Capítulo 16

O Amanhecer De Um Novo Dia

Remus John Lupin sabia que se fechasse bem os olhos ainda poderia ver as imagens do passado gravadas em sua retina como uma velha fotografia. Ainda poderia ver os grandes e bem cuidados jardins da Mansão Malfoy onde uma loba branca corria feliz e despreocupada com a vida, parando vez ou outra entre rosas, hortências e crisântemos para observar com seus brilhosos olhos azuis a criaturinha que tentava acompanhá-la com suas curtas patas instáveis. Poderia ver a figura aristocrática de Lucius observando a cena com uma expressão séria no rosto mas com seus orbes cinzentos irradiando orgulho. O retrato da família perfeita, destruída pouco depois pela guerra.

Quando Draco nascera fora um custo para o trio de amigos esconder este fato dos outros. O menino havia herdado mais as características demoníacas dos Black do que as bruxas dos Malfoy. Seu olhar era intenso, brilhava na escuridão como dois olhos de gato, denunciando a sua origem. Os orelhas eram discretamente pontiagudas e os cabelos loiros platinados nasciam aos montes na cabeça que deveria ser supostamente careca. Sem contar a energia que o menino emanava que parecia deixar os animais que habitavam a floresta em torno da mansão inquietos.

Contudo, o rapaz foi crescendo como uma criança feliz ao lado dos pais carinhosos e super protetores, pois o mestiço era um segredo que deveria ser guardado a sete chaves. Lucius e Narcissa sabiam das implicações que a verdade causaria em todo mundo quando perceberam que seu pequeno orgulho não era normal como os outros bruxos. Logo as características demoníacas que ele tinha quando bebê fundiu-se as bruxas, lhe dando aspecto humano. No entanto, quando a criança desenvolveu a habilidade de transformar-se em um lobo branco como a mãe e conseguir fazer magia ao mesmo tempo nesta forma, o casal Malfoy percebera que era hora de se preocuparem. O filho deles acabara de se tornar uma raridade.

E por esta raridade eles lutaram bravamente na guerra. Por esta raridade Lucius perdeu a vida em um ataque de demônios, levando o segredo consigo. Por esta raridade Narcissa morrera ao proteger o filhote que havia sido encurralado por um grupo de trouxas quando passeavam na floresta em torno da mansão. Por esta raridade Remus e Severo lutaram por anos para transformá-lo no mais poderoso guerreiro da existência, forte o suficiente para saber se proteger sozinho. Forte o suficiente para liderar o povo deles contra os demônios, na esperança que Draco terminasse com a guerra, porque se isso acontecesse, ninguém nunca descobriria o que ele era e assim não o condenaria por ser o fruto de um amor proibido.

Entretanto Voldemort descobrira a verdade, encontrara no maior segredo deles um meio de tornar-se perfeito e vingar-se daqueles povos que o menosprezaram e, com isto, o guerreiro que eles educaram com tanto ardor agora se encontrava caído nos braços de Remus, que o tinha abraçado contra o corpo de maneira a protegê-lo e que se segurava para não deixar as lágrimas rolarem por seu rosto contorcido em dor e pesar. Na sua frente, soldados do Potter e da Granger formavam um círculo de proteção, enxotando para longe os Comensais que tentavam se aproximarem do líder bruxo e isto o fez pensar.

Como era irônico que três povos que por séculos se odiaram agora lutavam lado a lado como irmãos na vã tentativa de destruir o monstro que tentava liquidá-los. No meio de gritos de batalha, feitiços e golpes, quase não dava para distinguir quem era quem. O que era demônio, o que era bruxo, o que era trouxa. A poeira levantada pelo choque de energia, o sangue vermelho que manchava rostos e roupas e as raças que se misturavam no embate faziam todos parecerem um só. Uma única espécie lutando por um único ideal: o de sobreviver. E no fim, este sempre fora o objetivos deles não é mesmo? Agora Remus entendia. De uma maneira ou de outra, tudo o que eles queriam era sobreviver.

Suspirou cansado, aconchegando mais o corpo do jovem contra si. A rigidez pós morte não tinha atingido Draco e ele ainda estava anormalmente quente, embora seu coração não mais batesse e a sua respiração fosse inexistente. Seus olhos castanhos desviaram do rosto pálido do menino para longe onde um Potter enlouquecido pela perda do consorte lutava cegamente com Voldemort. Sentiu um arrepio cruzar a espinha quando percebeu que Harry estava agindo demais com o coração e pouco com a cabeça.

Já vira Potter lutar em campo de batalha e ele era um exímio estrategista. Porém, a morte de Draco estava lhe afetando demais e o cegando completamente, o fazendo cometer erros primários que ocasionavam ferimentos e perda de energia desnecessária, dando vantagens absurdas ao Lorde das Trevas. Soltou um resmungo de pesar. Se continuasse assim eles estariam condenados. Se Harry fosse derrotado logo depois seria a vez deles e mesmo que conseguissem resistir, não permaneceriam de pé por muito tempo. Voldemort agora tinha correndo pelo seu corpo a energia resultante da união de uma Black com um Malfoy e poderia em um estalar de dedos subjulgar a todos.

Retesou os ombros quando viu Potter ser lançado para longe por causa de um feitiço que abriu um corte profundo em seu peito. Isso não era nada bom. As perspectivas não eram boas e Remus começou a considerar se seria covardice a sua desaparatar com o corpo de Draco de volta para Hogwarts em uma retirada adiantada. Sabia que Harry entenderia a sua decisão de proteger o que restara de seu consorte enquanto perdia vergonhosamente para o inimigo.

- Sinceramente Draco... - Lupin murmurou perto do rosto do menino o qual se afeiçoara como o filho que jamais conseguiria ter. - não sei o que você viu nele. - riu amargamente ao lembrar-se das palavras de Sirius quando por causa do loiro em seus braços Harry fora parar na ala hospitalar. - Potter está perdendo vergonhosamente e se continuar neste ritmo a batalha será ganha por Voldemort e logo teremos uma nova guerra para travar. Por que você foi morrer seu moleque? Você que sempre dizia que viveria o suficiente para acabar com toda essa palhaçada. - murmurou com pesar, sentindo um bolo entalar em sua garganta. - Seus pais ficariam desapontados. - acusou com raiva. - Eu estou desapontado. - o repreendeu como se ele ainda fosse seu aluno em Hogwarts.

Uma explosão violenta chamou a atenção de Lupin que voltou o olhar para a batalha ao longe vendo que os dois golpes de Voldemort e Potter haviam se encontrado no meio do caminho causando um grande estrago. Minutos depois, o Lorde das Trevas erguia-se inabalado e com um brilho maníaco no olhar disparou uma maldição imperdoável que fez o demônio se contorcer no chão. Surpreso, Remus sentiu o corpo em seus braços saltar como se tivesse levado um choque a medida que Potter retorcia-se sob a maldição. Abaixou os olhos largos para o rapaz caído e lentamente o deitou sobre a grama sem vida do cemitério, o observando com intensidade.

Draco não respirava e depois de checar Lupin atestou que ele ainda não tinha pulsação. No entanto, estava certo de que sentira o garoto se mexer. Será que tinha sido impressão sua? Com certeza tinha sido impressão sua. Rapidamente voltou a sua atenção para a batalha ao longe quando outra explosão ecoou no local e viu Potter correndo e se escondendo atrás de um mausoléu, fazendo uma enorme estátua se mexer e a lançar contra Voldemort, levantando mais poeira e encobrindo seu ataque. Logo os dois combatentes estavam em uma batalha de medir forças que gerava até faíscas.

Um estalo soou pelo cemitério e um raio desceu violentamente do céu, atingindo Harry e o arremessando entre as lápides. Remus fez uma expressão de pesar compartilhando a dor do demônio diante do ataque mas num piscar de olhos desviou a sua atenção do embate quando ouviu uma profunda tragada de ar ao seu lado, como se alguém tivesse reaprendido a respirar neste exato momento. Chocado, observou o corpo de Draco curvar-se centímetros acima do chão, como se o fato de seu pulmão ter se enchido de ar o fizesse flutuar e depois o loiro caiu num baque sobre a grama. Quando mais a frente Potter foi erguido do solo pelos raios de Voldemort, os olhos do bruxo perto de Lupin abriram-se em um rompante e eles não eram mais um azul acinzentado. Pelo contrário, eles tinham um tom prata e a íris parecia ser envolvida por um suave círculo dourado.

- Draco? - chamou Remus hesitante, com medo de aproximar-se demais do garoto pois ele ainda estava imóvel, com os olhos pratas abertos e mirando o céu sem piscar uma vez, como se estivesse em transe. - Malfoy? Está me ouvindo? - a atenção do homem voltou-se para o círculo de soldados que haviam parado de batalhar ao ouvir o bruxo chamar pelo nome do líder deles e todos olharam chocados ao ver que o loiro não apenas estava de olhos abertos, mas também respirava.

- Cara o que você fez? - Colin perguntou ao aproximar-se da dupla depois de deixar uma ordem a todos de fechar mais o círculo em torno deles e não deixar os Comensais verem o que estava acontecendo. Não seria nada bom se o inimigo soubesse de antemão que Malfoy estava vivo. - Ele não tinha morrido? - perguntou ao ajoelhar-se ao lado do loiro imóvel no chão.

- Sim... - Lupin murmurou ainda sem compreender. Tinha certeza de que Draco estava morto, seu instinto de lobisomem sentira quando o seu filhote adotivo perecera na mão do adversário. Mas então, o que tinha acontecido?

- Malfoy? Ei cara, 'cê tá vivo? - Colin chamou, levando uma mão ao ombro dele mas a recuando depressa quando sentiu um intenso calor praticamente queimar a sua pele. - Meu o que foi isso? - perguntou chocado ao olhar a palma de sua mão avermelhada.

Lentamente, Malfoy foi erguendo-se do chão, sentando-se sobre a grama e fazendo Creevey e Lupin recuarem aos poucos para dar espaço a ele. Contudo, na verdade, a reação dos dois era porque eles estavam assustados. O sujeito tinha ressuscitado sem mais nem menos e isso não havia magia que resolvesse. Era completamente impossível.

- Draco, você está me ouvindo? - Remus tentou novamente e viu orbes metálicos o mirarem por breves segundos antes de cravarem-se em Potter. O lupino seguiu o olhar de seu líder apenas para ver o demônio de joelhos no chão e ouvir as palavras extasiadas de Voldemort enquanto brandia a varinha para ele.

– Foi uma batalha divertida, mas está na hora de encerrá-la. Adeus jovem Harry. AvadaKedavra! - o brilho esverdeado explodiu da ponta da varinha do mestiço em direção ao homem e o grito de Sirius diante do perigo iminente que o afilhado corria ecoou no silêncio perturbador que parecia ter caído no cemitério. Os globos pratas de Draco estreitaram-se levemente e em uma explosão de luz o bruxo deu lugar a um lobo branco que fez Colin recuar assustado e Remus mirar a criatura surpreso. Há anos, desde a morte da mãe, que Malfoy não assumia a sua outra forma. Era como se ele tivesse reprimido este lado dele e desenvolvido somente o bruxo.

Parou de contemplar o que acontecia quando em um sopro de vento o lobo desaparecera e logo depois um enorme estrondo causou um pequeno terremoto nos terrenos da família Riddle. Surpresos diante desta reviravolta, todos pararam a batalha por terem sido cegados pela névoa que inundou o local e esperaram apreensivos esta se dissipar. Quando isto aconteceu, viram o tal lobo ao lado de Potter em uma posição ofensiva e ameaçadora. Pouco depois ele mudou a postura e postou-se ao lado do demônio, lambendo-lhe o rosto de maneira afetuosa para poder limpar o sangue e a sujeira da bochecha do moreno. Irritado, Voldemort ergueu novamente a varinha, gritando com o lobo antes de disparar a maldição.

- Não me atrapalhe vira-latas! - o Avada Kedavra cortou o ar num zunido e em um piscar de olhos um escudo ergueu-se em volta de Potter e o lobo branco, bloqueando o feitiço com violência e surpreendendo a todos com o fato de que uma maldição daquele porte ter sido facilmente combatida quando matara muitos outros no passado.

Quando o escudo abaixou num jorro de luz, o lobo branco tinha desaparecido e agora um Draco divertido estava ao lado de Harry, sua mão pousada displicente no ombro do demônio e os olhos novamente naquele tom azul tempestade.

- E então? - o garoto havia murmurado. - Sentiu a minha falta?

Voldemort por seu lado estava pasmado. Malfoy tinha morrido em suas mãos, tinha certeza disso. Sentira a energia do menino se esvaindo aos poucos enquanto a roubava, sentira o coração dele parar de bater e a sua respiração ficar estática. Então o que ele fazia parado na sua frente como se nada tivesse acontecido? As marcas do ritual não mais manchavam seu peito impecavelmente intacto sob a blusa rasgada. A pele pálida apresentava um rom rosado saudável, indicação de que o sangue ainda pulsava intenso dentro de suas veias e ele respirava longa e lentamente em um ritmo compassado.

- O que é você?! - berrou indignado. Será que tinha falhado em sua missão? Será que tinha perdido os poderes que roubara do rapaz? Em um arroubo de fúria lançou uma bola de energia contra o bruxo e observou quieto quando esta se aproximou do loiro apenas para dissipar-se no ar antes dele fazer qualquer movimento.

- Você realmente não espera usar meus poderes contra mim, não é mesmo? - repreendeu o jovem mago, soltando um tsc e balançando o indicador em um sinal negativo de repreensão. - Tolinho. - completou em um tom de deboche.

- Não sei o que fez para voltar dos mortos Malfoy, mas desta vez eu garantirei que você permaneça lá! - gritou já sob o controle da situação e começou a disparar feitiço atrás de feitiço sobre o par ainda parado no meio do cemitério. Antes que Draco pudesse reagir a este ataque, dois braços fortes o agarraram pela cintura, o tirando da linha de tiro, e num piscar de olhos o loiro viu-se agachado atrás de uma enorme estátua com um Potter ao seu lado que o mirava como se estivesse vendo um fantasma.

- Pare de me olhar com essa cara de paspalho, Potter! - esbravejou o jovem. - Eu não sou uma assombração. - e ficou ainda mais irritado quando o demônio o cutucou como se para se certificar que ele era mesmo de carne e osso.

- Mas... mas... mas eu não entendo. - disse bestamente e o bruxo rolou os olhos.

- Qual a novidade nisso? - escarneceu, mas Harry nem deu atenção para o tom de deboche dele.

- Você estava morto, tenho certeza disso, eu segurei seu corpo sem vida em meus braços. - balbuciava desconexo, achando que tudo aquilo não passava de um grande e louco sonho, ou talvez um pavoroso pesadelo no qual ele acordaria apenas para ver que Draco ainda estava morto.

- Eu morri? - perguntou o loiro confuso, encolhendo-se atrás da estátua quando um feitiço a atingiu. Ouviu Voldemort gritando ao longe, dando ordem aos seus Comensais para persegui-los, e em uma reação rápida segurou a mão de Harry e disparou com ele para a floresta que cercava a propriedade. Parecia que Potter ainda estava desnorteado diante de tudo o que aconteceu e ele não sabia dizer se era por causa da sua aparição triunfal ou pelas pancadas que deve ter recebido na cabeça. Se quisesse explicar a situação para ele, isso se conseguisse achar uma explicação, a camuflagem das árvores lhe daria tempo para isso. - Como assim eu morri? - falou, lançando Potter contra o tronco grosso de um salgueiro e usando as sombras desse para ocultar-se dos Comensais em seu encalço. Por reflexo levou a mão ao ferimento que sangrava copiosamente na testa dele, o comprimindo e tentando estancar o sangue.

- Voldemort sugou toda a sua energia e quando eu te soltei daquela pedra, você estava morto. - esclareceu, olhando ainda chocado para o rosto próximo ao seu e os adorados olhos azulados que miravam o corte em sua testa.

- Isso foi um feitiço? - indagou Draco distraído ao limpar um pouco o machucado e ver que o ataque tinha causado um corte em forma de raio perfeito na testa do demônio. - Não tenho a minha varinha para te curar e parece ter sido uma maldição que causou o estrago. Infelizmente acho que vai deixar cicatriz. Que pena Potter, isso derruba todas as teorias que eu tinha sobre você ter a cabeça mais dura que um bloco sólido de mármore. - comentou com escárnio e Harry soltou uma pequena risada. Nunca pensou que sentiria falta do humor ácido do marido.

- Você ainda não me explicou como voltou dos mortos, Malfoy! - o interrompeu exasperado. A sua cabeça rodava com milhões de pensamentos e nenhum deles se encaixava ou traziam uma justificativa plausível de seu conjugue estar gozando de saúde perfeita na sua frente. Sentira quando a sua ligação matrimonial com Draco se encerrara com a morte dele e a loucura da perda começar a atingi-lo. Como dizia a tradição, demônios arrumavam parceiros para a vida, uniam-se de corpo e alma a eles e quando esses parceiros morriam podiam sentir a perda de metade dessa alma, o que geralmente os levava a depressão ou loucura. Quase nenhum demônio sobrevivia a perda do conjugue e Potter não seria exceção.

- Eu também não sei direito... eu lembro da dor, lembro de apagar e tudo ficar escuro e lembro... - parou, franzindo as sobrancelhas e desviando seu olhar da testa ferida de Harry para os intensos olhos verdes dele. - da minha mãe. - ofegou e arregalou os olhos como se subitamente tivesse sido iluminado com a resposta sobre o significado da vida.

- O quê? O que foi? - perguntou o moreno ao ver o rapaz afastar-se aos tropeços dele.

- Quando eu era pequeno... quando a minha mãe morreu, eu estava lá. Eu lembro, eu lembro dela colocando-se na minha frente quando aqueles caçadores trouxas surgiram, lembro dela abandonando a sua forma de loba e implorando para nos deixar em paz. Lembro dela implorando pela minha vida. Lembro dos caçadores atirando nela sem piedade e ela caindo na minha frente e lembro dela me olhando nos olhos e murmurando baixo, bem baixo... dizendo... - e como se tivesse sido ontem que tudo isso acontecera, Draco repetiu as palavras de Narcissa que pareciam gravadas a ferro e fogo em sua mente. - "de agora em diante você é um bruxo, filhote. Lembre-se disso, de agora em diante você é um bruxo". Eu nunca entendi isto até agora. - completou e viu que Potter ainda estava confuso. - Minha mãe bloqueou meus poderes, Potter! - exclamou exasperado diante da lentidão do homem de compreendê-lo.

- O quê? - Harry arregalou os olhos. Havia ouvido histórias de que se poderoso, um demônio era capaz de anular os poderes de outro, mas achava que eram apenas lendas tolas, visto que tal fato nunca foi conseguido pois diziam que precisava-se de um grande sacrifício para poder bloquear a energia demoníaca alheia. Parece que o sacrifício de Narcissa para salvar o filho havia sido suficiente então.

- Potter, eu sempre soube que era meio demônio, mas depois da morte da minha mãe nunca consegui manifestar meus poderes completamente. Nunca consegui alcançar a minha outra metade. Você melhor do que ninguém sabe disso. Você nunca sentiu meu lado demoníaco, achava que eu era apenas um bruxo poderoso e mais nada e eu percebi que desde que me uni a você era como se esse lado meu estivesse despertando aos poucos, como se o bloqueio dela estivesse desfazendo-se...

- Deixa eu ver se entendi... - Harry ergueu uma mão para poder calá-lo. - Sua mãe suprimiu seu lado demoníaco para protegê-lo porque sabia que depois da morte de seus pais o único mundo que poderia abrigá-lo seria o dos bruxos, já que ninguém sabia sobre o paradeiro de Narcissa Black. A sua união comigo com certeza começou a desfazer este bloqueio porque as nossas energias se uniram então o meu poder demoníaco estava tentando alcançar o seu e trazê-lo a tona, certo? - Draco assentiu com a cabeça. - Mas isso ainda não explica... - Potter gritou exasperado. - de você ter voltado dos mortos!

- Okay, vamos ser filosóficos e dar um grande campo de estudo a aquele cara Freud, okay? - o loiro respondeu e o demônio o encarou como se estivesse prestes a enfiá-lo em uma camisa de força, prendê-lo no St. Mungus e jogar a chave fora.

- Desde quando você se interessa por psicologia trouxa...

- Isso não vem ao caso Potter. Basicamente é como se existisse dentro de mim dois Draco Malfoy. O Draco bruxo e o Draco demônio. Como o demônio estava aprisionado, o que o idiota do cara de lagartixa sugou foi a minha magia, o que fez o Draco demônio querer sair para brincar de estripar certas minhocas super desenvolvidas. - Harry engoliu uma risada diante das analogias de Draco em relação à Voldemort. - Logo o Draco bruxo foi o que morreu, e o Draco demônio assumiu seu lugar. Então... voilá! - e o mago abriu o braço largamente e apontou para si mesmo. - E cá estou. O que acha? Entendeu agora?

- Essa é a teoria mais besta que eu já... - calou-se quando viu o olhar azulado o mirar irritado. - Tanto faz, o que importa é que você está vivo. - deu um meio sorriso. - Mas agora temos um problema! - Draco grunhiu. - Voldemort ainda é meio bruxo e como tal irá usar magia para nos liquidar. Se você não é mais bruxo...

- Nunca disse que não era mais bruxo. Sinto a magia ainda dentro de mim, fraca, mas recuperando-se. Parece que Voldemort não completou todo o ritual... apenas o suficiente para deixar meu outro lado florescer.

- Florescer? Que coisa mais gay. - zombou. - E você não vai começar com uma crise de dupla personalidade agora, vai? Porque devo dizer que a idéia de que existe dois de você aí dentro... eu mal posso com um.

- Potter! Dá para você prestar atenção no que importa? Só precisamos ganhar tempo, okay? Minha magia se recupera rápido então só precisamos causar estrago suficiente para então dar o golpe final. - um feitiço zunindo perto da orelha dele interrompeu seus pensamentos e Draco olhou sobre o ombro do demônio para os Comensais que vinham na direção deles, sendo acompanhados por um colérico Lorde das Trevas.

- Ah, que pena, agora que eu ia lhe dar um beijo de boas vindas. - gracejou Potter e o loiro sorriu malicioso para ele, aproximando-se do rosto do demônio para murmurar perto dos lábios dele.

- Quando isto tudo terminar Potter, espero que você me recompense muito bem depois de todo o meu esforço de voltar do além. - completou sedutor e Harry sentiu um arrepio de antecipação percorrer o seu corpo, retribuindo o sorriso com um maior ainda.

- Quando isto tudo terminar fedelho, você vai receber o maior castigo de sua vida. - sussurrou perto do ouvido dele. - Um que envolve você acorrentando em minha cama por um mês. - e deu uma lambida na bochecha pálida antes de sair de seu esconderijo e indo para cima dos Comensais. Draco soltou um suspiro extasiado e sentiu seus pêlos todos arrepiarem diante da insinuação. Deuses, como era bom estar vivo, pensou divertido antes de correr atrás de Potter.


- Puta merda! - a exclamação pareceu tirar Remus de seu torpor e ele encarou Colin ainda ajoelhado ao seu lado com uma expressão de repreensão. O menino ainda era muito novo para ficar dizendo palavras tão chulas. No entanto ele também era novo demais para estar na guerra e aqui estava ele, com duas armas na mão e uma postura de quem não tinha nenhum medo ou pudor de usá-las. Os olhos azul bebê do garoto miravam Potter e Malfoy ao longe que acabavam de se embrenhar na mata com uma horda de Comensais, mais Voldemort, no rastro deles. - Cara isso que Malfoy fez foi irado. - disse divertido. - Mas o filho da mãe nos deixou aqui com a batata assando. - continuou e Lupin ficou meio perdido diante de tantas gírias trouxa que ele desconhecia. Colin apenas olhou para o rosto confuso do homem e apontou para as violentas batalhas ao seu redor. - Seguinte, sem corpo para proteger, agora podemos chutar alguns traseiros. Mas se o senhor vai ficar aí com essa cara de tacho tentando compreender o que aconteceu, problema é seu. Vou lá dar uma mão ao Seamus, parece que ele tá ficando sem munição. - e saiu correndo, tirando dos vários bolsos e compartimentos internos de sua calça as munições que costumava carregar.

Sacudindo a cabeça como se para se livrar do emaranhado de pensamentos, Remus pegou a sua varinha a apertando firmemente entre os dedos e erguendo-se no chão em um pulo, abrindo a boca e soltando um violento feitiço contra um enorme Comensal que vinha em sua direção e que parecia ser uma bizarra mistura de homem com réptil. Mais a frente, viu Snape duelar elegantemente contra outro seguidor do Lorde das Trevas, o derrubando com apenas três gestos de varinha, e sorriu. Severo sempre foi um exímio lutador e sabia tantos feitiços que causavam estragos que não se surpreendia que o homem não tivesse um arranhão no corpo. Além das vestes negras estarem impecáveis.

Um grito interrompeu sua observação e ele viu quando um Comensal disparou uma maldição que causou uma explosão e destruiu alguns túmulos, arremessando um grupo de trouxas e bruxos para trás e os fazendo se chocar contra lápides e estátuas praticamente em pedaços por causa da batalha. E, entre esse grupo estava um Neville que sacudia a cabeça para se recuperar do atordoamento causado pelo feitiço. Começou a correr quando viu que o bruxo transmutado ia em direção ao garoto, pegando displicente no chão uma arma largada por um trouxa e apontando para o menino. De canto de olho observou quando a postura firme de Snape ficou ainda mais tensa e os olhos negros indecisos vagavam do rapaz caído para o adversário na sua frente.

Engoliu um sorriso. Então os boatos eram verdadeiros, eles estavam tendo um caso e Severo já se mostrava um amante preocupado. Quem diria. E ele que pensava que o homem fosse incapaz de sentir algo além da amizade que tinha consigo e Lucius e o carinho que nutria por Draco. Contudo, quando percebeu, o mestre de poções tinha feito a sua decisão e desviou-se da cena, voltando ao embate com o Comensal na sua frente. Franziu as sobrancelhas ao presenciar isso e voltou os olhos para onde estava Neville apenas para ver que ele tinha dado uma rasteira no bruxo que iria atacá-lo e cortado o ar com a varinha com violência. Um lampejo azulado brotou da ponta da varinha do ex-grifinório, arremessando o Comensal longe e quando viu que este não iria levantar-se mais, o menino saiu correndo para ajudar os colegas.

Ficou surpreso, seu primeiro instinto foi ajudar o garoto que parecia precisar de socorro e por um momento ficou irritado com Snape por ter desistido de auxiliar o amante. Mas, pelo visto, quem mal julgara Neville havia sido ele. Severo não se movera porque tinha confiança de que o jovem era capaz de cuidar-se sozinho, uma prova de que ele conhecia o rapaz melhor do que muitos outros e isso, realmente, era chocante.

Um feitiço errante o atingiu pelas costas e o homem sentiu o ar ser expelido dolorosamente de seus pulmões quando caiu de cara no chão duro, arranhando o rosto com as pequenas pedrinhas escondidas entre as grama alta. Virou-se sobre o corpo para ver quem o atacara e estreitou os olhos quando o vulto de uma mulher aproximou-se dele. A lua sangrenta brilhava atrás da cabeça dela, formando uma auréola vermelha e medonha ao redor dos cabelos negros e revoltos. O rosto tinha deformações que somente anos de mutações poderiam dar e ela possuía um brilho maníaco no olhar que se assemelhava ao de Voldemort.

- Ora, ora, ora - disse em um tom arrastado, fungando o ar a sua volta. - um mestiço asqueroso. - desdenhou, apontando a varinha para o centro do peito de Remus. - Será um desprazer acabar com você. - continuou, soltando uma risada enlouquecida e o lupino rolou os olhos. O discurso, por que sempre havia um maldito discurso de superioridade antes dos finalmente? Irritado, cortou as risadas da maluca com um chute bem dado na boca do estômago dela, a fazendo se dobrar diante da dor e tossir secamente ante a dificuldade de respirar.

Em um gesto rápido pôs-se de pé e disparou um feitiço na direção da Comensal que por instinto ergueu a varinha protegendo-se do ataque. Logo um duelo brutal começou entre os dois e Remus percebeu que a cada ataque investido dele a mulher parecia ficar mais e mais fraca e a magia dela com menos intensidade do que antes. Deu um sorriso de escárnio. O demônio precisava constantemente absorver a energia de um bruxo para manter a magia circulando nas veias e tal ato causava uma instabilidade na genética da pessoa a ponto de ocorrer àquelas mutações medonhas. Sem contar que se você não tivesse nascido com a magia, não teria como mantê-la com a mesma intensidade constante depois de várias batalhas. A doida descabelada estava perdendo energia e quando tentou mais um feitiço que não passou de fagulhas jorrando da ponta de sua varinha, ela gritou, jogando o objeto inútil no chão e partindo para o ataque com as garras e os dentes afiados a mostra.

Remus recuou um passo pronto para receber o impacto que seria o corpo de Belatrix contra o seu, e quando viu a mulher aproximando-se perigosamente de si, colocou-se em posição de contra ataque. Contudo, não precisou fazer muita coisa, pois uma bola enorme de pêlos negros havia pulado sobre ela e a derrubado dolorosamente no chão. O bruxo retesou os ombros ao ouvir o barulho enervante de ossos se quebrando somados a grunhidos e rosnados e quando se deu conta, tinha um Sirius Black na sua frente todo sorrisos com aquela pose marota usual que adotava durante uma batalha. Rolou os olhos e abaixou a varinha exasperado, voltando a sua atenção para Belatrix caída que contorceu o corpo de maneira estranha para mirá-los e a mão ergueu-se num rompante, lançando uma bola de energia na direção deles.

Num impulso, Lupin jogou-se contra o peito de Sirius, o derrubando contra o chão e usando um tronco grosso e seco de árvore como escudo. Encolheu-se contra o peito do demônio quando o ataque passou zunindo por sobre suas cabeças e depois em um gesto rápido saiu detrás do tronco para lançar um feitiço que atingira em cheio o braço de Belatrix que estava erguido para lançar outra bola e o choque das energias fez a explosão decepar a mão da mulher que ganiu de dor, encolhendo-se contra o chão e abraçando o braço ferido ao peito.

Logo depois, o homem sentiu um puxão em suas vestes, o trazendo de volta para a segurança do tronco quando mais golpes e feitiços errantes começaram a circular por sobre a sua cabeça e seus orbes castanhos prenderam-se nos intensos olhos azuis de Black sob si, que parecia servir como um colchão o protegendo do solo duro. Sem contar que ele era gostosamente quente.

- Hei. - disse o demônio em um tom suave, um sorriso cálido dando uma expressão extremamente jovial ao rosto sempre marcado por uma expressão de deboche.

- Hei. - respondeu Remus, achando estranho toda aquela atitude calma do outro. Achava que Black fosse movido à adrenalina e que isto era o que dava gás as suas doideiras. - Você bateu a cabeça? - perguntou preocupado quando sentiu o braço do moreno envolver a sua cintura e apertá-lo mais contra o corpo maior sob si.

- Não foi assim que nós nos conhecemos? - indagou Sirius com uma expressão curiosa e Lupin fez uma careta.

- Na verdade quando nos conhecemos você me apagou, se lembra? Com um soco. - acusou e o demônio gargalhou, a risada que parecia um latido. Viu quando um Comensal os espreitou e num salto já estava fora do chão, trazendo Remus consigo, chutando o sujeito fortemente no peito e indo buscar refúgio nas paredes demolidas de um mausoléu, encostando-se nela e trazendo o bruxo para sentar em seu colo.

- Hum... - murmurou ao ver Remus praticamente colado contra o seu peito. - eu poderia me acostumar com isso, sabia? - o homem apenas arqueou uma sobrancelha para o outro, lançando um feitiço sobre o ombro dele para o Comensal que Black tinha atacado mais cedo e o derrubando de vez.

- Black eu não estou entendendo, você está mais pirado que o normal. Novamente pergunto, bateu com a cabeça? - e iria continuar protestando se o nariz do demônio não tivesse se alojado na curva de seu pescoço causando arrepios em todo o seu corpo. - BLACK! - esbravejou com o rosto extremamente vermelho quando sentiu uma lambida em sua bochecha e um chupão em sua nuca. - Isto não é hora para entrar no cio! - uma outra gargalhada latida fez a sua pele suja de terra e suada pelo esforço da luta vibrar e o hálito quente do demônio fazer os pêlos de sua nuca se eriçar.

- Casa comigo! - pediu Sirius, virando-se para encarar firmemente dentro dos olhos castanhos.

- Você enlouqueceu! - disse Remus ultrajado. Não acreditava que Black o estivesse provocando numa hora como aquela.

- Nunca falei tão sério em toda a minha vida. Casa comigo! - pediu. Não podia negar que se sentia atraído por aquele mestiço desde o primeiro momento que sentiu o cheiro dele no campo de batalha e colocou os olhos sobre ele. Remus era inteligente, perspicaz, forte, era o parceiro ideal para qualquer lobo sortudo, ou bruxo, o que fosse. Se não fosse o fato de ser um lobisomem atrapalhar a história. Mas era apenas uma mera inconveniência que poderia ser superada. Afinal, Harry casara-se com um bruxo que mais tarde descobriu ser um mestiço. Por que não ele também?

- Você perdeu o juízo. - bradou o mago indignado. Confessava que o pedido o envaidecia, mas também o magoava. Se Black estava fazendo aquilo apenas por brincadeira, cortaria as bolas dele fora. Crescera com a idéia de que sempre seria um homem sozinho, que o pouco que conseguira na vida fora pura sorte. O respeito de Dumbledore, a amizade de Lucius Malfoy, um bruxo puro-sangue orgulhoso que o surpreendeu ao tornar-se quase como um irmão para ele, a amizade deturpada de Snape, o carinho, mesmo que contido, de Draco. E agora vinha este demônio extremamente poderoso, e ele tinha que confessar que também era perigosamente sexy, o seduzir por semanas e agora no meio de uma decisiva batalha lhe pedir em casamento? Oras, desculpe por ele ser cético, mas esse tipo de "presente" não caía em seu colo todos os dias. Embora, pensou olhando para baixo e a posição em que estavam, quem estava no colo de quem era Remus e não Sirius.

- Acredite - murmurou em um tom assustadoramente sério. - apesar de todos os boatos sobre mim, ainda sim eu tenho um pouco de sanidade na minha mente. E se você disser não - abriu um sorriso malicioso. - eu tomarei a liberdade de te seqüestrar e levá-lo para tornar-se escravo do meu bel prazer contra a sua vontade. - não duvidava disso, pensou Lupin, erguendo-se vagarosamente do colo do homem e afastando-se lentamente dele.

- Aff - disse irritado, passando as mãos pelos cabelos castanhos e embaraçados. - Como parece que eu nunca me verei livre da sua pessoa - disse com um sorriso, estendendo a mão para ele para ajudá-lo a se levantar. - Eu caso com você peste. - Sirius retribuiu o sorriso, deixando-se ser puxado para fora do chão. - Mas na primeira gracinha - o bruxo ficou sério. - eu corto as suas bolas foras. - ameaçou, fazendo um gesto largo com a varinha em direção ao meio das pernas de Black, que engoliu em seco e encolheu-se um pouco.

Remus riu diante da reação do demônio e afastou-se dele ainda animado, retomando a batalha com essa nova sensação de leveza no coração. Draco não tinha morrido, Sirius tinha finalmente se livrado da arrogância que estava enfiada profundamente em seu... Er... Ele tinha tornado-se mais humilde, e os Comensais da Morte, agora ele percebia, pareciam estar perecendo gradualmente, sobrando apenas Voldemort para finalmente encerrar com aquele assunto.

- Hei! Remus! - Black chamou, correndo para acompanhá-lo. - Mas se você cortar as jóias da família Black fora perderá toda a diversão. - provocou e viu com prazer as bochechas do humano ficarem vermelhas e ele descontar a sua frustração no primeiro Comensal que apareceu. Parecia que Sirius ainda tinha muito que aprender sobre discrição.


O feitiço arrancou a árvore do lugar e Draco não teve nem tempo de soltar uma exclamação surpresa antes da mão de Harry fechar-se dolorosamente sobre o seu braço e puxá-lo com força. Em um salto poderoso, o loiro sentiu-se ser carregado até o topo de um galho e com destreza a sua figura ser escondida entre as folhas abundantes da copa da árvore.

- Não conseguiremos nada se continuarmos nesse jogo de esconde-esconde, Potter. - sibilou o jovem de maneira irritada, ofegando quando o demônio o abraçou pelo peito e comprimiu o corpo do bruxo contra o físico de soldado dele.

- Eu estou ganhando tempo. - respondeu Harry baixinho com seus olhos verdes cravados no solo e no grupo de Comensais que tinha acabado de entrar na clareira, todos rodeando Voldemort protetoramente enquanto este soltava ordens e ofensas na vã tentativa de provocar o casal o suficiente para tirá-los de seu esconderijo.

- Para quê? Acha que se continuarmos fugindo o cara de cobra vai cansar dessa palhaçada e bater em retirada? - Draco rebateu contrariado. Já estava ficando cansado, mesmo que a sua energia demoníaca fosse poderosa a mesma não podia viver sem a energia bruxa. E como no momento seu nível de magia estava baixo, ele estava perdendo as forças rapidamente e até recuperar-se, não teria metade da capacidade de luta que normalmente ostentava mesmo quando tinha um de seus eu's bloqueado mas ainda existente dentro de seu corpo. E Potter, que o abraçava possessivamente, estava indo pelo mesmo caminho. Não compreendia como o demônio tinha chegado a exaustão tão rápido, mas teorizava que, com certeza, com a sua suposta morte Harry havia entrado de cabeça na batalha sem pensar em nenhuma estratégia, o que o fez cometer vários erros que originaram os seus ferimentos e a sua fraqueza.

- Uma hora a magia que ele absorveu de você vai ter que esvair, como acontece com os outros...

- Não seja imbecil Potter. - o cortou violentamente e foi puxado mais contra o peito de Harry que os escondeu ainda mais entre as folhas quando um Comensal olhou distraidamente para cima achando que tinha ouvido algo. Ambos ficaram em um silêncio tenso enquanto esperavam com a respiração suspensa o desenrolar da cena abaixo deles. Quando perceberam que não haviam sido descobertos, Draco continuou. - Voldemort é um bruxo que se transformou em demônio e não o inverso. Logo, se ele roubou a minha magia a mesma vai ficar um bom tempo dentro dele já que metade de nossas origens provém da mesma raça. - Harry ficou mudo, não podendo deixar de concordar com o loiro, e tinha que confessar que no presente momento não tinha nenhuma idéia boa surgindo na cabeça.

A volta de Draco do mundo dos mortos causou um alívio imenso ao demônio dentro de si que ficou mais do que extasiado ao ver que o marido estava vivo. O problema era que agora o lobo estava concentrando-se apenas em proteger dito conjugue em vez de lutar contra o adversário. Cada ataque que vinha na direção de Malfoy incitava Potter a tirá-lo do caminho e esconder-se em vez de contra atacar e as suas desculpas para esse tipo de comportamento estavam terminando. Uma hora o jovem bruxo iria perceber o que ele estava fazendo e com certeza o rapaz ficaria possesso com a incapacidade do moreno de controlar seus instintos mais primitivos. E, no presente momento, receber um sermão de um moleque durante uma batalha decisiva era o que Harry menos queria. No entanto ele não conseguia de jeito maneira suprimir a vontade que seu corpo tinha de estar sempre perto do loiro apenas para assegurar-se que o mesmo estava realmente vivo e isto estava começando a tornar-se um problema.

- Talvez devêssemos voltar a campo aberto. Com os outros soldados para distrair os outros Comensais, Voldemort estará sozinho e isso nos dará mais chances de derrotá-lo. Sem contar que a proteção das árvores não apenas nos camufla deles como também os esconde de nós, o que deixa ambos os lados vulneráveis. - sugeriu o jovem e franziu as sobrancelhas logo em seguida quando não ouviu nenhum som ser emitido por Potter. Confuso, olhou por cima do ombro para ver que o demônio o mirava com intensidade, os olhos verdes com as pupilas dilatadas e um brilho feral. Draco fez uma expressão pensativa, já tendo visto aquela cena antes na noite anterior ao ataque de Londres quando ele foi seqüestrado. - Potter, o que você acha? - disse em um tom firme e o moreno piscou um pouco antes de encarar o mago diretamente.

- Acho uma boa idéia. - falou com a voz distante e cuidadosamente Malfoy virou-se sobre o galho para assim encarar melhor o outro homem.

- Potter, se você vai ter um treco agora, melhor voltar para a sua matilha e bater em retirada que eu cuido do resto... - advertiu em tom firme e o aperto em seu braço intensificou-se, assim como o brilho nos orbes verdes. Que bela hora o demônio tinha escolhido para dar defeito, pensou o loiro contrariado.

- Não, eu estou bem. - respondeu firmemente, engolindo em seco e mirou o loiro intensamente, vendo o mesmo brilho nos olhos azulados que ele costumava ter em seus olhos. Draco não era apenas um bruxo, ele também era um demônio e extremamente poderoso. Era herdeiro de duas grandes famílias que estavam no topo da hierarquia de dois grandes povos. Durante anos, antes mesmo de se unirem, o rapaz soube cuidar de si próprio, com ou sem Harry para protegê-lo. Foi nomeado líder ainda novo, Potter teve uma visão quando o menino ainda tinha oito anos de todos os feitos que ele faria quando ascendesse ao poder. E, o olhando agora na sua frente com as costas eretas, o queixo travado em uma expressão decidida e as sobrancelhas franzidas de seriedade o demônio conseguia ver pela primeira vez que o menino que ele conheceu, o adolescente que ele desposou, agora era um homem crescido e maduro. Sorriu levemente. Pena, agora não podia mais chamar Malfoy de criança.

- Tá rindo do quê? - Draco rebateu petulante e o sorriso de Harry alargou. Corrigindo, não poderia mais sempre chamar Malfoy de criança.

- Estou pensando em quanto tempo você leva para voltar ao cemitério e desviar dos feitiços. Vamos ver o quanto você corre... filhote. - provocou e com um salto desceu do galho, chamando a atenção de Voldemort e seus seguidores e antes de pousar no chão transformou-se em um lobo negro que com um olhar de desafio e um sorriso de escárnio saiu em disparada de volta ao cemitério. Segundos depois um lobo branco tocara o chão, seguindo o primeiro lupino de perto e a toda velocidade, gargalhando mentalmente quando via os mutantes das trevas tentarem acertá-los e errando vergonhosamente.

Os dois demônios retornaram ao campo de batalha apenas para verem que a mesma ainda estava feroz e sangrenta. Harry quase riu quando viu Sirius e Remus lutando lado a lado com Black vez ou outra protegendo Lupin com a mesma ferocidade que se protegia um parceiro. Parecia que o padrinho estava tomando algum juízo e Potter sabia, desde o primeiro momento que vira os dois homens juntos, que Black ainda engoliria o orgulho e clamaria o lobisomem para si em vez de dá-lo de mão beijada ao afilhado. Rodou os olhos verdes pelo cemitério e viu Granger com um sorriso de deboche no rosto enquanto derrubava sem piedade Comensal atrás de Comensal. Ferimentos brotavam do corpo da mulher, alguns sangrando com força, outros apenas superficiais, mas a adrenalina parecia sobrepor-se a toda e qualquer dor.

Subitamente a trouxa virou-se em sua direção, como se pudesse sentir que estava sendo observada e lhe deu um sorriso, prontamente erguendo a enorme arma em suas mãos e atirando. O som do disparo ecoou pelo lugar e a bala passou zumbindo perto do lobo negro antes do barulho do impacto dela contra uma massa sólida chegar aos ouvidos de Potter e o sangue espirrado sujar mais a grama e um corpo encapuzado cair no chão. A passos firmes e engatilhando a arma freneticamente, Hermione veio em direção ao demônio, atirando continuamente nos Comensais que saíam da clareira e tentavam capturar a forma lupina de Draco em vão.

Um clique seco soou logo depois e ela arqueou as sobrancelhas castanhas ao ver que a munição tinha acabado. Um dos Comensais que tinha parado abruptamente esperando o impacto do tiro sorriu macabro sob a meia máscara quando viu que ela não tinha mais como atacá-lo e avançou sobre a mulher com a varinha em punho. O primeiro feitiço lançado perdeu seu alvo quando em um salto Granger deu uma cambalhota invertida e no momento que se colocou novamente sobre os próprios pés chutou o rosto da criatura com força, seu coturno adaptado com pesos nas extremidades causando um grande estrago. O que se seguiu foi uma luta baseada em força física e destreza por parte da morena cada vez que desviava de um feitiço até o ponto em que o Comensal não tinha mais magia sobrando para poder atacar e recorreu ao seu lado demoníaco para fazer isto.

No primeiro pulo que a criatura deu para cima da líder trouxa a mesma levou a mão as costas, arrancando do cós da calça uma afiada faca de caça e quanto o corpo em queda aproximou-se dela, a mulher cravou a lâmina na barriga do homem que soltou um grunhido de dor e automaticamente cuspiu um punhado de sangue, afastando-se de Hermione e a olhando com olhos largos, não acreditando que uma simples humana pudesse ter feito tanto estrago a sua pessoa. As mãos grandes e escamosas seguravam o ferimento aberto em seu abdômen e que sangrava copiosamente e quanto ele cambaleou um pouco para trás, alguém lhe segurou o ombro.

- Olá! - Draco sorriu maldosamente para o Comensal e levou a mão até o pescoço dele, onde um cordão dourado brilhava contra a luz da lua sangrenta que aos poucos ia desaparecendo do céu que começava a ganhar tons cinzentos e alaranjados. - Creio que isto é meu. - e sem perdão arrancou o cordão de contas que lhe foi confiscado por um dos homens de Voldemort e que de alguma maneira tinha ido parar com aquele sujeito. Aquilo fora presente de casamento de Harry e quando voltasse a Hogwarts iria desinfetá-lo com todos os produtos conhecidos da humanidade. O Comensal ainda tentou balbuciar algo, mas com um último suspiro caiu morto no chão.

A cena seguinte foi uma que para sempre ficou registrada nos livros de história e que parecia fascinar as gerações posteriores cada vez que contos sobre a Grande Guerra eram narrados. Malfoy, Granger e Potter estavam postados lado a lado, com Draco rodando a corrente em uma das mãos, Hermione apertando o cabo de duas facas contra os dedos e com Harry estalando os dedos e aprontando as garras enquanto os primeiros raios de sol do amanhecer recaíam sobre o trio fora do usual. Voldemort acabava de despontar da floresta seguido pelo restante de seus Comensais apenas para ser cumprimentado pela visão dos três líderes que o esperava.

- Vou ser humilde e dizer que não consigo lidar com o bicho feio. - a morena falou num fôlego só, apontando para o Lorde das Trevas. - Mas os outros são meus. - e girou uma das facas nas mãos, a lançando contra o Comensal mais perto e vendo atenta a lâmina cravar-se no coração do mesmo. Isto pareceu incitar os companheiros da criatura caída que como abelhas que tiveram a colméia agitada por um intruso começaram a perseguir a jovem trouxa que correu pronta para o ataque, arrancando a faca do peito do morto e começando a travar mais uma batalha. Draco observou interessado a mulher lutar sozinha contra Comensais maiores do que ela e surpreendentemente ter vantagem sobre eles.

- Eu tenho que dizer - murmurou o loiro em deboche para o demônio ao seu lado. - a Granger é brilhante, mas que ela me dá medo, isso dá. - completou, vendo que agora soldados da líder trouxa iam ajudá-la no embate. A atenção de ambos os homens voltaram-se para Voldemort que agora se encontrava sozinho e simultaneamente eles sorriram em escárnio.

- Agora, somos somente nós e você. - Potter sibilou, assumindo uma pose de ataque e mais do que depressa o Lorde das Trevas ergueu a varinha.

- Jovem Harry... - disse o homem em tom calmo. - não conseguiu me derrotar antes, o que o faz pensar que vai conseguir agora? - provocou e uma risada chegou aos ouvidos do mestiço.

- Isso porque ele não tinha a mim ao lado dele antes. - Draco respondeu, segurando a corrente com as duas mãos e a esticando em frente ao corpo. - E você ainda está me devendo pelos cortes, aprisionamento e seqüestro. - murmurou, os olhos cinzentos novamente ganhando um tom prata e por um breve momento os três ficaram parados apenas esperando o outro agir. Harry movimentou o pé, ajustando o equilíbrio do corpo e em um piscar de olhos tomou impulso, partindo para o ataque em um pulo. Prevendo a investida, Voldemort lançou um feitiço cortante do qual o demônio desviou-se em pleno ar, dando uma cambalhota sobre o bruxo e caindo as costas dele.

O Lorde das Trevas ouviu algo estalar no ar e sentiu logo em seguida a corrente de Draco envolver seu pescoço. A investida de Potter apenas tinha servido para bloquear a visão do homem do bruxo atrás dele e que tinha partido para o ataque assim que o demônio saiu do chão. Voldemort gargalhou a sua usual risada insana e disparou uma bola de energia contra o loiro que rapidamente recolheu a sua corrente e saiu do caminho. Enquanto via que o jovem mago estava ocupado com a bola, o homem voltou-se para o outro adversário que estava prestes a retalhá-lo com suas garras. Apontou bruscamente a varinha para uma sepultura, de onde um caixão explodiu de sob a terra e voou contra Harry que prontamente fechou o punho, socando a madeira que se chocara contra o seu corpo e a destruindo em vários pedaços.

O moreno tossiu quando terra e poeira invadiram a sua boca e nariz e fez uma cara de nojo quando o cheiro de podre chegou as suas narinas. Rapidamente sacudiu-se para retirar os pedaços do corpo praticamente decomposto de sobre si e voltou à atenção rapidamente ao bruxo das trevas que já lançava outro feitiço sobre ele. O jorro de luz vermelha veio num sopro em sua direção e ele assustou-se quando um alto estalo ecoou no cemitério e a arma de Draco pareceu cortar o feitiço ao meio, causando uma enorme explosão de luzes multicor. Prontamente os três cobriram os olhos para poder bloquear a forte luz e quando esta cedeu estática foi a única coisa a sobrar no ar.

Voldemort recuperou-se mais rápido que os outros e mais uma vez ergueu a varinha para atacar Potter quando subitamente seus olhos vermelhos arregalaram-se. A risada de Draco pareceu soar de todos os pontos do terreno e Harry não conteve o riso de deboche quando viu que a peça de madeira nas mãos do bruxo estava partida ao meio e a ponta quebrada parecia estar pendurada precariamente por um tipo de fino fio vermelho.

- E agora meu caro - Malfoy zombou, postando-se ao lado de Potter e mais uma vez esticando sua corrente entre as mãos. - um bruxo sem varinha não é lá grande coisa. E você sempre foi um merda mesmo na minha opinião, então acho que não pode decair mais, não é mesmo? - Harry arqueou as sobrancelhas e rolou os olhos. Draco adorava ofender o adversário quando sentia que tinha alguma superioridade sobre o mesmo, mas ele esquecia do detalhe que Voldemort ainda tinha poderes, com ou sem varinha, e o bruxo das trevas parecia lembrar-se disso pois logo a sua expressão surpresa foi substituída por uma de escárnio.

- Não cante vitória tão cedo jovem Malfoy. Como líder deveria saber que a batalha não termina até que uma das partes esteja morta. - o homem jogou a varinha inútil no chão e ergueu uma das mãos aos céus que agora de claros estavam ficando escuros diante das nuvens negras que subitamente surgiam, tampando a luz do sol. Harry recuou um passo, sendo imitado por Draco.

- Você me disse que ele não tinha roubado seus poderes de demônio. - rosnou o moreno baixinho para o marido.

- E não roubou. - o loiro respondeu confuso.

- Até onde me consta, Malfoy, apenas demônios têm controle sobre elementos da natureza, bruxos não. - o repreendeu enquanto recuava mais ainda à medida que a energia parecia concentrar-se na palma da mão de Voldemort, com raios e mais raios que desciam sobre todo aquele campo aberto, assustando a todos que ainda lutavam ferozmente, ainda mais que as descargas não pareciam discernir entre inimigos ou aliados e atingiam sem piedade tanto Comensais, quanto membros da Ordem ou trouxas, os eliminando prontamente e deixando para trás apenas um monte de pó. Gritos começaram a serem ouvidos ao redor do cemitério, correria prontamente instalou-se junto com o pânico. Comensais fugiam assustados diante daquela demonstração de poder de seu mestre. Hermione ordenava os soldados a recolherem os feridos e procurarem abrigo seguro. Sirius, Remus e Severo faziam o mesmo com seus grupos e aos poucos os sobreviventes escondiam-se dentro de mausoléus ainda intactos ou corriam para a mansão Riddle a procura de segurança.

A poder parecia simplesmente emanar de Voldemort em ondas de choque violentas enquanto a bola de energia crescia em suas mãos, sendo alimentada pelos raios que desciam das nuvens. O bruxo ria maldosamente ao ver a expressão surpresa de seus inimigos e o fato de que os dois líderes recuavam e olhavam apreensivos para o golpe que se acumulava acima da cabeça do Lorde das Trevas.

- Alguma boa idéia? - Draco perguntou ao homem ao seu lado.

- Podemos fugir. - Harry sugeriu displicente.

- Potter... sinceramente, acho que o seu cérebro é que acabou de fugir. - o loiro rolou os olhos. - Correr não vai adiantar muito, porque se nós batermos em retirada agora esse filho da mãe vai vencer por hoje e eu estou muito a fim de acabar com tudo isso agora. Detesto deixar assuntos pendentes. Além do mais... - subitamente ele virou-se para encarar o demônio nos olhos. - Você me prometeu um mundo de paz Harry. - disse em um tom baixo. - Quando nos casamos, você me prometeu que chegaria o dia em que não precisaríamos lutar mais, nos esconder mais. - continuou seriamente, com os olhos brilhando intensamente e Potter ergueu uma mão para tocar o rosto sujo de poeira e sangue da batalha.

- Verdade, eu prometi, não prometi? E eu sempre cumpro o que prometo. - disse com um sorriso, acariciando a bochecha do jovem.

- E você ainda me deve uma lua-de-mel. - brincou Draco, inclinando o rosto para aproveitar ainda mais o toque do moreno e Potter gargalhou.

- Nunca pensei que você seria do tipo romântico Malfoy. - gracejou e o loiro deu um sorriso para ele, um raro sorriso que não estava carregado de deboche ou superioridade e Harry sentiu o coração dar um pulo.

- Não sou... mas tenho os meus momentos. - suspirou quando sentiu os lábios do demônio roçando contra os seus. Sabia que este não era o melhor momento para conversas sentimentais, sabia que o diálogo deles parecia mais uma despedida, mas mesmo assim sentia que tinha que dizer tudo o que estava guardado em seu peito neste momento ou poderia não haver outra chance para isso. - Eu amo você Harry. - murmurou baixinho, com o rosto rubro diante da confissão, e Harry riu.

- Eu também te amo seu moleque arrogante. - brincou e voltou o olhar para Voldemort que parecia agora ser constituído simplesmente de energia e a visão dele parado ao longe sendo rodeado por tanto poder trouxe a tona a lembrança da premonição que Harry teve, a premonição que começou toda essa história e a sensação que tinha cada vez que era assolado por uma de suas visões do bruxo o invadiu por completo. Sabia desde o começo que o Lorde das Trevas tinha alguma carta guardada na manga e que mesmo diante de todos os milagres que ocorreram naquele dia - leia-se a morte e o retorno de Draco - que o desfecho da batalha não seria nada fácil e que dito inimigo não era uma ameaça insignificante. Afinal, ele tinha conseguido o impensável:

Ele unira trouxas, demônios e bruxos e os transformou em um povo só, lutando com um objetivo em comum e contra um inimigo em comum. Talvez era disso que eles precisavam todo esse tempo, uma Grande Guerra para finalmente acabar com a Guerra. E o irônico era que Harry sentia que quando tudo isso finalmente acabasse, a tão querida paz seria um sonho que aos poucos tornaria-se realidade. Mas será que eles sobreviveriam para poder vivê-la. Com um suspiro, voltou seus orbes verdes e encarou os cinzentos de Draco, tão confiante em seus braços.

- Eu não tenho poder o suficiente para derrotá-lo. - admitiu. Era um demônio centenário, ficara poderoso com os anos de evolução, mas o que ele levou séculos para conseguir Voldemort fez em apenas alguns anos ao absorver a energia de vários demônios e com certeza bruxos. Somado com a magia de Malfoy, sentia que seus poderes não eram o bastante.

- Você tem a mim. - declarou o loiro firme e Potter franziu as sobrancelhas. - Somos um só Potter, no momento que casamos em diante nos tornamos um só. Meu poder é o seu poder... - afastou-se dele lentamente, estendendo-lhe a mão e hesitante Harry a segurou fortemente.

- Não posso sugar seu poder... isso pode matá-lo de vez. - disse alarmado. Não iria simplesmente sacrificar seu conjugue, de novo, apenas para derrotar Voldemort. Se fosse assim, que deixasse o biruta com cara de cobra vagando pelo mundo e eles o eliminariam outro dia. Contudo, as quatro palavras seguintes que Draco disse, sussurradas ao pé de seu ouvido, pareceram afogar toda a sua insegurança.

- Eu confio em você. - falou, apertando mais a mão dele com força e com o braço livre abraçando Potter pela cintura, enterrando o rosto na curva do pescoço dele. Harry virou-se para encarar Voldemort que parecia rir de escárnio diante da cena que presenciava entre os dois homens.

- Despedindo-se tão cedo jovem Potter? - disse em um sibilo, franzindo a testa quando o moreno ergueu as mãos aos céus, imitando a sua posição e começou a conjurar uma bola de energia de proporções tão gigantescas quanto à do Lorde das Trevas. Os olhos claros olharam a sua volta, vendo ao longe as pessoas que se escondiam e procuravam abrigo. Sua atenção recaiu-se sobre Sirius que abraçava Remus contra o peito, pois esse parecia querer correr para auxiliá-los, mesmo sabendo que não seria de grande ajuda. Viu Hermione sendo amparada por Colin e Seamus e com uma expressão confiante no rosto acenar a cabeça para ele, dizendo que ele conseguiria. Viu a sua matilha sendo auxiliada pelos mesmos bruxos que desprezavam ou protegendo os mesmos trouxas que consideravam inferior.

Seu olhar desceu para a cabeça loira que se escondia em seu pescoço e o jovem que o abraçava fortemente e cuja pele clara brilhava em um tom prata que corria ao longo dos membros do rapaz e chegava ao corpo de Harry que absorvia a energia automaticamente, aumentando o seu ataque. Sabia que o encontro dos dois golpes seria desastroso e como em um passe de mágica um campo de força púrpura rodeou os três combatentes e quando esse tocou o chão pareceu que foi o sinal para que os dois poderes fossem liberados.

Disparando raios para todos os lados e iluminando intensamente a escuridão que as nuvens negras causaram, os dois golpes chocaram-se no meio do caminho, o seu encontro causando uma explosão que pareceu assemelhar-se ao de uma bomba atômica contida precariamente pelo campo de força que tremulava fracamente nas bases tentando prender a energia e evitar um desastre total. A luz engolfou a redoma púrpura, impedindo que os espectadores observassem o desfecho do ataque e apreensivos, bruxos, demônios e trouxas cravaram seus olhos no centro do cemitério onde por um minuto tudo o que havia era um campo de força sendo preenchido por luz e energia.

Incontáveis horas na opinião de todos os observadores se passaram quando finalmente aos poucos a redoma foi se desfazendo, já cansada de tentar suportar tanto poder, e a luz foi dissipando. A poeira levantada ainda criou uma névoa densa e familiar por mais torturantes minutos antes de finalmente abaixar e deixar à vista as três figuras no meio do cemitério. Harry com o braço erguido em frente ao corpo e cuja pele ferida apresentava feias queimaduras ofegava pesadamente enquanto abraçava Draco fortemente, ainda agarrando em sua cintura e escondendo o rosto no peito largo do demônio. Do outro lado do campo, Voldemort estava ereto e triunfante, com um sorriso vitorioso no rosto que fez todos prenderem a respiração e sentirem o pesar da derrota os assolar.

No entanto, quando Potter abaixou o braço machucado e trocou o peso sobre os pés, incitando Malfoy a erguer-se também e virar a cabeça lentamente em direção ao bruxo das trevas, os expectadores viram surpresos quando o sorriso sumiu do rosto de Voldemort e os olhos do mesmo ficaram injetados antes dele abrir a boca e nenhum som sair da mesma. Como se empurrado pelo vento, o mestiço caiu em um baque no chão com ferimentos rapidamente abrindo-se ao longo do corpo e a expressão surpresa marcada em seu rosto eternamente. Aos poucos a pele acinzentada foi apodrecendo de maneira assustadoramente rápida até que tudo o que sobrou foram cinzas varridas pela brisa que correu o campo de batalha, afastando as nuvens e deixando finalmente o sol iluminar aquela manhã que parecia ser mais do que promissora.

Continua...