Capítulo 8
Instinto Canino
Começou como uma leve pontada, um imperceptível fisgar, mas à medida que os sons na sala começaram a ecoar com mais força a pequena fisgada foi crescendo, transformando-se em um latejar constante que culminou em uma enxaqueca dos infernos. Draco fechou os olhos com força, usando as palmas das mãos para comprimi-los na esperança que tal gesto acabasse com o seu sofrimento. Ao seu lado, Harry lançou um olhar preocupado ao loiro, desviando a sua atenção dele quando ouviu um grito exaltado ecoar na sala mais uma vez. Malfoy gemeu diante do som estridente e rangeu os dentes pedindo a qualquer entidade existente por paciência.
Estavam há seis horas dentro daquele maldito lugar. Seis horas com cada grupo discutindo um com o outro os seus pontos de vistas sobre a guerra, lançando acusações aqui e acolá. Eles só não tinham saído no braço porque Dumbledore teve a presença de espírito de enfeitiçar a sala para impedir qualquer tipo de violência física causada por ânimos quentes. Por inúmeras vezes o loiro tentou encerrar a balbúrdia e entrar finalmente no assunto que era a causa da reunião, mas durante todas as suas tentativas sempre surgia um idiota que tinha que soltar algum comentário depreciativo para cima da outra raça e assim recomeçar a zona. E com isso ele estava começando a perder seu escasso controle.
- Harry… - gemeu o nome baixinho, olhando por entre os dedos o grupo de demônios que discutia avidamente com os trouxas e os bruxos. Entre eles os mais animados eram Black e Olho-Tonto. Interessante, dois doidos varridos discutindo era uma coisa que não se via todo dia, pensou o jovem. – Os faça parar. – implorou e Potter resolveu apiedar-se do bruxo.
Suspirando o líder dos demônios voltou-se para os vários grupos, mirando cada um em particular. Moody e Sirius continuavam discutindo com Granger e Finningan intrometendo-se a cada segundo. Snape parecia que iria matar um com o olhar enquanto Dumbledore tentava, em vão, apaziguar as coisas. Remus, sentado do outro lado de Draco, apenas observava tudo em silêncio sussurrando uma coisa ou outra de minutos em minutos no ouvido de Malfoy, arrancando acenos positivos de cabeça deste.
Fechando o punho firmemente Harry socou a mesa com força, arrancando da madeira um grande ruído seco que conseguiu chamar a atenção de alguns para ele. Contudo, Sirius e Olho-Tonto ainda o havia ignorado.
- BLACK! – rosnou e o demônio lobo virou-se num pulo em direção ao seu comandante. – Sente-se! – Sirius ainda lançou um último olhar a Moody, debatendo se obedecia a Harry ou continuava a discutir com o bruxo. – Agora! – o aviso final em tom de ameaça fez o homem decidir-se rapidamente e sentar-se em seu lugar.
- Obrigado. – agradeceu Draco em um tom baixo que somente Harry ouviu. – Agora que todo mundo finalmente resolveu calar a boca… - continuou venenoso, lançando um olhar de desagrado para cada um na sala. Alguns se encolheram diante da mirada feroz das íris acinzentadas, mas outros se mantiveram firmes no lugar e desafiadores, como Granger e Black, por exemplo. – podemos resolver o que viemos resolver aqui? Potter queira fazer o favor. – apontou para Harry com a mão e depois fez um gesto largo com a mesma em direção ao grupo de pessoas em torno da mesa.
- O quê? – o demônio perguntou um pouco pasmado. Os bruxos convocavam a tal reunião e era ele que tinha que presidi-la? – Deixa de ser folgado Malfoy, você é o anfitrião. – argumentou. Não tava a fim de ficar direcionando a palavra a aqueles bruxos arrogantes e muito menos perder o seu tempo tentando explicar alguma coisa aos trouxas idiotas.
- Potter, não teste a minha paciência. Você teve a maldita visão então não vejo ninguém melhor para explicar a situação do que você! – respondeu Draco entre dentes, com uma expressão no rosto que dizia claramente que se Harry não começasse a falar a situação iria ficar feia.
- Você teve uma visão? – Hermione intrometeu-se e rapidamente dois pares de olhos brilhantes e irritados caíram sobre ela. – Você pode prever o futuro?
- É mais complicado do que isso. – explicou Harry, mas Granger o ignorou.
- Essa coisa de vidência é história pra criança dormir. Ninguém pode prever o futuro, é algo extremamente incerto e imprevisível. Você não pode ter visões! – afirmou cética e Potter franziu as sobrancelhas.
- Diga isso a elas então. – retrucou azedo, usando a ponta do dedo indicador para dar uma leve cutucada na têmpora, como se estivesse mostrando que a fonte da sua vidência vinha dali. – De qualquer maneira – falou antes que Hermione pudesse abrir a boca para continuar argumentando. – o que eu previ é exatamente o que está acontecendo no momento. Uma nova força surgiu, um novo adversário que aparentemente não anda muito satisfeito com as três raças e pretende nos extinguir. Creio que os ataques que sofremos recentemente é uma prova de que o novo inimigo é extremamente poderoso e…
- Espere um momento! – Olho-Tonto interrompeu e Harry rosnou entre dentes sabendo que quando o velho auror abria a boca coisa boa não viria dela. – Até o que sabemos, do que nos foi relatado, somente nós, bruxos e trouxas, sofremos os tais ataques. Não há nenhuma ocorrência de que os demônios tiveram a mesma infelicidade. – lançou um olhar acusador ao grupo de demônios que rapidamente eriçaram diante da implicação.
- Harry foi atacado quando estava em Londres, os trouxas estão de prova. – Sirius prontamente começou a defender o seu povo e o seu afilhado. Afinal, uma acusação contra os demônios era uma acusação direta contra o seu líder, já que ele era o responsável pela raça.
- Isto não significa nada Black. Poderia ser uma armação muito bem bolada para nos fazer acreditar que vocês também são as vítimas. – Kingsley opinou e deu um sorriso torto ao ver o rosto do demônio ficar levemente corado.
- Como você pode nos acusar dessa maneira quando tudo que Harry fez até o momento foi ajudar? Meu afilhado não tinha a menor obrigação de avisá-los sobre a nova a ameaça e…
- Isso se realmente existir uma nova ameaça. Como dito antes, vidência é uma ciência inexata, não pode ser confiável. – novamente Moody intrometeu-se o que fez Sirius erguer-se de supetão da cadeira diante da prepotência do bruxo. Harry sabia prever o futuro desde que começou a falar e não seria um bruxo desmiolado que iria contestar o dom do seu afilhado. O mesmo dom que tinha ajudado este mesmo auror e seu grupo várias vezes. Eram um bando de ingratos.
- Eu asseguro Moody que os dons do Potter não são uma fraude como a desvairada da Sibila. – Draco resolveu entrar na conversa antes que Black pulasse na mesa para partir para cima de Alastor.
- Claro que você o defende não é mesmo? Como você não iria defender seu adorável marido… traidor filho-da-mãe. – cuspiu as palavras com repulsa e Malfoy ergueu-se de sua cadeira espalmando as mãos com força sobre a mesa.
- Como disse? – sibilou por entre os lábios, com o seu rosto retorcido em uma expressão de extremo desagrado. – Devo lembrá-lo Moody que lançar tal acusação sobre seu oficial superior sem provas é pedir para ir a uma corte marcial… sem contar que a ofensa explícita é razão o suficiente para eu lhe jogar nas masmorras por desacato. Você não pode ir com a minha cara Olho-Tonto, mas eu sugiro que da próxima vez pense antes de abrir a boca se não quiser que a sua carreira de auror termine aqui. Estamos entendidos? – sua voz saiu gélida ao mesmo tempo em que os olhos tempestade não desgrudaram um segundo do rosto deformado de Moody. – Estamos entendidos? – repetiu com mais força quando o outro homem não respondeu.
- Sim senhor. – resmungou com os lábios parcialmente comprimidos, aquietando-se em seu lugar.
- Quero lembra-lhes senhores que o meu estado civil no presente momento não é de interesse de ninguém e que isto não afeta e nunca afetou as minhas decisões. Então eu sugeriria que deixassem a minha vida pessoal de fora da discussão. Estamos com um problema maior aqui, um novo inimigo surgiu do nada e têm aliados que desconhecemos. Criaturas poderosas pelo que Potter e eu pudemos testemunhar em Londres alguns dias atrás e se este novo adversário está disposto a nos destruir, vamos ao menos lhe dar muito trabalho antes dele conseguir alguma coisa. Esta guerra perdura há décadas, mas diante da nova adversidade creio que não vai doer colocar um pouco as nossas diferenças de lado e nos unir diante desta nova ameaça.
- Mas realmente precisa desta mobilização toda por causa de uma previsão do Lorde Potter? – Hermione argumentou. Embora ela estivesse combatendo este novo inimigo há mais tempo que os outros, pois ele resolveu atacá-los primeiro, com certeza os considerando o lado mais fraco e fácil de eliminar, ainda sim achava que era precipitado negociar uma aliança quando nem os demônios e nem os bruxos sabiam direito com o que estavam lidando.
- Acredite Granger, eu já tive experiências de primeira mão com as visões do Lorde Potter para dizer com certeza que elas são tão catastróficas quanto ele prega e geralmente muito precisas.
- Você parece confiar muito em um homem com o qual costuma travar batalhas de vida ou morte, heim. Por quê? – perguntou Granger desconfiada e Harry rolou os olhos. Por acaso ela não estava prestando atenção na conversa, nas acusações de Moody?
- Oi, humana! Por acaso você não ouviu o que o Olho-Louco disse? – resmungou Potter, apontando para um Alastor calado em uma borda da mesa.
- Sim. – Hermione respondeu hesitante. – Mas eu resolvi ignorar tal comentário diante do absurdo que ele representa. Sinceramente, você e o Malfoy unidos em matrimônio é a mesma coisa que tentar tornar homogenia uma mistura de água com óleo.
- Pois pode acreditar que Malfoy e eu quebramos todas as leis da química, física e da lógica. – respondeu Harry dando de ombros de maneira displicente e observou divertido os olhos castanhos ficarem largos pouco a pouco ao mesmo tempo em que Hermione empalidecia consideravelmente.
- O que… - a mulher virou-se para Draco que apenas desviou o olhar diante da confusão estampada no rosto dela.
- É uma longa história que eu já tive que explicar uma vez e eu não estou a fim de repetir. Afinal, não lhe devo satisfações. – silêncio seguiu-se depois dessa resposta, minutos de quietude com cada um que ainda não sabia da história processando a novidade.
- Há quanto tempo? – Hermione perguntou depois de uns vinte minutos. Se fosse algo recente ela teria que admitir que era uma situação muito estranha dois inimigos jurados se unindo de tal maneira. Será que foi um acidente ou coisa parecida a realização desse casamento?
- Um ano. – responderam Potter e Malfoy ao mesmo tempo.
A mulher apoiou-se no encosto da cadeira como se procurando algum conforto nele e encarou os dois outros líderes totalmente abismada. Um ano? Eles estavam juntos há um ano? Isso já passava longe de ser um acidente. E, mesmo assim, continuaram guerreando diante dessa mudança tão brusca em suas vidas? Era, com certeza, o casal mais estranho que já vira. E se estavam mantendo este segredo por tanto tempo, por que só agora que ele foi revelado?
- Ah minha jovem, é uma história interessante. – a voz calma de Dumbledore a despertou de suas divagações. – Alastor sugeriu um contrato mágico entre os três líderes para assim não haver um risco de traição, mas o Lorde Potter nos avisou que não podia fazer juramentos de fidelidade a mais ninguém além de seu escolhido para conjugue. Foi então que diante de algumas acusações e desconfianças sobre se ele era realmente a favor desta nossa aliança que o status de casado do jovem Potter – Harry soltou um riso de escárnio diante do jovem proferido pelo diretor. – com o jovem Malfoy.
- Contrato mágico? – Granger franziu as sobrancelhas, a história do casamento rapidamente esquecida diante da nova vertente que o assunto tomou. Como assim contrato? Olhou desconfiada para Draco que ainda mirava um ponto qualquer na parede, completamente desinteressado, e depois voltou a sua atenção para Harry, que lhe deu um sorriso escarninho. – Não fui informada sobre nenhum contrato Malfoy.
- Meras formalidades. – Malfoy fez um aceno de mão como se dispensando a importância do assunto. – É para a nossa segurança.
- Sua segurança? – rebateu contrariada.
- A segurança dos três povos, Granger. – explicou-se quando percebeu que a mulher achou que ele estava falando somente dos bruxos.
- Não gosto disso. – Seamus sussurrou para a amiga. – Quem nos garante que tal contrato é realmente para evitar um motim? Pode ser uma cilada. – Hermione assentiu com a cabeça concordando com a posição de Finningan.
- Preciso pensar sobre isso. – declarou e Draco empertigou-se um pouco em sua cadeira.
- Como assim pensar? Achei que a situação estava mais do que clara. – rebateu. Granger pensar no assunto poderia levar dias e mais uma outra reunião para ela poder falar a que decisão chegou. O que poderia gerar mais discussões e aí seria um inferno. E ele não estava com saco para isso.
- Não é todo dia que me propõem uma trégua Malfoy, e muito menos um contrato de lealdade mágica para podermos lutar contra um novo inimigo. Então me desculpe se eu estou meio cética diante deste assunto, ainda mais que o inimigo em si é algo que foi revelado pelas supostas visões do Potter…
- Hey! – Harry interrompeu. – Supostas uma vírgula, são muito verdadeiras, muito obrigado.
- Então tudo ainda está um pouco confuso para mim. Potter pode ter aceitado facilmente o acordo de união, mas eu ainda não esqueci tão facilmente todas as vezes que vocês tentaram nos aniquilar. Me perdoe então se não estou depositando cem por cento da minha confiança em vocês. – finalizou e Draco iria abrir a boca para discutir mais sobre a decisão dela quando Dumbledore o interrompeu.
- Entendemos perfeitamente srta. Granger. – o loiro rosnou entre dentes diante da intromissão do bruxo mais velho. – Creio então que podemos encerrar a reunião por aqui? – continuou, dando um relance para uma das janelas da sala e vendo que o céu já estava escuro. Haviam ficado metade do dia trancados ali dentro. – Está tarde. Se os senhores não se importarem, terei aposentos preparados para passarem à noite conosco. – demônios e trouxas entreolharam-se desconfiados. Passar a noite na base do inimigo era muito risco.
- Ah, deixem de ser idiotas. Acha mesmo que depois de tudo o que conversamos aqui cometeríamos a burrice de atacá-los em seu sono? – Draco resmungou. – Até porque, as únicas pessoas que serão atacadas aqui serão duas amebas vermelhas. – murmurou baixinho ao lembrar-se da cena que ocorreu horas atrás.
Relutante eles concordaram em permanecer em Hogwarts e Dumbledore abriu um grande sorriso diante da decisão.
- Pois bem então – o diretor ergueu-se de seu assento, incitando alguns outros a fazerem o mesmo. – Se vocês fizerem à gentileza de me acompanhar senhores, os levarei até seus aposentos. – continuou com um sorriso alargando-se em seu rosto marcado pelo tempo. Hesitantes, um a um dos integrantes das três raças começaram a seguir o homem para fora da sala, ainda desconfiados das ações e intenções um dos outros. No fim somente sobrou dentro do aposento Harry e Draco.
O loiro ergueu uma sobrancelha indagadora para o demônio. Por que ele simplesmente não tinha seguido Dumbledore? Iria perder o tour por Hogwarts se ficasse ali, pois com certeza o doido do diretor iria com prazer falar durante todo o caminho sobre a história do castelo e outros contos da época em que ele era apenas um mero professor.
- Se ficar aqui eu não vou depois acompanhá-lo para o seu quarto. Devia ter aproveitado a viagem. – resmungou, erguendo-se da cadeira e começando a arrumar os arquivos, mapas e dados que foram usados na reunião. Poderia deixar este trabalho para os elfos domésticos, mas precisava manter a mente e as mãos ocupadas para não esganar Potter que estava com um sorriso irritante estampado no rosto.
- Se eu não te conhecesse diria que você está rejeitando a minha adorável companhia. – provocou o demônio, aproximando-se de Malfoy para poder tirar do caminho uma mecha rosada do cabelo que estava caindo sobre os olhos do rapaz. Draco rapidamente reagiu a este gesto, recuando num pulo e estapeando a mão do homem para longe.
- Que perspicaz. – rebateu azedo, a sua dor de cabeça ainda não tinha passado e por causa disso seu humor não estava dos melhores. – Faça como quiser então, Potter, mas eu irei me retirar. Boa noite. – desejou, pronto para sair da sala, mas Harry o segurou pelo pulso o prendendo no lugar.
- Só por curiosidade… onde eu serei alojado? – indagou com ambas as sobrancelhas erguidas.
- Ala norte, onde geralmente ficam os dormitórios dos soldados. É uma parte do castelo que não é usada para fins escolares.
- E onde ficam os seus aposentos? – continuou e já pôde adivinhar a resposta diante do sorriso sarcástico no rosto de Draco.
- Ala sul. – Harry amarrou a cara e o sorriso no rosto do loiro aumentou. – Por que Potter? Você realmente pensou que iria dormir comigo depois de tudo o que fez nos últimos dias? – o demônio nada respondeu e o jovem bruxo riu com escárnio. – Você pensou. – virou-se em direção ao moreno, acariciando de leve a bochecha dele. – Que gracinha. – zombou, logo depois dando suaves tapinhas no rosto dele. – Aproveite a estadia em Hogwarts, Potter. – terminou e soltou seu pulso da mão do homem, sumindo rapidamente da sala sem dar ao menos uma chance a Harry para reagir.
Remus fechou suavemente as portas da enfermaria atrás de si, tentando ignorar com veemência o olhar preocupado e irritado de Madame Pomfrey. Logo quando a reunião deu-se por encerrada o homem foi procurar a enfermeira na esperança que ela curasse os ferimentos causados pela briga entre Moony e Sirius, e não ficou surpreso ao ser recebido com a usual expressão de consternação que a mulher sempre lhe dava cada vez que ele aparecia na ala hospitalar depois da lua cheia. Com um suspiro voltou a sua atenção para a perna antes ferida e sorriu um pouco ao ver que tudo o que restava do machucado era a mancha de sangue na calça.
- Você ainda não me disse como conseguiu este corte. – Lupin sentiu o coração vir a garganta ao ouvir a voz ecoar no corredor vazio. Com os olhos largos virou-se na direção do som para ver o homem que acabava de sair das sombras, as roupas negras oferecendo uma bela camuflagem dentro do corredor pouco iluminado.
- Severo, não me assuste assim. – falou o homem colocando uma mão sobre o peito para acalmar seu coração aos pulos.
- Lupin, se eles te maltrataram de alguma forma você precisa informar isto ao Malfoy… - Snape começou com o seu típico tom arrastado de voz, como se estivesse repreendendo um de seus alunos. Porém, diferente de seus estudantes, Remus não recuou aterrorizado diante do intenso olhar negro sobre isso, ao contrário, apenas deu um leve sorriso ao homem agradecendo silenciosamente pela preocupação dele.
- Draco tem muitas coisas em mente no momento, não precisamos preocupá-lo com banalidades. Além do mais, Papoula me curou, veja. – ergueu a barra da calça, mostrando o ferimento inexistente na perna e Snape soltou um grunhido de leve, cruzando os braços firmemente sobre o peito.
- Típico grifinório. – murmurou contrariado, começando a andar pelo corredor e passando por Remus para poder seguir o seu caminho. – Mas da próxima vez que eu encontrar o Black arrancarei o couro dele. – sussurrou para o homem antes de sumir em uma esquina.
Remus arregalou um pouco os olhos e virou-se depressa para poder dar aquele senhor sermão em Snape. Como é que ele tinha a ousadia de ler a sua mente dessa maneira? Pior! Como pôde ter baixado tanto a sua guarda a ponto de Severo conseguir usar Oclumência com ele? Porém, quando foi abrir a boca para reclamar o outro professor já tinha sumido nas profundezas do castelo, deixando o lupino sozinho novamente.
- Agora entendo o motivo do soco e da joelhada. – o coração antes calmo de Remus saltou novamente e ele soltou um grunhido frustrado. Hoje todo mundo tirou o dia para matá-lo do coração? Virando-se irritado o bruxo sentiu as pernas fraquejarem um pouco ao ver-se sendo secado por dois orbes azuis brilhantes.
- C-como? – gaguejou bestamente, pigarreando na vã esperança de fazer a sua voz sair normal. – Como assim?
- Não se lembra do incidente em meu quarto quando você tão bondosamente me bateu em partes… privadas? – Sirius desencostou-se da parede e caminhou a passos lentos e predatórios em direção a Lupin, parando a poucos centímetros de distância do outro homem.
- E daí? – Remus perguntou curioso, não entendendo onde o demônio queria chegar com esta história. Ele estava apenas se defendendo do ataque nada inocente de Black. – O que isso tem a ver com o Severo?
- Você é tão ingênuo. – Sirius alargou o sorriso, mostrando vários dentes brancos para o bruxo, que recuou um passo diante daquele gesto tão intimidador. – O projeto de demônio morcego quer você como parceiro. E parece que você quer o mesmo. Me diga mestiço, estava tentando proteger a sua castidade naquele dia? – provocou, aproximando-se mais do homem e invadindo perigosamente o seu espaço pessoal. Remus recuou mais ainda, reunindo todas as suas forças para impedir as suas pernas de girarem e correrem o máximo que poderiam para longe dali.
- Eu não vou me dignar a responder esta pergunta. – retrucou petulante, cruzando os braços sobre o peito na vã esperança de tentar impor alguma autoridade no demônio maior do que si e mais amedrontador, ainda mais depois que Sirius torceu os lábios exibindo perigosos caninos brancos. – Até porque a minha vida pessoal, Sr. Black, não lhe diz respeito.
- Vejo que a resposta é sim. – o tom saiu baixo e ameaçador e o lobisomem franziu a testa tentando compreender qual era o problema do outro homem a sua frente. Primeiro o atacava deliberadamente durante uma noite de lua cheia simplesmente "porque estava entediado", segundo as suas palavras. Atitude insana na opinião de Lupin. Depois o hospedava em seu próprio quarto para ele poder recuperar-se de seus ferimentos e, por fim, ficava intrometendo o focinho onde não era chamado querendo saber se ele estava dormindo com Snape ou não. Quem ele pensava que era afinal?
- Eu não vou perder o meu tempo aqui discutindo com você. – fez pouco caso do demônio e deu as costas para ele com toda a intenção de ir para os seus aposentos e afundar-se na banheira de água quente que os seus músculos doloridos imploravam para conhecer.
Deu um passo para afastar-se do outro homem, mas percebeu que não conseguia se mover por causa de um braço atravessado em seu tórax o prendendo no lugar. Surpreso diante do contado tão íntimo, Remus arregalou os olhos e sentiu um calor subir para as suas bochechas quando reconheceu a presença de Sirius atrás de si e o peito do homem colar contra as suas costas. O que ele pensava que estava fazendo?
- Black, devo lembrá-lo do que aconteceu da última vez que você me agarrou a força? – o lupino estava começando a perder a paciência diante das atitudes confusas do demônio.
Uma risada baixa e rouca soou em seu ouvido, fazendo um arrepio descer a sua espinha enquanto o braço contra o seu peito o apertava ainda mais de encontro ao corpo de Black, fazendo o rubor em seu rosto ficar mais intenso. Seu corpo retesou-se todo e seu coração pareceu parar de bater por incontáveis segundos quando uma língua molhada e quente deslizou desde a base de sua nuca até o lóbulo de sua orelha, o fazendo prender a respiração em expectativa. Mas o que diabos estava acontecendo?
- Black! – sua voz saiu estrangulada e num reflexo ele virou-se para poder encarar nos olhos aquele doido varrido. Porém, percebeu que foi um erro mover-se, pois quando deu por si íris intensamente azuis estavam bem próximas ao seu rosto, próximas demais para o seu gosto. Seu coração neste momento sofreu uma parada cardíaca, seguida por uma respiratória, quando viu lábios rosados curvarem-se em um sorriso que era uma mistura de malícia e sensualidade.
- Avisa ao morcego humano – Sirius começou em um tom suave, quase sussurrado, e Remus segurou-se para não fechar os olhos e soltar um gemido de prazer diante daquele tom de voz sexy. – que a partir de hoje ele tem concorrência.
- P-pensei que você não se misturava com mestiços. – gaguejou quando por uma fração de segundo ele lembrou-se que em algum momento da vida havia aprendido a falar.
Sirius deu mais um daqueles sorrisos que seria capaz de fazer qualquer criatura viva e racional se derreter completamente e cair de joelhos aos pés do demônio declarando devoção eterna e Remus sentiu suas pernas fraquejarem. O que infernos estava acontecendo com ele? Por que estava se deixando levar pelo charme do demônio? Será que era algum feitiço? Por um momento tentou desvencilhar-se dos braços de Black, mas os seus membros pareciam tão pesados e seus sentidos pareciam estar sendo bombardeados por diversas sensações diferentes. Além do mais, estar ali era tão, tão bom. Ele era tão quente e cheiroso, o que o fazia ter vontade de enterrar o nariz no peito largo e aspirar a fragrância que o homem emanava.
Estava quase fazendo isso quando num estalo ele pareceu recobrar os sentidos e com força afastou-se do moreno, olhando com olhos largos e rosto rubro para a expressão vitoriosa no rosto de Sirius.
- O que você fez comigo? – exigiu, já começando a se irritar com o sorriso malicioso no rosto do outro.
- Nada. – respondeu Sirius inocente, piscando um olho travesso para o lobisomem. – Bem Sr. Lupin, meu recado está dado. Tenha uma boa noite. – e com isso deu as costas ao bruxo e sumiu nas sombras do corredor, deixando um Remus atordoado para trás.
O homem passou uma mão trêmula por entre os cabelos castanhos e soltou um longo e sofrido suspiro, tentando compreender o que tinha acontecido há minutos atrás. Seu corpo ainda estava quente por causa da proximidade de Sirius e seus sentidos lupinos ainda pareciam nublados e sensíveis devido a presença do homem. Recuperando um pouco da força nas pernas começou a tomar o caminho em direção ao seu quarto com apenas um pensamento na cabeça, de que agora ele precisaria de um bom banho frio.
O cheiro pútrido invadiu as suas narinas sensíveis e ele quase sentiu ânsias de vômito diante do fedor, porém, mesmo assim, incitou os seus pés a continuarem caminhando por aquele labirinto escuro e desconhecido. Sons ao longe, mais semelhantes a guinchos aterrorizados, açoitaram os seus ouvidos e ele retesou os ombros diante da dor que sentiu por causa do barulho estridente. Contudo, ainda sim, continuou a caminhar. Seu coração batia intenso no peito, sua respiração estava descompassada, e os barulhos e cheiros que invadiam os seus sentidos e o atordoavam não eram o suficiente para fazê-lo desistir de sua missão. Ele precisava seguir em frente.
A ponta de sua bota pareceu prender-se contra uma raiz grossa na terra, quase o fazendo tropeçar e ir de cara no chão. Foi quando tentou recobrar o balanço que ele percebeu como o seu corpo doía. Cada músculo tenso latejava sob a sua pele e a sua visão esquerda parecia um pouco turva. Ergueu uma mão ao olho e passou o dedo sobre ele, a recuando e percebendo que sangue pingava das pontas dos seus dedos. Deu uma inspirada profunda de ar e notou que o cheiro de sangue era o que mais predominava naquele local, e não era apenas o seu cheiro. De outros também.
Um grito agonizado ecoou no ar, algo sofrido, aterrorizado e dolorido e seu peito pareceu que ia explodir de pavor. Conhecia aquela voz. Conhecia bem demais. Suas pernas cansadas mexeram-se com mais força, começando uma corrida desesperada. Outro grito cortou o ar e ele forçou-se a correr mais e mais rápido, ignorando totalmente seus ferimentos, as raízes no chão que insistiam em atrasá-lo e o labirinto que eram aqueles pedaços esquecidos de pedras cravados na terra.
Luz começou a iluminar a escuridão à medida que ele aproximava-se do seu destino. Barulhos, sons de vozes, gemidos, cheiro de morte pareciam ficar ainda mais fortes à medida que ele se aproximava. Outro grito de dor cortou o frio da noite e o seu coração veio a boca quando ele finalmente chegou ao seu destino.
Uma risada sinistrar soou naquele lugar fúnebre, fazendo arrepios descer por sua espinha. Vozes abafadas eram ouvidas a sua volta, mas ele não prestava atenção em nada, pois a sua concentração estava toda voltada para o corpo no meio daquela roda. Para a figura caída e derrotada no chão. Sangue vermelho vivo escoava de ferimentos graves e profundos ocasionados na pele pálida, formando uma poça macabra no chão diante do contraste que as cores causavam. Luzes refletiam no cabelo claro enquanto ele se aproximava lentamente da criatura.
Cansado deixou-se cair de joelhos e com as mãos trêmulas virou o corpo, deparando-se com olhos largos e aterrorizados. Os lábios pálidos mexiam-se lentamente, formando palavras que ele não conseguia ouvir diante do zumbido em seus ouvidos, ou decifrar por causa das lágrimas em seus olhos. Por que ele? O que ele esperava conseguir com isto?
- Agora eu sou perfeito. – a voz sibilada soou perto de seu ouvido enquanto uma mão gelada depositava-se sobre o seu braço ferido. – Graças a ele. – completou com um tom de satisfação, soltando outra risada macabra.
Novamente os lábios sem cor mexeram-se, chamando a sua atenção enquanto as íris claras pareciam a cada segundo perder o brilho. O que ele dizia? O que ele estava tentando dizer? Voltou toda a sua atenção para ele, aproximando-se mais do rosto tão belo tentando captar e gravar cada detalhe dele.
-… to. – conseguiu discernir diante do turbilhão que estava em sua mente.
-… quê? – sua voz saiu fraca e estrangeira.
- Eu… sinto muito. – e tudo ficou escuro.
Harry acordou num salto, sentando-se bruscamente na cama e com um grito entalado na garganta. Olhou a sua volta com os olhos largos e assustados enquanto o seu peito subia e descia intensamente a procura de ar. As batidas de seu coração ecoavam em suas orelhas e o rosto pálido, o suor frio e as mãos trêmulas eram claro indício de o que quer que ele havia sonhado não foi uma coisa boa. O problema era que ele não se lembrava do que havia sonhado. Apenas se lembrava das sensações que agora o oprimiam e martelavam na sua cabeça, gerando uma angústia sufocante e um desejo insano de procurar refúgio em apenas um lugar.
Apressado jogou as cobertas que o cobria em algum canto do chão do quarto e atravessou o dormitório que dividia com os outros soldados em passos largos e silenciosos, chegando a saída em meros segundos. Ainda não conseguia raciocinar direito, sua mente ainda estava extremamente abalada pelo pesadelo, mas seu lado demoníaco parecia clamar insistentemente por alguma coisa, por algo, e ele não iria deixar de ouvi-lo.
Como um dos fantasmas de Hogwarts, Harry cruzou o castelo de maneira silenciosa e despercebida, chegando às escadas moventes e não se abalando nem um momento quando elas trocaram subitamente de lugar. Não conhecia a construção, poderia ser perder no meio daquele mar de corredores, mas, estranhamente, seu subconsciente sabia para onde estava indo embora ele mesmo não soubesse. Os pés descalços mal tocavam a pedra fria diante da pressa que estava o demônio e quanto este finalmente chegou ao seu destino pareceu acordar do transe em que se encontrava.
Surpreso, Potter arregalou um pouco os olhos verdes quando se viu em frente a uma pesada porta de carvalho, não sabendo como tinha ido parar ali. Hesitante ergueu um punho e socou a madeira com força, esperando impaciente para quem estivesse do outro lado vir atendê-lo. Poucos minutos se passaram até que a porta se moveu, revelando o rosto sonolento de Draco.
- Potter o que você… - mas não terminou de resmungar, pois logo Harry empurrou a porta com força, avançando sobre o loiro e o abraçando apertando, o beijando com sofreguidão.
- Draco, Draco, Draco… - começou a repetir como um mantra enquanto passeava as mãos pelos cabelos platinados e enterrava o nariz no ombro desnudo do rapaz, onde a sua marca de posse estava.
- Harry? – chamou desconfiado, afastando-se um pouco do demônio para poder observá-lo direito. O rosto de Potter estava rubro, as pupilas dilatadas, deixando apenas uma fina linha verde em volta do círculo negro, sem contar que ele ofegava como se tivesse corrido uma maratona. Estranho, nunca tinha visto o lobo assim.
Ao ouvir o seu nome sendo chamado pelo marido, Harry apertou o bruxo com mais força em seu abraço, voltando a beijá-lo intensamente, quase arrancando o fôlego do loiro. Precisava senti-lo, precisava certificar-se de que ele estava ali, vivo e seguro em seus braços, onde ele pertencia, onde ele deveria estar e para isso não iria largá-lo tão cedo não importasse o quanto o bruxo protestasse por isso. Seu instinto demoníaco clamava pela presença do companheiro e estava atiçado na intenção de protegê-lo de qualquer perigo iminente.
- Potter você precisa voltar ao seu quarto… - Malfoy conseguiu dizer quando o demônio finalmente parou de beijá-lo para assim tomar ar.
- Por favor… - Harry implorou num tom que saiu como um ganido. Algo realmente estava errado com o moreno, muito errado. E vendo o modo como ele agia totalmente fora de sua personalidade usual, o loiro não teve coragem de expulsá-lo a pontapés de seu quarto.
Com um suspiro e um sorriso suave que ele apenas prezava-se a dar, muito raramente, para o demônio, Draco conseguiu-se desvencilhar-se dos braços fortes por breves segundos apenas para fechar a porta do quarto, antes de sentir-se ser novamente agarrado por Potter. Mais um beijo lhe tirou todo o ar o deixando zonzo e sem se importar com mais nada se permitiu ser guiado para a cama, caindo no colchão macio com um baque abafado e trazendo Harry consigo.
- O que deu em você? – perguntou quando se separaram mais uma vez, espalmando as mãos nas bochechas rosadas do demônio, as deslizando suavemente pela pele macia até chegar à raiz dos cabelos, enterrando os dedos nas mechas negras e os escorregando por entre elas.
- Saudades… - respondeu Harry num sussurro. – Saudades do meu amor. – completou em um tom sério, com os olhos fixos nos olhos de Draco. Normalmente o loiro soltaria uma zombaria diante do tom meloso do demônio e das suas declarações apaixonadas, mas esta noite ele tinha a sensação de que somente desta vez ele precisava ceder às vontades do Potter. Alguma coisa lhe dizia que ele precisava assegurar o lobo de que estava ali ao seu lado, e que ali era o seu lugar.
- Eu também te amo. – sussurrou quase inaudível, mas foi o suficiente para fazer toda a tensão evaporar do corpo de Harry e este lhe dar um sorriso mínimo, mas satisfeito.
- Bom… - o demônio sorriu enviesado, começando a empurrar o bruxo sobre a cama o obrigando a deitar-se e cobrindo o corpo menor com o seu. Draco deixou-se sucumbir, permitindo que Harry fizesse o que quisesse com ele aquela noite, permitindo-se aproveitar os toques quentes e apaixonados do moreno. Aproveitar o modo como ele beijava a sua pele como se fosse algo extremamente saboroso e valioso, ou fazia amor consigo vagarosamente como se ele fosse de porcelana e pudesse quebrar a qualquer momento.
Esta noite ele iria render-se ao lobo e se deixaria aproveitar todas as sensações que ele lhe ocasionava. Mas amanhã, amanhã Potter iria lhe explicar direitinho o que estava acontecendo se não quisesse ser chutado novamente para fora de sua cama.
Continua...
