Capítulo 08

Emma acordou cedo naquela manhã. Usando um pijama folgado, ia na cozinha para pegar dois copos de suco de laranja. No corredor do primeiro andar, passava por Henry, que descia correndo para ir pegar o ônibus da escola.

- Devagar! - Gritava para ele, não que achasse que o menino fosse escutar, pois logo a porta se fechava.

Continuou então andando, indo para a suíte principal da mansão número cento e oito. Não bateu na porta, mas abriu usando o cotovelo, ao que encontrava o quarto vazio. Um som nauseante declarava que a dona do quarto estava no banheiro.

- Enjôo matinal ainda? - Emma perguntou, tendo de resposta o som de descarga.

A porta do banheiro só então se abria, ao que Regina saía, o rosto bastante vermelho, não parecia estar muito bem, ao que se sentava na cama e dizia chateada:

- Já era para ter passado.

- Eu sei - a loira comentou se sentando ao lado dela e entregando o copo de suco, tomava a própria bebida como se não se incomodasse com nada. - Mas às vezes é assim mesmo - e dava de ombros.

- Quatro meses! - A Rainha não parecia se conformar. - Quatro meses vomitando todos os dias!

A campainha tocou no andar inferior, ao que Emma checou no relógio de cabeceira que horas eram. Não gostando do que via, virou o seu suco de uma vez e disse:

- Vou atender. Termine sua bebida e troque de roupa.

Com isso, deixou o quarto da morena e foi para o andar inferior quando tocaram a campainha mais uma vez. Abriu a porta e suspirou fundo com a decepção ao ver Hook ali, segurando flores, um ursinho de pelúcia e um balão rosa de um lado e azul do outro.

- Não sabemos se é menino ou menina, então eu comprei assim. E as flores são para você.

Emma teve que fazer um esforço imenso para não revirar os olhos, mas também não se obrigou ao ponto de fingir um sorriso. Não pegou as flores, apenas se afastou para que ele entrasse na casa e indicou a mesa da sala:

- Pode deixar ali, a mãe de seu filho vai gostar.

Falar assim era um verdadeiro balde de água fria para as intenções do pirata, o que o fazia parar de insistir, ao menos pelo momento. Hook deixou as flores onde havia sido indicado, bem como o resto dos presentes. Esta havia sido sua forma nos últimos meses para tentar se aproximar da loira, maneira que ela categoricamente ignorava. Os dois se olhavam e aquela situação ficava estranha, desconfortável, como estava sendo no trabalho ou quando se encontravam em qualquer ambiente.

- Você está bonita - ele disse puxando assunto.

- Eu estou de pijama - Emma era seca, olhando para as próprias vestes e cruzando os braços. Não estava com vontade de ser gentil com quem não queria, não hoje, hoje era um grande dia. - Por que você não vai para a cozinha? Robin! - Ela chamou.

Robin Hood vinha da cozinha, luvas de borracha nas mãos e um avental no tronco. Hook o olhava de cima a baixo sem entender nada, erguendo uma sobrancelha, mas o ladrão não parecia nem um pouco incomodado:

- Emma, o café está quase pronto, por que não vai chamar Regina? Ela deve estar precisando comer depois de vomitar.

A Salvadora balançou a cabeça de forma positiva, ao que subia de novo as escadas. Uma vez que a mulher os deixava, Hook não aguentava e dizia:

- O que é que você está fazendo?

- Não quero Regina tendo que se preocupar com a casa, ainda mais com os enjôos matinais - Robin respondeu.

- E por isso você fica aqui de empregada dela?

- Não, eu apenas acompanho o que acontece com o meu filho.

- Acha que assim vai conseguir ela de volta? - O pirata desafiava.

- Pode ser que não, mas faço minha parte para ajudar, como pai da criança. Além disso… - Era a vez dele de provocar. - Caio mais nas graças das mulheres desta casa do que com flores - e deu um tapinha nas costas do outro.

As duas mulheres apareceram então descendo as escadas, já haviam trocado os pijamas por roupas de sair. A camisa que Regina usava, mesmo folgada e de botões, deixava aparecer algo do volume em sua barriga. Hook lançou um olhar demorado, ao que se via fazendo um comentário agradável, ainda mais pela presença de Emma:

- Está crescendo…

- Quatro meses - a morena o lembrou colocando as duas mãos sobre o bebê. - Vai ser uma criança grande.

- Ao menos já sabemos que não são gêmeos - Robin lembrou, parando ao lado de Regina e pousando uma mão sobre a barriga dela também.

- Verdade - Hook falou, mas os seus olhos iam para Emma, ainda não estava acostumado com a ideia.

A loira então ficava um pouco incomodada com a situação e decidia intervir:

- Regina, Robin já fez o seu café. Melhor comer logo, meu pai deve chegar daqui a pouco e aí vamos poder sair.

Emma estava certa e Regina agradecia por ter uma desculpa para se afastar. Por mais que até gostasse de estar havendo uma participação dos possíveis pais do seu bebê, também se sentia abafada. Eram três, três homens que odiaria que fossem o pai de seu filho, cada um deles desejando algo diferente dela, sendo que tudo que a Rainha desejava era a sua vida de volta e caber mais uma vez em calças apertadas. Assim, se encaminhou para a cozinha acompanhada da Salvadora e foram tomar o seu café até escutarem buzinadas vindas da calçada. A loira pegou a bolsa da outra e juntas seguiram para o fusca, sentando nos bancos da frente, enquanto Robin e Hook iam no fundo, a caminhonete de David seguia atrás, na qual estava ele e Mary.

Se encaminharam então para o hospital da cidade, onde Dr. Whale já esperava na sala de exames. O que ele não imaginava era que Regina não estaria sozinha, pois foi entrando um a um, até a sala estar bastante cheia.

- Isso está mais cheio que a Granny's fazendo promoção de panquecas! - O médico provocava vendo tantas pessoas. - Parabéns, Regina, se tivermos um surto de DST's, já sei quem foi o paciente zero!

A Rainha o lançou um olhar tão letal que o médico ficou sem jeito, ao que pigarreou alto e indicou a maca:

- Pode se deitar.

Sem dar resposta e já sabendo como deveria fazer, Regina se deitou na maca, tentando ignorar o fato de que havia outras cinco pessoas na sala para ver o bebê. Era como se sua barriga fosse um aquário que todo mundo quer olhar os peixes. Levantou a camisa e abriu os botões, ao que Whale passou gel condutor sobre a pele e depois o aparelho de ultrassom. Ele procurava e procurava, até que parou e apontou para a tela:

- Este é o seu bebê.

Era automático sorrir. Robin levava as mãos para o rosto, Hook o dava um leve murro no ombro, enquanto David abraçava a mulher. Mary tocou a mão de Regina, era a primeira vez que pareciam próximas desde que haviam descoberto a possibilidade do Príncipe ser o pai da criança. Emma, por sua vez, levava as mãos para os ombros da Rainha, ficando mais distante do monitor para que os outros pudessem enxergar.

- E parece que está tudo certo com o bebê - o médico continuava, mudando o ângulo do vídeo. - Vê, aqui é o coração, bem forte e… - ia procurando mais. - Parece que temos um garoto aqui. Meus parabéns!

- Sim! - Hook foi o primeiro a comemorar, impressionando até Emma. - Eu sabia! Sabia que seria um garoto!

Havia um certo alívio naquele ambiente, em todo o momento que haviam passado juntos. Enquanto Regina limpava o gel e arrumava a própria roupa, os outros deixavam a sala de exames, mas Emma ficou para trás.

- Você parece mais feliz - a loira disse.

- Eu estou - a outra concordou. - Tudo parece mais real e eles… - se referia aos possíveis pais. - Acho que eles estão aceitando melhor.

- Você aceitou? - Era outra questão importante.

- Ele é tão lindo - abria um largo sorriso ao falar do bebê. - Henry veio como consequência de uma coisa terrível que foi a Maldição das Trevas, agora esta criança também. Eu não vou amá-lo menos, na verdade, eu vou amá-lo com todas as minhas forças para me redimir do que aconteceu.

- Você não teve culpa - Emma pontuou.

- Não importa, eles - e apontava para a porta, para fora da sala - sempre vão questionar isso, mesmo que não falem.

Deixando o hospital, retornaram para a casa de Regina, onde Mary fazia o almoço com a ajuda de Robin e os outros ficavam na cozinha tomando cerveja para comemorar. Hook segurava a foto do ultrassom, que não parava de olhar a todo momento, mostrando para David enquanto dizia:

- Eu vou ensiná-lo a velejar, a pescar e, quando for mais velho, a tomar rum como um homem!

A Príncipe ria, mas o fazia um tanto desconfortável:

- Acho que ele vai gostar mais de cavalos, vai aprender rápido a usar uma espada, como ensinei a Henry.

Robin se virava no balcão, parando um pouco com a salada para falar aos demais:

- Espadas são superestimadas, nada como um bom arco para se defender à distância!

Era tão bom escutar essas coisas.

- Oh! - Regina soltou um gritinho, atraindo toda atenção para si enquanto levava as duas mãos para a barriga. - Eu acho que o bebê concorda com o arco, ele chutou!

Aquele era o primeiro chute que ela sentia, o que fazia com que os três homens parassem tudo que estavam fazendo para se aproximar e sentir. Eram tantas mãos, tanta empolgação, Mary continuava na cozinha, mexendo na panela, ao que Emma se encostou ao lado dela:

- É muito legal o que você está fazendo. Eu sei que não é fácil e que deve doer, mas… Obrigada pelo esforço.

- Emma… - Mary suspirou, olhando para a filha em seguida. - Eu e Regina temos muita história, mais do que eu gostaria, e isso não vai ser fácil, mas eu não a culpo, nem poderia culpar. Só é… - era até complicado de falar. - Só é difícil, mas vamos dar um jeito.

A loira tocou no ombro da mãe cheia de ternura.

- A família está ficando grande - disse.

- E cada dia mais confusa.

A noite começava a cair e Henry já havia chegado da escola quando os convidados foram embora. Emma saiu para pegar comida fora com a Granny, pois não arriscaria sua culinária mediana com uma grávida. Ao retornar, jantaram e Henry falava sobre nomes de bebês para o irmãozinho. Realmente pareciam uma família, as duas mulheres pensavam de cada ponto da mesa. Seria tão ruim? Já pareciam duas lésbicas divorciadas, a cidade comentava, não seria nada absurdo pensar nisso mais uma vez, ainda mais considerando que a loira estava mais interessada no bem-estar do bebê do que os três possíveis pais, o que queria dizer muito, dado que eles amavam a criança, mas não tinham o mesmo contato que a Salvadora.

Quando o garoto terminou de tirar a mesa e se retirou para o quarto para estudar, as duas foram para a cozinha. Emma lavava os pratos e Regina jogava os restos no lixo, também guardando as vasilhas de sobras na geladeira. Era um silêncio desagradável para as duas.

- Então… - falaram ao mesmo tempo, ao que ambas riram.

- Você começa - a Salvadora insistiu.

- Certo - a Rainha aceitou, terminando o que fazia e se encostando no balcão central da cozinha. - Eu não perguntei, como você está? Com essa história toda e Hook. Quer dizer, ele é seu ex e você disse que terminaram porque ele foi um babaca sobre toda essa coisa de bebê. Deve ser difícil vê-lo agora se esforçando. Então… - era delicado abordar o assunto. - Se você achar melhor, talvez fosse o caso de dar outra chance a ele, não? - Extremamente delicado, nem sabia o motivo de estar entrando neste tópico.

- Nem tanto - a loira respondeu para a surpresa da outra. - Eu estava tão acostumada a ter Hook me cercando, me seguindo e fazendo de tudo para chamar a minha atenção que eu esqueci de um detalhe: eu não era afim dele. Eu fui ficando e ficando, sem parar, e foi progredindo, fazendo meus pais felizes, dando um padrasto a Henry, mas… - ela mordeu de leve os lábios, finalmente erguendo os olhos da pia vazia e enxugando as mãos. - Ficar distante me mostrou que eu não o amava, só estava acomodada a ter alguém.

- Então você está bem? - Regina não queria estar presumindo coisas.

- Eu estou - Emma respondeu com um sorriso um pouco tenso. - Eu estou melhor do que estive, eu não sei, acho que toda a minha vida. Tenho Henry, vou ser uma tia ou irmã ótima para este bebê que eu já amo, e tenho você.

A última palavra saiu de uma maneira um tanto surpreendente para as duas. A loira foi firme em, mesmo assim, não desviar o olhar, enquanto a morena moveu os dedos colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, gesto que sempre fazia quando ficava sem graça.

- Está ficando tarde - finalmente disse. - Boa noite, Emma.

- Boa noite, Regina - era só o que poderia responder.

Em seu quarto, a Salvadora ficava deitada na cama, fitando o teto no escuro. Como poderia ser tão idiota e largar uma coisa daquelas sobre a morena?

- Você é uma esquisita - sussurrou para si mesma.

Iria acabar afastando a outra se continuasse assim, e isto não poderia acontecer de maneira alguma.

- Por que? - Se pegava indagando.

Então ia fechar os olhos e tentar dormir, embora tudo que viesse à sua cabeça fosse a imagem de Regina, seu rosto, seu sorriso, e como ficaria linda com a barriga grande.

- Você é idiota, Emma, muito idiota - se repreendia duramente.

Enquanto isso, na suíte principal, a Rainha, de pijamas, passava hidratante nas mãos e ia se deitar, ao que apagava a luz. Não era fácil dormir sem alguém ao seu lado, não depois de conhecer a felicidade e esta lhe ter sido tomada. Mas não se sentia sozinha, não totalmente.

- Tem Emma - se viu comentando.

Estava pensando na loira que estava no quarto logo ao lado, que estava fazendo tudo para ajudá-la, e seria bom ter alguém como ela em sua vida. Mas não já a tinha? Cobriu o rosto com o travesseiro, cheia de raiva. Não poderia pensar assim, não poderia querer ter algo justamente com Emma. Mas e se o tempo provasse…