja como eu estou me dobrando de rir Weasley. – olhos tempestade miraram o ruivo de maneira gélida e esse recuou temeroso. A bota de couro de dragão soltou o outro gêmeo do chão e Draco afastou-se, com a varinha ainda em riste observando atentamente os movimentos do ex-grifinório. Fred ergueu-se lentamente, caminhando em direção ao irmão e parando ao lado deste. – Eu aconselharia a redobrar os feitiços de proteção esta noite Weasley… nunca se sabe o que lhe espreita nas sombras quando você estiver dormindo. – ambos os gêmeos engoliram em seco diante deste aviso. Poderiam colocar qualquer feitiço que fosse em volta da cama deles que eles sabiam que não adiantaria de nada. Draco era tão bom ou melhor do que Bill em quebrar feitiços de vigilância. O jeito seria passar a noite em claro como em todas as outras vezes.
Os dois ruivos foram se afastando aos poucos de seu líder, sem retirar os olhos temerosos de sobre ele e, ao mesmo tempo, tentando segurar as risadas e as provocações que estavam na ponta da língua. Porém, a varinha ainda erguida do ex-sonserino e a sua expressão que prometia uma morte lenta e dolorosa os fazia ficar sabiamente em silêncio enquanto calculavam uma rota de fuga rápida que pudesse evitar qualquer feitiço lançado na direção deles. Estavam prontos para trazer vergonha a Grifinória, a casa dos bravos leões, e saírem correndo gritando misericórdia por suas vidas, quando uma gargalhada ecoou no corredor.
- Rosa realmente combina com você. – veio o tom ainda divertido assim que a gargalhada encerrou-se. Os gêmeos viraram-se lentamente quando perceberam que, agora, as vibrações de morte emitidas por Draco se focalizaram em outra pessoa e ambos começaram a sentir as suas bochechas doerem por causa das risadas contidas quando viram que o autor do comentário tinha sido nada mais, nada menos, do que Harry Potter.
O rosto pálido de Draco começou a ganhar tons que se assemelhavam aos seus cabelos e seus olhos tempestade não reconheciam mais nada a sua volta, apenas fixavam-se ferozmente na criatura risonha a alguns passos atrás do grupo de trouxas que se encolheram um contra os outros, temerosos, e cujas mãos foram rapidamente para os punhos de suas armas no segundo que avistaram a comitiva de demônios. O braço esticado do loiro tremulava enquanto seu rosto ficava ainda mais vermelho de fúria quando viu para o seu extremo horror que Harry estava ensaiando uma nova gargalhada, começando a ser acompanhado pelos gêmeos Weasley e os outros demônios que estavam com ele. De rabo de olho viu que até mesmo os trouxas pareciam estar se segurando para não rir e foi então que Draco explodiu mais uma vez.
- WEASLEEYYYYYYY! VOCÊS TÊM TRÊS SEGUNDOS PARA COMEÇAREM A CORRER… - Jorge e Fred engoliram as risadas e voltaram a sua atenção para um Malfoy furioso. – UM – ambos empalideceram quando viram o brilho do feitiço começar a brotar na ponta da varinha do loiro. – DOIS – aos tropeços viraram-se rapidamente e começaram a correr desesperados, gritando por suas vidas. – TRÊS! – Draco voltou a persegui-los e os gêmeos empenharam-se em fugir a toda velocidade, sabendo que na boa forma que estava, Malfoy conseguiria alcançá-los facilmente. Estavam tão preocupados em salvar as suas peles que nem olharam para trás quando sumiram em uma esquina do corredor. Porque, se tivessem olhado, teriam visto Harry rapidamente se colocar entre eles e Draco e segurar o loiro pela cintura, impedindo que este continuasse perseguindo os ruivos.
- VOLTEM AQUI SUAS AMEBAS RUIVAS PORQUE QUANDO EU TERMINAR COM VOCÊS SUA MÃE VAI LAMENTAR AS 18 HORAS DE TRABALHO DE PARTO QUE SOFREU PARA TRAZER AO MUNDO DUAS DONINHAS SARDENTAS E INCAPACITADAS INTELECTUALMENTE! – Harry novamente gargalhou enquanto usava toda a sua força para segurar um Draco que se debatia e xingava em seus braços. Somente o loiro para soltar insultos usando palavras grandes do dicionário.
Sirius por outro lado não sabia se ria ou se arregalava os olhos. Então este era o poderoso Draco Malfoy? Reduzido a um menino mimado, gritando ofensas para colegas de equipe enquanto fios rosados do cabelo caíam sobre o rosto extremamente vermelho. Foi com esta criatura totalmente descontrolada que o seu afilhado foi se associar? O que afinal ele viu no bruxo que, apesar de ser um grande líder - Sirius admitia ao relembrar todas as estratégias de batalha boladas por Draco e que levou a Ordem a vitória - não passava de um menino imaturo e temperamental? Suas indagações foram interrompidas quando um riso abafado soou ao seu lado e olhos azuis miraram um Remus que escondia um sorriso por detrás de uma das mãos enquanto observava Malfoy que agora discutia com Potter por este tê-lo impedido de perseguir os gêmeos.
- Vejo que as coisas não mudaram muito por aqui. – o lobisomem comentou displicente e isto pareceu fazer a cena toda congelar. Num instante Draco parou de remexer-se nos braços de Harry, desviando a atenção de todos para o homem que antes estava escondido entre o grupo de demônios recém chegados.
- Olha só, você está inteiro Lupin! – comentou com um sorriso de escárnio que para os desavisados mais parecia uma dispensa, como se o fato de seu comandante ter retornado não fosse grande coisa para Draco. Mas aqueles que realmente observavam de perto não perderam o modo como os orbes cinzentos moveram-se pelo corpo de Remus, avaliando os estragos e como os mesmos estreitaram-se ao ver por sob a barra da calça ataduras enroladas na perna do homem.
- E você continua sendo pego pelas piadas das Gemialidades Weasley. – respondeu Remus com um sorriso calmo, dando um relance nos cabelos rosados de Draco e depois fixando a sua atenção no rosto do rapaz que soltou um bufo contrariado. Um silêncio estranho seguiu-se depois desse comentário, enquanto Hermione e seu grupo não ousavam se mexer muito para não incitar ainda mais os demônios que agora os olhavam com interesse. Snape apenas esperava pacientemente o circo terminar para seguir com os outros para a reunião enquanto um Remus mancando afastava-se hesitante do lado de Sirius e ia para o lado do Mestre de Poções, começando uma conversa em sussurros com o homem, o que não agradou nem um pouco a Black, ainda mais que os dois bruxos pareciam muito próximos… próximos demais.
- Potter! – a voz firme de Draco pareceu trazer novamente a atenção de todos para ele. – Você tem previsão de me soltar ainda neste século? – disse desgostoso, ainda mais que Harry o apertou com mais força contra o seu corpo e começou a esfregar o nariz na sua nuca, fazendo os pêlos claros se arrepiarem. Sirius rolou os olhos exasperado diante da atitude do afilhado que agora não precisava se conter já que todos sabiam do seu segredo. Remus sorriu novamente divertido enquanto Snape amarrava mais ainda a cara, adquirindo a expressão que geralmente sustentava cada vez que Neville explodia um de seus caldeirões. E quanto aos trouxas? Bem, os trouxas estavam totalmente perdidos na história. Principalmente Hermione que por mais brilhante que fosse ainda não tinha conseguido compreender porque Harry Potter estava agarrando Draco Malfoy em público.
- Mas você cheira tão bem. – foi a resposta abafada de Harry, mas audível o suficiente para Hermione arregalar os olhos tentando compreender se estava alucinando ou tinha acabado de pisar em algum universo paralelo. Potter realmente deu uma "cheirada no cangote" do Malfoy?
- Diga que eu estou alucinando? – murmurou a mulher para Seamus que tinha os olhos largos também e uma expressão pateta no rosto.
- Então somos dois. – Granger assentiu em concordância e pareceu sair do choque quando Draco reagiu violentamente a este comentário do demônio, ainda de mau humor por causa do cabelo rosa e dos gêmeos.
- Potter, para um demônio de três séculos você tem os hormônios de um adolescente, me solta neste exato momento se não quiser cheirar o chão quando eu te derrubar dolorosamente nele! – rosnou como um cão enraivecido e rapidamente repreendeu-se quando percebeu o que estava fazendo. Por Merlin! Era má influência do Potter, com certeza! Seus pais deveriam estar se revirando no túmulo neste exato momento.
- Está bem! – Harry o soltou abruptamente e Draco perdeu o equilíbrio diante do gesto rápido do demônio, sendo ele a cair dolorosamente no chão na frente de seus convidados. Agora sim Snape não sabia onde enfiar a cara diante dessa palhaçada toda e Hermione ficou realmente convencida de que tinha entrado em alguma dimensão paralela depois disso.
- Vocês pretendem em algum momento agir como homens maduros e resolverem o que vieram resolver aqui? – a voz de Severo ecoou no corredor como um trovão e Draco encolheu os ombros enquanto Remus disfarçava uma careta ao mesmo tempo em que os trouxas sentiam arrepios descer pelas suas espinhas diante do tom gelado do homem.
- Ah, vocês chegaram. Bom, bom. – todos se viraram para ver o diretor aparecer sorridente no corredor sendo acompanhado pela professora McGonagall, que lançou um olhar duro ao Draco caído no chão. Suas sobrancelhas finas se ergueram como se perguntando o que havia acontecido e o loiro teve a sensação de que se ainda fosse um aluno neste exato momento estaria sob um interrogatório contínuo para saber o que estava acontecendo, ainda mais que os olhos de contas fixaram-se em suas mechas rosadas.
Harry deu um sorriso escarninho e um passo a frente, estendendo uma mão para o loiro com a intenção de ajudá-lo a se erguer. Malfoy olhou para a mão com uma expressão de que estava vendo algo muito nojento em frente aos seus olhos e com um resmungo a estapeou para longe e sozinho levantou-se do chão, batendo em suas calças para livrar-se da poeira característica do castelo milenar.
Dumbledore deu as costas a todos, começando a seguir corredor abaixo e o grupo mais inusitado da história prontamente o seguiu. Os bruxos automaticamente iam à frente dos outros, como bons anfitriões, conversando a baixas vozes uns com os outros e vez ou outra olhando por cima do ombro para os demônios logo atrás de si. Draco fez uma careta quando viu rapidamente o seu reflexo no vidro de uma das várias estantes que estavam no percurso e Harry deu um pequeno sorriso para o rapaz ao seu lado, passando sorrateiramente o braço pela cintura dele. O loiro retesou um pouco o corpo diante do contato, mas depois de alguns minutos relaxou, permitindo a presença do moreno dentro do seu espaço pessoal.
Sirius balançou a cabeça de um lado para o outro em uma negativa ao ver a interação do casal a sua frente. Como ele não pôde ter percebido os sinais? Estavam todos eles ali bem diante dos seus olhos. As atitudes de Harry, seus desaparecimentos noturnos, até seus padrões de ataques. Potter fazia questão de atacar cidades quando sabia que Malfoy não daria as caras na batalha. De um modo ou de outro, inconscientemente, o rapaz falhou em alguns aspectos na sua função de Comandante ao tentar proteger o companheiro.
Rapidamente a sua atenção voltou-se para os dois bruxos que acompanhavam Dumbledore. Remus conversava intensamente com o mesmo homem de negro o qual procurou logo que eles chegaram ao castelo. Ambos faziam gestos suaves com as mãos e em um certo momento os olhos negros de Snape vagaram pela perna ferida de Lupin e o professor de Poções fez uma expressão de desagrado que pareceu arrancar um sorriso mínimo do lobisomem. Black franziu o lábio superior, deixando amostra um canino saliente enquanto um rosnado brotava do fundo de sua garganta. Cabeças viraram-se na direção do barulho e Harry lançou ao padrinho um olhar que dizia que ele sabia de coisas que o próprio Sirius desconhecia. E tudo o que o demônio deu como resposta a este olhar foi outro rosnado.
Fechando a comitiva estava o grupo de trouxas que não sabiam se ficavam atentos as ações dos seus inimigos dentro deste território perigoso ou se ficavam fascinados pela grandeza e magia que os rodeava neste mesmo território. Curioso, Seamus parou em frente a um quadro onde havia um cavaleiro trajando uma armadura medieval. Lentamente aproximou-se da pintura e deu um pulo de susto quando esta se mexeu, empunhando uma espada e começando a gritar com ele.
- Vamos seus covardes, lutem, lutem! – o irlandês atravessou o corredor aos tropeços, chocando-se com a parede oposta e deslizando lentamente pela pedra até cair sentado no chão. Um grupo de alunas da Corvinal que iam passando soltaram risadinhas diante da surpresa do rapaz, mas um olhar ácido de Hermione fez as garotas se calarem e rapidamente sumirem do local. A mulher estendeu uma mão ao amigo, o ajudando a se levantar e assim continuando a acompanhar o grupo que agora havia alcançado as escadas da escola.
- Mas o que é isso! – um dos integrantes da comitiva dos demônios gritou quando a escada onde estavam começou a se mover.
Inabalados, Draco, Snape e Remus só deram um relance para a criatura assustada e disseram ao mesmo tempo:
- As escadas mudam de lugar! – e continuaram seus caminhos quando a escada em questão parou de se mexer.
A tensão pairava no ar vindo de todos os lados naquele grupo. Com certeza entraria na história o dia em que trouxas, demônios e bruxos se reuniram sob o mesmo teto sem a intenção de matar uns aos outros. Dumbledore deu um relance por cima do ombro antes de parar em frente a um enorme quadro onde um homem de longos cabelos escuros olhou para eles com um frio olhar negro, cruzando os braços sobre o peito largo e fazendo a armadura de batalha sair um pouco do lugar em seu corpo.
- Senha! – rosnou e o diretor deu um pequeno sorriso.
- Paz. – murmurou para o quadro que torceu o nariz em uma careta e moveu-se, cedendo passagem ao grupo. Pouco a pouco todos foram entrando na sala vastamente iluminada e foram se acomodando em cantos extremos no aposento, cada um junto ao seu povo, olhando com certa desconfiança uns para os outros. – Por favor, por favor, sem hostilidade. – pediu Dumbledore, esticando os braços para a enorme mesa no centro da sala. – E acomodem-se. Creio que teremos uma longa reunião pela frente. – as pessoas permaneceram paradas em seu lugar até que um Harry frustrado resolveu dar o primeiro passo e acomodar-se em uma das cadeiras. Draco rapidamente seguiu o exemplo do demônio e deu um sorriso torto quando uma orgulhosa Granger não deixou se intimidar e sentou-se também.
Isto foi o primeiro passo para fazer com o que os outros se movessem e logo toda a mesa estava preenchida por bruxos, demônios e trouxas. Dumbledore olhou brevemente a sua volta e deu um pequeno sorriso diante desse fato.
- Que a reunião comece. – declarou o que seria o início de um encontro que duraria horas.
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O clima de Little Hangleton nunca foi dos mais amistosos desde que ele chegou e agora, a névoa constante que cobria o vilarejo apenas parecia piorar a situação. Os olhos claros de Neville divergiram a sua atenção do casal que sentava a duas mesas a sua frente - dois viajantes que resolveram dar uma parada na cidade, pois as nuvens negras no horizonte ameaçavam uma tempestade - e se voltaram para a janela ao seu lado. Mais especificamente para a construção que ficava no final da estrada de lajotas.
A Casa da Colina, era como os locais a chamavam. E havia alguma coisa naquela casa que arrepiava todos os pêlos do corpo de Neville. O lugar por si só já amedrontava ao despontar na névoa como se fosse uma enorme e sinistra sombra. Sem contar que a sua história era extremamente tenebrosa. A família que morava na mansão um dia simplesmente foi encontrada morta pela empregada, ainda trajando as roupas do jantar da noite anterior. O caso foi investigado, óbvio, mas nenhuma explicação plausível surgiu do porque três pessoas saudáveis simplesmente resolveram morrer.
Porém, Longbottom não era tão tolo quanto alguns pensavam e pelo que conseguiu ouvir de conversas soltas de fofoqueiros da cidade e pelas pesquisas que fez nos registros da época, constatou que a morte da família havia sido causada por magia. Só que o fato mais estranho era que os Riddle eram simples trouxas, pouco amados pelos moradores da cidade por causa de sua arrogância, mas com nenhum histórico de conhecer magia ou coisa do tipo, ou ter algum propenso inimigo bruxo. Mas a história ficava pior, pois o jovem descobriu que foi nesta mesma época que começaram os acontecimentos estranhos que Goyle e Jordan relataram.
- Com licença? – o rapaz ergueu a cabeça para ver uma jovem mulher na sua frente, a mesma que estava na outra mesa pouco tempo atrás.
- Sim? – ergueu uma sobrancelha e a olhou intrigado.
- Poderia, por favor, tirar uma foto nossa? – pediu, estendendo a ele uma câmera digital a qual Neville ficou olhando como se fosse algum bicho estranho. A mulher sorriu para ele. – Basta apertar o botão aqui, depois de nos enquadrar na janelinha aqui. – explicou quando viu a expressão confusa dele.
- Amor, que tal tirarmos daqui? Assim pegamos um pouco a paisagem. – o homem ergueu-se da mesa, caminhando em direção a namorada e pegando a sua mão, a levando para perto da janela que Longbottom olhava há pouco.
Resignado, o bruxo levantou-se de seu assento e posicionou-se em frente ao casal para poder tirar a tal foto. Levou a câmera na altura dos olhos, tentando enquadrar o melhor possível os dois. Assim que eles apareceram na tela e Neville estava pronto para apertar o botão, algo pareceu brilhar no canto superior da câmera. O jovem lançou um olhar por sobre a máquina e mirou janela afora. Era impressão sua ou havia luz vinda de uma das janelas da Mansão Riddle?
- Qual o problema? – a garota perguntou e o bruxo sorriu para ela, ajeitando novamente a câmera e rapidamente tirando a foto, entregando a máquina ao casal e recolhendo o seu casaco, saindo do pub antes que eles pudessem dizer obrigado.
A névoa densa quase o impossibilitava de ver o caminho direito e o seu subconsciente se perguntava se esta era a melhor coisa a se fazer. Podia ser qualquer coisa dentro daquela casa, desde uma ilusão de ótica a um grupo de crianças se desafiando para ver quem era o mais corajoso de entrar na mansão. Perdido em pensamentos, só se deu conta dos seus arredores quando já estava em frente ao portão de entrada da casa que estava trancado. Olhou para os muros que seguiam ao longo do terreno e soltou um suspiro desolado. Certo que ele poderia usar magia, mas não queria levantar mais suspeitas do que estava levantando por estar naquele lugar. Sem contar que o que quer que fosse que estivesse lá dentro, ele não queria alertá-lo com um feitiço qualquer.
Com alguma dificuldade conseguiu pular o muro, fazendo uma nota mental sobre deixar um pouco as estudas de Hogwarts de lado e começar um treino físico, pois apostava que Malfoy e os outros teriam saltado aquela parede sem perder o fôlego. Bateu a poeira das calças que se sujaram ao pousar de joelhos na terra fofa e ergueu a cabeça confiante, começando a seguir pelo terreno atento a qualquer barulho, mas tudo estava silencioso, quieto demais na opinião de Neville. Isto apenas fez um arrepio descer pela sua espinha, acompanhado de um acelerar das batidas de seu coração ao ouvir um trovão ressoar ao longe, a luz do raio iluminando as formas distorcidas das plantas naquele jardim abandonado.
Alguns minutos de caminhada e o jovem encontrava-se na porta da cozinha, sua mão trêmula indo na direção da maçaneta e a apertando. Lentamente empurrou a porta que rangeu nas dobradiças e entrou na casa, tirando do bolso da calça o pequeno aparato trouxa que sempre o acompanhava nestas expedições: uma lanterna. Deu um sorriso, se Draco o visse usando maquinário trouxa em vez de recursos mágicos em uma missão com certeza teria uma crise. Lançou o feixe de luz ao seu redor, começando a iluminar corredores por onde passava. Uma sombra pareceu se mexer as suas costas e Neville virou-se bruscamente, apontando a lanterna para onde ele tinha visto o vulto. Procurou por mais alguns segundos qualquer suspeita de movimento, mas nada aconteceu.
Voltou a andar e nem mesmo um minuto depois uma outra sombra pareceu se mover diante da luz de outro raio que caiu do céu escurecido, sendo seguido por este movimento um ruído suspeito. O bruxo estacou no lugar, começando a se perguntar o que diabos tinha pensado ao decidir entrar naquela casa simplesmente para averiguar uma janela iluminada. Nada muito lógico, com certeza. Lee e Goyle no seu lugar jamais teriam feito tal coisa, primeiro eles planejariam muito antes de arriscar-se dessa maneira. Estava começando a achar que tinha sido uma má idéia aceitar a missão de espionar, ele não foi feito para essas coisas, ainda mais que estava no território inimigo sem ter a mínima idéia da dimensão do perigo que podia estar correndo.
Apertou firmemente a lanterna entre os dedos e decidiu seguir caminho, não deixaria o seu medo sobrepor-se a sensação de que algo grande estava prestes a acontecer. Desta vez nenhuma sombra se mexeu enquanto ele continuava a andar, mas mais ruídos surgiram vindos do andar superior. Silenciosamente começou a subir a velha escada em direção ao barulho, o coração batendo descompassado em seu peito e parecendo ecoar em suas orelhas e pela casa. Neville chegou ao andar superior e sentiu o seu sangue gelar quando ouviu o que pareceu ser um sibilo. Grudou o corpo contra a parede e apagou a lanterna ao mesmo tempo em que notou mais um vulto se arrastando nas sombras e em direção a um quarto iluminado no final do corredor.
- Ah. – uma voz rouca veio do quarto e o ex-grifinório prendeu a respiração. – Nagini acabou de me dizer que temos visita. – o rapaz inclinou um pouco a cabeça para ver quem estava no aposento, mas tudo o que conseguiu distinguir foi uma criatura encapuzada e uma cobra enorme.
- Eu sinto o cheiro! – uma outra voz guinchada entrou na conversa. – Eu sinto o cheiro de bruxo! – disse esganiçada e Neville arregalou os olhos, saindo do seu esconderijo e começando a correr.
O rapaz desceu as escadas às pressas, não se importando mais em atrair a atenção de alguém, apenas se importando em sair dali o mais rápido possível. Eles sabiam, sabiam da sua presença e todos os nervos do seu corpo gritavam para ele fugir. Continuou correndo escada abaixo, pulando os três últimos degraus e caindo desajeitando sobre o tapete velho e comido pelas traças. Deu uma olhada por sobre o ombro, sentindo seus músculos paralisarem por um momento ao ver a enorme cobra deslizando pelos degraus em sua direção. Não permitiu que o seu corpo ficasse parado por muito tempo, pois logo voltou a correr. Porém, quando já estava chegando perto da porta de saída, seu caminho foi bloqueado por uma massa sólida que se postou na sua frente.
Olhos azuis miraram apavorados os vermelhos que brilhavam no escuro e Neville começou a girar para todos os lados a procura de uma rota de fuga alternativa, mas apenas encontrando em seu caminho sombras que agora tomavam forma o impedindo de escapar.
- Mas o que temos aqui? – veio o sibilar da criatura a sua frente. – Um bruxo perdido no ninho das cobras. – dedos alongados e frios seguraram firmemente o queixo do rapaz. – Interessante. – Longbottom, no entanto, não conseguia concordar com o sujeito, visto que tudo mais o que ele queria no momento era sumir dali. Isto se as suas pernas bambas deixassem.
- Vamos comê-lo! – uma das sombras sugeriu e o bruxo teve certeza que sofreu uma parada cardíaca ao ouvir isto.
- Não! A voz sibilada gritou. – Ele não é forte o suficiente, mas vai trazer para mim aquele que é. – gargalhou de uma maneira medonha. – Volte pequenino, volte para o seu povo e diga a eles que Lorde Voldemort está declarando guerra as três raças.
Continua...
