Ranmaru deixou Suzuran descansando em seu quarto, ainda sentia a adrenalina da onda de raiva correr em seu sangue. Estava furioso! Sentia-se repugnado com atitudes que degradavam mulheres - talvez por ter sido criado pela Princesa iso que lhe ensinara a cuidar e respeitar o poder feminino - mas hoje era pior, aquela situação o abalou profundamente, se sentia pessoalmente ofendido.
Pela sua mente passava a cena daquele homem arrogante tentando rasgar as vestes de Suzuran, e se ele não estivesse por perto? Pensou naquela tarde de sucesso no festival, de como se sentiu orgulhoso pelo trabalho dela ao dar seus cumprimentos ao grupo que ela atendia.
Lembrou-se de ter ido a seu escritório resolver os problemas de logística do dia e de ter precisado se deslocar para recepção naquele exato momento, escutando o grito da gueixa por estar passando por perto. E se ele não tivesse que sair do escritório naquele momento, o que teria acontecido? Um frio percorreu-lhe a espinha perante as imagens aterradoras que sua mente fértil sugeria. Respirou fundo, graças a Deus o pior não aconteceu, precisava se controlar para resolver friamente as questões burocráticas e econômicas que aquele assunto envolveria… precisava livrar Suzuran daquele pesadelo, mas como?
Chegou apressado na recepção, Hatori o encarava com expressão preocupada, possivelmente ele ainda transparecia tensão em sua expressão.
- Fizeram o que eu mandei? Expulsaram aquele lixo do hotel?
- Chefe, Ranmaru, você sabe que se trata de um grupo muito poderoso, é complicado se indispor com eles…
Ranmaru carregou a expressão, sabia que passava pela cabeça de seus funcionários que não valia a pena perder negócios por causa de uma pessoa que nem era da equipe, mas, alguns valores eram inegociáveis para ele…
- Não importa quem sejam, tal atitude é inaceitável… se eu não chegasse a tempo, ele teria, ele teria despido Suzuran no corredor, e sabe-se lá mais o que teria feito com ela...
Sua voz saiu mais carregada do que esperava, e Hatori o encarou mais preocupado.
- Concordo que é um absurdo, chefe, mas estamos preparados para o que virá em consequência disto?
- Hatori, só sei que não aceitaria uma atitude dessas de ninguém sob o meu teto, mesmo sendo de hóspedes ricos e poderosos… já enfrentamos a sabotagem de Raijuu por tanto tempo, não será esse playboy de má fama que irá nos abalar…
Hideyoshi se aproximava, também preocupado, retornando provavelmente da portaria:
- Ranmaru-sama, não foi fácil, mas está feito! Todos estão devidamente embarcados de retorno à capital. Estavam furiosos, jurando vingança… não seria melhor dar-lhes a mulher já que ela é deles?
- Escute o que você está dizendo! Se alguém comprasse a Nene você aceitaria?
- Não, mas ela já é casada comigo…
- Por que vocês se amam! O ponto é que não se compra uma esposa, uma ayakashi não é uma mercadoria…
Hatori então o interrompeu:
- Mestre, o senhor não está muito envolvido emocionalmente com essa situação?
- Estou indignado muito justamente! Guarde seus julgamentos e especulações para você tengu!
O chefe de recepção percebeu que não era momento de tocar em um assunto sensível para seu chefe e se calou. Perante o silêncio dos funcionários, Ranmaru continuou:
- Quero que vocês dois entrem em contato com Tenjin-ya, em outra ocasião Odanna intercedeu por Suzuran. É provável que o chefe da contabilidade tenha investigado e esteja à par da situação. Façam os arranjos e após o festival, se necessário, me reunirei com eles para compreender a extensão dessa situação. Depois que realizarem esta tarefa, estão dispensados para descansar, pois amanhã o festival continua.
Depois de fazer os devidos encaminhamentos com sua equipe e resolver problemas urgentes para o festival no dia seguinte, Ranmaru foi até o terraço espairecer, foi um dia longo… e ele ainda sentia os efeitos da adrenalina em seu corpo. Há muito tempo, desde a cerimônia, não se sentia tão furioso.
Já era tarde - mais de meia noite. A maioria dos hóspedes já havia se recolhido, apesar de ayakashis terem hábitos mais noturnos, no verão da região litorânea, para aproveitar melhor o festival, preferiam passar o dia acordados e se recolher à noite.
Ranmaru chegou até a sacada do terraço do hotel e observou o mar escuro pintando de prata pela lua crescente que já estava alta no céu. Respirou fundo o ar fresco, para colocar as emoções em ordem. Por alguns momentos só olhava a paisagem e sentia a brisa. Imagens do acontecido voltavam em sua mente, disparando seu coração, e ele retornava à sua respiração para tirá-las de foco. Afinal, por que isso mexeu tanto com ele? Nem ele mesmo sabia que o fato de ter sido criado por uma mulher tão amorosa havia o tornado tão sensível à violência contra as mulheres.
Ele sabia da reputação dos herdeiros de Yahata-ya e de como eram desrespeitosos com as mulheres, mas eles nunca haviam feito este tipo de escândalo em Orio-ya. Foi uma infelicidade atacarem justo Suzuran, que ele conhecia há tão pouco tempo, mas que era tão meiga, delicada, incapaz de ser grosseira com ninguém. Talvez por ter consciência que ela não faria nada para merecer um tratamento tão agressivo (ninguém de fato mereceria) tenha se irritado e abalado tanto, ele detestava injustiças.
A sensação de tê-la tão delicada e frágil nos braços retornou a sua memória naquele momento: o calor do corpo dela contra o seu, o perfume floral e doce dela se impregnando em seu olfato, em suas vestes, o olhar de confiança que ela lhe lançou quando ele chegou, a beleza delicada maculada por aquele monstro… os lábios cortados, macios sobre seus dedos... um arrepio correu seu corpo, e uma sensação estranha no estômago o tomaram neste momento, mas ele achou melhor não seguir esta sensação. Passou as mãos pelos cabelos revoltos, num gesto de cansaço, e decidiu se recolher para se preparar para o dia seguinte.
Dormiria em outro alojamento, pois sabia que não pegaria bem para reputação de Suzuran dormir em seu quarto com ela. Mas também não teria coragem de removê-la para seu quarto àquela hora da noite. De qualquer forma, iria passar em seus aposentos para pegar vestes de dormir e ver como ela estava.
Abriu a porta de seus aposentos da maneira mais silenciosa possível, lá dentro estava tranquilo e apenas a luz de uma pequena luminária ao canto de seu futon quebrava a escuridão, iluminando a figura adormecida, dando um clima aconchegante ao ambiente, Nobunaga dormia profundamente aos pés do futon, aparentemente gostara dela. Vê-la completamente adormecida em sua cama lhe deu uma sensação agradável e estranha. Como que hipnotizado, se assentou de leve no futon para observá-la.
Suzuran usava um yukata de dormir do hotel, azul claro de seda. Ela estava deitada de lado, e uma de suas pernas esguias saía pela fenda das vestes. Ele se inclinou para observar-lhe o rosto. Sem a maquiagem que usava geralmente durante horas de trabalho, ela parecia muito mais jovem e ainda mais delicada. Instintivamente, tirou uma mecha de cabelo escarlate que lhe cobria o rosto e a prendeu atrás da orelha.
Ela virou o rosto para cima no momento, em direção a ele, mas pareceu não acordar. Murmurava algo em seu sonho… "Ranmaru… Ranmaru-sama". Ele olhou mais fixamente, procurando confirmar se ela havia acordado, "Obrigada…", ela sussurou novamente, mas estava completamente adormecida. Ele passou o indicador por sua bochecha, sentindo a maciez aveludada de sua pele, e levantou-se devagar para não incomodá-la. Pegou seu yukata de dormir e seguir para o alojamento.
O sol se adentrava pelas frestas da janela tocando de leve o rosto de Suzuran que despertava lentamente de um sono pesado. Fazia tempo que não dormia tão bem, a ponto de se esquecer aonde estava… aos poucos a realidade foi chegando ao seu cérebro meio adormecido. Não estava em seu quarto, aqueles lençóis tinham traziam um aroma masculino que ela já aprendera a identificar: Ranmaru. Aos seus pés um cachorro adoravelmente estranho dormia, ela o acariciou, despertando-o.
O perfume masculino dos lençóis inspiravam segurança, aconchego a Suzuran… como tudo em Ranmaru. Talvez por isso ela tenha dormido tão profundamente. Chegou a sonhar que ele a olhava amorosamente e lhe acariciava o rosto. Foi como um bálsamo depois do medo que ela havia sentido com toda situação com o herdeiro de Yahata-ya. Por um minuto seu coração disparou… teriam ido embora? Acabou que com tamanha confusão, ficara sem saber sua programação para o dia, precisava procurar algum funcionário para se informar e preparar-se. Antes de tudo, precisava se levantar e se compor.
Foi ao banheiro da suite do grande chefe, tudo era decorado de maneira simples e prática. Lavou o rosto, se olhou no espelho, graças aos cuidados dele e seus funcionários, o corte em seus lábios não causou inchaço. Seus olhos ainda estavam um pouco inchados pelo choro do dia anterior, mas nada que não pudesse resolver com um pouco de maquiagem. Graças a ajuda de todos, nada de ruim lhe aconteceu.
Ajeitou os cabelos, secou o rosto, arrumou o yukata no corpo de forma que não mostrasse pele demais, assentou-se no futon e ajustava as meias em seus pés, quando escutou uma leve batida e a porta abrindo em seguida. Seu coração disparou ao vê-lo. Era Ranmaru, também em vestes informais, mesmo assim exalava toda aquela masculinidade e altivez de sempre, os cabelos impecavelmente amarrados no alto da cabeça, o yukata totalmente alinhado no corpo. Instintivamente ela se levantou, um pouco encabulada por estar ocupando o quarto dele.
- Bom dia! Vim ver como você está passando, mas fique à vontade. Vou me trocar para as vestes de trabalho no meu escritório...
- Ranmaru-sama, bom dia! De maneira alguma, já te causei tantos problemas, vou retornar aos meus aposentos e me preparar para os trabalhos de hoje.
O inugami se aproximou de Suzuran, como que para observar se ela realmente estava bem. Tocou de leve suas pálpebras, parecendo observar que estavam inchadas. Em seguida seu olhar se fixou em seus lábios, pareceu se tranquilizar ao ver que estavam praticamente curados, e falou em seguida:
- Mais uma vez peço desculpas por você ter passado por uma situação destas em meu hotel. Lamento muito todo ocorrido! Não queria que você tivesse motivos para chorar durante sua estada...
- Ranmaru-sama, de forma alguma deve se desculpar, eu que lamento ter trazido esta situação para pessoas que tem cuidado tão bem de mim!
- Bom, então vamos deixar esse assunto no passado, já que nenhum de nós deveria estar se desculpando ou se responsabilizando pelo comportamento daquele homem desprezível?
Ela apenas sorriu e concordou satisfeita. Mudando o assunto perguntou:
- Acabei por não ter oportunidade de perguntar sobre a programação de hoje, devido a tantos acontecimentos… qual minha escalação para hoje?
- Pensei em te deixar tirar o dia de folga para se recuperar de ontem…
- Por favor, Ranmaru-sama, não quero tratamento diferenciado, quero trabalhar normalmente hoje…
- Então, hoje à noite me reunirei com alguns Hachiyos das regiões próximas que vieram para o festival, havia pensado em solicitar uma apresentação de dança para esta reunião, estaria muito em cima da hora?
- De maneira algum! Será uma honra… deseja também que sirva o chá?
- Não, foi solicitado saquê e um jantar festivo. Após a apresentação você está convidada a participar da confraternização, seu trabalho será entreter os hóspedes com sua conversa participando da festa.
- Participarei com satisfação! E durante o dia? Quais serão minhas tarefas?
- Durante o dia haverá uma feira de artesanato e culinária local na via principal de Orio-ya, gostaria que você visitasse, e conhecesse nossa cultura, mas não precisa se preocupar com vestes formais, já que o dia promete ser muito quente, apenas circule, prove os pratos, fique à vontade.
- Vou adorar!
- A reunião dos Hachiyos começa às 20h, sua apresentação artística abrirá os trabalhos.
- Entendido! Vou então seguir para meu quarto para preparar o figurino e ensaiar o número da noite.
- Tenha um bom dia! Nos vemos entre as atrações!
- Muito obrigada mais uma vez Ranmaru-sama, tenha um dia de sucesso!
Sorriu afetuosa para ele, fechando a porta e seguindo para seu quarto. Daria seu melhor para compensar o incidente de ontem!
O dia passou agradável, sem maiores problemas, o que aliviou o coração de Suzuran. Durante o dia teve oportunidade de entreter-se na feira. Comprou alguns adereços de cabelo feitos de conchas belíssimas do mar local. Mercadores de terras distantes levaram para a feira lindas vestes de outros lugares e culturas, como os preços eram acessíveis, ela pode escolher algumas que achava que comporiam bem suas apresentações.
Provou alguns pratos e sobremesas deste lugar que ela já estava aprendendo a amar… se não tivesse compromissos no mundo humano, talvez gostasse de morar nas terras do Sul, o mar era tão lindo e as pessoas encantadoras. Na feira teve oportunidade de finalmente conhecer os adoráveis chefs de cozinha de Orio-ya, e Aoi não havia exagerado, além de competentes eram amigáveis e dedicados.
Depois do horário de almoço, foi para seu quarto preparar-se para o evento noturno, descansou um pouco e depois fez uma produção de gueixa bem tradicional. A reunião de Ranmaru com os Hachiyos presentes foi um sucesso. Enquanto ela dançava, apesar da concentração total, sentia o olhar interessado e orgulhoso do inugami sobre si. Depois das suas apresentações, a confraternização correu alegre e tranquila. Certamente todos convidados ficaram impressionados com a hospitalidade e excelência dos serviços do hotel.
Os dias seguintes do festival passaram-se assim, entre muito trabalho, sucesso, e com toda equipe em harmonia. Ranmaru e Suzuran apenas tiveram poucos momentos entre uma tarefa ou outra para trocarem algumas palavras. Às vésperas do último dia, enquanto descansava no terraço do hotel vendo o mar - local que Ranmaru lhe apresentou - Suzuran se assustou com a chegada do grande chefe.
- Ranmaru-sama, parece que estou disputando contigo seu local favorito do hotel…
- De maneira alguma consideraria uma disputa, já que fui eu que dividi esta predileção com você, fico lisonjeado por você ter gostado, tanto quanto eu, daqui…
- Acho que o senhor deve estar querendo espairecer, vou deixá-lo só, então…
- Já passamos um tempo juntos, não precisa me chamar tão formalmente de "senhor", me chame apenas de Ranmaru e de "você", sem títulos… e por favor, fique! Não me incomodo nem um pouco passar um tempo com você.
Ranmaru falou em um tom calmo e com tamanha sinceridade que Suzuran ficou por um momento sem reação, apenas corou um pouco, seu coração descompassado. Ele então se aproximou ficando ao lado dela, ambos olhando o mar sob a lua quase cheia. Foi ela quem quebrou o silêncio:
- Não acredito que o festival termina amanhã… espero que o meu número de dança do encerramento seja satisfatório.
- Não tenho dúvidas que se for como tudo que você fez por nós até agora, certamente superará todas as expectativas.
Ele falou com olhando Suzuran profundamente nos olhos, roubando-lhe o fôlego com aquele profundo azul radiante. Ela sorriu melancólica, e olhando para as mãos sobre o parapeito do terraço disse:
- E no dia seguinte, retorno para Tenjin-ya, vou sentir saudades das terras do sul.
- Antes de partir, amanhã à noite, você me daria o prazer de sair comigo de novo? Queria ter te convidado antes, mas o festival nos exigiu mais do que eu imaginava que exigiria…
- Claro que sim, será uma honra, Ranmaru!
Ele sorriu, pegou uma das mãos de Suzuran, depositou um beijo casto, e fazendo uma reverência lhe desejou uma boa noite, voltando para seus afazeres. Deixou para trás uma gueixa com o coração batendo acelerado, segurando as duas mãos contra o peito, com um sorriso bobo no rosto, vendo-o entrar ela pensou: "É, eu realmente vou sentir saudades das terras do Sul…!"
