Tortura

Aterrou de pé no chão de pedra, procurando manter a sua dignidade mas despreparada para ver quem estava à frente dela. Ajoelhou-se reconhecendo-o imediatamente e apesar de nunca o ter visto sabia que aquela aura só podia pertencer a uma pessoa. Pele alva e cabelos castanhos ondulados...a sua aparência quase angelical podia enganar quem não estivesse atento, mas não a ela. Havia demasiado poder na pessoa à frente dela.

-Levanta-te.

Ela assim fez, os olhos baixos tentando esconder os seus pensamentos.

- Quando Cassius nos falou de ti não pensei que pudesses ser tão bonita. Diz-nos Bella que interesse achas que eu poderia ter em ti?

Bella? Ninguém a tratava por Bella excepto Sirius e sempre com sarcasmo. Na voz do homem à frente dela, o tom era de troça. Ela então levantou a cabeça, olhando o homem charmoso à sua frente. Só havia uma forma de sair dali viva e era jogando o jogo dele. Entregar-lhe os guardiões e Avalon era entregar-se a ela mesma e Voldemort iria matá-la para garantir que nunca seria uma ameaça para ele.

Não importava se era filha de um dos homens mais poderosos do ministério, não importava ela estar ali para fazer valer uma aliança.

- Eu vou ser a bruxa mais poderosa deste círculo.

Os bruxos à volta dela riram excepto por Lucius ao lado dela.

- Isso é uma afirmação bastante perigosa ainda mais para uma mulher de apenas 16 anos.

Ela sabia. Mas também acreditava no que dissera. Existia uma sede de poder nela que ela sabia que a ia levar longe. O poder formigava, forte , chamava-a como um mantra. Era assim desde pequena. Sirius ensinara-a a ouvir e desde então, viera quase de forma natural até descobrir quem era.

- vamos ver se o que dizes é verdade ou não . Legilliments!

Ela estava preparada. Foi muito difícil resistir-lhe . Voldemort não tinha a subtileza de Fabian, ele queria rasgar e possuir qualquer pensamento que ela tivesse .

Saber é poder. E saber os pensamentos dela era conhecer os seus segredos, não precisar de ter receio dela porque a conhecia de trás para a frente. Ela manteve-se firme até depois dele sair da sua cabeça . Aí transpirava visivelmente . Voldemort sorriu. Não de orgulho, ante sincomodado.

- Saiam – os devoradores da Morte saíram ainda a rir, lançando-lhe olhares perversos no caminho. Lucius foi o último, não saindo sem antes olhar bem para ela. Quase parecia preocupado quando fechou as pesadas portas de mogno.

Voldemort levantou-se rondando-a.

- Estou a ver que talvez tenhas alguma razão para essa arrogância. Quem te ensinou oclumência?

Ela sorriu.

- Aprendi sozinha Lord.

- Qualquer pessoa que me resista pode chamar-me de Tom. Mas... O que uma adolescente poderia querer esconder tanto assim para erguer tal parede ?

- Apenas alguns segredos femininos – disse tentando mostrar indiferença .

Ele parou à frente dela. Aquele olhar... Algo a arrepiou instantaneamente. Ela estava a brincar com o fogo e era possível que se queimasse.

- Eu aprecio sarcasmo, até bom humor Bella e um pouco de arrogância mas não vão existir mentiras entre nós – engoliu em seco – Sabes porque estás aqui?- ela acenou que não – Vais descobrir a teu tempo. Não duvides que nos vais ser muito útil em Hogwarts. És uma rapariga inteligente e ambiciosa, gosto disso, mas agora estamos ligeiramente atrasados. Acompanhas-Nos?

Ela sentiu um peso extra nos ombros e percebeu que vestia uma capa negra de veludo com um capuz que lhe ocultou a face por completo.

- Obrigada...

-Obrigada Tom

- Obrigada Tom – ela repetiu a seguir a ele, assentindo. A falsa intimidade arrepiando-a.

Tom levou-a pela mão e abriu as portas por onde os seus seguidores tinham saído.

- Está na hora, vamos mostrar a Bella o que sabemos fazer de melhor. – os vultos começaram a desaparatar até ficarem os dois e mais um vulto que ela não sabia quem era. – Bella querida, a partir daqui estás connosco até ao fim. Estás pronta?

Ela quis fugir a sete pés . Queria poder, sempre quisera mas não sabia se era assim que o queria e a custo de quê? Havia algo em Voldemort que a hipnotizava , que a fascinava tal como em Sirius. Vira o futuro de Andromeda e Narcissa, dos seus pais e sabia que a única forma de eles ficarem vivos era se ela desse aquele passo em frente, mesmo que isso significasse que muitas pessoas iam sofrer nas mãos dela. "O futuro pode mudar", sim o futuro podia mudar e ela tinha poder para o fazer.

Bellatrix aceitou a máscara que Voldemort lhe estendia.

- Eu nasci pronta para isto.

Mas não estava. Eles caíram sobre a casa despreparada do Ministro Muggle como lobos sobre cordeiros. Sangue por todo o lado, corpos caídos por todos os cantos e ela conseguiu ver a febre e adrenalina dos Devoradores da Morte a matarem sem descriminação. Aquelas imagens nunca lhe sairíam da cabeça e durante o tempo todo ela conseguia sentir Voldemort a tentar introduzir-se nos seus pensamentos, tentando espiar o que pensava e a sua reação.

E foi no meio de toda a agonia constante, ouviu a voz de Fabian. Quase uma ilha no meio do oceano... teve que se concentrar para não transparecer o alivio de o ouvir.

-Estás preparado?

Ouviu-o respirar fundo quando ele viu com ela a carnificina que ela tinha presenciado. Ela conseguia sentir a ligação com o Potter e a Evans, o esforço que faziam para manter aquela conexão e garantir que ela estava protegida e apesar de nunca ter gostado deles, de nunca ter sentido que pertencia naquele grupo ou mesmo simpatizado com a causa que os movia, sentiu-se grata .

-Está na hora de regressarmos Bella.

-Quando vou voltar?

-Eu vou até ti. Não tenhas medo...nós vamos dar-nos lindamente.

-Eu não tenho medo.

Mas era mentira.

XXX

Eram quatro jovens adultos, dois rapazes e duas raparigas e tinha a certeza que estavam em Avalon em frente ao grande lago, naquela altura do ano completamente congelado. As sacerdotisas rodeavam-nos e para além delas, na floresta, Ana podia sentir algumas sombras curiosas, interessadas no ritual.

Ela olhou bem nos olhos dos quatro bruxos em circulo e parou à frente de um deles. Ela conhecia aqueles olhos azuis, não sabia de onde, mas existia uma familiaridade difícil de resistir.

O homem mandou o cabelo que usava pela altura dos ombros para trás das costas e olhou com intensidade a dupla que entrou no círculo. Dois homens: o primeiro de um cabelo loiro platinado, empurrado pelo segundo.

-Esperem. Há outras formas de fazer isto.

Ela reconheceu-o nesse instante, era Gellert Grindelwald, o bruxo mais temido antes de Voldemort surgir. Aparecera vezes sem conta na sua caderneta de sapos de chocolate. O que raios era aquele ritual?

-Trago este homem a ti, Avalon e de missão cumprida deixo este sítio, prometendo nunca mais voltar. – O homem de cabelos negros que trouxera Grindelwald proferiu e afastou-se do circulo solenemente.

- A ti agradecemos, Guardião, por cumprires a tua missão.

-Não! – Ana sentiu pena do pânico que ouviu na voz de Grindelwald.

- Avalon, os quatro guardiões entregam o que é teu por direito esperando repor o equilíbrio que o mundo bruxo precisa. Que Selene nos continue a proteger!

Grindelwald tentou chegar ao homem que pareceu tão familiar a Ana, mas algo invisível o manteve no meio do circulo.

-Albus! Albus! – então Ana percebeu porque o homem lhe parecera tão incrivelmente familiar. Porque o seu director nunca dissera que tinha sido um deles? – Tu sabes o que isto vai fazer comigo. Não posso ficar preso aqui.

-Não há outra forma. Tu sucumbiste ao teu lado negro. Adeus Gellert.

-Sucumbi por ti- o bruxo negro sussurrou

Dumbledore desviou os olhos para os outros guardiões e disse bem alto.

-O guardião do vento renuncia o seu poder.

- O guardião da floresta renuncia o seu poder.

- A guardiã do fogo renuncia o seu poder.

-A guardiã da água renuncia o seu poder.

Ana acordou e olhou o teto da enfermaria, sentindo-se enganada e zangada.

-O que aconteceu?

Estivera tão vidrada naquela visão que viera tão naturalmente devido ao seu estado fragilizado do feitiço que usara para chegar até Bellatrix, que se esquecera que Remus não largara a cabeceira da sua cama um minuto.

- Eu vi Avalon e um ritual e Dumbledore estava lá. Ele soube este tempo todo. Todo este tempo ele tem-me enganado.

-Acalma-te. O que queres dizer com Dumbledore estar lá?

-Não me acalmo nada – ela disse afastando a mão de Remus – Dumbledore foi um dos guardiões.

-Ele estava no ritual dos quatro com Grindelwald?

De repente uma duvida surgiu na sua cabeça, algo que tomou forma até se tornar terrível.

-Como é que sabias que era o Grindelwald? Tu... sabias?

-Ana... – ela fechou os olhos por momentos não querendo acreditar. Levantou-se incapaz de olhar Remus – espera! Deixa-me explicar...

-Larga-me! Qual era o plano Lupin? Achavas que quanto mais apaixonada eu estivesse, mais fácil ia ser para ti levar-me a Avalon e fazer cumprir o ritual? Larga-me! Não me toques! – ela repetiu recuando vários passos – Todos eles sabem não é? Os guardiões...a Lily! Como é que isto é possível, estavam mesmo todos dispostos a abandonar-me em Avalon...

-Não é assim...a Lily...

-A Lily? – sentiu uma raiva imensa dentro de si, cega e tão potente que sabia que tinha de sair da frente de Remus com medo de cometer uma loucura. – tudo isto e nós ...foi sempre para salvar a Lily.

-Isso não é verdade. O que sinto por ti é verdadeiro.

-Verdadeiro? Não há nada de verdadeiro em lado nenhum. Tu usaste-me desde o inicio!

-Ana, espera! Tu precisas de me ouvir!

-Eu não preciso de fazer nada! – disse à porta da enfermaria - mas tu precisas de esquecer que eu existo.

Remus não a seguiu. Deixou-se ficar na enfermaria querendo chorar, mas sem conseguir...um gosto amargo na boca. A sua cabeça e o seu coração lutando ferozmente um contra o outro até abrir a porta e a passos pesados se dirigir para o seu salão comunal, decidido a compor a merda que tinha feito.

Na sua cabeça a lembrança do dia que mudara os seus sentimentos por Ana Potter.

"-O que é que se passa Remus ? estás a assustar-me e eu sei que não me ias pôr na mesma divisão que o Potter a não ser que fosse grave.

-Pensando bem devíamos combinar isto mais vezes Moony – Prongs disse-lhe piscando um olho – a próxima vez sais e trancas a porta.

-Está calado, seu idiota! Não percebes que isto é serio? – a ruiva disse-lhe enervada.

Remus olhou de um para o outro sem saber como começar.

-A Monitora chefe deixou-me ser eu a contar-vos porque fui eu que a encontrei.

-Que encontraste quem? – perguntou Prongs pondo as mãos nos bolsos e começando a perceber que o assunto era serio.

Mas Lily estava um passo à frente.

-Isto tem a ver com a Ana ter desaparecido o dia todo?

-A Ana desapareceu o dia todo? Porque só estou a saber disto agora?

-Se não me tivesses atazanado o juízo, à hora do almoço já saberias.

-Evans...

-Oiçam, por favor. – ele pediu, antes que os dois à sua frente começassem uma discussão – Eu encontrei a Ana, ela estava inconsciente e eu levei-a para a enfermaria.

-Como assim? Remus...- ele abanou a cabeça.

-Eu não vi nada. Ela está a fazer exames, mas tudo indica que alguém usou um obliviate nela.

Lily levou as mãos aos lábios abafando um gritinho enquanto James puxou da varinha que tinha no bolso.

-Como assim?

-Os teus tios estão a ser informados. Dumbledore está a tomar providências. James espera...JAMES! Mas porque é que ele sai sempre a correr? – Remus resmungou para o ar, mas já estava no seu encalço com a Lily nos seus calcanhares.


-O que queres aqui?

Era uma pergunta retórica, ele sabia muito bem que ela mais tarde ou mais cedo ia procura-lo. Não porque quisesse, mas porque não tinha alternativa.

Ela sentou-se ao lado dele e ele viu que ela continuava cheia de odio pela maldição que ele lhe lançara. O que Ana não percebia é que a maldição não era só para ela...ou achava que ele queria ter a sua vida ligada a ela? Ter todos os sonhos com ela que o acometiam à noite sem lhe permitir dormir profundamente?

-Eu não posso pedir isto a mais ninguém.

-Pensei que nunca mais me quisesses dirigir a palavra.

-E não quero, mas não tenho alternativa. – disse de forma brusca – vais ajudar-me ou não?

-Ana eu não vi nada. Eu senti uma dor inacreditável e pensei que fosse eu, até te encontrar desacordada.

-Então tu sentiste algo.

-É assim que isto funciona ou tu achavas que só existiam contrapartidas para ti?

Ana remeteu-se ao silêncio.

-Se não me tivesses amaldiçoado não terias esse problema.

-Se não tivesses quebrado a tua promessa eu não te teria amaldiçoado. – Porque é que ele não conseguia ter mais paciência com aquela miúda? Ela conseguia mesmo irrita-lo.

-Se tu não fosses um arrogante, IDIOTA, NARCISISTA – começou enquanto se levantava e lhe dava as costas.

-NÃO PRECISAVAS DE NADA? – ele gritou-lhe quase a rir.

Ela parou e rodou nos calcanhares e voltou a aproximar-se da árvore em que ele lia o seu livro.

-Eu preciso que uses Ligilemencia em mim e vasculhes o que raio se passou naquela noite.

-Quem diria que passado tanto tempo a resistir ...

-Lupin, eu não te aconselhava a acabar essa frase.

- É apenas irónico.

- Vais faze-lo ou não?

- O que é que eu ganho com isso? – Na verdade ele estava tão curioso quanto ela, mas havia sempre algo em Ana que o arreliava profundamente.

- Lupin

Ana aproximou-se dele, os botões da camisa desapertados revelando mais do que devia, uma perna entre as dele... ele já tinha visto aquela cena em algum lado, talvez duas noites atrás num dos seus estúpidos sonhos molhados com aquela miúda irritante.

Ela aproximou-se até os lábios carmim tocarem a orelha de Remus e achou-se um idiota quando se ouviu a engolir em seco.

-Lupin...eu posso fazer da tua vida um inferno.

Uma ameaça? E não era velada.

Ele segurou a mão dela que estava pousada sobre o peito dele com um pouco mais de força do que precisava para a afastar.

-Tu já fazes da minha vida um inferno e não penses que eu não posso fazer o mesmo – ele disse com um sorriso que teria deixado James orgulhoso – Se tu não fosses a prima do meu melhor amig,o eu garanto que essa ameaça iria ter outras consequências.

-Uma vez que sou ...isso faz com que tenha certas liberdades. – Ana disse repousando a mão que tinha solta no cabelo loiro dele e insinuando-se ainda mais, se é que era possível.

Remus era um adolescente. Por muito que ela o tirasse do sério, era impossível negar atração por uma succubus. Foi por se aperceber dessa atração que a empurrou sem a magoar, ganhando espaço entre eles.

- O que se passa Lupin? Onde está todo o ódio que dizes sentir por mim?

"Eu podia perguntar o mesmo"

-Seres prima de quem és não faz com que tenhas mais liberdade, faz com que tenhas mais sorte. Por isso aproveita-a. Hoje à noite no lugar do costume, agora desaparece.

Ana acenou, apenas os olhos azuis cristalinos entregavam o seu contentamento.

-Não penses que eu não reparei no quanto te afeto, Lupin.

"Merda!", ele resmungou para si mesmo. Pensava que aquele pormenor pudesse ter passado despercebido.

-Ana? – ela virou-se, visivelmente curiosa – Depois de hoje vais deixar-me em paz. Sem sonhos.

Ela riu-se, mas afastou-se sem lhe responder. Só naquele momento Remus se apercebera que os seus sonhos não eram produto da sua imaginação fértil, mas a provocação de uma succubus enraivecida.


-Vamos acabar com isto.

-Estás pronta?

Desta vez ela não tentou defender-se do feitiço que a atingiu. Ela abriu-lhe a mente dela e Remus percorreu-a sem barreiras. Ela conduziu-o uma vez ou outra pelos salões do submundo, obrigando-o a ver como ela vivia aquelas noites de luxuria...os rapazes onde ela se infiltrava nos seus sonhos retirando um pouco de energia com a sua sensualidade,e mas sem magoar.

Ela sabia que Remus sentia asco do que ela fazia, quase chegando ao nojo. Ver que ela gostava daquele lado negro dela.

Festas, salas veladas, orgias, vampiros, inccubus, demónios, todos eles de olhos postos nela. À espera...

Ele chegou a uma parte da mente de Ana mais protegida, tentou entrar apesar de saber o que ia encontrar, mas ela barrou-lhe a passagem. Ele teve a certeza do que se encontrava atrás daquela barreira.

Os sentimentos de Ana pelo primo não eram um segredo para ninguém com dois dedos de testa (talvez para o próprio Prongs) e ele nunca tinha tocado no assunto com Ana porque nunca lhe interessara até aquele momento.

Remus percebeu imediatamente a parte fraturada da mente de Ana. Mergulhou nela com toda a força, mas parecia um autentico puzzle quebrado em mil pedaços. Refazer aquela noite ia ser impossível. Ele perdeu imenso tempo a ver "peça a peça" até encontrar algo que o enfureceu, de tal forma que quase quebrou o feitiço que os ligava. Era a peça que ligava tudo.

Ele não sabia se Ana ia mesmo querer ver aquilo, ele próprio não sabia se queria ver aquela memória. Do que ele podia adivinhar era bem pior do que ele pensava.

- Não sei porque me chamaste aqui Davies, mas pensei que tínhamos posto tudo em pratos limpos.

-Tu puseste.

Ela suspirou alto, visivelmente sem paciência.

- Então pensei que tinha sido clara quando disse que devíamos ficar por aqui.

-Claríssima. Estupefaça.

Ana tropeçou e caiu no chão. A varinha longe e ela própria atordoada da pancada na cabeça ao cair.

-O que pensas que estás a fazer? – disse tentando não mostrar medo, mas sem conseguir.

-Desculpa Ana mas eles insistiram que fosses tu.

-Davies estás a pedir desculpa à amiga de sangues de Lama? Não me digas que te arrependeste.

Davies acenou que não sem grande certeza e Remus sentiu um odio brutal quando Snape e Rodolphus Lestrange entraram em cena.

-O que é que vocês acham que vão fazer?

-Vamos lá acabar com isto Lestrange, eu tenho mais o que fazer. – disse ignorando-a.

-Muito bem Snape. Davies, sabes o que fazer.

-Têm a certeza que...?

-Absoluta Davies.

-Snape tu achas mesmo que a Lily não vai saber disto? Endoideceste se achas que ...

-Silencius – e rapidamente Ana perdeu a voz.

- A Lily? Pensei que tinhas dito que a sangue de lama não era importante.

- E não é .

-Nesse caso, da próxima vez podemos treinar nela.

-Está calado Lestrange – Snape disse, veneno em cada palavra. E Lestrange obedeceu, o medo que ele tinha de Snape era surpreendente. Ele aproximou-se de Ana, sussurrando-lhe – ela não vai saber Potter, porque tu não te vais conseguir lembrar para lhe contar.

Remus não se lembrava de ter sentido tanto ódio.

-Vamos Davies. Não há volta atrás, tens uma missão.

Nada preparou Remus para o que vinha a seguir.

-Crucius

Ana contorceu-se ligeiramente em silêncio devido ao feitiço de Snape.

-Não é assim que se faz. deixa-me mostrar-te. Crucius. – Ana estava claramente em dor quando Lestrange baixou a varinha – entendeste?

A sessão de tortura foi rápida, talvez porque eles ouviram os passos de um Remus uns corredores ao lado. O mesmo Remus que passado cinco minutos encontrou uma Ana obliviada e torturada e que não chegara rápido o suficiente para a ajudar.

Assistiu com nojo o Remus da memória pegar em Ana e leva-la até à enfermaria e a forma doce "doce demais" com que lhe dissera "estás a salvo agora".

Era mentira. Ela não estava a salvo de nada. Ele não a salvara de merda nenhuma. Saiu da mente de Ana despreparado para o que ia encontrar, sem saber como encara-la. "

XXX

James respirou fundo enquanto metia um Sirius inconsciente na cama. Sem duvida o feitiço de Ana ainda o deixava cansado, mas tomar conta de Padfoot era muito mais exaustivo e Remus ainda estava com Ana na enfermaria, demasiado fulo e preocupado com ela ...na verdade há três dias que ele não sabia o que era um sono decente.

Bellatrix regressara sã e salva, tremia quando a encontraram nos portões de Hogwarts em meio ao nevoeiro. Toda ela um misto de força e medo. Lily não a largara apesar do comportamento revolto de Bellatrix. James tinha a certeza que Lily sabia a verdade dos sentimentos de Bellatrix por trás de toda aquela capa, mas James não se conseguira aproximar. Ele não se conseguia esquecer do que ela fizera com Sirius...nem de onde ela vinha. Na verdade não confiava em Bellatrix.

James sabia como o mundo bruxo funcionava e conhecia a etiqueta, os salamaleques, as tretas da raça e da cor. As teorias preconceituosas contra os mestiços e todas as formas que os bruxos encontraram para se mostrarem superiores às outras raças. Os bailes, os rituais de maioridade, as cerimónias...

Por isso foi fácil perceber que Sirius era diferente, como ele mesmo e que mesmo vindo do seio da família mais tradicional, sempre que via alguém a defender os princípios da raça queria correr no sentido oposto. Mas Sirius tinha coragem. Bellatrix não.

Havia medo nos olhos dela, uma loucura e um poder muito parecido com os de Sirius, mas não aquela certeza de que estava sempre certo.

Ultimamente ele não via essa certeza em Sirius, essa força animal...isso assustava-o. olhou o amigo dormir preso nos seus pensamentos...tinha de perceber o que acontecera com ele. Não o podia continuar a deixar viver naquele estado miserável, infeliz.

Desceu as escadas, o sono perdido e aproximou-se da lareira onde para sua surpresa uma Lily encolhida dormia de pergaminho a escorregar das mãos, o cabelo ruivo espalhado pelas costas e algumas madeixas a caírem-lhe na cara.

Conjurou uma manta para a cobrir e sentou-se na poltrona à frente dela. O cheiro dela invadiu-o e lembrou-se mais uma vez da poção amortentia que continha o odor da pessoa desejada e amada. Maçãs maduras e relva fresca...sentiu-se corar.

Continuou a trabalhar no pergaminho que ela deixara cair, um ensaio sobre transfiguração humana que seria para o dia seguinte e sugeriu algumas leves mudanças nas margens. Sorriu, contente com o seu trabalho.

Às vezes desejava-a tanto que chegava a doer fisicamente. Não ser correspondido e saber que cada gesto ou palavra da parte dela o afetava era uma tortura. E admitir isso para si mesmo era assustador.

Mas vê-la ali deitada, tão serena...e apenas ele com os seus pensamentos, não teve como negar a evidência.

Estava irrevogavelmente apaixonado por Lily Evans.

"Se apenas ela soubesse..."

Lutou contra a vontade de colocar as madeixas ruivas que lhe caíam sobre a cara no sítio.

James já se tinha levantado quando a ouviu balbuciar uma pequena palavra baixinho. A sua audição apurada obrigou-o a voltar atrás, confuso.

-Sal ... Salazar... – quase entre um grito abafado e um gemido.

Ele abaixou-se perto dela intrigado. Acordava-a? parecia um pesadelo. A curiosidade levou a melhor dele, se havia assunto que o incomodava era saber que Lily e o seu melhor amigo partilhavam aquelas memorias de um amor ancestral e proibido.

Havia um feitiço que os Marotos usaram em Remus vezes sem conta para perceberem o melhor possível como era a sua transformação e se prepararem para a enfrentar. Ele sabia que não devia...invadir a privacidade da ruiva assim, mas algo levou a melhor nele.

-Vocationem somnium! – disse suavemente enquanto colocava uma mão na testa da ruiva e se sentava ao lado desta.

Imediatamente foi transportado para dentro do sonho da ruiva, para uma sala que ele conhecia muito bem : a sala de Gryffindor. Quase caiu sobre a rapariga que estava deitada no chão vermelho, olhos de um verde esmeralda igual ao de Lily . Susteve a respiração , temendo que aquele olhar de ódio fosse dirigido a ele e então deu vários passos atrás e percebeu que não era Lily, mas alguém muito parecido.

Selene... nunca a tinha visto. Nem quando visitaram Avalon no fim do ano passado. O que quer que tivesse acontecido, ficou sempre entre Sirius e Lily. Mas James não tinha dúvidas de que era ela : longos cabelos negros entrançadas e um rosto anguloso com uns perfeitos lábios rosados... o nariz mais longo que o de Lily, altivo.

James estava enganado, ela estava acorrentada e não apenas deitada no chão. Sentiu um arrepio ao mesmo tempo que ouviu como num prenuncio de algo mau a porta a fechar-se.

Godric entrou, com os cabelos ruivos bem cortados e a barba serrada, a espada presa à cintura e o olhar doente de loucura.

Ele trazia um espelho pequeno numa mão que pousou ao lado de Selene fazendo a mesma nitidamente encolher-se.

- Nós apenas queremos saber que feitiço usaste.

-Eu não usei feitiço nenhum.

-Nós sabemos que Salazar nunca abandonaria a escola de outra forma.

-Abandonaria se achasse que se estava a transformar em algo que não acredita.

Godric levou o espelho para perto da varanda, a mesma que ele ainda à poucos dias tinha treinado com Lily, e usou-o para reflectir o luar sobre a pele de Selene. James não estava preparado para o grito intenso que percorreu Selene, nem para a tortura que se seguiu por parte da pessoa que ele acreditava ser um herói no mundo bruxo.

-Nós apenas queremos saber qual a magia negra ou a poção que usaste no nosso amigo e tudo isto termina.

-Sal tinha razão. Vocês nunca vão perceber, estão demasiado preocupados em fazer dos bruxos uma raça de eleição.

-Salazar concorda connosco.

- Ele viu mais além porque ele é especial...ele percebeu que o mundo precisa de uma volta ou não sobreviverá.

-E quem iria fazer esse milagre?

-Nós os dois. Juntos .

-Mentira! – Godric berrou ajoelhando-se junto dela e abanando-a pelos ombros– Salazar nunca abandonaria a nossa causa!

-A vossa causa ou a ti? – isso pareceu deixa-lo bestificado a olhar para a deusa da lua, pensando no que ela implicava – ele abandonou esta escola para me acompanhar até aos confins do MUNDO!

-Não é possível!- ele gritou voltando a abana-la – tu morres se permaneceres aqui mais do que três dias. Não é possível !

Foi o sorriso que a entregou. Eles tinham encontrado uma maneira. James avançou para ele quando percebeu que Godric estava cego de raiva, mas esquecera-se que não estava ali de corpo presente.

Assistiu mortificado Godric Gryffindor, o herói das historias de criança, salvador dos fracos e oprimidos, insultar Selene a deusa da Lua. Em meio a palavrões, retirar o cinto e as calças. Os gritos de Selene quando percebeu o que ia acontecer, encheram-lhe a alma até esta transbordar de dor e ele desejar sair dali com todas as suas forças, mas estava congelado e preso ao chão. Naquela sala que ele já achara acolhedora, mas que agora o cheiro e as luzes o enjoavam.

Foi quando viu Godric afastar as pernas de Selene enquanto esta se debatia ensandecidamente, que ele sentiu uma mão no ombro e se viu sair daquele pesadelo horrível e de volta à sua sala comunal. Deu de caras com um Sirius completamente desperto, agachado próximo de Lily, com um ar de urgência e dor no rosto.

Isso pareceu tira-lo do transe em que ele ainda se encontrava.

-Sirius ... – tentou dizer mas este cortou-o com um gesto rápido e então respirou fundo , colocou as duas mãos sobre os ombros da ruiva e chamou.

-Lily, Lily! – esta mexeu-se em meio do pesadelo, claramente em dor e James só imaginava o que sentir a violação de Selene poderia fazer com ela – Lily! – Sirius voltou a tentar. – Lillian Evans!

James viu como num filme a ruiva abrir os brilhantes olhos verdes e sentiu-se cair no chão. Começou com um soluço entrecortado, algo sufocante, que não tinha onde se agarrar, para a primeira lágrima cair em seguida.

-Foi um pesadelo...está tudo bem. Foi só...

Mas Sirius calou-se quando a ruiva encostou a testa no peito dele e começou a soluçar desesperadamente.

-Outra vez...aquele monstro.

-Chhss foi um pesadelo. Só isso. Tu não és ...- Sirius respondeu-lhe colocando os braços em volta dos ombros dela como se a protegesse do mundo. Como se tivesse feito aquilo vezes sem conta...

-Sou sim. Sou sim – ela respondeu-lhe -tu sabes que sim e tu és o Sal . a história repete-se, a história ...

Ela parou a frase a meio como se de repente percebesse onde estava e com quem. James engoliu em seco, com medo e antecipando o momento seguinte. Ela olhou para Sirius e a sua expressão de dor aumentou , intensificou-se.

-Sai!

-Lily, calma, tu...

-Desaparece Sirius – lagrimas caíram e James sentiu o seu coração apertar ainda mais, com medo do que estava a presenciar e esquecido ali sem ninguém se aperceber dele.

-Lily, eu , tu...

-Depois de tudo. Não tens o direito. Desaparece!

-Mas que merda se passa aqui?

James não o vira entrar, mas Remus não demorou a olhar todos os intervenientes e decidir que amparar uma cambaleante Lily era o mais urjente.

-Sirius és capaz de me explicar?

-Lily – disse ignorando Remus

-DesaPARECE!

-Tu estavas... e ..o James..

James Potter sentiu o coração falhar uma batida quando as três pessoas à frente dele olharam directamente para ele. A ruiva pela primeira vez percebendo que ele estava na sala. Olhos de um verde intenso, esmagador e brilhante.

-O que raios estás aqui a fazer Prongs?

Mas ele não conseguiu responder a Remus, afastando-se aos tropeções, não conseguindo encarar aquelas duas esmeraldas onde ele só se lembrava da forma como o seu ancestral, tinha infligido tanta dor.

Pela primeira vez em toda a sua vida, baixou a cabeça envergonhado e saiu do salão comunal sem dizer uma palavra, não sem antes ouvir Sirius dizer a Remus "ele viu..". Se antes tinha desejado despertar as memorias de Gryffindor e se tinha orgulhado de ser a sua reencarnação, naquele momento só queria esquecer que tinha algo a ver com aquele ser.

Foi Sirius que o encontrou, sentado em frente à porta da sala de Gryffindor. Na sua cabeça só passava um pensamento "como é que ele fora capaz?"

-Finalmente Prongs. Nós estávamos preocupados. – ele sentou-se ao lado dele.

- eu não entendo...

-Ninguém entende, ninguém sabe.

-Ele era um monstro!

-Ele teve os seus maus momentos – Sirius concordou, o cigarro aceso.

-Conta-me.

-Não.

-Porque não? Eu já vi o pior. Eu quero saber tudo.- disse mas no seu íntimo não sabia quão preparado estava para o "tudo"

-Aquilo não foi o pior – o seu amigo respondeu e algo na voz dele o fez acreditar. – o que presenciaste foi o principio do fim mas nem de longe foi o pior.

-Como é que vou conseguir olhar para ela sabendo... sabendo...?- Sirius abriu e fechou a boca sem sair um som.

-A Lily não é assim. Ela é a única que consegue diferenciar, que não se deixa levar e percebe que ela não é Selene e eu não sou Salazar.

-Mas ela disse...

-Ela estava transtornada. É sempre assim...reveres na pele uma violação deve ser uma sensação terrível Prongs.

Silêncio. James não conseguia começar a imaginar o que isso fazia com alguém. A impotência e a violência...retirou os óculos e limpou o rosto à manga do casaco. Estava exausto de tanta informação.

-Quantas vezes?

-É que ela foi violada até lhe entregar o que ele queria ou quantas vezes isto aconteceu com a L ...Evans?- O moreno olhou para Sirius atónito. O cigarro apagado, um ódio demasiado grande de expressar.

-Foi...foi mais do que uma vez?

- Trinta e três, é o numero de vezes que vi a Evans naquele estado. E de todas gostava que ela não carregasse essa memória, ela nunca deixa mais ninguém carregar esse peso com ela.- um suspiro pesado como o mundo - tudo o que aconteceu foi culpa minha ...

-Tu não és Salazar, Sirius.

Ela saiu das sombras, o cabelo ruivo formando uma luminosidade esquisita à sua volta.

Sirius fechou momentaneamente os olhos e James viu algo no seu amigo. Algo que não conseguia identificar, mas que era diferente. Pela segunda vez naquela noite sentiu que havia algo de muito errado que lhe escapava naquela história.

Ele não estava preparado para a ver. Apesar de não ter sido ele, sentia que se devia desfazer em desculpas, pedir-lhe o perdão interminável.

-Lily, eu não sei como... – ele disse quebrando aquele silencio ensurdecedor entre os três.

-Nem tudo gira à tua volta Potter! Eu não quero a tua pena. – curto, quase frio e direta ao ponto.

Sirius levantou-se, ignorando a troca de palavras e sem dizer nada, passou por James e Lily. Parou ao lado desta e sussurrou "chama-me quando chegar a hora" e desapareceu no escuro do castelo.

Ela sentou-se ao lado dele, cabeça sobre os joelhos. Os olhos enormes e verdes a pesquizarem-no, à espera, à espera... mas ele não conseguia falar, tudo parecia despropositado, desadequado...

Uma hora, duas passaram, quase sem se mexerem. Ficaram assim a olhar um para o outro, em silêncio. James achava que gostava de passar todo o tempo possível com Lily Evans mas, desta vez, ele preferia não ter que passar aquele tempo desconfortável com ela. Também não conseguia manda-la embora...percebia a preocupação nos olhos dela e isso ainda o aborreceu mais. Como era possível que depois de tudo ela ainda estivesse preocupada com ele?

O silêncio tornou-se insuportável até ele não aguentar e deixar a dúvida que persistiu a noite toda escapar.

-O que estás aqui a fazer?

Ela esticou as pernas, um meio sorriso e talvez o primeiro da noite dirigido a ele, alisou a roupa e voltou à posição em que se encontrava.

-Tu não suportas a minha presença a maior parte do tempo, falas comigo quando é estritamente necessário, escorraças todos os meus pedidos para sair contigo – a raiva foi crescendo, não dela coitada mas do mundo – no fundo odeias-me , a minha encarnação violentou a tua eu sei lá quantas vezes ...o que raios estás aqui a fazer?

-Eu não te odeio Potter – isso pareceu faze-lo respirar e no meio de toda a situação era uma noticia animadora – ele violou-a vinte e quatro horas.

-Lily , eu não sei por onde começar...

-Porque não começar por um pedido de desculpa e por prometeres que nunca mais entras nos meus sonhos?

-Des...desculpa. -silêncio – incomoda-me que tu e o Sirius partilhem esse segredo. – ele confessou.

-Porquê? Não te diz respeito.

Ela era sempre tão crua quando se dirigia a ele, isso desarmava-o.

- Inveja, eu acho. Da vossa intimidade. – ela riu alto, aquele riso sem alegria que ultimamente ele ouvia demais.

-Isso é doentio Potter. Se não fosse a situação em causa, amaldiçoar-te-ia até à tua ultima geração. - Ele sabia que ela era capaz disso e conseguia sentir a força e a raiva emanar dela – não tentes perceber a ligação que existe entre mim e o Black, Potter. Estou a avisar-te.

Ela permaneceu quieta, encarando a porta daquele comodo horrível. E ele não tinha resposta para a ruiva. Algo naquela história não estava certo, era tudo o que sabia.

-Vais ter de entrar ali e penso que vais enfrentar essas memórias – ele começou a protestar mas ela cortou-o rapidamente – vais ter de entrar sim, és uma pessoa muito corajosa e vais sobreviver ao que encontrares. -a certeza dela acalmou-o.

-E se eu mudar? Se...se me tornar nele? – e finalmente estava ali a nú, tudo o que de facto o incomodava de verdade.

A ruiva semicerrou os olhos e colocou as duas mãos sobre os ombros dele. Os olhos dela eram duas grandes lagoas verdes e ele sentiu que era capaz de cair nelas.

- Ouve com atenção James Potter : Tu não és ele. Tu podes ser imaturo, irresponsável, egocêntrico e até cruel, às vezes, mas tu não és ele. Eu sei, eu vi. Nenhum de nós é. Temos traços da personalidade deles, claro que sim, mas nada do que eles são tem o poder de nos definir. Eu acredito nisso.

-Mas ... – ela abanou a cabeça proibindo-o de falar.

-Eu nunca percebi essa coisa das pessoas dizerem que tu e o Sirius são irmãos, mas agora percebo. É a mesma teimosia. Ele também acha que é o Sal...vive com essa culpa.

- O Sal... tu dizes isso, mas às vezes pareces Selene a falar. – ela encolheu os ombros.

-Não tem significado. Eu só sinto um pesar tão grande pelo que lhes aconteceu a todos. Quero muito mudar isso.

-Até por Gryffindor?

-Ele tem o dom de me arrepiar. – disse abraçando-se de repente. Ele quis abraça-la também - Acho que terá para sempre...nunca vou conseguir gostar dele. Mas ele foi mais do que aquele momento e ele tentou redimir-se quando percebeu a calamidade que provocou.

-Porque é que tu e o Sirius simplesmente não me contam e pronto?

-Não nos cabe a nós contar algo assim. Há caminhos que temos de percorrer sozinhos e tu precisas de ver por ti mesmo. Sentir... – a voz dela perdeu-se num meio soluço – só não sejas tão duro como estás a ser agora contigo mesmo. Há tantas coisas boas a que nos podemos prender, não vale a pena escolher as más.

Ele estufou o peito, sentindo-se a começar a respirar. Conseguia ouvir o próprio coração a bater descompassadamente, a responder às palavras da ruiva. Um orgulho do tamanho do mundo por dizer que conhecia o ser incrível à frente dele.

-Chegou a hora.

Ele acenou com a cabeça, mais confiante de que podia enfrentar tudo.

-Lily – ele disse puxando o queixo dela até o olhar. Ela não o afastou e ele susteve a respiração completamente maravilhado – é por isto que sempre me afastaste? Nunca aceitaste os meus pedidos...

-Tu não ouves o que eu digo Potter. Tu não és ele, nem nunca serás. Eu nunca aceitei porque és irrefletido e irresponsável, exibicionista , gabarola e um autêntico bisbilhoteiro! – James passou a mão nos cabelos nervoso com todos os "elogios" e ela revirou os olhos – James Potter tu tiras-me do sério.

Ele riu, apanhado pela familiaridade da situação . talvez ela tivesse razão.

-Lily eu nunca seria capaz de...de forçar algo assim.

Ela riu alto deitando a cabeça para trás e ele voltou a sentir-se desconfortável. Ela aproximou-se até ele conseguir contar cada pequenina sarda no rosto dela e foi presenteado com a sensação de ter o coração no estômago. "ela é absolutamente encantadora"

-Eu sei e mesmo que tentasses...não ias estar cá para contar a história. E... Potter? É Evans.

Ele sorriu.

A partir daí tudo aconteceu muito rápido. Sem saber como, Sirius estava ao seu lado novamente e ele abriu a porta da sala de Godric Gryffindor com os dois a vela-lo. Entraram juntos no cómodo e a sala não lhe parecia tão brilhante como das outras vezes. Olhou em volta e nada aconteceu até olhar o sítio onde vira Selene deitada, onde quase presenciara o terror...

Foi nesse instante que as memórias vieram. Começou com um som de gritos e depois um cheiro de sangue e então as imagens a discorrer lentamente, sem pressa. Em algum momento sentiu-se cair e ser amparado por Sirius...sentia a presença deles vagamente até finalmente cair no inconsciente.

Quando acordou quis voltar para aquele vazio onde não sabia que Godric Gryffindor tinha sido um canalha. Centenas de anos de uma vida a tentar colmatar os erros horríveis que cometera, para acabar a morrer sozinho.

Agora percebia porque eles nunca lhe tinham contado. Era de facto muito pior do que imaginava e ter de os enfrentar...saber que os três partilhavam aquela história horrível era algo impossível de carregar.

Mas quando abriu os olhos Lily sorriu-lhe timidamente, preparada para tudo o que viesse da parte dele. Sirius olhava-o preocupado, os lábios contraídos naquela expressão de sofrimento que nos últimos meses fazia parte dele. Ele achava que agora percebia porquê.

- Irmão? Devo...procurar uma nova casa para viver?

James olhou-o atónito. Insultado com a possibilidade de Sirius achar que deveria afastar-se dele. Uma raiva demoníaca como nunca sentira apossou-se dele e sabe que em algum momento isso extravasou porque Sirius aproximou-se preocupado.

- Prongs, calma. Prongs, não é assim tão mau... – disse tentando chegar até ele mas Lily impediu-o

- Deixa-o estar.

A calma dela era pior. Era ela quem deveria gritar de dor e partir tudo o que existisse para partir. Tudo o que lhe tinha sido feito , tudo o que Godric tinha feito...ele era um monstro horrível e ela tinha razão . Ele não era Godric, não podia ser porque de outra forma ele não tinha o direito de voltar sequer a olhar Lily Evans.

Sentiu a sua mão ferver e quando olhou percebeu que uma bola de fogo ardia dentro dela. Atirou-a contra a parede com a força toda que tinha mas outra surgiu, que ele atirou para o chão e sucessivamente novas bolas de fogo foram surgindo até ele perceber que estava a deitar fogo ao quarto.

-James que merda estás a fazer?

Lily permaneceu quieta com aquele sorriso silencioso nos lábios talvez um pouco orgulhosa dele, ele quis assumir. Agora já não sentia pena dela, antes uma vontade incrível de se punir por todo o mal que lhe tinha sido feito, misturado com o orgulho assombroso pela força que ela tinha e a vontade louca de a beijar sofregamente.

-Deixa arder. Que todo este lugar arda para sempre no inferno!

E depois de olhar bem o lugar a ser engolido pelas chamas, abriu a porta e saiu para o corredor, sendo imediatamente seguido por Lily Evans e Sirius Black.

Ele ficou a olhar aquela porta horrível até o fumo sair debaixo dela e foi nesse momento que Lily Evans fez algo que o maravilhou e surpreendeu. Ela passou três vezes em frente à porta, as três vezes em silêncio e a porta desapareceu.

- O que é que acabaste de fazer?

James não queria saber, mas quando ela respondeu ele teve a certeza absoluta que a amava profundamente. Sabia disso agora, como sabia a história de Selene e Salazar.

Lily encolheu os ombros, olhando os dois casualmente com um sorriso sincero por cima dos ombros.

-Vamos dar oportunidade a esta sala de refazer a sua história, de criar felicidade. De...atender às necessidades de quem a procurar se forem corajosos o suficiente para a encontrar.

Ele ouviu Sirius ecoar os seus pensamentos com a primeira gargalhada sincera que ele ouvia em meses.

O sol nascia lá fora. Nenhum dos três voltou a tocar aquela porta.

-Ainda bem que estão tão contentes – os três olharam Remus que aparecera do nada ao lado deles – Acho que temos um problema.

Lily olhou para ele de sobrancelhas cerradas.

-A Ana desapareceu.

Xxx

"-O que raio se passa?

-Os Marotos – disse um rapaz mais novo que elas que passava a correr para chegar ao hall de entrada e conseguir ver melhor o que se passava à frente da confusão.

-Os Marotos o quê? - Ana perguntou, mas o rapaz já estava a sair do salão e Lily já corria atrás dele.

Porque é que ela tinha a sensação que o que quer que se passasse, tinha a ver com o facto de Remus ter descoberto o que acontecera durante o seu lapso de memória?

Abraçou-se inconscientemente, ainda sentindo aquela sensação de impotência desmesurada agora que se lembrava de tudo o que tinha acontecido.

A raiva morrera rapidamente quando percebeu que Remus estava pronto para contar o que acontecera a James e Lily. A vergonha veio para ficar nessa altura. Vergonha de não se ter conseguido defender...de ter sido fraca...obrigara Remus a prometer que o assunto não sairia deles os dois.

Não precisou de andar muito para conseguir ouvir as gargalhadas e as vozes agitadas.

Havia uma roda gigante e ela teve que furar atrás de Lily que apelava ao crachá de Monitora para que lhe dessem algum espaço, mas quando chegou à fila da frente a primeira coisa que viu foram os olhos de Snape, negros. A única coisa negra por sinal, pois tudo o resto era cor de rosa choque, desde os sapatos até ao cabelo.

-O Snivellus precisava de um novo guarda roupa – Sirius disse quando acabou de tingir os cabelos de Snape de cor de rosa.

-Na na na Seboso, hoje não há varinhas. Hoje é um dia muito especial, vamos aprimorar e dar um bonito espetáculo.

Os alunos gritaram vários tipos de incentivos e os mais ousados lançaram uns piropos e uns elogios a um Snape que se dividia entre a vergonha absoluta e a vontada de estraçalhar o Maroto que apanhasse à mão.

Lily não pensou duas vezes em intervir como sempre fazia e noutro dia qualquer ela estaria na fila da frente a rir do espetáculo, mas não naquele. Ana viu Lily estacar presa ao chão quando percebeu que Remus era o impulsionador de toda a situação.

Remus e Lily trocaram um olhar rápido e surpreendentemente, este virou as costas à ruiva e aproximou-se de Snape, a quem sussurrou algo que mais ninguém ouviu. Do sítio onde Ana estava a cara de raiva de Snape foi bem óbvia.

-Dispersem! Desimpeçam o corredor se não querem apanhar uma detenção. - uma voz disse enquanto as pessoas à volta iam começando a desaparecer.

Mas ela ficou onde estava, porque não queria ir... uma mistura de sentimentos tão grande dentro dela por aquilo que Lupin estava a fazer, que não foi capaz de se mexer. Lily continuava petrificada a seu lado, visivelmente magoada com a atitude de Lupin.

Não havia ninguém no corredor agora além dos Marotos, Snape, a professora McGonagall, Ana e Lily . As restantes pessoas tinham dispersado. Um olhar de soslaio para Lily e Ana soube que a ruiva não ia perdoar Remus com facilidade.

-Quem vai começar por explicar o que houve aqui?

-Não é óbvio? Eles atacaram-me do nada! Professora alguém precisa de se responsabilizar!

-Ele insultou-nos e provocou-nos – disse Petegrew para grande surpresa dos presentes.

-Calem-se – ela mal levantou a voz, mas todos os Marotos se calaram – Miss Evans pode explicar-me o que aconteceu?

Ela mal ouviu Lily falar. Tinha o olhar preso em Lupin como se o estivesse a ver pela primeira vez. Nem a presença da professora McGonagall parecera enfraquecer a certeza do que tinha feito a Snape...a certeza da vingança. Vingança essa que ela nunca quisera.

-Não. Não vi tudo. - ela disse sem olhar para nenhum daqueles que considerava amigos.

-Conte o que viu.

-Quando cheguei os alunos estavam todos à volta deles e eu furei para tentar perceber o que se passava, apenas vi o Snape todo de cor de rosa e os Marotos a gozarem com a situação. Ia intervir quando chegou, professora. - ela olhou para baixo envergonhada.

-Muito bem, vá até ao professor Flitwick para que ele faça o contra feitiço pois se eu conheço esta cambada de arruaceiros, isso não vai sair com facilidade.

-Hmmm...insultar não é contra as regras? - Sirius perguntou com um pequeno sorrisinho.

Ana não ouviu o que se passou. Existiu sem dúvida um dialogo em que os Marotos levaram uma detenção, Sirius claro levou uma detenção maior por se armar em esperto com a professora McGonagall e Lily fugiu assim que a situação se acalmou, de lágrimas nos olhos.

Ana não seguiu a sua melhor amiga. Deixou-se ficar, o coração apertado a sentir-se responsável por ela estar tão magoada.

-Lily! Espera!

Mas ela não esperou.

A voz de Remus pareceu desperta-la.

-Esquece Remus, falas com a Evans mais tarde. Ela agora não vai querer ouvir-te. Anda, vamos almoçar.- Sirius daquela vez tinha toda a razão.

-Vão andando.

-E tu Ana? Acompanhas-nos? Gostaste do espetáculo? – James perguntou colocando um braço nos ombros dela.

-Foi...uma surpresa – disse sem deixar de olhar Remus que continuava de olhos presos no sitio onde Lily tinha desaparecido – Mas vou ver como está a Lily primeiro.

-Sempre a Evans – James suspirou – Ela tem sempre a atenção do meu melhor amigo e da minha prima, se o Sirius tivesse caído nos seus encantos estava tudo perdido.

Sirius riu alto.

-Não somos nós que andamos a perseguir a coitada da rapariga.

-Não é uma perseguição.

-Claro, é um conjunto de tentativas falhadas que não vão dar em nada. Vamos Prongs, estou cheio de fome. Moony não te martirizes.

Remus balbuciou qualquer coisa inteligível.

Ana engoliu em seco quando ficaram sozinhos no corredor.

-Eu pedi para esqueceres o assunto. – ela começou.

-Desde quando é que eu faço o que me pedes? Eu prometi que não contava a ninguém em troca de continuares o teu treino. Eu não disse que ia ficar quietinho.

-Se te pedi que não fizesses nada era porque sabia que no fim quem ia sofrer era a Lily – Remus desviou o olhar para ela e Ana baixou o seu para o chão – eu só quero voltar a esquecer o que aconteceu.

-Porquê? O que eles fizeram foi monstruoso.

-Porque eu devia ter conseguido defender-me. – o silencio vindo de Remus fez com que ela olhasse para cima – A Lily vai descobrir por ela quem o Snape é, mas eu não quero estar no meio dessa desilusão. Por favor... deixa este assunto morrer.

-Ana, não fiz isto pela Lily. Vai demorar algum tempo até que ela me volte a olhar na cara se queres que te diga. – silêncio – Teria feito o mesmo outra vez e isto não fica por aqui.

Era a primeira vez que Lupin tomava uma atitude que não era relacionada com Lily. Isso teve uma reação nela que ainda não conseguia explicar. Uma reação sem segundas intenções, sem o querer seduzir ou provocar... verdadeira. Um sentimento bom por ele, para variar.

Ela colocou-se em pontas dos pés, demasiado rápido para que Remus percebesse e plantou um beijo suave e doce. Ele não se mexeu. Ana não o largou."

Foi a primeira vez em muito tempo que desejou ceder aos seus poderes. Foi a primeira vez em muito tempo que voltou a sentir aquela raiva animal por Remus Lupin...aquela raiva que o ano passado fez com que quisesse matá-lo.

Em vez disso deu por si em frente à porta da sala do director de Hogwarts. Sentiu que ficou horas em frente à porta de mogno escuro enquanto a raiva a consumia, perdida em pensamentos obscuros e indecisa se devia ou não pedir as satisfações que queria àquele velho que a tinha usado.

Sentiu uma mão no seu ombro e virou-se assustada, mas era apenas Sirius. Tinha um semblante tão triste...viu-se espelhada naquela tristeza e a raiva diminuiu, mas continuava ali à flor da pele.

-Vem comigo, vamos dar uma volta.

Ela deixou-se ir, mão na mão, até aos jardins perto do lago e das árvores. A lua começava a diminuir e ela começava a sentir o poder que a lua nova ia trazer.

- O Remus contou-me o que aconteceu.

-Ele contou-te que pretendia abandonar-me em Avalon ? Todos eles? Fabian e a Lily? Até ...até o James? - a voz faltou-lhe por momentos - O meu próprio PRIMO? Eu apenas quero...

- Partir tudo à tua frente?

-SIM! Se não fosse pelo feitiço que fiz para proteger a Belatrix do Voldemort nunca estaria tão fraca... A visão não teria vindo com aquela intensidade e continuaria enganada...enganada até ao dia em que eles me abandonariam naquela maldita ilha para cumprir um ritual e tentarem salvar o mundo. Eu tenho o direito de saber o meu destino Sirius! Não é justo!

Não havia lágrimas para chorar mas mesmo assim Sirius puxou-a num abraço reconfortante.

-Claro que tens! Eles foram egoistas, não há ninguém que sofra mais com isto do que tu - ela não estava à espera dessas palavras, estava habituada a não existir compreensão da parte das pessoas, como se já todos estivessem à espera que ela cedesse ao seu lado monstruoso - eu sei... Eu sei o que é todos esperarem o pior de nós , procurarem as trevas que há em nós mesmo quando nós não queremos ser assim. O James... Ele viu mais em mim, fez-me acreditar que se eu era diferente não precisava de o esconder.

- Então porque é que comigo é tão diferente?

- não é diferente. Precisas de lhe mostrar que a prima querida dele ainda está aí.

- Eu...eu sou a mesma . Não mudei.

A voz tremeu-lhe.

Sirius deu uma das suas gargalhadas altas a fortes.

-Vem... - ele puxou-a para perto do lago - isso não é verdade e se queres ser melhor, se queres enfrentar o que está para vir e sobreviver tens de aceitar o que és. Tu mudaste tanto Ana ... Está na hora de encarar isso de uma vez. Vê!

Ela olhou o seu reflexo na água. Aparentemente parecia a mesma mas havia pequenas, ligeiras mudanças...as maçãs do rosto mais salientes, os lábios carmins mais desenhados quase que a cinzel, os cabelos longos negros e brilhantes e os olhos vivos de um azul cristalino tinham histórias para contar.

Ela entendia o que Sirius queria dizer, ela era uma succubus em todo o seu esplendor.

- O Remus sempre disse o contrário. Que eu devo retrair o que sou.

- O Remus pode parecer o mais sensato de nós, mas em relacao a ti ele está profundamente errado em tudo. Menos numa coisa.

Ela retirou os olhos do lago para olhar Sirius, curiosa apesar de não querer admitir.

- Ele gosta de ti. Pode não saber demonstrar mas gosta.

-Ele ama a Lily .

- Sim, à sua maneira. Não como pensas, mas daria a vida por ela sem pensar duas vezes.

- Então o que sou eu?

-Algo que ele não quer encarar. Ele desistiu desse tipo de amor à tanto tempo...tu estragaste-lhe os planos todos. Desafiaste-o e tocaste-o da pior maneira possível. Tu fazes com que ele se relembre que é um lobisomem e o meu amigo tal como tu ainda não aceitou quem é.- ela permaneceu em silêncio sem saber o que dizer – Sabes, essa condição não vos define mas se vive convosco porque não abraçá-la? Porque deixarem-se ser dominados quando podem controlar ?

- Eu sempre pensei assim, mas tudo o que ele fez foi amaldiçoar-me ,prender-me a ele...eu sei que fiz alguns erros Sirius. Sei que a minha natureza não está a meu favor mas...ninguém acreditou em mim . Todos partiram do pressuposto que sou um animal que deve ser enjaulado e eu preciso de mais. Não consigo viver só da energia do Remus...e eu preciso saber quem sou, de onde vim...

Sirius acenou com a cabeça .

- Se importa para alguma coisa,eu acredito em ti. Não consigo prometer que ele irá retirar a maldição, mas posso tentar falar com ele outra vez. E estou aqui sempre que precisares de ajuda para saber mais do teu passado.

- tu eras capaz disso Sirius? - disse deixando escapar o primeiro sorriso da noite.

- Saber quem são os meus pais não me deixa mais em paz comigo mesmo, pelo contrário, mas talvez contigo seja diferente. MasAna... Os teus pais irão ser sempre Joana e Artur Potter.

- tu acreditas mesmo... Que eu vou conseguir sobreviver a isto?

- ao contrário do que tu pensas, ninguém desistiu de ti. Principalmente a Lily e o Remus, os dois têm passado noite e dia na biblioteca à procura de uma forma de te livrar dessa maldição. E apesar de eles não quererem que tu saibas...talvez exista uma solução.

-porque ninguém me disse ?!

- porque acham que te devem proteger e de qualquer forma não há certezas de nada.

- eu...eu teria deixar de ser quem sou?

Sirius sorriu atirando os cabelos para trás da cara.

- Ana ...tu deixarás de ser uma succubus quando o sol deixar de nascer a este e pôr-se a oeste.

Algo dentro dela começou a respirar. Tudo seria mais fácil sem duvida, mas algo batia certo agora que sabia quem era...como Sirius dizia apenas tinha de aceitar.

- Eu não sei se o consigo perdoar.

- Se não o perdoares ele vai continuar a esconder-se atrás da necessidade de proteger a Lily. Vais-lhe dar a desculpa que ele precisa para te encarcerar.

-Eu não consigo fingir mais...

- Ana ensina-o a ouvir aquilo que tu já sabes.

-O quê?

- Que estás perdidamente apaixonada por ele.

- Eu não sei se...

- Não o negues. - ele interrompeu-a - Nunca negues algo como o que vocês têm. - e então baixou tanto a voz que foi dificílimo perceber o que ele disse - não faças como eu.

- Preciso de um tempo

- Pensa rápido Ana e não percas tempo que não tens - a verdade das suas palavras assustaram-no - Agora que historia é essa de fazeres um feitiço para proteger a Bellatrix do Voldemort?

Xxxx

Ela nem percebeu o que lhe caiu em cima. Num momento estava a andar para a sua sala comunal como sempre, no outro estava a ser prensada contra a parede. Literalmente sem ar, devido à pressão no seu pescoço provocada pela mão de Sirius.

- Eu não sei o que tu pensas que estás a fazer Bellatrix, a confraternizar com Voldemort, mas se pensas que te vou deixar viver para ires entregar Avalon a Voldemort estás muito enganada. Por isso pensa bem, pensa bem nas tuas próximas palavras.

A pressão diminuiu ligeiramente e ela encontrou duas golfadas de ar para poder rir escarnecidamente da cara do primo. A pressão voltou a aumentar.

- Isto não é uma piada! - ele aproximou-se até os lábios dele tocarem a orelha dela. -eu acabo contigo num piscar de olhos.

- Como se fosses capaz

- Tu não sabes do que sou capaz - ele rugiu mas ela não tremeu de medo como ele queria.

- Diz-me ...o que a Evans ia pensar se te visse a tentar matar-me?

- Não me importa o que ela pensa contanto que esteja a salvo.

-A salvo de quem? De Voldemort?

- De Voldemort ou de ti é a mesma coisa.

- Ninguém está a salvo dele.

- Já falas como uma verdadeira nojentinha do seu círculo de cobras.

- Achas mesmo que me ia entregar a mim mesma? Ele mata-me se souber a verdade Sirius! Tu sabes isso! Sobre o que é que é isto de verdade?Queres uma repetição da sessão da semana passada?

Ela viu os olhos dele estreitarem-se em menção à noite de sexo que tinham partilhado.

- Tu não vales nada...eu tenho nojo de ti.

- Nojo? Não pareceu ser nojo aquilo que sentiste.

Aquilo pareceu silencia-lo. Ele libertou a pressão do pescoço dela e afastou-se e Bellatrix fingiu compor as suas roupas enquanto procurava a varinha . Ouviu-o rir e quando olhou para Sirius já sabia que a sua varinha estaria na mão dele.

- Pelos vistos a fama precede-te.

- não posso dizer o mesmo de ti . A tua fama de ordinária fica atrás da realidade.

- A tua mãe nunca deixaria que falasses assim comigo.

Ele apontou a varinha dela diretamente ao coração. Tal como esperava, trazer a sua tia à conversa iria sempre enfurece-lo.

- Bella ...- o nome pelo qual ele a tratava em pequena deu-lhe arrepios.- o tempo em que usavas a minha querida mãe para me fazer pagar por algo, já acabou à muito tempo.

- e o que vais fazer? Sabes o que a tua querida Evans diria se te ouvisse a ameaçar-me ?

-Não te atrevas a dizer o nome dela DEPOIS DE TUDO O QUE FIZESTE! - por momentos assustou-se . Aquela febre no olhar era de uma pessoa capaz de tudo e ela bem sabia que Sirius não tinha nada a perder. - a Lily pode querer acreditar que tu mudaste mas eu sei perfeitamente quem tu és e o que desejas. Acabo contigo antes de poderes dizer abracadabRa.

-Nunca disse que tinha mudado. Mas foi tão fácil para ti acreditar que eu era esse monstro que tu sempre pintaste.

Assim que ouviu o que tinha dito deu uma estalada mental na própria testa. Passado anos de desprezo é que se lembrava agora de começar a dizer a verdade?

Para seu alívio, ele voltou a rir.

-Percebe bem Bellatrix porque não vais ter outro aviso: Nem a promessa que fiz à tua irmã me vai impedir de acabar com a tua raça se tocares com um dedo em Lillian Evans.

-Aviso recebido – ela retrucou tentando manter a calma perante o olhar mortal. – Sirius? – ele virou-se, mas foi lento de mais. – Estupefaça!

O primo caiu desacordado no chão. Ela passou por cima dele, abaixando-se para apanhar a sua varinha e guardando a varinha suplente que usava para todo o lado.

- Idiota! -disse com desprezo, a respiração acalmando ao fechar as mãos sobre a sua varinha novamente – devias saber que não se vira as costas a uma cobra. Idiota- voltou a dizer desta vez dando-lhe um beliscão como fizera tantas vezes enquanto eram crianças.

" Com que então uma promessa a Andromeda para me vigiar? Dois burros! Sou sempre eu que tenho de tomar conta de vocês!"

Suspirou alto, enquanto olhava a cara do primo desacordado. Já tivera melhor aspecto. Mesmo assim, era o rapaz mais bonito que aquela escola de merda já vira. Assustou-se quando deu por si a retirar uma mecha do cabelo negro de cima dos olhos e a relembrar a noite que tinham tido.

Não com a raiva do costume, mas com desejo das mãos dele em todo o lado. Se ele soubesse que tinha sido a primeira vez ...talvez tivesse sido diferente.

"Filho da Mãe! Não é tarde nem é cedo!"

Num desatino e sem pensar, pegou na varinha e levantou a camisa de Sirius. "Vais aprender que ninguém brinca com Bellatrix Black... muito menos tu!"

Levantou-se orgulhosa do seu trabalho e deu um ultimo olhar ao primo antes de virar costas. "Ele vai ficar tão furioso..." Isso pareceu faze-la rir ainda mais. Quando deu por si estava a rir descontroladamente enquanto desaparecia no corredor a imaginar a cara do primo quando acordasse.