Kara Danvers, nada mais, nada menos que um raio de sol. Pelo menos é como sua irmã a descreve. As irmãs Danvers eram unidas, como dois corpos celestes que giram um em torno do outro. Gravidade, a força de atração entre as duas era impressionante. Elas eram dois polos distintos. Alex tinha a escuridão em si, a dureza e a descrença na humanidade. Kara tinha a luz, a maciez e o sonho de um futuro melhor. O perfeito equilíbrio.
Os interesses das Danvers eram semelhantes mas se expressavam de formas diferentes. Ambas queriam fazer o bem mas de formas diferentes. Alex escolheu entrar para a polícia para salvar as pessoas, enquanto Kara fazia veterinária para poder salvar os animais. A vida era boa para as irmãs, elas tinham um apartamento no centro de National City, o aluguel era barato e os melhores restaurantes estavam a uma quadra de distancia.
A única coisa negativa sobre a localização foi que quando o panico estaurou-se, elas se encontravam no olho do furacão sem formas fáceis de escapar. O caos do lado de fora nem se comparava com o que ocorria dentro do apartamento:
_Kara, vamos, temos que ir. O helicóptero de resgata vai partir da CatCo em 45 minutos, se não sairmos daqui rápido não poderemos alcança-lo. Pegue apenas o essencial, botas, casacos e cobertores.
Alex corria de um lado para o outro pegando tudo o que precisaria para sobreviverem, sua arma estava no coldre, garrafas de água e barras de proteína na mochila. Enquanto isso Kara estava inquieta de frente a seu armário, sem saber o que fazer.
_Mas, Alex, eu não posso abandona-los aqui. E se alguém os roubar? São edição de colecionador. Eu não consigo simplesmente deixa-los para trás.
Vendo que aquilo demoraria um século, a ruiva agiu rápido, pegou a mochila de Kara e jogou todos os Pop Funcos e as repiscas de dinossauros dentro da dela. Pegou também o caderno de esboços de da irmã e seu estojo com os matérias de arte. Com tudo guardado, entregou a mochila xadrez para a loira e disse:
_Pronto, problema resolvido. Seus instrumentos da clinica estão na minha bolsa de viagem. Pegue casacos, luvas e calce suas botas, estamos indo embora.
Infelizmente, era tarde demais, quando as irmãs chegaram a entrada do prédio, voltaram imediatamente a segurança de seu lar. As ruas pareciam o próprio inferno, sangue, vísceras, gritos e pessoas sendo devoradas em todo canto.
Subindo as pressas, por pouco elas não foram mordidas pelo senhor Jhonson, um fisiculturista que morava no apartamento a baixo do delas, Alex teve que ser rápida em seu gatilho e o acertou direto no peito, fazendo com que a criatura cai-se todos os quatro lances de escadas e bate-se com a cabeça com força no ultimo degrau, fazendo com que seu cranio fosse aberto espalhando seu fluido cerebral por todo o chão térreo.
Entrando em seu apartamento, elas trancaram a porta e empurraram o sofá para formar uma barricada em frente a seu maior ponto de vulnerabilidade. Os dias que se seguiram foram cada vez piores, os sons de gruídos se tornaram mais frequentes, conforme o tempo passava, a detetive perdia a esperança de que o governo conseguisse controlar aquela situação, todas as noites Kara tinha pesadelos e acordava aos gritos que imediatamente eram abafados pela irmã para não atraírem atenção indesejada. A comunicação entre elas passou a ser feita através de língua de sinais para que não fizessem nenhum som desnecessário. No quarto dia a eletricidade acabou e no decimo quarto, a dispensa estava vazia, não havia mais água no apartamento e suas garrafas com água potável estavam no final, este foi o momento que Alex tomou a decisão final. Elas precisavam sair dali e se abrigar em outro lugar, um lugar realmente seguro onde as duas pudessem dormir ao mesmo tempo sem ter que se preocupar com um monstro rosnando e babando em cima delas.
_Chega, estamos caindo fora daqui. Pegue o garfo de churrasco, Kara. Você vai precisar guardar as minhas costas enquanto caímos fora daqui.
Pegando tudo que poderiam usar como arma, a ruiva colocou um spray desodorante no bolço da calça junto a um esqueiro pois você nunca sabe quando precisará de um lança chamas. Com as duas prontas, já com os capacetes para não perderem tempo quando chegassem na moto, elas retiraram o sofá de frente da porta e adentraram o corredor, de um em um, elas invadiram os apartamentos de seu andar em busca de suprimentos. Quando terminam sua busca, tinha comida pra mais alguns dias e remédios o suficiente para caso tivessem alguma infecção.
Apesar de tudo, as irmãs não eram gananciosas, elas sabiam que não poderiam enfrentar todas as coisas que estavam no prédio e tinham sorte de seu andar estar sem nenhuma. Então elas voltaram a seu apartamento e desceram pela escada de incêndio tiro a um beco, onde ocultada por uma lona, estava a motocicleta de Alex. A detetive não queria mas precisava admitir que tudo aqui era extremamente eletrizante, a adrenalina que corria em seu corpo a fazia sentir como se estivesse em um dos livros de Philip Pullman.
Subindo na motocicleta e partiram, em alta velocidade já que as leis de transito não se aplicavam mais e elas precisavam fugir de seres humanos canibais e transtornados. O cheiro era horrível, lojas com vitrines quebradas, carros capotados e batidos pelo caminho, nesse pouco tempo a grama estava dominando as rachaduras da calçada, pedaços humanos e animais espalhados pelas ruas e os pombos tomaram conta de tudo aquilo que os transtornados não haviam dominado.
O suburbio parecia melhor mas ainda carregava o tom de apocalipse e destruição. Por isso Alex foi surpreendida quando Kara puxou sua manga e apontou para um porta onde uma folha balançava acompanhando a brisa. Se aproximando mais da residencia, a ruiva parou a motocicleta e esperou a loira pegar o papel e voltar. Com o retorna da irmã, ela tirou o capacete para ouvir o que Kara diria. E o que ouviu era no minimo curioso.
_É uma carta, de uma tal de Doutora Sawyer. Aqui detalha como lidar com os transformados, ela também fala que ela esta em busca de uma cura. Ainda tem esperança, Alex.
Apesar de sua vontade de refutar e dizer que ninguém seria capaz de reverter o atual cenário, a Danvers mais velha permaneceu em silencio. O sorriso no rosto de sua irmã era tão belo que ela não queria agir como um monstro e arrancar aquele momento de felicidade de seu rosto. Assentindo, Alex pegou a carta e a guardou no bolço interno de sua jaqueta de couro. Apesar de descrente, ela ainda era curiosa e trabalhou muitas vezes com a equipe forense então a vontade de realizar testes para ver a verdade eternizada através da linda caligrafia no papel.
O destino que a detetive tinha em mente, era o lago Tahoe, um local lindo e paradisíaco. Exatamente que elas precisavam apos ficarem dias confinadas ouvindo sons ameaçadores e vivendo como uma conflitante viagem pois tiveram que passar por varias vias, algumas com mais transformados de que outras mas depois de ultrapassarem o pandemônio que Sacramento havia se tornado, seu percusso tornou-se menos tortuoso.
Chegando ao lago, quando Alex diminuiu a velocidade e desceu do veiculo junta a irmã, sentiu algo frio tocar sua nuca e uma voz masculina que exclamou:
_Não tente nenhuma gracinha. Vou levar essa moto agora. E isso não é um pedido, princesa. Me entregue as chaves e todos nós viveremos para morrer um outro dia.
Olhando para a irmã, ruiva pegou a chave e lentamente se virou até estar de cara com o assaltante. Ele era alto, de pele negra e caranca na face, a roupa que vestia era um uniforme e no lado direito estava costurado o nome James. Entregando ele a chave, Alex viu ele fugir com a moto em direção a sacramento, seus instintos lhe diziam que James não seria encontrado novamente respirando depois que chegasse a grande metrópole. Alex amava sua motocicleta mas amava ainda mais sua irmã mais nova e não arriscaria a vida dela em um tiroteio com um homem que estava obviamente transtornado. Estar viva para proteger a loira era mais importante que um veiculo com pouca gasolina, elas poderiam arrumar outro depois.
Percebendo que Kara estava a beira de um ataque de panico, a detetive fechou a distancia entre elas e abraçou sua irmã fortemente e com ela ainda nos braços, sussurrava palavras de conforto. Elas encontrariam um jeito de viver, elas iriam superar tudo aquilo. Andando pela margem do lago, elas viram um pequeno conjunto de cabanas. Se preparando para o pior, Alex sacou sua arma e a veterinária segurou seu garfo de churrasco, ela não podia ser especializada em lidar com seres humanos mas se podia realizar o parto de uma vaca e aplicar vacinas em cavalos, Kara tinha a certeza que poderia se defender e atacar caso necessário.
Quando estavam próximas a primeira cabana, elas ouviram um barulho vindo da mata próxima a elas, se preparando para o pior. Conforme a sombra se mexia e as folhas farfalhavam, a apreensão aumentava. Depois de terem sido roubadas uma vez, a detetive garantiria que o que fosse aquilo que vinha da mata, não as atingiria. O tempo parecia não correr enquanto elas esperavam o pior e então aconteceu. De trás das arvores surgiu um jovem, baixo, branco, usando um uniforme semelhante ao de James e com uma aparência juvenil, ele carregava uma sacola plástica. Se assustando com a recepção nada calorosa, ele soltou a sacola e imediatamente levantou as mãos em rendição enquanto os mírtilos rolavam pelo chão agora libertas de seu envolucro. O garoto logo começou a implorar por sua vida:
_Por favor, eu entrego o que vocês quiserem, eu não sou uma ameaça, só por favor não me machuquem.
Percebendo o pavor na voz do garoto, Kara tocou no ombro da irmã para que ela abaixasse a arma. Apesar de desconfiada, a ruiva concretizou o pedido da irmã e disse:
_Não queremos machuca-lo. Estamos todos muito tensos aparentemente. Eu vou guardar a minha arma mas se fizer alguma besteira, vou acabar com você usando apenas o meu mindinho. Qual o seu nome?
Assentindo com a cabeça, o rapaz se abaixou e recolheu as frutinhas que se espalharam pelo chão enquanto a mais velha das Danvers travava a arma e a recolocava no coldre da coxa. Mais calmo, desconhecido disse:
_Me chamo Winn, eu e outros funcionários de um resort que fica a uns 15 km daqui, viemos nos abrigar aqui quando a confusão começou. E vocês?
Com os braços cruzas, Alex respondeu:
_Alex e Kara. Um amiguinho uniformizado seu roubou nossa moto.
_Eu não acredito que ele realmente fez isso... James, ele estava transtornado. Ele dizia a todo tempo que queria voltar para a cidade e salvar a namorada, mesmo sabendo que as chances dela estar viva a essa altura eram poucas. Prometemos a ele que quando encontrássemos um veiculo, ele poderia leva-lo para procurar a garota mas ele não aceitou isso. Cada dia mais raivoso, cada dia mais possesso mas nunca imaginei que ele iria roubar alguém para ir nessa busca suicida. Vamos, preciso levar vocês até Jhon, ele é nosso líder, ele vai saber o que fazer.
As irmãs seguiam Winn, tentando puxar conversa, ele percebendo um pin de Jurassic Park na mochila de Kara e sendo o grande nerd que era, iniciou a conversa. Feliz em ter alguém para discutir sobre sua grande paixão, a veterinária abriu um sorrio e começou a falar sem parar sobre os diferentes tipos de repteis jurássicos e se eles teriam penas ou não. Alex relaxou pela primeira vez, era difícil para sua irmãzinha se abrir com as pessoas mas se ela já fez um amigo, a detetive podia ficar mais tranquila, as coisas talvez dessem certo no final. Mas ainda sim, ela sabia melhor do que se apegar. O futuro era desconhecido e baixar a guarda poderia resultar em uma terrível consequência. O inteligente reforça as portas antes de dormir para que nada invada o seu lar mas o sábio tranca o porão, os armários e olha em baixo da cama pois sabe que os maiores perigos vem de dentro e não de fora.
