Capítulo 15

O Começo do Fim

Sua garganta doía por causa dos gritos que passavam por ela. Seu corpo automaticamente debatia-se, tentando proteger-se de algum modo do ataque. A cada apunhalada, a cada vez que a lâmina afiada era percorrida pela sua pele pelas mãos de Voldemort, traçando desenhos lentamente e de maneira elegante, todos os seus músculos retesavam e relaxavam enquanto sentia pontadas como milhões de agulhas quentes espetando seus nervos. Quando finalmente a faca foi afastada de seu peito permitiu-se um momento de alivio e deixou a cabeça pender molemente para frente. Contudo, sentiu a sua paz esvair-se quando um calor começou a brotar da boca do seu estômago, subindo pelo seu abdômen e espalhando-se pelos braços, aumentando a intensidade de maneira estrondosa e fazendo outro grito brotar dentre seus lábios secos e quebradiços.

Voldemort por sua parte ria divertido ao ver o sofrimento do jovem a sua frente, vendo toda a arrogância e pompa de agora pouco sumir junto com os berros que ecoavam no cemitério, sobrepondo-se aos cânticos dos Comensais. Seus olhos vermelhos observavam fascinados o sangue carmesim contrastando com a pele pálida do bruxo, deslizando por sobre a superfície macia vagarosamente de maneira hipnotizante. Um brilho dourado começou a emanar a partir do ventre do rapaz, subindo pelo abdômen e braços, alastrando-se pelo corpo de maneira fraca e gradativa. Quando a entonação de seus seguidores chegou ao ápice o homem voltou a sua atenção aos céus para ver que a lua sangrenta, em toda a sua glória, os iluminando bem acima de si. O brilho dourado expandiu-se e os cegou por um breve momento para depois retroceder e acumular-se sobre o peito do menino, fazendo contornos de luz nos desenhos feitos pelo punhal mais cedo.

Hesitante o Lorde das Trevas ergueu uma mão magra em direção ao corpo do bruxo, seu rosto mostrando toda a sua alegria débil diante daquele acontecimento tão marcante. Lentamente as pontas de seus dedos longos tocaram no centro do desenho e a carne pareceu ceder, brilhando intensamente e engolindo a mão do homem aos poucos, como se ele fosse capaz de atravessar aquele corpo num impulso só. Uma gargalhada maníaca ecoou pelo cemitério agora silencioso e os Comensais olhavam deslumbrados seu mestre absorver para si aquela luz de dentro do peito de Draco enquanto gargalhava cada vez mais alto.

Malfoy, por sua vez, apenas sentia como se o seu coração estivesse sendo comprimido lentamente pela mão esquálida de Voldemort enquanto as suas forças eram sugadas pelo mesmo. Jogou a cabeça para trás, a fazendo bater contra o bloco de pedra que o aprisionava enquanto mais um grito de angústia saía de sua boca e seus olhos cinzentos ganhavam uma coloração esbranquiçada e sem vida. Sua mente pedia repetidamente que alguém aparecesse para salvá-lo, ou ao menos que o sofrimento acabasse de vez e assim ele pudesse morrer em paz. Suor escorria por sua testa fria, fazendo fios platinados grudarem em seu rosto anormalmente rosado. As mãos se fechavam em um aperto firme contra as correntes na vã tentativa de aliviar a dor.

Percebia que seu fim estava próximo, sentia a sua respiração ficar cada vez mais lenta e seu corpo ceder a cada segundo que passava. E no meio de toda esta agonia, o último pensamento que lhe veio à cabeça foi sobre Harry. Daria tudo para ver Potter ao menos uma última vez. Pedir desculpas por não ter sido um consorte a altura do líder dos demônios e confessar que apesar de tudo, das brigas e discussões, ele o amava.

Voldemort empertigou-se todo, curvando um pouco o corpo para trás e virando a cabeça em direção a lua, soltando um alto grunhido de êxtase ao sentir todo aquele poder percorrendo o seu ser, o tornando completo. Logo todos os seus planos se concretizariam e quando isto acontecesse ele mostraria a aqueles infelizes que o desprezara, que o humilhara por anos, quem era o mais poderoso. A sua nova raça que seria a dominante e ele tomaria de bandeja o controle deste planeta que por séculos eles se mataram para ter. A energia praticamente o afogava e agora faltava muito pouco. Quando sentiu que sua mão estava prestes a sugar o último resquício de poder do jovem bruxo, seu corpo foi violentamente lançado contra uma lápide por uma força misteriosa, o desprendendo de Draco.

O homem virou-se sobre a terra fofa e úmida e com a ajuda de seus Comensais foi erguido do chão, voltando rapidamente a sua atenção na direção em que veio o ataque apenas para ver um enorme lobo negro parado entre Malfoy e ele e exibindo todos os seus afiados dentes brancos num rosnado ameaçador. Riu ao ver a postura de ataque do Lorde Potter e displicente bateu a poeira de suas roupas, esticando um braço e olhando maravilhado para a energia que ainda circulava sobre a sua pele antes de ser absorvida completamente pelo seu corpo.

- Chegou tarde Lorde Potter. – sibilou num tom divertido. – Eu sou perfeito! – e abriu os braços largamente como se para enfatizar o que acabara de dizer. Um rosnado alto interrompeu a sua comemoração e antes que pudesse se dar conta um peso o derrubava novamente de maneira dolorosa no chão, o fazendo deslizar pela grama molhada. Uma boca de dentes afiados fechou-se em seu ombro, rasgando a sua roupa e carne e arrancando um bom pedaço do local. Mordeu a língua para impedir o gemido de dor e num gesto de mão disparou um feitiço que acertou o lobo em cheio no rosto e o fez voar pelo ar e chocar-se contra uma estátua.

Potter soltou um ganido quando o seu corpo bateu contra o mármore frio e caiu num baque abafado sobre a grama. Zonzo ergueu-se lentamente nas quatro patas e percebeu que a sua visão direita estava sendo bloqueada por algo que rapidamente ele atestou, pelo forte cheiro que invadiu suas narinas sensíveis, que era sangue. Com uma sacudida de cabeça tentou livrar-se do zumbido em suas orelhas e num estalo voltou à forma humana, limpando o filete de sangue que lhe cobria o olho ao mesmo tempo em que via seu padrinho passar por si deixando um rastro negro para trás e partir para cima do primeiro Comensal que viu. Logo mais vultos avançavam cemitério adentro e uma batalha acirrada começava.

Aproveitando a confusão o demônio serpenteou lápides e soldados, erguendo as suas garras, cortando o ar e matando um Comensal que foi tolo o suficiente de se colocar entre ele e o seu destino no presente momento: Draco Malfoy. A sua visão ainda desfocada por causa do ataque de Voldemort mirava fixamente o jovem preso à parede de pedra e aos poucos seu corpo desnorteado voltava ao estado normal e acelerava os passos, diminuindo a distância entre ele e o garoto. Num piscar de olhos Harry encontrava-se em frente ao loiro e seus braços mexiam-se por vontade própria, tateando as grossas correntes a procura de um modo de abri-las. Suas mãos fecharam-se firmemente sobre os elos e num puxão só os arrebentou, soltando um braço. Repetiu o procedimento com os tornozelos e por fim o outro braço e quando este foi liberto, o corpo de Draco caiu de acordo com a gravidade, direto para os braços de Potter.

Harry deixou o peso de Malfoy empurrar ambos ao chão e ajoelhou-se na grama alta, abraçando o jovem contra si e erguendo o rosto dele para poder vê-lo melhor. O menino estava branco como papel, mortalmente branco. A expressão vazia e os olhos fechados não davam nenhuma indicação de qual seria o estado dele e Potter ergueu uma mão trêmula em direção ao pescoço do bruxo, tateando a superfície macia à procura de alguma coisa, qualquer coisa. Uma pulsação que fosse. Mas não achou nada. O peito dele também estava imóvel e as marcas do ritual de sacrifício saltavam aos olhos de maneira medonha, como se estivessem zombado do demônio. Esfregando na cara dele o seu fracasso.

- Malfoy? – chamou em um fio de voz, sua respiração entrecortada parecendo bloquear suas cordas vocais. – Malfoy isso não tem graça. – disse num tom repreensivo, os dedos sujos de sangue percorrendo instintivamente o rosto do loiro, traçando toda as suas curvas como se quisesse memorizá-las pelo tato. – Malfoy nós temos uma batalha para vencer e incrivelmente eu precisarei de você seu moleque arrogante para chutar o traseiro daquele imbecil. – continuou, o sacudindo de leve pelo ombro, sua mente ainda não assimilando o que estava diante de seus olhos. – Malfoy acorda, eu estou mandando! – ordenou como se o rapaz fosse um de seus soldados. – Malfoy! – gritou em completo desespero, mas calou-se rapidamente quando uma mão repousou em seu ombro fazendo Harry erguer a cabeça para encarar uma Hermione pesarosa que se ajoelhava ao seu lado.

A mulher abriu a boca como se para dizer algo, mas sem saber como se expressar com medo da reação de Potter. Os orbes castanhos percorreram o corpo do adolescente sendo abraçado possessivamente pelo demônio e sentiu lágrimas começarem a embaçar a sua visão. O loiro parecia tão em paz daquele jeito, como se estivesse dormindo e de uma maneira assustadora ele parecia mais novo. A guerra tinha endurecido Draco Malfoy o fazendo aparentar ser mais velho do que realmente era, mas, agora, o olhando daquela maneira dava para ver claramente o que ele era: um menino. Um garoto que mal chegou à fase adulta e cuja vida foi retirada de maneira cruel por causa das loucuras de um homem.

- Potter… - falou num tom como se o aconselhasse a aceitar mais rapidamente a verdade, pois eles ainda tinham coisas a resolver ali.

- Não! – Harry sacudiu a cabeça ao ver piedosos olhos chocolates mirando seu rosto. – Não! – começou a repetir incessantemente, abraçando Draco ainda mais contra o peito e balançando o corpo para frente e para trás como se estivesse ninando o rapaz. Era praticamente inconcebível que aquilo tivesse acontecido, que todos os seus pesadelos nos últimos meses tivessem se tornado realidade. Não aceitaria jamais o fato e que Draco pudesse… Sacudiu a cabeça para espantar aquele pensamento medonho e abraçou o jovem mais contra si, com seus lábios tocando a testa molhada do rapaz em suaves beijos, como se assim fosse acordá-lo.

- Eu sinto muito Potter. – Hermione disse com pesar, as lágrimas agora rolando livremente por suas bochechas. Viu o corpo de Harry retesar todo como se somente agora a realidade da situação o assolasse e a idéia entrasse de vez na sua cabeça. Finalmente ele assimilava o fato de que Draco Malfoy estava morto.

- Não, não, não… - murmurou desesperado, sacudindo o bruxo numa última tentativa de desperta-lo. Quando nada aconteceu alto pareceu explodir dentro de si e Potter teve a sensação que era o seu coração despedaçando em milhares de pedaços. – DRACO! – o grito agoniado ecoou pelo cemitério, carregando todo o pesar de seu emissor. Harry jogou a cabeça para trás, emitindo um alto som do fundo da garganta que se assemelhou a um uivo de dor misturado ao choro que brotava de seu ser.

Como se fosse algum tipo de sinal oculto, as batalhas pararam brevemente e toda a atenção voltou-se para a dupla ajoelhada junto a Malfoy. Os lobos da matilha de Potter jogaram a cabeça para trás e uivaram em companhia de seu líder, compartilhando seu pesar. Bruxos abaixaram a cabeça por um breve minuto em sinal de respeito ao seu líder caído e os trouxas observavam com tristeza a cena, com lágrimas surgindo nos olhos de alguns ao sentirem a dor do demônio os inundar. O coração de Remus apertou-se ao presenciar aquilo e o seu corpo moveu-se automaticamente em direção aos três líderes, esquecendo completamente o Comensal com que lutava e que, ofendido diante da dispensa, lançou um feitiço contra as costas do bruxo.

- Remus! – o alerta de um Sirius desesperado fez o lupino virar-se num estalo e mirar raivosos olhos escurecidos em direção ao adversário. Silencioso, ele fez um gesto com o braço, à varinha cortando o ar e deixando um rastro vermelho no caminho. Um feitiço estourou da ponta da mesma, atingindo o Comensal que explodiu em milhares de pedaços, causando um alto estrondo e tirando todos os outros de seu estupor e recomeçando a luta. – Você ficou doido? – Black vociferou ao aproximar-se do bruxo e o segurou pelo braço fortemente. Remus apenas o encarou duramente, como se pedisse que ele não o atrapalhasse, e numa sacudida soltou-se do demônio, seguindo o seu caminho em direção a Potter. – Lupin! – gritou Sirius, seguindo o homem de perto e sendo prontamente ignorado.

Rapidamente Remus juntou-se a Hermione e Harry, ajoelhando-se ao lado deles e estendendo uma mão em direção ao rosto impassível de Draco, acariciando uma bochecha num gesto afetuoso e paternal. Lembranças o assolou de maneira avassaladora e por um breve momento ele teve a impressão de que via a sua frente aquele menino sorridente que costumava correr em torno da mansão, tentando acompanhar a mãe entre as flores. Ou esperava acordado de noite o pai voltar para casa depois de cada batalha, para colocá-lo na cama e contar histórias fantasiosas sobre a guerra.

- Ele ainda está quente. – murmurou em um tom distante, como se o que estivesse acontecendo na sua frente não passasse de um horrível pesadelo. Como se o fato de ter falhado em sua promessa a Lucius e Narcissa não fosse verdadeiro.

- Eu sinto muito Harry. – Sirius disse ao afilhado, o coração partindo ao ver o estado do homem mais novo. Potter agarrava-se ao corpo do bruxo como se de algum modo pudesse trazê-lo de volta a vida desta maneira. – Mas ainda não terminou. – continuou numa voz mais firme e viu olhos verdes inundados de lágrimas o encararem de maneira confusa. – Seu consorte foi morto de maneira covarde e cruel e você sabe quais são as leis de nosso povo em relação a isso. – Black viu os olhos do afilhado, antes sem vida, emitirem um brilho perigoso e depois voltarem-se para Voldemort que ao longe lutava, e vencia de maneira covarde, contra cinco soldados da Ordem da Fênix.

Lentamente Potter foi soltando Draco de maneira relutante, acariciando uma última vez os cabelos platinados, o entregando a Lupin e o mirando com ferocidade, dizendo ao bruxo sem usar uma palavra sequer que era a função dele proteger o líder caído mesmo que fosse com a sua própria vida. Remus apenas acenou positivamente de volta, compreendendo o recado e observou silencioso o demônio erguer-se do chão em gestos fluidos e perigosos e ajeitar as suas vestes vagarosamente, o rosto fechado numa expressão impassível e os ombros rijos. A postura de um soldado que estava prestes a entrar na batalha de sua vida e disposto a perdê-la nesta luta.

- Pronto Harry? – Sirius sussurrou perto do ouvido do homem, depositando uma mão sobre o ombro dele. Ao seu lado Hermione também se erguia, verificando rapidamente o seu armamento e mirando Potter como se esperasse o seu próximo passo. Afinal, a questão tinha tornado-se para o demônio extremamente pessoal. Não era mais os três povos unindo-se contra um inimigo em comum, agora era apenas Harry pronto para destruir aquele que fez o favor de roubar-lhe seu bem mais precioso.

- Eu não quero ninguém no meu caminho. – disse em um tom sombrio e Hermione e Sirius ao seu lado assentiram positivamente com a cabeça. – Voldemort é meu. – sentenciou e a passos lentos começou a cruzar o campo de batalha em direção ao Lorde das Trevas, ignorando todo e qualquer feitiço que vinha em sua direção e os repelindo com um simples gesto de mão. Granger e Black ainda ficaram um tempo observando o demônio afastar-se resoluto, com uma aura de perigo e raiva o rodeando, e depois debandaram-se com o comandante dos lobos indo auxiliar seus soldados e a líder trouxa indo juntar-se aos seus não antes de deixar uma ordem a Colin que fizesse companhia a Remus e ajudasse o bruxo a proteger o corpo de Draco de qualquer Comensal errante.

Entrementes, Voldemort gargalhou quando com um simples estalar de dedos incinerou dois soldados da Ordem. Todo aquele poder percorrendo pelo seu corpo era simplesmente inebriante, como uma droga na qual a pessoa rapidamente se vicia e não conseguia mais se livrar. Viu de rabo de olho um tolo demônio da matilha de Potter vir atacá-lo e com um sorriso macabro conjurou uma adaga. Quando a pobre criatura saltou para o ataque, ele o recebeu prontamente com um contra ataque, cravando a faca na barriga do demônio e a girando, enterrando mais a lâmina contra a carne até o sujeito cair morto aos seus pés.

- Ah, quem é o próximo? – falou em deboche e riu quando viu o grupo de soldados recuarem vagarosamente, medo evidente em seus olhos que se alargaram consideravelmente quando viram o homem erguer a mão que emitia um brilho esverdeado intenso. Rapidamente eles começaram a correr na tentativa de salvarem suas vidas e antes de sentirem o impacto do feitiço em suas costas e caírem mortos no chão, à última coisa que ouviram foram às risadas maníacas do Lorde das Trevas.

- Divertindo-se? – a voz fria de Harry fez Voldemort virar-se em sua direção e um sorriso malicioso crescer em seu rosto, o marcando de maneira mais medonha. Os olhos vermelhos brilhavam insanos e percorriam o rosto indiferente do demônio com curiosidade, cravando-se no corte em forma de raio que causara na testa do mesmo e que ainda sangrava levemente.

- Imensamente. – respondeu, aprumando-se e adquirindo uma postura defensiva. Podia sentir a energia poderosa que Potter emanava, dando jus a toda a lenda que precedia o líder dos demônios. O mais poderoso de sua linhagem e a possibilidade de poder lutar com ele apenas fazia o sangue do Lorde das Trevas correr mais rapidamente de excitação. – Você parece um pouco… irritado Lorde Potter, posso saber o por quê? – provocou sádico, o sorriso ficando mais largo enquanto uma língua ofídica lambia lábios finos e sem cor.

Um rosnado ameaçador brotou do fundo da garganta de Harry e ele afastou levemente as pernas, erguendo os braços e curvando os dedos das mãos em garras em uma clássica posição de ataque, os olhos verdes brilhando intensamente ao serem refletidos pela luz da lua, os deixando com um aspecto psicótico. Voldemort piscou vagarosamente, achando aquela postura extremamente interessante. Se não estivesse enganado, Potter estava a um passo de perder o controle, e isto não era uma tática sábia de batalha. Inclinou a cabeça um pouco para o lado, pensativo. Se fosse analisar melhor, não era a primeira vez que via Potter desta maneira e da outra vez que cruzara com o demônio a beira de um ataque de nervos foi quando ele… Seqüestrou o jovem Malfoy. Ah, agora sim recordava claramente que não apenas o garoto bruxo ficara extremamente inquieto depois de presenciar o ataque mortal a Potter, como este também parecia desesperado em salvá-lo no dia daquele incidente em Londres. E julgando pela reação de ambos, quando dois demônios - ou meio demônio no caso de Draco - comportavam-se dessa maneira, significava apenas uma coisa...

Riu escandalosamente, jogando a cabeça para trás e depois voltando a encarar o outro homem maliciosamente.

- Que irônico saber que o jovem Malfoy também é um Potter, não é mesmo meu caro Lorde? – provocou e viu com prazer o corpo do demônio retesar, ele dar um impulso e vir em sua direção com as garras prontas para o ataque. Em um gesto rápido de braço, Voldemort cortou o ar, as pontas de seus dedos emitindo um brilho arroxeado e disparando um feitiço certeiro contra o peito de Harry, que foi arremessado para trás, deu uma cambalhota no ar e acabou caindo de joelhos no solo, deslizando por sobre a terra escorregadia de ré e deixando uma trilha profunda na terra fofa. – Mas o mais engraçado é que eu não estou surpreso. – continuou, aproximando-se a passos lentos e perigosos de Harry que rapidamente pôs-se de pé e avançou em outro ataque.

Um braço cortou o ar, as garras passando rente ao rosto de Voldemort que recuou bem a tempo e esticou a mão, segurando o pulso do demônio, o mantendo no lugar por breves segundos antes de disparar um outro feitiço contra ele, abrindo um talho que rasgou o pesado casaco que ele usava, atravessando a camisa e criando um fino corte no peito do lobo.

- Eu poderia matá-lo facilmente, mas prefiro me divertir um pouco com você. A sua fama o precede Harry e a lista de suas qualidades incluem o fato de você possuir uma frieza no campo de batalha impressionante. Porém, no momento, você parece estar perdendo um pouco o… tato. – ergueu o braço, invocando o novo poder que percorria em seu corpo e conjurando uma bola de energia. Observou os orbes verdes de Harry estreitarem diante deste ataque e sorriu antes de lançar a bola sobre o demônio que tudo o que fez foi endireitar-se em sua posição e rebater a energia para cima de uma estátua que explodiu ruidosamente ante o ataque.

- Não seja ridículo em pensar que pode me vencer usando um dos golpes de Draco. – respondeu, conjurando a sua própria bola de energia e disparando contra Voldemort que reagiu rapidamente e contra atacou com o mesmo tipo de golpe.

Os dois ataques encontraram-se a meio caminho um do outro e estouraram como uma bomba, gerando um show de luzes, poeira e uma onda sônica que deslocou os dois combatentes de sua posição. Harry não esperou que a fumaça cedesse e avançou com tudo sobre Voldemort com as suas garras em riste. A primeira coisa que o Lorde das Trevas sentiu antes da poeira baixar foi uma dor aguda que partiu de sua coxa, passou pelo quadril e chegou ao peito, seguida por algo pesado o acertando no meio do rosto e fazendo seu pescoço estalar de maneira dolorosa. Arregalou os olhos enquanto era lançado contra o tronco de uma árvore e o ar expulso de seus pulmões diante do impacto.

Orbes vermelhos encararam surpresos a marca das garras que rasgaram suas vestes e o sangue que escorria dos cortes, além do latejar em sua bochecha onde a bota de Potter o tinha acertado. Tonto, usou o tronco como apoio e ergueu-se apenas para ver que o demônio já vinha em sua direção pronto para outra chuva de golpes. Por reflexo puxou a varinha de suas vestes e apontou para ele, soltando o primeiro feitiço que lhe veio a sua cabeça.

- CRUCIO! – gritou e viu com prazer a maldição encontrar-se a meio caminho de Potter e este ser lançado para trás e cair no chão retorcendo-se de dor. Sentindo-se novamente sob controle da situação, aproximou-se do demônio, ainda sustentando a maldição e o vendo contorcer-se aos seus pés. – O poderoso Lorde Potter reduzido ao um sujeitinho inferior vingativo… decepcionante. – desdenhou, aumentando a intensidade do cruciatus e observando o homem morder o lábio para impedir um grito de dor.

Depois de minutos que pareceram décadas para Harry, o feitiço foi cancelado e o demônio percebeu-se sendo puxado para ficar de joelhos pelos cabelos e ser virado para encarar Voldemort.

- Eu esperava um desafio vindo de você Potter… mas parece que me enganei. Ou Draco era mais poderoso do que eu esperava… ou você que é fraco demais. – provocou, soltando os cabelos dele e o afastando de si com um chute no estômago do homem que lhe tirou todo o ar e o fez dobrar-se sobre si próprio, cuspindo um bom punhado de saliva e sangue no chão.

Com todos os músculos protestando e queimando por causa da maldição, Harry forçou suas pernas o colocarem de pé e pôs-se novamente em posição de ataque, mesmo que sua mente exigisse que ele tirasse alguns minutos de folga, pois seu corpo estava quase cedendo a lei da gravidade.

- O mesmo digo eu. – gracejou ao recuperar o fôlego. Sabia que o seu problema não era o fato de agora Voldemort ter o poder de Draco, mas sim que ele, Harry, ainda não tinha se recuperado totalmente do ataque anterior que sofreu em Londres. A cada golpe que recebia na região do tórax a sua ferida causada por aquela espadada latejava e o demônio que tinha certeza que ela tinha sido novamente aberta. Sem contar que ele tinha subestimado o adversário. Todas as suas visões apenas o alertaram para um perigo iminente, mas não diziam o tamanho da ameaça. A primeira aparição de Voldemort as três facções da guerra não deu a entender que ele fosse extremamente forte e Potter contava com o fato de que mesmo tendo recebido os poderes de Draco o homem não soubesse usá-los. Mas ele parecia aprender rápido e isso só queria significar uma coisa: que ele estava ferrado.

Harry só conhecia a extensão do lado bruxo de Malfoy e até algumas horas atrás nem sabia que seu conjugue era meio demônio. Não fazia a mínima idéia de que tipo de força o menino herdara da mãe, mas imaginava que, sendo um Black, não fora pouca coisa. Suas divagações foram interrompidas quando uma bola de fogo veio em sua direção e ele saltou para fora do caminho da mesma e teve que repetir o ato incessantemente quando mais bolas vieram seguidas dessa primeira. Jogou-se atrás de um mausoléu e sentiu o mesmo tremer nas bases quando mais uma bola de fogo se chocou contra ela.

Estendeu os braços em direção a estátua da Morte que adornava um bem decorado túmulo e esta tremeu no lugar, levitando a poucos centímetros acima da cova. Rapidamente saiu de seu esconderijo, desviando de mais um ataque de fogo e com um gesto de mãos lançou a estátua que voou velozmente contra Voldemort que rapidamente a explodiu com um feitiço de defesa, causando mais uma nuvem de poeira. Os olhos vermelhos procuraram em meio a fumaça pela figura de Harry e viu um vulto movimentar-se a esquerda, lançando prontamente uma maldição naquela direção. Quando a poeira abaixou percebeu que o que tinha acertado fora uma lápide e virou-se rapidamente ao ouviu o ar mover-se atrás de si bem a tempo de fugir das garras de Potter que por pouco não abriram outro talho em seu corpo. Quando o demônio ergueu o outro braço para cortá-lo, impediu o golpe do mesmo entrelaçando seus dedos contra o dele, fazendo o mesmo com a outra mão livre que iria atacá-lo.

Ambos ficaram ali parados, medindo forças, suas mãos unidas soltavam faíscas que pouco a pouco formavam correntes elétricas que percorriam os braços de ambos e embora pudessem sentir os choques cruzarem seus nervos, os dois permaneciam impassíveis, ninguém querendo ceder ou fraquejar. Voldemort sorriu de maneira sinistra e um estalo soou de entre as mãos unidas e um raio pareceu surgir em pleno ar e atingir Harry, o separando do outro homem. O demônio girou no ar e pousou ao mesmo tempo em que mais dois raios provindos das mãos do Lorde das Trevas o atingiam e o levantavam a alguns metros do chão, o eletrocutando.

Minutos depois os raios retrocederam e Potter caiu de cara contra a terra fofa e tentou pôr-se de pé utilizando seus braços trêmulos e fracos, apenas para ir de encontro ao solo novamente e lá ficar. Desnorteado, rolou o corpo para poder mirar o céu e as estrelas, a lua que o encarava e parecia gracejar de sua desgraça. Seu sangue fervia e corria pelas suas veias pulsantes diante da raiva que sentia pela incapacidade de derrotar aquele que havia matado Draco. Durante séculos causara medo e respeito nos outros, criara histórias sobre como era um grande e poderoso líder e nunca fora derrotado, nem mesmo pelo famigerado Dumbledore. Encontrara o seu desafio apenas anos depois de sua nomeação como líder na figura de um menino prepotente, mas igualmente forte. Um menino que o cativou no primeiro encontro e que ousou desafiá-lo mesmo sem chances de vencê-lo.

O mesmo menino cujo corpo agora era guardado por Lupin e que ele falhou em salvar. Tinha jurado a Draco que cuidaria dele no dia em que se casaram e essa promessa ocasionara risadas do jovem bruxo, que dissera que sabia se virar sozinho. Contudo, durante os momentos que mais precisava era ele, Harry, que Malfoy procurava para protegê-lo ou orientá-lo. Dentro do mundo que eles criaram paralelo a aquele mundo de guerra, eles não eram inimigos provindos de raças diferentes, líderes adversários, eles eram apenas Harry e Draco. Um demônio orgulhoso e um adolescente teimoso que, apesar das brigas e troca de farpas, ainda sim se amavam e sonhavam um dia viver em um mundo em paz.

- Levante-se Lorde Potter! – Voldemort vociferou diante da imobilidade do homem caído, não admitindo que seu divertimento tivesse acabado tão rápido. Com isto, lançou outro raio em direção ao demônio que por instinto saiu do caminho do golpe, seu corpo tirando forças do infinito para manter-se de pé. No entanto não se agüentou muito tempo e acabou caindo de joelhos com a respiração ofegante e sangue escorrendo de vários ferimentos. – Eu o quero me encarando, quero vê-lo claramente quando você morrer! – continuou, apontando a varinha em direção ao homem. – Foi uma batalha divertida, mas está na hora de encerrá-la. Adeus jovem Harry. Avada Kedavra!

O feixe de luz despontou da varinha, cruzando o espaço entre os dois adversários num zunido, causando reflexos esverdeados sobre as tumbas e aproximando-se velozmente de seu alvo. Muitos pararam para ver o que acontecia e Sirius sentiu o coração subir pela garganta ao ver a maldição familiar ir em direção de seu afilhado. Afoito, tentou livrar-se dos Comensais que o rodeava e abrir caminho para chegar a Potter, mas parecia que quanto mais ele se esforçava, mais surgia seguidores de Voldemort para impedi-lo.

- SAIAM DA MINHA FRENTE! - gritou aflito, dilacerando com as suas garras quem quer que se colocasse entre ele e o demônio mais novo prestes a ser morto. Sentiu um peso em suas costas e alguém o agarrar pelo pescoço e começou a todo custo tentar soltar a aberração que lhe dava uma chave de braço o prendendo no lugar. O barulho de um feitiço cruzando o ar soou perto de sua orelha e num piscar de olhos o Comensal que o prendia era lançado longe. Virou o rosto para ver quem o resgatara e arqueou as sobrancelhas surpreso ao ver Shacklebolt com a varinha erguida em sua direção. Deu seu usual sorriso maroto em direção ao auror e este retribuiu com um aceno polido de cabeça, tomando seu lugar na batalha e permitindo que Black fosse ao socorro do afilhado. Contudo, parecia que ele não estava sendo rápido o bastante, pois a próxima coisa que viu foi o Avada Kedavra a um passo de acertar Potter.

Por seu lado, Harry apenas observou apático o ataque vir em sua direção e suspirou, percebendo que não teria como reagir a aquela investida. Não tinha mais forças, estava todo dolorido e ao menos havia perdido uns bons litros de sangue na sua concepção. Seus olhos cansados ameaçavam fechar e com isto permitiu as pálpebras tremularem um pouco antes de cerrarem, conformado com a proximidade de seu fim. Quase podia sentir o calor da maldição o envolvendo à medida que aproximava-se e relaxou o corpo esperando pelo fim.

Voldemort sorriu ao ver o ar derrotado cercando o demônio e podia praticamente sentir o sabor da vitória em sua boca enquanto via a maldição aproximar-se dele. Soltou uma risada extasiada quando o Avada Kedavra chegou perto de Potter e estava prestes a atingi-lo. Deu as costas, perdendo o interesse pela cena rapidamente, pois estava claro qual seria o desfecho dela e estava pronto para encerrar aquela batalha sem nexo, visto que dois dos grandes líderes estavam mortos, quando de repente tudo mudou.

Um estrondo ensurdecedor foi-se ouvido, um clarão pareceu iluminar aquele cemitério como se fosse dia e lápides e estátuas partiram-se diante do impacto da misteriosa explosão que pareceu fazer tremer os alicerces até mesmo da mansão ao longe e derrubar todos no chão. Atordoado o homem virou-se rapidamente para ver o que havia acontecido, mas seus olhos apenas registravam uma névoa esbranquiçada que rapidamente estava sendo varrida por um forte vento. Quando esta se desfez, seu olhar recaiu-se sobre Potter ainda ajoelhado na mesma posição, vivo, e que observava fascinado um lobo branco na sua frente.

A misteriosa criatura tinha as patas dianteiras flexionadas, os pêlos das costas eriçados e a cauda em riste além do focinho contorcido para mostrar dentes afiados e deixar transpassar um ameaçador rosnado. Olhos claros, azul gelo, encaravam Voldemort de maneira perigosa fazendo o mestiço indagar-se de onde tinha surgido aquele lobo e como ele pôde ter parado uma maldição imperdoável daquela maneira. Pois esta era a única explicação para a explosão e o fato de Potter ainda estar vivo. Estático diante da surpresa, o Lorde das Trevas nem ao menos reagiu enquanto o lobo mudava toda a sua postura ofensiva e ia em direção a Harry, parando ao lado dele e lhe lambendo afetuosamente o rosto sujo de sangue e terra.

- Não me atrapalhe vira-latas! – esbravejou o bruxo ao recuperar-se do choque, sacudindo a varinha e lançando outro Avada Kedavra em direção à dupla. O feitiço mais uma vez cruzou o ar zunindo e ao aproximar-se dos dois um escudo púrpura ergueu-se em volta deles, bloqueando o ataque de maneira violenta, surpreendendo não apenas Voldemort, mas todos aqueles que observavam curiosos o embate. Quando o escudo abaixou, o lobo não mais estava lá, mas sim uma outra pessoa que encarava o bruxo com um sorriso de escárnio no rosto e os olhos claros brilhando maliciosamente. Uma mão estava repousada sobre o ombro de Potter que ainda parecia em choque enquanto a outra estava escondida displicente no bolso da calça, numa postura de pouco caso.

- E então? – murmurou Draco num tom divertido. – Sentiu a minha falta?

Continua…