Já fazia tempo que Suzuran não visitava o Tenjin-ya, estivera há mais de um ano no reino aparente, queria ficar perto do mais próximo que teve de um pai: Shiro Tsubaki. Ela sentia que devia tudo a ele, por ter cuidado dela quando era jovem, lhe educado. A Tsuchigumo tentava esconder até de si mesma que era frustrante, entretanto, estar sozinha no mundo humano. Por que só foi conseguir voltar quando Shiro já havia morrido? Por que os humanos tinham de ser tão frágeis?
Ela planejara os anos de trabalho como gueixa na capital que lhe seriam demandados para conseguir promover sua empreitada de morar no Reino Aparente, mas no ímpeto de seguir os passos de seu pai adotivo, jamais pensara em como seria sua vida depois que conseguisse. Treinou por afinco todas as artes que lhe tornariam uma gueixa: a dança, a música, a hospitalidade, os cuidados de beleza, as vestimentas e penteados tradicionais; os rituais das cerimônias, literatura, caligrafia e tantas mais. Tornou-se uma artista completa, influente, respeitada e convidada para os principais eventos de todo Reino Oculto. Esta longa formação consumiu-lhe o pensamento por um longo tempo… Mas quando chegou a sua meta e a conquistou, começou a pensar que não tinha nenhum objetivo no reino dos humanos, além de chegar até lá.
Se por um lado seguiu seu desejo, evitando um casamento arranjado, sem amor com um riquinho rude, por outro, não tinha companhia, amigos e nenhuma perspectiva de um dia apaixonar-se, casar-se e formar uma família, como acontecia em geral com os ayakashis que viviam em seu ambiente natural: o Reino Oculto. Talvez fosse por isso que Shiro a levou para o Tenjin primeiramente… Por que pensava nas suas perspectivas de futuro, sabendo que ela, talvez, fosse mais feliz no Reino Oculto.
Estar de volta ao Tenjin-ya enchia seu coração de sentimentos mistos. Rever o irmão querido e Aoi, que era como uma irmã; encontrar todos os amigos que amava muito, em especial Odanna, que sempre foi um benfeitor, aquecia seu coração, mas o enchia de dúvidas e gerava uma angústia aguda. Não queria admitir, mas tinha vontade de permanecer no Reino Oculto, de seguir sua vida, recomeçar com novos objetivos, mesmo que fosse para ser uma funcionária humilde no hotel. Entretanto, cada vez que pensava nisto, uma culpa imensa recaía sobre ela, devido à jura que tinha feito a si mesma de voltar ao Reino Humano e ficar perto de Shiro.
O convite para o casamento de Odanna e Aoi foi de certa forma um bálsamo para seus sentimentos, pois teria um motivo justo para estar no Reino Oculto e matar as saudades de todos, colocar os pensamentos e sentimentos no lugar. Consideraria férias merecidas. Ser convidada para apresentar-se na festa de casamento do mestre era uma honra imensurável, e enchia seu coração de gratidão por tudo que Odanna sempre fez e continuava fazendo por ela. De certa forma, era uma confirmação velada, de que seu lugar de gueixa estaria a aguardando no Reino Oculto, caso desejasse retornar.
Todos estes pensamentos passavam por sua cabeça enquanto aguardava para subir no palco para sua apresentação. Apesar de ter se encontrado com Akatsuki, seu irmão, e vários companheiros do Tenjin, ainda não pode cumprimentar os noivos, pois antes que a cerimônia terminasse, retirou-se para se paramentar adequadamente para sua dança.
Suzuran tinha um carinho especial pelo quimono que usaria, fora presente do mestre do Tenjin para sua estreia como gueixa. Todo em tons de cor de rosa, revelando lindos e delicados ramos de sakura, faziam-na parecer com as gueixas de pinturas tradicionais, ou até mesmo os bibelôs de gueixa que viu no Reino Humano. Na cabeça usava um arranjo de ouro que cascateava a partir da lateral, e lindas borboletas espalhadas pelo coque completavam o conjunto.
Já fazia tempo que não dançava para uma audiência, mas ao subir no palco, sentiu como se o tempo não tivesse passado. As emoções percorriam seu corpo e saíam em forma de gestos. Ela colocou toda gratidão que sentia pelo mestre e todo afeto gratuito que sentia por Aoi em sua dança. Sentiu-se novamente como a gueixa famosa que foi por um tempo, ao ver o público tão silencioso e absorto ao vê-la. O poder de sua arte estava intacto.
Quando terminou, uma explosão de aplausos encheu seu coração de alegria, pareciam ter gostado! Com ajuda atenciosa de alguns funcionários do hotel, desceu do palco, e escutou o anúncio do brinde aos noivos. Procurou com o olhar o garçom mais próximo, para que pudesse pegar uma taça de champanhe e brindar à saúde e vida longa ao querido casal. Distraída com o grande fluxo de convidados, assustou-se quando a mão que alcançava a taça encostou-se em outra. Por reflexo, recolheu a sua, fazendo contato visual com o ayakashi que disputava consigo a mesma bebida.
Tratava-se de um lindo Inugami com uma longa cabeleira ruiva - como a sua - e olhos profundamente azuis. Estava com trajes tradicionais verde água, o que deixava seus olhos mais sobrenaturalmente bonitos, e os cabelos de um vermelho mais selvagem. Ele era muito atraente. Somente seu semblante extremamente sério criava certa distância, mas acostumada com seu irmão que também era um tanto sisudo, não sentiu nenhuma intimidação perante ele.
Ele então, após parecer pensar um pouco, fez-lhe uma menção com a cabeça, mantendo a expressão fechada - cedendo-lhe a taça. Suzuran sorriu-lhe gentilmente, não o sorriso de gueixa: o sorriso profissional, por algum motivo o belo Inugami despertou-lhe uma simpatia instantânea, e o sorriso que brotou em seu rosto foi de puro contentamento. Estendeu-lhe a mão dizendo:
- Muito prazer, me chamo Suzuran. E o senhor?
- Meu nome é Ranmaru. Sou o Hachiyo do sul, mestre de Orio-ya.
Ah! Suzuran sabia que se lembrava dele de algum lugar! Era o poderoso e centrado – além de nada amigável - Hachiyo das terras do Sul. Algumas vezes o viu em Youto, sem obviamente ser notada. Suzuran lembra-se de tê-lo observado por ser irmão do Jovem Mestre do Tenjin-ya: Ginji. Além disso, lembrava-se de sua fama entre as gueixas, todas dariam qualquer coisa por um encontro com ele, mas o Inugami não se permitia pequenos prazeres e momentos de lazer, só via apresentações artísticas se fossem parte de alguma reunião de negócios, qualquer coisa fora disso, do ponto de vista dele, era futilidade. Ranmaru nunca era visto em suas visitas à capital frequentando termas, casas de chá ou levando gueixas e outras damas para jantar, como era comum dos outros Hachiyos, em sua maioria casados ou buscando uma esposa. Ranmaru só tinha um foco: fazer Orio-ya tornar-se um grande e competitivo hotel. A distância que mantinha, a discrição sobre a vida pessoal, aliado ao seu sex appeal natural faziam dele um dos homens mais cobiçados entre todas as mulheres solteiras do Reino Oculto. Seu sucesso com as mulheres se equiparava com de Odanna, mas este, tendo revelado sua noiva humana, deixou todos olhares para Ranmaru: poderoso, lindo e solteiro.
A fama precedia o homem, e Suzuran o observava curiosa. Ranmaru parecia travar algum tipo de luta interna, até que ela falou para quebrar o gelo:
- Ah, sim, o irmão de Ginji-san, Aoi sempre falou muito bem de você…
Neste momento, a gueixa percebeu que ele ainda lhe segurava a mão desde que se apresentaram, e sentiu seu rosto muito quente. Certamente a maquiagem pesada não entregou ao Inugami seu rubor - por que essa reação? Estaria perdendo seu foco? A habilidade de manter-se impassível diante do sexo masculino era dominada por ela com primazia… Talvez tenha deixado a guarda aberta por conhecer um homem capaz de despertar tantos rumores.
Ela o percebeu, medindo-a com o olhar. Aqueles olhos azuis pareciam enxergar-lhe a alma, e há deixavam um pouco desconcertada por dentro, ela tentava, da melhor maneira possível, não entregar sua agitação. Ele respondeu um pouco ríspido:
- Não sei por que Tsubaki Aoi teria motivos para falar bem de mim…
Agora ele pisou num terreno que Suzuran conhecia bem, estava agindo como seu irmão! E quando Akatsuki respondia assim, é por que estava desconcertado e não sabia o que falar. Estaria o poderoso Hachiyo do Sul inseguro? Ela não conseguia lidar com a ironia de toda aquela situação e deixou escapar uma risadinha… Ele a fitou sério, mas logo seu olhar se desarmou mostrando-se um pouco mais cálido:
- Perdoe-me senhorita, mas o que você acha tão engraçado?
Suzuran sentiu que passou dos limites, não podia rir de alguém tão poderoso, e não queria de nenhuma maneira deixá-lo desconfortável. Não ria por achá-lo ridículo ou cômico, mas sim, por ser tão familiarizada com este tipo de personalidade, a ponto de reconhecer que mesmo na defensiva ele ficava ainda mais bonito.
- Mil perdões! Não estou rindo do senhor, mas é que seu jeito de falar me lembra-me muito de alguém muito próximo: meu irmão!
Ele então pareceu fechar novamente o semblante, e explodiu espontâneo respondendo sem nenhum filtro social:
- Não me compare àquela aranha rabugenta!
Agora Suzuran estava gargalhando, não conseguia controlar-se, a resposta tão espontânea e a negativa tão veemente em não parecer com seu irmão transparecia que o temperamento dos dois era muito próximo! Comentou tentando controlar o riso:
- Isto é exatamente o que ele diria!
Ela viu então a expressão dura do ayakashi suavizar-se, e algo inesperado aconteceu: ele sorriu! Ranmaru, famoso entre as gueixas de Youto por nunca sorrir, por nunca fazer contato visual, sequer enxergá-las, presenteou-a com seu sorriso! Ela devia confessar, que sorriso maravilhoso! Com a expressão relaxada, seus olhos pareciam ainda mais profundamente azuis, e todo conjunto se destacava, ele era sem dúvidas, o homem mais belo que já vira pessoalmente. Ele falou muito educado, olhando-a de um jeito que fez seu fôlego se suspender por alguns segundos:
- É um prazer conhecê-la, Suzuran!
Uma frase tão corriqueira e cotidiana dita por aquele homem com fama de ser rude, e de ter uma beleza tão cruel quanto seu temperamento, deixou Suzuran sem chão, seu coração estava descompassado perante aquele olhar, sentia seu rosto pegando fogo… Precisava retirar-se. Lembrou-se que ainda não cumprimentara os noivos, decidiu que deveria vê-los. Então falou, fazendo uma elegante reverência:
- O prazer é todo meu, Ranmaru-sama. Se o senhor me dá licença, preciso cumprimentar os noivos, ainda não tive a oportunidade.
Ele acenou com cabeça, indicando que estava tudo bem, e ela saiu em direção ao casal de amigos. Quando estava quase alcançando os noivos, não resistiu em olhar para trás, para fitar o Deus Cão de Orio-ya. Para sua surpresa, ele ainda a olhava. Ela sorriu timidamente, e seguiu para cumprimentar seus amigos.
Ranmaru seguiu até outro garçom pra pegar uma taça para o brinde aos noivos. Ainda sentia o suave perfume de sakuras que a gueixa desprendia. Estava pensativo quando Hatori o abordou de novo:
- Está distraído, chefe, o que foi? A gueixa deixou-te impressionado?
Irritando-se com a impertinência de seu subordinado, apenas respondeu rispidamente:
- Pare de imaginar coisas, Tengu, ou te mando de volta para o Monte Shumon!
Hatori fingiu estar apavorado, o que não foi nada convincente, e respondeu:
- Perdoe-me. Não está mais aqui quem falou!
Ranmaru não viu quando ele deu uma leve piscadela com um dos olhos. As festividades caminhavam para o fim, e o Inugami preparava-se para embarcar em sua condução de volta para Orio-ya. Despediu-se dos noivos desejando-lhes muitas felicidades, deixando aberto um convite para que passassem a lua de mel no seu hotel:
- O festival de verão está próximo, e pelo que sei vocês têm férias no Tenjin nesta época, que é a de maior lotação e dos eventos mais importantes em nossas terras. Considerem a possibilidade de passarem umas férias de casal conosco! Estaremos aguardando.
Endereçou um olhar para a gueixa que estava ao lado da noiva, e deu um sorriso sincero:
- Mais uma vez, Suzuran, foi um prazer!
Virou-se com seu caminhar decidido, afastado do grupo do Tenjin-ya. Antes de saltar para sua embarcação, despediu-se do irmão, mas antes perguntou:
- Ginji, ainda estou finalizando a programação cultural da semana de festival de verão deste ano, gostei muito da apresentação desta gueixa, você me passaria o contato dela?
Ginji olhou o irmão um tanto desconfiado:
- Não sabia que você se interessava pela arte das gueixas, que eu saiba você sempre as considerou fúteis e desnecessárias… O que está planejando?
Ranmaru fechou o semblante perante a intromissão do irmão, respondendo secamente:
- São novos tempos irmão… E o público sempre pede nas avaliações que convidemos gueixas para o festival, por que não atende-los? Não entendo o que está tentando insinuar, meu interesse é estritamente profissional.
- Se você diz…
Ginji então fez uma reverência e voltou a caminhar de volta ao seu grupo de amigos após seu irmão embarcar. Trazia um sorriso no rosto, será que o interesse de seu irmão na doce Suzuran era meramente profissional?
