Capítulo 11
Interlúdio
Nublado, tudo parecia tão nublado e escuro que por melhor que fosse a sua visão ele não conseguia enxergar um palmo a frente do seu nariz. E além do mais era frio, extremamente frio, o que fazia os pêlos de seu corpo se arrepiarem e seus sentidos ficarem desnorteados. Um barulho ecoou na escuridão como um estrondo e ele virou-se freneticamente a procura da origem do som. O vento soprou, causando calafrios em seu corpo e uma voz pareceu sussurrar perto de seu ouvido.
- Harry… - alguém lhe chamou e o demônio girou sobre os pés, tentando achar a pessoa no meio daquela neblina toda. – Harry… - falou novamente e algo brilhou na escuridão. Uma luz prata refletiu ao longe e mais uma vez o vento sobrou, afastando a névoa que preenchia todo o lugar. E Potter viu, a poucos metros a sua frente, Draco parado com um semblante triste e um braço esticado em sua direção.
- Draco! – chamou em desespero, começando a correr de encontro ao loiro, mas parecia que quanto mais ele se aproximava, mais o bruxo se afastava de si.
- Me salve Harry. – pediu o rapaz com lágrimas vermelhas rolando de seus olhos e a mão estendida abaixando-se lentamente como se pesasse toneladas. – Me salve Harry… - repetiu enquanto era tragado para a escuridão.
- Eu vou te salvar! – prometeu o demônio, apertando o passo para ver se alcançava o garoto. – Draco! – gritou apavorado quando este começou a sumir aos poucos.
- Por favor Harry… me salve. – suplicou uma última vez antes de desaparecer no nada.
- DRACO! - Harry abriu os olhos num rompante, assustando aqueles que rodeavam a sua cama, mas os orbes verdes pareciam não enxergar nada, pois estavam brilhantes e desfocados. – Draco… Draco… - os lábios pálidos repetiam incessantemente o nome como uma prece enquanto os braços cansados esticavam-se como se quisessem capturar algo no ar.
- Shh Lorde Potter. – uma voz suave e maternal falou perto de seu ouvido e uma mão fria tocou a sua testa que queimava por causa da febre. – Está tudo bem, está tudo bem. Volte a dormir. – pediu e prontamente Harry fechou os olhos, caindo novamente em sono profundo e perturbado por sonhos.
- Quanto tempo vai demorar até ele se recuperar? – Sirius perguntou depois de ver o afilhado novamente desmaiar sobre a cama e lançou um olhar contrariado a Madame Pomfrey, a enfermeira da escola. A mulher colocou ambas as mãos nos quadris arredondados e retribuiu o olhar com uma intensa expressão de desagrado que quase fez Black recuar ganindo de medo. Papoula sabia qual era o problema do demônio e não estava disposta a ficar suportando infantilidades de um homem já crescido, pois para isso já lhe bastavam os alunos de Hogwarts.
Lorde Potter havia sido trazido depois da batalha diretamente para o castelo, sendo aparatado por um grupo de aurores que o carregou as pressas para a ala hospitalar. A mulher a primeira vista ficou chocada ao ver o imponente líder dos demônios praticamente morto ser colocado sobre uma das camas, em sua forma lupina, e demorou poucos segundos até que ela começasse a reagir e aplicar feitiços e poções no homem. Porém o problema era que a energia de Harry rejeitava a maioria dos tratamentos o que tornou um desafio imenso para a curandeira tentar salvá-lo.
Poucos minutos depois da chegada do grupo que trouxe Potter, vieram os outros demônios do bando do jovem, querendo freneticamente saber como estava o seu comandante. E, entre eles, estava Sirius Black que por meia hora argumentou com a bruxa sobre levar Harry de volta a toca deles e usar os seus próprios curandeiros para salvar o rapaz, visto que a magia da enfermeira não estava funcionando. Pomfrey, obviamente, ficou possessa ao ter as suas habilidades médicas contestadas por um simples moleque – embora ele fosse centenas de anos mais velho que ela, ainda sim era assim que a mulher o visualizava – e com uma palavra de ordem apenas – um "sente-se" bem empregado – calou o sujeito que resolveu ficar quieto apenas observando a curandeira trabalhar.
Contudo, isso havia sido há três dias atrás e no segundo dia desde a sua internação, Potter voltou à forma humana no meio da madrugada, o que indicava que ele estava se recuperando. Entretanto continuava febril e delirante e o ferimento em sua barriga custava a cicatrizar. Demônios curandeiros foram chamados para poder acelerar o processo, mas quando chegaram apenas atestaram que nada mais poderia ser feito e que agora Harry teria que sair dessa situação sozinho, e abismados se sentiram na obrigação de elogiar o bom trabalho de Papoula, o que fez a enfermeira lançar um olhar extremamente superior para um aborrecido Sirius Black que há dias não saía do lado do afilhado.
- Acho melhor o senhor descansar também senhor Black. – sugeriu a velha bruxa, mas já sabendo a resposta que o homem iria lhe dar.
- Não eu estou bem aqui, obrigado. – falou sem nem ao menos olhar a mulher nos olhos e com a atenção fixa do corpo pálido de Harry sobre a cama.
- Senhor Black eu insisto que o senhor descanse, não estou disposta a ter outro paciente na minha enfermaria acamado por crise de teimosia. – o lobo lançou um olhar feroz para a enfermeira que insistia em lhe dar ordens como se fosse a sua superiora e os olhos azuis claros de Madame Pomfrey brilharam perigosamente quando ela mais uma vez colocou os punhos fortemente fechados sobre os quadris.
- Melhor escutá-la senhor Black. – a voz calma e apaziguadora de Remus Lupin pareceu preencher completamente a ala hospitalar e dois olhares azulados recaíram sobre o homem que entrava no aposento trazendo pelo braço um terceiro anista da Lufa-Lufa, que tinha lágrimas rolando dos olhos e grandes e vermelhas bolhas no rosto e braços.
- O meu Deus! – exclamou a enfermeira já no modo mãe super preocupada e caminhou até o menino, o tirando do lado de Remus e o levando para um outro canto da ala hospitalar, começando a tratar de seus ferimentos. Lupin apenas observou a dupla sumir enfermaria adentro e aproximou-se hesitante dos dois demônios que ocupavam o local.
- Você de novo mestiço? – resmungou Black. Desde que Harry havia sido internado, Lupin aparecia constantemente na enfermaria para ou lhe fazer companhia, ou para lhe trazer alimentos que ele sempre se recusava a comer. Claro que isto parecia não incomodar o lobisomem que somente deixava a bandeja com o almoço, jantar, o que fosse, de lado e se acomodava em uma cadeira desconfortável, começando a ler um livro qualquer e assim ficavam os dois juntos um do outro em confortável silêncio por várias horas.
E embora a insistência de Remus em estar ao seu lado agravava o seu mau humor por causa do estado do afilhado, Sirius tinha que confessar que de certo modo a presença do bruxo o tranqüilizava e lhe dava alguma força. Só que se alguém lhe perguntasse sobre isto, ele morreria antes admitir de tal fato.
- Lorde Potter está fraco Black e acredito que não irá acordar tão cedo. Então porque você simplesmente não se acomoda em uma dessas camas e dorme um pouco? Garanto para você que elas não são nada desconfortáveis, experiência própria. – disse com um sorriso gentil no rosto o que pareceu piorar o estado de espírito do demônio.
Não estava disposto a aceitar caridade de bruxos, ainda mais que foi um deles que causou a desgraça de seu afilhado. Se não fosse por aquela peste loira, Harry não estaria naquela cama de hospital com um ferimento que quase o matou marcando o seu abdômen e delirando de febre. Sempre soube que havia sido uma má idéia o garoto ter escolhido aquele mortal como parceiro e a prova disso estava na sua frente e extremamente inconsciente.
- Não pode culpar o Draco pelas escolhas do Lorde Potter. – Sirius pulou no lugar quando ouviu a voz de Remus bem perto de sua orelha e virou-se assustado para mirar o homem parado atrás de si e com uma expressão séria no rosto. Franziu as sobrancelhas negras e soltou um rosnado do fundo da garganta diante da interrupção do bruxo. Ele praticamente tinha lido seus pensamentos e, pelo que sabia, existiam alguns magos que possuíam esta habilidade.
- Como você se atreveu… - bradou, erguendo-se da cadeira em um pulo, com o seu corpo avantajado sobrepondo-se a forma quase frágil de Lupin. Porém o licantropo permaneceu parado no lugar, inabalado diante da explosão do outro.
- Estava escrito em seu rosto, eu não li a sua mente se é isto o que quer saber. – justificou-se com um sacudir de ombros displicente e lançou um olhar quase paternal a forma de Harry na cama. – Draco é um bom garoto senhor Black. Temperamental, confesso, arredio, não nego, e extremamente arrogante… culpe Snape por isso claro, mas um bom garoto e acredito que se o Lorde Potter o escolheu é porque ele mereceu ser o parceiro de um demônio do porte de seu afilhado.
- Se ele é tão bom… - começou em um tom venenoso. – então o que faz neste exato momento nas mãos do inimigo? Só mostra o quão incompetente ele é. – encerrou maldosamente e a expressão amável no rosto de Lupin fechou-se como um dia de tempestade.
- Devo lembrar-lhe senhor Black – sibilou o nome com um tom de desprezo. – que Draco Malfoy ainda é o nosso líder, o qual devemos respeito, então sugiro que o senhor modere o seu tom e as suas palavras pois outros bruxos não serão tão condescendentes ao ouvir tais ofensas proferidas contra o nosso comandante. – avisou, sabendo que se fosse outro já teria azarado Black por desacato.
Parecia que com seqüestro a popularidade de Draco havia crescido extremamente e a comunidade bruxa aos poucos reconhecia a importância do garoto nesta guerra. Desde que a notícia do seu rapto foi vinculada nos meios de comunicação mágicos, um certo pânico assolou a população que diante da perda do líder da resistência agora sentia-se indefesa. Tais atitudes dos outros bruxos praticamente despertou uma ira insana em Snape que considerava todos uns hipócritas, pois agora os feiticeiros que clamavam o retorno de seu amado líder eram os mesmos que dias atrás diziam a torto e a direito que Malfoy não servia para o cargo. Não precisa se dizer que foi um custo conter o Mestre de Poções que queria porque queria matar alguém.
- E eu pensando que o seu caso era com o morcego humano, mas vejo que você prefere os garotinhos, certo? – provocou o demônio e Remus recuou, não compreendendo completamente a indireta. Quando o braço de Sirius cruzou a sua cintura e o puxou de encontro ao corpo do homem, ele quase rolou os olhos de exasperação. Os dois já não tinham vivido esta cena antes?
- Sinceramente Black, eu simplesmente tenho que dar crédito a todos os rumores que ouço sobre você. – resmungou, usando toda a sua força e afastando Sirius de si com um empurrão. – Você não bate bem das idéias. Uma hora está discutindo comigo sobre a validade de Draco ser parceiro do Lorde Potter. Outra hora está me ofendendo por eu ser um mestiço e então fica flertando comigo… ou seja lá o que você chama essa sua mania de me agarrar. – comentou, ajeitando a sua roupa sem encarar o outro diretamente. – Decida-se!
Sirius deu um sorriso matreiro. Tinha que concordar com Lupin, pois a cada hora ele sempre estava reagindo de uma maneira diferente em frente ao bruxo, porém o problema era que ele não conseguia se controlar. Havia algo no lobisomem que simplesmente deixavam os seus instintos em frenesi. Remus parecia à primeira vista tão inocente e frágil, mas quando você o conhecia melhor descobria que ele era um homem feroz e teimoso, um guerreiro forte e decidido e isto parecia atrair Black como inseto se atraía a luz. Embora o bruxo ainda fosse um mestiço, coisa que era completamente desprezado pela sua raça, ainda sim ele era fascinante e já que Harry tinha recusado o seu presente, preferindo aquele loiro, achava que o afilhado não iria se importar se ele investisse no segundo comandante não é mesmo.
- Bem – Remus engoliu nervosamente ao ver o sorriso malicioso no rosto de Black e ele sabia muito bem que quando o demônio sorria daquela maneira, coisa boa não iria acontecer. – eu preciso ir. – quase gaguejou, indicando displicente com uma mão a porta de saída da ala hospitalar e começando a recuar em direção a ela. O problema era que a cada passo que ele dava para trás, Sirius dava um para frente. – Eu apenas vim aqui trazer o meu aluno. Tenha um bom dia senhor Black. – virou-se para partir, mas foi impedido quando Sirius segurou em seu braço e o puxou fortemente, o fazendo tropeçar e cair de costas contra o peito do demônio.
- Por que a pressa senhor Lupin? – murmurou com uma voz rouca perto do ouvido dele, fazendo Remus se recordar da noite dias atrás em que eles se encontraram no corredor e tiveram uma conversa parecida com esta, pois seu corpo começava a reagir da mesma maneira.
- Eu sei que estamos no meio de uma crise com o seqüestro de Draco, mas eu tenho aulas para lecionar, então se você não se importa… - tentou desvencilhar-se do abraço de Sirius, mas ele o apertou ainda mais contra o seu corpo. – Senhor Black… - ofegou quando sentiu mãos grandes e firmes deslizarem pelos seus braços em uma carícia suave. – Sirius… - sua voz quase sumiu quando as mesmas mãos penetraram sorrateiras sob a sua camisa começando a acariciar a pele de sua barriga, fazendo calafrios descer pela sua espinha.
Num rompante o demônio virou o bruxo em seus braços e fechou uma mão nos cabelos castanhos, trazendo a cabeça de Remus contra a sua e clamando os lábios rosados em um beijo violento e sedutor. Lupin ofegou de susto diante do gesto súbito e soltou um pequeno gemido de dor quando o canino de Sirius feriu seu lábio inferior. Quando uma língua ousada começou a lamber o machucado e a chupar incessantemente o lábio do lincatropo, este soltou outro gemido de prazer, agarrando-se a Black como se a sua vida dependesse disso e retribuindo o beijo na mesma intensidade.
- Professor Lupin! – a voz esganiçada de Madame Pomfrey fez Remus acordar num estalo e empurrar Sirius para longe, fazendo o demônio tropeçar nas próprias pernas e cair desajeitado sobre uma mesa de cabeceira.
- P-Papoula… - gaguejou o homem, pigarreando de leve para poder recuperar o controle da voz. A enfermeira cruzou os braços e bateu a ponta do pé no piso de pedra, lançando ao bruxo um olhar reprovador. – Eu… sinto muito? – disse incerto, com as bochechas extremamente vermelhas. Não podia acreditar que tinha sido flagrado pela mulher que durante anos cuidou de sua saúde de uma maneira maternal e por quem ele tinha grande respeito.
- A enfermaria não é lugar para isto jovenzinho. – o repreendeu como se ele ainda fosse o garoto de quinze anos da Grifinória que vivia atolado de livros. – Vão namorar em outro lugar. – ordenou e Remus corou mais ainda ao ouvir a palavra "namorar".
- Velha doida este é o primeiro conselho que presta que você dá em dias. – Sirius resolveu intervir, como sempre na hora errada, com um sorriso maroto no rosto bonito.
- Eu tenho uma aula para lecionar. – desculpou-se Lupin e praticamente saiu correndo da ala hospitalar. Black pensou em abrir a boca para dizer alguma coisa sobre a partida apressada do homem quando Pomfrey o interrompeu com um olhar mordaz.
- Atreva-se a ferir um fio daquele cabelo castanho rapazinho – ameaçou a mulher, sacudindo a sua varinha na direção do nariz do demônio. – e eu castro você. – e fez um gesto de corte com a mesma que fez Sirius recuar de pavor só de pensar na cena, e engolir em seco concordando com a enfermeira que triunfante empinou o nariz no ar, rodou sobre os pés e foi recolher-se na sua sala.
Severo virou mais uma vez a garrafa de Wisky de Fogo contra o copo, praticamente o enchendo e depois o tomando de um gole só. Sentiu a bebida descer queimando pela sua garganta e acumular-se em seu estômago que já reclamava diante do castigo que recebia, deixando a cabeça do professor um pouco zonza por causa do álcool. Ergueu novamente a garrafa, pronto para poder mais uma vez encher o copo, quando percebeu que estava sendo observado.
Irritado, virou o rosto para ver quem o incomodava em seu ritual privado e viu, parada na porta de entrada de seu escritório, uma menininha de longos e volumosos cabelos ruivos e grandes olhos verdes que o miravam com inocência enquanto um dedo rechonchudo sumia entre os lábios vermelhos que o sugavam com fervor.
- O que você quer? – vociferou para a garotinha, xingando Longbottom mentalmente até a qüinquagésima geração do rapaz. Ele simplesmente teve a idéia imbecil de trazer a órfã trouxa para Hogwarts porque era um mole que não conseguia resistir a uma criança desamparada. Típico comportamento grifinório, pensou com asno.
Entretanto, apesar da pergunta rude, a menina pareceu não se abalar com o tom áspero do professor e adentrou mais na sala, olhando as coisas a sua volta com o típico interesse infantil enquanto se aproximava do homem sentado à mesa ao fundo do aposento. Quando chegou perto do móvel, tirou o dedo da boca e espalmou as suas mãos pequenas no tampo, tentando usar os braços magros para poder subir na mesa e assim encarar aquele homem interessante mais de perto.
Snape observou em silêncio por alguns segundos os movimentos da menina até que se cansou daquela brincadeira e ergueu-se de seu assento, apoiando as mãos na mesa e inclinando-se sobre a mesma para poder olhar a garotinha do outro lado que ainda tentava subir. Orbes verdes prenderam-se em negros e a criança fez um biquinho manhoso e esticou os braçinhos pedindo colo, o que prontamente foi ignorado pelo bruxo.
- Por que você não volta para qualquer buraco do inferno de onde você veio? – bradou e a garota piscou um pouco, não compreendendo o que ele quis dizer e Severo passou as mãos pelos cabelos, não conseguindo acreditar que pudesse haver no mundo alguém tão inocente… ou tão imbecil. A menina era surda por um acaso? Não conseguia decifrar pelo seu tom de voz, ou as suas palavras, que a sua presença era indesejada?
- WENDY! – o grito ecoou no corredor e segundos depois dele a figura de Neville Longbottom apareceu na entrada do escritório do Mestre de Poções. Os olhos azuis do garoto se arregalaram quando viram Wendy e Snape em uma disputa de olhares e com as pernas trêmulas ele entrou na "caverna do morcego" e aproximou-se hesitante da menina.
- Finalmente! – rosnou o bruxo mais velho. – Poderia fazer o favor de levar esta peste daqui? – ordenou, fazendo um gesto impaciente com a mão e Neville pegou à ruivinha no colo, que imediatamente sorriu ao reconhecê-lo e o abraçou fortemente pelo pescoço, suas íris verdes brilhando de felicidade ao ver o rapaz.
Severo observou a cena atentamente, ansioso com que eles partissem logo para continuar a fazer o que fazia antes de ser interrompido, e surpreendeu-se ao ver a paciência e o cuidado com que Longbottom lidava com a criança, como se esta fosse feita de cristal e pudesse quebrar a qualquer momento. Se ao menos o idiota tivesse tido o mesmo tato em suas aulas, muitos caldeirões teriam sido poupados do desastre iminente que era o Herbologista.
Enquanto verificava se Wendy estava fisicamente intacta – nunca se sabia que tipo de maldição invisível Snape era capaz de colocar em alguém quando de mau humor – o rapaz percebeu que era observado intensamente e virou-se para ver o professor os mirando com seus penetrantes olhos negros. Engoliu em seco por estar sob avaliação tão profunda e desviou o rosto para não encarar o homem, com isto a sua visão rapidamente voltou-se para a garrafa de wisky quase vazia sobre a mesa. Franziu as sobrancelhas diante da cena e vagarosamente depositou a menina no chão, ajoelhando-se em frente a ela e a segurando pelos ombros enquanto lhe dava um caloroso sorriso.
- Não deveria ter saído assim sem me avisar Wendy. – a repreendeu suavemente e a garotinha fez uma expressão triste por ter chateado o rapaz. – Não se esqueça disso da próxima vez, okay? – terminou com o sorriso se alargando e a menina acenou positivamente com a cabeça. – Agora eu quero que você volte pelo mesmo caminho que veio e encontre a professora McGonagall que está te esperando no topo da escada. E fique com ela até eu ir te buscar, certo? – instruiu e mais uma vez recebeu um aceno positivo de cabeça.
Antes de partir, Wendy deu mais um abraço em Neville e depois o beijou estalado na bochecha e com um sorriso colocou novamente o dedo na boca e saiu feliz da sala, sob o olhar atento do ex-grifinório. Quando a menina sumiu de vista, ele virou-se para Severo apenas para vê-lo pegar a garrafa de Wisky de Fogo e encher o copo até a borda, o erguendo pronto para tomá-lo de um gole só. Porém, antes que os lábios do homem pudessem tocar na boca do copo, este foi tirado de suas mãos e jogado contra a lareira, fazendo o fogo nesta crepitar mais forte com a adição do álcool nas chamas.
- O que você pensa que está fazendo? – sibilou o professor ameaçadoramente e por breves segundos Neville pensou em recuar, fugir correndo daquela sala e esquecer completamente de qualquer encontro que teve com o homem. Contudo, a sua coragem grifinória retornou quando ele viu Snape preste a beber o wisky direto da garrafa.
Novamente ele arrancou o objeto da mão do professor e o jogou no fogo, fazendo as chamas flamejarem mais fortes e refletirem na íris negra do bruxo mais velho, que mirava com fúria aquele moleque ousado que tinha se atrevido a entrar em sua sala sem ser convidado e ainda interrompindo o seu ritual. Irritado, inclinou-se sobre a mesa para poder impor uma postura ameaçadora ao rapaz, mas este apenas cruzou os braços teimoso e o encarou de volta.
- Sei que esta abalado com o que aconteceu com o Draco, todos nós estamos, mas encher a cara desacaradamente não vai trazê-lo de volta. – o repreendeu com uma voz firme e Snape rodeou a mesa para poder ficar frente a frente daquele fedelho abusado que de uma hora para a outra resolveu criar coragem e arranjar um embate justamente com ele, o homem que metia medo até mesmo nas estátuas da escola.
- Quem morreu e te elegeu o novo líder Longbottom? Minhas ações não são de seu interesse e eu não lhe devo satisfações. – deu as costas a ele, indo a passos largos até o armário onde guardava alguns objetos pessoais, entre eles mais garrafas de Wisky de Fogo, e abriu a porta. No entanto, antes que pudesse pegar outra bebida, uma mão de dedos alongados espalmou contra a madeira e fechou a porta num estalo. Logo em seguida Neville colocou-se entre o armário e o professor.
Irado pela intromissão do Herbologista, Severo puxou a sua varinha de dentro de suas vestes e apontou para o rosto do garoto, franzindo as sobrancelhas em desagrado e esperando que assim o menino recuasse de medo, como sempre fazia. Ledo engano. Longbottom firmou os pés no chão e permaneceu imóvel no lugar, encarando ferozmente o outro homem em desafio, o provocando, o incitando a lançar algum feitiço contra ele naquele momento.
- Fique sabendo professor que quando o Malfoy voltar eu irei pessoalmente reportar as suas atitudes a ele e sei que ele não ficará nada feliz. – avisou com uma expressão séria. Sabia que Snape não nutria nenhum respeito pela sua pessoa, mas respeitava Draco e se colocasse o nome dele no meio da conversa talvez conseguisse enfiar algum juízo na cabeça do homem.
Furioso e com o álcool começando a falar por si, Severo segurou a frente da camisa de Neville e o sacudiu com força, o puxando de encontro ao seu corpo e aproximando o rosto arredondado do garoto do seu, o mirando com ódio.
- Talvez ele não volte Longbottom, já pensou nisso? – sentenciou aquilo que por três dias recusava a aceitar. Eles não sabiam o que o tal de Voldemort queria com Draco e, portanto, não tinham a mínima idéia se o rapaz ainda estava vivo ou não e com o Potter inconsciente eles não saberiam desse fato tão cedo. Somente o demônio era capaz de garantir, diante da ligação que eles possuíam por causa do matrimônio, se o parceiro estava bem.
- Pelo visto o senhor já… e várias vezes. Mas devo lembrá-lo professor que o álcool nunca foi a melhor coisa para nos ajudar a pensar claramente. – rebateu e segurou no pulso que o prendia pela blusa, tentando soltar os dedos fortes do tecido e fracassando miseravelmente.
- O mundo deve estar terminando. – o bruxo riu com escárnio e soltou Neville com força, o empurrando dolorosamente contra o armário. – Para um fedelho covarde como você vir aqui me dar ordens e conselhos. – resmungou, virando-se com as vestes farfalhando como sempre fazia e atravessando a sala, entrando em uma porta praticamente escondida a um canto dela. Longbottom piscou por alguns segundos antes de recuperar-se do susto, por um momento ele pensou que Snape realmente iria azará-lo, e seguiu o homem pela mesma porta em que ele sumiu.
O garoto parou chocado e sentiu o coração vir à boca quando viu que estava nos aposentos pessoais de Snape e tentou recuar um passo, apenas para ouvir um estrondo soar atrás de si e fazê-lo virar assustado para ver a porta que tinha acabado de bater. Um clique ecoou no quarto e o ex-grifinório arregalou os olhos ao reconhecer o barulho da fechadura se trancando e virou-se num pulo quando ouviu a voz rouca do professor soar atrás de si.
- O que você ainda faz aqui? – exigiu o homem, mirando com raiva o jovem que ofegava e usava a porta trancada como apoio. Os olhos azul bebê estavam largos e as bochechas extremamente rosadas. Fios castanhos de cabelo pareciam desalinhados enquanto o rapaz tateava com a mão a porta as suas costas em busca da fechadura. Snape deu um passo à frente, como uma fera aproximando-se de sua presa, e o menino prendeu a respiração, não sabendo como reagir.
Não sentia medo, pelo contrário, seu corpo todo tremia em expectativa sobre o que o professor iria fazer e a cada passo que o homem dava, mais as suas pernas balançavam. Viu os orbes negros vagarem de seu rosto e lentamente descerem pelo seu pescoço, ombro, peito e pernas, como se estivessem avaliando o que via, antes de voltar ao seu rosto com firmeza. Por um momento apertou as pálpebras firmemente com a sensação de que o bruxo mais velho estava lendo a sua mente e quando sentiu um toque em sua bochecha, pulou de susto e empalideceu.
Severo estava mais próximo do que há segundos atrás, perigosamente mais próximo e com as pontas dos dedos pousadas em seu rosto, deslizando pela sua pele e parando na ponta de seu queixo, erguendo a sua cabeça suavemente. Mordeu o lábio inferior apreensivo e viu quando o homem desviou a atenção para ele diante do gesto. Dois pensamentos passaram pela sua cabeça antes do professor inclinar-se mais e tomar a sua boca em um beijo. O primeiro era que Snape estava realmente bêbado para fazer o que fazia. E o segundo era que finalmente ele conseguiu tirar uma casquinha do temido, mas cobiçado Mestre de Poções.
Um grito de fúria pareceu tremer a velha mansão e um estrondo sacudiu as paredes. Em seu cárcere, Draco rugia de raiva e chutava as grades da cela com força, na vã tentativa de derrubá-las a base da pancada. Muitos Comensais da Morte pulavam no lugar cada vez que ouviam o barulho e entreolhavam-se temerosos diante das reações do prisioneiro. A maioria deles havia pensado que por ser um rapaz novo e estar na situação em que estava, cativo pelo inimigo, que Malfoy iria ceder e recolher-se amedrontado a um canto de sua prisão esperando ansiosamente pelo resgate. Nunca imaginaram que estariam completamente errados.
Por dias Draco gritava, xingava, chutava, socava e balançava grades e paredes na esperança de destruir a sua prisão. Contudo, já antecipando a reação do jovem bruxo, Voldemort havia lançado feitiço atrás de feitiço sobre o lugar para assim impedir qualquer fuga. Descobrir este fato não deixou o loiro mais feliz do que ele já estava, fazendo apenas aumentar as investidas dele em tentar escapar. E pobre do infeliz que ousasse se aproximar demais das barras.
Na primeira noite um Comensal desavisado chegou muito perto das grades e quase teve a cabeça arrancada pela corrente de ouro que Malfoy usava no pulso. Com isto, a arma que tinha passado despercebida por parecer uma jóia foi prontamente confiscada. Na segunda noite outro Comensal foi atacado ferozmente quando tentou servir comida ao prisioneiro e este lançou a bandeja contra a cabeça do homem, que recuou assustado. Draco parecia e agia como uma fera selvagem encarcerada e isto fez muitos dos servos de Voldemort se perguntarem se o que eles tinham capturado era realmente um bruxo.
- Você quer parar com isso? – uma voz bradou no corredor onde ficavam as prisões e os gritos pararam. Sombras se mexeram nas paredes iluminadas por fracas lamparinas a óleo e um Comensal aproximou-se da cela, parando a uma distância segura das grades e mirando o loiro com raiva. – Pessoas estão querendo descansar nesta casa. – ordenou para o jovem que estava parado no meio do aposento, ofegante e com os cabelos loiros em desalinhos. Os olhos cinza pareceram brilhar na escuridão e o homem teve a sensação de que viu um reflexo avermelhado nas íris claras.
- Suma daqui seu verme! – rosnou com raiva, avançando sobre as grades e o Comensal recuou assustado.
Draco sentia todo o seu corpo tremer e pronto para explodir a qualquer momento. Sentia a sua energia chamando, implorando pela presença de seu consorte e ter como última lembrança um Harry ensangüentado caindo de joelhos a sua frente não ajudava muito a sua aura mágica. Ela ocupava praticamente todo o espaço da cela e rebatia nas paredes protegidas magicamente, tentando encontrar uma brecha para sair e assim conseguir encontrar a energia de seu companheiro e assegurar-se de que ele estava bem. Contudo, quando não conseguia o seu intento, voltava com força para o loiro, extremamente cheia de fúria, fazendo o rapaz descontar o seu ódio na primeira coisa que via na sua frente.
- Tsc, por que não respira fundo meu jovem, para assim poder relaxar? – a voz sibilada de Voldemort ecoou no corredor e em poucos segundos o homem apareceu no campo de visão do bruxo, sendo seguido por uma mulher de aparência estranha e escuros cabelos negros e que o mirava com um sorriso maléfico no rosto parcialmente iluminado.
- Por que você não chega mais perto para assim eu arrancar os seus olhos fora com as minhas mãos? – e tentou esticar as mãos pelas brechas das grades, sendo rapidamente repelido pela magia nelas.
- Tão arisco… não lembro de sua mãe ser assim jovem Dragão. – a voz da mulher que acompanhava Voldemort o fez parar no lugar e ele voltou a sua atenção para ela, tentando discernir as suas feições diante da semi escuridão do corredor.
- Não coloca a mãe no meio senão a coisa fica feia. – rebateu com escárnio, dando um sorriso feral para a Comensal da Morte.
- Draco, Draco, Draco. – Voldemort aproximou-se da cela e riu quando o rapaz tentou atacá-lo, mas novamente foi impedido pelas barreiras protetoras. – Por que tanta hostilidade? É por causa do Lorde Potter? – a menção do nome de Harry pareceu estourar algo dentro do peito do loiro e a aura que preenchia a cela crepitou, fazendo as paredes tremerem fortemente.
- Se ele morrer seu mestiço filho de uma serpente asquerosa, eu juro que te mato, te desmembro pedaço por pedaço e ainda desço ao inferno para matá-lo novamente. – ameaçou gélido e algo na postura do garoto fez o Lorde das Trevas recuar cauteloso. Draco Malfoy era tudo o que ele tinha previsto. Extremamente poderoso e a criatura perfeita para completar o seu plano. No entanto, ele sentia que o rapaz possuía mais segredos guardados dentro de si do que deixava transparecer e a aura dele, praticamente visível a olho nu, brilhando naquele tom prata intenso apenas denotava perigo.
- Dragão! – a mulher ao lado de Voldemort ergueu uma mão e sacudiu o dedo em uma negativa, o repreendendo como se ele fosse uma criança. – Não use este tom com o grande Lorde das Trevas. – falou raivosa diante do desrespeito daquele fedelho com o poderoso Lorde.
- Grande? Só se for o ego! Geralmente ego grande significa pinto pequeno! – retrucou sarcástico e Voldemort riu diante das atitudes infantis do loiro. – NÃO RIA DE MIM! – Draco espalmou as mãos com força contra as barras, não fazendo apenas elas tremerem, mas todo o porão onde ficavam as celas para os prisioneiros. A mulher e o Lorde recuaram ao sentirem o mini terremoto.
- Você é perfeito. – sibilou o homem de maneira exaltada. – E me fará perfeito. – continuou, fazendo uma expressão extasiada ao pensar nas possibilidades. Malfoy franziu as sobrancelhas não conseguindo compreender o que ele queria dizer, mas não disposto a tentar decifrar aquela charada. Sua mente nublada pela raiva apenas o fazia reagir por instinto e não bolar nada.
- Meu Senhor devemos começar os preparativos para a cerimônia? – perguntou a Comensal e Voldemort deu um leve aceno com a cabeça. Logo o primeiro dia do solstício de inverno chegaria, época perfeita para realizar um ritual mágico do porte que ele planejava, por isso precisavam se apressar. Potter não ficaria quieto por muito tempo sabendo que o seu precioso marido estava desaparecido e sabia que o demônio tinha uma arma a mais para poder encontrar o jovem bruxo: a sua vidência. Se não corresse seus planos iriam por água a baixo e a sua vingança não estaria completa. Sorriu um sorriso macabro e aproximou-se da cela esticando um braço pálido na direção do loiro.
- Se atreva a chegar mais perto e será a última coisa que fará em vida. – alertou Malfoy com um brilho assassino no olhar e o homem recuou precavido, rindo divertido ante a inquietude do bruxo.
- Bellatrix. – sibilou o nome e a mulher ao lado dele virou-se para encarar seu Lorde com adoração. – Cuide bem do nosso Tesouro, o quero saudável para o dia da cerimônia. – ordenou e foi embora do lugar com a mesma velocidade e quietude com que chegou.
- Você será o responsável pela elevação do grande Lorde das Trevas, pequeno Dragão. – Bellatrix riu extasiada, uma gargalhada insana. – Narcissa, aquela traidora, deve estar rolando no túmulo neste exato momento sabendo que seu adorável filho será o responsável pelo fim da guerra… e de todas estas raças miseráveis que habitam o planeta. – a mulher deu um passo para mais perto das lamparinas e Draco recuou surpreso.
Na quase escuridão do corredor ele mal pôde identificar direito as feições dela, mas agora que a luz iluminava o seu rosto, o que Malfoy via era uma face com olhos estreitos e de íris brancas, pêlos negros cobriam parte das bochechas e testa da mulher e caninos salientes saltavam dos lábios. O nariz achatado apenas completava o visual, a deixando com uma forma que era uma mistura de cachorro com ser humano.
- O que são vocês? – perguntou abismado ao lembrar-se dos outros Comensais com quem batalhou e que também possuíam formas estranhas.
- Nós? Nós somos o futuro, uma raça superior e que irá governar este planeta melhor do que vocês seus tolos bruxos, trouxas e demônios. – respondeu, dando outra gargalhada insana. – Bem, agora eu tenho que ir, muitas coisas para aprontar. Mas foi um prazer conhecê-lo… - ela aproximou-se da cela e quando Draco fez menção de atacá-la, afastou-se rapidamente com uma risada diante da atitude arredia do menino. – meu querido sobrinho. – e partiu, deixando o loiro para trás e com um único pensamento na cabeça:
- Mas que merda!
Continua...
