Suzuran acordou muito animada, a abertura do festival foi um sucesso! O desfile majestoso lhe tirou o fôlego, estava encantada com a cultura das terras do Sul. Graças aos deuses sua dança havia impressionado tão bem o Grande-Chefe, que seu humor tão reservado tinha até mudado um pouco, surpreendentemente tudo isso acabou lhe rendendo um convite para jantar com ele no dia seguinte.
A gueixa não sabia dizer se o bom ânimo que sentia naquela manhã se devia à noite agradável de sono depois da sensação de missão cumprida, ao sol radiante que dava mostras de mais um belo dia de verão, ou da promessa de uma tarde agradável com o Hachiyo do Sul. Essa parte ao mesmo tempo fazia com que ela tivesse uma sensação de borboletas no estômago quase que incontrolável.
Decidiu tomar café junto aos outros hóspedes ao invés de recebê-lo no quarto. Ver a diversidade de ayakashis de toda parte do Kakuriyo lhe faria distrair um pouco da ansiedade de seu passeio à tarde. Hoje seria dia de atender duas cerimônias do chá, uma no final da manhã, e outra depois do almoço. Ainda teria tempo para se paramentar depois do café.
Como um agradável balneário de luxo, o salão de Orio-ya onde se servia o café da manhã era belíssimo e amplo. Chão de mármore rosado, extremamente polido, mesas de um corte simples e elegante com delicadas toalhas florais, todas enfeitadas com arranjos naturais delicados de plantas da região. A parede contrária à entrada era panorâmica, totalmente transparente, dando vista para a belíssima praia de infinito azul, ao longe se avistava uma pequena ilha. Suzuran se assentou em uma mesa junto à parede de vidro, para apreciar a paisagem enquanto comia. Terminando a refeição, retornou ao quarto, para com ajuda de funcionárias do hotel, se preparasse para o trabalho do dia.
Escolheu um quimono feminino e delicado, em seda azul marinho, com barrados formados por uma explosão de flores brancas com contornos rosa, vermelho e laranja, e algumas flores menores nas mesmas cores. Arrematou o conjunto com um obi de fundo dourado, estampado no mesma padrão de flores.
Nos cabelos, escolheu um coque simples em altura média, uma lateral adornada com belas orquídeas frescas em tons de rosa, e do outro lado, com quatro presilhas em forma de palitos dourados. Contra o tecido escuro, sua pele parecia branca como porcelana, mesmo com apenas uma maquiagem leve, pois os eventos de hoje não exigiam produção como do dia anterior. Delineou delicadamente os olhos, realçou os cílios e na boca, um batom coral completava o conjunto que resplandecia em beleza e delicadeza.
Cerca das nove e meia da manhã, se dirigiu à elegante e aconchegante sala de chás do hotel para organizar-se para cerimônia. A sala se localizava em um extremo do hotel, de forma que os eventos pudessem ser bem reservados. Seu chão era de madeira clara e abria-se completamente em portas tradicionais para uma varanda com vistas para a floresta de pinheiros no extremo do hotel. O local arborizado promovia um clima fresco à sala. Ao centro uma pequena mesa quadrada, e algumas almofadas em tom cru, além dos instrumentos tradicionais de confecção do chá, completavam o ambiente.
Às 10 horas em ponto, um casal adentrou-se, ambos usando yukatas leves de seda em cores claras, no estilo perfeito do verão. Eram jovens e pareciam felizes. Assentaram-se frente a frente, e Suzuran procedeu à cerimônia, servindo-lhes o chá de preferência e recolhendo-se ao canto da sala organizando os instrumentos. Para sua surpresa, o motivo daquela reunião discreta, era um romântico pedido de casamento, a jovem noiva chorou emocionada quando seu namorado lhe abriu uma caixa com um lindo anel de noivado. A gueixa também se emocionou com a alegria do casal e a declaração tão emocionada do rapaz! Na saída, parabenizou os dois e desejou-lhes sorte. Seu coração se agitava, esse tipo de alegria não parecia possível em sua vida. Fechou a sala, seguindo para o almoço e após, outra cerimônia, desta vez para um grupo de amigos que comemoravam negócios bem sucedidos.
Já entardecia quando ela finalmente fechara a sala de chá e seguia para o prédio principal para trocar de roupa em seu quarto, foi um dia leve, Suzuran gostava de servir as pessoas e estar presente em momentos de felicidade. Já estava chegando no hall, quando avistou Ranmaru dando uma bronca em Hatori na recepção. O tengu se encolhia nos fundos do balcão, parecia exagerar na dramaticidade do susto, para sensibilizar o chefe, que continuava a esbravejar. Ela riu consigo mesma, tendo se aproximado dele nestes últimos dias, sabia que apesar de ralhar tanto, o inugami tinha um coração generoso.
Hatori avistou Suzuran e sorriu, e pareceu ver nela alguma salvação. Ranmaru desviou o olhar para onde seu empregado olhava, e interrompeu a bronca:
- Espero que você resolva esse problema ainda hoje, tengu! Ou vou e depenar!
- Sim chefe! Farei o que for necessário imediatamente!
Ranmaru então seguiu pelo hall em direção à Suzuran e perguntou cordialmente:
- Teve um dia agradável, senhorita?
- Sim, foi um dia proveitoso de trabalho, já estava indo para meu quarto para me trocar para te acompanhar para o jantar.
Ranmaru pareceu um pouco desconcertado, refletindo sobre o que falar, e Suzuran apenas aguardava olhando o desconforto no rosto do grande-chefe de Orio-ya, até que ele falou:
- Por que você não vai vestida assim? Creio que a maioria das pessoas do vilarejo nunca viram uma autêntica gueixa.
Então era isso, queria mostrar para seus conterrâneos um pouco da cultura tradicional? Se assim fosse, seria um prazer. Sentiu-se no fundo orgulhosa por ele querer desfilar com ela pelo porto. Será que este visual o agradava? Era um interesse profissional, ou ele sentia atração por ela? Sentindo que seus pensamentos tomavam um rumo perigoso, procurou se distrair deles.
- Por mim não há nenhum problema, que horas Ranmaru-sama deseja sair?
- Podemos sair agora? Já está entardecendo, gostaria que pudessemos ver o pôr do sol na praia.
- Seria perfeito, estou pronta então!
Ranmaru então chamou Hyderoshi o encarregando de encerrar as atividades do dia de festival que já estavam sendo finalizadas. À noite, já estava tudo em ordem para espetáculos de artistas locais no palco externo e refeições no salão, nada que fugisse ao controle da equipe. Seguiram para os fundos do hotel, e embarcaram em uma das carruagens que transportavam os hóspedes para os arredores para turismo local.
O trajeto levava menos de dez minutos, e logo desembarcaram os dois em uma rua estreita à beira do mar, onde vários restaurantes em arquitetura tradicional de vários tamanhos atendiam os diversos turistas. Caminharam tranquilamente na calçada ao lado da praia, em silêncio. Suzuran estava extasiada com a beleza da paisagem e da arquitetura do local. O sol começou a se pôr, tingindo tudo de laranja, antes que ele se pusesse completamente, chegaram a um restaurante que parecia o mais elegante do local.
Foram recebidos por uma ayakashi sereia e seu marido, pareciam velhos conhecidos do Hachiyo.
- Boa noite Ranmaru-sama! Que honra recebê-lo em nosso estabelecimento, o senhor e sua bela noiva!
Ranmaru engasgou mas se recompôs logo, falando um pouco mais sério do que o normal:
- Esta senhorita é Suzuran, gueixa famosa da capital, ela é uma artista convidada para o festival de verão, não somos noivos.
O casal pareceu um pouco decepcionado, levaram Ranmaru e Suzuran a uma mesa com vista privilegiada da paisagem, provavelmente reservada para clientes especiais, no caminho comentaram com o inugami:
- Seria muito bom se Ranmaru-sama tivesse uma dama tão bela como noiva, como governador das terras do sul, e grande-chefe de Orio-ya, uma companheira faria não só o senhor, mas todos cidadãos felizes, especialmente se fosse alguém tão bela!
Os anfitriões se retiraram deixando o par um tanto quanto desconcertado. Se assentaram frente a frente, no ambiente pouco iluminado artificialmente e completamente dourado pelo sol poente, dando um clima aconchegante ao lugar. Ranmaru falou um pouco sem graça:
- Senhorita, peço desculpa pelo comportamento de nossos anfitriões, eles me conhecem desde criança, portanto, é de praxe que sempre que eu venha, se preocupem com meu estado civil.
- Não precisa se desculpar, eu não me ofendo. Sempre observei os mesmos comentários ao redor de Odanna-sama no Tenjin-ya, parece-me que o estado civil de homens poderosos é um assunto muito comum em toda parte.
A moça arrematou a fala tranquila com um sorriso, o que acabou por quebrar o constrangimento de Ranmaru que agora se sentia muito mais relaxado. Outra mulher no lugar dela, lhe enviaria indiretas, ou indiscretamente faria parecer que eram um casal para provocar mais fofocas e conversas a respeito. Mas ela era tão diferente, sua elegância e delicadeza conseguiam desfazer qualquer situação embaraçosa, deixando tudo harmonioso. Estar em sua presença, descansava a cabeça cansada e o temperamento agitado do inugami, e cada vez mais ele gostava desta sensação.
Naquele clima despretensioso e confortável, viram o sol se pôr completamente. Ranmaru havia pedido de antemão um prato tradicional que era especialidade naquele restaurante. Quando escureceu, a anfitriã veio acender as lanternas, dando uma iluminação agradável ao ambiente. Ranmaru e Suzuran trocavam suas impressões sobre o dia, e sobre os hóspedes e eventos do hotel.
O prato principal chegou, junto a um coquetel levemente alcoólico que era considerado uma iguaria do verão no sul. Eles brindaram, e se serviram do delicioso peixe assado, que era especialidade da região. Ao terminar, Ranmaru disse a Suzuran que gostaria de levá-la para outro lugar para experimentar uma sobremesa famosa nos dias de calor. Os anfitriões os acompanharam até a saída, tinham um sorriso satisfeito, talvez ainda acreditassem que os dois fossem um casal.
Entraram caminhando em uma rua lateral, chegando a uma parte mais pobre da cidade, onde haviam barraquinhas com diversos produtos. Uma delas vendia uma tradicional "raspadinha" de gelo com calda de frutas, simples, mas delicioso no verão.
- Esta era minha sobremesa favorita na infância, minha mestra trazia a mim e Ginji todos os anos para provarmos. O de ameixa é meu favorito! Você vai querer qual?
- Ah, eu adoro cereja!
- Um de ameixa e um de cereja, por favor!
Enquanto aguardavam a confeção da sobremesa, um grupo de quatro meninas que olhavam Suzuran extasiadas, criaram coragem e se aproximaram. Eram muito pequeninas, deviam ser filhas dos feirantes, tinham entre quatro e seis anos no máximo. Uma das mais velhas perguntou:
- Moça, você é uma gueixa?
- Sim, sou uma gueixa da capital…
- Ohhhhhh!
Ranmaru apenas observava um pouco afastado enquanto pegava as sobremesas. As pequenas ayakashis pegavam no tecido do quimono de Suzuran impressionadas.
- Eu também quero ser uma gueixa quando crescer!
- Eu também!
- Você poderia nos ensinar, moça?
Suzuran sorriu, e retirou de seus cabelos suas quatro presilhas de palitos dourados, presenteando cada menina com uma, ficando com os cabelos soltos adornados com as orquídeas apenas.
- Quando vocês forem gueixas adultas, por favor usem esse pequeno presente!
As crianças saltitavam e sorriam ao coro de "obrigada moça", Ranmaru se aproximou entregando uma raspadinha para Suzuran, trazia também mais um para cada criança e o seu. Elas diziam em coro:
- Obrigada Ranmaru-sama!
Vendo que seus pais as chamavam, voltaram-se mais uma vez para Suzuran e a menorzinha disse de maneira inocente:
- Moça, você vai nos ensinar a nos tornamos gueixas?
A mais velha emendou:
- Podia tanto haver uma escola de gueixas aqui no Sul!
Suzuran apenas sorria, sem saber o que responder. Uma das mães das crianças interrompeu-as antes de receberem qualquer resposta, desculpando-se com o Hachiyo e sua elegante acompanhante. Ranmaru parecia um pouco pensativo, olhar perdido no mar, e disse meio para si, um pouco para ela:
- Não seria uma má ideia…
- O que, Ranmaru-sama?
- Você ter uma escola de gueixas para crianças aqui do Sul... sabe que temos pessoas muito pobres na região? Traria muito crescimento - disse virando-se para olhar nos olhos da gueixa - e você seria muito bem vinda para ficar em Orio-ya permanentemente.
Suzuran ficou desconcertada, ao mesmo tempo que era um sonho de aquecer o coração: ensinar as lindas crianças do sul sua arte... Entretanto, a dívida de gratidão que tinha para com Shiro a prendia no mundo humano, não sabia como responder. Não percebeu que ao levar a sobremesa à boca para ganhar tempo para resposta, sujou um pouco o rosto.
Ranmaru assertivo, disse que não estava fazendo um proposta e não queria constrangê-la, mas que todas as portas do Sul estavam abertas para ela, se ela desejasse.
- O que você fez por estas crianças foi muito generoso, você as inspirou para a vida!
- Não foi nada...
Suzuran agora encabulada, baixou o olhar perante os insistentes olhos de Ranmaru. Num gesto quase automático, ele então levou a mão ao rosto da gueixa, instintivamente, haviam se aproximado a ponto de dividirem seu espaço pessoal, como se fossem íntimos. Ele estava tão perto, quando se aproximaram assim? Os olhos azuis agora prescrutavam sua boca, como se julgasse o que devia fazer. Suzuran sentiu seus lábios entreabrirem-se instintivamente, a garganta secar, uma tentação a invadia - o que ele iria fazer? Então, de repente, ele limpou a calda de cereja de seu rosto com o polegar, distraindo-a do próprio desejo. De uma maneira mais descontraída, colocou uma mecha do cabelo da gueixa atrás de sua orelha, num gesto carinhoso, dizendo:
- Muito obrigado por esta noite, Suzuran, você é muito generosa!
Ela apenas sorriu disfarçando sua agitação e o coração acelerado. Seguiram passeando de volta pela calçada, observando a lua crescente sobre o mar, enquanto voltaram em direção à carruagem. O dia seguinte seria um dia cheio! Voltaram para o hotel em um silêncio confortável, refrescando-se na brisa noturna. Despediram-se carinhosamente, cada um seguindo para seus aposentos.
Ao entrar no quarto e fechar a porta atrás de si, Suzuran finalmente se entregou ao sentimento de surpresa e excitação que a agitavam. Tirou os tamancos deixando-os na porta, seguiu para o seu futon, deitando-se olhando o teto… levou as mãos ao rosto, tocando aonde Ranmaru havia tocado… "ele ia mesmo me beijar?"
Escutou uma leve batida na porta, atendeu uma jovem camareira que lhe entregou um papel, na escrita elegante de Ranmaru que já conhecia:
"Senhorita Suzuran,
Mais uma vez obrigado pela companhia agradável!
Amanhã, você se apresentará em uma reunião de negócios, para um grande grupo da capital. Solicitaram que você toque Shamisen. A reunião é à tarde, e terá longa duração, portanto, estará livre para descansar e se preparar no período da manhã.
Tenha bons sonhos!
Ranmaru."
Suzuran segurou o papel junto ao peito, deitando-se novamente no futon... o que lhe reservaria o dia de amanhã?
