Suzuran havia se acomodando e tomando um banho rápido para relaxar o corpo depois da viagem. Vestiu o lindo yukata do hotel, que estava cuidadosamente reservado para ela no armário. Azul celeste era uma cor que ela não costumava usar muito, mas achou de muito bom gosto seu acabamento com um obi cor-de rosa (sua cor favorita). Olhou-se no espelho para arrumar os cabelos, e achou que aquela cor realçou seus cabelos. Decidiu prender-lhes a metade, colocando um de seus adereços: uma cascata de pequenas flores minúsculas, que saíam de uma presilha e caiam pela lateral de seus cabelos, quase alcançando os ombros. Fez uma maquiagem suave, apenas dando um aspecto saudável ao rosto e aos lábios, realçando sua aparência feminina e jovial. Escutou uma batida leve na porta, seguida por uma voz suave de mulher:

-Senhorita, nosso mestre pediu que lhe servíssemos o almoço, deseja que seja agora?

Ao ouvir a delicada oferta da refeição, Suzuran percebeu que com tanta ansiedade e excitação com a novidade do hotel, esquecera-se até mesmo de se alimentar. De fato estava faminta!

-Por favor, adoraria almoçar agora!

A jovem serviçal pediu licença e se adentrou ao aposento, colocando uma travessa coberta sobre a pequena mesa. Suzuran se assentou e imediatamente levantou a tampa, se maravilhando com os aromas e a beleza da exótica refeição de frutos do mar misturada com frutas tropicais.

-Nossos chefs prepararam sua especialidade, estão muito empolgados por você ser amiga da senhorita Aoi! Assim que terminar, trarei a sobremesa, sinta-se em casa!

A ayakashi não imaginava o quanto frutos do mar eram saborosos, a culinária dos chefs de Orio-ya parecia ter um toque de juventude e ousadia que ela sentia nos pratos que Aoi cozinhava… pensava em como sua amiga deixou sua marca com sua breve passagem pelo Sul. Ao terminar, experimentou a sobremesa gelada à base de manga, uma fruta abundante naquela terra, a textura e o sabor eram maravilhosos!

Ranmaru tentava a muito custo se concentrar na reunião estratégica para acertar os últimos detalhes da logística do evento que já estava tão próximo, mas a provocação de Hatori o deixara sem lugar. Por que sentiria ciúmes de uma mulher que mal conhecia? Maldito tengu que via segundas intenções em tudo!

Havia o escutado sussurrar para si que ele estava negando-se a enxergar o próprio destino à sua frente, que tipo de afirmação era aquela? Quais histórias este empregado maluco estava inventando em sua cabeça? Apesar de tudo, Hatori era um excelente chefe de recepção, e contava com sua competência e carisma para receber os hóspedes que começariam a chegar amanhã, às vésperas do evento, para já se acomodarem e estarem descansados no festival.

Precisava agilizar a reunião para levar a sua convidada para conhecer o complexo, dizia a si mesmo que era uma cortesia profissional, uma amostra da hospitalidade do sul, mas nem ele mesmo sabia por que tinha se oferecido para fazer isto, já que não era uma prática sua, nem com os hóspedes mais ricos e importantes. Entretanto, agora não poderia dar o braço a torcer, não voltaria atrás dando mais motivos de especulação para Hatori, agiria naturalmente, era um bom plano…

Não que ele não gostasse da ideia, tendo os dias tão cheios de trabalho, estar na companhia de uma mulher bela e doce como Suzuran, seria uma pausa na correria, uma pausa até mesmo bem vinda… Ultimamente, depois de tirar o peso da cerimônia dos ombros, permitia-se vez ou outra pequenos prazeres, como caminhar pelo vilarejo próximo ao porto, ver o pôr do sol na praia, mergulhar nas termas do hotel - tarde da noite depois de tudo sob controle… conhecer pessoas novas podia ser um prazer adicionado a esta lista, definitivamente sim!

Oooi, chefe, o que você tinha mesmo para nos dizer?

Ranmaru de repente voltou de seus devaneios assustado com a chamada de atenção de Hideyoshi e respondeu ao ayakashi macaco rispidamente:

Ei! Só por que te promovi não vai achar que te dei liberdade de falar assim comigo!

Hatori ria discretamente do colega que ficou um tanto acuado perante a resposta brava de seu chefe, disfarçando para não ser notado e ter a bronca estendida para si, mas essa distração para ele tinha nome… e ele tinha plantado direitinho a sementinha na mente de seu chefe… quem sabe, mesmo tão obtuso, ele despertasse para viver um pouco de romance?

Alegando ir logo ao assunto de interesse, Ranmaru passou para os dois a programação final, com as tarefas de organização que a equipe de Hatori assumiria, a partir daquela noite, atenção seria dobrada no setor de recepção. O pequeno chefe de Orio-ya por sua vez, precisava dividir com Ranmaru a supervisão geral de todos ultimos detalhes que faltavam, tanto de todos departamentos do hotel - supervisionando cada um de suas lideranças - bem como da programação cultural, recebendo e encaminhando os artistas, e preparando vários acontecimentos simultâneos dentro do hotel.

Sem se prolongar na reunião - até mesmo um pouco apressado, o inugami dispensou seus subordinados para que sem demora se dedicassem aos últimos ajustes para o evento. Levantou-se um tanto afoito, e para seguir para os aposentos da gueixa, mas parou, pensou… "Por que estou com tanta pressa? Não há motivo para isto…" Respirou fundo, acalmou seu ritmo, e seguiu altivo como sempre pelos corredores do hotel.

Percebeu que uma funcionária da recepção acabara de sair com o prato de sobremesa. Esperou um pouco à porta, dando tempo para que a moça se compusesse, e bateu na porta com seu toque energético característico.

Logo após fazer sua higiene bucal e retocar a maquiagem, Suzuran ouviu um outro toque à porta, menos suave e mais decidido. Provavelmente era Ranmaru-sama para o prometido tour pelas instalações do hotel, seria prática corriqueira no Orio-ya o grande chefe fazer uma visita guiada com hóspedes? Seu coração disparou com a perspectiva dele estar lhe oferecendo uma atenção especial, e um desconcerto e ansiedade tomou conta dela… "Suzuran, controle-se, não sei por que tenho ficado tão nervosa na presença desse inugami, já convivi com tantas pessoas poderosas, dancei em eventos tão grandes, por que tanta ansiedade?"

Fato é, que desde que recebera o convite, Ranmaru e seus olhos azuis povoavam-lhe a mente, ficava recordando seu diálogo no Tenjin-ya, e as falas de Aoi sobre ele, as vezes uma esperança lá no fundo, de que ele se sentia atraído por ela, começava a nascer. Ela sufocava logo estes pensamentos… "ilusões não lhe fariam nenhum bem", e tentava focar no aperfeiçoamento dos números que apresentaria e na elaboração de figurinos e adereços adequados para dar a dramaticidade certa a cada apresentação.

A gueixa respirou fundo e seguiu para a porta, tentando abrir da maneira mais casual possível, e se deparou com Ranmaru e sua presença marcante, em vestes azuis celeste como as dela. Seus cabelos em tom ferrugem, cascateavam pelos ombros, e a brisa agradável do mar que refrescava os corredores do hotel, os movimentavam, dando-lhe um ar mais jovial do que naquela noite de casamento no Tenjin-ya. Ele fez uma menção, um pouco sério, e falou num tom profissional:

Senhorita, está pronta para conhecer Orio-ya?

Ela sorriu com sinceridade dizendo:

Será um prazer!

Aquele sorriso pareceu arrefecer um pouco da rigidez de Ranmaru. Suzuran percebeu seus ombros mais relaxados, e o semblante menos fechado. Naquele momento, para ela, ele parecia, na verdade, um pouco tímido. Seria possível, que um homem daquela estirpe, estava tendo problemas de inibição para lidar com uma mulher? Este pensamento manteve um sorriso afetuoso em seu rosto. Ele então quebrou o silêncio dizendo:

-Me siga por aqui…

E caminhou pelo longo corredor sem pressa, mantendo-se ao lado de Suzuran em um ritmo tranquilo, como quem passeasse por um território novo, coisa que não lhe era nada familiar. Tendo se acostumado a ser o grande-chefe, e sempre dar ordens, puxar conversas informais não era seu forte, nem mesmo nas reuniões tão formais dos Hachiyos, acostumou-se a conversar apenas sobre negócios, ganhou fama de alguém avesso à diversão. De qualquer forma, tentou praticar a conversa informal:

- A senhorita se formou como gueixa na capital? Não me lembro de você nos eventos em que estive...

- Já faz um bom tempo que não vou a Youto, há muito vivo no reino humano.

- No reino humano? Mas o que uma gueixa ayakashi faria em um território tão hostil?

- Bom, eu sempre tive o desejo de morar lá por questões pessoais, mas um contratempo acelerou minha partida…

Ranmaru calou-se pensativo, olhando-a com uma certa curiosidade, incerto se devia ou não perguntar, se seria indiscreto querer saber o que seria tão grave a ponto dela abandonar o mundo ayakashi… Suzuran - empática como sempre - leu a dúvida em seu rosto e respondeu a questão não verbalizada:

- Um homem de uma família poderosa pagou uma grande quantia à casa de gueixas onde eu trabalhava e decidiram entre si que eu era sua propriedade e queriam me obrigar a casar com seu filho…

- O quê? Mas ainda praticam algo tão ultrapassado na capital? Comprar uma mulher? Não há quantia que compre uma vida? Especialmente uma artista como você, transformada em um enfeite aos caprichos de algum herdeiro rico?

Suzuran percebeu a indignação de Ranmaru perante seu conflito do passado, o que lhe aqueceu o coração. Então suavizou o semblante com um sorriso doce lhe dizendo:

- Infelizmente ainda é uma prática comum na capital, onde somos tratadas como objetos…

- Não consigo conceber que tipo de homem precisa comprar uma mulher para obrigá-la a casar com ele. Eu nunca aceitaria um relacionamento assim!

-Não acredito que o senhor precisaria de tais artifícios para conseguir alguém para se casar… Mas no final, tudo correu bem. Odanna-Sama intercedeu por mim, e apesar de atacarem o Tenjin-ya, ele conseguiu que eu chegasse em segurança ao mundo humano.

- Me parece ter sido uma situação realmente grave. Se me permite perguntar, por que o mundo humano?

- Tenho uma ligação afetiva com o mundo aparente, pois fui criada por um humano.

-Um humano?

- Sim, Sr. Tsubaki Shiro…

Ao ouvir aquele nome, Ranmaru fez uma cara de surpresa misturada com irritação, seu rosto ficou um pouco vermelho, o que fez Suzuran não resistir e rir da situação.

-Por que você está rindo?

- É que esta é a mesma cara que meu irmão faz quando o nome do senhor Shiro é mencionado…

Ranmaru abriu a boca para responder, e se controlou para não causar uma impressão grosseira em Suzuran, ela apenas replicou divertida:

-Já sei! Não devo te comparar com aquela aranha rabugenta… não é? Mil desculpas, apesar de algumas semelhanças de temperamento, de fato vocês são diferentes…

Como um passe de mágica, ela conseguiu dissolver toda irritação dele com sua doçura e espontaneidade… Será que as gueixas eram treinadas também para fazerem isso tão naturalmente? Ele ainda olhava para o rosto dela com admiração, sem saber o que dizer, então percebeu que estavam às portas da casa de banho quando Tokihiko abriu as portas e lhes deu as boas vindas:

-Boa tarde grande mestre, senhorita!

-Tokihiko, esta é senhorita Suzuran, uma gueixa da capital que veio para ser uma das atrações culturais do nosso festival de verão.

- Sim! Me lembro de você do casamento de Odanna-sama e Aoi! Você é irmã de Akatsuki, não é? Como estão todos no Tenjin-ya, você veio de lá?

- Boa tarde! Vim direto do Tenjin-ya, estava passando umas férias por lá, revendo os amigos. Todos estão muito bem. Trouxe uma carta de Shizuna para o senhor, quando terminar de desfazer as malas, mando te entregar.

O mestre das termas pareceu muito emocionado com a notícia, e sem saber o que dizer, Ranmaru então pigarreou chamando-lhe a atenção e pedindo que explicasse à Suzuran as especificidades das termas de Orio-ya.

Após às termas, visitaram cada espaço do hotel, conversando com os funcionários, familiarizando-se com eles. Terminaram a visita no terraço do hotel com vista para o mar.

-Aqui é meu lugar favorito de Orio-ya, a vista do oceano e o silêncio... Durante todo século passado, nunca tinha parado para pensar em como esse lugar é agradável, mas depois da cerimônia, tenho percebido mais o que realmente me agrada…

Ela o olhava absorta, contra o azul do mar que deixava seus olhos ainda mais brilhantes e claros. Ele então quebrou um pouco o encantamento interrompendo os devaneios dos dois:

- Bom, mas creio que você não está aqui interessada em me ouvir divagando. Você deve estar cansada, vou liberá-la para aproveitar nossas dependências, descansar. Se quiser ensaiar, te cederei um dos salões de eventos que não será ocupado até depois de amanhã, que é o dia do evento. Tenho certeza que você deve ter trazido seus próprios quimonos, mas fique à vontade para usar alguns da coleção do hotel, basta pedir à nossa chefe de recepção, Nene, e ela te acompanhará e te ajudará a vestí-los. Acho imporante para o evento, que durante os dias do festival você permaneça paramentada como gueixa... Creio que por agora é isso. Aproveite o hotel amanhã, descanse, e depois de amanhã, na abertura do festival, ao pôr do sol, você apresentará sua dança no palco principal.

Suzuran assentiu, mais séria que antes, ao perceber que sem querer Ranmaru havia entrado de repente no "modo profissional". Ele devia fazer isto bastante, uma vez que comandava um hotel tão movimentado, e governava toda região. Provavelmente era tão ocupado como Odanna-sama. Olhou para ele com carinho dizendo:

-Darei meu melhor, Ranmaru-sama! Vou aceitar amanhã o acesso à sala de eventos para fazer o ensaio geral da dança de abertura. Se os músicos do festival já estiverem por aqui, gostaria de ensaiar com eles, para passar os detalhes das músicas específicas das danças tradicionais que apresentarei.

-Sim senhorita! Tudo que precisar será arranjado. Agora preciso voltar para reunir-me com outros chefes de equipe, vou te escoltar ao seu quarto.

-Se o senhor não se importa, gostaria de ficar um pouco mais aqui, apreciando a paisagem.

Ranmaru a olhou pensativo, será que havia sido rude com ela para que ela de alguma forma? Fez uma reverência:

-Claro, sinta-se em casa, se precisar de qualquer coisa, peça a qualquer funcionário que te acompanhe ao meu escritório.

Assim, se retirou rumo ao hotel, deixando Suzuran com a paz da paisagem de mar com sol poente, a brisa agradável do mar, antes de entrar pela porta, olhou para trás, e seus olhares se cruzaram mais uma vez.

O sol tocando no mar, parecia uma bola de fogo pintando as águas, as ondas tinham um ritmo suave e tranquilo. O coração da moça entretanto, destoava-se completamente da paisagem, batia um pouco mais acelerado, e ao mesmo tempo com uma certa angústia por não ter aceitado a escolta dele até seu quarto, brindando-a com mais alguns minutos de sua companhia. Realmente, ele não era nada que sua fama pregava, na verdade, Suzuran achava cada vez mais agradável estar na presença dele, desvendando aos poucos seus mistérios.