Epílogo

Os Senhores da Guerra

O sol terminava de nascer por detrás dos montes, emitindo raios alaranjados que refletiam a sua luz através das gotas do orvalho sobre as folhas e gerando um prisma de cores que pareciam complementar o belo cenário que se apresentava em frente aos olhos castanhos. Os campos verdes estendiam-se até o horizonte e a brisa fria ainda com resquícios da noite balançava a grama rasteira em um lento vai e vem. A mulher esticou a perna em frente ao corpo, apoiando as palmas das mãos no chão e inclinando o tronco para trás enquanto contemplava a paisagem. Os pássaros que acabavam de sair dos ninhos cantarolavam cumprimentando o novo dia e voavam em disparada pelos céus alheios ao mundo a sua volta.

O barulho de grama sendo amassada contra a terra chegou aos ouvidos da morena que se ergueu um pouco mais para poder ver de onde provinha o som. Ao pé do monte a silhueta de um intruso deixava-se a mostra e mais do que depressa a mulher pôs-se de pé apreensiva. Aos poucos, o seu misterioso companheiro foi se revelando à medida que ia subindo o monte e as sobrancelhas castanhas da jovem franziram em uma expressão curiosa quando ela viu o pequeno animal aproximar-se hesitante dela.

O filhote de lobo de pelagem cinzenta chegou ao topo do monte e olhou apreensivo para a mulher que estava sobre o mesmo, com os braços cruzados sobre o peito e com as sobrancelhas arqueadas. Os olhos bicolores pareciam desconfiados e lentamente ele aproximou-se da estranha, lhe cheirando as pontas dos sapatos e depois se afastou sem desviar o olhar dela. Hermione apenas deu um meio sorriso ao observar a criaturinha que parecia indecisa sobre como agir e descruzou os braços, colocando os punhos fechados sobre os quadris arredondados.

- Onde estão seus pais meu jovem? - foi à primeira coisa que saiu da boca dela e pôde jurar que uma expressão sapeca cruzou o focinho do pequeno lobo. Segundos depois, como resposta a sua pergunta, uma rajada de vento mais forte soprou sobre o monte e do nada surgiu à figura de Harry Potter, os cabelos negros tão longos quanto quando a mulher o conheceu e presos em uma pesada trança. Não trajava sua usual roupa de soldado e usava apenas vestes simples que consistiam de uma calça preta, uma pesada bota preta de cano longo e com várias fivelas e uma camisa vermelho sangue. O rosto continuava o mesmo de anos atrás, com o único diferencial que, agora, sob a grossa franja negra, havia uma nítida cicatriz em forma de raio adornando a testa do demônio. Reminiscência da guerra.

Os olhos verdes e intensos rodaram por todo o local a sua volta a procura de algo até que eles recaíram sobre a criaturinha peluda que agora se escondia atrás das pernas de Granger que parecia divertir-se com alguma coisa que ele desconhecia. As sobrancelhas escuras do homem franziram em desagrado e ele soltou um tsc entre dentes, estendendo um dedo em riste em direção ao filhote.

- Malfoy vai ter uma síncope quando der por sua falta... - advertiu e mal terminou de pronunciar tais palavras um estalo soou ao lado deles e a figura de Draco Malfoy acabava de aparatar sobre o monte. Ele sim tinha mudado um pouco com os anos. Perdera as expressões infantis e agora o rosto tinha o contorno firme de um homem adulto. Usava roupas parecidas com a de Harry, com a diferença de que a camisa era verde escuro e sobre a mesma havia um robe bruxo negro ricamente decorado com fios pratas. Os cabelos loiros estavam mais curtos e eram arrepiados e o rosto aristocrático era contorcido por uma expressão de desagrado. Os olhos cinzentos fizeram o mesmo percurso que os de Potter mais cedo até recaírem sobre o filhote escondido atrás de Hermione.

- Aidan... - sibilou o bruxo entre dentes e Granger sentiu um leve calor transpassar o tecido de sua calça e tocar a pele de sua perna e prontamente olhou por cima do ombro para ver que, agora, atrás de si, não havia mais um lobo cinzento, mas sim um garotinho com uma expressão culpada no rosto arredondado. Ele tinha cabelos de uma cor curiosa: eram negros e com várias mechas brancas. Sua pele era morena e seus olhos um era verde e outro era azul metálico. Deveria ter no máximo cinco anos em contagem humana e estranhamente usava vestes bruxas.

Se Hermione não soubesse a história por detrás daquela criança diria que ele era uma fusão perfeita entre Draco e Harry, como se os dois tivessem gerado o menino como muitos tolamente acreditavam, ainda mais quando Malfoy gostava de zombar de criaturas ignorantes dizendo que ele tinha dado a luz ao pequeno Aidan. Claro que isso não era verdade, pois não havia magia suficiente no mundo que pudesse mudar a lei da natureza, mas que mesmo assim por um breve momento a pessoa chegava a acreditar na história, isso acontecia.

Pelo que sabia Aidan era, como muitas outras crianças que conheceu durante os anos, um órfão de guerra. Os pais foram dos lobos da matilha de Potter que morreram em batalha e deixaram o único filho ainda recém nascido para trás. E como mandava as leis dos demônios, crianças sem família eram levadas ao líder para este decidir o destino delas. Geralmente o que Potter fazia era re-alocar a criança e dar-lhes novos pais adotivos, mas por algum imprevisto o homem levou um certo tempo para conseguir arrumar um casal durante o pós-guerra para poder responsabilizar-se pelo filhote. Durante esse período o bebê ficou sob os cuidados de Harry e, surpreendentemente, Draco, e quando chegou à hora de entregá-lo aos novos pais Malfoy relutou muito em fazer isso.

No fim ao ver como o parceiro tinha afeiçoado-se a criança de maneira espantosamente rápida, Potter decidiu que adotaria o filhote órfão. O que havia provado ser lucrativo, pois agora a linhagem Malfoy-Potter não mais terminaria nos dois líderes. E Granger ao saber disso confessava que levou muito tempo mesmo para conseguir assimilar os dois homens tão orgulhosos, tão teimosos, como pais. E ela ainda se surpreendia em como a cada dia o pequenino saía-se mais parecido com seus guardiões do que com seus progenitores.

- Ele fugiu de você de novo Malfoy? - Harry provocou com um sorriso sábio no rosto e Draco o fuzilou com o olhar. Não tinha culpa se o filhote tinha aprendido a usar seus poderes demoníacos para se teleportar ainda em tão tenra idade. E tinha menos culpa ainda se as inúteis barreiras de Hogwarts não conseguiam bloquear a energia do menino.

- Dobre a língua antes de falar de mim, Potter. Da última vez que ele ficou sob seus cuidados - falou furioso, apontando um dedo em riste para a criança que observava com olhos largos seus pais discutindo. Um sorriso surgiu no rosto infantil e Hermione percebeu prontamente o quanto a briga do casal mais divertia o garoto do que o assustava. Instintivamente ergueu o pequenino no colo e juntos a dupla observou em silêncio mais um embate Malfoy-Potter. - o garoto se teleportou para a Nova Zelândia! - bradou e Harry ao menos teve a decência de ficar levemente vermelho.

- E então Granger - o demônio voltou-se para a mulher, mudando claramente de assunto e ignorando qualquer outro ataque de fúria do marido. - como anda a vida? Ainda junto com o Weasley? - perguntou com um sorriso polido e dispensando o bufo irritado que Draco soltou ao seu lado com um aceno de mão. Aidan automaticamente estendeu os braços para Harry pedindo colo e o demônio nem pensou duas vezes ao recolher o menino e apoiá-lo em sua cintura, sem desviar o olhar do rosto mais maduro de Hermione.

- Ron está bem. - explicou a mulher e esperou pacientemente para o que viria a seguir.

- Não sei o que você viu nele. - debochou Draco. Ao final da Grande Guerra os três povos finalmente resolveram assinar um Tratado de Paz que levou dias para ser elaborado. Territórios foram divididos, leis para convivência mútua criadas e uma cláusula sobre cooperação para recuperar os danos pós-guerra foi implantada. Afinal, a morte de Voldemort não fez o dia seguinte amanhecer com flores e perfeito. Ainda havia muitas pontas soltas a serem atadas, muitos Comensais fugitivos a serem capturados, Dementadores a serem aprisionados e desaparecimentos a serem investigados, além da contagem de baixas. Os três anos seguintes à guerra foram agitados. E foi nesse período que Ronald Weasley conheceu a famigerada líder dos trouxas e caiu de amores.

O bruxo havia sido designado para fazer parte da equipe que auxiliaria os trouxas nas reconstruções das cidades e isso o fez conviver constantemente na presença de Granger. O problema era que Malfoy não compreendia como é que a mulher tinha conseguido se apaixonar pelo ruivo. Ele não era fisicamente atraente, não era lá muito inteligente e sinceramente tinha um temperamento horrível. Fora toda aquela lealdade grifinória que lhe dava náuseas. E, claro, ainda havia o fato de que o homem era seis anos mais novo que a mulher. Era uma diferença de idade razoável que poderia causar problemas em qualquer relação. Claro que ele era suspeito a comentar sobre isso visto que estava casado com um homem séculos mais velho, mas ainda sim, na sua opinião, Granger merecia coisa melhor.

- O que eu vi nele apenas interessa a mim Malfoy, então não vamos entrar em velhas discussões agora, não foi para isso que eu os chamei aqui. - declarou, adquirindo uma postura séria e prontamente incorporando a líder que ficou mundialmente conhecida. Harry estreitou os olhos ao ver a expressão da mulher e apertou ainda mais Aidan contra o corpo enquanto Draco cruzava os braços em um gesto tenso. - Há rumores de um conflito eclodindo ao norte da China que tem como pivô bruxos e trouxas...

- Sinceramente Granger, você não sabe controlar os seus? - desdenhou Malfoy.

- E você Malfoy? Não sabe controlar os seus? - rebateu sabiamente e Potter rolou os olhos.

- Certo crianças, se separem ou então colocarei os dois de castigo e não poderão brincar na caixinha de areia. - advertiu e Hermione lançou um longo olhar ao demônio. Desde que se tornara pai, Potter costumava usar muitas analogias infantis durante as suas conversas e a mulher tinha que admitir que isso era cômico. Não mais do que os longos papos do Malfoy sobre fraldas e mamadeiras. Discretamente ela deu um sorriso para Aidan cujos olhos bicolores a miraram espertamente como se soubesse o que ela estava pensando. Dois grandes combatentes haviam sido reduzidos a dois corações moles por causa de um menino.

- De qualquer maneira suspeito que os demônios estejam começando a entrar no conflito, pois essa briga está ameaçando o território deles. - continuou Granger e Draco soltou um grunhido.

- Dejá vu. - murmurou o loiro com escárnio. - E o que você quer que a gente faça?

- O de sempre. - a morena deu de ombros. - Dêem as caras lá, ameacem uma meia dúzia de otários e diga que se eles ao menos cogitarem a idéia de começarem uma guerra eu corto as bolas de todo mundo fora. - falou seriamente e ambos os homens arquearam as sobrancelhas para ela. Nos últimos seis anos desde o fim da guerra pequenos embates surgiram aqui e acolá ao redor do mundo, ameaçando os acordos de paz. Parecia que nem todos haviam sido avisados sobre o que tinha acontecido na Inglaterra e se foram, pareciam ignorar completamente o assunto. Muitas foram as vezes que o trio teve que viajar para uma zona de conflito e negociar com os líderes locais sobre o desfecho das batalhas. Muitas foram as vezes que receberam um não na cara e assim como muitas foram as vezes que os teimosos sentiram a ira dos três comandantes e assim o recado era devidamente dado.

Afinal, uma coisa era lidar com uma Granger, Malfoy ou Potter individualmente. Outra era lidar com os três juntos, lutando lado a lado. Eles eram como uma força da natureza. Indomáveis, poderosos e para serem indubitavelmente respeitados. Eles eram verdadeiros líderes, aqueles cujos nomes ficavam destacados e impressos pela eternidade em livros de história, cujas lendas seriam contadas mesmo depois de suas mortes e cuja fama os faziam serem temidos.

- Granger, - interrompeu o bruxo. - eu já lhe disse que você me dá medo? - completou seriamente e Hermione deu um meio sorriso.

- Eu sei. - disse petulante, dando de ombros e jogando os longos cabelos castanhos sobre eles. - Nos vemos por aí? - continuou em tom cordial.

- Nos vemos por aí. - respondeu Harry com um meio sorriso, observando silenciosamente a mulher descer o monte altiva e confiante e minutos depois subir no jipe estacionado na planície logo abaixo deles, ligando o motor e despedindo-se com um aceno de mão antes de sumir ao longo da estrada de terra.

- Acho que exercemos uma má influência sobre ela. - Malfoy comentou e Potter riu, passando Aidan para os braços dele.

- Vê se não o deixa fugir de novo. - advertiu em um tom divertido apenas para ver a expressão de Draco fechar-se contrariada e ele fazer um biquinho.

- Está contestando a minha capacidade de cuidar do meu próprio filho Potter? Porque se for você pode...

- Draco. - disse o demônio calmamente.

- O quê? - respondeu atravessado.

- Cala a boca. - ordenou e capturou os lábios vermelhos em um beijo longo e apaixonado. Aidan cobriu os olhos com as mãos ao ver a cena, soltando risadinhas enquanto espiava por entre os dedos os pais namorando. Minutos depois Harry se afastou, dando um sorriso triunfante ao ver o rosto rubro do marido, os olhos brilhantes e a respiração ofegante. - Te vejo em casa. - despediu-se com uma risada e sumiu em uma rajada de vento. Quando finalmente Draco recuperou-se e percebeu a jogada do moreno para fugir de uma discussão, seu rosto mais uma vez fechou-se em uma expressão desgostosa.

- Você não pode se safar sempre com um beijo Potter! - gritou para o vazio e lançou um olhar contrariado ao menino em seus braços que ria marotamente. - Você se diverte com as peripécias do seu pai, não se diverte? - Aidan apenas fez que sim com a cabeça e o loiro rolou os olhos. - Claro, todos adoram ver Draco Malfoy sofrer... ninguém me ama, ninguém me quer. - resmungou baixinho enquanto descia calmamente o monte e o filhote o abraçou fortemente pelo pescoço.

- Eu amo você papai. - disse com sua voz infantil e suave e o loiro sorriu, acariciando os cabelos coloridos da criança suavemente.

- O quanto você ama o seu papai? - perguntou seriamente.

- Muito, muito, muito. - respondeu o menino em tom enfático.

- O suficiente para me ajudar a pregar uma peça no seu pai? - continuou com um sorriso malicioso nos lábios que prontamente foi espelhado pelo menino que acenou positivamente com a cabeça. - Esse é o meu garoto. - disse em um tom orgulhoso e num estalo desaparatou com o filho, deixando para trás apenas o sol que terminava de ascender aos céus que iluminava com mais intensidade aquele campo verde perturbado apenas pela brisa fria e o canto dos passarinhos que foram as únicas testemunhas daquele encontro e que talvez ainda fossem presenciar vários outros ao longo dos anos. Enquanto houvesse alguém ameaçando a paz tão duramente conquistada, ainda haveria aqueles que agora lutariam ferozmente para defendê-la. Enquanto houvesse Os Lendários Senhores da Guerra, tudo estaria bem.

Fim

NA: Soem os trompetes... eu consegui. Creio que essa foi a fic slash mais longa que eu escrevi no momento de HD, assim como a minha primeira AU no universo HP. Esse epílogo foi apenas para dar um desfecho à história e espero que tenham gostado da mesma. Eu adorei escrevê-la e como não costumo colocar notas de autora, achei que deveria abrir uma exceção e agradecer a todos que acompanharam a fic e esperaram pacientemente pelas demoradas atualizações. Muito obrigada e até a próxima.

Daphne