Capítulo 3

"Ela aprontou seu dote
Ela arrumou as preciosas contas de lápis lazuli ao redor de seu pescoço
Ela pegou seu selo sagrado.
Dumuzi esperou-a com ansiedade.

Dentro da casa ela brilhou diante dele
Como a luz da lua"

Trecho de "A corte de Inanna e Dumuzi"

Os dias continuaram da mesma forma: Inanna plantando estrelas no céu e trabalhando com as forjas as quais estava acostumada, porém no final do dia indo à morada de Dumuzi. Lá, ambos começaram a falar de como seria a vida deles após Inanna se mudar. Dumuzi perguntou a ela se não temia a mudança de vida que estava prestes a empreender.

- Não - disse ela, e em seu rosto ele não viu nem sombra de contrariedade - Na verdade eu sempre pensei que se um dia você pudesse me olhar, seria muito. Mas agora que olhou, tudo que vier junto com nossa união será lucro pra mim.

Dumuzi ficou feliz, mas no fundo ficou pensando se ela realmente manteria sua decisão até o final.

Naqueles dias, Dumuzi finalmente a apresentou como "minha noiva" a seus servidores. Eles achavam que ela na verdade estava demorando para se declarar como tal, por tantas visitas que fazia a ele. Ela escolheu uma fazenda cor de cobre para seu vestido, o qual fora feito a toque de caixa pelas mulheres que serviam a Dumuzi. Ele também deu muitas joias para ela, a guisa de dote de casamento, porém as guardou todas em sua propriedade, para que Anu não visse.

Apesar do desejo ser grande, ambos não consumaram relação sexual antes de Inanna morar com Dumuzi, pois tanto Anu quanto Antu tinham o poder de ver resquícios de atividade sexual no espírito dela. Poucos dias faltavam no entanto.

Até o dia de Inanna enfim ir embora, ela agiu de maneira muito circunspecta com Anu e Antu, fazendo seu serviço de maneira satisfatória e não reclamando de nada, mas também não dando a entender sobre seus encontros com seu então noivo.

No dia em que tinha de desempenhar seu trabalho nas estrelas, ela simplesmente reverenciou respeitosamente a Anu e Antu, e saiu apenas com a roupa do corpo e as poucas joias que usava. Estava nervosa, mas não deixou transparecer.

Dumuzi então estava ainda mais. Em face de todas as rejeições já sofridas, ele acabou pensando se na última hora ela não desistiria de se unir a ele. Seu coração somente ficou tranquilo quando ela, a bela dama das estrelas, veio pela já conhecida senda até sua morada. Ele sorriu, e acenou para os músicos de sua corte começarem o festejo.

Ela também sorriu, porém pensava que as festividades não começariam tão cedo, uma vez que ainda não estava paramentada. Assim que entrou na residência de Dumuzi, no entanto, ela foi acompanhada pelas criadas as quais a ajudaram a se vestir adequadamente. Vestiu ela seu vestido com cor de cobre, joias douradas com pedras vermelhas, os olhos pintados com lápis lazuli e tintura cor de cobre.

Quando ela entrou no salão, vestida daquela forma, abriu os olhos e percebeu que na verdade Dumuzi estava vestido dessa vez não de negro, mas de ouro e prata. O luto dele havia acabado, bem como sua solidão. Dourados e prateados eram agora os atavios de seu cabelo, pois não era mais tempo de escuridão.

Andando foi ela acompanhada pelas aias, sorrindo, e sorrindo também o seu noivo a recebeu. Tomou-a pela mão e, ainda a segurando, virou-se para seus criados, servidores e aliados e declarou enfim:

- Meus aliados! Os que aqui se encontram presentes sabem como me foi difícil encontrar uma esposa. Porém agora finalmente eu a tenho. É uma dama formosa, mas não somente isso: é também inteligente e muito diligente no trabalho. Apenas para que todos vejam que é de livre e espontânea vontade que ela a mim se une, indagarei a ela se é isso mesmo que ela quer. Inanna, dama das estrelas, você deseja se unir a mim nesta aliança? Caso não queira ou tenha mudado de ideia... ainda está em tempo de desistir.

Mas ela sacudiu a cabeça negativamente e disse:

- Não mudei. Quero viver consigo e compartir consigo tudo que sou e possuo.

Dumuzi sorriu. Depois a abraçou e a beijou na frente de todos. Muitos aplausos foram ouvidos, e a dança e a cantoria enfim começaram. Ela dançou perante eles, e fez muitos truques de fogo e luz, e todos se maravilharam com o poder dela. O dono da casa no entanto ordenou segredo a todos, dizendo que não dissessem a ninguém sobre o casamento, para que Inanna não fosse lá buscada ou resgatada pelos discípulos de Anu, Antu ou quaisquer outros que estranhassem a ausência dela a partir de então.

A festa foi muito longa, com festejos e danças por muitas horas. Mas enfim chegou a hora dos noivos se retirarem. Com um aceno e um "adeus" aos seus servidores e aliados, Dumuzi tomou a Inanna pela cintura e enfim a levou aos aposentos que seriam de ambos a partir de então.

-x-

Ela entrou, maravilhando-se com a cama que seria de ambos. Era enorme, com um dossel e as colchas eram acobreadas, da cor do vestido dela. Inanna sorriu e se sentou na cama.

- A decoração é muito bela, e muito belos os atavios. Bem! Aqui então residirei a partir de hoje.

- Sim, minha querida.

Dumuzi sentou-se ao lado dela e acariciou-lhe o braço. Ela sorriu e ficou de frente para ele. Ele a beijou na boca e a estreitou contra si, enquanto acariciava seu cabelo.

- Inanna - disse ele a ela depois do beijo - Apesar de seu antigo voto de celibato, você chegou a ter alguém antes de mim?

- Não.

Ele olhou fundo nos olhos dela e proferiu, numa voz sussurrada:

- Esta é a sua primeira noite com um homem?

Envergonhada, ela simplesmente fez que "sim" com a cabeça.

- Sei... veja, eu tive amantes antes de você. Não queria me apegar a mulher alguma após praticamente terem me tornado um proscrito. Mas veja... eu quero que saiba que não quero outra mais além de si de hoje em diante.

Ela sorriu, e ele continuou:

- Quero esquecer a essas mulheres que um dia já tive como amantes, e despertar para você. Está bem?

Ela assentiu com a cabeça e continuou a sorrir.

- Pois então. Terei cuidado consigo esta noite. Não quero mais que lembre de mim como aquele que um dia tentou tomar a Damkina à força. Eu não farei isso consigo. Caso queira deixar isto para outra noite ou outro dia, eu compreenderei...

A dama das estrelas olhou a seu consorte com olhos resolutos, um brilho de fogo perpassando em seu olhar dourado.

- Eu quero hoje.

- Está bem. Mas se houver algo que a desagrade, por favor me diga.

Ela sorriu novamente a ele. Por muito tempo esperara por esse dia - o dia em que finalmente se deitaria com Dumuzi - mas antes não tinha esperanças de que um dia isso pudesse se concretizar, e muito menos que ele se casasse com ela. Se ele a pedisse como amante, ela se entregaria a ele mesmo assim - desde que ele a deixasse morar em suas propriedades, uma vez que consumada a união, ela não poderia mais voltar para a morada de Anu e Antu. Mas ele a pediu como companheira. E agora que era chegada a hora de consumar a união, ele tomava assim tantos cuidados com ela. Debaixo da fachada de ser terrível, ele agora mostrava a ela apenas alguém que queria ser aceito.

- Eu direi, mas creio que não será necessário. Você é tão bom para mim...

Ela acariciou o rosto dele com a mão onde agora rebrilhava o anel que selara a união de ambos, um anel de ouro com um rubi engastado em ouro e prata; e ele sorriu a ela.

- Se me deu seu amor, tenho de ser cuidadoso para consigo. Os outros talvez não saibam o que é a dificuldade de ter alguém que os preze, mas eu sim. Portanto, não quero lhe dar motivo para se afastar de mim.

- Está tudo bem...

Após isso, Dumuzi voltou a beijá-la - e dessa vez a deitou na cama. Era verdade que ela estava um tanto quanto nervosa, mas desejava tanto aquela união, que a vontade de consumá-la era muito mais forte.

Aos poucos, ele a foi despindo e deixando-a nua. Somente com as joias e atavios do cabelo - os quais ele não desejou tirar. O corpo dela era delgado, a pele dourada como seus olhos contrastava com a pele pálida dele. De seus lábios, a boca de Dumuzi foi para o pescoço dela e o beijou, acariciando o corpo dela com as mãos. Primeiro no colo, depois nos seios, depois foi descendo ao ventre, aos quadris e enfim para suas coxas. Inanna deu um gemido quando sentiu a mão dele no meio de suas pernas, os dedos habilidosos dele roçando em seu ponto de prazer.

- Ah...!

- Você gosta assim, minha linda consorte?

- Oh, sim...!

- Gosta quando eu faço isso...?

Com movimentos lentos porém firmes, ele rodeou o clitóris dela, arrancando dela muitos gemidos de prazer.

- Ah... sim...!

Os quadris dela passaram a se mover com os dedos dele, e ele então passou a beijá-la de novo, sem parar de a estimular.

- Inanna, apesar de virgem, você conhece o gozo?

- Oh sim, conheço! Eu me tocava pensando em si!

- Sim? Oh, eu quero ver!

E tendo dito isso, Dumuzi se levantou e se sentou na cama, como expectador a partir de então. Ela deu um suspiro de frustração por ele não mais a estar tocando, mas logo fez o que ele queria. Abriu as pernas e se tocou, primeiro uma, depois várias vezes. Fechou os olhos, pensando que daquele jeito ia gozar muito rapidamente.

Enquanto ele a assistia, começou a se despir também. Em breve estava só com as joias, uma ereção portentosa despontando no meio de suas pernas. Inanna abriu os olhos e o viu daquele jeito.

- Oh...! É grande...

Ele sorriu, e voltou a se deitar perto dela.

- É grande, mas eu vou tomar cuidado com você. Está bem? Agora, por favor... me dê prazer com suas mãos...

Aquilo era completamente novo para Inanna. Ela nunca havia tocado um homem antes. Mas tentou fazer da melhor forma que podia, dentro da sua inexperiência. Tomou a ereção dele com a mão e passou a estimula-lo, para cima e para baixo... Dumuzi fechou os olhos e gemeu baixo de prazer.

- Você faz isso bem para alguém que está começando.

Ela sorriu e continuou a desempenhar o ato. Porém, logo ele a parou, pois não queria atingir o ápice tão rapidamente.

Voltou a beijar o corpo dela e foi descendo, beijando o abdômen dela até chegar em suas coxas. Depois abriu as pernas dela e a deixou exposta para si.

- Eu espero que goste disso - proferiu ele, e em seguida lambeu e chupou o interior de suas coxas, depois seus grandes lábios e enfim colocou a língua dentro dela. Inanna gemeu ao sentir a língua dele quente a lhe preencher, enquanto ele tentava de alguma forma quebrar a resistência que o hímen dela apresentava.

Após algum tempo assim, ele retirou a língua de dentro dela e enfim a lambeu no clitóris, primeiro uma, depois várias vezes, primeiro para cima e para baixo, depois rodeando-o, depois chupando. Ela segurou a cabeça dele com as mãos, gemendo várias vezes, mal acreditando que era capaz de sentir tanto prazer. Quando estava próxima de gozar, no entanto, ele parou com tudo e voltou a se deitar por cima dela.

Os olhos dela brilhavam de desejo, seu rosto mostrava aflição. Ela o beijou na boca para aplacar um pouco aquela tensão, e em seguida disse, afoita:

- Por que não me deixou terminar...?

- Já vai. Você vai gostar.

Em seguida ele se encaixou no meio das pernas dela e colocou o começo do membroem si. Era um pouco desconfortável para ela, mas não muito.

- Escute - ele proferiu em seu ouvido - Eu vou estimulá-la com meus dedosagora. Quero que me diga quando estiver prestes a gozar. Está bem? Por favor,apenas me diga.

Ela assentiu com a cabeça e fechou os olhos. Ele passou a fazer movimentoscirculares no clitóris dela, ao mesmo tempo em que colocava e retirava o começodo membro de dentro dela - mas só o começo, sem ainda romper o hímen. Enquantoisso, seus lábios a beijavam no pescoço, no rosto, na boca, no ouvido.

Inanna gemeu, abraçando-se a ele e movendo vagarosamente os quadris com osmovimentos dele. Como era ainda inocente e nem Anu, Antu ou nenhum dosoutros dingir nunca haviam lhe explicado em detalhes o que erao ato sexual, ela pensava que aquilo já era o sexo propriamente dito. E eramuito bom, diga-se de passagem.

O prazer foi aumentando, Dumuzi reparando nos espasmos cada vez mais frequentesdela, nos gemidos que ela não conseguia conter. E continuava a lhe estimular, alhe beijar, a forçar-lhe o hímen com o início do membro. Até que chegou omomento em que ela começou a gemer mais alto e disse:

- Oh, meu querido...! Eu vou gozar...!

Nessa hora, ele parou de tocá-la em seu órgão do prazer e, de uma vez, apenetrou até o fim, deflorando-a afinal. Um gemido de dor, agudo, cortante,saiu da garganta dela. Inanna não sabia que podia ser assim; que dor e o ápicedo prazer podiam se misturar num único momento, assim como ela seria ao mesmo tempoa divindade da guerra e do amor; assim como, a partir daquele dia, na habitaçãode Dumuzi, existiam ambos luz e escuridão, sem no entanto um não anular ourivalizar com o outro.

Ele, reparando que a expressão de seu rosto era ainda dolorida, a abraçoucontra si e beijou seu rosto e seus lábios.

- Está tudo bem - disse ele - Já vai passar... depois disso você só vai terprazer, meu bem.

Ela ainda sentia dor, mas isso não anulava o desejo que sentia e que, porpouco, não fora satisfeito na estimulação de há pouco. Então Dumuzi, reparandono desejo dela e querendo saciar o seu também, passou a se mover dentro dela -ainda estreitando-a contra si, ainda beijando-lhe o rosto e os lábios, evoltando a lhe estimular o ponto de prazer.

Como Inanna estava a ser estimulada faz tempo, sem atingir o clímax, nãodemorou muito para que isto ocorresse. Ela o abraçou forte, movendo-se contrasua ereção e gozou, contraindo-se em torno do membro dele. Dumuzi sorriu,satisfeito em saber que podia dar prazer à sua consorte.

- Isso... tão bom te ver gozar... - sussurrou ele no ouvido dela, e assim amboscontinuaram a empreender aquela dança sensual.

Inanna gozou mais duas vezes no meio da noite, e ele gozou duas. Eladesempenhara o ato tão bem, que Dumuzi pensou que sua companheira em breveaprenderia todas as nuances da arte do sexo e não deixaria em nada a desejar àsoutras, muito pelo contrário. No dia seguinte, ao ver o sangue no lençol,pensou se poderia tê-la feito sentir muita dor; mas ela sorriu e disse a eleque havia sido muito bom.

- Se eu soubesse como era, teria feito há mais tempo - sorriu ela, os olhosbrilhando de satisfação.

- Pois não faltarão oportunidades para que faça isso comigo muitas vezes -respondeu ele, beijando-a e levando-a para o banho consigo.

-x-

Os primeiros dias de casados eles passaram assim, juntos quase por todo otempo, os generais e servidores cuidando de tudo no local, pois sabiam que seumestre merecia passar aqueles dias de descanso e amor com a esposa que eleansiara e demorara tanto para ter. O casal passava junto quase todo o tempo,mesmo quando não estavam a fazer sexo; ele a levava para conhecer asredondezas, mas não ia muito longe por saber que algum dos "de lá"poderiam achá-la com ele, e por enquanto era melhor ainda ser segredo o atualparadeiro dela.

Naqueles dias, ambos se saciaram bem um no outro; na cama e fora se sentiam acompanhados, desfrutando daquela felicidade que antes sópodiam imaginar; ela livre enfim das ordens estritas de Anu, e ele enfimacompanhado, livre de sua solidão já finda. Mas com o tempo, nasceu em Inanna odesejo de sair para plantar estrelas no céu novamente. Dumuzi achou que naverdade aquilo seria muito temerário, pois indicaria aos outros a localizaçãodela.

Então Inanna arrumou outras coisas a fazer, na grande, bela e bem guarnecidapropriedade dele e que agora era também dela. Um dia, Dumuzi acordou e não viua esposa a seu lado. Quando se levantou e foi ver onde estava, percebeu que elaobservava a uma das tropas dele sendo treinadas.

- Eles são bons - disse ela, de si para si - mas com um pouco de disciplinaficariam ainda melhores.

Assim que viu o companheiro vindo em direção a si, ela o reverenciou e disse aele palavras de boas vindas.

- Meu querido consorte, hoje decidi fazer algo diferente. Observei a suastropas e vi que são realmente fortes e valorosas, no entanto estãodesorganizadas. Dê a mim, por favor, permissão e algum tempo para lidar comelas, e eu lidarei. Eu as transformarei em um exército praticamenteimbatível.

Ele a observou, não sabendo ainda o que fazer com aquilo. Como o via indeciso,ela decidiu lhe dar uma garantia:

- Caso a minha estratégia falhe, eu assumirei pelos erros cometidos e pelasperdas e danos.

- Eu não gostaria de onerar dessa forma a minha própria mulher.

- Eu peço por favor que onere. Eu mesma não me perdoarei caso o faça passar porprejuízo causado por mim.

- Está bem. Ordene-os, mas me deixe observar como será seu trabalho a partir deentão.

- É claro que sim.

A partir daquele dia, cedo, Inanna ia até as tropas de Dumuzi e lhes ordenavaem posições de combate e defesa, as quais ela mesma instituía. Dumuzi ficousurpreso com isso, pois nunca antes tivera uma mulher como sua general. Elaentão lhe explicou que Anu sempre lhe cobrara muita ordem e disciplina, e essacaracterística ainda se demonstrava muito forte em si.

- Ao menos para isso ele foi útil, indiretamente, a mim - declarou ele,surpreso.

Mas não por muito tempo Dumuzi pronunciaria sem preocupação o nome de Anu. Diasdepois da partida inesperada de Inanna, sua falta já se fazia presente nossalões do deus do céu e de sua esposa Antu. Ele mandou seus servidores do ar,águias e pássaros, procurarem por ela em todos os cantos, e ela não foi encontrada,uma vez que já não saía das propriedades de Dumuzi. Lá dentro eles não ousavamentrar, nem teriam permissão para tal.

Ao percebê-la assim desaparecida, Antu já tinha sua opinião formada.

- Anu, você finalmente a perdeu por causa de suas palavras duras. Agora, estejaonde estiver, ela não mais é sua donzela.

- Por que então ela não demonstrou estar insatisfeita conosco?

- Não é do feitio dela demonstrar essas coisas em voz alta, nem de maneiraclara. Ela se demonstra pelo olhar, e foi no olhar dela que eu li seudistanciamento.

Em seu íntimo, Anu não esperava perdê-la. Ela era uma das mais belas e úteisservas do céu, e agora não mais estava lá. Outros servidores podiam fazer omesmo que ela fazia, mas não da forma única dela.

Contrariado, mesmo representando perigo para suas aves, Anu os enviou para amoradia de Dumuzi. Se ela estivesse lá, declararia guerra aberta contraele.

As aves, no entanto, voltaram mortas. Dumuzi, assim que viu os pássaros, sabiamde onde vinham e o que pretendiam. Matou-os portanto, enviou-os de volta comoaviso e aconselhou Inanna ainda mais a não sair de casa, e se necessitassefazer qualquer tipo de treinamento ou atividade que a agradasse, que fizessedos portões para dentro.

- Não é de meu agrado nem de minha vontade prendê-la aqui, minha doce esposa -declarou ele - Mas infelizmente não vejo outra opção, pelo menos porenquanto.

Em seu coração, no entanto, a dama das estrelas sabia que se Anu chegara àqueleponto, era porque desconfiava da verdade e não desistiria assim facilmente deentrar e conferir se ela estava lá.

Como seus mensageiros foram enviados mortos, Anu aprontou a seus aliados einvestiu abertamente contra a moradia de Dumuzi. Conversou com os demais dingir eangariou muitos aliados dentre eles. Ninguém era muito afeito a Dumuzi,portanto encararam com bastante aversão o fato de ele não deixar os mensageirosde Anu entrarem e ao menos conferirem se Inanna lá estava.

No dia do assalto, Inanna sentiu um peso no peito. Olhou por uma das varandasdo palácio e viu uma enorme tropa vindo contra o local. Correu para dentro eavisou ao companheiro.

- Eles vieram me buscar. É um contingente realmente grande, não só de Anu peloque reparei. Os outros dingir também doaram muitos de seusservidores e seres para nos combater.

Dumuzi olhou pela varanda e os viu avançando.

- E ainda são covardes de vir sem avisar! A deslealdade é a marca de genteassim. Pois bem! Eles pedem guerra? É guerra que terão.

Chamou a seus principais generais e conversou rapidamente sobre a condição dassuas tropas. Estavam boas e bem treinadas, porém um assalto de surpresa poderiadesestabilizá-las bastante. O semblante dele ficou pesado, não sabendo o quefazer. Mas Inanna pediu para entrar na sala e se reportou a ele e aosgenerais.

- Senhores. Nos últimos tempos, eu tenho lidado com as tropas locais. A maioriadelas está muito bem, porém precisam de ordenamento. Dei a eles algumasinstruções, porém nem todos estão realmente prontos. Deixem, por favor, que euconduza os exércitos. Eu morei com Anu e Antu, eu sei como eles agem e como sãosuas tropas. São mais organizadas que as daqui, embora não sejam mais haja um grande prejuízo por causa do que eu fizer, arcarei com tudo.

Dumuzi a olhou longamente, em dúvida. Deixá-la treinar seus homens era umacoisa. Outra era vê-la dirigir a uma batalha que justamente tinha como objetivosaber se ela estava lá ou não.

- Inanna, e se eles a descobrirem por trás disso? Eles podem reconhecer oseu "modus operandi".

- É sobre mim que essa batalha diz respeito. Portanto, eu gostaria de não meesconder como uma covarde dentro do palácio e ficar apenas esperando para sabero resultado. Gostaria de defender a mim mesma.

O olhar dourado dela brilhava tanto, que nenhum dos generais ou Dumuzi puderamficar incólumes a ele.

- Está bem. Eu confio em si - declarou ele afinal.

Satisfeita, Inanna fez uma reverência profunda e depois foi às -as em dois e deu instruções a ambos.

- Quero que a primeira leva ataque e pareça ser a única presente. Depois, dareimais instruções à segunda tropa.

Assim foi feito. A primeira tropa foi e esperou o ataque. Foram comintensidade, como se aquilo fosse o que tinham de melhor a oferecer. Quaseforam rechaçados. Observando aquilo por uma das varandas, Dumuzi estava ansiosopelo desfecho que teria, mas Inanna parecia completamente calma.

- Quando enviaremos a segunda tropa? A primeira está quase sucumbindo.

- Espere só mais um pouco.

Mais um tempo passou. Na verdade Inanna estava esperando a tropa de Anu sercansada. Horas depois, quando enfim pareciam vencer e tomar o portão da moradiade Dumuzi, Inanna ergueu o braço direito e bradou:

- Agora!

A segunda tropa avançou, e não somente com armas, mas com bolas de fogo, vindasdas fornalhas subterrâneas do local. Aquele fogo, todos sabiam, não era tinha origem divina, e vinha de Inanna. Se eles descobrissem - que ofizessem. Desde que não entrassem na propriedade, estava tudo certo.

Surpresas, as tropas inimigas recuaram e enfim foram embora. A segunda tropaera muito mais bem treinada que a primeira, e os poderes sobrenaturais fizeramtoda a diferença. Enfim, os soldados que chegaram à moradia de Anu econseguiram lhe falar, declararam enfim:

- As forças de Dumuzi estão muito mais fortes que antes. Seus servidores esoldados estão equiparados com um fogo sobrenatural e uma disciplina de guerrasemelhante à nossa. Após ficarmos cansados da primeira batalha, a segunda quasenos arrasou. Não esperávamos aquilo.

Anu ficou pensativo, e Antu o olhou de forma aterradora. Era como se ela jásoubesse o que provinha daí.

-x-

As perdas e danos da batalha, para Dumuzi, foram mínimos. A maioria dossoldados não tinha ferimentos graves e a estratégia fora largamente aprovadapelos demais generais - e por ele também.

- Eu não sabia que ao me casar ganharia, além de uma esposa, uma estrategistatão boa. Obrigado, querida. Sem você não teríamos sido bem sucedidos.

Ela sorriu, e deu o braço a ele. Queria muito fazê-lo feliz, e a vitória dele adeixava muito feliz. A partir de então, Inanna passou a trabalhar não para si,mas para o triunfo de seu marido, não só sobre todos os demais dingir,mas sobre toda a rejeição e isolamento que sofrera antes. Ela queria vê-lobrilhar a partir de então.

Criou-se assim a lealdade.

Apesar do enorme sucesso, ela sabia que seu anterior senhor não desistiria comtanta facilidade. A partir daí começou a treinar os exércitos com mais afincoainda, começando de manhã cedo e terminando já à noite. No resto do dia, faziacompanhia a seu marido e cantava para ele dormir. Contava a ele tudo o queocorria na propriedade e em como estava ela feliz com a vida de casada. Nuncaantes pensara que ia encontrar tudo o que esperava num só lugar: trabalho,movimento, prestígio, liberdade, amor e sexo. Era tudo o que ela queria. Dumuzitambém dizia estar muito feliz, mas ao mesmo tempo queria a companhia da esposapor mais tempo.

- É bom que treine os exércitos, mas eu sinto necessidade de vê-la frequentemente- declarava ele, entre um e outro beijo nela quando se deitavam juntos à noite- Eu quero me sentir amado.

- E você o é! - exclamava ela, indignada - É tão amado que eu cuido para quesua reputação, antes desgastada, agora somente melhore e se torne ainda melhor,derrubando aqueles que um dia escarneceram de si.

- Eu sei. Sei que isso é também amor. Mas preciso ficar mais vezes perto de si,abraçar, beijar, essas coisas...

- Oh, está bem! Tentarei reorganizar os afazeres a fim de termos mais tempo pranós dois.

Ele sorriu e a apertou contra si.

To be continued