Do or die/Part 1
Dia 31 de Outubro. Em qualquer um dos seus mundos, bruxo ou Muggle, era um dia para celebrar. Lily acordou com um sorriso na cara, animada, pensando que talvez, apenas talvez hoje o dia lhe trouxesse razões para sorrir.
Ana, Marlene e Alice ainda estavam a dormir e ela passou os olhos por todas as suas colegas no dormitório com uma sensação quente no peito.
Ana continuava aborrecida com ela e Lily sabia que ela tinha razão. Sempre fora contra não contar a Ana os sacrifícios que lhe estavam a exigir que fizessem, mas ninguém lhe deixou contar. O próprio Dumbledore encarregou-se disso.
"-Ana por favor tenta entender – ela dissera-lhe, mas tinha sido a escolha de palavras errada.
- Não há nada para entender. Tu tens um papel a cumprir e eu tenho o meu.
-Ana ...todos nós estamos a lutar por ti. Ninguém desistiu. O Remus...
-Não me interessa o que o Remus pensa – Ana cortou e Lily calou-se, percebendo que Remus era um assunto ainda mais delicado.
Ana virou costas, pronta para sair do dormitório, mas parou a meio caminho.
-Não sei como passar à frente disto- não estou preparada para algo assim...abandonar todos os que amo e passar o resto da minha vida numa ilha proscrita...não sou assim tão altruísta.
-Ele está devastado.
-Tu não estás a ouvir Lily. Isto não é sobre o Lupin, é sobre mim.
-Não vai chegar a isso.
-Tu não sabes.
-Não, mas ainda não é tempo de cruzar os braços.
Ana não retucou, mas Lily sabia que não acreditava em uma palavra do que tinha dito.
-Mesmo que seja assim, vais querer passar o resto do tempo longe do Remus?
-Ele usou-me
-Ana
-Foi tão difícil começar a confiar nele. Ele não podia ter feito isto."
Ela acreditava, sabia que iam encontrar uma solução. Não havia outra hipótese.
Sem conter a excitação, levantou-se e começou a arranjar-se lentamente.
Talvez por ser um dos primeiros dias desde que voltara ao castelo, que não tivera um sonho ou pesadelo, tudo parecia tão bom. Sem sonhos com antepassados lunáticos, sem sonhos da sua relação avassaladora com Sirius, apenas um sono profundo e descansado.
Deixou um bilhete e desceu a cantarolar uma música muggle. O salão principal estava quase vazio, mas isso não a desanimou. O professor Dumbledore, no entanto, estava presente e conversava animadamente com o professor Flitwick.
Ela abriu um dos seus livros de leitura, mas não conseguiu ler durante muito tempo.
Os Marotos entraram no salão a rir, nas suas brincadeiras costumeiras que ela não entendia e preferia não entender. Assim que a viu, Remus afastou-se dos rapazes e dirigiu-se a ela ainda com um sorriso no rosto. Era tão bom vê-lo assim, uma vez que os últimos dias mal tinha ouvido uma palavra da boca dele e o olhar frustrado das vezes que tentava falar com Ana e não conseguia, era uma constante. Para seu desapontamento, os restantes Marotos vieram atrás deles, com o Potter a cochichar qualquer coisa no ouvido de Sirius.
Engoliu em seco. Vê-lo continuava a provocar nela múltiplas sensações e a ruiva sentia uma urgência enorme que tudo aquilo parasse, que ela conseguisse seguir em frente. Ela devia ter percebido exatamente naquele momento, que o seu dia estava prestes a ir por água a baixo.
-Bom dia Lily
-Bom dia flor
- Bom dia – disse puxando uma cadeira para o seu amigo e ignorando, determinada, a voz de Potter. Nem valia a pena lutar contra a maré, sabia perfeitamente que os restantes se iam sentar ali.
-O que aconteceu para estares tão animada? E a ler o teu livro preferido.
Ela sorriu. Se alguém conseguia reparar naqueles minúsculos pormenores era Remus. Deu de ombros.
-Nada de especial. Apenas uma boa noite de sono. – isso pareceu anima-lo – e vocês? Posso perguntar o que é que os desordeiros do costume fizeram para que aparecesses com esse sorriso no rosto ou é melhor nem perguntar?
O sorriso no rosto de Remus desapareceu rapidamente e Lily sentiu um calafrio de mau presságio.
-Eu esqueci-me dos livros na torre. Volto já.
-Onde é que pensas que vais Padfoot? – o Potter disse agarrando o amigo por um braço. Isso fez Lily querer correr dali – estás com vergonha da Evans? Nós podemos confiar nela, ela não vai contar a ninguém .
-Prongs.
Remus tentou avisar, mas quando o Potter começava com aqueles arranques ninguém o conseguia travar.
A curiosidade levou a melhor nela ao ver o olhar incomodado na cara de Sirius.
- Duvido que o Black tenha vergonha do que quer que seja a contar pelas vezes que o Remus o apanha com as calças na mão em lugares públicos. – com o Sirius era sempre assim, ela nunca conseguia controlar o seu lado malicioso.
-Foi uma vez – Sirius comentou baixinho entre um gemido desesperado e um sussurro. – e não vai voltar a acontecer.
Ela nem se dignou a responder, baixando os olhos envergonhada.
-Bem Lily, se te queres sentir melhor, "É Evans, Potter", precisas de saber que as escapadinhas noturnas de Padfoot desta vez fizeram com que ele ganhasse uma tatuagem bem peculiar acima do ...
-Prongs! Por favor eu prometo que isto vai ter volta.
-Uma tatuagem? – ela perguntou com a boca seca.
-Sim de uma das suas admiradoras. Um B muito bem desenhado que termina numa lindíssima cobra verde esm...
Mas o Potter acabou a sua verborreia quando Sirius lhe lançou um feitiço, imobilizando-o e fazendo-o despencar da cadeira.
Um silêncio ensurdecedor tomou conta dos três que restaram à mesa. Remus olhava de um para o outro, abria e fechava a boca até que desistiu, suspirou pesadamente e decidiu que o teto era demasiado interessante. Sirius olhou para a ruiva à espera de uma reação que não veio, uma vez que ainda se encontrava petrificada.
Como é que depois de todas as abnormidades que Sirius tinha feito, aquilo ainda mexia com ela daquela forma? Como é que se deixava afetar a cada comentário, de cada vez que sabia que ele dormia com uma rapariga diferente? E aquele olhar dele de quem se preocupava com ela piorava tudo! Odiava-se por se importar, achava-se uma idiota por se expor daquela maneira.
-Lils
Sentia-se quebrar sempre que ele dizia o seu nome. Encostou a cadeira para trás, afastando-se o mais possível dele, indecisa se saía ou não da mesa. O barulho pareceu silencia-lo.
O Potter desfez-se rapidamente do feitiço e revidou na mesma moeda a um Sirius que ficou imobilizado.
- Para que é que foi isso? Não me digas que não gostaste do presente dessa mulher corajosa? E ele não nos diz o nome dela acreditas Evans? Eu e o Remus já tentamos de tudo. Não é Bianca, Barbara, Beatrice ou Bethany. Será Bella? Andaste a dar umas voltas com a Bellatrix? Que nojo Padfoot, para além de ser tua prima é um diabo.
Podia ter escapado a qualquer pessoa, mas Lily achava que depois do ano passado conhecia um pouco Sirius. O olhar nervoso do moreno dos olhos mais bonitos que ela vira em toda a sua vida, não lhe escapou. Potter tinha acertado em cheio.
Merda!
-Tenho de passar pela biblioteca.
Saiu a correr da mesa sem olhar para trás, sem querer saber.
Definitivamente não sabia lidar com Sirius. Quem diria que acordara tão feliz! Era sempre assim... quando se sentia tão corajosa e forte, pronta para enfrentar tudo o que viesse, vinha algo que lhe mostrava que em relação a Sirius, tudo era fresco, tudo era dor e toda a paixão e amor, era para ficar.
"5º Ano-Festa de Halloween do :
Remus intercetou-a segundos depois de ela virar costas a Severus. Aquelas discussões eram cada vez mais comuns e Lily sentia que a pouco e pouco perdia o seu amigo de infância para algo que não compreendia completamente.
Não queria ver o rosto bondoso de Remus naquele momento. Tudo o que queria
era sair para longe dali, das pessoas, sentir a relva nos pés, ouvir todos os animais da
floresta e sentir-se em casa. Exatamente como Selene lhe ensinara a fazer para se acalmar.
Ela ficou à espera das palavras de conforto que não vieram.
Remus puxou-a num movimento extravagante para dançar. O silêncio era
pesado, o rapaz loiro olhava as pessoas à volta deles sem muito interesse.
-Amos Diggory e Anna Abbot
-Promissor jogador de Quiddich e a filha de uma antiga família do mundo bruxo,
para além de uma pessoa muito inteligente – a ruiva comentou
-Lucius Malfoy e Narcisa Black
-Algumas doações devem ter intercedido aí.
Remus sorriu apesar de ambos saberem que não era verdade.
-Andromeda Black e Ted Thonks
-Os nossos Mui nobres Monitor e Monitora Chefe
-James Potter e Ana Smith
-O mais novo capitão da equipa de Gryffindor e arrogante filhinho do papá e a sua
adorável prima.
-O nosso professor elitista é um cliché ambulante. – deu de ombros como se fosse
um dado adquirido do mundo.
Era isso que Lily adorava em Remus. A capacidade para se conformar, parecia
tudo tão mais fácil... não havia rancores, ele aceitava o que a vida lhe dava e
seguia em frente.
A mão de Remus era forte contra a sua cintura. Como a amizade entre eles,
sempre foi firme. Ele sempre sabia o que fazer e ela preocupava-se em lembrar-
lhe que a vida merecia ser vivida.
Lily agradeceu-lhe internamente por Remus não falar em Severus.
-Remus Lupin e Lily Evans – disse com um sorriso, olhando pela primeira vez
que a chamara para dançar nos olhos esmeralda dela.
-Os maiores bruxos que alguma vez o mundo bruxo terá o prazer de conhecer.
Simples assim, como se fosse uma promessa só para os dois.
-Poderia conceder-me uma dança Miss Evans? O Prongs precisa urgentemente da tua
ajuda e de um pequeno conselho.
E como que do nada ali estava Sirius Black, com as suas aparições inoportunas e
surpresas.
-Sirius Black – Remus continuou dando-lhe o dom da palavra
- Uma mente brilhante, não fosse pelo facto de preferir gastar o tempo dele com o arruaceiro do Potter e a arrasar corações por esses corredores.
-Eu, o Prongs e o Moony – o moreno disse carregando no nome do Monitor que se fez desentendido – distribuímos um bem publico e quanto a esses corações... eles arrasam-se sozinhos, eu nunca olhei duas vezes para eles. Não sou como o Prongs.
-Padfoot! Porque deveria trocar a companhia da mais bela rapariga aqui
presente pelo meu amigo?
-Remus! – repreendeu. Sentia as maçãs do rosto a escaldarem com o
comprimento. – Não será preciso – tentou dizer, largando uma das mãos de
Remus. O Black não precisava de dançar com ela, para a manter ocupada. Não era
como se quisesse trocar qualquer palavra com o moreno.
-Eu vou ver o que posso fazer por James – o loiro disse interrompendo o que Lily
ia dizer e entregando uma das suas mãos a Sirius. – Lily eu gostaria de ter o meu
amigo vivo no final da noite.
-Não é como se fosse mata-lo aqui com tantas testemunhas Remus. Agradeço a ideia – a ruiva sorriu piscando-lhe o olho .
-Sirius, cuidado que ela morde.
Sirius riu como se fosse completamente impossível o que Remus tinha acabado
de dizer. E de repente, sem aviso prévio, Lily estava a rodar com Sirius Black
pelo salão, os braços dele em volta dela e os olhos penetrantes postos em Lily.
Sabem aquele espaço de segurança que todas as pessoas têm e que quando
ultrapassado, as pessoas inconscientemente se sentem inseguras?
Não havia qualquer espaço de segurança quando se estava com Sirius Black.
Tudo nele era demasiado envolvente, o mais pequeno gesto. Por meio segundo
Lily sentiu-se como todas aquelas meninas idiotas de Hogwarts que se atiravam
para cima dele. Mas passado esse segundo tudo o que Lily queria era conhecer
melhor Sirius Black. Lily tinha a certeza que havia uma história imensa para
descobrir.
-Sirius... – ouviu-se dizer – é a estrela mais brilhante do céu nocturno. Pode ser
vista a partir de qualquer ponto da Terra.
-Uma fã de estrelas?
-Em parte – disse com um pequeno sorriso, não querendo que as memórias de
infância viessem ao de cima naquele exato momento.
-Selene – ouviu-o dizer com uma voz profunda e certa. Sirius era alto, pelo menos
mais uma cabeça do que Lily. Aquele nome sempre mexera com Lily, ela sentia
uma necessidade imensa de olhar Sirius nos olhos e saber o que ele conhecia de
Selene - Ela dirige a sua carruagem pelos céus e responde por
outro nome: Luna... era conhecida por curar os amaldiçoados da sua dor – a sua
voz morreu e Sirius agarrou uma madeixa ruiva do cabelo de Lily.
Era sempre tão estranho estar perto de Sirius Black. As suas reacções e acções
eram sempre uma surpresa. Sirius Black era uma caixa de surpresas , que não
ligava a conceitos sociais ou o que quer que a sociedade lhe dissesse para fazer.
Lily admirava isso nele. O jeito como ele olhava para ela, como se não existisse
mais ninguém ali, era desconcertante e intimidava-a fazendo com que ela nunca
soubesse muito bem se queria ou não estar perto de Sirius.
- Selene era mais que isso. – ouviu-se dizer – Selene foi a única e verdadeira paixão de
Salazar Slytherin.
Ela sentiu a mão de Sirius parar de acariciar o seu cabelo, como se bebesse cada palavra do que ela tinha acabado de dizer. A ruiva não sabia quando, nem como, mas tinham parado de dançar e ela finalmente ganhou coragem e olhou Sirius. Ele tinha
fantásticos olhos azuis escuros, como o céu nocturno . o seu semblante era sério e
taciturno, as sobrancelhas em forma de asa contraídas , formando uma bonita ruga .
-Fã de mitologia? – disse. A voz dela era rouca e percebeu que precisava de uma bebida.
Ele deixou escapar um riso e Lily percebeu que Potter era o rapaz dos sorrisos naquele
grupo. Sirius sorria como Remus, sem alegria e vontade, mas como um espelho do que
lhes ia na cabeça.
Estava novamente a dançar com Sirius Black. Quando dançava com Sirius , ele puxava as pessoas para si, como se não as quisesse largar. A forma como lhe agarrava uma pequena parte do tecido do vestido, era um movimento sôfrego. Desta vez Lily não prestou atenção às pessoas à sua volta, rodopiando pelo salão e aproveitando o momento que era ter uma conversa civilizada com Sirius Black.
Mais tarde nessa noite quando se deitou, Lillian Evans sonhou com o amor
impossível de Selene e Salazar.
Ana entrou no salão principal no dia a seguir cheia de boa disposição.
Lily já se encontrava à mesa com a cabeça pousada em cima dos livros. Foi a pessoa que ela não queria ver que lhe desejou os bons dias.
-Bom dia Lily. – ao que a amiga resmungou um cumprimento.
-Ressaca – o loiro esclareceu – Nem foi capaz de cumprir com as suas obrigações de Monitora, tive de distribuir sozinho os cartazes do baile.
-Desculpa Remus – veio o lamento da ruiva
-Qual baile?
-De Natal. NA semana anterior ao nosso jogo contra os Slytherin.
-Óptimo . Isso significa que temos um mês para encontrar o teu admirador secreto Lily . anima-te, nós não vamos permitir que vás sozinha ao baile.
-Eu não vou sozinha , vou com o Remus. – a ruiva resmungou
-Começo a ficar magoado por os outros saberem dos meus convites primeiro do que eu.
-Tens outra companhia em mente Lupin ? – a ruiva perguntou com uma sobrancelha levantada.
-Quer dizer.. não , claro Lily – a ruiva voltou a apoiar a cabeça nos livros depois da resposta gaguejada do amigo
-De qualquer das formas, isso não tira o Lupin da nossa lista.
-Eu já vos disse que o Remus pode e deve ser tirado dessa lista.
-Qual lista e porque é que eu estou inserida nela?
-Elas acham que tu podes ser o meu admirador secreto – Lily respondeu fazendo o rapaz engasgar-se e cuspir metade do sumo de abobora.
-Apesar de eu te admirar Lily, não me parece que isso seja muito secreto .
-Eu já lhes disse que até de olhos fechados era capaz de te reconhecer, mas elas não me dão ouvidos.
-Isso não é uma frase muito bonita para se dizer – Ana comentou enquanto acenava para Marlene e James, o que fez com que Lily resmungasse baixinho – disseste alguma coisa Lily?
-Porque é que agora temos que começar a fazer as refeições todos juntos?
-Lupin podes fazer alguma coisa com o mau humor da Lily? – disse com descaso – olá, bom dia aos dois.
-Eu não sou um boneco para o Remus concertar, Ana – a amiga deitou-lhe a língua de fora.
-Oh a nossa lista... O Lupin já está fora?
-A Lily diz que é capaz de reconhecer o Lupin até de olhos fechados Marlene, eu não sei bem o que ela quer dizer com isto mas...
-Eu tenho a dizer que já fazias da nossa amiga uma mulher honesta Lupin! – Marlene apontou-lhe um dedo, debruçada sobre a mesa.
Remus levantou as duas mãos em sinal de redenção.
-Deixem de o atormentar , não veem que está aterrorizado?
-Eu se fosse a ti James, ficava fora de toda esta história. Elas têm uma lista.
-Uma lista? – O moreno chegou-se à frente para ouvir melhor – como assim?
-Uma lista e tu estás em primeiro lugar Potter. Toda a gente sabe que tu tens uma paixão secreta pela Lily.
Foi a vez de Lily levantar as mãos em sinal de redenção.
-Eu não as conheço , elas não são minhas amigas.
-Eu não tenho paixão secreta nenhuma pela Evans.
-Olhem bem para ele, o Potter gosta de tudo às claras, quanto mais pessoas assistirem melhor. Ele nunca na vida seria capaz de pensar em algo assim.
- Hey! Não me parece que as raparigas deste castelo tivessem algo a reclamar
-Eu não sou as raparigas deste castelo – disse levantando-se e levando a mão à cabeça – ai! Ai! - Potter gargalhou alto .
-Eu achei que tu nem apreciasses a atenção deste admirador – Remus alfinetou
- Se não for o James , temos sempre o ...Sirius , bom dia!
-Bom dia, Ana.
-O quê? o Padfoot também está na lista? – James perguntou de boca cheia.
-Qual lista?
-Já chega! Estou farta de ter amigas que não dão valor à minha privacidade. Adeus, até poções.– Lily disse e saiu em disparada do salão principal .
- Acho que a envergonhamos...
-Isto foi tudo porque eu cheguei? – Sirius perguntou.
Ana riu enquanto passava a lista a Marlene para que esta a continuasse a estudar"
Ele viu-a chegar num vestido de lantejoulas verde escuro que definia todas as suas curvas e que deslizava até ao chão, abrindo de lado e expondo um pouco mais das pernas da ruiva do que ele gostaria. Suspirou fundo, pensando que já tinha ganho a noite apenas por conseguir vê-la assim.
Depois de o convencer a ir àquele baile elitista, Padfoot desaparecera atrás de alguém e ele ficara sozinho, ora encostado a beber algo, ora a conversar com um dos muitos convidados que se aproximavam dele e lhe perguntavam se era filho de Fleamount Potter.
"É claro que sou filho do meu pai, seus idiotas, sou a cara chapada dele", pensava, apesar de cumprimentar polidamente.
- Peço desculpa, Miss Clearwater vou ter de interromper a nossa conversa por momentos.
Ele agarrou rapidamente dois copos de firewhisky quando viu Diggory a aproximar-se rapidamente da ruiva que ainda se encontrava sozinha a observar o local.
-Evans – sentia-se nervoso, mais do que o normal, ao lado dela. – Uma bebida?
-Potter – ela cumprimentou – lembro-me bem da ultima vez que me ofereceste uma bebida.
-Também te deves lembrar que paguei em dobro a brincadeira. – disse estendo-lhe de novo o copo.
-Verdade.
Ele sorriu ao ver que lhe arrancara um bonito sorriso.
-Onde está o Moony? Pensei que ele viesse contigo.
- A esta hora ainda deve estar à espera da Ana. – disse finalmente aceitando a bebida. – a tua prima é de uma teimosia exemplar.
-Corre no sangue, é de família . O quê?
- Eu tenho receio que estejamos todos a tomar o caminho mais perto para a afastar de nós.
"Eu também...cada vez mais."
-O que se passa? James Potter sério não é uma visão que eu tenha todos os dias.
Ele riu. Se ela soubesse... depois de ter relembrado as memórias de Gryffindor, tudo mudara.
- É difícil reconhecer a minha prima.
-Pareceste o Remus a falar.
-Eu concordo com ele em muita coisa.
-Eu não.
-É difícil ver a minha prima debaixo...daquilo.
-Agora pareceste o Godric – disse mexendo-se desconfortavelmente, mudando o peso de um pé para o outro.
James sentiu-se desconfortável também, quase paralisado.
-Respira Potter, não estou a comparar-te com ele dessa forma. Só acho que estás a ser preconceituoso. A Ana continua a ser a tua prima e precisa mais do teu apoio do que nunca. Imagina como ela se deve estar a sentir, a pensar que todos os amigos dela, família e namorado iam abandona-la sozinha numa ilha milenar para conseguirem salvar o mundo.
-E se não conseguirmos? Se perdermos a humanidade dela?
Essa era a verdadeira razão do seu afastamento para com Ana. Ele não sabia lidar com isso, não sabia o que fazer com essa possibilidade.
James deixou de olhar para ela para observar o seu professor e anfitrião da festa. Ele sentia uma culpa horrível pelas palavras da ruiva. Sabia que ela tinha razão.
- Sinto-me tão perdido como a Ana nesse assunto, Evans.
Ele viu-a confusa e franzir as sobrancelhas. Abriu a boca para lhe dizer alguma coisa e ele quase riu. "Como é possível ela ser tão arrebatadora?"
-Miss Evans, Mr Potter, que bom que conseguiu comparecer. Tenho uma surpresa para si esta noite. Deve estar a chegar a qualquer instante. - Onde está o nosso amigo especial? Pensei que viria com ele.
- O Remus não pode comparecer professor.
-Não estou a falar do Richard Lily, apesar de ele ser um ótimo aluno.
-Remus, Professor. Chama-se Remus Lupin.
-Exacto Mr. Potter. Mas referia-me antes à minha dupla maravilha: Mr Snape.
Lily abriu e fechou várias vezes a boca, incomodada. James decidiu intervir.
-Miss Evans deu-me a honra de me acompanhar nesta noite.
-Oh estou a perceber . – O professor disse rapidamente.
"Não está a perceber nada, o velho fofoqueiro. Quem me dera que ela aceitasse um passeio nos jardins, quanto mais acompanhar-me num evento destes."
-Entendeu errado professor. Eu e a Evans fazemos parte da direção do clube de duelos e como temos coisas a discutir decidimos vir juntos... como colegas de trabalho – acrescentou rapidamente ao ver o olhar de Lily.
-Muito bem Mr Potter, nesse caso espero que não desapareçam. Não esqueçam que tenho várias surpresas para os dois ao longo da noite.
-Com certeza professor, agora com a sua licença vou levar Miss Evans para um passo de dança.
Ele não esperou pela aprovação de Lily. Sem saber como conseguira não meter o pé na argola até ali, conduziu-a numa musica não muito lenta pelo salão.
Ficaram vários segundos calados, segundos que se transformaram em minutos com um James Potter cheio de medo de fazer algo de mal que a levasse a expulsa-lo com feitiços da frente dela.
Era talvez a vez que tinha estado mais perto da ruiva. Mal se atreveu a mexer a mão que se encontrava nas costas de Lily ou a dar um paço em frente e fechar mais o espaço entre eles. Respirou fundo tentando decorar cada momento, cada detalhe, inalando o seu perfume e rezando para que nunca se esquecesse daquela sensação.
-Potter?
Ele olhou finalmente nos olhos da ruiva mas não falou, apenas lhe fez sinal para que falasse. Ela bateu-lhe no ombro.
-Para que foi isso?
-Isso foi por dizeres que vínhamos juntos.
-Preferias explicar porque não vens com o Sniv...Snape à festa do vosso queridinho? – ele alterou ao ver as sobrancelhas da ruiva franzirem-se.
-Não te aproveites disso para espalhar à escola toda que temos um encontro.
-Eu não era capaz de ...bem na verdade talvez fosse capaz de fazer isso. Mas não vou- acrescentou rapidamente.
Eles dançaram calados mais um bocado. Ele não podia acreditar na sorte que estava a ter. Observou-a de perto, o semblante carregado que era tão usual nela nos últimos tempos.
-Pergunta.
-O quê?
-Quase consigo cheirar a tua ansiedade Potter.
-Andas a usar os teus poderes comigo?
-Não é de todo necessário. És demasiado óbvio.
-Com medo?
-Do quê?
-De espreitar como me sinto quando estou perto de ti Lillian Evans.
Ela riu, um risinho feminino e bonito. Meio nervoso, em que ela precisou de segurar o ombro dele para se equilibrar e ele desejou que ela nunca tirasse a mão dali.
-Potter essas cantadas não funcionam comigo. Já deverias saber.
-Acho que passados cento e trinta e sete pedidos para sair negados, eu deveria saber isso.
Para sua surpresa ela não retrucou como era usual em si. Aquele perfume incomparável invadiu-o. Depois de ter as memórias de Godric, tudo se tornara tão urgente, principalmente explicar-lhe o que sentia, mostrar-lhe que era diferente daquele monstro. A sua atenção ficou presa, como tantas vezes, nas orelhas pontiagudas de elfo que ela escondia com um feitiço e que apenas ele e os restantes guardiões conseguiam ver.
Tão delicadas...
-Não devias esconde-las.
-o quê? Oh – disse levando uma mão a uma das orelhas quando viu onde o seu olhar repousava– são estranhas não são? Já imaginaste as atenções desnecessárias que iria trazer se todos conseguissem vê-las?
-São perfeitinhas. – ele respondeu rápido demais, calando-se de imediato.
Ela tinha esse poder nele. Faze-lo expôr-se ao ridículo daquela forma.
-Se fosse comigo eu não ia querer esconder.
-Quando for contigo vais ter a oportunidade de escolher e tenho a certeza que não vais querer expor ao mundo todo que és "diferente".
Por várias vezes James pensara como seria consigo, quando fizesse o ritual como Lily e Fabian tinham feito. Que parte do seu corpo e como é que a magia se iria manifestar.
-É tão diferente não é? Do ano passado? O ano passado estávamos todos aqui. Eu trouxe o Remus, a Ana ainda era feliz, a Marlene trouxe a Alice e as duas fizeram a vida de Fabian um inferno. Tu estavas irritantemente bêbado e o Sirius acabou a tomar conta de ti e... – ela pausou momentaneamente, o olhar perdido no vazio – O Severus ... – novo silencio.
-Tu e o Snape ainda eram amigos. – ele tentou ajuda-la a acabar o raciocínio.
Ela fechou os olhos, os lábios levemente abertos e James sentiu as suas tão familiares borboletas no estômago.
-Não, não de verdade. Mas ainda não estávamos de lados opostos.
Ele rodou-a fazendo o vestido cintilar. Quem diria quando acordou de manhã que estaria naquele momento a dançar com Lillian Evans? Nem nos seus sonhos mais coloridos. Lembrava-se do dia em que percebera como a ruiva era linda. Na altura era um idiota, agora conseguia perceber. Lily era muito mais do que ele alguma vez achara.
"Em dias de baile não havia nada mais importante do que o tempo. Para uns precioso e para outros algo absurdo. James estava sentado no salão comunal, à espera tal como todos os outros Marotos, que os respetivos pares descessem a maldita escada que dava para os dormitórios femininos.
-Tanto tempo! Qual é o problema destas miúdas? É só um baile, não um casamento! -Sirius comentou irritado da espera.
-vale a pena esperar Almofadinhas. No fim sempre compensa.
-Fala o entendido – disse dando um cachaço em Petigrew.- E elas nem sequer são os nossos pares! Imagina se fossem...
-Se quiserem podem ir andando – Remus apontou já cansado do queixume.
De repente algo lhe saltou para o colo, era felpudo e extremamente vermelho e quando ele olhou para baixo tudo o que conseguia ver eram uns olhos muito verdes a olhar para ele.
-Olá – ele disse – eu conheço-te... tu és a raposa da Evans. – disse passando a mão pelo pêlo - a tua dona não vai gostar nada de te ver aqui comigo.
Padfoot assobiou alto e desencostou-se do cadeirão para ir até à escada, no que entretanto James se virou para ver o que tinha chamado a atenção do amigo. Sirius fazia uma vénia ridicula enquanto puxava a mão de Ana com cuidado. Ela sempre fora bonita, por isso não percebia o porquê dos seus três amigos olharem a sua prima daquela maneira, ela sempre fora a boneca da familia, a protegida. Ele sempre a vira assim, linda e perfeita. Por isso cumprimentou-a apenas com um pequeno sorriso cúmplice e não com o alarido que a rodeara.
Ela fazia agora o caminho de braço dado com Sirius até às poltronas onde eles estavam.
-Cuidado com essa raposa, ela não costuma ter qualquer tipo de afecto, excepto pela Lily.
Um sorriso travesso passou-lhe pelos lábios enquanto a raposa se roçava na palma da mão dele, delicadamente. Demorou uns momentos a aprecia-la, até Sirius quebrar a sua linha de pensamento.
-E quem é o felizardo Ana?
-Alguém...
-E eu que já pensava desistir de todas as minhas conquistas esta noite para ter o privilegio de te acompanhar.
-Tira os olhos da minha prima! – ele rosnou para o amigo, mas sem grande preocupação. Ele tentara infrutiferamente arranjar raparigas atrás de raparigas para Sirius sem resultado nenhum.
-Na verdade eu e a Alice decidimos ir sozinhas por isso sim aceito um passo de dança hoje à noite Sirius.
E todos riram porque sabiam que se um dos quatro era ciumento, esse alguem era James e a forma como tratava a prima era muito conhecida entre eles e por todos os coitados que sonhavam em magoa-la.
-Alguém me explica porque é que elas demoram tanto tempo? - disse Peter depois de bufar duas vezes. - e a Evans demora? É que o Remus vai começar a roer as unhas todas.
Remus lançou-lhe um olhar de perigo que Peter entendeu como um aviso e acabou por se calar, mas face aos olhares curiosos dos restantes amigos, o lobisomem acabou por dizer.
-Vocês não compreendem...a culpa é toda tua Prongs! Devias controlar melhor o teu fã clube. A Lily ter rejeitado todos os teus estúpidos convites tem tido as suas...consequências.
-A Amélie anda novamente em acção? Interessante – apontou , sabia bem do que a chefe do seu fá clube era capaz– Nunca pensei que desses importância à tua vida social Moony.
-Todos nós conhecemos a psicótica da Amélie. Eu se fosse a ti, Prongs, tinha uma conversa com ela.
-Padfoot nem parece teu – disse olhando o moreno esticar-se no sofá - pensava que até achavas alguma piada à Amélie.
-E achava quando ela andava a tirar os esqueletos do armário do Moony, não quando anda a atormentar a vida das nossas caríssimas amigas. – disse com um piscar de olhos para Ana.
-E desde quando a Evans é tua amiga?
Os cinco foram interrompidos por uma estonteante Marlene que descia as escadas rapidamente num lindo vestido de princesa azul bebe.
-Estás linda Marlene!
Como sempre Marlene olhou sobranceira com um pequeno sorriso de canto dos lábios.
-Eu sou linda Ana querida. Agora tenho que ir que o meu date está à minha espera. Fechem a boca rapazes, capitão – disse já perto do retrato e fazendo um pequeno reconhecimento a James– ainda têm muita baba para correr por aquelas duas.
E assim como apareceu, desapareceu como uma borboleta.
-Eu sabia que para ser o meu par no Quiddich, a Marlene tinha de ter vários atributos.
-estamos convencidos hoje Padfoot.
-Estamos otimistas Moony.
Formou-se novamente silêncio quando Alice desceu as escadas pé ante pé, num bonito vestido rosa claro meio transparente de lado que lhe caia como uma luva. James foi o primeiro a levantar-se e a dirigir-se a Alice. Se Fabian a visse agora...pensou.
Com uma mesura exagerada, muito parecida com a de Sirius, estendeu a mão para Alice enquanto compunha os óculos no alto do nariz. Alice aceitou a mão do moreno, num sorriso agradecido.
-Senhoras e senhores, encontra-se diante vós a mais formosa chaser dos Gryffindor. – neste momento encontravam-se apenas eles no salão comunal mas mesmo assim Alice corou elegantemente e Sirius assobiou lá do fundo com um pequeno sorriso.
Tinha de facto sido a sua mais preciosa aquisição. James tinha a certeza que a equipa apenas tinha a ganhar e todos os dias engolia em seco por pensar que se a rapariga não tivesse enfrentado o seu orgulho, ela não estaria ali. Para já não falar de que Fabian tinha conseguido pô-la em grande forma física muito rapidamente.
-Como é possível que vocês duas estejam sozinhas neste baile? Nós temos de vos acompanhar, ter a certeza de que nada de mal vos acontece – as caras de Ana e Alice pareciam franzir-se a cada palavra dele – vejam como uma protecção do investimento, se assim preferirem.
-Han Han – Remus tossiu.
-Não sejas invejoso Moony – James disse-lhe – eu e o Padfoot não temos culpa que tu já estejas atrelado a uma ruiva que eu só posso acreditar que tem muito mau gosto ou não teria recusado o meu pedido. Por falar nisso, eu quero a oportunidade de ter o dinheiro da minha aposta de volta.
-Vocês apostaram com a Lily? – Ana resmungou olhando indignada para o primo.
-Não foi bem assim... – Remus defendeu-se.
-Então como é que foi Remus Lupin?
James virou-se imediatamente, dando de caras com a ruiva atrás dele. A primeira impressão que teve era de que a ruiva era linda, ele nunca tinha reparado na beleza estonteante de Lily. Não era uma beleza óbvia como Marlene ou petit como Alice e Ana. Mas era uma beleza forte onde os seus olhos esmeralda eram o composto principal de um quadro muito bem pintado e ricamente refinado. A pele alva e macia, as bochechas altas, o nariz levemente arrebitado e os lábios carnudos e bem desenhados da cor de morangos macios, completavam harmoniosamente o seu rosto. Mas James não conseguia deixar de olhar os olhos dela, pois mais do que o físico da ruiva, era quando ela se chateava que ficava mais bonita. Ele nunca tinha reparado pois a raiva era sempre dirigida a ele, até então.
-Lily! – Remus levantou-se num salto dirigindo-se a eles e James deu dois passos atrás, não querendo ser o alvo daquela fúria e querendo observa-la mais um pouco, só mais um pouco.
O cabelo caía como uma cortina de fogo emoldurando a cara, até o meio das suas costas. O vestido verde escuro quase da cor daqueles olhos ímpares, era justo e moldava-se ao seu corpo até ao chão. Uma racha abria e ia dois palmos a cima do joelho e quando ela se virou em direção ao retrato do salão comunal, depois de ter declinado a mão que Remus lhe estendeu, percebeu que o vestido era aberto nas costas deixando expostas os bonitos ombros e grande parte das costas.
Um pequeno sorriso fluiu-lhe ao rosto e pensou para si que o seu plano de conquistar a ruiva para descobrir todos os seus segredos, era o melhor de todos.
-Remus Lupin, estás em maus lençóis . –ele disse, mas recebeu um cascudo de Sirius que agora se encontrava de pé e observava também interessado como Remus se iria livrar daquela situação.
-Não se ri da desgraça alheia James. Ainda mais quando a culpa é tua, tens uma boca muito grande...
-Moony é perfeitamente capaz de dar a volta à situação. – disse dando de ombros.
- VocÊs estão a falar da nossa amiga! – Ana apontou.
-Lily – James ouviu Remus chamar – não é o que estás a pensar, deixa-me explicar.
-Ui, esta frase nunca começa bem.
-Vais ter a noite toda para te explicar Lupin! E agora eu vou embora pois estou atrasada . – disse colocando uma madeixa atrás da orelha.
Foi quando ele viu. A orelha de Lily que ele tinha visto milhares de vezes de certeza absoluta e que sempre fora pequena e redonda, era agora delicada e pontiaguda como um duende ou um elfo. Ele piscou o olho uma e outra vez .
-Padfoot. Diz-me que vês algo diferente na Evans. – ele segredou ao amigo e surpreendeu-se quando a sua voz saiu rouca.
-Han han – o moreno concordou retirando as madeixas negras da testa e James suspirou de alívio por não ser o único a ver algo na ruiva que não existia há um dia atrás – ela é uma mulher extremamente bonita e nós somos uns idiotas que estivemos a dormir durante muito tempo.
James ficou a olhar para Sirius como se não acreditasse. Abanou a cabeça e queria dizer a Sirius que não era isso a que se referia, apesar de ser verdade, mas este já saia na direção do retrato, sem aparentemente reparar em algo fora do normal na ruiva.
O que queria dizer? Precisava de uma bebida bem forte porque ver coisas até no mundo bruxo não era normal."
-Potter? Devíamos fazer isto mais vezes.
-O quê?
-Falarmos como pessoas civilizadas.
-Eu sou sempre civilizado contigo Lily. Mas tu estás sempre tão concentrada nas minhas qualidades.
Lily riu. Riu de verdade enquanto retirava uma madeixa do rosto. O som fez James aquecer por dentro mais do que dois copos de firewhisky fariam.
-O que aconteceu hoje de manhã Lily?
Ele arrependeu-se assim que fez a pergunta e viu a sua reação. Ela ia negar o que quer que tivesse acontecido quando o professor Slughorn voltou a interrompe-los.
-Miss Evans eu disse-lhe que havia alguém que devia conhecer. Este é Mr. Damocles Belby. Formou-se em Hogwarts à cinco anos e atrevo-me a dizer que será o inventor de poções da década.
-É muita gentileza sua professor. Miss Evans, desde que cheguei apenas ouvi qualidades a seu respeito. A sua pesquisa é bastante incomum e gostaria de ajudar no que conseguisse. Acho mesmo que é a primeira pessoa com um pensamento tão audaz.
-Miss Evans sempre mostrou muita originalidade.
-Obrigada professor.
-Onde vai Potter? Acabou de chegar uma jogadora de Quiddich muito promissora, achei que estivesse interessado em conhecê-la.
-Vou buscar bebidas professor e teria todo gosto em conversar com uma profissional sobre Quiddich.
Como se ele fosse deixar a sua ruiva, que miraculosamente estivera a noite toda com ele sem um único berro, com aquele engomadinho empruado e bem arranjado. Ainda por cima uma estrela da disciplina preferida da ruiva? Preferia morrer.
Quando voltou para junto deles, apesar de não ser sua intenção ouviu parte do fim da conversa que o Professor deixou escapar entre uma gargalhada e outra.
-Permitir a um lobisomem permanecer no controlo da sua humanidade em noites de lua cheia, é incrível. Apesar de parecer completamente descabido.
-Mas se alguém conseguisse faze-lo seria completamente inovador. Poderia melhorar a vida de muitos bruxos.
- Sim, bruxos que ninguém quer saber deles para nada. -Slughorn acrescentou. James desejou dar-lhe um pontapé apesar de saber que o que ele dizia era verdade.
-Exacto, seria a oportunidade de quebrar um dos tabus mais antigos do mundo bruxo.
-Tenho a dizer que é muito interessante ouvi-la falar miss Evans. Se precisar de testar a sua teoria tem todo o meu apoio e tenho a certeza que consigo arranjar uma ou duas pessoas dispostas a aceitar a experiencia. – o loiro disse fazendo questão de pôr uma das mãos nos ombros da ruiva.
-Fico muito contente em ouvir isso MR. Belby
-Han han – James decidiu interromper estendendo um novo copo a Lily, que aceitou nitidamente surpresa por o ver ali.
-Como pretende obter os materiais?
Lily lançou mais alguns olhares nervosos a James e o mesmo fez-se de desentendido , de olhos postos no liquido dentro do copo.
-Essa é a parte complicada. Os ingredientes que penso que resultariam seriam altamente dispendiosos.
-Assumi que sim. Se me permitir, gostaria de a ajudar nesse campo e financiar os produtos necessários pelo resto do ano. Mas em contrapartida gostaria dos seus relatórios mensais, tenho a certeza que o Professor Slughorn nos pode pôr em contacto. Que me diz? – James teve de se controlar para não espantar a mão do homem que agora segurava o cotovelo da ruiva
-Mas é claro que posso. Terei todo o gosto de ter um ex aluno brilhante e uma das minhas mais promissoras alunas a trabalhar em conjunto. Eu falarei com o Dumbledore, não se preocupem com nada.
-De verdade? Muito obrigada professor, Mr. Belby. Irei trabalhar nisto dia e noite. É uma oportunidade de sonho.
James ainda estava extasiado com a conversa que estava a ouvir. Mas será que ela não percebia que aquele homem bem-parecido, com os seus vinte e poucos anos estava interessado em muito mais do que financiar a sua pesquisa?
Demorou alguns minutos até os cumprimentos entusiastas de ambas as partes acabarem, mas assim que o homem que James nem queria saber o nome e o seu professor viraram costas, ele pegou na ruiva pela mão e levou-a para a varanda onde o vento de fim de outubro se podia sentir.
Varias pessoas se cruzaram com eles, lançando olhares esquisitos aos dois. Ele cumprimentou alguns mas sem parar, ele precisava de dizer umas quantas coisas a Lily enquanto tinha coragem.
Na varanda, a ruiva que respirava ofegantemente, libertou-se da mão dele e James sabia que ela estava naquele estado próprio dela entre o chateada com ele e o nervosa.
- Para que é que foi isso tudo Potter? Não podes simplesmente pegar em mim assim, nós não temos essa confiança. – ele não conseguia responder.
Quase não a ouvia. Tinha o coração na boca, um maravilhamento difícil de controlar pelo ser à frente dele. Como é que ele não tinha percebido até ali que ela era perfeita? Não existia mais ninguém, mais ninguém no mundo como ela. Inteligente, bondosa, corajosa...o que ela queria fazer por Remus ultrapassava em larga escala o que os Marotos tinham feito.
Há um mês atrás ele tinha duvidas que amava Lily Evans, naquele momento tinha a certeza absoluta, como tinha a certeza de quem era. Apenas se tentara iludir, ele não queria perder mais tempo. Não queria perder nada com aquela linda mulher à sua frente.
-Potter? Potter- ela chamou quando ele não respondeu, pousando as mãos nos ombros dele – Tens de me ouvir. Por favor, não contes ao Remus. Eu não quero que ele fique com esperanças desnecessárias. A pesquisa está feita e eu tenho a certeza que irá resultar, mas não quero que ele saiba até eu ter a certeza absoluta. Estás a ouvir Potter? Por favor...
Ele não a deixou continuar, deu um passo em frente segurou-a pela cintura e beijou-a sem pensar duas vezes.
Já alguém sentiu aquela sensação avassaladora de que tudo está finalmente certo e que até então a vida não era má, mas podia ser tão melhor? Foi isso que James sentiu com o coração a bater como um tambor de bateria nos seus ouvidos, os lábios suaves da ruiva nos seus, o sabor dela que ele não fazia ideia que podia ser melhor do que a sua imaginação, a pele tão suave como cetim... ele nunca tocara algo assim.
James estava a viver os cinco segundos mais felizes da sua vida e quando ele achou que não podia estar mais feliz, ele sentiu a língua da ruiva húmida e quente contra a sua e as suas emoções explodiram.
A mão que ele mantinha nas costas de Lily puxou-a mais contra si e ele sentiu a mão dela agarrando a camisa do smoking, em vez de o empurrar. O seu cérebro começou a trabalhar e a dar-lhe indicações e informações que a sua audição, tato e gosto, lhe transmitiam. Como a leve respiração da ruiva e os longos cílios que tocavam na face dele e o som insistente não do seu próprio coração mas do dela, tão perto...
-Prongs, não vais acreditar no que...
Maldito, filho de uma...! James ia matar o seu melhor amigo na primeira oportunidade que tivesse. Assim que o pensou, sentiu a ruiva empurra-lo, determinada e não foi uma surpresa quando a mão pequena se esbarrou contra a sua face com toda a força.
"Pequena mas forte!" e ele já levara alguns estalos na vida, mas aquele tinha doído de verdade.
O som ecoou na pequena varanda.
A realidade quando vinha era para ficar. "E dói como tudo, a realidade é insuportável" ele pensou ao mesmo tempo que levava uma mão à cara onde se podia começar a ver a marca de uns pequeninos dedos. A próxima coisa que viu foi a varinha de Lily bem próxima do nariz dele.
Ele contou dois segundos de um silencio insuportável entre os três, em que ela estava visivelmente furiosa e ofegante e ele não conseguia tirar aquele sorriso da cara. "Ela fica tão bonita quando está irritada "
-Tu nunca mais me voltas a tocar Potter. Se sabes o que é bom para ti, esta foi a primeira e a ultima vez que fizeste algo assim – ela ameaçou-o, mas ele continuava com o mesmo sorriso abestalhado.
Mesmo que ela o amaldiçoasse ele achava que não se ia importar.
A gargalhada de Sirius interrompeu os pensamentos dele e rompeu o meio silencio. Algo sem exultação e frio.
-Quem diria que...
-CALA ESSA BOCA E SAI-ME DA FRENTE! – a ruiva interrompeu, claramente perdendo as estribeiras enquanto apontava a varinha para Sirius que levantou as mãos em sinal de redenção e lhe deu passagem.
A ruiva saiu a correr sem olhar para trás.
-Padfoot.
-O quê?
-Lembra-me de te matar mais tarde.
-Estava preparado para ser agora.
-Agora ainda estou a levitar.
-Ai sim? Pois olha a ruiva parecia próxima do inferno. Foram lagrimas que vi no canto daqueles olhos esmeralda? Andas a perder o jeito Prongs.- o amigo disse sem qualquer alegria na voz.
-Então porque é que ela correspondeu?
Sirius não voltou a abrir a boca.
"
Baile de inverno- 5º Ano
Não sabia porque simplesmente não ia para o seu quarto, porque é que tinha de saber quem era, porque é que sentia aquela necessidade de ir. Mas ela fechava os olhos e sabia o porquê de tanta curiosidade por alguém que nem sequer conhecia ou sabia o nome. Ela fechava os olhos e tudo o que sentia era a pele dele, os lábios no pescoço dela e os cabelos macios, o cheiro...o cheiro a...
Lily abriu os olhos, de repente tudo fazia sentido. Não sabia se sentia raiva, não sabia o que sentia na verdade, mas sabia que o seu coração batia descompassadamente. Subiu os dois lances de escadas que faltavam e abriu a porta e o seu coração parou, por meio segundo.
"Às 24 horas. Três portas depois da antiga sala de feitiços"
Era o que o bilhete dizia. Ela não conhecia aquela sala, mas quando entrou o seu queixo caiu. O céu estava encantado como o do salão principal. No céu nocturno vários pontos brilhavam e quando entrou estava tão concentrada no céu que só mais tarde percebeu o chão macio. A sala estava transformada num pequeno jardim interior coberto de flores da lua, as suas flores preferidas.
Ela não sabia como ele soubera, as pessoas sempre achavam que as suas flores preferidas eram lírios. Ela percebeu o exacto momento em que ele chegou, mas não conseguia parar de olhar as constelações...um pequeno sorriso escapou-lhe dos lábios.
Ele abraçou-a pelas costas, as mãos presas nas dela. Com uma mão afastou os cabelos ruivos para um dos ombros e distribuiu lânguidos beijos no ombro nu, os próprios cabelos dele roçando ao de leve o seu pescoço. Desta vez, ele não a vendou ou impediu que ela descobrisse quem ele era.
Lily fechou os olhos com força. Agora que sentia a sua aura com todas as forças do seu ser, não sabia o que sentia. Estava demasiado confusa, um remoinho de emoções. Mas o seu corpo dizia-lhe que não havia porque parar, o seu corpo dizia-lhe que o queria independente de tudo o resto, independente de ele ser uma das últimas pessoas que ela poderia imaginar.
-Eu disse que nunca mais queria ser surpreendida – ele ficou estático quando a ouviu falar e ela sentiu os seus lábios no alto da cabeça – e tu ouviste-me. Eu vim aqui porque quis. Sirius...tu deste-me a escolher. E eu... – não sabia porque dizia tudo aquilo, mas precisava de o dizer, mais por ela do que por ele.
Parecia que o mundo tinha parado. Ela mal o conseguia ouvir a respirar. Assim que dissera o nome dele, os seus braços deixaram de a abraçar. Ela quase podia sentir a duvida a surgir na cabeça dele.
-Obrigada por isso.
-Como descobriste?
Ela virou-se no abraço dele. Nunca quisera tanto olhar os olhos de alguém como naquele momento e não sabia o que ia fazer ou pensar quando os visse. Se o encanto se ia quebrar quando estivesse frente a frente com ele. Mas os seus olhos de um azul escuro profundo brilhavam de antecipação e por momentos sim, sentiu-se como uma das miúdas que caía aos pés de Sirius e esqueceu-se de respirar. Sentiu medo por aquele sentimento, mas ao mesmo tempo não sabia como resistir.
Sirius olhava para ela com uma intensidade contagiante. Ela queria saber tudo! O que ele pensava, porque se interessara por ela, porque nunca se expôs, porque a deixara a pensar que podiam ser tantas pessoas... mas tinha sido sempre ele. Ao olhar nos olhos dele, porém, nada disso importava. Não existia vergonha ou timidez, apenas aquela necessidade de estar em contacto com ele.
Foi entre uma respiração e outra de Sirius, que ela mandou a razão passear, cansada de pensar, apenas queria...senti-lo perto dela, respirar o seu perfume, ganhar consciência que era ele. Ele tinha os lábios mais macios que alguma vez tocara. Não soube quanto tempo se perdeu neles, mas o beijo dele era demasiado doce e suave, diferente de tudo o que ele lhe tinha proporcionado. Como se estivesse a apalpar terreno.
Ela sentiu a surpresa em cada poro dele e dela mas não conseguia parar. As mãos dela escorregavam para o pescoço, os seus lábios abriram-se e capturaram a língua dela e ele abraçou-a acabando com o espaço entre os dois.
Lily queria cair e derreter-se nos braços de Sirius. Quando os lábios dele tocaram o pescoço dela, Lily gemeu alto e sabia que já não tinha como parar. Ele queria-a, ela não conseguia pensar, não o queria longe de si. Suspirou pesadamente enquanto os lábios dele deslizavam pelo seu ombro e os dedos se enterravam nos cabelos.
-Sirius...
Num ápice ele levantou-a e sem deixar de a beijar levou-a até à secretaria onde a pousou com cuidado e a olhou por breves segundos antes de uma das mãos deslizar pelas costas dela. Ele era o ser mais bonito que ela alguma vez vira. Longos cabelos negros caiam-lhe na testa e Lily sabia que o seu peito subia e descia com a mesma rapidez que o dele.
Demasiado rápido.
Ela beijou-o com fome e pressionando o seu corpo contra o dele, as duas línguas debatendo-se numa fúria insana, as mãos de Sirius subindo pelo ventre liso de Lily. Ela não conseguia ficar com as mãos quietas e começou a desabotoar a camisa branca, distribuindo beijos pelo pescoço e depois pelo peito de Sirius enquanto sentia as mãos grandes dele cobrir um dos seus seios e obrigando-a a suster novamente a respiração. As pernas dela ainda na cintura dele, não o deixando escapar.
-Lily – ouviu-o gemer na orelha dela – Não aqui... – ele disse, mas ela sabia que falara mais para ele do que para ela - vem.
Puxou-a por uma das mãos mal conseguindo tirar os olhos dela. Ainda hoje ela não fazia ideia do caminho que tinham feito, apenas sabia que tinha passado por várias passagens secretas. Não sabia se tinha demorado muito ou pouco tempo , mas sabia que não conseguia tirar as mãos de cima dele mais do que dois segundos e que cada segundo sem o ter era uma tortura.
Chegaram a um quadro grande que ficava num corredor isolado e depois de Sirius dizer umas palavras este se abriu e Sirius puxou-a para entrar. A sua mente começava a fazer perguntas. Perguntas que não queria responder. O que estas a fazer Lily? Porque confias nele? Isto é rápido demais...tu não és assim.
Mas ela não queria ouvir.
Sirius olhava para Lily à espera que ela dissesse alguma coisa, mas ela não sabia o que dizer, nem como dizer. Ele tinha um olhar perdido e sôfrego e algo nela se partiu. O que quer que acontecesse não tinha como ela se arrepender porque ela queria isso com todas as forças do seu ser.
O beijo que trocaram começou por ser compreensivo como se estivessem a aceitar a situação, mas compreensão era tudo o que a ruiva não queria. Uma mão agarrou com força os cabelos de Sirius fazendo-o gemer de dor e prazer e Lily descobriu que gostava daquele som principalmente quando era acompanhado daquele sorriso que ela nunca vira dirigido a mais ninguém. Só dela... sentiu-se mais perto dele do que nunca. Sem aguentar mais, Sirius pegou nela e colocou-a na grande cama de dossel que se encontrava no quarto e Lily mal lhe deu tempo para a observar porque o puxou com força pelo pescoço contra si uma mão novamente nos cabelos negros e outra no cós das calças dele que começava a desapertar.
A camisa e o vestido caídos no chão, ela gemeu profundamente quando sentiu as mãos de Sirius nas suas costas, ombros, peito, pernas, em todo o lado.
O cheiro dele misturou-se com o dela e ela mal conseguia respirar outra coisa. Colónia, chuva e tabaco. A combinação perfeita. Lily mergulhou e perdeu-se nesse odor durante toda a noite."
Deu um gole na garrafa e voltou a deixar o braço pender rente ao corpo, pesado demais para o segurar. O liquido desceu quente pela garganta e Remus suspirou pesadamente, quando na verdade o que queria era esmurrar a parede mais próxima tanta era a sua frustração.
Porque é que a sua vida não podia ser mais fácil? Porque é que nada podia simplesmente acontecer como um adolescente normal?
"A verdadeira coragem é saber sofrer" a mãe dissera-lhe vezes sem conta sobre a sua condição.
Deu outro gole.
A sua mãe era uma péssima memória naquele momento "e dava péssimos conselhos", pensou com alguma acidez.
Ele ouviu um barulho no corredor e puxou a varinha, aproximando-se a cambalear do que quer que causava aquele gemido baixinho e insistente.
"Malditos, já nem posso beber em paz"
Assim que virou o corredor identificou a cabeleira ruiva do corpo que se encontrava sentado de costas para a parede, testa sobre os joelhos, naquilo que parecia ser um choro intermitente. Ela levantou a cabeça assim que o ouviu, tentando esconder as lagrimas e esfregar os olhos vermelhos, sem grande sucesso.
"Merda, merda, merda. O que fizeste com ela desta vez Sirius?"
Remus não esperou dois segundos para se sentar com a ruiva e passar os braços em volta da mesma, num abraço onde tudo o que queria era esconde-la do mundo. As lagrimas voltaram mais fortes agora, as vezes com soluços intermitentes que lhe diziam que o que quer que se tivesse passado continha muita raiva de Lily ainda por esvair.
Se ele pudesse, ficaria com todo o sofrimento da ruiva para si sem pensar duas vezes. Odiava vê-la assim e sentir-se tão impotente, ainda mais quando lily o tinha ajudado inúmeras vezes, sem pedir nada em troca. Talvez fosse por essa capacidade que ele tinha de se sacrificar completamente por ela, que Ana tinha tantos ciúmes de Lily. Infundados, por sinal.
Ana nunca entenderia o que ele sentia por Lily.
-Já posso saber o porquê de estares a perder a festa do teu professor preferido?
-Porque é que estas a beber?
-Ana – ele respondeu simplesmente. Estendeu-lhe a garrafa e ela aceitou apesar de não a beber. Ficou a olhar para ela, os olhos vidrados num ponto longe dali – que é que o idiota do Sirius fez desta vez?
-Nasceu e trouxe o Potter com ele.
Ele já estava a abanar a cabeça concordando com o que quer que a ruiva dissesse (ele simplesmente sabia que o que quer que fosse que a ruiva tinha a dizer de Sirius iria faze-la sentir melhor), quando ouviu o nome de James.
-Prongs? Desde quando é que ele te faz chorar?
Ela corou violentamente e finalmente deu um prolongado gole na garrafa, voltando a enterrar a cabeça entre os braços.
O que é que aquele idiota tinha feito? Logo agora que Remus sabia que ele começava a ganhar o lado bom da ruiva.
-Eu não devia falar! – ela gemeu em frustração – quem me dera que a Ana voltasse a ser o que era! Preciso da minha amiga de volta! – Lupin viu aparvalhado ela ingerir mais um pouco da garrafa.
Autch – obrigada pela parte que me toca Evans! – disse retirando a garrafa da mão dela e ele próprio adquirindo mais um pouco de coragem liquida. – eu desejo o mesmo há algum tempo, se calhar se formos dois talvez o nosso desejo se concretize.
-Não queria ofender Remus... é só que há coisas que é mais fácil falar com ela.
-O que é que o meu amigo idiota poderia ter a ver com os vossos assuntos femininos? – ela roubou-lhe novamente a garrafa, aquele rubor novamente – Oh ! - ele disse em choque, a sua mente conectando demasiado rápido todas as peças – Oh! Não me digas que ele finalmente teve coragem de..
-Finalmente ? – ela disse enraivecida, uma lagrima voltando a cair e Remus percebeu que as emoções da ruiva estavam um autêntico farrapo – o idiota beijou-me ! À força! Ele beijou-me e não podia! E o Sirius apareceu ...
Ela voltou a chorar com a cabeça encostada aos joelhos e Remus começou aos poucos a entender tudo. "O James vai-me ouvir mais tarde! Era demasiado cedo..." ele passou-lhe a garrafa e ela aceitou de pronto, passou novamente um braço pelos ombros dela deixando-a deitar tudo para fora até os tremores passarem e ela respirar profundamente.
-Lily porque estás a chorar? – ela respondeu algo demasiado baixo que apenas a sua audição lupina poderia entender – O quê ? -ele perguntou em choque
-Eu correspondi Lupin! – ela disse acabando de vez com a garrafa. – eu não o afastei entendes? Eu beijei o idiota, estupido, arrogante, narcisista do Potter! E o ainda mais idiota do Sirius apareceu na hora H.
-Uau – ele disse meio abestalhado, sentindo a bebida subir ao cérebro.
- Uau? Lupin tu não és a Ana, mas podes fazer um trabalho muito melhor que isso.
-Uau! Tu vais dar cabo dos meus amigos! Já pensaste que sou eu que acabo por os ouvir mais tarde? E ou eu muito me engano ou o James não se vai calar sobre isto durante o resto do ano.
Ela respirou profundamente, visivelmente procurando acalmar-se.
-Eu gosto...eu ainda amo o Sirius.
-Mesmo depois de ele dormir com metade da escola?- ela quase o matou com o olhar- os amigos dizem as verdades.
- sim, mesmo depois. Porque eu nunca...entendi. porque não bate certo.
-Porque correspondeste Lily? Nós sabemos que o James podia-te ter apanhado desprevenida, mas nunca teria forçado nada assim.
-Eu não sei...não sei explicar, mas ver o Sirius...eu acho que nunca vai passar Remus. Eu acho que não sei passar à frente dele, é isso que me mata. Como é que num dia penso que estou mais forte e no minuto a seguir sinto-me a voltar aquele dia outra vez.
Ele abraçou-a imediatamente, sabendo que naquele momento era a única coisa que a mantinha ligada aquela realidade e fora da sua dor e do seu luto. Enterrou a cabeça nos cabelos ruivos da amiga e sussurrou-lhe palavras de esperança enquanto a agarrava com força, pois não havia mais nada a fazer. Enquanto ela não tivesse força , ele ia ser forte por ela , ele ia estar lá para lhe dizer que o sol brilhava amanhã, que o que ela sentia ia curar com o tempo, ele sabia tudo sobre isso...com o tempo ela ia permitir-se apaixonar por alguém como James Potter, mesmo que o que tivesse vivido com Sirius tivesse sido o amor de uma vida.
Palmas ecoaram no silencio do corredor e os dois levantaram a cabeça ao mesmo tempo.
Merda! Quantas vezes ele iria conseguir amaldiçoar a sua sorte?
- Muito bem Lupin, eu sempre soube que vocês acabariam aí.
Claramente embriagada. Remus ajudou Lily a levantar e ajudou-a a apoiar-se nele. Na verdade ele não sabia quem estava apoiado em quem.
-Ana não é nada disso que vocês estão a pensar.
- Daqui parecia exatamente isso que estávamos a pensar.
-Se calhar devíamos todos acalmar-nos um pouco – Remus surpreendeu-se por ironicamente a pessoa que pedia calma ser ninguém menos que o impulsivo James Potter.
- Ana, o Remus só estava a ouvir-me. Não se passou nada ...
-Estava a ouvir-te com a cara colada à tua? Porque deveria acreditar em ti? Depois de tudo?
-Ana calma...tu não estas em condições... – James tentou segura-la.
-Deixa-me! – ela parecia fora de si, Remus nunca a vira assim – ignoraste-me durante meses e agora estás preocupado comigo? – James baixou os braços. – Todos vocês fizeram de mim uma idiota, devem-se ter rido nas minhas costas, às minhas custas.
A esconderem-se todos atrás dessa certeza que estão a lutar por um bem maior. Como é que um dia vos pude chamar amigos? Que amigos é que estão dispostos a abandonarem alguém assim tao facilmente.
-Não estamos Ana, nunca estivemos.
-Isso não importa nada porque quem tem de fazer o que tem de ser feito sou eu...que amigos saltam para os braços um do outro assim que eu viro costas?
O silêncio permaneceu e Ana cambaleou, acabando por chutar a garrafa que Remus e Lily partilharam momentos antes.
-Só não percebo Lily ...é alguma perseguição aos meus amigos? Os dois numa noite é um pouco maldoso, não faz o teu estilo.
E como sempre Sirius tinha o condão de dizer a pior coisa no pior momento.
Lily começou a chorar baixinho encostada ao ombro dele. O som por alguma razão fez ferver a raiva que ele não sabia que tinha dentro dele.
-Está calado Sirius, tu não sabes o que viste. Nenhum de vocês. Deveria ser suficiente para vocês eu dizer que não se passou nada aqui.
-Depois de tantas mentiras porque deveria acreditar em ti?
-Não tens de acreditar em mim, mas devias acreditar na Lily que nem por um segundo deixou de exigir que a verdade fosse exposta. Ana tu que achas que estás cheia de razão, onde é que tu tens estado que não percebeste que a pessoa que abres a boca para dizer que é a tua melhor amiga à meio ano que está a sofrer sozinha?
-Remus...
-Não Lily, ela precisa de ouvir, está tão concentrada na sua própria dor que se esqueceu completamente que os outros também existem. E ao contrario dela, nós passamos todo o nosso tempo a arranjar uma solução para ela. Mas isso, tu já não queres ver Ana, porque não te dá jeito.
Remus sentia-se a ferver, metade por causa da bebida e metade devido a toda a frustração dos últimos dias. Só queria que Ana reagisse, estava farto de ser compreensível e do tratamento de silencio que ela lhe dava, queria-a e queria uma reação da parte dela, uma qualquer. A primeira vez que falava com ele em uma semana não podia ser para o acusar de uma coisa que não tinha feito.
Quando ela falou, Remus percebeu o perigo na sua voz sedutora.
-Como assim dois numa noite?- Remus quase a viu a juntar as peças, exactamente como à momentos atrás ele tinha feito. – Lily? – Lily voltou a fechar os olhos e Remus agarrou a sua mão com força.
-Nós bebemos todos demais hoje. Devíamos ir dormir antes que...
-Lily? – Ana chamou interrompendo o primo. Remus viu o exacto momento em que Ana olhou para James e juntou as peças. O choque! Algo animalesco mexeu dentro dele.
-Ana não é hora. Tu não vais querer fazer isto agora.
Era a primeira vez na noite que Remus sentia vontade de agradecer Sirius.
-Uau! Ias contar-me quando? Pensei que tínhamos um pacto...O que aconteceu? Cansaste-te do James e foste a correr para o Lupin?
Algo estourou nele. Talvez fosse o facto de ter os dois maiores problemas da sua relação tão expostos. Talvez fosse aquela vozinha na sua cabeça que lhe dizia que Ana nunca tinha esquecido verdadeiramente James. Talvez fosse o facto de ele odiar que Ana estivesse a expor Lily aquela situação. Alguma coisa o fez falar, ele não sabia o quê, talvez todas juntas. Talvez aquele monstro dentro dele.
-Tu não sabes nada Ana. Olha bem para ti mesma! Tu nem sabes se tens mais ciúmes de me ter encontrado sozinho com a Lily ou de saber que o teu primo a beijou. Não podes ter tudo sabes disso?
-Remus! Remus não...- mas já estava dito. Não tinha como voltar atras.
-Como assim? – a gargalhada de James pela primeira vez não pareceu tão jovial – porque é que terias ciúmes de mim e da Lily? Tu sabes que vais ter sempre um lugar especial no meu coração, querida prima. – disse enquanto passava um braço pelos ombros de Ana.
Como Remus o tinha visto fazer tantas vezes, um gesto inocente sem significado. Ana afastou-se, saindo de perto do primo.
-Ana ?
Ana finalmente quebrou o contacto visual com Remus e Remus passou as mãos pelos cabelos sabendo que tinha feito uma asneira enorme.
Ela deu um passo atrás.
-Ana – ele chamou . Ela parou .
Recomeçou a andar segundos depois e não olhou para trás.
-O que raios eu fui fazer? – perguntou mais para si do que para os outros.
Ele sabia que ela estava magoada, nada do que ela tinha dito teria significado, mas ele expor um segredo daqueles ia ter muitas consequências. Talvez...talvez a tivesse perdido para sempre.
Sirius acendeu um cigarro e passou as mãos pelos cabelos, James parecia começar a sair de um transe. Lily deixou-se escorregar pela parede até ao chão.
-Alguém me vai explicar o que é que eu perdi até agora?
O silêncio reinou.
