Capítulo 9

A Ponte de Londres Está Caindo

Quando sentiu seus pés tocarem o chão da tão familiar cidade é que se permitiu respirar. Cansado, apoiou-se nos próprios joelhos, dando profundas e fortes golfadas de ar para poder acalmar o seu coração. Algo molhado pingou em suas bochechas rosadas e ele ergueu os olhos para o céu cinza escuro, quase negro, vendo que gotas grossas de água começavam a cair das nuvens pesadas. Erguendo-se de sua posição voltou o olhar para o castelo no topo do monte e dando mais uma inspirada de ar correu em direção a ele, usando as últimas forças que lhe restava.

A primeira coisa que acordou Draco naquela manhã nublada foram os barulhos dos trovões e a luz dos raios que conseguiram penetrar por entre as frestas das grossas cortinas. A segunda foi o som seco de alguém socando a sua porta com força, como se tivesse a intenção de derrubá-la apenas com os punhos. O loiro grunhiu de irritação, ainda mais que o barulho ficava mais alto e mais forte a cada segundo, e girou sobre o colchão, ou ao menos tentou, pois parecia que tinha alguma coisa o prendendo no lugar. Mais especificamente um braço em torno da sua cintura. Piscou um pouco para poder espantar o sono e viu na sua frente o rosto adormecido de Harry.

Piscou mais ainda tentando lembra-se de quando o demônio apareceu no seu quarto até que mais um trovão o fez acordar de vez e recordar a noite anterior. Ergueu-se um pouco da cama pelos cotovelos, na intenção de chacoalhar Potter até ele acordar, mas as batidas na sua porta ficaram ainda mais fortes e se isso não acordava o moreno no momento, nada mais acordaria. Frustrado soltou um longo suspiro por entre os lábios e começou a vagarosamente desvencilhar-se do braço que o prendia com força pela cintura. Harry soltou um baixo rosnado diante do movimento inesperado e Draco congelou no lugar, esperando que intensos olhos verdes se abrissem para encará-lo. Quando nada aconteceu o rapaz voltou a se mexer.

Sair do abraço possessivo de Potter provou ser uma tarefa extremamente complicada, pois a cada gesto que o loiro fazia, o outro homem retribuía o apertando ainda mais ao seu corpo. Depois de muito malabarismo é que o bruxo conseguiu se soltar e como resultado caiu desajeitado no chão. Irritado, pôs-se de pé, puxando com força um dos lençóis onde Harry estava enrolado para poder cobrir-se com ele. O movimento fez o demônio girar o corpo sobre a cama, abraçar um travesseiro e continuar com o seu sono, deixando o ex-sonserino mais irado ainda.

- Já vai, já vai! – sibilou quando as batidas ficaram ainda mais fortes e bufando o rapaz caminhou a passos largos em direção a porta enquanto enrolava o lençol na cintura para poder cobrir o seu corpo nu. – O que quer? – rosnou, abrindo a porta num rompante e dando de cara com a expressão surpresa de Neville.

- Malfoy… - ofegou, tentando recuperar o fôlego diante da corrida de Hogsmeade a Hogwarts.

- Longbottom. – o loiro torceu o nariz em desagrado e pronunciou o nome em tom arrastado, clara indicação de que não estava feliz por ter sido acordado de maneira tão abrupta.

- Draco eu… - começou o rapaz, mas um movimento sobre o ombro do loiro lhe chamou a atenção e ele mirou seus olhos azuis na cama dentro do quarto, arregalando os orbes quando viu quem estava enrolado nas cobertas. Sua atenção voltou-se para o comandante e suas bochechas ficaram mais vermelhas do que estavam quando viu o estado do outro adolescente.

- Longbottom! – Draco rugiu ao ver que o garoto estava olhando demais para um Potter nu e mal coberto pelos lençóis, sobre a sua cama. – Foco! – e estalou os dedos rapidamente em frente aos olhos do garoto para atrair a atenção dele para si e não para o outro homem dentro do quarto.

- Malfoy o que… - Neville começou, mas decidiu deixar o assunto de lado, tentar racionalizar porque o líder dos demônios estava dormindo com o líder dos bruxos era pedir para dar adeus a sua sanidade. – Esqueça! Estou aqui para reportar a missão que você me passou. – continuou, entrando sem licença no quarto e começando a perambular de um lado para o outro, torcendo as mãos uma na outra em um gesto nervoso. Vez ou outra passava as mãos pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos e incitando a sua boca a falar, mas a experiência que sofreu ainda era vívida em suas lembranças, o que fazia o seu coração bater mais forte cada vez que recordava dela.

- E então? – exigiu Malfoy depois de dois minutos de silêncio com Neville apenas andando de um lado para o outro, feito uma barata tonta, na sua frente.

- Sabe sobre os incidentes em Little Hangleton? Pois bem, eu descobri a causa por detrás deles. – torceu as mãos com mais força, fazendo os dedos ficarem brancos pela falta de circulação. Draco apenas ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços sobre o peito pálido, esperando que ele continuasse. – Ele se denomina Lorde Voldemort.

- Voldemort? – a voz rouca fez o ex-grifinório dar um pulo de susto e soltar um grito estrangulado, virando-se depressa em direção ao som e quase tropeçando nas próprias pernas.

- Ah, você acordou. – Malfoy disse sarcástico. – Finalmente.

- Você disse Voldemort? – Harry perguntou, ignorando o comentário ácido do loiro e Neville acenou bestamente com a cabeça, confirmando a pergunta.

- Eu não vi direito o rosto dele, mas ele tinha aterrorizante olhos vermelhos e quando falava parecia que estava sibilando, como uma cobra. Ele tem seguidores, havia mais pessoas na casa, eu lembro das sombras me rodeando e um deles gritou, sugerindo que me comessem. E era horrível. Era terrível, o lugar todo parecia mergulhado nas trevas e dava arrepios na espinha. O vilarejo parece estar sucumbindo a qualquer força que emana daquela casa. É aterrorizante... aterrorizante. Ele me deixou partir, disse para dar o recado a vocês, falar que ele estava na guerra e… - um dedo sobre o seu lábio o impediu de continuar falando e Neville inspirou profundamente para acalmar os seus nervos.

- Devagar garoto. – Potter falou divertido, recuando a mão quando viu o rapaz ficar vermelho diante do gesto ousado.

- Resumindo a sua enxurrada de palavras, o misterioso novo inimigo se identificou como Lorde Voldemort. Porém ainda não sabemos de que lugar esse sujeito surgiu. Ele não pode ter simplesmente brotado do chão. E o que ele quer conosco?

- É um renegado. – Harry respondeu a pergunta enquanto rodava o quarto a procura de suas peças de roupa e Draco virou-se para ele com a testa franzida. – Eu tive uma visão com ele, um tempo atrás, mas a ignorei.

- Me deixa ver se entendi… - Malfoy começou, aproximando-se lenta e perigosamente do demônio. – você teve uma visão mais explícita do inimigo e nem se prezou a me avisar?

- Não foi tão explícita assim. Ele apenas dizia que iria nos destruir, blá, blá, blá, e falava que era um renegado. Minhas suspeitas é que ele é um mestiço que foi marginalizado, mais nada. – deu de ombros enquanto vestia as suas calças.

- Me diga novamente por que eu aceitei me casar com você? – murmurou o loiro, fechando os olhos e soltando um suspiro exasperado. Potter deu um sorriso malicioso, aproximando-se do bruxo e rodeando um braço pela sua cintura, o puxando de encontro ao seu corpo.

- Por causa do meu imenso charme e porque eu sou… - e sussurrou algo no ouvido do rapaz que fez as bochechas pálidas ficarem levemente rosadas. Um pigarro chamou a atenção do casal que voltaram os seus olhos para um Neville ainda presente no quarto.

- Malfoy… foco. – gracejou o ex-grifinório e Draco franziu a testa. Até onde se lembrava Longbottom ainda andava por fora do bafafá que ocorreu nos últimos dias, portanto não tinha conhecimento da sua união com Harry. No entanto, o garoto havia reagido melhor à notícia do que muitos outros bruxos mais velhos e mais controlados do que ele. Surpreendente.

- Er… okay! Vá e avise os outros que teremos uma reunião de emergência. Aproveitaremos antes que Granger volte para Londres para informar o restante do seu grupo e avisar a ela as novidades. Talvez assim ela se decida mais rápido. – Neville acenou positivamente com a cabeça e virou-se para sair do quarto, mas na pressa não prestou atenção por onde ia, o que o fez se chocar com força contra outra pessoa que entrava naquele momento no aposento.

Uma mão segurou a frente das suas vestes, o mantendo firme no lugar, e seus olhos azuis ergueram-se assustados para encarar os negros e penetrantes olhos do professor de Poções. O garoto sentiu um arrepio descer pela sua espinha enquanto a sua pele perdia toda a coloração.

- De-desculpe professor. – quando Snape percebeu quem tinha ajudado a não se estatelar no chão, fez questão de rapidamente soltar o rapaz, que quase caiu novamente pela falta de firmeza nas pernas. Severo abriu a boca na intenção de dizer alguma coisa, quando uma voz atrás dele o interrompeu.

- Ele não é mais aluno da Grifinória, Severo, não pode descontar pontos. – prontamente o homem fechou a boca e comprimiu os lábios firmemente, olhando por cima do ombro em desagrado para o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas.

- O que é isso? Festa do pijama? O que vocês fazem aqui? – resmungou Draco e Snape lhe deu um sorriso de escárnio.

- Para ser festa do pijama os trajes exigidos deveriam ser pijamas, mas vejo que você não recebeu o recado. – provocou, percorrendo os seus olhos escuros do peito nu do loiro a cintura onde o lençol estava amarrado.

- Deseja alguma coisa? – Harry interrompeu a avaliação nada discreta do Mestre de Poções, parando ao lado de Draco e o abraçando contra o seu peito.

- Ah, Potter, e eu me perguntando onde o senhor poderia ter se enfiado. – o homem soltou um tsc por entre os dentes. – Que tolice a minha não?

- Há algum motivo para você estar aqui Severo? – Malfoy o interrompeu antes que Snape e Potter começassem uma briga mais física, pois na questão de olhares, a situação estava totalmente intensa, com cada um mirando o rosto do outro firmemente, querendo saber quem iria desviar o olhar primeiro.

- Srta. Granger recebeu esta manhã um aviso e com a ajuda de alguns aurores seu grupo foi levado às pressas a Londres. Parece que a cidade está sob ataque e se você não ordenou nada do gênero, Draco, e duvido que o Lorde Potter tenha feito o mesmo, isso só pode significar uma coisa… - Remus deixou a sugestão pairando no ar e rapidamente os outros captaram as insinuações.

Draco rapidamente começou a rodar o quarto, recolhendo as suas roupas e as vestindo as pressas enquanto soltava ordens aqui e acolá.

- Avise ao conselho que estamos saindo. Prepare os soldados, quero todos nos postos de aparatação em quinze minutos. – virou-se para encarar os três bruxos, com uma camisa meia vestida passando por sua cabeça. Os homens apenas estavam parados na porta do quarto tentando entender o que o loiro tinha acabado de dizer.

- Você não está sugerindo… - falou Severo com os olhos estreitos mirando o pupilo.

- Sim! E se mexam, o tempo está correndo. – os três acenaram positivamente com a cabeça e saíram do quarto às pressas.

- Você realmente está falando sério? – Draco terminou de vestir a camisa e encarou Harry nos olhos, erguendo uma sobrancelha como se perguntando "sim, por quê?". – Oferecer ajuda aos trouxas? Não lembro de eles terem pedido. – continuou o demônio contrariado. Londres não era território deles, logo eles não tinham a obrigação de defendê-lo, isso era problema da Granger e do seu bando.

- Potter, se queremos a colaboração deles, temos que, de vez em quando, dar o braço a torcer. Granger pode não ter pedido ajuda, mas mesmo assim irei oferecê-la se pretendo que ela concorde com o maldito contrato mágico. Tudo para não ter outra daquelas reuniões infernais zumbindo na minha cabeça. – Harry abriu a boca para poder contestar a decisão do rapaz, mas decidiu manter-se calado. Draco era crescido, era um comandante como ele, e se fosse analisar melhor até que a sua estratégia não era de todo ruim. Porém, mesmo assim, algo lá no fundo ainda incomodava Potter, uma sensação que ele não conseguia descrever.

Caminhou em direção a porta do quarto, parando sob o batente quando ouviu o loiro chamar o seu nome, e olhou por cima do ombro para poder encará-lo.

- Aonde vai? – perguntou o rapaz curioso e o demônio relaxou os ombros e soltou um suspiro exasperado.

- Vou reunir a matilha. Não vou deixar você ir sozinho a Londres. Bruxos são criaturas tão incompetentes, unidos aos trouxas então é um desastre. – comentou em um tom sofrido e deu as costas ao loiro, saindo do quarto sem dizer mais nenhuma palavra. Draco deu um sorriso assim que Potter sumiu de sua vista, cruzando o braço sobre o peito e balançando a cabeça de um lado para o outro de maneira divertida. Aquele discurso sobre incompetência era apenas fachada, pois Harry jamais iria admitir que só estava indo com ele para poder protegê-lo. Uma vez arrogante, sempre arrogante.


Hermione e seus companheiros chegaram ao centro de Londres e olharam ao seu redor horrorizados. A cidade estava um completo caos. Criaturas encapuzadas atacavam por todos os lados e as pessoas corriam e gritavam em desespero. A mulher sentiu Seamus segurar com força o seu braço e a atirar em direção a um prédio, prendendo o corpo dela contra a parede de tijolos e o cobrindo com o seu. Os olhos castanhos ergueram-se surpresos para mirar os olhos do amigo, mas o irlandês parecia ocupado olhando alguma coisa por cima do próprio ombro. Seguiu o olhar do rapaz e viu que um feixe de luz verde acabava de passar pelo exato ponto onde ela estava, e atingia um fugitivo que prontamente caiu no chão.

- Isso é magia! – a mulher ofegou surpresa. Um trovão ecoou pela cidade e um relâmpago cruzou os céus, tornando a cena de guerra ainda mais sombria.

- Hermione. – Finningan murmurou, afastando-se da mulher e dando espaço para ela se movimentar. Os olhos escuros do rapaz não a encaravam, ao contrário, agora eles estavam fixos em alguma coisa no céu. Novamente ela seguiu o olhar dele e franziu as sobrancelhas ao ver uma estranha marca pairando sobre Londres e sendo distorcida vez ou outra pelas gotas grossas de chuva.

- Isto, definitivamente, é magia. – uma explosão soou por todo o lugar e ambos encolheram-se contra a calçada por reflexo enquanto pedaços de concreto e vidro voavam para todos os lados. Um grito de dor os alcançou e a jovem ergueu os olhos para ver Colin escorando-se contra o corpo de Justin com o seu braço sangrando copiosamente. Seus olhares se cruzaram e o rapaz parecia perguntar silenciosamente o que eles deveriam fazer. – Seamus, eu quero marcação de perímetro. Esquadrão um, dois, três e quatro cobrindo os lados leste, norte e oeste da cidade. Mande o cinco e seis me encontrar.

O irlandês assentiu com a cabeça e saiu correndo pela rua da cidade, desviando-se de ataques como podia. Outra explosão soou no local e Hermione colou o corpo contra a parede quando um pedaço do asfalto passou muito perto de sua cabeça. Virou-se para ver de onde havia originado o ataque e soltou um grito estrangulado quando uma grande mão a segurou pelo pescoço, a erguendo centímetros do solo. Por instinto segurou no braço grosso como uma tora e anormalmente peludo, tentando tirá-lo de sua garganta. Mirou seu agressor, mas tudo o que conseguiu ver foram olhos dourados por detrás de uma máscara branca como porcelana. A capa negra cobria o corpo grande e a outra mão erguia-se para apontar uma varinha bem entre os seus olhos.

Os orbes dourados estreitaram-se perigosamente e um som rosnado pareceu brotar por detrás de máscara enquanto Hermione ainda se debatia dentro do aperto daquela mão, tentando a todo custo chutar o sujeito, qualquer coisa para afastá-lo de si, pois o ar estava quase acabando.

- Ava… - começou a voz rosnada e a mulher percebeu que se não fizesse alguma coisa aqueles dois globos cor de ouro com um brilho psicótico seriam a última coisa que veria em vida.

Soltou suas mãos do pulso largo e rapidamente às levou em direção ao cós da calça, puxando as duas armas presas nela. O sujeito já estava começando a recitar o "Keda", ao mesmo tempo em que a ponta de sua varinha começava a emitir um brilho esverdeado, quando subitamente o som de dois disparos ribombou pelas paredes dos prédios. Hermione sentiu seus pés tocarem o chão, mas não se permitiu pensar muito para avaliar o estrago que a criatura tinha feito nas suas vias respiratórias, pois, incrivelmente, o brutamontes ainda estava de pé, um pouco cambaleante verdade, mas de pé, depois de levar dois tiros a queima roupa.

- Puta que pariu! – xingou, coisa que raramente fazia, quando viu a criatura erguer novamente a varinha de maneira determinada. Granger não o deixou abrir a boca, mesmo que não pudesse ver a dita cuja escondida por detrás da máscara, e descarregou o pente de uma de suas armas no inimigo sem dó. Quando ele finalmente deu uma última cambaleada e caiu sobre uma poça feita do próprio sangue é que ela se permitiu relaxar. Isto até que, subitamente, um frio cortante cruzou a sua espinha. As gotas de chuva transformaram-se em flocos de neve e cada expirada de ar que ela dava saía condensada.

- Hermione! – a mulher virou-se para ver o líder do esquadrão cinco aproximar-se com um maçarico preso nas costas. – Estripadores! – a morena quase rolou os olhos. Ele precisava atestar o óbvio?

Caminhou a passos largos em direção ao homem e segurou em seu braço com força, o arrastando para o meio da rua, desviando-se de destroços e corpos. Sentiu uma certa náusea ao ver um grupo de adolescentes caídos, mortos, no meio fio, com o seu sangue sendo lavado pela chuva enquanto os ferimentos parecia gritar por atenção de tão grotescos que eram. Era como se aquelas meras crianças tivessem sido atacadas por animais, pois o tipo de machucado lembrava muito o ataque de demônios de classe baixa. Porém os feitiços davam a entender que estavam lidando com bruxos. Sacudiu a cabeça, não querendo racionalizar nada no momento. Depois que expulsassem os invasores e fizesse a contagem de estragos e de mortos é que iria pensar no que estava acontecendo.

- Procure o Justin – começou, retirando o maçarico que estava preso nas costas do rapaz e prendendo nas suas. – eu quero que o seu esquadrão e o esquadrão seis tirem o máximo de pessoas que conseguirem daqui. – ordenou, prontamente acendendo o fogo na ponta do cano do maçarico ao perceber que a temperatura estava caindo cada vez mais rápido e uma aura de tristeza começou a apoderar do lugar. O homem ao seu lado assentiu com a cabeça ao compreender a ordem e desapareceu rua abaixo.

Hermione abaixou um pouco a cabeça, permitindo que os fios soltos de seu cabelo molhado grudassem em seu rosto, e fechou os olhos por um momento enquanto fazia uma prece silenciosa a qualquer ser supremo que pudesse ajudá-los no momento. Ao ouvir o primeiro som de algo sugando o ar, ela abriu os olhos num rompante e mirou firmemente o grupo sombrio de estripadores que fechavam à rua. O barulho de outro maçarico acendendo-se ao seu lado a fez voltar a sua atenção para Seamus que já preparava a chama para poder jogar contra as criaturas.

- Quanto tempo você acha que conseguiremos segurá-los até os civis fugirem? – perguntou em um tom de pouco caso e o irlandês deu um sorriso torto.

- Debaixo dessa chuva e neve? – ponderou vendo o quanto as gotas grossas e os flocos causavam problemas na estabilidade e potência das chamas. – Três, quatro minutos no máximo. – calculou, dando de ombros e virou o rosto ao ouvir outro maçarico acendendo. Colin tinha parado ao lado deles, sua boca nervosamente se mexendo enquanto ele mascava um chiclete. Os dois adultos sabiam que essa era uma maneira que o rapaz tinha encontrado de extravasar o estresse. Isso e um bom estande de tiros para poder esvaziar o pente da arma que estava sempre presa sob o seu braço direito.

- Justin e Terry estão levando os refugiados. – avisou e Hermione reparou que agora, no braço ferido, havia uma atadura apertada manchada de sangue, mas parecia que Colin não estava nem dando atenção para isso.

Os encapuzados que antes estavam atacando e causando caos e terror no centro da cidade pareciam estar recuando pouco a pouco para ceder espaço aos estripadores que deslizavam de maneira macabra pela rua, pegando civis desgarrados e os fazendo de vítimas do seu desejo por sangue ou por alma. Novamente o som de ar sendo sugado soou no lugar e Hermione fez um sinal com mão e os outros dois homens acenderam o maçarico ao máximo, criando um clarão na rua que ajudou a iluminar o caminho escurecido por causa das nuvens negras nos céus.

Os primeiros estripadores que dobraram a esquina recuaram assustados diante do súbito calor e claridade que os recebeu, porém isto não foi o suficiente para poder espantá-los de vez. Granger percebeu, horrorizada, que o número deles era o triplo do que normalmente era quando os atacavam e à medida que eles iam se aproximando, o trio ia recuando os passos, mantendo as chamas firmes na direção deles. Contudo, a tática estava começando a se provar ineficiente, pois a chuva que acabara de ficar mais forte apagava pouco a pouco o fogo.

- Recuar! – ordenou quando percebeu a sua chama apagar de vez. – RECUAR! – gritou quando viu que nem Colin e nem Seamus a obedeciam.

Na verdade Creevey tinha acabado de trocar o maçarico pela sua arma e atirava sem piedade contra os estripadores, que balançavam diante do impacto das balas, mas continuavam avançando.

- Colin! – correu até ele, segurando em seu braço e o obrigando a abaixar a arma. – não gaste munição a toa, não vai adiantar. – o repreendeu com fúria, começando a puxá-lo rua abaixo. – Seamus, vamos!

Os três começaram a correr, tentando impor o máximo de distância entre eles e as sombras que se aproximavam cada vez mais, aumentando o frio e intensificando a quantidade de flocos de neve, além de estarem criando uma camada fina de gelo no chão. Camada essa que quase fez Seamus levar um tombo quando o trio dobrou uma esquina. Rapidamente Colin e Hermione o ampararam e continuaram correndo. Quando cruzaram mais um quarteirão é que os três pararam abruptamente quando viram a cena que estava a sua frente.

Gritos, feixes de luzes de feitiços, sons de tiros, grunhidos e rosnados acompanhados por explosões era o quadro que se apresentava diante de seus olhos. E se a dois quarteirões abaixo a situação estava horrível, aqui estava pior ainda.

- Ahhhhhhh! – veio o grito acompanhado por um corpo que acabava de cruzar a rua e chocar-se contra um poste, deslizando pela haste e caindo no chão como um pedaço de trapo velho.

- Dennis! – Colin arregalou os olhos ao ver o irmão ferido e correu em direção a ele, vendo o seu caminho ser impedido por um monstro enorme encapuzado que parou entre ele e o rapaz mais novo. – Sai da minha frente! – rosnou, tirando a sua arma do coldre e disparando contra o adversário que pareceu rir diante da inocência do garoto.

Com um tapa o sujeito atirou Colin longe, que deslizou por sobre o asfalto molhado antes de tentar levantar-se do chão, com todo o seu corpo protestando de dor. Ergueu os olhos assustado ao ver que com o ataque a sua arma acabou indo parar a alguns metros de distância do seu alcance e quando se apoiou nos joelhos para pôr-se de pé, viu uma sombra enorme sobrepor-se a ele. Deu uma olhada por cima do ombro apenas para constatar que a mesma montanha de antes era o que estava atrás de si e soltou um grito agoniado quando uma bota pesada chocou-se contra as suas costelas.

Viu de rabo de olho o sujeito erguer novamente a perna para chutá-lo, mas subitamente perdeu o balanço quando algo o atingiu. Aliviado percebeu que Hermione, com uma escopeta firmemente segura em ambas as mãos, tinha acabado de salvar a sua vida.

- HERMIONE CUIDADO! – berrou quando viu um vulto parar atrás da mulher e esta se virou abruptamente apenas para sentir algo gelado e pegajoso a segurar pelos braços, paralisando todos os seus músculos. A escopeta escorregou de suas mãos, caindo entre vão criado pelo seu corpo e o corpo do estripador, e os olhos castanhos arregalaram-se apavorados ao ver o rosto sem olhos a encarar e a boca parecendo um ralo começar a se abrir. O familiar ruído de sucção pareceu zumbir em seus ouvidos e ela tentava freneticamente incitar o seu corpo a se mover, ou o seu cérebro a funcionar, mas parecia que ambos haviam pifado.

- HERMIONE! – Seamus gritou ao ver a situação da amiga e começou a correr em direção a ela, tentando a todo custo driblar o que estivesse em seu caminho. Viu que estava quase se aproximando da garota, mas um soco inesperado o fez recuar com violência e cair atordoado no chão.

- Tsc, não tão rápido. – uma voz falou por detrás da máscara do ser encapuzado e diante do mundo que girava a sua volta ele conseguiu divisar a figura de Granger imóvel nos braços do estripador, enquanto esse aproximava o seu rosto perigosamente do rosto da morena.

Hermione fechou os olhos e inspirou fundo, como se já tivesse se conformado com o seu destino e fez mais uma prece silenciosa. "Perdoe-me papai", pediu em pensamentos e relaxou o máximo que pode o corpo, já esperando pelo pior. O ar a sua volta parecia congelado, queimando a sua garganta e pulmões quando ela tentava respirá-lo e o cheiro de podridão e o barulho de sucção ficavam mais forte e mais alto.

O som agudo quase estourou os tímpanos da garota e subitamente ela sentiu seus braços serem soltos e o seu corpo cair pesado contra o chão. Abriu os olhos, tentando compreender o que tinha acontecido e viu surpresa o estripador afastar de si. Na verdade ele parecia mais estar sendo arrastado para trás por uma coisa que o prendia pelo pescoço. Com as pernas trêmulas ela ergueu-se do chão molhado e observou fascinada a criatura debater-se desesperada contra o cordão dourado que o esganava.

- Sabe qual a maneira mais eficiente de matar uma barata? – soou a voz em um tom divertido enquanto o cordão parecia comprimir-se mais contra o pescoço do estripador. – Corte-lhe a cabeça. – e num estalo a corda fechou-se com força, rasgando os trapos da capa da criatura, a pele e quebrando o osso que sustentava a cabeça dela sobre os ombros. E em poucos segundos tudo o que restava dela era um corpo se decompondo no chão e uma cabeça que tinha rolado até a boca de um bueiro.

- Você está bem? – ela virou-se para ver um homem alto, negro e de cabeça raspada a mirando intensamente com seus orbes escuros. Lembrou-se vagamente de tê-lo visto na reunião em Hogwarts, mas não conseguia recordar o seu nome, apenas sabia que ele era um auror.

- Si-sim. – gaguejou ainda não recuperada da surpresa. O som de algo cortando o ar foi-se ouvido e ela olhou espantada para um Malfoy que enrolava aquele cordão dourado no pescoço de outro estripador, arrancando-lhe sem do à cabeça fora. Sacudiu a cabeça tentando compreender aquela cena surreal e foram fortes e altos rosnados que a fizeram ver que aquilo não era um sonho.

Antes que pudesse perceber lobos de variados tamanhos e cores entraram na briga, mordendo, arranhando e derrubando os seres encapuzados. Um feitiço errante veio em direção ao casal e Kingsley rapidamente tirou a jovem da linha de tiro, girando ambos os corpos e protegendo a forma diminuta dela com o seu físico avantajado.

- O que vocês estão fazendo aqui? – murmurou para o auror que a tinha soltado e retirava a varinha de dentro das vestes.

- Ordens do Malfoy quando soube do ataque. Veio oferecer ajuda. – esclareceu, lançando um poderoso feitiço em um inimigo que estava prestes a atacar um dos trouxas do grupo de Hermione.

- Malfoy veio ajudar? – soou cética. Apesar de toda aquela conversa de união e coisa e tal, ela ainda desconfiava que tudo não passasse de história pra criança dormir. – E o Potter? – indagou ao ver, pela primeira vez, um enorme lobo negro de olhos verdes, que rapidamente assumiu a forma de Harry Potter, atacar outro estripador.

King deu um sorriso enviesado e sacudiu um pouco a cabeça diante da inocência da menina.

- Potter, agora, não vai a nenhum lugar sem o Malfoy e vice-versa. – respondeu, usando outro feitiço para defender-se de mais um adversário que avançava em direção a eles, pois Granger ainda parecia em choque diante dos acontecimentos recentes. Estranho, tinha ouvido dizer que a mulher era brilhante e com um raciocínio extremamente ágil. Porém, no momento, ela parecia um pouco perdida no tiroteio. – Não precisa ser tão descrente. Apesar de todos os defeitos, ainda sim a palavra do Malfoy pode ser levada a sério. Se ele propôs trégua e união, ele irá cumprir com esse acordo. Não se esforce tanto para entender, apenas aceite. – aconselhou e Hermione piscou estupefata na direção do homem, as engrenagens de seu cérebro rodando e tentando assimilar tudo o que aconteceu nas últimas 72 horas.

- Okay! – respondeu firme e agilmente recolheu a escopeta que tinha largado mais cedo no chão, engatilhando a arma e atirando contra um agressor enorme que estava espreitando Draco.

Por sua vez Malfoy sentiu a criatura aproximar-se de si e já iria virar-se para combatê-la quando o som de tiro chegou aos seus ouvidos e ele girou apenas para ver o que já tinha previsto. Granger estava parada a alguns passos de distância dele, empunhando a sua arma com toda a pose e maestria que ela possuía, enquanto no chão havia uma massa negra sendo encharcada pela chuva misturada com a neve. Deu um aceno positivo de cabeça para ela agradecendo a ajuda e recebeu como resposta um meio sorriso. E foi então que o loiro percebeu que a terceira parte havia concordado com a aliança.


Remus franziu as sobrancelhas ao ver as criaturas em decomposição que atacavam a todos sem distinção. Algo naqueles seres lhe era familiar, a descrição deles eram compatíveis com a lembrança de uma página esquecida dentro de um velho livro perdido na biblioteca da escola. Tentou aproximar-se delas, sabendo que qualquer encurtamento de distância era um ato perigoso. Elas eram ágeis, suas pegadas extremamente fortes e ficar extremamente próximo a elas parecia aumentar o efeito que elas causavam as pessoas. Mas ele precisava conferir de perto as suas suspeitas.

Deu um passo em direção a um estripador que estava erguendo suas mãos de dedos podres e finos para tentar pegar um rapaz de cabelos alourados e ondulados e grandes olhos azuis em uma face redonda e quase infantil. Daria no máximo dezesseis anos para o menino, se este mesmo menino não estivesse com o rosto contorcido em uma careta de fúria enquanto atirava na criatura e recuava ao mesmo tempo.

- O que você está fazendo? – uma voz rosnou perto de seu ouvido e dedos firmes fecharam-se em torno do seu antebraço.

- Eu preciso me certificar de uma coisa. – respondeu Lupin, ignorando o aperto de Sirius em seu braço. – Me faça um favor? – mirou o demônio por cima do ombro, seus olhos castanhos mais escuros que o normal. – Tira aquele menino de lá antes que ele se mate enquanto eu vou confirmar certas suspeitas. – tentou continuar caminhando, mas Black ainda o prendia protetoramente no lugar.

- Não! Eu tiro o idiota de lá e nós dois vamos nos afastar o mais rápido possível dessa coisa, pois ela me dá calafrios. – argumentou e o lupino apenas fez uma expressão neutra e deu de ombros.

- Okay. – concordou e vagarosamente Sirius foi abrindo seus dedos, um a um, soltando o braço do bruxo, afastando-se dele um pouco hesitante. Remus tinha concordado rápido demais com a sua sugestão. Deu as costas ao humano e correu em direção ao menino trouxa o tirando dali e quando foi voltar para perto de Lupin viu que o mesmo não estava no lugar onde o havia deixado.

- Mas que merda! – praguejou com um Colin, ainda espantado por ser resgatado por um demônio, preso aos seus braços. – Você fica aqui. – ordenou ao garoto ainda zonzo e saiu em disparada em direção a um Remus que se aproximava cauteloso de um estripador.

Lupin caminhava pé ante pé, não querendo chamar a atenção da criatura que ainda parecia perdida por sua presa ter sumido tão depressa da sua linha de ataque. Cuidadosamente ergueu a sua varinha preparando-se para qualquer eventualidade e prendeu a respiração quando chegou perto o suficiente para analisar o ser a sua frente. Era loucura o que estava fazendo? Sim, era. Mas às vezes a sua curiosidade científica sempre se sobrepunha ao seu instinto de soldado, o que lhe rendia longos sermões de Snape e Draco. Porém, ele não conseguia resistir. Aquela era um novo espécime totalmente desconhecido a ele e Remus precisava identificá-lo a qualquer custo.

- Perdeu o juízo mestiço? – o rosnado de Black foi o suficiente para atrair a atenção do estripador e Lupin soltou um rosnado enfurecido como resposta à abordagem do demônio. Agora eles eram alvos da criatura e o bruxo nem teve tempo de analisá-la.

Um rosto sem olhos e uma boca arredondada abriu-se, sugando o ar com um ruído de raspagem e Sirius envolveu um braço na cintura de Remus, pronto para sumir dali, pois a proximidade com aquela coisa estava ocasionando calafrios em seu corpo além da estranha sensação de depressão. Sem mencionar as lembranças desagradáveis que começaram a aflorar em sua mente sem motivo algum.

- Um Dementador! – Remus soltou, arregalando os olhos surpreso ao finalmente reconhecer o que era aquilo.

- Não me interessa o que seja isso, o que me interessa é ficar bem longe dessa coisa. – bradou Black, disparando para longe do dementador quando esse se moveu para atacar. E depois diziam que o desmiolado era ele. Por favor, com certeza esta pessoa não tinha conhecido Remus Lupin então.


Neville ajoelhou-se em frente à criança chorosa, cujos largos olhos verdes olhavam com temor a sua volta, e tentou a todo custo com o seu corpo bloquear a visão da menininha diante do que acontecia. Porém era impossível fazê-la surda ante aos gritos de batalha ou de dor que surgiam naquela rua. Cuidadosamente ergueu uma mão em direção a garota que se encolhia na estreita fresta entre os dois prédios, tentando persuadi-la a sair dali na intenção de levá-la para o mais longe possível do campo de batalha.

- Está tudo bem, você está segura. – começou com uma voz suave e a menininha o mirou com uma mistura de temor e desconfiança, desviando os seus olhos brilhantes para a mão estendida. – Vamos, eu vou tirá-la daqui. – continuou a incentivando, aproximando-se aos poucos da entrada do pequeno beco. A garotinha remexeu-se dentro da fresta, indecisa sobre o que fazer ou não e fixou seus orbes esverdeados no rosto simpático do rapaz a sua frente.

Paciente, Neville esperou que ela tomasse a iniciativa, não desviando seus olhos dos olhos da menina, porém com os ouvidos atentos ao que ocorria a sua volta. Sua mão permanecia intacta, parada no meio do ar e deu um pequeno sorriso feliz quando viu a mão pequena da criança sair de dentro das sombras do beco e repousar sobre a sua palma aberta. Hesitante a menina de quatro anos começou a engatinhar para fora do espaço, aceitando a oferta de proteção do herbologista que contente envolveu o outro braço na cintura da garotinha e a ergueu no colo, começando a avaliar os estragos que o ataque tinha feito nela.

Havia um enorme hematoma no braço da menina enquanto as palmas das mãos estavam esfoladas, ferimentos com certeza feitos no momento que ela engatinhou para dentro do beco, pois seus joelhos também apresentavam arranhões. Os cabelos ruivos estavam cobertos de lama e alguns fios estavam grudados no sangue que escorria de um corte na testa, perto do couro cabelo. Porém, fora isso, a garotinha parecia gozar de saúde e não apresentava mais nenhum dano.

- Agora eu vou levá-la para um lugar seguro. – falou com um tom suave de voz e franziu as sobrancelhas logo em seguida quando a ruivinha soltou um grito agudo e o fez perceber que algo estava errado.

Seu corpo reagiu antes mesmo que ele pudesse processar o que estava acontecendo e sem mesmo olhar para trás ele abraçou a menina e jogou-se no chão, rolando por ele e saindo da posição onde estava. Assim que se pôs de pé viu que no lugar onde eles estavam agora havia o que parecia ser a ferragem de uma motocicleta que terminava de pegar fogo.

- Ah, vejo que o carneirinho conseguiu escapar. – Neville girou o corpo ao ouvir a voz, prendendo a menina com um braço contra o seu peito enquanto o outro se erguia para mirar a varinha em direção a seu adversário. – Não por muito tempo. – continuou o que ele reconheceu ser a voz de uma mulher, mas a longa capa negra e a máscara branca o impedia de saber direito se estava certo.

Surpreso viu quando ela também ergueu uma varinha e a apontou em sua direção e ele poderia jurar, pelo tom que a mulher usou, que ela estava dando um sorriso de escárnio por debaixo daquela máscara.

- Surpreso garoto? Não fique. – ela deu um passo à frente e Longbottom recuou outro, apertando mais a garotinha em seu braço, que estava anormalmente quieta, mas de rabo de olho ele pôde ver os olhos verdes largos de terror e lágrimas silenciosas rolando pelas bochechas rosadas. – Por que você não larga esse pequeno verme e duela comigo de igual para igual? – continuou em um tom venenoso e Neville sentiu os braços magros da menina se fecharem contra o seu pescoço, como se pedindo desesperadamente que ele não a abandonasse.

- Não sou insensível a ponto de abandonar alguém em necessidade. – rebateu num tom firme que surpreendeu o próprio ex-grifinório.

- Que honrado. – uma risada sarcástica seguiu-se ao suposto elogio. – Então morra junto com o verme, garoto. Sectusempra!

- Protego! – gritaram os feitiços ao mesmo tempo e um escudo ergueu-se em volta da dupla para evitar que o ataque os atingisse. Porém a força do feitiço proferido pela mulher foi o suficiente para dispersar o escudo rapidamente e fazer Neville perder o equilíbrio e chocar-se contra uma parede, nunca afrouxando o seu aperto da menina em seu colo.

- Crucio! – gritou a mulher enfurecida por ele ter escapado de seu ataque.

- Waddiwasi! – rebateu ao mesmo tempo, apontando a varinha para os destroços da moto e a jogando sobre adversária, aproveitando essa distração para afastar-se dela o mais rápido possível.

- Não tão rápido fedelho! AVADA KEDAVRA! – a jorro de luz verde veio a uma velocidade impressionante na direção dos dois e por reflexo Longbottom invocou um Protego, virando-se e dando as costas para a mulher, na vã esperança que se ao menos ele não conseguisse se safar, a menina conseguiria.

Quando a maldição estava próxima o bastante para atingir o alvo, o asfalto começou a tremer e rachar, erguendo-se rapidamente e formando uma parede de proteção que se interpôs entre o ex-grifinório e sua atacante, absorvendo o impacto do feitiço que fez a parede despedaçar-se em vários pedaços.

- Você é um idiota Longbottom! – Neville nunca pensou que um dia sentiria algum prazer em ouvir a voz do seu ex-professor de poções o repreendendo e isso o fez soltar um suspiro de alívio. Ainda estava vivo. Isso ou ele deveria ter feito algo de muito ruim quando vivo para ser condenado no pós-morte a presença de Snape.

- Sua preocupação me comove. – retrucou sarcástico ao ver-se sob a avaliação de dois orbes negros furiosos e Severo comprimiu os lábios e franziu a testa diante da atitude do sempre passível Longbottom. Uma vez havia ouvido um boato de que Neville costumava mostrar uma atitude azeda e sarcástica quando se encontrava sob extremo estresse, mas nunca chegou a acreditar nessas bobagens. Para ele o ex-grifinório sempre seria uma besta apática e sem graça.

- Você realmente achou que um mero protego iria parar uma maldição imperdoável? O que você tem na cabeça Longbottom? Excremento de Hipogrifo?

- Talvez. Ou talvez aquelas porcarias de poções que você me fez inalar durante sete anos em Hogwarts finalmente afetaram a minha sanidade. – rebateu o jovem, inspirando profundamente para acalmar seu coração enquanto verificava se a garota em seus braços estava bem.

Severo arregalou um pouco os olhos diante da resposta afiada e deu um pequeno sorriso torto. Então finalmente estava justificado porque ele foi parar na Grifinória. Neville, afinal de contas, tinha alguma coragem, pela graça de Merlin. Porque Snape não conseguia imaginar como o herdeiro de Frank e Alice conseguia ser são frouxo, por vezes cogitou ele ter sido trocado na maternidade se não fosse à semelhança que ele tinha com a mãe.

- Dez pontos para a Grifinória, Longbottom. – zombou o homem. – Você finalmente criou alguma coragem. – os lábios dele torceram em um sorriso de escárnio e Neville arregalou um pouco os olhos. Agora que o perigo tinha passado, toda a sua personalidade tímida havia retornado. E saber que o temido Mestre de Poções tinha acabado de lhe dar um elogio era motivo o suficiente para ele ter um infarto.

- Ah… Bem… Er… - tentou dizer, esboçar alguma reação, mas ainda estava em choque diante do que ele tinha dito. Severo apenas rolou os olhos exasperado. Era bom demais para ser verdade, já deveria saber disso.

- Vamos lesma lerda, antes que aquela ali se recupere do meu estupore. – resmungou, apontando com a cabeça a mulher caída no chão a alguns metros de distância. Neville ainda estava parado estático diante de tudo o que aconteceu e Severo quase grunhiu impaciente, fechando a sua mão sobre o ombro do rapaz e o empurrando devagar, o incitando a andar.


Draco girou o corpo, usando a força da sua perna e traçando um arco no ar, acertando certeiro no rosto de um encapuzado, causando uma rachadura na máscara branca que este usava e o fazendo cair pesadamente no asfalto molhado. Soltou um suspiro por finalmente ter derrubado o sujeito depois de minutos com os dois se engalfinhando no meio daquele caos, e apoiou as mãos sobre os joelhos tentando recuperar o fôlego. Normalmente não se cansaria tão rápido, mas ele já tinha perdido a conta de quantos já tinha enfrentado desde que chegou a Londres.

Alguém esbarrou em suas costas e rapidamente alerta o rapaz virou-se apontando a varinha para o estranho, sendo recebido pela ponta do cano de uma arma. Piscou seus olhos cinzentos para espantar as gotas de chuva e a neve derretida que escorria de seus cabelos e deu um meio sorriso ao ver Granger no outro extremo da pistola.

- Dia difícil Granger? – gracejou ao ver o corte no supercílio da garota e o sangue que era lavado pela chuva. Sem mencionar os braços marcados por arranhões e hematomas, fazendo par com a jaqueta praticamente destruída da mulher. – Quer um conselho? Bata em retirada. – ofereceu o loiro, lançando um olhar desolado para as batalhas que ocorriam a cada metro da avenida principal.

Mesmo com a ajuda deles, surpreendentemente o adversário estava em maior numero e, assustadoramente, eram mais fortes. A matilha que Potter tinha conseguido trazer quando eles vieram de Hogwarts não estava dando conta do recado, e demoraria muito tempo para alguém ir até a toca dos lobos pedir reforços. Seus aurores estavam no limite da exaustão, duelando com bruxos tão bons ou até melhores do que eles e os trouxas… Bem, esses já não tinham mais chances nenhuma.

Hermione torceu o lábio pensativa diante da sugestão dele. Bater em retirada e deixar Londres, a cidade que eles tanto lutaram para manter sob os domínios dos pobres humanos comuns, a mercê de um inimigo desconhecido? Queria seguir a sugestão do bruxo, pois via naquela batalha a mesma coisa que ele via: derrota iminente, mas o seu orgulho falava mais alto. Eles tinham expulsados demônios e bruxos dos seus domínios durante anos e a mulher se recusava a ceder, fosse quem fosse o inimigo.

- Granger, ou você faz isso ou não sobrará ninguém do seu povo para habitar esta cidade. – continuou Malfoy ao ver várias expressões passarem pelo rosto da mulher, deixando transparecer a sua decisão de não ceder à pressão.

Desolada a morena observou mais um dos seus perecer e cair no chão depois de ser atingido por mais uma maldição imperdoável. Vagou o seu olhar para a matilha de Potter e o mesmo, que acabava de se afastar de seu grupo e unir-se a dupla habilmente camuflada atrás de um ônibus municipal tombado na calçada.

- Parece que eles não desistem e eu tenho que confessar que está difícil fazê-los recuar. – resmungou o demônio, lançando um olhar para o céu que parecia mais escuro do que estava quando chegaram. Isso só poderia indicar que estavam há horas nessa luta, pois os poucos postes de luzes que sobraram de pé na avenida começavam a acender diante do cair da tarde.

Um chiado foi-se ouvido e a voz trêmula de Seamus soou de dentro de um dos vários bolsos da calça de Hermione.

- Não estamos conseguindo mais segurá-los. – avisou o irlandês e decidida e mulher pegou o pequeno rádio de seu bolso e com um suspiro derrotado deu a sua ordem em todas as freqüências para todos os líderes de esquadrões ouvirem.

- Retirada! – comandou e Terry, Seamus e Justin olharam-se uns aos outros em vários pontos da rua ao ouvir o que a líder tinha lhes dito. – Recolham os armamentos que sobraram, recolham os feridos e retirem-se!

- Mas… - protestou Seamus e Hermione perdeu a paciência, gritando em alto e bom som contra o walk-talking.

- Finningan, como o segundo em comando é a sua função dissipar a ordem! Junte todos e sumam daí o mais rápido possível! – vendo que Granger estava no limiar de sua paciência, rapidamente eles começaram a disseminar a ordem de retirada, recolhendo munição ainda aproveitável e carregando os feridos nas costas, enquanto aqueles que ainda eram capazes de lutar atrasavam o inimigo, permitindo a fuga deles.

- Vamos Granger! – chamou Draco, segurando no pulso da mulher e a incitando a andar, pois ela não parecia muito disposta a sair do lugar, depois de tudo o que aconteceu. Entendia um pouco pelo que ela estava passando, pois perder o território que lhes pertenceu por anos, o único lugar o qual eles chamavam de lar, com certeza era algo doloroso.

O trio saiu detrás do ônibus, com Potter à frente, abrindo caminho e derrubando atacantes enquanto eles serpenteavam corpos e escombros, indo na direção do grupo que batia em retirada no final da rua. Um encapuzado pulou de sobre um pequeno prédio de três andares, caindo de pé em frente aos três e mal teve tempo de se mover para proferir um feitiço qualquer e Hermione já tinha sacado a sua arma, dando um tiro certeiro na testa do sujeito.

Draco e Harry voltaram seus olhares para a mulher e viram que apesar da reação rápida e da boa mira, ela ainda parecia estar um pouco em choque diante dos acontecimentos, diante da tragédia que acontecia em frente aos seus olhos brilhantes e desfocados.

- Granger, agora não é a hora para ter uma síncope. Não é como se você não tivesse estado numa batalha antes. – repreendeu o demônio e firmes e furiosos olhos castanhos cravaram-se no rosto sério do homem.

- Isso não é mais uma batalha Potter, é um massacre. – sentenciou com uma voz baixa e rouca e continuou andando, não esperando pelos outros dois.

Novamente o caminho deles foi bloqueado por um grupo com uns seis encapuzados que erguiam suas varinhas com feitiços já brilhando em suas pontas. Os três líderes entreolharam-se com uma expressão de tédio e antes mesmo que as azarações pudessem atingi-los, o trio debandou-se, saindo da linha de tiro.

Dois dos inimigos foram imprensados contra o chão quando Potter, depois de ter dado um salto gigantesco, pousou sobre eles, usando todo o peso de seu corpo para derrubá-los. O terceiro que se manteve de pé, escapando do ataque do demônio, preparou-se para investir contra o mesmo, mas não teve muito tempo de reação, pois uma bota pesada lhe acertou no meio do rosto depois de uma giratória que Harry deu.

Mais a frente, algo dourado refletiu nas gostas de chuva e um estalo foi-se ouvido e o mascarado só teve tempo de sentir um cordão envolvendo-se em seu pescoço e o seu corpo ser puxado em direção a Draco, que já erguia o joelho pronto para acertá-lo na barriga, lhe tirando todo o ar dos pulmões. Dobrou-se sobre o próprio corpo diante do golpe e o loiro nem deu tempo do adversário erguer-se e recuperar-se do ataque e já descia o seu cotovelo contra as costas do sujeito, o derrubando sobre o asfalto frio.

Os olhos castanhos de Hermione revezavam-se entre mirar o inimigo que vinha pela esquerda e o que vinha pela direita, enquanto ela recuava com as mãos erguidas em posição de ataque, pensando em qual seria a melhor maneira de investir contra os dois e derrotá-los antes que eles pudessem colocar uma mão dela. Quando o da direita resolveu dar o primeiro passo para acertá-la, ela jogou o corpo para trás, dando uma cambalhota e colocando uma certa distância entre si e o seu agressor, lhe dando tempo de pôr-se em posição ofensiva e desferir um soco com o punho esquerdo contra o rosto do homem.

A mulher sentiu alguém segurar o seu braço e viu que era o outro homem que a cercara e que aproveitara de sua distração para capturá-la. Ágil, Granger torceu o próprio braço, forçando o inimigo a soltá-la e com um chute acertou o joelho esquerdo do sujeito, gerando um ruidoso "crack" diante de seu golpe. Deu um sorriso de escárnio, sabendo que ao menos deveria ter destruído a rótula do encapuzado por causa da sua bota especialmente feita com placas de ferro nas pontas. Porém, mesmo com a perna ferida, ele ainda permaneceu de pé, cambaleante, mas de pé e posicionado para atacá-la a qualquer momento.

Resignada, Hermione fechou os dois punhos com força, pronta para receber o ataque dele, mas assim que ele se mexeu, subitamente parou, levando a mão sobre o braço esquerdo como se tivesse sentindo alguma dor. O rosto coberto mirou o braço que a mão segurava e depois se voltou para mulher, como se debatendo o que fazer. Pouco a pouco ele foi recuando, a passos incertos, e a jovem viu que ele não era apenas o único a estar se retirando. Outros também faziam o mesmo ao longo da rua. Recuavam como se estivessem atendendo a algum chamado silencioso.

- O que está acontecendo? – murmurou a morena ao aproximar-se dos outros dois líderes que também olhavam confusos o súbito movimento do inimigo, que se afastavam de todos e começavam a formar um grupo em frente à entrada de uma praça praticamente destruída.

Vagarosamente os três começaram a caminhar na direção de seu próprio grupo, parando ao lado dos soldados que tinham ficado para trás para poder dar cobertura a aqueles que estavam batendo em retirada com os feridos e o armamento. Sirius emparelhou com Harry, enquanto Snape e Lupin flanqueavam Draco pelos dois lados. Hermione também não ficou de fora ao fechar o grupo com Seamus e Colin a acompanhando. Todos alertas e olhando para o outro lado da rua onde os encapuzados se agrupavam parecendo esperar por alguma coisa.

Um raio por breve segundos cegou a visão sensível daqueles que já tinham se acostumado com a iluminação precária da rua e o trovão pareceu fazer vibrar as poucas vitrines e vidros de janelas ainda intactos. As nuvens negras do céu pareciam estar se movimentando com o vento e um turbilhão de poeira negra, como um tornado, desceu delas, girando sobre o asfalto e pouco a pouco se desfazendo, tomando a forma de algo.

A poeira negra desapareceu e em seu lugar estava a forma de uma criatura estranha, coberta por uma capa esvoaçante que parecia ser feita da mais pura seda, enquanto seu corpo estava vestido com roupas ricamente decoradas. Poderia se passar por um Lorde ou algo ao menos relacionado com a realeza, se não fosse pelo rosto dele ser totalmente deformado, ostentando uma cabeça sem cabelos, pequenos e estreitos olhos vermelhos e duas fendas no lugar do nariz, fazendo recordar muito uma cobra.

- Ah – a voz do recém chegado saiu em um tom suave e sibilado. – Hermione Granger. – os olhos vermelhos cravaram-se na figura da jovem, fazendo um arrepio descer pela espinha dela. – Harry Potter. – se voltaram para o demônio que retribuiu o olhar com uma expressão firme e impassível. – E Draco Malfoy. – e por fim fixou-se no loiro por longos e perturbadores segundos, antes de desviar-se para olhar para o grupo em geral. – É um prazer. Eu sou Lorde Voldemort.

Continua...

NA: Feliz Natal atrasado a todos... e um Feliz Ano Novo. Beijos!