Capítulo 05

- Regina? - Whale perguntou preocupado que ela não tivesse entendido. - Você escutou ou quer que eu repita?

Mas a expressão no rosto da morena estava inalterada e poderia ser definida em uma única palavra: choque. Emma, dentro do quarto, olhava nervosa da Rainha para o médico, ao que perguntava de uma vez que passava na mente de ambas:

- Você tem certeza? Quer dizer…

- Tenho - Whale ficava impaciente quando duvidavam de sua capacidade. - Eu mesmo supervisionei fazerem o teste mais do que as duas vezes que o protocolo manda. Regina está grávida, sem sombra de dúvidas!

Escutar estas palavras tomavam a morena em um misto de sentimentos que era incapaz de identificar. Ela sabia que havia felicidade, mas também havia medo e certamente havia muita confusão. Quando o médico deixou o quarto de hospital, a Rainha se sentou na cama, sua cabeça certamente doía agora, mas não pelo efeito da magia. Emma parecia compreender, ou enxergar as engrenagens que se moviam na mente da amiga, pois se sentou ao lado dela no colchão e disse com uma voz mais baixa:

- Eu estou feliz por você. Um bebê, você finalmente vai ter um bebê, isso é uma coisa boa! Eu espero… - E o pensamento apertava a sua garganta. - Eu espero que você e Robin possam se acertar agora para serem felizes - havia quase um tom de decepção em sua voz.

Regina abriu a boca para responder e depois fechou. Olhou para a loira como se tivesse acabado de escutar o maior absurdo de sua vida e então disse:

- Emma, você não está compreendendo - e ela falava muito séria. - Eu não posso ter filhos. Eu absolutamente não posso ter filhos, eu mesma fiz a poção… - e suspirava, pois era uma dor quase física ter de admitir isso. - Eu mesma fiz a poção que me deixou estéril e eu garanto que ela era perfeita.

- Oh - a loira ficava desconcertada ao ouvir. - Eu não sabia, nem imaginava.

- Assim como não sabia que eu não durmo com um homem ou qualquer coisa com um pênis há meses demais para saber quem é o pai dessa criança - e passava as duas mãos pelos cabelos de uma forma nervosa, ao que olhava para a Salvadora. - Eu não faço a menor ideia de como isso foi acontecer e quem possa ser o pai do bebê! Se quer existe um pai!

Por mais que houvessem informações na fala da morena que deixassem Emma com uma estranha pontinha de felicidade, em linhas gerais estava mais preocupada com outras coisas também ditas. Uma ideia inundava a sua mente e a loira achava que estava na hora de contar a verdade, algo que havia guardado e escondido.

- E se foi magia? - A Salvadora perguntou. - Quer dizer, poderia ser magia.

- Precisaria ser uma magia extremamente forte para cortar a minha e ainda gerar uma vida, forte de níveis milagrosos! - A outra pontuou, ao que mirou a loira e perguntou. - Você teve alguma ideia?

- Então… - Ficava um pouco constrangida, mordendo o lábio inferior de leve, desde já com medo de levar uma bola de fogo. - Lembra do seu aniversário? Do bolo, velas…

- Lembro sim - Regina ainda não sabia onde iriam chegar, mas ficava preocupada.

- E do desejo?

Agora tudo parecia fazer sentido. A compreensão atingiu a Rainha em cheio, que abriu bastante os olhos, a fúria começando a inflamar. Precisou se controlar bastante para não explodir naquele mesmo instante, pois ainda estavam em um hospital:

- Você… O que você fez?

- Eu fiz uma magia para tornar o seu desejo realidade! - Emma respondeu de forma simples. - Não ia imaginar que ia resultar nisso!

- Emma! - Regina elevou a voz. - Quantas vezes eu te disse que magia não é brincadeira?! Tudo, absolutamente tudo tem um preço, não se pode brincar com a magia desta forma! Muito menos eu lhe dei o direito de se meter na minha vida!

O sermão foi tão agressivo, a Rainha parecia tão furiosa e, pior, traída pela atitude da outra, que só o que a loira conseguiu fazer de imediato foi abaixar o rosto, muito constrangida com as próprias atitudes.

- Me desculpe - disse finalmente depois de alguns segundos em silêncio.

A morena respirou fundo, se recuperando da própria explosão. Cobriu o rosto com uma mão, tentando recuperar o fôlego e se acalmar, quando sentiu uma mão em seu ombro. Se virou e lá estava Emma, sorrindo, sendo sua amiga e compreensiva, disposta a ajudar, mesmo quando não havia nada que pudesse ser feito. Quando se deu conta, Regina já havia se inclinado para o lado e estava com a cabeça no ombro da loira, enquanto o braço desta passava pelas suas costas. Aquela era uma situação desesperadora, mas alimentada por uma fagulha de esperança.

- Me desculpe mesmo - Emma se repetiu. - Eu não quis te fazer mal, eu só queria mesmo era te ajudar.

Em seu íntimo, a Rainha acreditava naquelas palavras, pois sabia que já haviam passado coisas demais desde que se conheceram para saber quando a Salvadora estava falando a verdade ou não. Por este motivo, apenas balançou a cabeça de forma positiva, voltando ao seu estado de difícil aceitação da realidade.

- Hey, veja pelo lado positivo! - A loira pontuava. - Você vai ter um bebê! Um bebê! Não importa como isso aconteceu, é um bebê seu!

- Eu já tive um bebê meu, eu tive Henry - Regina falou, mas sua voz sequer conseguia parecer ofendida com tanta coisa em sua cabeça.

- Mas você não o carregou na barriga, isso é diferente - Emma lembrou. - Vai sentir ele crescer, vai ter os enjoos, as vontades, vai ter o parto… São muitas experiências para ter ainda.

- E vou passar por tudo isso sozinha - a morena lembrou. - Realmente não vai ser muito distinto do que tive com Henry.

- Você não precisa passar por nada disso sozinha, você tem a mim - e tão rápido quanto falou, se arrependeu, imaginando que estava sendo muito invasiva de novo. - Quer dizer, se você quiser minha ajuda. Tem também minha mãe, que vai querer ajudar, e o próprio Henry vai adorar ter um irmãozinho ou irmãzinha.

A forma como a loira se corrigia fez a Rainha rir.

- Realmente, vai ser melhor ter alguma ajuda - disse já encarando a situação de uma forma melhor, algo que apenas Emma conseguia provocar. - Em especial quando os pés começarem a inchar, vou precisar de alguém para massageá-los.

- Certo, eu faço isso - a Salvadora falou sem hesitar, de uma maneira bem simples.

- Ah é? - Regina se afastou para olhá-la de frente, erguendo uma sobrancelha em desafio. - Assim vão até achar que o filho é seu.

Emma ficou sem cor. Levou um instante para conseguir falar, mas as palavras saíam quase gaguejadas:

- Bem… Veja… Foi minha magia, né… Eu tenho que ajudar!

A reação só fazia a Rainha rir ainda mais.

- Certo, certo! Você vai fazer a sua parte e eu vou fazer a minha com esse bebê.

Pela primeira vez, a morena falava de uma forma que parecia feliz com a ideia, chegando até a sorrir ao passar as mãos sobre o ventre ainda liso, imaginando como ficaria daqui a alguns meses.

- Foi o que você desejou? - A Salvadora perguntou de súbito. - Claro, se puder me contar.

- Meu final feliz é finalmente me sentir em casa neste mundo - Regina confessou. - Foi o meu desejo, conseguir ter este sentimento.

Emma não quis perguntar como um bebê poderia ser a resposta, mas, como a própria Rainha dissera, toda magia vem com um preço, somado ao fato de que os caminhos para se atender a pedidos nem sempre são o esperado. Desta forma, o jeito era esperar e ver quais seriam os resultados de tais eventos. Assim, decidiu mudar de assunto para algo que estivera em um plano secundário de seus pensamentos:

- Antes de virmos para cá, você estava falando sobre Zelena e a Maldição de Memória. Tem algo que você saiba e eu não?

Não era um assunto que Regina desejasse abordar, já conseguia até imaginar qual seria a reação da outra, porém sabia que havia um limite de até onde poderia omitir algo naquela cidade. Respirou fundo, se ajeitando na cama de hospital para ficar mais ereta, uma pose desconfortável, mas que lhe passava segurança e seriedade.

- Você lembra quando minha irmã roubou o coração de Lilith e me chamou para fazer uma troca? - Perguntou.

- Sim - Emma recordava. - Foi uma troca para ela não precisar mais retornar para o hospital, não foi?

- Mas não apenas isso.

E só então a morena começava a contar o que realmente havia acontecido. Narrou o encontro das duas, o acordo firmado, bem como a dívida cobrada e o fato de ter tido sua memória apagada e não fazer a menor ideia do que lhe aconteceu nas vinte e quatro horas perdidas. Quando terminou de falar, Emma a olhava, mas não era como se julgasse suas atitudes, ia um pouco mais além.

- Por que não me contou? Eu teria ajudado a impedir que Zelena te levasse! - A Salvadora disse.

- Porque eu não queria ter esta conversa! - Regina respondeu impaciente. - Porque eu queria dar a Zelena exatamente o que ela pediu se esse era o preço para ela me deixar em paz!

- Ainda assim! Você foi sem qualquer ajuda! Sabe que não podemos confiar em Zelena.

- Emma, eu fiz isso por minha filha e não me arrependo, faria quantas vezes mais fosse preciso - parecia muito bem resolvida.

A loira então fez com que a outra ficasse de frente para ela, uma mão em cada ombro, de forma a forcar que a encarasse, para então dizer pausadamente:

- Você não está sozinha. Pare de agir como se carregasse o peso do mundo em suas costas, você tem amigos, família. Nós estamos aqui para te ajudar no que for necessário, mas você precisa nos contar o que está acontecendo para que isso funcione! Nós… - e logo se corrigiu. - Eu não posso fazer nada se você não confiar em mim!

A Rainha sorriu, mas de uma forma um tanto triste, enquanto levava uma mão para cobrir uma das que estavam em seus ombros. Estava feliz, de certa forma aliviada pela reação de Emma, mas, ao mesmo tempo, lhe despertava um sentimento de fraqueza e exposição se ver confiando em alguém que não em si mesma.

- Obrigada - agradeceu. - Obrigada.

- Ótimo! - A Salvadora estava era surpresa que não havia sido posta para fora do quarto com os cabelos chamuscados. As duas se afastaram mais uma vez para seguirem com um ar mais tranquilo - Então posso ir com você confrontar Zelena sobre as memórias? Você está louca se pensa que vou te deixar ir sozinha, ainda mais que agora você não é só você - se referia ao bebê.

Não agradava a ideia de levar a loira junto, porém sabia que não era uma escolha viável negar.

- Certo - cedeu. - Mas vamos fazer isto do meu jeito. Zelena é alguém difícil de lidar, então pode ser que as coisas fiquem complicadas e vamos ter que apelar.

- Estamos falando de machucar uma mulher grávida?

- Estamos falando se me atacar, vou atacar.

Estando os detalhes claros, até um pouco mais do que Emma gostaria. Sabia mais do que nunca que precisava acompanhar Regina ou a situação poderia sair de controle, algo bastante delicado, considerando que há dois bebês envolvidos. Ela ficou então observando a morena, enquanto esta colocava mais uma vez a mão sobre a barriga, uma forma que parecia até inconsciente. Provavelmente as duas estavam pensando a mesma coisa.

- Você disse que essa Maldição de Zelena parecia ser para esconder alguma coisa, talvez alguma lembrança específica? Será que tem algo a ver com o seu dia roubado e a sua falta de memória especificamente?

- Eu não sei - e esta ideia estava consumindo-a por dentro. - Pode ser.

- Mas por que ela teria tanto trabalho se ela já tinha roubado sua memória e você já sabia disso? Não era mais fácil ter deixado o resto da cidade em paz?

- Este é exatamente o problema, Emma - a Rainha ficava tensa. - Eu não sei o que eu fiz, nem essas pessoas sabem o que fizeram. Então, se cruzarmos os momentos que faltam nas nossas lembranças… - não queria nem terminar a frase.

- Talvez tenha feito algo a eles, ou alguns deles.

O pensamento era simplesmente aterrorizante para ambas, mas em especial para Regina, que lutara tanto para ganhar a confiança das pessoas da cidade. Ela sabia que a irmã era baixa e de pouca credibilidade, mas imaginar que a teria usado desta forma era terrível. Mais uma vez, Zelena se encontrava no caminho de seu final feliz, destruindo tudo aquilo que a morena estimava mais. Olhou para a Salvadora ao seu lado e havia uma conexão, uma espécie de sintonia que a fazia se sentir segura neste momento de medo e incerteza. Esperava apenas que, o que quer que houvesse acontecido não mudasse o que existia entre as duas e, no fundo, a loira desejava exatamente a mesma coisa.