Capítulo 13
A muy nobre e antiga casa dos Black?
Tentar traçar gerações e gerações de uma mesma família demoníaca para poder construir uma árvore genealógica sempre se provou ser um trabalho difícil até mesmo para os mais corajosos. Demônios não eram de ter muitos herdeiros provindos de um casamento, mas a sua vida longa fazia muitos perderem-se na conta de quem era neto, cunhado, avô ou mãe. Contudo, os Black, assim como os Potter e algumas outras famílias, eram exceções.
Um clã antigo, de mais de dois mil anos de existência, os Black tinham cada um de seus descendentes contados e registrados em uma grande tapeçaria que ocupava uma enorme parede da casa da mansão da família. E cada novo herdeiro nascido com este sobrenome automaticamente ganhava o seu lugar na árvore assim como cada agregado também tinha o seu lugar de direito. Porém, como toda grande família tradicional, os deserdados também eram retirados sem dó nem piedade da velha tapeçaria com a mesma velocidade com que eram colocados e caíam no esquecimento como um bolor de mofo que foi arrancado à força da peça. Mas no que isto tinha relação com a história?
Simples. Porque havia três nomes que sofreram este tipo de exclusão.
A história era conhecida por todos, até mesmo pelos filhotes mais novos que nasceram anos depois desses acontecimentos. Afinal, quem poderia esquecer o "conto das irmãs Black"? Era o que normalmente as mães contavam as suas crias quando essas, arredias, recusavam-se a ir para cama no horário estipulado pelos pais. Contudo, nem comece a pensar que era uma saga fantasiosa, narrando às aventuras de príncipes apaixonados tentando salvar as suas princesas. Longe disso. Estava mais para uma história de traição, brigas e fugas.
Tudo começou quando Druella havia dado a luz a três meninas. Três! O que na raça dos demônios lobos era considerado um número de azar. Nenhuma lupina em séculos tinha parido três filhotes ao mesmo tempo. Um era o mais comum, dois eram casos raros, três era praticamente um marco. E não poderia haver três meninas tão diferentes uma da outra.
Bellatrix Black, a primogênita, havia nascido com os cabelos negros e os olhos escuros tão característicos da família, o que fazia um contraste quase doentio com a pele absurdamente pálida. Ao longo dos anos, à medida que foi crescendo, a beleza infantil foi dando lugar a uma mulher esquisita, alta, magra e de rosto encovado, com olhos profundos e expressão alucinada. Era temperamental, rebelde, por motivos mínimos estava gritando e entrando em brigas, principalmente com o primo Sirius. Tinha ambições e ideais que iam além da guerra na qual havia nascido e muitos sabiam que ela tinha algumas tendências que beiravam a crueldade. Cygnus testemunhou isto quando flagrou a filha uma vez, apenas por diversão, torturar um demônio de baixa classe durante uma tarde qualquer.
Já Narcissa Black, a filha do meio, era o que muitos consideravam uma raridade, tanto dentro da família como dentro da raça. Era uma loba branca, com cabelos tão loiros que ganhavam tons platinados. Os olhos azuis, também outra característica dos Black, eram claros como um límpido céu de verão e, ao contrário da irmã, à medida que foi crescendo a beleza infantil apenas amadureceu com ela. Era um demônio extremamente belo e muitos até a comparavam com os anjos nos quais os tais trouxas acreditavam. Era igualmente fria, distante, calada, mais comportada e recatada. Só se manifestava durante as conversas quando extremamente necessário e isso pouco acontecia. Era a filha perfeita, aquelas que todos apostavam que casaria com um representante de outro clã poderoso e traria orgulho para toda a família.
Nunca os oráculos estiveram tão enganados.
E, por fim, a caçula. Andrômeda Black também era a discrepância em pessoa em relação às irmãs. Uma loba parda, tinha os cabelos castanhos e olhos achocolatados suaves e gentis. Sempre carregava um sorriso no rosto que não condizia muito com as suas origens. Não gostava de batalhas, era uma pacifista, e evitava discutir seus ideais utópicos de um mundo perfeito, com todas as raças convivendo tranquilamente, com os outros sabendo que prontamente seria recriminada e descriminada.
E, como três pessoas diferentes, não poderiam ter tomado rumos tão diferentes.
A primeira a seguir o seu caminho foi Bellatrix. Uma alma arredia que não gostava de seguir ordens, não gostava da idéia de se submeter às vontades do Potter, como o idiota do primo fazia. Chamava os soldados que serviam a James Potter de cães adestrados por causa de sua obediência cega e, com isto, ganhou o desprezo de alguns e a ira de outros. Pouco a pouco foi excluída da sociedade, considerada uma anormalidade. Ela era selvagem demais até mesmo para os padrões demoníacos e muitos contestavam a sua sanidade. Revoltada, resolveu dar as costas a tudo, largando a família e um casamento arranjado para trás, causando uma vergonha ao clã Black. E assim, o primeiro nome foi arrancado da tapeçaria.
Logo depois veio Andrômeda e esta foi a que mais surpreendeu. Sempre passiva e disposta e ouvir e seguir qualquer coisa que seus pais diziam, chocou a todos quando fugiu de casa, em uma noite chuvosa, para casar-se com um trouxa. Foi um escândalo! Druella quase morreu de desgosto. A menina, obviamente, foi caçada e trazida arrastada de volta para casa pelos servos do pai, junto com o trouxa que ousou seduzir a garota. Prontamente ela foi aprisionada no quarto enquanto Ted Tonks havia sido jogado nas masmorras a espera de sua execução. Mas, no dia que o homem seria eliminado para assim a honra da família ser restaurada, ele sumira. Sem saber como um trouxa tinha fugido de prisões demoníacas e levado Andrômeda junto. Depois disso, ambos nunca mais foram encontrados e assim mais um nome saiu da árvore.
Ninguém jamais descobrira que Narcissa tinha sido a pessoa que auxiliara na fuga.
Vinte anos havia se passado desde o desaparecimento das duas irmãs Black. A vergonha que Druella e Cygnus tinham sentido havia sido substituída pela guerra que ficava mais e mais forte desde que os trouxas resolveram entrar de cabeça na mesma. Sozinha e tendo que suportar nas costas os olhares reprovadores dos outros demônios por causa dos atos de suas gêmeas, Narcissa acabou se tornando uma melhor mais fria do que já era. Os olhos azuis límpidos agora eram gélidos, se já não costumava falar nada, agora era praticamente muda e no máximo se prezava a lançar olhares assassinos a sua tia Walburga cada vez que a mesma cismava em lembrar de Bellatrix e Andrômeda, colocando em sua voz aquele tom de nojo usual quando resolvia denegrir a imagem das duas mulheres.
Por isso, jurou que jamais cometeria os mesmos erros de suas irmãs, já que uma resolveu fugir seguindo seus ideais enquanto a outra largou tudo para trás por causa do amor. Duas fracas, era como as considerava, e ela era mais fraca ainda por tê-las ajudado, e agora tinha que sofrer as conseqüências de seus erros, e sofria calada. Engolia a raiva e frustração cada vez que ouvia seu pai, definhando e praticamente a sombra do demônio que um dia fora por causa da morte de sua companheira, contar a todos com entusiasmo sobre o futuro enlace de sua querida filha com o filho dos Crabbe. E com isto, dia após dia, Narcissa via aproximar-se o seu fatídico destino até que algo aconteceu que balançou todos os alicerces da sua tão programada vida. Alguém aconteceu. Alguém chamado Lucius Malfoy.
Havia sido uma idéia estúpida, ela concordava agora que se via perdida no meio da mata com um ferimento no braço que sangrava copiosamente, manchando as suas tão caras e belas roupas. Seu pai praticamente tinha ordenado que ela ficasse para trás, que não entrasse na batalha, mas o instinto de proteção à família havia falado mais alto. Já tinha perdido praticamente tudo, as irmãs, a mãe, e mesmo que por fora fosse uma pedra de gelo, com as suas expressões sempre impassíveis, por dentro não podia permitir-se perder a única pessoa que lhe restava: seu pai.
O ataque ao vilarejo mágico havia sido de surpresa, pegando muitos bruxos desprevenidos. Contudo, rapidamente eles se recuperaram e não tardou para feitiços serem lançados para todos os lados para espantar os invasores. Em poucos segundos o cheiro da carnificina impregnou o ar, demônios e magos começaram a cair derrotados, pouco ao pouco, no meio das ruas. Por um momento, distraída e surpresa diante da cena que presenciava – pois nunca em sua vida tinha entrado diretamente em um campo de batalha – havia sido atingida. Ao longe, ainda conseguiu distinguir o uivo de Potter ordenando retirada e, atordoada, assustou-se quando alguém tocou em seu braço.
- Vamos Narcissa! – Lílian Potter havia aparecido ao seu lado e a olhava com aqueles intensos olhos verdes como se estivesse tentando ler a sua alma e, por um breve e insano momento, Narcissa a invejou. Não porque ela era a mulher do líder, mas porque os Potter poderiam ser considerados a epítome da família perfeita. E Harry, o único herdeiro deles, provava ser um demônio poderoso, talvez superando a força dos pais. E por outro momento insano ela desejou ter um pouco disso para si.
Será que se um dia tivesse uma menina teria chances de casá-la com o jovem Potter? Foi o pensamento que veio a sua cabeça enquanto ao seu redor ocorria um pandemônio.
- Narcissa! – Lily chamou mais uma vez quando viu que a loira não se mexia e depois deu um sorriso, um sorriso que pareceu iluminar a face da ruiva completamente. – Corra Cissy. – a mulher murmurou em um tom baixo e maternal. – Corra! – e a empurrou para a floresta, na direção oposta que os outros iam. Narcissa não entendeu muito a atitude dela, mas, resignada, pôs-se a correr para dentro das árvores.
E por causa disso agora ela se encontrava nesta situação. Perdida, com uma chuva fria e torrencial fazendo praticamente seus ossos congelarem enquanto uma mão delicada apertava o ferimento no braço que latejava de dor. Cansada, parou de andar e recostou-se em um tronco grosso e úmido, fechando os olhos por breves momentos para recuperar o fôlego. Segundos depois olhou para o alto, tentando ver alguma coisa através da copa das árvores, mas nada conseguiu, além de ser uma tentativa frustrada visto que com aquela chuva chamais conseguiria saber a posição do sol e descobrir que horas eram.
Tirando forças do infinito, desencostou-se da árvore e voltou a caminhar, tentando identificar algum cheiro, qualquer coisa que lhe desse alguma pista de para onde estava indo, mas toda aquela água apagava qualquer rastro de qualquer animal que vivesse dentro daquela mata. Por um momento sentiu vontade de chorar, chorar de raiva, frustração, de medo e seu coração veio à boca quando sua audição apurada captou o som de galhos quebrando. Rapidamente ela engoliu o choro e aprumou-se, olhando a sua volta freneticamente a procura do intruso.
Notou que a escuridão começava a tomar conta da floresta e isso só poderia significar que a noite estava chegando de maneira assustadoramente rápida, enquanto ela ainda estava presa dentro daquele labirinto. Ofegante e com os olhos largos, recuou um passo quando ouviu outro barulho e praticamente encolheu-se contra uma árvore, tentando a todo custo camuflar-se contra o tronco.
Um segundo depois luzes penetraram no pequeno espaço que ela estava e vozes pareciam ecoar vindas de todos os lados, assim como o som de botas pesadas esmagando as folhas molhadas. Três figuras despontaram de entre as árvores e Narcissa pôde atestar, quando seus olhos recaíram nas varinhas que emitiam o feixe de luz, que os três eram bruxos. Ainda mais apavorada tentou se esconder de todas as maneiras ao perceber que eles ainda não tinham notado a presença dela naquele local. Instintivamente, cedeu a sua forma humana a forma de loba, que era muito menor e perfeita para ocultar-se em vários buracos, e deitou contra o chão, entre as raízes grandes da árvore, tentando usar a folhagem como forma de proteção.
- Tem certeza que o caminho é este? – uma voz grave ressoou pela floresta e a loba encolheu-se mais ainda com os seus olhos azuis tentando divisar o rosto da figura que estava sendo ofuscado pela luz da varinha.
- Bem… segundo o mapa… - a outra voz que falou era mais suave e a mulher percebeu pelo diferente tipo de entonação que deveria ser um bruxo no fim de sua adolescência.
- O mapa está destruído seu estúpido. – uma terceira pessoa entrou na conversa, seu tom era rouco e mal humorado, o que fez o primeiro a se manifestar soltar uma longa gargalhada.
- Desculpa? – pediu o menino da voz suave e quando ele mexeu um pouco a varinha para iluminar o dito mapa, Narcissa viu um rosto jovem, adornado por cabelos castanhos molhados enquanto os olhos de mesma cor tentavam decifrar o pergaminho manchado em suas mãos.
- Você é um imbecil Lupin. – novamente o tom mal humorado e desta vez a loira conseguiu ver o rosto do dono da voz. Também era um adolescente, talvez da mesma idade que o outro com o mapa. Tinha cabelos curtos e negros, emplastrados na cabeça por causa da chuva. O nariz era adunco e a pele pálida contrastava com os olhos estreitos e negros e que miravam com raiva o amigo.
- Se vocês vão brigar agora eu largo os dois aqui e sigo sozinho. – o feixe de luz movimentou-se e a mulher arregalou os olhos ao ver o terceiro individuo. Ele era mais velho que os outros meninos, alto, ombros largos, tinha curtos cabelos loiros que estavam escurecidos por causa da chuva. Sua pele era igualmente pálida, seu rosto bem desenhado e bonito e quando, de maneira extremamente elegante e imperiosa, ele aproximou-se do garoto com o mapa para poder tentar ler o papel, a loba viu que os olhos dele eram de um tom cinzento como nuvens de tempestade. E eles eram lindos.
- Sinceramente Malfoy, que tipo de idiota você é que não sabe nem o caminho pra casa? – Severo Snape soltou num tom de desdém e os olhos tempestade de Lucius o miraram com raiva.
- Eu falei que a mansão é fácil de ser encontrada, basta guiar-se pelas estrelas. – o loiro fez um gesto largo com as mãos em direção aos céus.
- Que estrelas? – Snape gritou exasperado. – O mundo está desabando em cima de nós, se você não notou!
- Tsc, Severo. – Remus chamou em um tom de aviso. – Não perca a compostura. Eu estou quase me localizando aqui no mapa…
- Lupin, você não localizaria o seu traseiro nem com uma seta de néon apontada pra ele! – terminou o moreno em tom azedo e Remus riu apesar da grosseria.
- Alguém fica muito rabugento quanto está cansado e com fome… - disse o rapaz, mirando seus olhos castanhos divertidos no amigo.
- Então ele está sempre cansado e com fome. Ou então é falta de sexo. – alfinetou Lucius, seus olhos claros brilhando de malícia enquanto encarava um fumegante Severo.
Neste momento Narcissa percebeu que seria uma boa hora para fugir visto que o trio estava ocupado demais discutindo direções para notar a presença dela ali. Contudo, algo naquele bruxo loiro praticamente a fazia ficar paralisada no lugar e encará-lo longamente como se quisesse absorver cada traço do rosto dele e gravá-lo na memória. Entretanto, quando percebeu o que fazia, a mulher engoliu um rosnado de raiva e começou a recuar lentamente para não chamar a atenção, e estava quase saindo do campo de visão deles quando a sua pata traseira fez estalar um galho cujo som pareceu ecoar de maneira ensurdecedora pela floresta silenciosa.
- Quem está aí? – prontamente Lucius virou-se com a varinha apontada em direção ao barulho e surpreendeu-se ao ver um lobo branco parado os encarando. Os olhos azuis do animal estavam cravados nos três bruxos e ele estava inclinado em posição de ataque, com os caninos a mostra e emitindo um profundo rosnado do fundo da garganta.
- Vamos embora daqui! – Remus ordenou, fechando o mapa e o enfiando de qualquer jeito no bolso. – É um demônio, e se ele está aqui, deve haver outros. – alertou e Snape prontamente começou a vasculhar a área com o feixe de luz da sua varinha, procurando pelos companheiros daquele lobo. Pouco a pouco os dois meninos mais novos começaram a recuar pelo mesmo caminho que vieram, mas pararam quando viram que Malfoy não saía do lugar.
- Lucius! O que você está fazendo? – gritou Severo ao ver que o amigo não se movia e parecia de uma certa maneira fascinado com aquela criatura. Ambos os adolescentes arregalaram os olhos quando viram o homem mais velho dar um passo a frente em direção ao lobo, que rosnou mais forte ainda e mostrou mais ainda os caninos pra ele, e vagarosamente ajoelhar-se em frente ao demônio.
- Está ferido. – disse o loiro displicente, estendendo um braço em direção a pata dianteira do lobo.
- Lucius Abraxas Malfoy! Não se atreva! – Severo praticamente bradou como uma mãe histérica, mas o homem o ignorou e sem aviso prévio rasgou parte de sua capa e hesitante aproximou o pedaço de pano do animal machucado.
Narcissa apenas observava indecisa os movimentos daquele estranho, seu coração dando saltos em seu peito à medida que ele se aproximava ainda mais de si. O que ele pretendia? Quando viu o homem rasgar parte de sua roupa e estender a faixa em sua direção, piscou os olhos, inclinando um pouco a cabeça em um gesto confuso. Quase ofegou quando o bruxo deu um pequeno sorriso e em gestos leves e delicados amarrou o pedaço de pano molhado em seu ferimento, apertando firme para estancar o sangue.
- Prontinho. – Lucius quase afagou a cabeça branca do animal, mas mudou de idéia no último segundo. Ele tinha sido dócil até este momento, mas não sabia quanto tempo esta docilidade iria durar. Remus e Severo por seu lado estavam com o queixo caído diante das atitudes do loiro. Malfoy simplesmente tinha feito um ato caridoso com um demônio, coisa que nem mesmo se o mundo estivesse acabando iria acontecer. O que tinha dado no homem? Será que levara algum feitiço errante na cabeça durante o ataque ao vilarejo?
- Vamos Lucius – Remus foi o primeiro a reagir e com um puxão arrancou o loiro de perto do animal e o arrastou pelo caminho de volta enquanto o mesmo deixava-se ser levado, olhando vez ou outra por cima do ombro para a criatura que deixara para trás. – Afinal, o que deu em você? – continuou o jovem quando eles finalmente estavam longe o suficiente do lobo e de qualquer ameaça que ele pudesse representar.
- Como? – perguntou o loiro em um tom desentendido. O que tinha dado nele? Nem ele mesmo sabia explicar. Simplesmente quando seus olhos prenderam-se nos azuis límpidos dos olhos daquele demônio ele praticamente sentiu-se hipnotizado e algo começou a martelar dentro de si dizendo que ele precisava ajudar aquela criatura, mesmo que ela fosse um inimigo e pudesse matá-lo.
- Acho que aquela pancada que aquele demônio deu nele está começando a fazer efeito. – disse Severo, olhando de maneira desconfiada para o amigo mais velho. Lucius apenas deu de ombros de uma maneira nada característica dos Malfoy e continuou seguindo os outros em silêncio, com o lobo branco povoando seus pensamentos pelo resto do caminho.
Narcissa por sua vez ficou um bom tempo parada no lugar observando as árvores por onde os três rapazes desapareceram, antes de finalmente recuperar-se do choque diante de tudo o que aconteceu e retomar o seu caminho, encontrando a saída daquela floresta duas horas mais tarde.
Nos dias que se seguiram, a mulher, por mais que quisesse, não conseguia tirar aquele bruxo desconhecido da cabeça. O modo como ele lhe sorriu, mesmo que fosse um sorriso contido, e a socorreu diante do perigo dela poder atacá-lo, parecia não lhe sair das lembranças. Por várias vezes flagrou-se imaginando como seria encontrá-lo novamente apenas para, depois, repreender-se diante de tamanha bobagem. Era em um mago que estava pensando e se sua família soubesse disso… não queria nem imaginar.
- Algum problema? – alguém lhe perguntou e ela arregalou os olhos surpresa ao ser flagrada sonhando acordada por Lílian Potter. Sacudiu levemente a cabeça em uma negativa e franziu os lábios quando a ruiva, sem pedir licença, acomodou-se ao seu lado no banco dos jardins da mansão Black. – Você está calada… desde aquele dia do ataque. – comentou a mulher e a loira lhe lançou um olhar gélido. Calada ela sempre fora, então qual era a diferença? Lílian riu ao ver a expressão da mulher mais jovem. – Eu digo que mesmo quieta sua expressão corporal sempre dizia algo. Mas, agora, você está em silêncio absoluto. Aconteceu alguma coisa? – e a mirou com aqueles penetrantes olhos verdes, fazendo Narcissa estreitar os próprios olhos em desconfiança.
- Você sabia. – disse num tom suave e quase sumido. Lily arqueou as sobrancelhas.
- Sobre? – falou em um tom inocente.
- Você sabe… por isso me mandou para aquela floresta. – acusou e a Sra. Potter deu um sorriso misterioso para ela. – Por quê? – os olhos intensos de Lílian firmaram-se sobre um grupo de jovens demônios que passavam pela rua principal daquela vila. E entre eles estava Harry.
- Você sabe o que ele é, não sabe? – atestou Lily e Narcissa a mirou friamente.
- Sim… um bruxo. O inimigo. – desdenhou e a ruiva a encarou firmemente.
- Não deixe isso te impedir Cissy. Não deixe. – profetizou e ergueu-se do banco num movimento fluído, indo juntar-se ao grupo de jovens e sendo prontamente recebida com um sorriso pelo filho. Narcissa observou de longe Harry abraçar a mãe, mais baixa que ele, pelos ombros e estalar-lhe um beijo afetuoso na testa pálida e pegou-se imaginando se quando tivesse filhos eles também agiriam desta maneira. Mas apostava que não, não com um pai como o Crabbe os educando. Com certeza nem bonitos seriam e por melhores que seus genes fossem não superariam os daquela aberração que era o seu noivo. Com um suspiro foi recolher-se em seus aposentos e pensar nas palavras da outra mulher.
Dois dias depois da conversa com Lílian, lá estava Narcissa novamente na mesma floresta em que se perdeu, tentando, agora, encontrar o caminho para a mansão daquele bruxo. Se bem lembrava daquela noite chuvosa, o trio perdido procurava o caminho da casa dos Malfoy. E se a sua memória não a enganava, aquele homem loiro se chamava Lucius… Malfoy. Meia hora de caminhada depois a mulher finalmente encontrava-se frente a frente com uma casa que mais parecia um castelo. Impressionada, tentou aproximar-se do local, mas as barreiras mágicas em volta da construção bloquearam seu avanço e um alarme ecoou por toda a propriedade. Arregalou os olhos e rapidamente deu as costas, indo mais do que depressa refugiar-se entre as árvores.
Em seu esconderijo perto de alguns arbustos, observou o movimento de aurores em torno da mansão, tentando descobrir quem fora o intruso que disparou o alarme.
- Deve ter sido um animal qualquer. – um homem comentou e depois soltou um leve grito de dor quando a bengala de um bruxo manco e marcado por cicatrizes acertou o seu tornozelo.
- Esteja sempre alerta Longbottom! Animais quaisquer nessa região não existem. Ainda não entendo essa teimosia do Malfoy em manter essa mansão no meio deste lugar perigoso. É pedir para ser alvo de ataques dos inimigos. – rosnou Alastor Moody, passando por Frank e rodando os olhos por toda a orla da floresta que rodeava a casa a procura de algo, qualquer coisa.
Por uns dez minutos os aurores vasculharam os arredores da casa tentando descobrir o que disparou o alarme, mas nada encontraram. Narcissa soltou um suspiro de alívio quando, de sua posição escondida no topo de uma árvore, viu um a um os bruxos voltarem para dentro da construção. Silenciosa e graciosamente desceu do galho e mordeu o lábio inferior, pensando no que fazer. Não conseguiria encontrar o homem loiro com tanta proteção cercando a casa dele e nem ao menos entendia porque ele tinha tanta proteção. Será que era alguém importante dentro de seu povo? Não saberia dizer. Com um suspiro resignado resolveu retornar a sua casa e esquecer toda aquela idéia maluca. Nunca que deveria ter dado ouvidos a doida da Lílian.
Virou-se para partir, mas parou abruptamente e arregalou os olhos quando se viu sob a ponta de uma varinha. Seus orbes azuis seguiram a extensão da madeira, até a mão de dedos firmes e pálidos que a segurava. Subiu pelo braço forte, conseguindo divisar cada músculo ressaltado pela camisa justa. Foi até o ombro largo, cruzando o pescoço até que se cravaram no rosto bonito de ninguém mais, ninguém menos, que o próprio Lucius Malfoy.
- Quem é você e o que faz aqui? – a voz grave novamente a assolou e Narcissa sentiu seu coração dar um pulo. Os olhos tempestade estavam gélidos e a miravam intensamente e o maxilar dele estava travado em uma expressão firme, fazendo par com as sobrancelhas claras franzidas. Abriu a boca para respondê-lo, mas a sua voz pareceu entalar na garganta. Frustrada, levou uma mão delicada ao bolso de suas vestes e viu de rabo de olho ele erguer ainda mais a varinha, esperando por qualquer ataque dela. Segundos depois, puxou um objeto de dentro do bolso e estendeu em direção a ele, que franziu mais as sobrancelhas ao ver o pedaço de tecido entre os dedos pálidos.
- Eu vim devolver. – falou, abaixando a cabeça para não encará-lo e assim esconder seu rubor. Confuso, Lucius foi descendo lentamente a sua mão, olhando fixamente para o pano que a mulher segurava para ele. – Agradeço pela ajuda no outro dia. – continuou na esperança de ouvi-lo falar mais alguma coisa, qualquer coisa, e surpreendeu-se quando sentiu uma mão fria tocar a sua e pegar o tecido.
- Qual o seu nome? – perguntou o bruxo, olhando a mulher de cima a baixo.
Quando a encontrara na floresta por causa das buscas por intrusos, rapidamente presumiu que ela fora a responsável pelo alarme. E, ao aproximar-se dela e atestar que a mesma era um demônio, prontamente preparou-se para qualquer eventual combate. Sorrateiramente tinha se aproximado dela, parado as suas costas e erguido a varinha, esperando que ela virasse e, quando o fez, simplesmente o pegou totalmente de surpresa. Era o demônio mais belo que tinha visto, poderia até compará-la precariamente com as conhecidas veelas, mas muito mais bonita. Tinha os cabelos dourados, pele de porcelana, rosto de boneca e os mais belos olhos azuis que encontrara. Olhos que lhe pareceram extremamente familiar.
Obviamente perguntou o que queria e surpreendeu-se quando, numa atitude tímida, ela estendeu-lhe um pedaço de pano rasgado. Um pedaço da sua capa que ele tinha deixado para trás há dois dias estancando o ferimento de um lobo dentro da floresta. Um lobo que, agora, ele sabia que era, na verdade, uma loba. E foi então que ele reconheceu onde tinha visto aqueles olhos.
- Narcissa. – respondeu num tom suave, um sorriso raro brotando em seu rosto bonito e Lucius relaxou um pouco, totalmente aprisionado diante do charme daquela mulher. Ela era jovem, ou ao menos aparentava ser mais jovem do que ele, mas o homem tinha certeza que ela o superava em anos de experiência de vida. Mas, aos seus olhos, mais parecia uma menina. Uma menina tímida e frágil que o encantava a cada segundo que passava em sua presença. E ele sentiu-se um tolo. Tolo ao perceber que estava deixando-se seduzir pelo inimigo, por uma raça que ele jurou lutar contra com todas as suas forças. Que desprezava intensamente por todos os males que tinham feito ao seu povo e a sua família. Gerações de Malfoys foram mortos por demônios nessa guerra e ele cresceu aprendendo a odiá-los.
Sabia que deveria odiá-los. Mas, ao olhar para aqueles olhos simplesmente não conseguia. Não entendia o porquê, nas sentia que Narcissa era diferente e tudo o que queria era tê-la ao seu lado. Tudo isto poderia ser considerado poético para alguns tolos apaixonados, mas, para Lucius, era desastroso. Amor era fraqueza, seu pai lhe ensinara isso. O ensinara a nunca se envolver e nunca se apegar que isto apenas seria a sua ruína. Com isto em mente ele passou pela mulher com uma postura altiva e fria, não lhe dispensando nem um olhar.
- Volte para casa garota, e eu esquecerei que você invadiu as minhas terras e pouparei a sua vida. – disse distante e seguiu seu caminho, voltando rapidamente para os confins protegidos da sua mansão. Narcissa o observou partir com raiva brotando dentro de seu peito diante da dispensa do homem. Quem aquele bruxo arrogante e inferior pensava que era? Irritada, girou sobre os pés e foi embora dali furiosa, prometendo a si mesma nunca mais retornar a aquele lugar.
Uma semana depois, a última das irmãs Black novamente encontrava-se na propriedade dos Malfoy e Lucius, como se tivesse pressentido a presença dela, mais uma vez a encontrou nos arredores da casa, usando as árvores como camuflagem. Mais uma vez discutiram sobre os direitos dela de estar naquela terra, mais uma vez o mago a expulsou de lá dizendo que pouparia a sua vida mesmo diante da ousadia e mais uma vez ela foi embora possessa diante da arrogância daquele homem. Apenas para voltar dois dias depois para "tirar satisfações", e já encontrar Malfoy a esperando.
Nos meses seguintes a visita de Narcissa, a discussão de ambos, com no fim Lucius a mandando embora, tornaram-se rotina na vida dos dois e o seu pequeno e perigoso segredo. Lupin e Snape já haviam avisado ao amigo várias vezes sobre o perigo desse encontro com a lupina e que a mesma deveria estar o usando para conseguir algo. O loiro somente encarava os dois jovens com desdém diante desses comentários e empinava o nariz, dizendo que ele não era idiota a ponto de deixar-se usar desta maneira. E foi assim que, aos poucos, as discussões acaloradas cederam lugares aos beijos apaixonados. Promessas tolas do quais os dois riam diante do absurdo e do perigo eminente de alguém do povo deles descobrir sobre esse romance proibido.
- É loucura Lucius! – Severo disse em uma tarde quando Lupin, Malfoy e ele estavam reunidos no escritório da casa, depois do loiro ter soltado a notícia que pretendia unir-se a Narcissa de vez. – Você não pode simplesmente pedir um demônio em casamento e esperar que os outros aceitem. Ainda mais ela vindo de onde veio. – o homem lançou ao amigo um olhar gélido, querendo entender o que ele insinuava com isto.
- Ela é uma Black, Lucius. – Remus explicou as palavras de Snape. – Pelo que lembro, ao lado dos Potter, os Black são o clã mais antigo da raça demoníaca. Vocês serão caçados e mortos sem piedade e não vai ter Dumbledore e Ordem, ou mesmo nós, que consiga te livrar disto.
- Eu sei o que estou fazendo. – rebateu Lucius.
- Você está dizendo a mesma coisa há meses e olhe onde isto de levou, a maior loucura que vai cometer em toda a sua vida! – protestou Severo, socando o tampo da mesa que o separava de Lucius e a única coisa que o impedia de avançar sobre o homem e enfiar algum senso na cabeça dele a força.
- Por isso que eu os chamei aqui. Preciso da ajuda de vocês para suportarem a minha história e fazer Narcissa parecer uma bruxa. – falou o homem e Remus e Snape entreolharam-se com os olhos largos e depois miraram o loiro como se ele tivesse enlouquecido de vez, coisa da qual eles não duvidavam.
- Me explique, oh brilhante senhor, como iremos fazer um demônio de não sei quantas dezenas ou centenas de anos se parecer com uma bruxa? – desdenhou Snape.
- A documentação falsa eu consigo, preciso que Remus crie um passado convincente para ela e você, Severo, alguma poção que ao menos consiga ocultar dos outros os traços demoníacos dela. – completou com um tom de pouca importância, como se o fato de criar uma nova identidade para uma pessoa fosse algo corriqueiro que eles fizessem todos os dias.
- Pronto! Chamem a imprensa, Lucius Malfoy endoidou de vez. – escarneceu o aprendiz de Poções.
- Não. – Lupin falou em um tom baixo e firme. – Ele se apaixonou. – sentenciou, olhando fixamente dentro dos olhos de Lucius e encontrando a sua resposta lá dentro. – Tsc, o que aconteceu com toda aquela filosofia de que sentimentos são para fracos? – perguntou o jovem e o loiro permaneceu calado. Não tinha uma resposta para aquilo visto que tinha acabado de contrariar tudo o que tinha aprendido durante anos sobre ser um Malfoy, sobre manipular, usar os outros em proveito próprio e nunca demonstrar fraqueza. Mas ele simplesmente não conseguia, não mais, imaginar a sua vida sem Narcissa.
- Vão me ajudar ou não? – perguntou indiferente e Remus e Severo deram acenos positivos com a cabeça.
Um mês depois Narcissa ganhava uma nova identidade na sociedade mágica. Tornou-se uma bruxa de origem alemã que evitava usar seus poderes por causa de um ataque que sofreu de demônios, o que a deixou debilitada. Seu histórico dizia que era órfã e que Lucius e ela se conheceram durante um embate nos arredores de Londres. Rapidamente se apaixonaram e desejaram se casar. Snape tratou de, com pesquisas e poções, esconder os atributos que denunciavam que ela era um demônio e, em uma noite fria e que nevava, a última das irmãs Black deu adeus a sua família, a sua vida, para poder cometer o maior dos sacrilégios.
Fugiu de casa para casar-se com um bruxo. E assim, prontamente, teve seu nome arrancado da tapeçaria da família.
Snape suspirou, esfregando os olhos com as pontas dos dedos para depois erguer a cabeça e encarar todos ao seu redor dentro da ala hospitalar, mudos e chocados diante da história que contara. Harry estava com o rosto lívido e Sirius tinha os olhos extremamente largos depois de ouvir todo o conto. Então este era o fim que Narcissa tinha levado, era o que pensava o demônio mais velho ao ser recordado de sua prima que sumira sem mais nem menos da noite para o dia. Bem que ele tinha notado algo de familiar em Draco.
- Juramos nunca contar a ninguém sobre a origem da Cissy. – continuou Remus quando viu que o professor de Poções não tinha mais forças para prosseguir. – E quando Draco nasceu… – nisso o licantropo fez um gesto com os ombros que os outros não entenderam.
- Tínhamos medo que Draco herdasse mais os genes demoníacos que bruxo. – continuou Snape.
- Então está dizendo que mesmo sendo um mestiço, ele ainda é um bruxo, que seus poderes demoníacos foram anulados pelos genes mágicos. – Dumbledore quebrou o silêncio na sala. – Então não entendo porque Voldemort…
- Não! – interrompeu Severo. – Draco quando nasceu tinha tudo para ser um bruxo… até que ele começou a crescer. – o professor olhou significativamente dentro dos olhos cristalinos do diretor de Hogwarts e esse deu um aceno positivo com a cabeça, entendendo onde o homem mais novo queria chegar.
- Como assim? – perguntou Potter sem voz. Tudo parecia extremamente surreal. Draco, seu Draco, era um mestiço? Como ele nunca tinha percebido isso? Filho da traidora Narcissa Black? A mulher que Cygnus e Walburga amaldiçoaram por gerações quando largou tudo para trás, desfazendo-se da imagem de filha perfeita, e sumiu no mundo sem dar satisfações e deixando apenas um bilhete dizendo adeus como justificativa?
- Sinceramente Potter, você não pode ser tão idiota. Nunca parou, por um momento, para se perguntar como um garoto de apenas dezesseis anos subiu tão rapidamente de ranking dentro da Ordem? – Snape sibilou raivoso na direção do demônio.
- Ele é um Malfoy! – Harry justificou num tom defensivo. – A família mais influente do mundo mágico…
- Se ele é líder da Ordem não foi por unanimidade de votos, mas sim por causa da influência de Dumbledore que sabe muito bem – e nisto Severo lançou um olhar irado ao diretor. – que Draco é poderoso demais, anormalmente poderoso para um bruxo, para ser desperdiçado como um soldadinho raso qualquer.
- Severo, se bem me lembro, você indicou o menino para o cargo… - Dumbledore tentou acalmar os ânimos do professor que ainda parecia abalado diante de toda a confissão e de ter descoberto para que o inimigo queria Draco.
- Porque não tinha ninguém melhor para derrotar Potter. Mas esse vira lata resolveu desposar o único herdeiro de Lucius e arruinou todo e qualquer plano de vencermos essa guerra. – e apontou um dedo em riste em direção a Harry.
- Eu não acredito que durante todo este tempo estivemos sob as ordens de um mestiço. – um dos aurores integrantes da Ordem soltou do canto da sala, mas calou-se rapidamente quando Remus rosnou entre dentes e lançou um olhar mortal para ele. Muitos que também tinham comentários semelhantes sobre a nova posição de Draco Malfoy, preferiram o silêncio prontamente, pois ninguém era estúpido o suficiente de bater de frente com um Lupin irritado. Com um homem que tinha certificado em Defesa Contra as Artes das Trevas e, por isso, deveria conhecer as maiores e mais tenebrosas maldições e azarações.
Sirius, parado ao lado de um ainda chocado Potter, deu um meio sorriso ao ver a reação do lobisomem. Entendia perfeitamente porque Lupin praticamente avançou sobre os bruxos. Visto que o casal Malfoy tinha entregado a guarda do menino a Snape e a Remus, os instintos caninos do último adotaram Draco como filhote e como tal tinha a obrigação de protegê-lo. E até agora Black não compreendia como Lupin ainda mantinha-se calmo sabendo que seu protegido estava nas mãos do inimigo, já que Snape estava despedaçando-se pouco a pouco.
- Creio que ficar discutindo a validação de Draco ou não para o cargo é assunto velho. O prioritário no momento é tirarmos o jovem Malfoy das mãos de Voldemort antes que o mesmo consiga o seu intento. Severo tem razão, o menino é forte demais e se o inimigo com as suas mutações falhas já é poderoso, imagina com o que ele conseguir de Draco. – falou Dumbledore em seu tom apaziguador. – Lorde Potter, o senhor mencionou um ritual. O que sabe sobre ele?
- Não muito. É um ritual mágico. – e nisso os olhos verdes rodaram pelos bruxos na sala.
- Se envolve sacrifícios e sangue deve ser um antigo ritual de arte das trevas. – murmurou Olho-Tonto Moody e seu globo de vidro girou na órbita antes de cravar-se em Remus, esperando pela resposta.
- Eu conheço uns três. – explicou o lobisomem com um suspiro. – Um de renascimento, usando um leve sacrifício humano, sangue e antepassados, para recuperar poderes, ou algo do gênero. Não tenho tudo muito claro. Outro que envolve sacrifício humano para haver repartição de alma. Mas acho que não é o caso de Draco. E o terceiro envolve sacrifício de um ser mais poderoso para assim transferir seus poderes para outro. Deve ser este o caso. Tem todo um processo mágico de construção de símbolos, alinhamentos das estrelas, um altar sob a constelação de Andrômeda, símbolo dos sacrifícios, e uma lua sangrenta. – finalizou com um sacudir de ombro, dizendo que isto era tudo o que lembrava.
- Se é assim… - Harry empertigou-se todo pronto para começar a dar ordens e falar aos outros sobre o seu plano de resgate. – Melhor partimos e tirar Draco das mãos daquele lunático antes que o pior aconteça.
- Concordo com você. – interrompeu Remus. – Porque, segundo as minhas contas, hoje é noite de lua sangrenta e a constelação de Andrômeda tem dado as suas caras nos céus há uma semana. – exclamações surpresas foram ouvidas aqui e acolá e Potter não disse mais nenhuma palavra, apenas caminhou a passos largos e decididos em direção a saída da ala hospitalar, abrindo as portas largamente e parando surpreso ao dar de cara com Hermione Granger no meio do corredor, rodeada por vários dos seus melhores soldados.
- O que faz aqui? – perguntou a mulher e ela lhe deu um sorriso enviesado que nada combinou com o rosto redondo e delicado dela.
- Eu presumi que você fosse resgatar o Malfoy assim que acordasse e pedi que o senhor Shacklebolt me deixasse de alerta e me informasse quando isso acontecesse. E então? Quando partimos? – indagou de maneira coquete, apoiando uma espingarda em um dos ombros magros.
- Isto não é a sua batalha humana… e até pouco tempo atrás você ainda estava cogitando uma aliança conosco e… - ela o fuzilou com os olhos castanhos, o que o fez fechar rapidamente a boca.
- Malfoy salvou a minha vida, ofereceu ajuda mesmo sem eu pedir, pediu um voto de confiança e com isso arriscou a sua vida para ajudar a do meu povo. Não estou querendo dizer que agora morro de amores por ele e pretendo erguer uma estátua de bronze no meio de Londres em sua homenagem, mas estou lhe devendo. E eu detesto dever algo a alguém. Sem contar que Voldemort também é um problema nosso e eu estou cansada de ver aquela aberração matar minha gente apenas porque acha que é divertido. Não é honrado. – completou em um tom firme que dizia claramente que ela iria com eles com ou seu a aprovação de Potter e que, na verdade, nem mesmo precisava dela.
- Pois bem. Estamos partindo, e é agora! – gritou para os outros que o acompanhava e ganhou o corredor, sendo seguido de perto por Hermione e não olhando por cima do ombro para ver quem estava indo com ele. O barulho abafado de vários passos o fazia ter uma idéia da quantidade de homens que resolveram peitar esse desafio.
- Eu confesso que não pude deixar de ouvir… - Hermione quebrou o silêncio assim que eles saíram do castelo indo em direção aos pontos de aparatação de Hogsmeade e uma visão surreal formou-se para aqueles que passavam pelas ruas do vilarejo naquele momento: aurores, demônios e trouxas formavam pequenos círculos para aparatarem, todos seguindo as direções de Neville, Goyle e Jordan, os únicos que estiveram em Little Hangleton anteriormente. – sobre o Malfoy.
- Se você está surpresa, imagine eu. – rosnou Harry entre dentes.
- Ele sabe? – continuou a mulher, ignorando o mau humor do homem ao seu lado.
- Quem sabe o quê?
- Malfoy. Ele sabe das origens dele? Quero dizer, os pais esconderam esse segredo de meio mundo, devem ter escondido dele também. – argumentou a sempre curiosa líder dos trouxas.
- Acredite Srta. Granger, Narcissa fez questão que o filho soubesse detalhe por detalhe de suas origens. – Snape intrometeu-se na conversa e estendeu uma mão a ela. Por um breve momento a mulher olhou confusa para ele diante deste gesto antes de sons de estalo ao seu redor a fazer perceber o que ele intencionava. Rapidamente apertou seus dedos contra os dele, fechando o círculo que era formado por ela, Potter, Remus, Neville, Sirius e Snape.
- Iremos aparatar nos arredores da cidade para não levantar suspeitas. – explicou Lupin. – Estejam sempre apostos e preparados para qualquer eventualidade. – alertou e os outros deram acenos positivos com a cabeça. – E que os Deuses nos ajudem. – foi à última coisa que ecoou pela rua antes deles desaparecem num estalo em pleno ar.
Continua...
