Capítulo 12

Nem tudo que reluz é mágico

Novamente estava naquele lugar nublado, escuro e frio e, mais uma vez, o vento que soprava fez os pêlos do seu corpo se arrepiarem. Abraçou-se na tentativa de produzir algum calor e começou a andar, com a sensação de que a cada passo que dava apenas colaborava para ele caminhar em círculos. Não sabia onde estava, não sabia para onde estava indo, e quando novamente a brisa soprou acompanhada de um sussurro, ele parou atento para escutar quem o chamava.

- Harry… - virou-se bruscamente para ver a névoa se dissipar e a figura de Draco surgir na escuridão. Como na vez anterior ele estava com o braço esticado em sua direção, dos olhos rolavam lágrimas vermelhas de sangue e a sua expressão era de completo pesar. – Eu sinto tanto Harry… - falou com uma voz baixa e melancólica.

- Por quê? Por que sente? – perguntou o demônio, dando um passo de encontro ao loiro, mas este recuou outro, afastando-se do homem. Parou a meio caminho para não afugentar o rapaz e apenas esperou para ver o que aconteceria a seguir.

- Eu sinto tanto Harry… não queria envolvê-lo nisso. – suplicou com mais lágrimas rolando de seus olhos cinzentos e agora com os dois braços erguidos como se pedisse perdão.

- Me envolver em quê? Draco… me diga onde você está e eu vou salvá-lo. – quando o jovem começou a sumir na escuridão Potter pôs-se a correr em direção a ele. – Por favor, Draco não vá embora! – suplicou no meio de sua corrida e quando sentiu que estava finalmente se aproximando do bruxo, tropeçou em algo, caindo de joelhos no chão e ferindo as palmas das mãos no processo.

- Eu não quis mentir para você… eu te amo Harry… eu… - o demônio arregalou os olhos quando viu uma expressão aterrorizada surgir no rosto do garoto e a figura imensa de Voldemort aparecer atrás dele, reluzente como os fantasmas de Hogwarts e com os olhos vermelhos brilhando na negridão como dois faróis de neblina.

- DRACO! – estendeu a mão para ele o chamando, implorando para que o rapaz viesse para os seus braços, mas este recuou e quando as mãos do Lorde das Trevas brotaram da escuridão e abraçaram o menino como se ele fosse um boneco de brinquedo quebrado, Potter sentiu algo apertar em seu peito.

- Eu sinto muito Harry… - pediu mais uma vez enquanto se deixava levar.

- NÃO! – gritou desesperado, tentando erguer-se, mas raízes brotaram do chão e o prenderam no lugar. – Não me deixe! Draco… - chamou, mas este já havia desaparecido, sendo levado por Voldemort. – DRACO!

Harry abriu os olhos e inspirou profundamente em busca de ar. Seu corpo todo tremia por causa do pesadelo e suor frio escorria por sua testa. A visão ainda embaçada começava a desanuviar, permitindo que o homem identificasse o local a sua volta. Não reconhecia bem onde estava, mas quando viu de rabo de olho um quadro na parede mexer e acenar para ele, teve a vaga idéia de que deveria estar em Hogwarts. Sentindo todos os músculos de seu corpo protestarem, mexeu-se na cama, sentando-se vagarosamente e espantando o último resquício de sono da mente.

Deslizou sobre o colchão macio e silenciosamente pôs-se de pé, apoiando-se na guarda da cama quando seus joelhos vibraram com o movimento. Sentia-se fraco, extremamente fraco, seus membros tremiam diante do esforço de novamente suportarem o peso de seu corpo, sua cabeça latejava de maneira infernal e uma pontada de dor vez ou outra acometia a sua barriga cada vez que dava uma inspirada mais profunda de ar. Lentamente pôs um pé em frente ao outro e a passos morosos começou a se afastar da cama em direção a saída da ala hospitalar.

- Mas aonde o senhor pensa que vai? – o grito esganiçado da enfermeira ao flagrar o paciente fujão fez os ouvidos sensíveis de Harry zunirem e Sirius, que dormia a sono solto depois de noites em claro, acordar num pulo e prontamente sair da cama onde estava acomodado.

- HARRY! – o homem chamou em um tom animado, correndo até o afilhado e o esmagando em um abraço. Potter soltou um alto gemido de dor e rapidamente Black o largou, olhando preocupado para o rosto pálido do rapaz mais novo.

- Lorde Potter, o senhor ficou quatro dias inconsciente e delirando de febre. Seu corpo ainda está fraco e o seu ferimento começou a cicatrizar apenas agora. Então trate de voltar para a cama! – Pomfrey praticamente rugiu e com duas passadas largas surgiu ao lado do demônio, o segurando fortemente pelo braço e o arrastando de volta para o leito. Harry lançou ao padrinho um olhar perdido que dizia claramente "quem é esta maluca?" e Black apenas deu de ombros. Já estava escaldado de encontros anteriores com a curandeira para saber que contrariá-la nunca era um bom negócio.

- Eu não posso. – tentou soltar-se do aperto da mulher, mas, no momento, ela tinha uma força superior a sua por causa de seu estado de saúde. – Eu tenho que salvar o Draco. – falou com a voz rouca e os olhos brilhando ainda com resquícios de febre. Papoula lançou um olhar condoído e maternal ao homem e com mais suavidade o guiou para o seu leito.

- Neste estado o senhor não seria de muita ajuda Lorde Potter. Sem contar que o senhor nem sabe por onde procurar. – atestou, finalmente o soltando quando chegaram perto da cama e levemente espalmou a mão no peito do demônio, o empurrando de encontro ao colchão e o incitando a deitar, porém Harry permaneceu impassível em seu lugar. Não era hora para descansos, pois já teve quatro dias para isto pelo que compreendeu do sermão da enfermeira, e quatro dias com certeza deveria ser a eternidade para um Malfoy aprisionado pelo inimigo.

- Eu posso… eu preciso… Draco. – falava bestamente e embora estivesse acordado, sua cabeça não estava muito lúcida e tudo o que os seus instintos gritavam em sua mente era: "precisamos resgatar o nosso consorte". Como líder alfa era a função dele proteger e guiar a matilha. Era ele que dava as ordens que deveriam ser obedecidas à risca, protegia as mulheres – mesmo que essas fossem teimosas e negassem a proteção – e guardava a sete chaves o seu consorte, aquele que deveria liderar ao seu lado. Permitir que algo acontecesse com o conjugue era quase que uma desonra a raça. Era um sinal de fraqueza.

- Harry. – Sirius afastou Pomfrey do afilhado e postou-se na frente dele, depositando ambas as mãos sobre os ombros do jovem. – Olhe para mim filho. – falou em um tom suave e Potter, que olhava para todos os cantos, mas não fixava a sua atenção em nada, ainda desnorteado, voltou os orbes verdes para o padrinho. – Do que você precisa? – perguntou e viu no fundo das íris claras um brilho de reconhecimento.

- Algo… de Draco. – balbuciou desconexo, ainda tentando arrumar os pensamentos. – Crabbe e Pansy. – continuou, convocando o nome dos seus dois melhores batedores. Talvez no momento eles fossem de enorme ajuda, porque ele não descansaria até revirar aquele país de cabeça para baixo, ou a Europa inteira se fosse preciso. – Longbottom! – exclamou quando finalmente, como se tivesse levado um choque, o seu cérebro acordou e começou a funcionar com clareza. – Longbottom fez a missão de reconhecimento para Malfoy dias atrás, sabe a posição da base inimiga e pode nos ajudar.

- Senhor Potter! – Papoula interrompeu a conversa dos dois. Embora por um lado estivesse aliviada em saber que Harry já estava planejando tudo para poder resgatar Draco, por outro ficava aflita só de pensar no demônio entrando em mais uma batalha no estado em que se encontrava. Seria derrotado num golpe só se saísse daquela maneira e a sua consciência de curandeira não poderia permitir isto. – Eu devo insistir… - tentou argumentar, mas a expressão no rosto do homem a calou. Algo nos olhos dele dizia que ele estava disposto e matar quem se enfiasse no meio do caminho no seu objetivo de salvar Draco Malfoy. – Faça como preferir então! – disse exasperada. – Eu vou avisar ao diretor sobre os seus planos. – e sacudindo a cabeça enquanto resmungava uma coisa ou outra sob a respiração foi refugiar-se em sua sala e assim dar o recado a Dumbledore.

Mais desperto do que estava há minutos atrás, Potter começou a rodar de um lado para o outro em frente à cama que antes estava e com uma mão passando nervosamente por entre os cabelos longos, desfazendo alguns nós no processo, ficou murmurando coisas sem nexo sob a respiração. Sirius apenas observava em silêncio seu comandante resmungar, sabendo que apesar de estar parecendo um pouco insano agindo daquela maneira, Harry na verdade estava bolando estratégias de batalha em sua mente e pesando os prós e contras dos planos arquitetados. Parou de perambular e mirou o padrinho que ainda o olhava e arqueou ambas as sobrancelhas.

- Eu não falei aquilo por falar, Black! Foi uma ordem! – disse em um tom rouco e Sirius fez uma careta quase infantil. Estava tão concentrado no estado do afilhado que nem tinha levado em consideração o que ele havia dito mais cedo.

- Desculpe. – pediu e com um leve inclinar de cabeça despediu-se do homem, sumindo pelo corredor atrás das pessoas necessárias para esta missão e pronto para avisar a matilha para se preparem para o que ele sentia ser o maior e mais sangrento combate que eles teriam em anos. E tudo isto apenas por causa de um homem, ainda um menino na verdade. Realmente esperava que este tal de Malfoy valesse a pena. Realmente esperava que ele fosse a pessoa certa para o seu afilhado.


Cento e trinta e cinco gotas caíram no chão, cento e trinta e seis gotas caíram no chão… O barulho de algo estourando contra o teto sobre a sua cabeça o fez dar um pequeno pulo surpreso e perder a contagem de gotas que caíam de uma infiltração no canto da parede. Soltou um longo e sofrido suspiro entediado e voltou o olhar para os nós dos seus dedos, que estavam roxos dos socos que deu nas paredes. Sua garganta doía diante dos gritos e seus pés estavam dormentes por causa dos chutes. Depois de quatro dias de rebeldia finalmente seu corpo apresentava sinais de cansaço e o pulso quebrado, o qual ele tinha ignorado mais cedo, agora latejava intensamente clamando por sua atenção.

Dobrou os joelhos, apoiando os braços sobre eles e jogou a cabeça para trás, a repousando contra a pedra fria e úmida. Sua mente novamente voltou-se aos pensamentos que o assolavam por dias. O que os seus soldados estavam fazendo? Será que estavam planejando algum resgate? Eles ao menos faziam idéia de onde ele estava? E Potter? Só de pensar no demônio seu coração falhava e a sua garganta se comprimia, impedindo o ar de passar. Cada vez que fechava os olhos à imagem que surgia em frente a eles era o moreno caído de joelhos no chão com uma expressão surpresa no rosto e as mãos segurando o ferimento na barriga. O sangue vermelho vivo escorrendo por entre os dedos longos e manchando o asfalto era o que costumava povoar seus pesadelos.

Ergueu a cabeça num estalo quando ouviu o ranger característico das portas de ferro da cela e um dos Comensais da Morte aproximar-se cauteloso com uma bandeja nas mãos. Draco fechou os punhos fortemente em uma posição defensiva e o homem recuou assustado quando viu os orbes cinzentos brilharem ferozmente em sua direção. Lentamente o loiro foi erguendo-se do chão com uma suavidade e graça que o fez parecer um felino pronto para dar o bote e o Comensal recuou ainda mais, assustado com o que estaria por vir.

Fazia horas que os habitantes da Mansão Riddle não ouviam mais os gritos e ataques do garoto, mas isto não significava que ele já tinha se dado por derrotado e dentro da roda de seguidores do Lorde das Trevas sempre havia disputas para ver quem levaria a comida ao prisioneiro. Ninguém queria arriscar ter a sua cabeça arrancada pelo bruxo enfurecido. O homem abaixou-se lentamente para depositar a bandeja na entrada da cela, seus olhos por detrás da máscara estavam fixos no mago que o olhava com uma frieza que fez calafrios correrem a sua espinha. Quando Malfoy deu um passo à frente o Comensal soltou um grito estrangulado e deu um pulo para trás, batendo a porta e recuando até a parede oposta, olhando apavorado para o loiro aprisionado.

Draco soltou uma longa e tenebrosa gargalhada e isto foi o suficiente para fazer o sujeito girar sobre os pés e sumir o mais rápido possível dali. Quando ele desapareceu no final do corredor é que o loiro desfez a expressão maníaca que ostentava em seu belo rosto e aproximou-se da bandeja, ajoelhando-se em frente a ela e olhando seu conteúdo com extremo desprezo. Havia um prato fundo com um conteúdo que ele deduziu fosse alguma sopa, o problema era que esta tinha uma cor verde doentia que fazia o seu estômago embrulhar somente de olhar. Ao lado do prato havia um copo de barro com um líquido transparente dentro e Malfoy o ergueu nas mãos feridas, o cheirando longamente.

A princípio parecia não haver nada de errado com a água, mas nunca se podia confiar nos seus captores. No entanto, a sua lógica lhe dizia que se estava vivo até agora, apesar de todo o seu escândalo, isto só poderia significar que Voldemort o queria para alguma coisa e portanto não seria tolo de matá-lo envenenado. Ou deixar algum de seus seguidores fazer isso. Resignado, virou o copo num gole só, mas ignorou prontamente a comida oferecida. Poderia passar dias à base de água se quisesse, por mais que isso fosse doloroso. E nem se estivesse à beira da morte que colocaria aquela coisa pegajosa na boca. Preferia transformar-se no rato de testes das poções de Snape do que comer aquela porcaria.

Cansado sentou-se num canto da cela e pôs-se a contar as rachaduras do teto, dando um longo bocejo uma vez ou outra. Dormir era outra coisa que ele recusava-se a fazer. No máximo tirava pequenos cochilos de dez a vinte minutos durante o dia, quando sentia que a movimentação da casa estava mais calma, ou seja, com certeza Voldemort e seus Comensais deveriam estar fora fazendo alguma coisa, o que o permitia baixar um pouco a sua guarda e relaxar. Porém a falta de sono também se dava aos pesadelos que surgiam no momento que fechava os olhos. Por mais que ele gritasse, esperneasse, xingasse aquele mestiço, isso não mudava o fato de que lá no fundo estava com medo. Não tinha idéia do que o homem queria com ele e pensar nas probabilidades o assustava.

Muitas das vezes pegou-se imaginando quando Potter apareceria para salvá-lo e depois se censurava por ter se tornado tão dependente do demônio. Outras vezes sentia-se culpado por todas as vezes que o moreno lhe deu grandes demonstrações de carinho e ele retribuiu tudo com frieza e distância. Não estava acostumado a receber afeto tão abertamente, talvez apenas de seus pais, mas estes morreram quando era criança e por isso quase não se lembrava deles. Snape nunca fora um ser dado a abraços e toda vez que Lupin tentava suprir a parte emocional que Severo negava dar ao menino este a recusava por falta de conhecimento no relacionamento sócio-emocional humano.

Barulho de passos pesados ecoou pelas paredes mofadas do corredor e Draco ergueu-se num pulo, pondo-se de pé em uma posição defensiva em questão de segundos. Seu corpo todo protestava de dor, seus músculos tensos mal o obedeciam e ele sabia que o seu pulso quebrado seria inútil no momento para qualquer tipo de briga. Mesmo assim manteve-se firme quando alguém se aproximou da sua cela. Geralmente os Comensais apenas apareciam na hora das refeições e nunca surgiam durante esses intervalos com medo do que ele pudesse fazer. Então, o que tinha acontecido de errado?

Três homens enormes bloquearam a entrada da cela e Malfoy torceu os lábios de maneira ameaçadora e franziu a testa em fúria. O que eles queriam? Revanche pelos colegas os quais ele feriu nos outros dias? Pois teriam que bater muito para derrubar o bruxo, pois este não se daria por vencido tão cedo. Os três entraram na prisão e rodearam o loiro que ergueu as mãos pronto para a briga. Um deles esticou o braço em sua direção e Draco reagiu num instinto, estapeando o braço para longe e desferindo um soco na direção do rosto mascarado. Outro Comensal avançou em sua direção enquanto ele atacava e apertou seu pulso ferido, arrancando um longo grito de dor do bruxo. O terceiro passou seus braços largos pelo peito do mago, o prendendo no lugar enquanto outro o segurava pelas pernas.

Malfoy sentiu seu corpo ser erguido do chão e começou a debater-se furiosamente para se soltar enquanto era levado para fora da cela. Sua voz rouca emitia gritos de profanações enquanto ele era guiado pela mansão pelos homens enormes. Seu corpo dolorido parecia tirar forças do infinito para continuar brigando e a sua cabeça girava num turbilhão de pensamentos. O que eles queriam? Para onde o estavam levando? Viu quando seguiram por corredores e escadarias até que chegaram a um andar qualquer. O terceiro Comensal que os guiava abriu uma porta e sem cerimônias Draco foi arrastado para dentro do aposento.

Sem qualquer aviso eles jogaram o garoto sobre uma cama que rangeu diante do impacto e antes que o bruxo pudesse se levantar do colchão mole para poder atacá-los, os Comensais já estavam fora do quarto e trancando a porta atrás de si. Draco soltou um rosnado de frustração e chutou uma cadeira que estava no caminho, a fazendo se chocar ruidosamente contra a parede do lugar. Irritado, voltou para a cama e praticamente afundou no colchão extremamente macio e desconfortável. E mais essa agora. Tinha sido transferido de instalações, mas por quê? Rodou os olhos pelo lugar que agora estava.

O quarto tinha uma aparência antiga, com poucos móveis de madeira trabalhada, mas muito mau cuidados. O chão tinha uma camada de poeira que deixava a tábua corrida de cor escura praticamente branca e as cortinas da cama de dossel estavam todas puídas pelas traças. Malfoy deslizou do colchão para o chão e cruzou os braços sobre os joelhos dobrados, apoiando o queixo sobre eles pensativo. O que será que vinha agora? Era o que rolava em sua mente repetidamente e uma sensação estranha começava a apoderar-se de seu peito. Sabia que o pior estava por vir e numa prece praticamente sussurrada ele recorreu a única pessoa que poderia salvar a sua vida no momento.

- Por favor Harry… me ajude. – pediu numa voz mínima, fechando os olhos e permitindo-se a mais um de seus breves cochilos.


Estava ficando rapidamente viciado nos toques dele. Nas mãos suaves, nos lábios rudes e sedentos, sempre o beijando, tirando o seu fôlego e pedindo por mais. Nas carícias exigentes e por vezes agressivas e no modo frio e impessoal que eram os encontros íntimos dos dois. Severo Snape não era um homem romântico, era praticamente impossível conjurá-lo num encontro a luz de velas, regado a vinho e comida sofisticada. Na verdade ele era do tipo mais carnal. O que queria, obtinha e tinha que ser exatamente no momento em que queria. E Neville não demorou muito tempo para acostumar-se aos hábitos do Professor de Poções. Na verdade acostumou-se rápido demais diante desses dois dias de relacionamento entre eles.

Desde o dia em que ele criou alguma coragem grifinória para bater de frente com o homem e confrontá-lo sobre o seu novo vício adquirido diante da perda de Draco, encontros furtivos e em cantos escuros começaram a surgir. O mundo de ambos estava mudando e girando rápido demais para o gosto daqueles que viveram a vida inteira atrelados a conceitos de rotina e estabilidade. Contudo, por mais que eles sentissem que deveriam parar, respirar e pensar sobre este assunto, bastava apenas um toque do companheiro para perderem qualquer linha de pensamento racional.

Longbottom sentiu as suas pernas se chocarem contra a mesa à medida que ia sendo empurrado para cima do móvel. Sua mente gritava que era loucura o que fazia e que a sua mãe deveria estar se revirando no túmulo neste instante e seu pai, ainda em coma no hospital, teria um treco se soubesse disso. Mas ele não se importava, pois no momento em que sentiu os dedos ágeis de Snape começarem a desabotoar a sua camisa e percorrerem o peito claro em leves carícias, ele esqueceu qualquer pensamento coerente.

Os lábios do professor eram exigentes, assim como seus dedos longos e fortes e que seguravam com força as abas de sua blusa, o puxando de encontro ao homem. O corpo adolescente, ainda dividido entre os traços da infância e da maturidade, pareceu alinhar-se perfeitamente com o corpo do homem mais velho e mais vivido, gerando um prazer inconsciente sobre a pele de ambos diante destas atitudes proibidas. Neville soltou um suspiro extasiado no meio do beijo e percorreu os dedos pelos cabelos negros do Mestre de Poções. À primeira vista os fios escuros pareciam sebosos e mal cuidados, mas o ex-grifinório surpreendeu-se ao descobrir que, na verdade, eles eram macios ao toque.

O menino sentiu o vento frio das masmorras arrepiarem os pêlos claros de seu corpo quando a sua camisa finalmente foi descartada, a súbita queda de temperatura contrastando intensamente com a sua pele quente. Seu sangue parecia ferver, e, desta vez, não era de ódio reprimido pelo homem que neste exato momento lhe tocava de maneira tão íntima. De uma maneira que ele jamais imaginaria que seria tocado. Estava perdido em um mar de sensações e por isso é que quase sentiu seu coração parar quando um estrondo soou da entrada da sala.

Severo afastou-se vagarosamente do jovem e com uma sobrancelha erguida mirou seus orbes negros na porta de entrada das masmorras, mas especificamente no demônio parado sob o batente e que parecia fumegar de ódio. Hesitante recuou as suas mãos do corpo do ex-grifinório e com uma paciência e compostura invejável, começou a ajeitar as vestes de Neville que estava dividido entre ficar confuso, envergonhado ou surpreso diante do flagra. Quando o professor fechou o último botão da camisa do Herbologista, este soltou um inaudível obrigado e desceu da mesa, escondendo-se prontamente atrás do corpo maior do Mestre de Poções.

- Posso ajudá-lo Black? – perguntou o bruxo displicente e não se abalou em nada quando Sirius entrou batendo o pé na sala, parou em frente a ele e praticamente o fuzilou com os olhos.

- O que significa isto Snape? – rosnou entre dentes e com os punhos fechados em um aperto doloroso. Severo apenas arqueou mais as sobrancelhas e deu uma breve olhada por cima do ombro onde um Neville de bochechas rosadas parecia extremamente entretido em observar algumas entranhas que boiavam dentro de uma jarra de vidro com um líquido viscoso e amarelado.

- Black… gostaria de elaborar melhor esta frase, pois não estou com paciência de ficar brincando de jogo de palavras. – pediu calmamente enquanto se afastava do demônio e ia até a sua mesa, começando a arrumar lentamente os papéis que foram espalhados mais cedo por causa do pequeno encontro entre ele e Longbottom.

- Você e este garoto praticamente se agarrando dentro desta sala. – balbuciou o homem, apontando para Neville que agora parecia totalmente interessado em um grindlow dentro de outro jarro. Aparentemente ele não estava escutando a conversa dos dois homens, mas suas faces extremamente vermelhas denunciavam o contrário.

- E? – Snape cruzou os braços em sua usual pose ameaçadora e Sirius rosnou em resposta.

- No meu povo trair o parceiro é considerado crime de Estado. Extremamente grave e com punições que podem levar ao banimento da matilha. – explicou o demônio que ainda fervia de raiva contida. Os lábios de Severo tremularam levemente enquanto suas sobrancelhas se franziam. Longbottom desistiu de procurar qualquer coisa interessante nas jarras de ingredientes e voltou a sua atenção plenamente para os outros dois, fixando seus olhos claros em Black que parecia estar extremamente inconformado com algo que nem ele e nem Snape conseguiam compreender.

- E eu repito… E? – continuou o bruxo, fechando os olhos firmemente e usando as pontas dos dedos para massageá-los na vã esperança de eliminar a pontada que começava a surgir por detrás deles como prelúdio de uma bela enxaqueca.

- Você não estava de caso com o Lupin? – acusou Sirius num grito, apontando um dedo em riste para o professor. Neville arregalou os olhos por meros segundos e depois os estreitou numa expressão suspeita em direção a Snape. Quando era estudante, fofocas e apostas rolavam pelos corredores da escola sobre o grau de envolvimento entre os professores Lupin e Snape, visto que o simpático mestre de Defesa Contra as Artes das Trevas parecia ser a única criatura, viva ou morta, dentro daquele castelo que conseguia ficar na presença do "morcego super desenvolvido" por mais de dois minutos. Recorde este que era apenas superado por Dumbledore e, em raros casos, por Malfoy.

- Creio que alguém perdeu a temporada de vacinação… - zombou em seu usual tom glacial. – Me admira que esse seu cérebro de ostra tenha conseguido chegar a esta conclusão brilhante sobre o meu suposto caso com o professor Lupin. – mirou os olhos negros no demônio, o censurando diante da falsa acusação. – Mas se isto te fizer feliz, Black, - e nisto abriu um sorriso macabro, daqueles que costumava dar quando estava prestes a ferrar um aluno, ou matá-lo de medo. – Lupin é um homem livre… então faça com ele o que bem entender.

Pela primeira vez na história dos três povos, Sirius Black corou de vergonha diante das insinuações de Snape e arregalou os olhos, prontamente encarando um ponto qualquer da sala para poder esconder o embaraço. Neville tossiu para poder esconder uma risada e acomodou-se ao lado do professor, esperando que o demônio recuperasse a compostura para dizer o que viera fazer ali. Porque para flagrá-los em uma cena indecorosa com certeza não fora o motivo da visita inesperada.

- Harry acordou. – disse o lobo depois de alguns minutos. – Está convocando uma reunião para poder resgatarmos o Malfoy. – mudou rapidamente de assunto, com o seu rubor diminuindo a cada segundo e com ele novamente recuperando o controle de suas emoções.

- Finalmente! – soltou o Mestre de Poções num tom que indicava que nos últimos quatros dias havia esperado por esta notícia ansiosamente. Ajeitando dobras inexistentes em suas vestes negras, o homem saiu da sala com seu usual farfalhar de capa, sendo seguido de perto por Neville e Sirius.

Alguns minutos depois o trio retornava a ala hospitalar, apenas para constatar que esta já se encontrava cheia e agitada diante da convocação de Potter. Bruxos da Ordem discutiam em cantos diferentes a altas vozes e perto da cama de Potter, Dumbledore e McGonagall conversavam com o demônio aos sussurros enquanto este já estava mais do que pronto para voltar pra guerra, visto que tinha trocado o pijama que usava pelas costumeiras roupas de batalha.

Olhos se ergueram e cabeças se viraram quando as portas de enfermaria se abriram, deixando passar os dois bruxos e o demônio e num gesto inconsciente Sirius procurou Lupin pela sala e ao encontrá-lo, prontamente caminhou em sua direção, prostrando-se ao seu lado como um guarda costas. Remus ergueu ambas as sobrancelhas castanhas e lançou um olhar a Harry como se perguntasse a ele o motivo das atitudes do padrinho do jovem, mas o lobo mais novo apenas lançou um sorriso sábio ao mago que soltou um suspiro sofrido. Demônios, vá entendê-los, era o que se passava em sua cabeça.

- Potter! – a voz de Snape chamou a atenção de todos, acabando prontamente com as conversas paralelas e fazendo os olhos verdes recaírem sobre a figura imponente do homem. – Se nos chamou aqui é porque você já possui algum plano de ação. Ou ao menos espero. – terminou num tom de ameaça. Seus nervos não agüentariam mais um dia com a ausência de Draco e saber que tinha falhado na sua missão, na sua promessa a Lucius e Narcisa de cuidar do menino, simplesmente o incomodava ao extremo.

- Isso é Neville que irá me dizer. – respondeu Harry, mirando intensamente o jovem que se encolheu ao lado de Severo, os olhos largos encaravam o demônio como se perguntassem: "como assim eu?". – Você fez a missão de reconhecimento para o Malfoy, você trouxe o aviso para nós antes do ataque a Londres, lembra-se? Sabe onde está localizada a base inimiga, sabe o que ele quer. Ou ao menos eu suponho que você saiba. – o líder dos demônios o encarou de modo que dizia claramente que era bom que as respostas de Longbottom concordassem com as suas afirmativas, ou ele não ficaria nada feliz.

- As p-pro-probabilidades da mansão ainda estar no mesmo lugar... – começou o menino, mas engoliu em seco quando íris esverdeadas praticamente o fuzilaram, dizendo com todas as letras que ele não estava gostando do rumo daquela conversa. – A segurança pode ter sido reforçada já que eles têm Draco com eles. – tentou ainda argumentar. Não gostava da idéia de retornar aquela casa que tudo o que conseguiu fazer foi quase lhe dar um ataque do coração.

- Você o encontrou. – Harry o interrompeu bruscamente. – Ele mandou um recado por você, pra dizer que estava na guerra. Você se lembra de alguma coisa que ele tenha dito além disto? Qualquer coisa que tenha descoberto durante a missão? – continuou, aproximando-se do menino e parando em frente a ele. Neville franziu as sobrancelhas, rolando os olhos para o teto e pensando enquanto todos faziam silêncio e seguravam a respiração esperando por uma resposta.

- Lee e Goyle falaram que bruxos e demônios de baixo nível estavam sumindo na região. – disse depois de alguns minutos pensativo e voltou seus olhos azul bebê para encarar o rosto firme do demônio. – A mansão que Lorde Voldemort usa como base pertenceu a uma família trouxa chamada Riddle. Encontrados mortos, sem motivo aparente. Minha suspeita? Um imperdoável. Os acontecimentos estranhos no vilarejo começaram depois da morte da família. Talvez tenha sido quando Voldemort mudou-se pra lá. Por que lá? Não sei. – parou e respirou um pouco, tentando lembrar de mais alguma coisa, qualquer coisa.

Harry apenas observava o garoto atentamente, absorvendo cada vírgula dita por ele. Voldemort deve ter escolhido aquela mansão por algum motivo e não apenas pelo fato de que o vilarejo não se encontrava no mapa de território dos povos. Pois lugares como Little Hangleton havia aos montes ao longo de Grã Bretanha. Mas aquele deveria ser especial. Bruxos e demônios estavam sumindo da região. Desaparecidos, não mortos, isso quer dizer que corpos não foram encontrados. Voldemort tinha seguidores. Então ele deve ter começado por algum lugar. Abriu a boca para especular algo, uma coisa que sempre aparecia em seus sonhos em relação a este desconhecido, quando Neville o atropelou.

- Ele disse uma coisa curiosa. – parecia que o silêncio que antes estava na sala havia se aprofundando diante desta colocação do menino. – Eu lembro que um dos seguidores dele sugeriu que eles me comessem... me... fizessem de jantar... – engoliu em seco e arrepiou-se ao recordar dessa cena. – mas ele os impediu, dizendo que eu não era forte o suficiente, mas que iria trazer para ele aquele que era. – terminou, franzindo a testa e mirando Potter firmemente quando este arregalou levemente os olhos e fez um ruído no fundo da garganta.

- Algum problema Lorde Potter? – perguntou Dumbledore ao ver a expressão horrorizada no rosto pálido do demônio. Harry balançou um pouco sobre as pernas, sendo prontamente aparado por um de seus soldados, e escondeu o rosto com uma das mãos.

- Aquela coisa não é um demônio… - murmurou com a voz falha. – embora eu tenha sentido energia demoníaca nele. Mas não é um demônio puro. Assim como vários de seus seguidores. As energias deles eram confusas, não havia um traço específico distinguindo de qual raça eles vieram. – parecia que a sua língua estava ficando presa dentro da boca enquanto a sua garganta fechava aos poucos, impedindo a passagem de ar. Já havia ouvido falar deste tipo de ritual, achava ridículo, não imaginava como alguém conseguiria submeter-se a algo tão horrível, mas com esse tal de Voldemort tudo era possível. E as suas visões pareciam tornar-se mais claras a cada segundo.

- Harry? – Sirius havia saído do lado de Lupin para poder auxiliar o afilhado e depositou uma mão sobre o braço dele. O homem mais novo ergueu a cabeça num rompante e Black viu dentro dos orbes esverdeados algo que ele não via há anos: medo. Harry estava apavorado e isto só poderia significar uma coisa: que Draco estava em extremo perigo. – O que foi?

- São mutações. Voldemort aumenta seus poderes e de seus seguidores através de mutações, usando corpos de bruxos e demônios inferiores. Este é o significado de "comer". Eles usam o sangue da criatura em questão e a energia para poder tornarem-se mais poderosos. Às vezes usam até mesmo a carne. – muitos bruxos fizeram expressões horrorizadas e alguns até mesmo ficaram suspeitamente com o rosto em tons acinzentados. – Mas é um processo contínuo. Ficar usando demônios de baixo nível não é o suficiente. A energia oscila demais, não tem como haver estabilidade. É como transferir sangue tipo B para um sujeito que tenha A. Nunca vai funcionar. A não ser que encontrem alguém que possua os dois tipos, A e B.

- Você está querendo dizer… - Remus o interrompeu, lançando um olhar breve e temeroso a Severo. – Que Voldemort está se decompondo porque o corpo dele não está suportando as mutações?

- Creio que sim. – concluiu Harry. – Ao menos nas minhas visões é o que ele sempre diz… Elas sempre mostram o Draco me pedindo desculpas e… - nisto ele engoliu em seco e o rosto contorceu-se brevemente numa expressão de dor. – morrendo, com Voldemort dizendo que agora era perfeito.

- Então para este cara conseguir ser perfeito ele precisa de um mestiço. De preferência que seja bruxo e demônio. Então, por que o Malfoy? – Sirius indagou com a sobrancelha erguida. – Se é um plano para atrair o Harry e usá-lo nesta experiência, ele se ferrou. Os Potter são a linhagem mais pura de demônios lobos assim como os Black. – concluiu o homem e torceu os lábios ao ver Snape e Lupin cruzarem os olhares num gesto suspeito.

- Potter. – Severo soltou um longo e sofrido suspiro.

- Não! – Remus praticamente gritou, assustando muitos dentro da sala afogada em tensão devido as novas revelações. – Fizemos uma promessa Snape. – vários bruxos ergueram as sobrancelhas ao ouvirem o tom ácido do tão pacato professor, além do fato de que ele tinha chamado o Mestre de Poções pelo sobrenome, coisa que ele raramente fazia.

- Que no momento não serve de nada, não é mesmo? Ele vai descobrir mais cedo ou mais tarde. – Severo rebateu, lançando ao lobisomem um olhar gélido que mandava, com todas as letras, que ele calasse a boca.

- O que está acontecendo? – Harry rosnou entre dentes ao ver a discussão entre os dois homens, sabendo perfeitamente que era algo relacionado à Draco. O loiro várias vezes tinha lhe dito, no passado, que Snape e Lupin nunca discutiam, apesar de parecer que eles não se entendessem devido às atitudes frias de Severo em relação ao outro homem. Que eles eram grandes amigos, mesmo que fosse uma amizade estranha, e que o criaram desde que os pais do menino tinham morrido e que, quando realmente brigavam, geralmente o motivo da briga era o próprio herdeiro dos Malfoy e normalmente o assunto estava ligado sobre qual era a melhor maneira de educar o menino.

- Quando Voldemort seqüestrou Draco eu realmente pensei, num primeiro momento, que era uma armadilha para te pegar. Mas repassando os acontecimentos daquele dia… Você tinha sido ferido, estava vulnerável e poderia ser facilmente capturado. Então agora com essas explicações – o homem inspirou profundamente como se estivesse procurando coragem para dizer algo e fechou brevemente os olhos negros, os abrindo novamente segundos depois para mirar fixamente o jovem demônio. – se o que aquela aberração quer é alguém pra se tornar perfeito, então Malfoy é a melhor pedida.

- C-como? – balbuciou Potter, com medo de ouvir a resposta para a sua pergunta. Seu coração veio à boca quando ouviu Remus soltar um suspiro resignado e lançar um olhar apologético ao líder dos demônios.

- Draco é um mestiço, Potter. – sentenciou o professor de DCAT. – Meio bruxo… meio demônio.

Continua...