Capítulo 10
A Canção do Lobo Triste
Harry se lembrava claramente da primeira vez que sentiu temor apossar o seu ser ao preocupar-se com a segurança de outra pessoa. Foi quando Draco tinha acabado de completar seus dezessete anos e eles tinham marcado mais um encontro às escondidas, com o demônio disposto a deixar claro para o cabeça dura do loiro as suas intenções. Se ele fechasse os olhos, ainda podia pintar a cena claramente na sua frente como se tivesse ocorrido há poucas horas.
A noite estava encoberta por uma neblina densa que praticamente fazia a temperatura no lugar ser congelante. A sombra encostada em uma árvore a borda da floresta esperava em expectativa o seu companheiro e seus sentidos ficaram alertas quando o som de folhas se mexendo e galhos sendo estalados sob solas pesadas de sapatos chegou aos seus ouvidos. Potter inclinou um pouco a cabeça para divisar a figura que era mal iluminada pelos raios lunares que atravessavam as nuvens e deu um sorriso enviesado ao reconhecer o tradicional robe da Escola de Magia.
- Você realmente perdeu o amor a vida, não foi? – Draco sibilou irritado, soltando um longo e preguiçoso bocejo antes de mirar os olhos cinzentos e cansados no demônio. Harry praticamente havia demandado o encontro no meio da madrugada, sabendo que os últimos dias haviam sido cheios para o jovem bruxo. Entre planejamentos de batalhas e provas de final de trimestre, Malfoy praticamente ainda não tinha tido uma noite decente de sono.
- Alguém anda de mau humor pelo que vejo. – gracejou o lobo ao aproximar-se do loiro que recuou um passo desconfiado. Não era porque estava sendo cortejado pelo demônio desvairado que iria confiar plenamente nele, não é mesmo? – Você sabe o que eu vim fazer aqui, não sabe? – continuou Harry em um tom baixo, um sussurro que praticamente pareceu ecoar no silêncio mórbido da Floresta Proibida.
- Não dá para esperar mais alguns meses? – Malfoy ainda tentou negociar, sentindo seu coração dar saltos ao ver o homem chegar mais e mais perto de sua pessoa. Sabia o que Potter queria, ele estava praticamente insinuando a chegada deste dia em todos os encontros anteriores que eles tiveram, mas Draco não se sentia preparado. Não para isso, ainda achava que era muito novo.
- Você alcançou a maioridade nas leis de sua raça e como tal eu tenho direito de clamá-lo. Cansei de esperar Draco, está na hora de terminar o ritual de cortejo. – Harry praticamente rosnou entre dentes e afastou-se do bruxo em um pulo, colocando-se em posição de combate. Resignado, Draco recuou também, retirando a sua capa da escola que praticamente escondia as suas roupas de batalha e caminhou para o outro extremo da clareira, também se colocando em posição.
Segundo o que recordava do ritual de matrimônio dos demônios, o líder alfa, no caso Potter, teria que travar uma batalha contra o seu consorte escolhido para saber se ele era realmente a pessoa certa. Não bastava apenas haver a união entre corpos, tinha que haver união entre a alma e a energia espiritual deles. Se a energia de Harry não casasse com a de Draco, não haveria entidade nenhuma que mudasse este fato. E a única maneira de descobrir isto era uma batalha. A aura do demônio teria que praticamente "aprovar" o parceiro escolhido.
- Isto é ridículo sabia? Tão primitivo. – resmungou Draco, não estando nem um pouco disposto a entrar em uma briga àquela hora da madrugada, no meio da floresta, correndo o risco de ser descoberto por alguém que tivesse resolvido olhar naquela direção a esta hora da noite e notando que havia algo de errado com as árvores.
- São as leis mais antigas imposta pelos Deuses aos demônios. Conviva com isto. – rebateu Harry com um sorriso de escárnio que rapidamente o loiro retribuiu.
- É mesmo, eu tinha me esquecido de como você é velho. – um sorriso feral surgiu no rosto do demônio.
- E experiente. – provocou antes de saltar e partir para o ataque, sem dar tempo do outro reagir direito. Malfoy piscou seus olhos cinzentos e com um impulso de corpo saiu da linha de ataque de Harry, fazendo este pousar no espaço vazio que antes era ocupado pelo loiro. Contudo o demônio não se deixou abalar, com uma girada rodou a perna no ar, traçando um arco e por pouco acertando a cabeça do bruxo, que com uma cambalhota saiu da direção do golpe.
Mal Draco pousou no chão e um soco o acertou em cheio do rosto, o fazendo cair dolorosamente sobre o solo, sentindo raízes, gravetos e pedras espetarem as suas costas. Quando viu Potter descer o punho em direção ao seu rosto novamente, rolou o corpo para o lado e apoiou-se nas palmas das mãos, impulsionando-se para cima e usando os braços como apoio para poder girar uma perna e acertar o demônio nas costas, que tinha acabado de socar o chão onde estava a sua cabeça, abrindo um buraco neste.
Harry sentiu o impacto da pesada bota bem em cima de seus pulmões, lhe tirando o ar e por pouco não perdeu o equilíbrio. Com um movimento rápido pôs-se de pé e afastou-se do bruxo, ofegando pesadamente para recuperar o fôlego perdido. Sua garganta ardia em busca de ar e seu peito doía a cada inspirada. O golpe do garoto tinha sido forte e isto o surpreendeu. Os olhos verdes arregalaram quando viram o feixe de luz vir contra si e ele deixou-se cair no chão, saindo do caminho do ataque que explodiu em um tronco grosso de uma árvore atrás de si, deixando uma enorme mancha de queimado nela.
Ergueu-se num pulo e prontamente bloqueou um soco mirado contra o seu rosto com um braço, abaixando o outro livre para poder bloquear o chute que acompanhou o primeiro golpe. Prendendo braço e perna de Draco com as mãos, os usou como método para afastar o loiro de si, o arremessando contra outra árvore. A cabeça dele chocou-se no tronco com um estalo nervoso e o bruxo viu estrelas dançarem em frente aos seus olhos. Harry ergueu uma das mãos invocando uma bola de energia que parecia crepitar e antes que o seu adversário pudesse se recuperar do golpe, a disparou.
Movendo-se por instinto, Draco saltou, indo parar sobre o galho de uma das árvores centenárias da floresta e ocultando-se na escuridão. O ataque de Potter perdeu o seu alvo, atingindo uma montanha de pedras e isto pareceu fazer o chão da clareira tremer diante do impacto. Vagarosamente o loiro começou a pular de galho em galho com uma destreza impressionante, afastando-se do local de combate e indo em direção a borda da floresta que era margeada pelo lago da escola.
Com a sua visão apurada Harry pôde perceber o jovem fugitivo e com um sorriso divertido começou a caçá-lo, transformando-se na sua forma lupina e assim acompanhando o garoto de perto. Quando Draco pousou no banco de areia na beirada do lago, sentiu um choque contra as suas costas que o fez praticamente voar dentro da água fria. Potter voltou a sua forma original e riu com prazer diante das táticas fúteis do outro para vencê-lo. Fugir no meio da batalha não pareceu ser uma coisa esperta e ele sentia a sua energia demoníaca protestar, dizendo que o consorte escolhido era fraco demais para ser parceiro do líder da raça.
Malfoy ergueu-se das águas geladas, os cabelos pingando intensamente sobre seus olhos e sibilou furioso para o outro. Suas mãos abriam e fechavam em um gesto irritado, os dedos estalando continuamente até que pararam de se mexer. A água a volta do rapaz começou a tremer e pequenos redemoinhos formaram-se, erguendo-se da superfície e transformando-se em minis tornados de água.
Potter franziu a testa confuso. Draco não tinha a varinha em nenhuma das mãos e ele não se lembrava de nenhum feitiço que não envolvia o instrumento mágico e lidava com água. Porém sabia que a cada dia os bruxos estavam inventando algo novo para a guerra e este deveria ser o caso. Rapidamente formou outra bola de energia em ambas as mãos, esperando o momento de atacar. Quanto maiores os tornados de água ficavam, maiores eram as bolas de energia de Harry até que ele disparou ao mesmo tempo que o loiro atacou.
Os dois golpes se chocaram com força no meio do caminho, causando uma corrente de ar que impulsionou o corpo dos dois atacantes para trás. Potter deslizou pela areia até ser amparado por uma árvore, enquanto Draco era jogado mais longe lago adentro. O demônio sacudiu a cabeça para livrar-se do atordoamento e ergueu-se cambaleante por causa do poder do ataque. Procurou pelo seu adversário, mas não o encontrou em lugar algum e a agitação da superfície das águas lhe deu uma pista de onde ele deveria estar. Cansado, sentou-se a beira do lago para esperar.
Um minuto e meio haviam se passado e algo dentro de Harry pareceu incomodá-lo intensamente. Malfoy poderia ser um bruxo, mas ainda sim era humano e seres humanos não conseguiam suportar tanto tempo sem oxigênio, ou poderia? A superfície começava a ficar calma e nada do loiro emergir. Algo pesou no peito do demônio e quando dois minutos contaram no relógio ele retirou seu longo casaco as pressas e jogou-se dentro do lago, abrindo caminho freneticamente com as mãos pelas águas escuras até que finalmente encontrou um reflexo loiro mais ao fundo.
Nadou até ele e notou com desagrado Malfoy se debatendo fracamente, tentando se soltar de um grupo de criaturas aquáticas que o agarravam pelos tornozelos. Enganchou seu braço no braço do jovem e com a mão livre usou as suas garras para dilacerar as criaturas, começando a ascender rapidamente para a superfície. Quando quebrou a barreira da água segurou o bruxo com mais força contra o seu corpo, começando a nadar para a margem com o loiro ofegando em busca de ar.
Chegaram a praia e ele deitou Malfoy no chão, inclinando-se sobre ele com temor e vendo como o rosto estava mais pálido que o normal e ele parecia exausto. Levemente acariciou a bochecha fria e olhos cinzentos se abriram para encarar orbes verdes aparentemente preocupados.
- Me dá cinco minutos… - inspirou profundamente. – e aí nós voltamos a brigar. – e fechou mais uma vez os olhos. Harry sorriu diante da teimosia do parceiro e isto pareceu o suficiente para aquietar a sua energia e ela aceitar Draco como consorte.
- Você é um idiota. – murmurou, fazendo novamente os orbes cinzentos abrirem-se para olhá-lo com uma mistura de incredulidade e raiva. – Mas… - hesitou um pouco. – mas eu amo você. – finalizou num sussurro e beijou levemente os lábios arroxeados.
Mas o que isto tinha a ver com a história? A lembrança da noite em que eles se casaram e do quase afogamento de Malfoy no lago trouxe novamente à tona o medo que sentiu naquele dia. E era este mesmo medo que apossou seu coração por breves segundos quando viu o olhar avermelhado de Voldemort cair sobre o loiro. Havia algo no modo como o mestiço mirava seu parceiro que não lhe dava muita segurança e fazia todos os seus instintos gritaram para agarrar Draco e correr o mais longe possível para fora dali.
Lentamente ele deu um passo para o lado, aproximando-se mais do líder bruxo e num movimento discreto deslizou o braço pela cintura do rapaz, o puxando vagarosamente para perto de si. O corpo de Draco retesou por breves segundos ao sentir o toque, mas prontamente relaxou ao reconhecer a pessoa ao seu lado. Os olhos de cada trouxa, bruxo ou demônio estavam fixos em sua contraparte. Quando Voldemort deu um passo à frente, o grupo recuou outro, fazendo o homem dar uma risada macabra.
Prontamente Malfoy estalou os dedos, materializando uma espada prateada com pedras verde esmeraldas cravejadas do punho, a descansando ao lado do corpo, mas a segurando firmemente indicando que qualquer outro gesto suspeito da criatura e ela seria cortada ao meio em um golpe só. Ao seu lado Granger vagarosamente carregava a sua arma, sem nem ao menos olhar para ela, pois os orbes castanhos estavam fixos no inimigo e Potter alongava as suas garras preparando-se para qualquer combate.
Draco vagarosamente fez um gesto as suas costas para os bruxos atrás de si, erguendo um dedo indicando para eles se prepararem também. Os aurores que ficaram para trás fecharam os dedos em volta de suas varinhas, prontos para qualquer eventualidade. Pequenos e ameaçadores rosnados começaram a ecoar na rua e Granger viu ao menos três enormes lobos marrons a cercarem. Todo este movimento apenas pareceu divertir mais Voldemort que riu novamente, fazendo calafrios percorrerem as espinhas de muitos presentes.
- Tsc, tsc, precisa desta hostilidade toda quando tudo o que eu quero é apenas me apresentar? – perguntou em um tom suave, dando mais um passo a frente e displicentemente fazendo uma reverência polida diante dos três líderes. Potter estreitou os olhos, com todos os pêlos de seu corpo se arrepiando ao sentir a aura maligna emanar daquela criatura. – Sei que as atitudes dos meus Comensais da Morte não foram as mais amigáveis, mas é que no meio de tantos conflitos, creio que esta é a única maneira de chamar a atenção não é mesmo. – e percorreu um olhar apreciativo para os corpos que adornavam a rua e o sangue que manchava a neve branca.
- O que você quer mestiço? – Potter rosnou e isto pareceu eliminar qualquer ar de divertimento que Voldemort ostentava, pois as íris vermelhas brilharam perigosamente e ele torceu os lábios enrugados, deixando amostra uma presa semelhante à de uma cobra.
- O que eu quero Harry Potter é algo bem simples, mas acredito que não será tão fácil de se obter não é mesmo? – olhou profundamente nos orbes verdes de Harry e este arregalou os olhos de terror quando compreendeu as implicações daquelas palavras, sentindo seu coração vir a boca e seu corpo se preparando para o pior. Voldemort sorriu enviesado ao ler nos mínimos gestos a reação desespero do sempre controlado demônio e sentiu um prazer doentio ao farejar o cheiro de medo que brotou dele. Com um gesto largo de mão ordenou o ataque, ambicionando ter o seu tão cobiçado tesouro nas mãos.
Colin não esperou o primeiro Comensal se aproximar demais e prontamente disparou contra ele, o fazendo recuar rapidamente diante do impacto da bala, mas não o parando de imediato, pois o tiro havia sido no ombro. Quando o sujeito novamente avançou para o ataque, Seamus segurou no braço não ferido do amigo e o tirou do caminho do golpe. Creevey raramente errava um tiro e para ter acertado somente o ombro do adversário isto significava que ele estava cansado, assim como a maioria dos combatentes naquele campo de batalha.
Remus recuou um pouco ao ver dois Comensais o cercarem e sentiu as suas costas se chocarem contra outra maior e mais larga do que a dele. Olhou por cima do ombro para ver um Sirius irritado rosnar para outros dois inimigos e tinha certeza que se o homem estivesse na sua forma lupina, os pêlos de suas costas estariam eriçados. Pelos seus cálculos, estavam em desvantagem diante deste segundo ataque, visto que mais da metade de seus regimentos bateu em retirada para auxiliar os feridos, deixando apenas um pequeno grupo para trás que não parecia muito páreo para o inimigo que ainda estava firme e forte, diferente deles. Contudo, mesmo diante da desvantagem não se sentia intimidado e com uma expressão feroz ergueu a varinha pronto para a briga.
Sirius percebeu o mestiço retesar o corpo atrás de si e o cheiro familiar que ele sentiu no campo de batalha, no dia que seqüestrou Lupin, voltou a atingi-lo. Foi a aura de luta que o lobisomem emitiu que tinha atraído os instintos demoníacos do lobo, o fazendo cometer aquela loucura de raptá-lo, e agora esta mesma aura parecia preencher o espaço que os dois ocupavam incitando Black a partir para a briga sem pensar nas conseqüências. Animado, sacudiu a cabeça com um sorriso matreiro no rosto, espalhando os cabelos negros e pouco a pouco assumindo a sua forma canina. Quando o enorme lobo negro ocupou o lugar do homem, este jogou o focinho para trás e uivou um canto de guerra, sendo prontamente imitado pelos seus companheiros. Num pulo foi para cima dos Comensais da Morte mal esperando para começar a diversão.
- Granger! – Draco chamou, disparando um feitiço contra o Comensal que partia para cima da garota já exausta e que mal se agüentava sobre as próprias pernas. Juntando as suas parcas forças ela correu em direção ao bruxo e procurou abrigo às costas dele, deixando que o jovem assumisse a sua batalha visto que ele ainda parecia ter mais energia do que ela para isto. – Melhor você reunir seus homens e sair daqui Granger, você não tem mais condições de lutar. – sugeriu o loiro quando encontrou uma brecha nos golpes do adversário para poder falar com a mulher.
Orbes castanhos o miraram com uma expressão teimosa e a jovem engatilhou mais uma vez a sua arma em uma clara indicação de que não iria a lugar algum. Nunca foi de abandonar uma batalha antes, por mais difícil que esta fosse, e não seria agora que desenvolveria este hábito.
- Por que você não vai ajudar o seu marido… - comentou divertida, lançando um olhar para Harry que estava praticamente cercado e estranhamente com dificuldade para livrar-se de seus adversários. – que eu me viro sozinha. – Malfoy a olhou incerto e viu algo brilhar nas íris da garota, reconhecendo a coragem de um combatente lá dentro. Sabia que se fosse para morrer, Granger preferia morrer em um combate defendendo o seu povo, como um honrado líder deveria fazer. Acenou positivamente com a cabeça e a passos incertos afastou-se dela indo em direção a Harry.
Voldemort, em seu ponto privilegiado e afastado do pequeno campo de batalha, observava tudo com mórbido interesse, sorrindo sádico ao ver o modo como às três raças tentavam a todo custo manter uma luta de igual para igual com os seus Comensais transmutados. Mais de seus fiéis servos aparataram ao seu lado e ele suavemente virou-se para eles, sussurrando baixas ordens ao seu grupo de reforço e abrindo um sorriso vitorioso quando viu uma pessoa em particular destacar-se de um dos pequenos grupos que lutavam.
Draco atravessou a rua a toda velocidade, aproximando-se cada vez mais de Harry que estava praticamente encurralado e ergueu a espada pronto para dilacerar o primeiro adversário, mas sentiu algo bater contra as suas costas, o derrubando no chão e o fazendo deslizar sobre o asfalto escorregadio. Com o corpo dolorido diante do ataque, virou-se lentamente para ver uns quatro brutamontes aproximando-se dele e agilmente pôs-se de pé, pronto para recolher a espada esquecida por causa da queda, mas tendo esta presa contra o solo por um pé grande e pesado. Ergueu os olhos e nem teve tempo de pensar em uma reação antes de ser atingido com um chute no peito que o jogou para trás, o derrubando novamente.
O loiro tentou erguer-se mais uma vez mesmo diante da dor, mas as suas costelas protestaram intensamente por causa do gesto. Viu sombras começarem a envolvê-lo e alguém segurou em seus cabelos, o puxando para cima e o colocando de pé. Irado, mirou um dos mascarados a sua frente e tentou socá-lo, mas seu braço foi segurado por uma enorme e forte mão que o impediu e o bruxo soltou um grito agoniado quando ouviu os ossos de seu pulso estalarem e quebrarem.
Potter derrubou com um golpe de suas garras mais um dos Comensais e rosnou por entre os lábios ao notar que cada vez que derrubava um, outro aparecia para tomar seu lugar. Seu coração veio à boca ao ouvir o grito familiar e ele procurou por entre as brechas oferecidas pelos corpos que o cercava a figura esguia de Malfoy, o encontrando em um estado igual ou pior que o seu. Lançou um olhar a um Voldemort que praticamente não tomava partido na batalha, apenas observando de camarote os ataques, e a expressão que viu no rosto do mestiço somente confirmou seus piores pesadelos.
O ataque a Londres foi apenas uma cilada para atrair as três raças em um só ponto da Grã-Bretanha e assim levá-las a exaustão diante das investidas dos estripadores. O que o mestiço realmente queria era outra coisa. Ou melhor, era alguém. Viu em câmera lenta os Comensais imobilizarem um Draco arredio e retirando forças do desconhecido ele atacou, mutilou e dilacerou seus adversários, rapidamente abrindo caminho para socorrer o loiro.
- DRACO! – grito desesperado e dobrou-se de dor quando sentiu algo afiado atravessar a carne de seu abdômen e cruzar seu corpo. Ergueu os orbes verdes escurecidos e viu um Comensal afastar-se segurando uma espada banhada em sangue e Harry repreendeu-se por ter sido tão descuidado. Em seu desespero em socorrer Malfoy tinha baixado a sua guarda para o que acontecia ao seu redor, resultando neste ataque surpresa.
- HARRY! – Draco gritou de volta ao ver o demônio cair de joelhos no chão, com ambas as mãos protegendo o ferimento em sua barriga. Seu sangue gelou ao ver o tão imponente demônio parecer extremamente derrotado e ele sentiu algo molhado deslizar pela sua bochecha fria. – POTTER, SE VOCÊ MORRER EU JURO QUE VOU AO INFERNO PESSOALMENTE CHUTAR O SEU TRASEIRO! – gritou enquanto debatia-se nos braços de seu captores, usando o restante das suas já praticamente esgotadas forças, e mais lágrimas escorreram despercebidas de seus olhos.
Feitiços começaram a ser lançados em direção ao grupo de Comensais que prendiam Malfoy na vã tentativa de libertá-lo. Demônios lobos cercaram seu líder para protegê-lo de possíveis ataques e trouxas juntavam-se aos bruxos na esperança de socorrer o loiro que era arrastado em direção a Voldemort. Dementadores novamente surgiram no campo de batalha sem aviso, formando uma barreira de proteção para cobrir a retirada do adversário e Harry esticou uma mão ensangüentada na direção de Draco, como se assim pudesse tocá-lo e salvá-lo.
Hermione levou a sua arma à altura dos olhos pronta para disparar, mas a mão de Snape no cano, abaixando a escopeta com uma negativa de cabeça a impediu. O inimigo tinha bolado aquilo de caso pensado e o que ele queria era Draco desde o início. Portando, com certeza, ele deveria ter previsto qualquer tentativa de resgate durante o processo. Os feitiços dos poucos aurores restantes quase não faziam efeito nos Comensais e o surgimento de mais Dementadores apenas ajudavam na fuga deles.
Quando o grupo que prendia Malfoy chegou perto de Voldemort, este deu um sorriso vitorioso às três raças e com outra reverência sarcasticamente polida desaparatou, levando o líder dos bruxos com ele. Dementadores prontamente dispersaram ao ter a sua missão cumprida e quando aos poucos todos foram saído de seu choque diante do que aconteceu, voltaram-se para um Harry ferido caído no meio da rua. Uma aura esverdeada envolveu o demônio e ele prontamente assumiu sua forma de lobo como modo de sobreviver ao ferimento. Atordoado, Potter jogou a cabeça para trás e soltou um longo uivo sofrido pela perda de seu consorte antes de, finalmente, desmaiar de exaustão.
Continua...
