Ranmaru estava um pouco agitado ao adentrar-se no hotel junto a Suzuran - o que ele pensou que faria? Quase cedeu ao desejo irresistível de beijá-la! Sua doçura e bondade mexeram mais do que o normal com ele… Baixou demais a guarda, seria pelo coquetel que tomara no jantar?

Quando imaginava o que poderia ter ocorrido, seu coração se acelerava, imaginá-la em seus braços lhe causava uma sensação diferente, mas era difícil afastar aquelas imagens de sua mente. Não ajudou muito o casal do restaurante ficar especulando se eram noivos e falando das vantagens de se ter uma companheira. Sua mente, sem seu consentimento, agora ficava sugerindo imagens sobre o tema… e como um ayakashi adulto, responsável por um negócio estável, não convinha se deixar levar por tais insanidades.

Passou rapidamente pela recepção, a última coisa que precisava agora eram as piadinhas e insinuações de Hatori. Seguia para seu quarto quando se encontrou com Hideyoshi que lhe entregou as reservas para o dia seguinte. Um grande grupo de empresários do negócio de sedas e quimonos, os Ittan-Momen do Yahata-ya, chegariam de manhã e à tarde reservaram o grande salão de negócios para uma confraternização. Solicitaram bebidas e comes no local, nenhum serviço de entretenimento no entanto.

Para a sala ao lado, outro grupo de empresários faria uma reunião menor, gostariam de ter uma apresentação musical e serviço de chá. Era um grupo de hóspedes regulares de orio-ya, muito atenciosos, escalaria Suzuran para esta reunião.

Esboçou a programação e delegação de tarefas do dia seguinte em seu quarto e entregou ao pequeno chefe para repassá-las aos funcionários e artistas. Resolveu tomar um banho e deitar-se para descansar para o longo dia à frente. Deitou-se, com o pensamento na tarde agradável que passou com Suzuran, ainda encantado com sua beleza, seu perfume, sua generosidade. O sono logo o venceu, envolvido nas imagens daquele dia feliz.

Suzuran despertou tranquila. Em seus sonhos aquela noite, via Ranmaru se aproximando dela, sem se desviar, e a beijava delicadamente. Seu rosto corou ao se lembrar do que seu subconsciente ousou lhe mostrar… estaria gostando dele? Isso não seria nada conveniente, uma vez que em menos de 10 dias, ela partiria da pousada, e assim como nunca havia tido contato com ele, sairiam um da vida do outro por tempo indefinido.

Este pensamento a entristeceu, mas o que podia fazer além de aproveitar aqueles momentos felizes? O dinheiro que receberia era deveras generoso, mas, mais do que isso, fazia tempo que Suzuran não vivia momentos tão acolhedores e felizes.

Como teria a manhã livre, decidiu tomar um desjejum leve e mergulhar nas termas para relaxar e deixar sua pele macia e vistosa. Receberia um grupo importante para o Orio-ya e queria causar boa impressão. Escolheu um quimono vermelho, com bordados dourados, da coleção da pousada, finalizado com um obi dourado estampado em flores em tons de ouro velho. Fez um coque tradicional, adornado com ornamentos dourados e cascatas de pequenas flores brancas. Colocou impecavelmente a maquiagem de gueixa, como uma máscara branca adornada com lábios vermelho escarlate e olhos perfeitamente delineados.

Compareceu à sala reservada antes do horário, organizou tudo com perfeccionismo. Preparou seu Shamisen, e finalmente as funcionárias da recepção chegaram com o grupo de empresários e suas esposas e filhos. Suzuran tocou maravilhosamente, causando um silêncio da pequena platéia emocionada. Logo após, com ajuda das funcionárias, serviu o chá a todos. Durante a tarde entreteve o grupo com sua conversa inteligente e empática, chás e suas propriedades, e a bela música de seu instrumento. Todos ficaram extremamente bem impressionados com a artista de alta estirpe que foi reservada para seu encontro.

No decorrer da reunião Ranmaru e o pequeno chefe visitaram a sala, e também provaram do chá que a gueixa servia. O ancião do grupo elogiava o trabalho da pousada neste festival, e comentou com o grande chefe de Orio-ya, que nem mesmo nos tempos áureos da capital, conhecera uma gueixa que oferecesse um trabalho tão perfeito. Ranmaru sorriu, e olhou de soslaio para Suzuran. Ao sentir os olhos do inugami sobre si, o coração da moça disparou, mas ela disfarçou bem o calor em sua face, sob a personagem da elegante gueixa que envergava naquele momento. Por um milésimo de segundo, ela poderia jurar, que aquele olhar estava cheio de orgulho por ela.

Ele se retirou com parte da equipe para cumprimentar outros hóspedes que se reuniam nos vários salões de negócios do hotel, e Suzuran continuou com seu atendimento zeloso ao grupo. Ao final da tarde, a reunião foi encerrada, e os hóspedes deixaram o local agradecendo profundamente pelos momentos agradáveis e as belas lembranças que a gueixa os ajudou a construir.

Funcionários da limpeza organizavam o local, e Suzuran guardava os utensílios da cerimônia do chá e seus pertences. Já havia escurecido quando deixou a sala, um pouco depois dos outros funcionários. Cuidou de fechar tudo ao sair, deixou seu shamizem armazenado naquela sala, que tinha uma localização estratégica para os próximos dias.

O corredor estava vazio e silencioso, Suzuran seguia lentamente por ele, distraída, mas quando olhou para frente, seu corpo todo congelou ao ver o herdeiro de Yahata-ya, o homem que a havia comprado para casar-se, acelerando sua fuga para o reino comum. Como sincronia o homem também a viu, e um sorriso malicioso surgiu em seu rosto, em passos largos, caminhou em direção a ela, que paramentada como quimono tradicional não tinha para onde correr.

= Ora, ora, mas quem eu vejo aqui... minha propriedade que havia dado por perdida.

Ele falou puxando Suzuran abruptamente pelo pulso e a encostando na parede. A moça tremia de pavor, seu maior pesadelo voltava para assombrá-la. Ele a prendeu com sua pelve contra a parede, e com uma das mãos, tentava desamarrar o obi da gueixa que em desespero soltou um grito de socorro.

Violentamente ele lhe tapou a boca com a mão livre, enquanto a outra tentava abrir as camadas de tecido que compunham sua veste, desalinhando todo o quimono. Lágrimas de desespero começaram a sair de seus olhos, e sua vista embaçada não conseguiu enxergar de pronto o que afastou seu predador dela. No mesmo instante, sentiu um braço forte envolver seus ombros aconchegando-a em um peito masculino… era Ranmaru!

Quando seu campo de visão se estabilizou, Suzuran viu que o grande chefe segurava o abusador pelo pescoço, a garra do inugami perigosamente se enterrava sobre a jugular do rapaz suspenso contra a parede. Seus olhos demonstravam uma ferocidade e uma fúria que ela não imaginava haver em seu ser. Ele perguntou furioso:

- O que você pensa que estava fazendo nos corredores do meu hotel, atacando uma convidada? Explique-se!

- Isto não é da sua conta, Ranmaru, esta mulher me pertence, eu paguei por ela, e ela fugiu!

- Então você é o ser patético que precisa comprar uma mulher para ter uma noiva?

Suzuran viu um pequeno fio de sangue surgir de onde o polegar de seu salvador segurava, um movimento apenas e ele desferiria um golpe fatal. Então, colocou a mão delicada sobre o braço de Ranmaru, olhando-o preocupada e falou com a voz trêmula e embargada de choro:

- Senhor Ranmaru, por favor, não cometa um crime em seu hotel por minha causa!

Ele olhou para ela por um minuto, lágrimas copiosas descendo pelos olhos, um fio de sangue nos lábios devido à violência daquele animal… Seus olhos ao encará-la demonstravam a luta interna que ele travava, entre a fúria e o pedido de Suzuran. Vencido pelo poder amoroso da gueixa, ele soltou o outro homem que falou insolente:

- Vejo que comprei uma prostituta ao invés de uma gueixa, que fugiu para me distrair e assim que teve oportunidade veio para essas terras caipiras se deitar com um gerente de uma pousada de segunda categoria!

Desta vez Suzuran, que soluçava de tanto chorar, não conseguiu segurar Ranmaru que deu um soco no rosto homem com tanta força, que o nocauteou jogando-lhe ao chão. Em seguida envolvendo-a com os dois braços e aconchegando-a ao peito. Neste meio tempo, escutando a confusão, Hatori e Hideyoshi chegaram correndo ao local. Seu chefe então ordenou, pegando Suzuran em seus braços:

- Façam imediatamente o check out desta escória e todo seu grupo!

- Você não pode fazer isto, seu inugami insolente, você não sabe da influência da minha família?

Hatori parecia confuso, olhando de Ranmaru para o rapaz nocauteado no chão.O grande chefe falou sem rodeios:

- Abuso de mulheres fere o regimento interno do meu estabelecimento, sendo punido com expulsão imediata. Andem logo Hatori, Hideyoshi, quero todos fora imediatamente! Nene, mande gelo e alguma funcionária da recepção para meu quarto, peça também aos chefes da cozinha que entreguem lá um jantar leve para senhorita...

O homem arrogante ainda gritou:

- Você me paga Ranmaru! Vou te processar e terá de devolver minha propriedade!

Ranmaru ainda virou-se mais uma vez para encará-lo, com a gueixa em seus braços, e respondeu:

- A senhorita Suzuran não é minha nem sua, ela é uma mulher, não um objeto, se você não compreende isto, não merece nenhuma mulher, especialmente uma artista e uma pessoa como ela!

E se virou caminhando decidido em direção aos seus aposentos, deixando sua equipe resolver a situação obedecendo eficientemente suas ordens. Suzuran chorava com o rosto enterrado nas vestes do inugami, sentia tanta vergonha, medo, desespero perante a situação... Não conseguia controlar as lágrimas.

Depois de ter sido tão bem tratada em Orio-ya, como poderia trazer problemas a quem lhe recebeu tão bem? Não queria ser motivo de desonra para Ranmaru. Ainda tremia, mas o calor do corpo dele, a fazia se sentir confortável, de forma que o choque de adrenalina ia suavizando aos poucos. Ele seguia em silêncio, aparentemente sem saber o que dizer, ou talvez incomodado com os problemas que ela causou.

Chegando na porta de seu quarto, a colocou no chão, Suzuran não conseguia encará-lo. Ele abriu a porta, e então ela sentiu sua mão tocar de leve a dela, segurando-a e guiando para dentro do quarto, fechando a porta atrás dos dois. Ele então segurou-a debaixo do queixo, obrigando-a a encará-lo, quando olhou em seus olhos, a gueixa viu apenas genuína preocupação, seu coração se encheu de alívio e seus olhos de novas lágrimas.

Ele limpou as lágrimas com cuidado com uma mão, com a outra acariciava-lhe a cabeça. Seu olhar ficou mais preocupado ao olhar para sua boca. Suzuran sentia dor nos lábios, levou uma das mãos a ele e percebeu que ao tapar-lhe a boca com violência, seu agressor cortara seus lábios. Ranmaru a puxou em direção ao futon:

- Sente-se aqui, vamos cuidar disso…

Pegou um gelo envolvido em um pedaço de gaze e aplicou delicado sobre o lábio machucado da moça. Suzuran não conseguia evitar a angústia e falou:

- Me desculpe Ranmaru-sama, eu não queria causar-lhe problemas! Especialmente com uma família tão poderosa!

Ranmaru tinha um semblante sério, um brilho de fúria passou por seus olhos:

- A senhorita não tem culpa de nada! Aquele homem repugnante, como pode lhe dirigir tais palavras, e achar que poderia possuí-la como se fosse um objeto?…

A emoção do momento demonstrava-se em sua voz. Ele tocou o ferimento nos lábios delicados da moça com o indicador e falou quase como que para si mesmo:

- Eu tinha que ter chegado antes, para que ele não tivesse oportunidade de sequer tocá-la…

Suzuran ficou emocionada com o instinto protetor que Ranmaru lhe demonstrava, naquele momento se sentiu no lugar mais seguro do mundo, ao lado dele, seu protetor...

- O senhor foi perfeito! Não sei o que aconteceria comigo se não tivesse me ajudado! Essa situação parece um pesadelo que nunca acaba...

Ela ainda chorava amargurada, percebeu que Ranmaru colocou o gelo de lado, e a abraçou, acariciando seus cabelos com muito afeto, se sentiu acolhida e relaxou no abraço. Ele então deu-lhe um beijo na testa, dizendo:

- Eu vou te ajudar, não precisa se preocupar com nada, esse pesadelo já acabou! Preciso resolver algumas coisas, sinta-se à vontade, vou mandar funcionárias para prepararem um banho e logo lhe trarão um jantar. Descanse, durma se quiser…

Ranmaru então saiu do quarto, deixando uma Suzuran um tanto mais calma. Como se suas preocupações tivessem se esvaído naquele abraço. Ao lembrar-se do calor dos braços dele e o aconchego junto ao seu corpo, foi tomada de um sentimento profundo de gratidão… não, não era apenas gratidão, era algo mais, algo que ela não se lembrava de ter sentido em nenhum momento de sua vida.