Capítulo 14

A noite da Lua Sangrenta

Draco acordou num estalo quando seus ouvidos captaram o som da fechadura da porta destravando e mais do que depressa colocou-se de pé, esperando qualquer eventualidade que surgisse. Fazia algumas horas, desde a sua mudança de aposentos, que ninguém viera visitá-lo e vez ou outra o garoto despertava de seu cochilo com barulhos de passos corridos ecoando pela casa. Algo grande estava por vir, era o que pressentia, pois a mansão nunca estivera tão agitada como estava hoje.

A porta do quarto abriu-se com um rangido e a figura deformada de Bellatrix cruzou o batente. O rapaz encolheu-se contra a parede e estreitou os olhos cinzentos ao mirar a mulher, apertando suas mãos firmemente em um punho para poder segurar a sua raiva. Lentamente, a Comensal foi aproximando-se do jovem bruxo, afastando-se mais da porta e cedendo passagem para outros três seguidores do Lorde das Trevas que entraram atrás dela no quarto.

- Bellatrix, acha isto sensato? – um quarto Comensal que entrou por último, fechando a comitiva, praticamente guinchou num tom temeroso e Malfoy voltou a sua atenção pra ele. Era uma criatura baixa, gorda, dentuça e com cara de rato, mãos de rato e asqueroso como um e quando a atenção do mesmo voltou para o rosto do loiro, este torceu os lábios deixando a mostra um canino que parecia estranhamente mais saliente do que antes, fazendo o pequeno homem recuar trêmulo.

- Cão que ladra não morde, Peter, sabia disso? – Bellatrix riu divertida diante das atitudes do jovem bruxo, mas calou-se quando um rosnado profundo transpassou os lábios pálidos.

- O que você quer aberração? – sibilou entre dentes, seus orbes cinzentos parecendo escurecer de maneira perigosa, ganhando reflexos carmesim ao redor da íris clara. Fascinada, Black apenas aproximou-se mais para observar mais de perto as mudanças do menino, tentando compreender como uma raridade daquela tinha acontecido.

Geralmente quando um demônio cruzava com outra espécie os genes dele prevaleciam sobre os do companheiro, se este fosse um bruxo ou trouxa. Mas no caso de Draco simplesmente o corpo do menino compartilhava as duas heranças recebidas dos pais como se isto fosse um acontecimento normal. Não havia predominância e Bellatrix até diria que isto tinha acontecido por Narcissa aparentar ser uma loba fraca, mas sabia que estava enganada. Sua irmã poderia ter aquele jeito frágil de ser, com o seu rosto de boneca, corpo esguio e gestos suaves, mas no fundo era um demônio como qualquer outro. Poderosa e mortal quando assim desejasse. E parecia que ela passou todas essas características para o filho.

A mulher tinha que confessar que ficou extremamente surpresa quando anos depois de sua fuga do clã Black, ao retornar as escondidas para saber como andava a vida dos demônios, espioná-los em nome de seu mestre, descobriu que muita coisa havia mudado. Não ficou chocada ao saber que Harry tinha assumido a posição do pai depois da morte deste, mas confessava que ficou pasma ao saber que o "todo poderoso" James Potter tinha sido morto de forma tão mundana em uma batalha. Ficara sabendo, também, sobre a fuga de sua irmã Andrômeda, mas desta não achou nada. Andie sempre fora uma sonsa em sua opinião e o fato de ter escolhido um trouxa pra casar era mais do que adequado.

Contudo, o desaparecimento de Narcissa foi o que a intrigou mais e o que a incitou descobrir o que tinha levado a filha perfeita a fugir. Por meses pesquisou, procurou, tentou achar qualquer rastro da irmã mais nova até que um dia a encontrou, por simples acidente do destino.

Estava voltando de mais uma coleta em um pequeno vilarejo bruxo. Tinha atacado um jovem mago desavisado e sugado a sua energia para assim fortalecer-se e resolveu cortar caminho pela densa floresta que havia na região, quando ela viu. Escondida entre as árvores havia uma imensa mansão, extremamente protegida por barreiras mágicas, o que só poderia indicar que a família dentro daquele local era antiga e poderosa. Mas o que lhe chamou mais a atenção foi a loba branca que corria pelos jardins bem cuidados, com um ar de felicidade a cercando e sendo acompanhada por um pequeno filhote de pelagem de mesma cor. O animalzinho mal se agüentava sobre as pequenas e rechonchudas patas, deveria ter no máximo um ou dois anos em contagem humana e tentava a todo custo seguir a mãe por entre as flores.

Iria aproximar-se mais para ver melhor a cena quando um homem alto e loiro saiu de dentro da mansão, caminhando a passos firmes em direção aos dois animais. O rosto dele estava fechado em uma expressão séria, com as sobrancelhas franzidas e Bellatrix já imaginou o pior quando o bruxo aproximou-se do filhote e o ergueu do chão com as mãos grandes. O pequeno lobo piscou seus grandes olhos azuis para o homem e soltou um baixo e agudo latido, lambendo prontamente com uma língua rosada a ponta do nariz do loiro. O bruxo riu e sussurrou algo na orelha peluda dele e rapidamente o filhote tomou a forma humana.

No lugar do animalzinho surgiu um bebê, realmente no auge de seus dois anos, de cabelos loiros platinados, pele pálida, sorriso de poucos dentes e olhos que agora possuíam um tom cinzento. Ao mesmo tempo, a loba branca também voltava a sua forma humana, revelando-se ser nada mais, nada menos, do que a sua irmã Narcissa. O homem aproximou-se da mulher e lhe deu um leve beijo na bochecha rosada e sussurrou algo na orelha dela. Viu quando a expressão feliz de sua gêmea foi substituída por uma preocupada e prontamente a família recolheu-se dentro de sua casa.

Depois disso, Bellatrix fazia questão de voltar dia sim, dia não, naquele lugar, tentar descobrir mais sobre a irmã, mas nunca mais teve um único relance dela ou do filhote desde aquele dia. Apenas conseguira saber que a mansão pertencia a uma tal de família Malfoy e nada mais. Contudo, anos mais tarde, o choque novamente a assolou quando ela ouviu os rumores de que um adolescente tinha assumido a Ordem da Fênix. Que era um menino de apenas dezesseis anos, um bruxo nem ainda formado, mas os boatos diziam que ele era poderoso, que havia confrontado Harry Potter e sobrevivido. E Bellatrix não pôde deixar de gargalhar histericamente quando descobriu que o nome do menino era Draco Malfoy.

- Tsc, tsc, Draco. – a mulher balançou o dedo indicador num gesto negativo. – Acho que sendo o herdeiro dos tradicionais Malfoy, você deveria ser mais educado, não é mesmo? O que a sua mãe pensaria disso? Narcissa sempre foi uma mulher cheia de classe, ficaria desapontada em saber que o filho anda dirigindo palavras tão feias a própria tia. – terminou a mulher com um sorriso bondoso que parecia completamente estrangeiro em sua face deformada pelas transformações. – Você sabe quem eu sou, não sabe? – continuou Bellatrix. Não fazia idéia de até onde a sua irmã contara a história da família Black ao filho.

- Que você é a psicótica da irmã mais velha da minha mãe? A doida que era tão doida que nem mesmo os demônios a aceitaram? É, fiquei sabendo. É por isso que você se juntou a aquele mestiço de merda? Dois fracassados juntos é melhor do que um, não é mesmo? – desdenhou com um sorriso maldoso brotando nos lábios e Bellatrix estreitou os olhos e rosnou entre dentes, avançando sobre ele em duas passadas largas e desferindo um soco no rosto pálido.

A cabeça de Draco virou-se para o lado diante do impacto, mas o corpo dele não saiu do lugar e num gesto lento ele girou o pescoço para poder encarar a mulher firmemente, com seus olhos estreitos praticamente a fuzilando.

- Mestiço? Como você tem coragem de chamar o grande Lorde das Trevas de mestiço seu traidor da raça… - a mulher começou a gritar exaltada. Não suportava que ninguém denegrisse a imagem de seu Lorde. Voldemort era um gênio, era poderoso, era praticamente um pai que acolheu todos aqueles que foram renegados pelo próprio povo, e não deixaria este moleque mimado ofendê-lo. Abriu mais a boca para continuar repreendendo o rapaz quando sentiu um impacto forte em seu rosto, a lançando com um baque abafado contra o chão empoeirado.

Chocada, mirou os olhos largos no rosto impassível do loiro e desceu os orbes para o punho erguido e que tinha lhe batido. Lentamente Draco recuou a mão, a descansando ao lado do corpo e a encarou no chão como se ela fosse um verme o qual ele não se prezava a dispensar a atenção.

- Bate e leva, querida tia. – respondeu num tom gélido e viu com prazer, por entre os cílios, que os outros Comensais tinham recuado um pouco diante do ataque dele. Fazia horas, desde que ele havia sido aprisionado naquele quarto, que ele queria socar alguém. E já que Bellatrix deve a bondade de ser a tola ao se aproximar o suficiente, ela foi a sorteada na loteria para ser o seu novo saco de pancadas.

- O que vocês estão esperando? – Bellatrix gritou para os outros, ainda largada no chão e com a mão sobre a bochecha ferida. Os três Comensais que tinham vindo com ela avançaram em direção a Malfoy e este se empertigou todo, soltando um alto rosnado e preparando-se para um combate. Pettigrew encolheu-se perto da porta, olhando com olhos largos e lacrimosos os companheiros, duas vezes maiores do que ele, cercarem o menino loiro pronto para aprisioná-lo.

O primeiro Comensal avançou e recuou prontamente quando um chute o acertou violentamente entre as pernas. Cambaleando, o homem foi andando para trás, o corpo curvado, tropeçando nos próprios pés até que caiu de costas no chão. Peter soltou um choramingo ao ver o companheiro caído enquanto Bella levantava-se ainda zonza e com as pernas fracas, buscando dentro de suas roupas a varinha que um dia havia roubado de um bruxo que matara para lhe sugar a energia. O segundo Comensal resolveu tomar a posição do companheiro e rapidamente esticou um braço na intenção de capturar Draco, mas sua mão não se aproximou nem dois centímetros do garoto e uma força invisível o lançou contra a parede oposta do quarto, causando rachaduras na mesma e a fazendo tremular, soltando uma grossa camada de pó.

O terceiro Comensal preparou a sua investida, mas parou no meio do caminho quando viu uma aura cinzenta começar a envolver o jovem bruxo. O poder expandia-se vagarosamente, gerando correntes de vento que balançavam as cortinas puídas do quarto, rebelava os fios loiros do cabelo do menino e emitia um silvo irritante cada vez que soprava perto da orelha deles. Bellatrix tinha no rosto uma expressão que misturava prazer e medo. Ele era perfeito para o seu Lorde e com certeza, depois desta noite, Voldemort seria extremamente poderoso e indestrutível, compartilhando desse poder com seus aliados e assim os renegados finalmente mostrariam para essas raças arrogantes, que por anos batalhavam pelo controle do planeta, quem realmente era o melhor. Mas, ao mesmo tempo, o temia. Draco tinha o auto controle dos Malfoy chocando-se com o descontrole dos Black. Ele era completamente instável e fazia dias que todos estavam tentando descobrir o porquê.

Certo que um demônio, mesmo que meio demônio, aprisionando tendia a reagir como qualquer fera selvagem: com hostilidade e pronto para atacar quando acuado. Mas o bruxo emitia uma raiva que ficava mais intensa cada vez que o nome de Potter era mencionado. Lembrava-se muito bem que logo depois que eles desaparataram do campo de batalha, depois que o líder dos demônios fora ferido, foi praticamente impossível controlar o loiro. Mesmo fraco e cansado, o mesmo estava disposto a arrancar a cabeça de um. E por um breve momento conseguiu. Dois Comensais da Morte foram mortos no processo de tentar aplacar o garoto e Voldemort teve que pessoalmente imobiliza-lo.

Criando coragem, o terceiro homem aproximou-se hesitante do garoto e tentou golpeá-lo, mas antes que seu soco pudesse acertar o rosto do menino, este se moveu para o lado, saindo da linha do golpe, e esticou o braço bom, fechando a mão de dedos pálidos no pescoço grosso do sujeito. O capuz da capa do Comensal caiu, revelando cabelos castanhos, sujos e emaranhados. A máscara mal cobria as marcas no rosto e Draco atestou com uma expressão de nojo que ele era mais uma das aberrações criadas pelo Lorde das Trevas. Pouco a pouco foi fechando os seus dedos em volta do pescoço dele, comprimindo a passagem de ar e bloqueando a circulação.

Pettigrew soltou um guincho horrorizado enquanto via um de seus companheiros se debater no aperto de Malfoy, tentando se soltar das mãos do menino, mas falhando miseravelmente. Dois minutos depois de batalha o corpo do homem parou de se mexer e o loiro o soltou, fazendo com que o Comensal caísse no chão como uma boneca de pano velho.

- Próximo. – Draco disse com um sorriso mal em seu rosto e um brilho mortal nos olhos. Bellatrix sorriu extasiada, seu usual sorriso insano, e bateu palmas como uma criança feliz que tinha acabado de ganhar um doce.

- Você é perfeito! – exclamou alegre, aproximando-se dele e mal teve tempo de piscar os olhos quando sentiu ser erguida do chão pelo pescoço e ser imprensada contra a parede violentamente, fazendo uma dor aguda subir pelas suas costas. O bruxo deu um relance por sobre o ombro enquanto apertava a tia mais contra a parede, e viu que, perto da porta, tudo o que havia era aquele sujeito com cara de rato que se encolhia aterrorizado contra o batente.

- Acho que essa é a minha deixa para sair. – falou ofegante. Estava usando os limites de suas forças e sabia que não agüentaria em pé por muito tempo se reforços aparecessem, sem contar que essa era a sua única chance. Os Comensais que vieram lhe pegar poderiam ser fortes fisicamente, mas em poderes ele os superava. E a sua tia era uma doida varrida que mais falava do que fazia. Poderia ser parente, mas ele sabia que mesmo sendo uma Black, até hoje os únicos membros de sua família que realmente valiam o trabalho em um campo de batalha era a sua mãe e o desmiolado de seu primo Sirius.

Com um soco bem dado na boca do estômago dela, que não apenas fez a mulher gemer, mas ele engolir um grunhido por seu pulso quebrado ter protestado diante do golpe, ele a largou displicente e enquanto Bellatrix tentava recuperar o fôlego, correu porta afora passado por um paralisado e inútil Peter. Apressado incitou as suas pernas a moverem-se, alcançando o corredor de paredes velhas, assoalho podre e tapeçaria comida pelas traças. Escondeu-se nas sombras de uma esquina quando viu uma dupla de Comensais despontarem de outro corredor, passar por ele e sumirem em uma curva. Com o coração batendo a mil por segundo ele foi abrindo porta por porta, procurando uma rota de fuga que não fosse a usual porta de entrada e saída da casa.

As luzes da construção começaram a piscar num tom vermelho e de repente um som de buzina ensurdecedor fez as paredes velhas tremerem. Alguém tinha dado o alarme de sua fuga. Sem pensar muito abriu a primeira porta que encontrou e entrou num aposento qualquer. Rapidamente seus olhos se ajustaram a escuridão do lugar e ele olhou a sua volta para o velho escritório. Os orbes cinzentos brilharam ao divisar a silhueta da janela velha e empoeirada. Alguns raios lunares entravam por entre os vidros quebrados e ele avançou com tudo sobre ela, usando um chute apenas para derrubar o que sobrou da armação e deixando o vento da noite penetrar todo o lugar.

Botou a cabeça para fora, tentando visualizar o tamanho da queda e torceu o nariz ao ver que estava no quarto andar da casa que, apesar de velha e mal cuidada, não desmerecia o status de mansão. Voltou a sua atenção para a lua que brilhava no céu estrelado e torceu o mais o nariz ao ver o círculo vermelho que a envolvia. Era uma lua sangrenta e isso, para muitos, era sinal de mau presságio. Sons de passos, correria e gritos alcançaram seus ouvidos e ele olhou por cima do ombro para a porta fechada da sala, vendo por entre a fresta dela as sombras que se moviam no corredor. Seria questão de minutos antes deles procurarem ali dentro. Girou a cabeça e sua atenção prendeu-se num velho salgueiro que crescia em frente a janela. Lentamente subiu no parapeito e com uma última olhada pra porta que começava a se abrir, ele pulou.

O ar foi completamente expulso de seus pulmões quando seu corpo chocou-se dolorosamente contra o troco grosso da árvore e ele teve que usar as pontas dos dedos para prender-se contra a madeira. Usando as folhas secas ele conseguiu ocultar-se enquanto escalava a planta até chegar ao chão. Todos os seus músculos protestavam diante do esforço e ele teve que apoiar-se nos joelhos, assim que seus pés tocaram a terra firme, para poder recuperar o fôlego. Um grito soou sobre a sua cabeça e Draco olhou para cima apenas para ver Comensais empilhando-se contra o parapeito da janela e apontando para ele e gritando para outros Comensais que agora chegavam aos jardins e corriam em sua direção.

Rapidamente começou a correr também, descendo a colina apressado e pulando raízes e pedras que se encontravam em seu caminho. Várias vezes teve que desviar-se de feitiços errantes e desejou intensamente ter tido a presença de espírito de ao menos ter roubado a varinha de um dos Comensais que atacou, mas agora era tarde. Seus pés acabaram o guiando para um cemitério que ficava ao pé do monte e ele prontamente se embrenhou entre as grandes lápides e esculturas que emolduravam os túmulos, escondendo-se atrás de uma estátua que era uma réplica da Morte, com a sua foice erguida pronta para cortar o ar.

Encolheu-se entre os braços da estátua e soltou longamente a respiração pelo nariz, vendo o ar quente condensar em contato com a atmosfera fria. Voltou seus olhos para o céu e viu que a lua parecia estar ficando mais vermelha ainda à medida que ia subindo pela negridão da noite. Suor escorreu-lhe pela testa e um vento frio o fez tremer o corpo enquanto ouvia as vozes dos Comensais ao longe gritando ordens e separando-se em grupos de busca. Precisava sair dali, e devia ser rápido. Os orbes cinzentos se voltaram para a floresta que ladeava a propriedade e as árvores medonhas despontando na escuridão não lhe davam nenhum senso de segurança. Diferente da floresta de Hogwarts, este lugar lhe dava arrepios. A aura que o envolvia era de meter medo até mesmo no mais bravo dos homens.

Grudou o corpo mais contra a estátua quando ouviu passos aproximando-se e lentamente começou a recuar de costas, os olhos cravados no caminho por onde os Comensais viriam e o corpo todo retesado preparando-se para qualquer eventualidade ou batalha. Sem querer sua atenção voltou-se por um breve momento para as inscrições que adornavam o túmulo onde havia a escultura e divisou o nome Tom Riddle encravado na pedra. Engraçado, aquele nome lhe parecia familiar. Mas onde o vira?

- Vejo que encontrou o túmulo de meu pai. – rapidamente Draco aprumou-se ao ouvir o sibilo atrás de si e virou-se com uma expressão fechada para encarar o homem de negro que parecia destacar-se absurdamente na escuridão. Ladeado por vários seguidores, Voldemort o encarava com os olhos vermelhos brilhantes e com um sorriso sinistro no rosto deformado. – Tsc, jovem Dragão, aonde pensa que está indo? – o homem deu um passo para frente e Malfoy recuou outro, fechando a boca e comprimindo os lábios firmemente.

Engoliu um gemido quando sentiu um golpe o acertar pelas costas, bem em cima de seu rim, o fazendo cair de joelhos no chão. Ergueu a cabeça para ver uma Bellatrix descabelada e furiosa passar por ele e ir juntar-se a Voldemort. Este sorriu diante do aparecimento da mulher, um sorriso que poderia passar-se por afetuoso se não fosse o contraste bizarro desta expressão no rosto de alguém que tinha cara de cobra. Malfoy sentiu vontade de vomitar ao presenciar isto. Mais Comensais apareceram, vindos da casa, para juntar-se ao seu Lorde que rapidamente sumiu com o sorriso e os encarou com fúria.

Num gesto não previsto o homem agarrou Bellatrix pelos cabelos e a puxou com força em direção ao seu rosto, a encarando profundamente dentro dos olhos negros que brilhavam de dor.

- Eu dou as costas por um minuto, peço apenas uma coisa: que o tragam para o local preparado, e é isso o que acontece? – e ele a empurrou para poder encarar Draco de joelhos no chão, ainda a segurando firmemente pelos cabelos e a mulher soltou um baixo gemido de dor.

- Eu sinto muito meu Lorde. – pediu apavorada. Não gostava nem um pouco de não estar mais nas boas graças de seu querido Lorde. A idéia simplesmente a aterrorizava. – Não irá se repetir.

- Espero que não Bellatrix. – o homem sibilou, a soltando com um tranco. – Espero que agora vocês sejam capazes de fazer o trabalho direito. – todos assentiram com a cabeça e cinco Comensais rapidamente aproximaram-se de Draco, o segurando pelos braços e pernas. O rapaz ainda tentou lutar, mas a sua energia já estava na reserva e resignado deixou-se levar.

O grupo rapidamente começou a serpentear a área do cemitério até que chegaram ao centro do terreno, onde os túmulos faziam um grande círculo e no meio deste havia uma grande placa de pedra presa ao chão, formando um pequeno muro. Na pedra havia entalhes de símbolos que Malfoy desconhecia e correntes estavam presas na mesma. Sem nenhuma delicadeza, os Comensais o jogaram de costas contra a pedra fria e prenderam seus tornozelos e pulsos com as correntes grandes e pesadas. Ele ainda fez um gesto para testá-las, tentando soltar-se delas, mas isso só causou o riso da massa que o assistia. Rosnou enfurecido para eles que logo se calaram.

- Não tente jovem Dragão, estas correntes foram feitas especialmente para segurá-lo. – Voldemort deu um sorriso suave que pareceu distorcer todo o seu rosto e aproximou-se elegantemente do loiro, estendendo a sua mão até a face pálida. Quando o menino ameaçou arrancar os dedos anormalmente longos com os dentes, ele recuou a mão, o sorriso ainda intacto no rosto. – Quando Bellatrix me falou sobre a sua existência eu não dei muita importância. Quando comecei a minha peregrinação pelo mundo a procura de um modo de ficar mais forte, quando descobri que a mutação usando energia de outros bruxos e demônios poderia fazer isto, eu não me importei com o fato de que meu corpo não poderia agüentar as mudanças. Mas quando ele começou a degradar-se tive que procurar outras alternativas. Até que encontrei você. – pausou e riu quando viu os olhos cinzentos o mirarem com ódio.

- Um mestiço poderoso era do que eu precisava para manter-me estável e chegar ao meu intento, mas encontrar um é extremamente raro. Mistura de demônios com outras raças sempre fazem o gene demoníaco prevalecer. – pausou mais uma vez como se pensando no assunto. – Mas você já deve saber disso. Por isso que é especial. Seus genes não se sobrepuseram um ao outro. Ao contrário, eles andam lado a lado. Seu lado demoníaco e bruxo convivem em harmonia e isso é fascinante. Eu o desposaria se não precisasse tanto de você morto para completar o ritual.

- E eu prefiro a morte antes de ter qualquer tipo de relação com você. – rosnou o rapaz depois de minutos de silêncio apenas ouvindo, em sua opinião, todas aquelas baboseiras que o homem contava.

- Que resposta mais clichê. – Voldemort riu. – Sabe por que desejo tanta vingança de todas as raças, Draco? – o loiro rolou os olhos e soltou um suspiro sofrido.

- Me deixa ver se adivinho. – comentou num tom presunçoso. – Você obviamente deve ser órfão. Meio bruxo, meio trouxa? – perguntou displicente e viu os olhos do Lorde das Trevas brilharem irritados diante do termo trouxa. – Ah, um sangue-ruim. – provocou e o homem pareceu sibilar ferozmente entre os lábios pálidos. – Foi descriminado, deve ser perfeccionista além de psicótico, um ótimo estado psicológico para criar um complexo de Deus. Ambiciona poder e… - pausou e o encarou firmemente. – Filho da mãe! Seu nome está na sala de troféus de Hogwarts. – então era dali que ele tinha lido o nome. Lembrava-se de uma detenção em seu último ano que incluía uma limpeza na sala de troféus. Draco ficou por horas lendo os nomes e o motivo por ter ganhado o prêmio, soltando coisas como "puxa saco, nerd" e derivados cada vez que via o motivo da honraria. Lembrou-se que seu pai tinha uma placa por serviços prestados ao proteger alunos de um ataque de demônios e ao lado da placa dele havia outra no nome de Tom Riddle Jr. com motivos semelhantes. E recordava-se que tinha chamado Riddle de "puxa saco de professor".

- Dumbledore me levou para Hogwarts porque me considerou alguém cheio de talentos. Mas os outros bruxos não gostaram muito da idéia de ter um colega de classe mestiço. Achavam que eu não era capaz. Os trouxas são fracos e os demônios… esses sempre me fascinaram, mas jamais me aceitariam se eu não fosse um deles não é mesmo? Tão poderosos, tão arrogantes, tão pregadores de pureza da raça. Então eu resolvi criar a minha própria raça, minhas próprias regras. Não serei mais o pisado, e sim pisarei nos outros…

- Você não está criando nada sua besta anormal! – Draco cuspiu com raiva. – Ao contrário do que aquela louca descabelada diz, - e indicou com o queixo Bellatrix. – você não é Deus e está longe de ser. Tudo o que conseguiu foi criar uma anomalia mutante usando magia negra e demônios de baixa classe. Você está apenas misturando energia e genes, não está gerando nada do zero! Então desculpe estourar a sua bolha de felicidade… mas isso não vai durar. Bruxos são poderosos por anos de evolução, assim como os demônios, acha mesmo que aberrações evoluem? A genética tende a esmagar defeitos com o tempo à procura da perfeição. Coisa que você está longe… bem longe – entoou com desdém. – de alcançar.

- Mas aí é que está, Draco. – o modo como Voldemort falou o nome dele, de maneira vagarosa e com um sorriso macabro no rosto, fez um arrepio de medo descer pelo corpo do loiro. – Você ainda não percebeu? Você é o próximo estágio da evolução. Afinal, quantos mestiços como você encontramos por aí? – Malfoy arregalou os olhos diante da implicação dessas palavras. Ele estava certo. Não conhecia nenhum outro mestiço como ele. Lupin era um lobisomem, o caso dela se tratava de uma maldição, ele não nascera assim. De todos os outros casos de mistura bruxa, demônio e trouxa, o gene mais forte prevalecia. Draco era, praticamente, o primeiro da sua raça. De uma nova raça. Era um demônio-mago.

- Você pode tentar, mas não vai conseguir nada! – gritou a beira do desespero, sacudindo as correntes com força.

- E quem vai me impedir? Você? – riu diante das tentativas frustradas do garoto de se soltar e deu as costas a ele. – Preparem tudo! – gritou ao grupo que o rodeava. – O Ritual irá começar.

Prontamente os Comensais começaram a se mover dentro do círculo, desenhando no chão ao redor da pedra onde Draco estava preso um símbolo estranho feito a base de sal. Ao traçarem uma estrela de oito pontas dentro do símbolo, eles acenderam tochas nas pontas dessa estrela, tochas de fogo intenso e vermelho e que emitiam um cheiro azedo. Um deles aproximou-se do loiro que tentou atacá-lo, apenas para ser impedido pelas correntes especiais. Viu um sorriso de escárnio surgir no rosto parcialmente coberto do Comensal enquanto ele prendia os dedos na gola da camisa que Malfoy usava, a rasgando de cima a baixo. Com uma tinta preta e pegajosa ele desenhou símbolos tribais ao longo dos braços pálidos e no rosto dele e Draco engoliu em seco quando o sujeito afastou-se, cedendo passagem a Voldemort.

Os Comensais posicionaram-se ao redor do círculo e começaram a cantarolar baixo uma música desconhecida e em uma língua estranha enquanto o Lorde das Trevas aproximava-se ainda mais do bruxo com um punhal cerimonial preso entre os dedos. Deu um sorriso macabro ao ver os olhos cinzentos alargarem-se temerosos diante do que viria. Mas logo que a expressão veio ela foi-se e o líder da Ordem da Fênix fechou a cara e lançou ao homem um sorriso de desdém, o desafiando a prosseguir. Voldemort não se fez de rogado e aproximou-se mais um passo, murmurando algo naquela língua esquisita que os outros cantarolavam e ergueu o punhal, desferindo o primeiro corte no peito do loiro.

A faca pareceu queimar contra a sua pele, penetrando a sua carne de maneira brutal e arrancando um filete de sangue que escorreu pelo dorso pálido. Lentamente o homem desenhava símbolos em seu peito com o punhal que parecia que estava o revirando completamente por dentro mesmo diante de um simples toque. O rapaz jogou a cabeça para trás, chocando-se contra a pedra fria e segurou as correntes com os dedos, as apertando com força. Mordeu o lábio inferior, a entonação a sua volta ficando mais forte e mais alta, quase hipnótica, e mais uma vez o punhal penetrou o seu corpo. Fraco, abriu a boca e soltou um grito agonizado de dor que ecoou por toda a floresta.

Nas bordas de Little Hangleton vários vultos tinham acabado de surgir no meio da rua vazia da cidade e um deles sobressaltou-se ao ouvir, ao longe, um grito de sofrimento. Os olhos verdes de Harry estreitaram-se de raiva e o humano sumiu, reaparecendo em seu lugar o monstruoso lobo negro que jogou a cabeça para trás e soltou um uivo para a lua sangrenta, antes de disparar em direção a mansão Riddle.

- HARRY! – Sirius chamou, mas seu afilhado já havia sumido na escuridão da noite e com um olhar para os outros demônios, bruxos e trouxas, ele deu de ombros, abrindo seu usual sorriso maroto, aquele que surgia quando estava prestes a entrar em uma batalha, e transformou-se, seguindo Potter.

- E lá se foi a nossa aparição discreta. – resmungou Snape e ao seu lado Lupin riu.

- Você sabe o que eles dizem Severo. – murmurou o lobisomem com um sorriso divertido. – A surpresa é sempre a alma do ataque. – terminou e correu para alcançar a matilha de demônios, que já tinham os trouxas os acompanhando de perto. Snape piscou por vários segundos os olhos negros antes de sacudir a cabeça numa negativa exasperada.

- Eles não dizem isso Lupin! – gritou e correu para acompanhar o amigo, apertando o passo quando ouviu ecoar na atmosfera silenciosa da cidade mais um grito desesperado que ele sabia pertencer a Draco Malfoy.

Continua...