Capitulo 5- Metamorfose

Ouviam-se canecas a chocar e gargalhadas por todo o local. James pousou a sua e limpou a espuma que tinha ficado no queixo da barba por fazer.

-Conta-me tudo James, não imaginas as saudades que uma pessoa tem de Hogwarts e só quando se sai de lá é que se entende como aquele castelo é único.

-Está tudo na mesma – disse com um leve encolher de ombros.

-Então os Marotos não andam a fazer o seu trabalho.

James sorriu.

-Não te preocupes Fabian, nós continuamos com um record imbatível de detenções.

-Apenas detenções?

-Também de partidas e malabarismo a fugir do Filch, raparigas...

-Mesmo? Bem essa parte não conta porque só tu é que és um mulherengo do pior que há. – ele bebeu um gole. "É difícil ser-se um mulherengo quando se fecha os olhos e se vê a mesma rapariga em todo o lado" – interessante... e essa rapariga seria ruiva e de olhos verdes?

-Fabian... um rapaz merece ter os seus pensamentos em privado não?

O outro encolheu os ombros.

- Se for esperto o suficiente para o conseguir fazer, claro que sim. – James girou a varinha nas mãos. – Muito bem, entendi a mensagem.

-O Sirius tirou-me o posto, o garanhão insuportável. Parece que descobriu os encantos femininos e maravilhou-se de tal forma, que está imparável.

-Não acredito que estou a ouvir James Potter admitir que está a ser ultrapassado.

-Não estou a ser ultrapassado... estou a fazer uma pausa.

-Ai sim? E porquê? – perguntou o ruivo com descaso.

-Estou a dar um avanço ao Sirius – disse com um sorriso de orelha a orelha. " ou demasiado ocupado a pensar em quem não me quer"

- Eu percebo. A ruiva é uma mulher como há poucas.

James acenou concordando.

-Mas é um bocadinho teimosa.

-Ela só agora começou a conhecer James Potter. – disse com uma piscadela.

-Há um ano que ela tem essa oportunidade maravilhosa – Fabian engasgou-se com a cerveja – mas não quer aproveitar. Ela continua triste...e eu não sei porquê.

-Muito triste? Como assim?

-Está melhor do que quando a vi na estação. Abraçada a Remus como se fosse uma tabua de salvação... agora está focada nos estudos, estamos a criar um clube de duelos e ela está empenhadíssima. Esporadicamente há pequenas coisas, no dia a dia sabes? Quase que parece que é ela de novo, uma aula particularmente boa ou um professor que a elogia, o seu prato favorito e particularmente quando implica comigo...mas no fundo eu sei que o que a afetou foi muito sério. Eu sinto falta daquele sorriso maravilhoso...

Só então parou e percebeu que estivera a discorrer sobre a ruiva sem parar e sentiu-se respirar, como se tivesse tudo aquilo preso dentro de si. Olhou para Fabian quando não o ouviu falar. Os olhos azuis eram sérios, mas James viu o pequeno sorriso triste no canto dos lábios.

- Sou um idiota . Não ligues – disse-lhe arranjando o cabelo.

-É bom saber que há alguém tão atento a ela.

-Não sou o único. O Remus, Alice, Ana e Marlene não a largam... eu só posso ver de fora...ela não permite que mais ninguém se aproxime. Ela não acredita em mim, acha que sou...

-Um mulherengo, arrogante convencido?

-Isso. Tiraste-me as palavras da boca. Eu não sou isso tudo. Quer dizer talvez um bocadinho disto e daquilo, mas ela realmente criou uma imagem perversa de mim.

-Ela criou a imagem que quis.

-Mas com todas as pessoas é o contrario. Ela acredita sempre no melhor de todos. Até com Belatrix, até com a condição da Ana...Porque não comigo?

-Se calhar não quer ver...talvez tenhas de a obrigar a distinguir o que é real do que não é.

-Achas...achas que a Lily gosta de mulheres? – ele pousou a caneca com um pouco de força demais, chocado consigo próprio e a possibilidade que criara – não...não que eu seja contra, mas isso não pode ser verdade ou pode?

-Vocês são piores que alcoviteiras e tem cuidado com o que dizes da minha amiga Potter, é assim que os boatos começam. Eu GARANTO-TE que a minha amiga gosta de homens !

-Alice!

Fabian abraçou-a num instante, matando as saudades num espetáculo que lhe poderia dar náuseas não fosse James até achar que os dois eram um casal "aceitável". Fabian arranjou uma cadeira para Alice e os três conversaram sobre amenidades. Não pode deixar de reparar na linguagem corporal dos dois. Fabian era o típico rapaz que James iria troçar, tamanho era o mel entre os dois. Como é que alguém tão novo se podia comportar assim?

Os sintomas estavam todos lá: só tinham olhos um para o outro, os corpos esbarravam-se sem querer até ele agarrar decididamente a mão de Alice, os pequenos sorrisos cúmplices e até os suspirou sincronizados. Começou a sentir-se mal, fisicamente e meio tonto também.

A inveja fazia isso com as pessoas.

Todos os flirts que tivera, com nenhum existira aquilo e uma parte dele desejou saber o que isso era, aquela felicidade que quase os fazia flutuar e em que estavam os dois envoltos quase como se ele não existisse.

- Sabes James ...não é muito diferente do que me estavas a contar à pouco.

-Fabian...que mania irritante!

-Do que estavam a falar? Não era da minha amiga era?

-Os cavalheiros têm os seus segredos, meu amor...

-Sei ...mas ela anda verdadeiramente mal humorada. Se bem que prefiro vê-la a ter um ataque de histerismo com o James do que com aqueles silêncios constantes.

-No fundo tudo o que eu faço é para o bem coletivo. Eu vou andando, foi mesmo bom ver-te Fabian. Encontro-vos mais tarde, vou deixar-vos a enjoar o dia das restantes pessoas à nossa volta e eu tenho de encontrar uma companhia para o almoço.

-A inveja mata Potter.

-É verdade, mas ainda não é crónico por isso pode ser que me safe. Até logo. Hey Sarah! – gritou para uma morena que estava a sair do Três Vassouras, aparentemente sozinha. – Queres dar uma volta?

"Parar é morrer, James e o dia ainda agora começou."

O que é que ele tinha a perder? A rapariga era agradável, belas curvas e um nariz pequeno, isso agradava-lhe. Lançou-lhe o seu melhor sorriso e passou o braço por cima dos ombros dela, encaminhando-a pela rua.

Gostava de pensar que tinha sido ele que juntara aqueles dois e parecera ter resultado. No entanto, enquanto os seus dotes de cupido não funcionavam consigo, tinha de aproveitar o que a vida lhe dava, certo?

Sara inclinou-se segredando-lhe uma proposta levemente indecente.

"Longbottom! Queres arrancar a cabeça de quem? Mckinnon cuidado com a defesa, estás a dar muito espaço. Longbottom o que se passa com esses braços hoje? Quero mais força nesses arremessos.

- Hey Prongs!

- O quê Padfoot? Não vês que estou a dar indicações? Por falar nisso, tu e o

Wood não estão a trabalhar em equipa. O que se passa? Têm que

estar à frente das ações um do outro .

- James! Lá em baixo.-Sirius apontou com um trejeito .

Só então James se apercebeu que estava alguém no campo e para sua surpresa

era Alice. Trazia consigo uma vassoura do armário do castelo e um olhar

decidido no rosto que ele nunca vira.

-Smith eu não sei o que fazes aqui, mas vestida assim só pode ser para uma coisa e

infelizmente as provas de entrada foram a semana passada.

-James...tu nunca me viste numa vassoura. Dá-me dois minutos da tua atenção.

James conhecia Alice à bastante tempo e ele nunca a vira falar assim. Ela era por

norma uma rapariga calada, que gostava de seguir as regras sem interpor muito a sua opinião. A rapariga que estava à sua frente parecia bem diferente do que ele estava acostumado a ver.

-Infelizmente eu não posso abrir uma exceção. – disse abanado a cabeça. "Para

além disso, mesmo que ela fosse razoável, não ia arriscar a tenção que iria trazer à equipa"

-Eu sei que vocês têm uma vaga para chaser.

-E seria para essa vaga que te querias candidatar? – olhou-a com ceticismo quando ela sorriu de forma determinada. – nós temos um em treinamento. "Um bosta, por sinal"

-Eu sei perfeitamente que ele não tem experiência nenhuma e é demasiado

novo e não é assim tão bom . Tu sabes que vai ser um risco pô-lo agora a jogar.

-E tu tens essa experiência? – de onde é que ela tinha tirado tanta certeza? Ela

estava certa. O chaser deles não era brilhante e estava longe de o ser – Desculpa Alice, inscreve-te depois do Natal. Prometo que voltaremos a falar sobre isto. – disse voltando a subir para a vassoura e voltando para a sua equipa – Porque estão parados? Sua cambada de preguiçosos? Todos a POSTOS !

Largou as bolas concentrando-se novamente no jogo e nos movimentos dos seus

jogadores. Sabia que dizer não a Alice não o agradava e não percebia o que se

passava pela cabeça da rapariga para que de repente desejasse um lugar na sua

equipa.

Mas a sua equipa confiava nele porque era um bom capitão e fazia

sempre o melhor para ela, nunca baseado em amizades ou interesses pessoais.

Apanhou a bola enquanto voava rapidamente para a baliza de Prewet, fez uma

finta rapidamente no ar e fez um passe certeiro para Longbottom mas de repente, algo

lhe passou à frente dos olhos voando a toda a velocidade e intercetando a bola

em pleno ar que ele tinha mandado a Frank. Que raios! Quando a sua visão se

adaptou, percebeu que o borrão era Alice que agora voava a uma velocidade

estonteante para a baliza de Fabian, fintava rapidamente Wood e arremessava

a bola e ia acertar em cheio a baliza do melhor keeper de Hogwarts, quando este

fez uma defesa impressionante no último segundo com o pé, deixando-o atónito

e surpreso.

A equipa pareceu parar no ar ao se aperceber da situação e James viu que Alice

não contava que Fabian tivesse defendido o seu grande remate. Claramente tinha

mudado os seus planos de fazer um brilharete e mostrar à equipa e mais

especificamente a James que ela era tão boa ou melhor do que dizia.

-SMITH! – berrou. Ele viu os ombros dela tremer quando ele chamou o nome dela,

virando-se rapidamente para o capitão de cabeça baixa. James viu quando a sua

vassoura e a dela ficaram lado a lado, que os seus olhos estavam rasos de água.

-James eu sei que falhei, mas eu sou capaz de melh...

-Não quero desculpas Smith! Isto é o MEU treino, eu mando no MEU treino e

ninguém faz nada no MEU treino sem a minha autorização. – disse autoritariamente

-Potter...

-Dez voltas ao campo. A CORRER! – berrou a última parte quando ela não reagiu.

Ele viu a postura mudar ao perceber o que estava implícito na ordem que lhe

dera.

- Isso quer dizer... ?

- Regra numero um : ninguém me questiona. Agora Smith. E não me faças

arrepender da minha decisão– desta vez não pode esconder o sorriso que

surgiu ao ver a reação de contentamento dela. Ela iria ser uma ótima chaser ou seeker ou o que ela quisesse ser. Onde é que ela andou este tempo todo? E como é que ele não sabia que ela tinha todo aquele potencial? – Prewet! –chamou

- Potter.

- Estás responsável por ela . Como é que uma miúda que nunca pisou um

capo de Quidditch quase marcou um golo na tua baliza? Quero dois

treinos físicos por semana, exceto os nossos. E relatórios da evolução

dela todas as semanas. – Fabian acenou com a cabeça. – Smith este é o Prewet, Prewet apresento-te Miss Smith. Agora fora do ar vocês dois.

- Hey Alice ele não é assim tão mau, apenas tem a mania que manda. –

James ouviu-o dizer enquanto os dois voavam até ao campo .

-Tu...tu sabes o meu nome...

-Acho que agora todos nós sabemos. Não é qualquer um que desafia o capitão.

- Sonorus- murmurou quando acabou de rir – eu ouvi isso Prewett! Onze voltas ao campo! –

Fabian revirou os olhos

- Sim capitão!

James tinha instaurado uma parceria entre jogadores novos e mais velhos no fim

do ano passado, que tinha resultados muitos bons.

Ele voltou-se para a restante equipa que se encontrava atónita.

-Como é possível o que acabou de acontecer? Ninguém a viu? Nem beaters, ou

chasers, nem o meu próprio keeper! Começo a pensar que tenho de trocar a

equipa toda! Vamos trabalhar, temos umas serpentes venenosas para espezinhar!

Lá em baixo no campo começaram a ouvir a voz de Alice:

-Juntos somos corajosos não há que enganar! vermelho e dourado ninguém nos

vai parar!

-Mais alto – Fabian incentivou

-Queremos a vitória alcançar! Os Gryffindor vão arrasar! – Alice cantava

enquanto corria.

Ele ainda não sabia bem como é que aquele dia tinha dado aquela reviravolta,

mas ele iria fazer de Alice uma grande jogadora. Nunca o iria admitir, mas estava

muito feliz que Alice o tivesse enfrentado e à sua teimosia.

A entrada dela na equipa mudava tudo, ela seria uma excelente chaser e ele poderia dedicar-se à posição de seeker.

James sorriu feliz. Agora que tinha uma equipa fabulosa, ninguém o ia parar."

-Onde queres almoçar?

-Qualquer sítio. A manhã fica por tua conta, à tarde eu tenho uma surpresa.

-Que tipo de surpresa? – ela disse encostando-se a Fabian

-Daquelas que não se estragam Miss Smith.

-Muito bem, eu sei aguardar...agora conta-me. Eu quero saber tudo do curso de Auror- disse pulando sobre o pescoço do ruivo.

Ainda não acreditava bem que ele estava ali, nem sabia como tinha aguentado aquelas duas semanas sem o ver, mas tinha total confiança em Fabian e alguma inveja de ele estar já a meter as mãos na massa e a treinar para ajudar a destruir Devoradores da Morte.

-O que queres saber?

-Tudo!

Ele acariciou o seu cabelo curto, agora um pouco mais comprido que lhe fazia cocegas no pescoço.

-Temos sempre o dia cheio! Treino corpo a corpo e de varinha de manhã, teoria no terreno depois do almoço e métodos de campo com o Olho Louco.

-O Olho Louco?

-É o melhor auror do departamento, tem esse nome por causa do olho de vidro – ele comentou agitado- é completamente maníaco por segurança. Faz-nos ter milhentas senhas de segurança e obriga-nos a encontrar características únicas uns nos outros.

Ele tem a sua razão, tem desparecido gente...cada vez mais.

Alice acenou com a cabeça, tinha estado suficiente atenta às noticias para reparar no mesmo.

-Vai haver uma reunião importantíssima para a semana. O Fudge vai decidir como será a utilização das maldições. Está um verdadeiro reboliço.

-Isso é tão imprudente, vai gerar uma confusão enorme numa altura em que nos devíamos estar a proteger.

Fabian acenou em acordo.

-E raparigas? Devo preparar-me para uma batalha sangrenta com uma ou outra mulher mais velha? – perguntou meio a brincar mas à procura da resposta dele.

Fabian abraçou-a com força, rodando-a no ar.

-Sabes perfeitamente que não há mulheres no curso.

-Pois sei, eu vou ser a primeira

-Não tenho duvidas disso – disse devolvendo o sorriso de orelha a orelha.

-Mas também sei – compôs o colarinho da camisa branca e olhou nos olhos azuis – pelas historias que o meu pai contou, que depois de todos esses treinos extenuantes vocês vão aos melhores bares de Londres.

Fabian coçou a cabeça com um sorriso.

-Sim, é verdade, mas eu só tenho olhos para ti . eu não olho para mais ninguém .

-Vou fingir que acredito.

-É verdade Lice...

Ela sorriu, relaxando. Sabia que ele dizia a verdade, confiava em Fabian mais do que em qualquer outra pessoa e ele não faria isso com ela. Deixou que o ruivo a beijasse daquele jeito que apenas ele sabia...

-Alice.

Ela virou-se em direção ao som de quem a tinha chamado mas foi Fabian quem falou.

-Longbottom.

-Prewett – o outro retrucou o cumprimento com um acenar de cabeça e sem expressão no rosto anguloso – Alice, a tua mãe disse-me que não estás a responder às cartas dela.

-Não estou, mas o que é que poderias ter a ver com isso Frank?

-Eu disse que tinha de estar aqui este fim de semana e ela pediu-me que te desse isto – disse mostrando o pergaminho que tinha na mão. Alice não se mexeu para o apanhar.

-E fez de ti o pombo correio?

-Eles sentem a tua falta.

-Não me deviam ter vendido à primeira oportunidade. – sentiu a mão de Fabian na sua cintura, transmitindo-lhe segurança e dizendo-lhe que estava num sitio com demasiadas pessoas para discutir aquele assunto.

Frank não pareceu abalado com o comentário, mas estava tenso ela podia perceber.

-Desculpa teres sido apanhado no meio desta situação Frank, tenho a certeza que não merecias nada disto e não vai demorar muito para arranjares a noiva que mereces. Essa pessoa não sou eu. – ele sorriu levemente e sentiu Fabian aperta-la mais contra ele – por favor não te deixes levar pelas maquinações dos meus pais. Bom dia.

-Espera Alice. Não vou embora sem entregar isto. Fazes o que quiseres com ele, isso já não me diz respeito.

Dito isto, virou costas rua a baixo sem olhar para trás. O ar elegante e reto sem o abandonar. Alice ficou a vê-lo desaparecer com o cabelo escuro a bater-lhe nos ombros e o pergaminho na mão, com um sentimento que pensou ter deixado no ano passado: pena.

" Querida Alice,

Finalmente aquele dia que nós falamos há tanto tempo chegou e eu queria ser a primeira a dar-te essa noticia. O pai de Frank, Mr. Longbottom, veio pedir a tua mão. Não é maravilhoso?

Frank é um excelente rapaz, culto, bem educado e de boas famílias vocês são perfeitos juntos.

Agora...quero que vás ter com ele, agradeças, talvez fosse bom se não fossem vistos sozinhos por causa das más línguas, a partir de agora tens de ter estas preocupações filha.

A festa de noivado será no Natal. Não quero que te preocupes com nada, eu já estou a tratar de tudo.

Quando acabares Hogwarts não tens de te preocupar com nada, não vais precisar de ser como sempre sonhaste.

Da mãe.

Alice acabou de ler a carta com uma sensação azeda na boca. Algo dentro dela se remexeu desconfortavelmente e ela sabia bem o que era, mesmo que tivesse tentado empurrar isso para longe por anos.

Sempre seguira as regras, fora a filha exemplar, fez tudo o que eles sempre quiseram, não era de admirar que aquilo lhe tenha vindo cair em cima. Frank era seu vizinho e ele sempre fora o maior cavalheiro com ela, mas fora apenas isso.

Ela engoliu em seco. Ela queria trabalhar, ela queria a sua independência...nunca ninguém lhe perguntara, mas sempre sonhara ser Auror.

-Hey Alice! Onde vais?

-Tenho de ir a um sitio – respondeu sem olhar para Marlene. Ela perceberia num instante que não estava bem.

Frank estava a sair de uma aula com Gideon Prewett e mais dois rapazes . Viu Fabian mais longe com os amigos e cumprimentou-o sem grande exaltação mas, para seu azar ele afastou-se do grupo dele para falar com ela.

-Por aqui Alice?

-É.

-Tem alguma coisa a ver com o treino de hoje?

-O treino de hoje? – repetiu abestalhada – Não

-Ótimo porque o Potter não me larga, temos de fazer de ti a melhor chaser que esta escola viu.

Ela sorriu timidamente. Entrara naquele campo de Quiddich a querer fazer algo por ela e conseguira. Porque é que sentia que isso não valera de nada? Que mesmo assim toda a gente decidia a vida dela por ela, menos ela?

-Eu preciso ir Fabian, hoje às cinco. Eu não me esqueço – disse quando viu Frank a afastar-se e teve de correr um pouco para o apanhar. – Longbottom.

Frank virou-se e o reconhecimento preencheu-lhe a expressão . ele já sabia sobre o que iria ser aquela conversa.

-Gideon dás-me uns minutos?

O gémeo de Fabian, que na opinião de Alice não tinha nada a ver com ele porque não tinha aquele sorriso magnifico e a simpatia do irmão, examinou-a de cima a baixo num olhar que ela não gostou nem um bocadinho.

-Até já.

-Podes-me chamar de Frank, ainda mais agora. – ela sentiu o peito apertado – é sobre isso que querias falar comigo?

-Sim. Vim agradecer o pedido – as palavras souberam-lhe a destrigente na boca.

-Mandaram-te dizer isso? – ela não respondeu, mantendo-se calada – Não faças essa cara. Eu percebo que não fiques muito contente. É muita informação

-É muita informação .

-Com o tempo vai ser melhor e ainda faltam dois anos até ao casamento, vamos ter muito tempo para nos conhecermos melhor.

Ela acenou com a cabeça incapaz de dizer o que fosse apenas sentindo que estava tudo errado.

Frank aproximou-se de repente enquanto ela estava perdida nos seus pensamentos. Entendendo mal o seu silencio e beijando-a quando ela menos esperava. Um beijo curto, doce e carinhoso. Ele era muito bonito, isso não podia negar.

-Assim já temos algo a que nos agarrar. Até amanhã, no treino.

Ela acenou e viu-o ir embora, mas só se conseguia sentir usada.

Passou esse dia apática e paranoica, a pensar que recebia olhares de todos os lados. Até perceber que não era paranoia, mas que a noticia do noivado de alguma forma se tinha espalhado.

Quando chegou ao campo de Quiddich toda ela fervia, era uma bomba prestes a explodir. Furiosa com a vida.

Fabian esperava-a com o seu melhor sorriso, como sempre. Ele abdicava do seu tempo para os estudos e a namorada para estar todos os dias a treina-la e a preparar-se para o jogo com os Ravenclaw que parecia que estava cada vez mais perto.

-Pronta?

Ela acenou, sem vontade de falar.

Começaram por dar umas quantas voltas ao campo, sempre com Fabian a puxar por ela, ele gostava de a ver exigir mais de si. Passaram para a vassoura e a quaffle, uma serie de demonstrações aérea até que Fabian a mandou descer até terra.

-Hoje não está a ser um bom dia pois não? Talvez fosse melhor pararmos por aqui.

Disse começando a arrumar tudo.

-Fabian, não me trates com displicência.

-Eu...hmmm... não é isso.

-Tu tens lidado comigo todos os dias. Eu tenho-te mostrado que não dou o melhor de mim?

-Eu soube do teu noivado com o Longbottom.

-Do meu noivado? – ela aproximou-se. – É isso que anda a circular Fabian? Que estou noiva de Frank Longbottom? Não é mentira nenhuma, mas desde quando é que isso põe em causa os nossos treinos? OU EU NÃO TENHO SIDO PROFISSIONAL SUFICIENTE?

Ela parou atónita depois de perceber que tinha berrado com Fabian, que era mais velho que ela e lhe devia respeito, que fizera tudo para que ela conseguisse acompanhar a equipa de Quiddich... abriu a boca para lhe pedir desculpas.

-Uau.

-Uau?

-Tu estás furiosa. Anda cá.

Puxou-a pela mão até estarem no meio do campo.

-Precisas de deitar isso tudo cá para fora. Quando estamos a treinar, precisamos de ter a mente limpa.

-O que é que queres que eu faça?

-Ninguém te vai ouvir aqui. Podes dizer tudo o que quiseres.

-É uma palermice, falar não me vai fazer sentir melhor.

-Vocês já se conheciam ? tu e o Longbottom?

-Nós estudamos na mesma escola é claro que já e ele é meu vizinho. As nossas famílias dão-se.

-Então a pequena Alice tem uma paixoneta desde pequenina? – Alice pela primeira vez olhou para ele irritada.

-Não é nada disso. O Frank sempre foi muito reservado.

-O Frank? Tratam-se pelo primeiro nome já? É normal uma vez que vão casar...talvez ele a partir de agora queira uns bónus antes do casamento.

Mesmo sabendo que ele a estava a provocar, tudo o que sentiu com o que ele disse foi raiva. Uma raiva cega enorme, avançou para ele de punho em riste mas Fabian segurou-a pelos pulsos.

-Afinal vive aí dentro alguém chateado não é Smith? Ou eu deveria dizer Longbottom?- envergonhada, ultrajada...

Ela berrou. Berrou com tudo o que tinha. No meio do campo, os ecos do seu berro voltaram para ela em ondas contínuas. Conseguia ouvir o seu próprio desespero . voltou a berrar contra Fabian e desta vez abriu os olhos para ver o pequeno sorriso nos lábios do ruivo .

-Não pares por minha causa Alice.

Ela gritou uma terceira vez querendo desaparecer da sua própria vida.

Quem é que toda a gente pensava que ela era para ter uma palavra a dizer sobre quem ela era? Nunca se sentira tão feliz como quando enfrentara James Potter naquele mesmo campo e ela queria isso de novo. Essa sensação de liberdade, de incerteza, de controlo sobre si mesma...

Ela não queria um casamento arranjado, estava farta de viver segundo as regras dos pais que ditavam como é que a sua vida era.

Ela queria mais. Queria ser independente! Queria casar com quem escolhesse, seguir uma profissão, queria ter UMA VOZ!

Fabian obrigou-a a sentar-se no chão.

-Sentes-te melhor?

-Talvez um pouco – disse com a garganta seca e áspera.

-Sabes Alice, tens muito mais valor do que tu pensas e uma enorme vontade própria. Devias deixar as pessoas saber disso.

-Eu vou tentar lembrar-me disso.

-Promete.

-O quê?

-Que não voltas a calar essa voz que tens dentro de ti.

Ela apertou a mão dele. Não queria mais calar-se. Aquela tinha sido a ultima vez. Aquele casamento não fazia sentido, nada fazia sentido.

-Tu és a noiva mais infeliz que eu alguma vez vi.

Ela finalmente riu, atirando-se para trás pensando que não poderia concordar mais com ele.

Livre, leve e solta."

Almoçaram com Marlene que vinha entusiasmada contar-lhe dos treinos brutais a que o idiota do Black a submetia.

-Acha que me vai ensinar a ser batedora! Faço isso há mais anos do que ele sequer pensa em pegar numa vassoura! "McKinnon pareces uma menina a rebater" – disse imitando um Sirius com uma voz aguçada.

-Devias dar-lhe uma lição.

-Devia não devia? Estou sempre a dizer isso a Alice mas ela diz que em vez de lhe dar uma lição devia aprender a trabalhar com aquele arrogante, autocentrado, mal educado.

-McKinnon as pessoas vão começar a achar que temos um caso.

Fabian riu ao perceber a nostalgia de toda a situação criada e cumprimentou Sirius, convidando-o para se sentar e beber algo com eles enquanto Marlene recuperava a vergonha de ter sido apanhada por Sirius a falar mal do próprio. Não demorou muito, Marlene era despachada e deitava sempre tudo para trás das costas. "o que lá vai, lá vai"

- No próximo treino nem vais perceber o que te atingiu.

-James tinha comentado algo sobre a melhor dupla de beaters mas começo a desconfiar.

-Devias vir ver o próximo jogo.

- Irei...há uma nova cheaser que talvez valha a pena conferir.

Alice piscou-lhe o olho confiante e ele apertou-a contra si, feliz de a ter junto dele.

-Ouvi dizer que James está a perder o seu lugar de conquistador.

Para surpresa de Fabian, Sirius fechou a cara. Tentou espiar-lhe a mente mas como sempre não conseguiu ou não fosse ele quem era.

Contava pelo punhado de uma mão as pessoas a quem não conseguia ler as mentes. Isso sempre o frustrara tanto como o aliviava.

-A tua namorada aprendeu com a McKinnon a ser cuscuvilheira?

-Por quem me tomas Sirius? Tenho mais o que fazer do que contar as raparigas com que dormes.

-Para além disso ia perder-se na conta. O Black é mais rodado do que..

-Ora McKinnon isso não é palavreado para uma rapariga de boas famílias.

-Quem diz a verdade a mais não é obrigado.

-Andamos a manter uma contagem?

Marlene expulsou os caracóis loiros para trás da cara "Ele é charmoso demais para o bem dele, mesmo quando não faz por isso. " Fabian sorriu inconscientemente. Quase não valia a pena ler os pensamentos de Marlene, ela em si era um livro aberto.

-Quem te dera Black, eu tenho um namorado para me satisfazer não preciso de procurar na lama.

Alice riu alto ao seu lado, Sirius acompanhou-a não se deixando afetar pelo insulto.

-Estamos muito espirituosos hoje. Guarda tudo isso para o campo Marlene .

-Só não se esqueçam que estão a jogar na mesma equipa – lembrou Alice.

-Andei a perder muita coisa em Hogwarts...

-A roda gira e o mundo anda.

-Fabian deves-me a revanche .

-De Karaoke?

-Mas é claro! Eu não me esqueci deste Verão.

-Pensei que o álcool tivesse apagado um pouco a memoria dessa noite.

-Um pouco mas nunca se esquece karaoke.

Sirius e Fabian descobriram que eram os dois amantes de karaoke. Daqueles fãs verdadeiros em que os olhos brilham quando têm um microfone na mão.

-Combinado. Estas férias de Natal.

-Falta uma eternidade. – queixou-se o moreno.

-Eu aposto um galeão em como vais levar outra coça Sirius.

Fabian deixou-os a discutir a aposta e dirigiu-se ao banheiro onde tinha visto Bellatrix entrar. Interceptou-a assim que ela saiu e quase não lhe furou um olho com a varinha porque ele já contava que ela daria luta.

-Estás a ser seguida. – disse sem demoras.

- Quem? O Regulos?

-Não. O Snape.

-Maldito intrometido.

-O que é que ele quer?

-Não sei, ele está sempre desconfiado de alguma coisa. Não devia ficar mais tempo aqui. Obrigada pelo aviso Prewet.

-Espera Bellatrix. Se estiveres em perigo, eu já te disse isso mais vezes, não hesites em chamar-nos.

-Para ter um bando de Gryffindors enxeridos em cima de mim?

-A causa...

-A causa é mais importante, eu sei. Que repetitivo.

-A Lily está preocupada contigo. Com a forma como lidas com isto.

-A Evans está sempre preocupada com todos. Ela que guarde a sua preocupação para o Potter e a Smith porque para intrometidos, como vez, já tenho o Snape.

Aqui estava a pessoa numero dois da sua lista a quem ele não conseguia ler os pensamentos, o que era altamente frustrante porque a base de comunicação dela era realmente reduzida.

Tinha sido uma verdadeira surpresa Bellatrix ser um dos guardiões, ainda mais com o poder tão especial que tinha. Era uma pena ela pensar que o mundo estava contra ela.

Fabian deitou as mãos à cabeça enquanto a via afastar-se. "e pensar que se eu e Alice não nos tivéssemos encontrado um ao outro, ela neste momento seria tão infeliz como Bellatrix"

"Alice querida,

Pareceu-nos, a mim e ao teu pai na última carta, que não estavas contente com este arranjo e que estavas na verdade a pedir que não acontecesse. Minha querida...tal não é opção. Eu e o teu pai estamos a pensar no teu futuro e com o Frank Longbottom, este estará garantido. Nunca mais tens de te preocupar na vida e esse tipo de segurança não se tem em mais lado nenhum.

És demasiado nova para entender e sabes que o nosso mundo está em grande transformação. Queremos que fiques segura e tranquila. Convida quem quiseres, estamos é claro a contar com a Marlene.

Com amor,

Não estavam interessados em ouvi-la. Mas ela devia saber, nunca estiveram...

Marlene, Ana e Lily souberam de tudo da pior maneira possível . os mexericos espalharam-se e as raparigas paravam-na no corredor para lhe dar os parabéns e dizer que tinha arranjado um bom partido e os rapazes afastavam-se, como se ela estivesse marcada. Uma vaca fora do mercado.

Marlene e Lily não tinham reagido nada bem, as perguntas sobrepuseram-se umas às outras e tinham sido as únicas a quem ela dissera veementemente, eu não quero um casamento arranjado.

Fabian parou-a no fim de um treino especialmente cansativo. Depois do treino em que ela achava que tinha perdido as estribeiras, ele tinha sido amável sem voltar a tocar no assunto. Ele e os Marotos eram os únicos rapazes que a tratavam como um ser humano normal, chegando mesmo a fazer algumas piadas sobre o assunto.

-O que foi Fabian?

-Fui abordado pelo teu...prometido.

-Não lhe chames isso.

-Muito bem...o Longbottom.

-Porque é que não gostas dele? Vocês são do mesmo ano, da mesma casa, jogam na mesma equipa. Ele é inteligente e Monitor.

-Isso tudo é suficiente para se ser uma boa pessoa?

Foi a vez dela ficar em silencio.

-Como é que aguentas?

-O quê?

-Saber que... – ele interrompeu-se abanando a cabeça – se eu um dia casar, eu vou querer que seja por amor.

Ela riu.

-A sociedade teria de ser terrivelmente diferente.

-Eu acredito que é possível. Para mim é assim: ou tudo ou nada.

"ou tudo ou nada..."

-Disseste que foste abordado por ele.

-Oh sim, acho que ele queria ter a certeza que eu só estava interessado no Quiddich. Até propôs substituir-me nesta empreitada que o Potter me deu!

-Havias de estar interessado em mais o quê? – disse corando violentamente.

-De facto, quem é que estaria interessado numa pirralha?

Fabian deu-lhe um pequeno soco no braço.

-Esta pirralha vai-te mostrar do que ela é capaz de fazer no sábado.

-Vou ficar à espera Alice..."

Acabaram o almoço e deixaram Sirius e Marlene a discutirem táticas de Quiddich enquanto James mediava (ou dizendo melhor, acrescentava achas à fogueira)

-E Gideon?

-O que tem?

-Não tens falado dele nas tuas cartas

-Temo-nos afastado. Ele é um inominável agora e está quase o tempo todo calado.

-Ele nunca foi o mais falador.

-Comigo era...talvez tenhas razão. Ele não precisava de falar para eu o perceber.

-Mas ele sempre pareceu mais tradicional. Fazia-me lembrar de mim, antes de decidir dar uma volta na minha vida.

-Estavas presa, meu amor, a viver a tua vida pela vontade dos outros. É bom ver que te libertaste de tudo isso...ainda te vou ver Ministra da Magia.

Ela revirou os olhos enquanto ria.

-Não sou a única que tem um interesse revolucionário e quer dar uma volta na politica deste país – disse passando os braços pelo pescoço de Fabian, pondo-se em bicas dos pés para tocar no nariz dele.

-Estás a convidar-me para ser o teu braço direito?

-Tu já és...o que seria de mim sem ti?

-Provavelmente a noiva de Frank Longbottom.

-Provavelmente...Às vezes tenho pena dele. De como tudo aconteceu.

-Não consigo perceber como é que ele e Gideon são tão amigos – Alice encolheu os ombros mais ocupada em acariciar o cabelo do namorado – Ele está no treino de auror comigo.

-De verdade? Isso é uma surpresa. Pensei que fosse seguir a carreira de administração do pai.

-Não te enganes, a influencia do Mr. Longbottom sente-se em todo o lado, mesmo o departamento sendo independente. Agora...vem!

-Vamos onde?

Eles estavam no fim do vilarejo, numa zona exclusiva de habitação...Alice viu Fabian abrir uma das casas com uma chave.

-Fabian o que estás a fazer?

O ruivo apenas sorriu puxando-a pela mão para dentro da casa. Alice entrou na sala ensolarada, com as cortinas brancas e o vento a passar por elas. O coração dela batia descompassado e sentiu a boca seca. Olhou maravilhada para todo o lado até os olhos baterem em Fabian, de pé, o sorriso largo posto nela, a avaliar a sua reação.

-Está a precisar de um toque feminino.

-Isto é o que penso que é?

-Se estiveres a pensar que isto é a casa que comprei para nós dois então sim, acertaste.

O seu coração ia explodir do peito, tinha a certeza. Ama-lo era pouco, para explicar o que sentia.

-Fabian ... – disse começando a desapertar os primeiros botões da blusa que trazia – eu espero que tu estejas preparado porque eu vou querer um tour na casa toda.- a blusa caiu no chão e ela achou engraçada a forma como ele a olhou.

Ele não respondeu, pegando-a ao colo e beijando-a em cima do sofá.

"Era dia do jogo dos Gryffindor contra os Ravenclaw. Alice não podia pôr em palavras o quão nervosa estava. Acordou cedo, pensou que se tivesse tempo para fazer as coisas teria tempo de se habituar à ideia de que em menos de três horas estaria em campo.

- Alice, sabia que te ia encontrar aqui. Pensei que não quisesses estar sozinha até à hora.

Alice sorriu para Lily, agradecida. Não queria estar sozinha.

-Vem! Vamos, o que queres fazer depois de dar uma coça nos Ravenclaw?

-eu acho que vou querer agradecer a Fabian ...

-Fabian é? A namorada dele sabe que lhe queres agradecer?

-Achas que ele não merece por tudo o que tem feito?

-diz-me tu. – silencio – eu acho que ele apenas tem ajudado a perceberes o que nós todas sempre soubemos que tu és capaz. E não estou a falar só de Quiddich, mas de tudo.

Lily tinha razão. Fabian aos poucos foi afinando a personalidade arisca dela que sempre estivera adormecida, debaixo das camadas da menina bem comportada.

Elas tomaram o pequeno almoço entre sorrisos, as suas amigas foram descendo e dirigindo uma palavra amável e a equipa o mesmo até os nervos se apoderarem dela e decidiu ir andando para os vestiários.

Tinha a carta dos pais no bolso e novamente aquela sensação no fundo do estomago. Maldita a hora em que comentara que estava na equipa.

"Quiddich? Porque é que uma rapariga como tu se interessaria por um jogo tão violento? O teu pai nem acredita que a sua menina possa estar sujeita a todos esses riscos. Pedimos-te que saias assim que possível..." e mais uma série de imposições que Alice não queria voltar a rever.

James entrou, relaxado mas já vestido com o uniforme. Parou ao vê-la, a mão nos cabelos desalinhados.

-Por aqui Smith? Isso é tudo nervos de principiante?

-Só um bocadinho e tu? Ainda falta tanto tempo

-A Evans não me quis dar o meu beijo de boa sorte, por isso achei melhor vir arranjar a minha sorte de outra forma.

Ela riu, imaginando a cena.

-Tiveste sorte de sair inteiro.

-Também achei, mas não lhe digas que disse isso. – ela acenou que não.

-Como é que vais fazer agora? – ele olhou para ela confuso – para arranjares a tua sorte?

-Porquê? Estás a voluntariar-te para tomar o lugar da Evans?

-Não obrigada capitão.

-Depois do jogo já ninguém me vai escorraçar.

-Acredito que não, mas até lá prefiro não ter mais a pressão dos maus olhados das quinhentas raparigas que andam a suspiram por ti pelos cantos.

-Uau! São assim tantas? Não tinha noção

Ela atirou-lhe um sapato, que falhou redondamente.

-Vem, vou mostrar-te o que costumo fazer.

Ele pôs uma musica muito barulhenta e alta a tocar.

-O QUE É ISTO? – ela tentou perguntar por cima da musica

-MÚSICA MUGGLE DO MELHOR QUE HÁ, É MÚSICA DE DISCOTECA. VEM, DANÇA-SE ASSIM...

Quando deu por si, Alice abanava os quadris e a cabeça ao som da musica, de cabeça limpa, o coração a mil, saltou e pulou com James, persuadida, os dois a rirem, perdidos naquele ritmo esquisito.

Quando James parou a música ela quase teve pena. A equipa entrou logo a seguir.

-O que estavam a fazer ? – perguntou Marlene. Estão todos vermelhos e...

-ESTAVA A MOSTRAR À SMITH O MEU RITUAL ANTES DO JOGO.

-É ANTISTRESS. UM POUCO BARULHENTO...

-Porque é que estão os dois a berrar? O Potter esteve a mostrar-te aquela musica esquisita Muggle?

Alice ficou a olhar aparvalhada, meia envergonhada e metade da equipa ficou a olhar com pena dela, todos eles com cara de "been there, done that"

James era o que ria mais, ria de se acabar por ter conseguido que ela fizesse papel de parva.

-O que foi? Resultou não foi? Acabaram-se os problemas de entrar em campo. Equipa – disse então para todos – vamos dar cabo destas aves de rapina!

-Só isso? Sem sermões? – Marlene ecoou o que todos já pensavam.

-MEXAM-SE! – ele respondeu-lhe com um sorriso

-Alice... – o capitão voltou a chama-la quando a equipa começava a dispersar. – não fiques nervosa, eu nunca aposto no cavalo errado.

-E o cavalo sou eu? – ela perguntou dividida entre sentir-se elogiada ou insultada

-Calma, Cavalinho ... – disse passando a mão nos cabelos dela e virando-se para entrar em campo.

-Potter?

-Sim?

-Tu tens um ritual só teu não tens? – ele não respondeu, olhando em frente com um sorriso nos lábios e uma feição séria, algo raro em James Potter – obrigada capitão.

-Alice... deixaste cair isto.

Fabian mostrou-lhe a carta dos pais presa entre o anelar e o indicador.

-São pessoas muito optimistas não são?

-São os meus pais– ela disse com um encolher de ombros

-Deixa-me dar-te um conselho – ele pousou as mãos nos braços de Alice olhando fundo nos olhos dela – Não deixes que ninguém te diga quem tu és, porque apenas tu tens o poder de decidir quem queres ser- ela acenou com a cabeça sem conseguir mexer-se da posição em que estava, quase em transe provocado pela voz de Fabian. Sem ela contar, abraçou-a com força, um daqueles abraços esmagadores – Vamos mostrar-lhe o quão errados estão porque tu Alice Smith – ele aproximou-se da orelha dela – és uma força da natureza. Incendio .

A ultima coisa que ela viu antes de Fabian entrar em campo foi a carta dos pais a arder no chão e então entrou em campo atrás dele.

-BLACK, LONGBOTTON, MCKINNON, POTTER, PREWET,SMITH,WOOD. SENHORAS E SENHORES, A EQUIPA DOS GRYFFINDOR.

Inspirou profundamente. Adorava aquela sensação no seu corpo , o ar a soprar nos cabelos, a beleza de ser livre.

O jogo começou e ela nascera para estar em campo. A incerteza do momento, ter de se atirar de cabeça e confiar nos seus colegas. O primeiro golo foi instintivo para ela, uma abertura na defesa dos Ravenclaw.

- E O JOGO ABRE COM UM BELÍSSIMO GOLO DO ELEMENTO MAIS RECENTE DA EQUIPA. QUE BELA AQUISIÇÃO POTTER. E PREWETT DEFENDE O ATAQUE IMPLACÁVEL DOS RAVENCLAW, QUE KEEPER INCRÍVEL. A LINDISSIMA NAMORADA DELE, CATHERINE JOHNSON TEM TODA A RAZÃO EM ESTAR FELIZ. DESCULPE PROFESSORA.

-AUCH! ESSA DEVE TER DOÍDO. E O POTTER TEM DE SAIR DO JOGO A CONTRAGOSTO, EU DIRIA, PELA QUANTIDADE DE INSULTOS QUE ELE PROFERE. 320-130 PARA OS GRYFFINDOR, MAS SEM O SEU CAPITÃO DE EQUIPA.

James tinha sido acertado por uma bludger em cheio nas costelas

Tão perto do fim e de repente a equipa encontrava-se desmembrada. Marlene foi para o lugar de James e eles nem uma palavra do que fazer tiveram de James.

A equipa rosnou junta de raiva, siriús estava capaz de assassinar o beater da casa azul e prateada, Fabian encontrava-se na baliza com uma postura fria " nada ia entrar na baliza dele " dizia a reação corporal de Fabian . Marlene não parava quieta um segundo, olhando para todo o lado à procura da bolinha dourada quando tudo o que ela queria era pegar naquele taco e junto com Siriús, fazer cabeças rolar.

Ninguém se dignou a gritar indicações uns aos outros, pois esse era o lugar do capitão. Frank encontrava-se a meio de uma jogada no ar quando falhou o golo ao ver o seeker dos Ravenclaw voar a toda a velocidade e mergulhar em pleno ar. Eles tinham de marcar, Alice pensou.

-E AQUI ESTÁ ELA , A ESTRELA DO JOGO. MEADOWS MERGULHA EM BUSCA DA SNITCH...SE APANHAR, OS RAVENCLAW GANHAM POR 10 PONTOS.

Eles precisavam de marcar dois golos. Sirius parecia ter-se apercebido do mesmo que ela porque voou com a quaffle a toda a velocidade, marcando um deles . faltava outro. Alice viu com o canto do olho o seeker percorrer o campo todo a alta velocidade, eles não iam conseguir.

-ALICE! – ela ouviu gritar e viu Fabian sair da sua baliza e atravessar o campo.

-O QUE É QUE ELE ESTÁ A FAZER? O PREWETT ABANDONOU A BALIZA COM A QUAFFLE NA MÃO. QUE PASSE ESTONTEANTE PARA SMITH. E SERÁ QUE VÃO A TEMPO?

Às suas costas as bancadas estavam paralisadas.

- UM GOLO IMPRESSIONANTE! CORVINAL APANHA A SNITCH, MAS OS GRYFFINDOR GANHAM GRAÇAS À MARAVILHOSA JOGADA DE SMITH E PREWETT.

Ana sorriu. Tinha conseguido , pensou. Mas algo estava mal , das bancadas não vinha um único aplauso. Ela olhou para o lado querendo ver o sorriso de Fabian e dizer-lhe que era tudo graças a ele, quando o viu a cair sem sentidos.

- MAS O QUE É ISTO? COM O JOGO TERMINADO! O comentador disse- isto é falta! MADAME HOOCH, FALTA!

Alice não pensou duas vezes e mergulhou atrás dele, nunca chegaria a tempo pensou. Eles estavam a 15 metros do chão, se Fabian caísse ela não queria imaginar como ele ficaria. Ela viu algo atingi-lo, um feitiço e viu com alívio o corpo de Fabian abrandar levemente, mas ele iria cair á mesma e com força. Ela voou mais rápido e quando ficou óbvio que não conseguiria alcança-lo a tempo, empurrou-se para a frente fazendo que o corpo dele caísse sobre o dela e o dela amparasse a queda de Fabian.

Rebolaram os dois no chão e Alice fechou os olhos perdendo a visão do corpo de Fabian. A primeira voz que ela viu foi a de James Potter .

-Smith!hey Smith!-ele disse abanando-a.

-Capitão...estás inteiro. - Ela disse tentando arranjar espaço e enquanto cuspia pó.

-Ora Smith, já levei mais tareia e sobrevivi. Ninguém me ia impedir de estar perto da minha equipa. – ele disse.

-Fabian ... –ela disse lembrando-se correndo para perto dele e descobrindo no processo que deveria ter fracturado várias costelas.

MADAME pince já se encontrava junto dele , a varinha andando para cima e para baixo, analisando.

- Fique quieta Miss Smith, Mr Prewett precisa de ir agora mesmo para a ala hospitalar e a menina também.

-Ele vai ficar bem? –ela perguntou apoiada em James.

-Não era como se ele fosse morrer, mas graças a si evitamos danos graves. Mr Potter leve-a desporto violento

MADAME pince afastou-se e a mão de Alice escorregou de Fabian. Ela começou a ouvir as bancadas a descerem e tentarem perceber o que tinha acontecido, assim como os primeiros festejos a desenrolarem-se .

-Vamos, precisas de sair daqui.

-E tu precisas de estar ali capitão.

-não –ele disse abanando a cabeça.- Primeiro vocês, nunca me orgulho tanto de uma parceria como a que fiz contigo e Fabian. Que jogo Brutal!

Quando ela chegou à enfermaria confirmava-se as costelas partidas e depois de algumas poções, ela pode sair desde que voltasse lá no dia a seguir. Olhou para a cama ao lado, Fabian continuava inconsciente, a namorada setimanista dos Ravenclaw ao lado dele. Não conseguia deixar de pensar que o comentador tinha razão. Catarina Johnson era muito bonita.

Quando ela abriu a porta da enfermaria , foi projetada para trás com a força do abraço de Marlene . –foste fantástica! –ela disse

- É verdade, mesmo. Fabian bem me avisou que íamos levar uma coça- Alice não sabia quem era a rapariga de cabelos louros ondulados que a elogiava, mas tinha um ar genuíno e isso fez com que gostasse dela automaticamente.

-Obrigada...

-Pandora Abbot. – ela disse, ignorando a mão estendida de Alice e abraçando-a . – e este, não tão falador assim, é Xenophilius Lovegood.

-Vocês são amigos de Fabian.

-Sim...obrigada pelo que fizeste. Nós vamos entrar agora para o ver mas Alice?

-Sim?

-Acho que nos vamos ver mais vezes. Mantém-te perto dele sim? Hoje é Lua crescente e trás o nascimento de algo bom.

-Eu...muito bem. Passem pelo nosso salão comunal, se quiserem.

-obrigado pelo convite mas vamos esperar por Fabian .

-mas tu tens de vir Alice- Marlene disse- para além disso Fabian ia querer que estivesses a comemorar.

Ela acenou. Sim, ele iria querer e Alice também queria. Ainda sentia o corpo a fervilhar com a adrenalina . Quando entrou no salão vermelho e dourado a festa estava no seu expoente máximo e uma bebida foi-lhe colocada na mão rapidamente. Os colegas de equipa correram para ela abraçando-a e dando-lhe várias pancadinhas nas costas. Ela rodou pelo salão nos braços de todos os jogadores de equipa, foi levantada ao ar por todos os alunos Gryffindor . Nunca se sentiu tão viva.

Finalmente ela sentia que mandava na sua vida e era boa a vida que ela tinha, pensou enquanto o seu corpo se mexia ao sabor da música, os braços levantamos, a cabeça meio tonta do álcool e um sorriso tolo na cara.

Hoje ela permitir-se-ia ser tola e viver apaixonadamente o momento, sem vergonha ou restrições.

A certa altura da noite James Potter puxou-a para cima de uma mesa e pediu um aplauso em nome dela e apesar de ter corado furiosamente, não conseguia deixar de sorrir e de se entregar enquanto pulava e dava risinhos com Marlene ou mesmo quando Lily lhe tentou tirar a bebida da mão e começou a expulsar os alunos mais novos. ,

Ela aproveitou a confusão para se esgueirar para uma varanda que estava ocupada por Siriús sentado no canto, um cigarro numa mão.

Também não és fã de confusões? – era raro o momento que Siriús se embrenhava numa conversa com alguém . Era mais comum ouvi-lo a fazer comentários sarcásticos.

-Normalmente sim, mas hoje não.

Siriús sorriu e levantou-se passando por ela e atirando fora o cigarro. Parou quando passou por ela , uma mão no topo da cabeça dela.

-muitos parabéns.- ela acenou com falta do que dizer – penso que Fabian fez um grande trabalho mas na verdade ele só afinou o que estava aí não é?

Um silêncio desconfortável caiu entre eles. Alice não saberia o que lhe responder.

- talvez ele tenha sido para ti o que Prongs foi para mim. – Alice olhou para ele e percebeu que Siriús tinha bebido demais . –viste a Evans?

-Lá dentro . A expulsar pessoas. – ela respondeu e Siriús retirou a mão paternalista da cabeça dela e entrou no salão comunal deixando-a sozinha.

Alice olhou em volta, o cabelo solto caindo até aos ombros . Estava imenso frio e ela encolheu-se contra a capa, mas o vento soube-lhe bem contra a cara, dizia-lhe que estava viva e que queria continuar com aquela sensação.

Don't need permission, made my decision

To test my limits

'Cause it's my business, God as my witness

Start what I finished

De dentro vinha novamente o barulho de pessoas a rir e bater palmas e copos a chocalhar, mas ela permitiu-se ficar mais um pouco a orgulhar-se do seu feito sozinha.

Don't need no hold up, taking control of

This kind of moment

Podia não conseguir mais nada na vida, podiam obriga-la a casar com Frank e a ser uma dondoca a vida toda, mas nada lhe podia tirar o orgulho de ter entrado naquele campo e de ter enfrentado James Potter sozinha. Ela virou a cabeça, no momento em que Fabian entrou na varanda.

I'm locked and loaded, completely focused

My mind is open

Ele vinha a rir de alguma situação passada dentro do salão comunal, um sorriso descontraído e sincero, quando a viu .

O seu semblante tornou-se mais sereno mas o sorriso persistia e havia um brilho no olhar.

Fabian esticou o braço agarrando-a pela capa e puxou-a contra si, fazendo-a bater no peito dele. O ruivo cheirava a sol, sabão e um perfume que ela não conseguia identificar. Nos vestiários, antes do jogo, quando a abraçara, ela não tinha conseguido reter aquela informação, mas ali com o vento a bater-lhe no corpo e a bebida a causar-lhe formigueiros nos dedos, era a única coisa que fazia sentido.

All that you got, skin to skin

Oh, my God, don't you stop, boy

Ele era musculado e quente e ela não fazia ideia de quanto tempo ela estava a divagar sobre Fabian Prewett, um ruivo bastante cobiçado pelas raparigas e dois anos mais velho que ela, que nunca na vida iria olhar para ela e a tratava como uma irmã mais nova. Ela corou, sorrindo internamente. Não deixava de ser agradável a atenção que ele lhe dispensava.

- obrigada –ouviu-o dizer – se não fosses tu...- ela sentiu uma mão no cabelo dela.

Parecia que alguém já lhe tinha contado do jogo. Ele não tinha porque agradecer, ela não ia permitir que ele não estivesse ali para a congratular pessoalmente.

- se não fosse o feitiço de James eu nunca chegaria a tempo – disse por fim . Ela viu as sobrancelhas dele franzirem-se – e a tua assistência magnífica. – ela finalizou com um sorriso. Ele apertou-a mais.

- não. Foi tudo graças a ti. Obrigada – disse e rodou-a no ar repentinamente com a maior facilidade. Ele pousou-a no chão e Alice desequilibrou-se dando um passo atrás, mas Fabian apanhou-a com um braço .

Ela riu ao perceber que ele bebera talvez um pouco demais e então riu ainda mais ao perceber que ela própria não se encontrava no melhor estado de sobriedade. Quando abriu os olhos Fabian olhava fixamente para ela, muito sério. Ele retirou com cuidado alguns cabelos da cara dela e pousou a mão na orelha dela. "Eu poderia ficar assim a vida toda...aconchegada nos braços dele"

- Fabian? –mas a pergunta de Alice pairou no ar. Eles estavam tão perto que a morena conseguia ouvi-lo a respirar, os lábios de um rosa claro entreabertos, as pequenas sardas brilhavam com a luz da lua refletida e os olhos dele olhavam-na sem parar e ela só queria saber o que ele estava a pensar. – Fabian? – voltou a perguntar.

-Estou aqui...

Fabian aproximou-se dela sem nunca deixar os seus olhos e Alice sentiu o coração falhar uma batida quando percebeu o que ia acontecer.

Something 'bout you

Makes me feel like a dangerous woman

Something 'bout, something 'bout

Something 'bout you

Makes me wanna do things that I shouldn't

Something 'bout, something 'bout, something 'bout

Só então Fabian fechou o espaço entre eles.

Ela já tinha referido o quão musculado ele era? "Bem dito Quiddich" e ouviu-o sorrir.

Nothing to prove, and I'm bulletproof, and

Know what I'm doing

Os lábios dele eram tão macios e quando ela entreabriu a boca os seus dentes chocaram-se com a pressa e os dois sorriram, inspirando e expirando, pois não havia tempo para fazer outra coisa. A língua de Fabian sabia a sal e Alice sabia que se o largasse cairia de certeza pois deixou de sentir as pernas quando ele lhe mordiscou o labio inferior.

The way we're moving, like introducing

Us to a new thing

I wanna savor, save it for later

As mãos dela percorreram os cabelos cor de fogo, o pescoço e os ombros quando sentiu uma parede nas suas costas e os lábios de Fabian nos dela furiosamente tocando-se e desencontrando-se e Alice sabia ao ouvir o seu peito bater descontroladamente que não era ela e o seu bom senso que ia parar aquela loucura.

The taste, the flavor, 'cause I'm a taker

'Cause I'm a giver, it's only nature

I live for danger

O cabelo dela voltou a cair-lhe para a cara e Fabian afastou-se com pequenos beijos, continuando a segura-la pela cintura.

All that you got, skin to skin

Oh, my God, don't you stop, boy

Ooh yeah

-nós devíamos entrar – foi a única coisa que ela se lembrou de dizer para acabar com aquele maldito silêncio.

-sim, devíamos. Alice...-ele começou e Alice fechou os olhos quando ouviu o tom na voz dele. Ela sabia o que vinha aí e não queria ouvir. Ela não fazia ideia do que acabara de acontecer, sabia que ela não procurara aquela situação , mas não ia deixar que ele dissesse que tinha sido um erro e que nunca mais iriam ter aquele sorriso cúmplice ou o seu parceiro de corrida.

Ela calou-o com um dedo sobre os lábios e teve de se por em bicos de pés para olhar nos olhos dele, azuis claros como os dias de verão.

Something 'bout you

Makes me feel like a dangerous woman

Something 'bout, something 'bout

Something 'bout you

Acariciou a orelha dele com a mão que tinha estado nos seus cabelos. Fabian estava incrivelmente sereno e isso assustou-a, tirava-lhe a coragem para fazer aquilo que a cabeça dela lhe gritava.

Makes me wanna do things that I shouldn't

Something 'bout, something 'bout, something 'bout

All girls wanna be like that

Bad girls underneath like that

You know how I'm feeling inside

Something 'bout, something 'bout

All girls wanna be like that

Bad girls underneath like that

You know how I'm feeling inside

Something 'bout, somethin' 'bout

-Alice... –foi a vez dele dizer, parecia que a pedir-lhe bom senso, mas ela não escutou. "o bom senso que se exploda!" Ela deixou escapar um pequeno risinho momentos antes de tocar os lábios de Fabian.

Something 'bout you

Makes me feel like a dangerous woman

Something 'bout, something 'bout

Something 'bout you

Ele não a afastou, pelo contrário, saboreando cada segundo. Aquilo não tinha sido um erro , mesmo com o álcool todo ela tinha a certeza. A mão dele voou para as costas dela e ele sentou-se no banco atrás dele, ele olhou para ela visivelmente sem palavras e Alice fez o que não pensou ser capaz.

Makes me wanna do things that I shouldn't (I shouldn't, babe)

Something 'bout, something 'bout, something 'bout

(Something 'bout you)

Apoiando-se nos ombros do ruivo, sentou-se em cima dele, uma perna em cada lado do corpo dele, o peito dela junto ao dele..."Oh bom Merlin, dá-me autocontrolo"

All girls wanna be like that

Bad girls underneath like that

You know how I'm feeling inside

(Yeah, you know how I'm feeling inside, baby)

Something 'bout, something 'bout

Os olhos de Alice diziam-lhe que ela ia ser a ultima a ter uma palavra ali aquela noite. Nunca estivera tão perto de Fabian, o aroma dele por todo o lado e o sorriso fácil de cada vez que respiravam, era fácil gostar dele. Demasiado fácil.

All girls wanna be like that

Bad girls underneath like that

You know how I'm feeling inside

Something 'bout, something 'bout

Foi difícil decidir que era demais, talvez tenha sido quando ela colocou a mão debaixo da camisa dele e ele não a afastou ou quando ele mordeu o ombro dela...de qualquer forma ela mal se lembrava do momento em que se levantou. Fabian olhava para ela calado, Alice vestiu a capa com raiva perguntando-se se Fabian ia ter coragem para dizer alguma coisa. Silêncio.

Alice deitou os cabelos para trás, à espera. Fabian abriu a boca mas fechou-a rapidamente quando ela olhou para ele.

Alice saiu da varanda.

Yeah, there's something 'bout you, boy

Yeah, there's something 'bout you, boy

Yeah, there's something 'bout you, boy

(Something 'bout, something 'bout, something 'bout you)"

Foi quando ele a estava a devolver às carruagens de Hogwarts, felizes e abraçados um no outro, o cheiro dela entranhado nele, os sorrisos a baterem records porque não havia espaço para mais nenhum pensamento sem serem eles os dois, que Fabian viu.

Dois comensais da Morte. Nunca tinha visto nenhum, mas tinha a certeza que eram eles com as longas capas negras e as mascaras prateadas. Bellatrix estava com eles, os lábios contraídos naquela linha fina que ela fazia quando se sentia desconfortável.

Fabian roeu os dentes.

Empurrou Alice para um beco mandando-a fazer pouco barulho. Não havia ninguém por perto, eles eram possivelmente os últimos a sair de Hogsmeade e estavam atrasados para chegar às carruagens.

O que estavam dois Devoradores da Morte a fazer em Hogsmeade e o que queriam com Bellatrix?

Ele mediu as possibilidades que tinha. Ele era um projeto de auror e uma estudante contra dois comensais da morte. Eles nem iam dar luta e ele nem sabia o que queriam com Bella. Talvez fosse apenas um primeiro contacto? A família dela tinha ligações poderosas e perigosas.

-Temos de agir – Alice saiu do beco de varinha em riste sem esperar a resposta dele. Fabian saltou atrás dela sem pensar duas vezes, pensando na melhor forma de sair vivo dali, mas nesse momento os dois comensais pegaram em Bellatrix e desapareceram.

"Uma chave de portal. Merda! "

As horas seguintes foram uma confusão. Deixar Alice contrariada na sala dela e seguir para a sala de Dumbledore depois de ter mandado uma mensagem.

-Há alguma novidade já? – ele perguntou assim que chegou ao escritório do director.

-Nenhum contacto.

-Já alguém percebeu a falta dela?

-a irmã, Narcisa Black.

-O que lhe disse?

-Que estamos à procura dela. Precisamos de alguma calma agora, nós não sabemos o que se está a passar.

-Ele deve ter descoberto...que ela é uma de nós. E se assim for, estamos perdidos.

-Senta-te Fabian.

Tinha acabado de se sentar quando ouviram bater à porta e esta abrir sem ninguém do lado de lá.

-Lily, aparece para te conseguirmos ver.

James Potter entrou a seguir com um ar esbaforido.

-Louca... podias ter esperado. O que custava?

-O tempo é precioso . o que é que já sabemos? – disse uma Lily já visível sentada na cadeira ao lado de Fabian.

-Nada.

- E o que estamos a pensar fazer?

- A situação é delicada como estava a explicar a Fabian. Podem ter contactado Bellatrix para a obrigar a juntar-se a eles.

-Ela é menor de idade

-E mulher, eles não aceitam mulheres.

- Seria incomum, mas Bellatrix é uma pessoa incomum, poderosa e de uma família poderosa. Voldemort gosta desse tipo de pessoa. Se agirmos sem pensar podemos coloca-la em risco.

-Mas não podemos deixa-la lá sozinha. Ela pode estar a ser torturada neste momento ou a ser obrigada a dizer algo sobre Avalon.

-Esperemos que não.

-Esperar não chega. Precisamos chamar Ana aqui, eu tenho uma ideia.

Quando Ana chegou ao escritório de Dumbledore, Fabian e James morriam de expetativa.

-Vocês vão ter contas a ajustar com o Remus se forem fazer o que eu penso.

-Como assim?

- A Lily quer usar os meus poderes telecinéticos e a ligação que nós os cinco temos para se "teletransportar até Bellatrix"

-Nem pensar.

As palavras saíram da boca de Fabian antes que ele percebesse, mas James e Dumbledore concordaram com ele.

-Nós não vamos deixar a Bellatrix sozinha. Ninguém merece isso.

-Eu faço. Eu sou natural em legilimencia e oclumência. Se alguém pode impedir que alguém veja os pensamentos de Bellatrix, esse alguém sou eu.

-Mas Fabian...

-não há "mas" Lily, todos nós vamos participar. Tu vais criar o ambiente propicio e James vai aumentar a potencia do feitiço.

-Se isto não resultar, em vez de Voldemort ter acesso a um de vós ele pode ficar com acesso a dois de vocês.

-ou tudo ou nada.

Lily e James acenaram.

Lily abraçou-o.

-Se alguma coisa correr mal diz a Alice...

-Se alguma coisa correr mal eu sou uma mulher morta.

-Nada vai correr mal – James acrescentou.

Quando Ana lançou o feitiço sobre ele, Fabian sentiu-se flutuar no mar. Sentia vagamente a mão de Lily e de James, mas era só. Era um elo condutor muito fino, mas que iria ter de servir.

Chamou por Bellatrix por todo o lado mas apenas existiu silencio como resposta.

-Prewett?

Ele nunca ficara tão feliz de ouvir aquela voz mal humorada.

-Bellatrix... onde estás?

-És mesmo tu?

-Somos todos nós. Diz-me onde estás.

-Chhhss, mais baixo. Ele pode ouvir...

-Quem? Tu estás bem? O que fizeram contigo?

-Estás preparado?

-Para o quê?

E quando Bellatrix abriu os olhos ele conseguiu ver o que ela via através deles.

-Para o mar de sangue...

N.A- A música é o Dangerous Woman da Ariana Grande.

Obrigada a todos os que leram. O próximo capitulo vai demorar um bocadinho mais.

Perolasverdes