- O que foi isso tudo, Ranmaru-sama? Perguntou Hatori um tanto perplexo.
- Isso tudo o quê? Não estou disposto a conversar com você agora!
Ah, chefe, com o perdão da nossa hierarquia… eu já estou aqui há muito tempo e sei que não está tudo bem, o que é estranho, pois há alguns dias eu queria conversar com "vossa senhoria", por que achava que tudo ia muito bem! Mas o senhor tem me evitado o tempo todo, só que agora, eu não abro mão! Por que essa despedida da senhorita Suzuran? Foi tão frio com ela, foi quase mal educado, o senhor não vê que a ofendeu?
A frustração de Ranmaru com toda situação começou a vir à tona em forma de irritação direcionada a Hatori, mas o tengu parecia não querer desistir da conversa, "aquele cabeça dura era muito teimoso!" Talvez fosse bom conversar sobre o assunto com alguém, afinal, aparentemente o recepcionista era experiente com as mulheres e sensível a respeito das relações.
- Eu não fiz para ofendê-la, na verdade eu agi assim por que acredito que tomar liberdades a ofenderia.
- Agora que não estou entendendo essa história, Ranmaru! Por que para mim, senhorita Suzuran estava muito feliz com as "liberdades" que o senhor vinha tomando.
O inugami corou um pouco com o comentário, algumas novas dúvidas começaram a lhe atormentar: "será que me precipitei e exagerei em afastá-la?"
- Chefe, vamos para seu escritório, pedimos um saque e você me conta essa história detalhadamente. Estamos de folga hoje... Não tenho mesmo nada melhor para fazer.
Ranmaru cedeu à insistência de seu funcionário, depois de tantos anos e apesar dos tratamentos pseudo formais, Hatori era um amigo, uma pessoa de confiança. Entraram em seu escritório, serviram um saque de uma safra especial que tinha guardado, e então abriu o coração para o chefe da recepção, contanto todos pormenores que aconteceram durante o festival, culminando com o beijo e a rejeição da noite anterior.
O tengu escutava atencioso, fazendo uma piadinha entre um acontecimento ou outro, encorajando as habilidades de sedução do mestre. Mas ao final da história, foi se calando e seu semblante ficou carregado, o que não passou despercebido de Ranmaru que ficou um pouco nervoso e apreensivo…
- Ficou calado de repente tengu! Diga alguma coisa!
- Chefe, com o perdão da palavra, o senhor errou feio hoje!
O semblante do inugami ficou entre o desespero e a raiva. O que deveria ter feito? Ela que o rejeitara no final das contas!…
- E senhor Casanova, o que eu devia ter feito depois dela ter me rejeitado?
- Ranmaru, quando ela te rejeitou?
- Quando não aceitou ficar aqui mais um pouco…
- E não ocorreu ao senhor, perguntar sobre os seus comprissos, ou combinar um encontro depois que ela resolvesse as pendências?
Ranmaru coçou a cabeça envergonhado:
- Err… não!
- Não lhe ocorreu que uma mulher adulta e responsável não sai largando tudo, mesmo que esteja perdidamente apaixonada? O senhor sabe lá o que ela havia combinado com Tenjin-ya?
- Ahhh, droga! Eu estraguei tudo! Perdi todas as minhas chances com ela…
- Ah, chefe, seu problema é ser muito orgulhoso, e julgar as coisas erroneamente a partir deste orgulho. E ser tão dramático! O senhor não perdeu todas as chances com ela… pelo jeito que ela te olhou, e sorriu para você. Se o sentimento que li na expressão dela, for realmente o que eu estou pensando, o senhor pode consertar tudo…
- Como eu vou fazer isto? Aparecendo do nada no Tenjin-ya? Não vai funcionar… eu não tenho mesmo traquejo para relacionamentos!…
Ranmaru falou já sendo tomado pelo desânimo, levando uma das mãos sobre o rosto desolado. Mas Hatori ignorava seu drama e falou animado:
- Tudo isso pode melhorar com a prática, você gosta dela?
- Sim, gosto muito dela!
- Ah, que satisfação escutar isso!
- Não faça piadas comigo, ainda sou seu chefe!
- Ah, Ranmaru-sama, você precisa aprender a relaxar um pouco… por isso que gostei dessa moça, ela bem que te amansou enquanto estava pro aqui!
- Hatorriiiii!
- Ah, desculpa… mas é verdade! Não se preocupe, eu tenho um plano!
- Um plano… lá vem você com essas maluquices… um plano igual tinha de roubar o licor de seu pai!
- Que golpe baixo… não, em relacionamentos eu sou especialista! Lembra-se chefe, que o senhor me pediu para entrar em contato com o senhor Byakuya a respeito do contrato de compra de Suzuran pelos herdeiros do Yahata-ya?
Ranmaru apenas encarava o entusiasmado tengu com uma expressão emburrada e os braços cruzados como tinha o habito de fazer quando estava tenso.
- Ontem eu recebi uma resposta, Byakuya encontrou brechas no contrato e está disposto a conversar com o senhor!
Ranmaru deu um sorriso sincero de alívio… teria um motivo real para ir a Tenjin-ya. Faria os preparativos para ainda naquela semana seguir com seus planos… mas, como encararia Suzuran?
- Mas, como vou falar com Suzuran? O que eu posso fazer?
Hatori sorriu...
- Você gosta de verdade dela, não é mesmo Ranmaru?
Ranmaru sorriu um pouco tímido confirmando com uma menção da cabeça.
- Apenas seja sincero, abra seu coração e deixe seu sentimento por ela a alcançar. Bom, vou indo para as fontes termais relaxar… acho que o senhor tem muitas coisas para planejar e pensar… Se precisar de mim, é só chamar.
Falou dando uma piscadela que era sua marca registrada e saindo do escritório. Ranmaru estava com o coração mais leve após a conversa… então, havia uma chance dela não o estar rejeitando? Uma nova esperança nascia dentro dele, precisava ajeitar as coisas o quanto antes. O inugami já se tomava de uma ansiedade para vê-la de novo logo, e pedir perdão por ser tão cego e impulsivo. A vontade de beijá-la, tê-la em seus braços sem pressa ou preocupação com o tempo começava a invadi-lo de novo. Imagens de um futuro em que ela vivesse ao seu lado se faziam em sua mente, causando-lhe um sorriso instantâneo no rosto.
Suzuran ainda se sentia muito triste, talvez por ter baixado a guarda e acreditado no sentimento que Ranmaru parecia demonstrar por ela. Ao achar que era correspondida, sentia que havia se precipitado em beijá-lo daquele jeito. Ela ainda conseguia ver seu rosto na sua frente naquele momento em que lhe selou os lábios com os seus: vulnerável, quase inocente... ele se afastou como uma criança que houvera feito algo errado… não havia opção senão afirmar-lhe que ele podia beijá-la, e qual melhor confirmação do que o beijando?
Teria ele a tomado como muito atirada? Ou interesseira? Ou será que entendeu sua partida iminente como desinteresse, fazendo-o retrair-se? Ah… sua cabeça parecia querer estourar, depois de tanto chorar, esses pensamentos estavam lhe esgotando, causando-lhe enxaqueca. Ao longe avistou o Tenjin-ya e seu coração pareceu se acalmar um pouco, o consolo dos corações amigos de Aoi e Odanna a ajudariam a esquecer este episódio que a machucara mais pelas suas expectativas e excesso de esperanças, do que por gravidade real… guardaria as memórias do festival, e a paixão por Ranmaru como uma joia de alto quilate em seu coração, uma lembrança especial depois que essa tristeza e frustração passasse.
Quando chegou ao ponto de desembarque no Tenjin-ya, avistou sua amiga Aoi e Ginji, o pequeno chefe. Ao vê-los sorriu com sinceridade, mas perceberam que ela não estava bem.
- Está tudo bem, senhorita Suzuran? Perguntou Ginji preocupado.
- Sim, só estou com um pouco de dor de cabeça…
- Vamos descarregar sua bagagem, descanse com Aoi enquanto preparamos suas coisas para senhorita!
Ginji fez sinal para os mensageiros descarregarem a bagagem, enquanto as duas mulheres se abraçavam felizes pelo reencontro. Aoi parecia mais radiante que o comum. Quando os outros funcionários se retiraram, Aoi olhou a amiga com uma certa preocupação:
- Suzuran, sua energia está baixa, percebo que não é apenas por uma dor de cabeça, e seus olhos estão inchados, você andou chorando?
A pergunta sincera de Aoi pegou Suzuran de surpresa, desarmando-a, e as lágrimas voltaram a escorrer de seus olhos. Aoi a abraçou, deitando sua cabeça em seu ombro, acariciando-lhe os cabelos.
- Minha querida, isso vai passar… vamos para o Dama da Noite, vou preparar uma refeição e você me conta como foi o festival de Orio-ya e o que te aflige dessa forma… se bem que desconfio que tenha a ver com um certo inugami turrão…
Aoi lhe deu um lenço, para que se recompusesse antes que adentrassem no Tenjin e seguissem em direção ao Dama da Noite. A moça sorriu agradecida, acalmando-se com a perspectiva de uma refeição agradável entre amigas. Chegando no restaurante, Suzuran assentou-se no balcão para conversar com sua amiga enquanto esta lhes preparava o almoço. A pequena Ai fazia barulho cantarolando no outro cômodo, preparando as mesas do restaurante. Quando terminou, Aoi lhe chamou:
- Ai, você terminou de arrumar as mesas?
- Hai, Aoi-chan!
- Você poderia por favor buscar algumas garrafas de Ranmune e ovos das termas para os pratos de hoje à noite? Se quiser, tire um tempo para descansar, brincar com Chibi, eu te chamo para o almoço!
- Sim Aoi-chan! Vou buscar o que precisa agora, enquanto isso vou passear pela montanha!
- Tome cuidado, não saia dos domínios do Tenjin-ya!
- Hai, hai!
Disse a pequena ayakashi já no caminho para a montanha com Chibi em um ombro! As duas mulheres não resistiram a um sorriso cheio de afeto.
- Aoi, você está se saindo uma excelente mãe! Ai é exatamente a sua imagem e de Odanna perfeitamente misturados! De certa forma, ela é mesmo sua filha… mais ou menos como nós duas somos irmãs… através desses laços invisíveis de afeto com os quais o destino vai nos costurando. Quando você tiver um filho biológico com Odanna, verá o que estou dizendo, será muito parecido com ela!
Aoi sorriu sonhadoramente, com uma mão sobre o ventre, olhando pela janela em direção ao prédio principal.
- Bom, isso vamos saber logo...
Suzuran demorou um pouco para registrar a fala enigmática da neta de Shiro.
- Aoi?!
…
- Aoi-chan! Você está esperando um filho do mestre?
Aoi confirmou com a cabeça, olhos brilhantes de emoção! Suzuran a abraçou eufórica por cima do balcão.
- Isso foi bem rápido… rsrsrs quando você soube?
- Soubemos logo que você partiu para o festival de Orio-ya… mas queríamos contar pessoalmente, por isso não te enviamos nenhuma mensagem. Odanna queria começar nossa família logo… aliás, começamos muito antes de namorar, com Ai, Chibi… agora teremos uma criança meio humana e meio ayakashi…
- Fico muito feliz por vocês dois, o caminho de vocês dois até aqui não foi fácil…
- É, não foi… o amor nem sempre é algo simples… falando nisso, minha cara, algo me diz que esse seu semblante triste e desanimado tem a ver com uma dor de amor…
- Ah, é… não sei dizer o que é… da minha parte eu sei o que sinto…
- A outra parte é o Ranmaru? Eu tinha uma intuição de que vocês se dariam bem, que ele estaria mais aberto, agora que seu fardo tinha ficado mais leve…
- Sim, é ele Aoi-chan… mas acho que eu me enganei ao avaliar o sentimento dele por mim…
Suzuran contou para Aoi todos detalhes do festival, como foi tratada em Orio-ya, como ela e Ranmaru foram se tornando próximos, e os contatos foram ficando cada vez mais íntimos. Contou do incidente com Yahata-ya, do jantar na praia, e finalmente a noite passada com seus beijos apaixonados e a despedida abrupta hoje.
- Nossa, mas como Ranmaru é denso!
- Senhorita Aoi?
- Claramente ele se apaixonou por você também, Suzuran… mas é cabeça dura demais para entender essas coisas. E orgulhoso um pouco além da medida! Não conseguiu perceber, que por mais que você tenha gostado dele e de seu hotel, como uma profissional que é, teria outros compromissos que não seriam possíveis de adiar, e ao invés de conversar para saber, ou combinar uma data próxima… se sentiu rejeitado e agiu inconsequentemente.
- Ah, Aoi, não consigo ser assim tão otimista… talvez ele não tenha gostado de me beijar - foi meu primeiro beijo - talvez eu não tenha feito direito…
- Não existe tal coisa! E me desculpe a sinceridade, mas se ele te agarrou de novo na porta do quarto, é por que gostou de estar com você.
Suzuran ficou completamente ruborizada perante o comentário de Aoi, lembrando-se da maneira que Ranmaru a beijou na porta do seu quarto, a ponto de roubar-lhe o chão.
- Mas agora, não há mais o que se fazer… ele vai ficar acreditando que eu o rejeitei, e não vamos poder desfazer este mal entendido…
- Não pense assim Suzuran! Eu acredito que você causou uma forte impressão nele, e ele vai acabar percebendo que foi precipitado! Tenha um pouco de fé em Ranmaru. Eu o conheci e a pousada dele em um momento difícil, como inimiga e intrusa… ele foi muito hostil comigo, mas não por maldade, durante os preparativos e depois da cerimônia, ele agiu sempre de maneira justa e ética. Apesar da superfície ríspida, às vezes até grosseira, há ali um coração muito generoso.
- Aoi, diferente de você, eu só tive contato com o lado gentil e generoso de Ranmaru, por isso talvez que foi tão fácil me iludir…
- Não creio que você tenha se iludido, pois ele não é o tipo de pessoa leviana que seduz e flerta com mulheres com quem não quer nada. Na verdade, eu não o imaginava interessado em ninguém, até que vi a maneira como ele te olhou em meu casamento… me lembrei da conversa que tive com a princesa Iso…
- Com a princesa Iso, mas como Aoi, ela morreu há 300 anos?
- É uma longa história, mas durante os preparativos para a cerimônia, eu visitei o antigo templo onde ela morreu, e ela veio a mim em uma visão, me contou de seus dois amados filhos adotivos. Segundo ela, dos dois, Ranmaru era o mais amoroso e fiel. Depois desta conversa, passei a vê-lo com outros olhos, e tinha certeza, que passada a cerimônia com sucesso, ele poderia aos poucos voltar à natureza bondosa de quando era criança… e aparentemente, você teve o melhor dele.
- Mas foi um sonho passageiro… eu me apaixonei de verdade por ele, Aoi, e ao estar nas lindas terras do Sul, naquele hotel, eu me senti em casa, e com um propósito, este festival foi um momento transformador para mim… me fez sonhar com um futuro.
- Se foi tão importante, por que não tentamos desfazer este mal entendido?
- Não sei o que fazer, Aoi…
- Pensaremos em alguma coisa… mas depois, agora vamos almoçar!
Aoi disse sorrindo e dando a volta no balcão para chamar Ai e Chibi. Preparou uma mesa para a refeição dos quatro, e serviu a todos assentando-se. Somente de colocar a comida de Aoi na boca, Suzuran já se sentia melhor. E aquela conversa encheu seu coração de esperanças novas… afinal, não estava tudo perdido, e se apaixonar, no final das contas, poderia ser uma coisa boa.
Odanna-sama se dirigia ao Dama da Noite para ver sua esposa no intervalo de almoço, chegou um pouco antes de se servirem e acabou escutando parte da conversa. Devido a intimidade das confissões femininas, preferiu voltar ao seu escritório dando-lhes espaço. Chegando lá, enviou uma mensagem a Byakuya:
"Byakuya-san, você conseguiu levantar algo sobre o contrato de compra de Suzuran por Yahata-ya conforme Orio-ya havia pedido, não é mesmo?"
Alguns minutos se passaram, e Odanna viu sua tela piscar:
"Sim, e há diversas irregularidades jurídicas nesta transação, já respondi ao Hatori-san."
Odanna ficou pensativo, procurou Ginji pelo hotel. Ao encontrá-lo perguntou misterioso:
- Ginji-san, você tem sempre contato constate com Ranmaru-sama?
- Sim senhor, Odanna-sama!
- Você acha que seria muito em cima da hora para convocá-lo para uma reunião no final de semana, aqui no Tenjin-ya?
- Creio que não Odanna-sama, a semana pós festival de verão é uma das mais calmas na pousada, hoje, que é a segunda-feira pós festival, geralmente é um dia de folga.
- Poderia convidá-lo em meu nome para vir discutir um assunto sobre o qual eles nos consultaram? Diga para que venha na sexta, reservaremos uma suíte para o final de semana.
- É algo grave, Odanna?
- Não acho que seja grave, mas creio que há uma certa urgência...
Ao ver que Odanna estava sendo propositalmente misterioso, Ginji pediu licença para se retirar e prometeu entrar em contato com seu irmão imediatamente. Quando o pequeno chefe saiu, o oni riu sozinho de sua intervenção… já fizeram muitos tipos de trabalho, mas seria sua primeira vez como "cupido".
Resolvida a questão, Odanna achou que já podia voltar ao Dama da Noite, à esta altura, com Ai e Chibi de volta, provavelmente os assuntos privados já teriam se encerrado… não resistia provar o que Aoi cozinhara, e agora que estavam juntos, não conseguia passar muito tempo afastado de sua esposa, e seu filho…a lembrança da gravidez aqueceu seu coração.
Adentrou-se ao pequeno restaurante, Ai ao vê-lo levantou-se de um salto gritando eufórica: "Odanna-sama! Odanna-Sama!" Parou na frente do oni com seu sorriso aberto e infantil, ele se abaixou na altura da visão dela e sorrindo tocou-lhe a ponta do nariz perguntando:
- E então, pequena Ai, tem sido uma boa menina e ajudado Aoi-chan?
- Hai, hai!
- Que bom!
Ele retornou a sua altura habitual acariciando a cabeça da pequena ayakashi que pulou enlaçando o pescoço de Odanna o abraçando calorosamente. Ele sorriu dando-lhe tapinhas nas costas. Aoi sorria amorosa e comentou sussurrando com Suzuran:
- Ai anda mais ansiosa depois que soube do bebê, estamos dando uma atenção extra para ela não se sentir em segundo plano…
Suzuran sorriu da felicidade de todos, afinal, se tornaram uma familia feliz e nada convencional! Observando a cena pensava, que também gostaria de viver assim um dia. Seria possível? Odanna então ajuntou as vasilhas da mesa e levava para a cozinha, Aoi o interpelou:
- Odanna, eu posso perfeitamente fazer isto! Sente-se para eu te servir… eu já te falei que gravidez não é doença!
- Mas é dever do marido auxiliar a esposa em todos os momentos, especialmente quando ela estiver grávida!
- Lá vem você de novo com esses deveres de marido!
Aoi falava com uma expressão brava, mas Suzuran percebia que ela segurava o riso. Odanna levou as vasilhas para a cozinha, onde Ai saltitava em frente à pia esperando para lavá-los. Era muito engraçado como tudo para ela parecia algum tipo de brincadeira. Antes que qualquer um deles falasse mais alguma coisa, Akatsuki entrou pela porta do restaurante, correndo a visão pelo estabelecimento, encontrou sua irmã que sorriu ao vê-lo.
- Então é assim, agora você chega no Tenjin-ya e nem passa pela recepção para ver seu irmão?
A Aranha da Terra falou com uma expressão emburrada de quem realmente se ofendera com a falta de consideração da irmã. Suzuran sabia que se passasse pela recepção com os olhos inchados e abatida como chegou seria motivo para um escândalo de seu irmão mais velho. Aoi desfez a situação embaraçosa dizendo:
- Ah, Akatsuki! Não faça drama! Sua irmã só ficou 15 dias fora, não é como se não a visse há anos, e eu fui buscá-la para almoçar comigo e contar as novidades…
Ela e Odanna se olharam sorrindo felizes, e então o chefe da recepção pareceu dar-se por vencido.
- As meninas já prepararam seu quarto, Suzuran! Suas bagagens já estão lá. Você não quer descansar um pouco?
Suzuran levantou-se de onde estava, com seu vestido praiano e as conchinhas nos cabelos e foi até seu irão dando-lhe um abraço caloroso. Ele foi pego desprevenido, e se desarmou abraçando-a com carinho. Ao soltá-la, continuou segurando sua mão.
- O que há com você? Parece uma habitante das terras do Sul! Aquele cachorrão irmão do Ginji te tratou direito?!
- Irmão, os funcionários do Orio-ya e Ranmaru-sama me trataram como uma convidada de honra, meu trabalho foi muito valorizado no festival!
- Sei… eu vi do jeito que ele te olhou no casamento do mestre… espero que não tenha feito nenhuma gracinha!
- Ah, Akatsuki, sinceramente, ninguém presta pra você! Vamos, acabei ficando com dor de cabeça de novo, quero descansar!
Suzuran seguiu na frente, irritada com o irmão… por que todo mundo achou que Ranmaru tinha algum interesse pessoal nela, e só ela não percebeu? Por enquanto não ia pensar nisso, queria apenas descansar um pouco. Akatsuki se curvou despedindo-se do grande chefe e sua mulher, e seguiu a irmã apressado.
Odanna olhou para Aoi ao seu lado, se sentia cada vez mais apaixonado, a presença dela trouxe diversos matizes novos para sua vida. Num impulso se abaixou apoiando-se em um joelho de frente para ela, que surpresa encostou-se na pilastra logo atrás. Então, levou uma mão em cada lado da sua cintura e encostou o rosto em seu ventre que ainda se mantinha magro como antes.
Aoi, tomada de emoção pela atitude afetuosa e quase infantil de seu esposo, acariciou-se os cabelos enquanto ele beijava a sua barriga conversando com o bebê deles. E então levantou-se, mantendo-se próximo a Aoi, ainda segurando-lhe a cintura. O rosto tocando a lateral do rosto dela, falou em seu ouvido causando-lhe um arrepio gostoso:
- Eu já te falei o quanto sou feliz por você ter aceitado se casar comigo?
- Todos os dias…
- Se você não fosse tão teimosa, já podíamos estar casados há muito mais tempo...
Falou provocando-a, depositando um beijo leve em seu pescoço bem abaixo da orelha.
- Em minha defesa, não ajudou muito você me tratar como se eu fosse sua filha e não sua pretendente…
Ele seguiu beijando-lhe o maxilar, roubando suspiros de Aoi...
- Eu estava apenas sendo um cavalheiro, te dando o espaço que você desejava, não seria do meu feitio te forçar a nada…
Ele falou enquanto os lábios se aproximavam do dela, e roubaram-lhe um beijo rápido mas intenso. Ainda próximos a ponto de sentir a respiração um do outro, Aoi respondeu:
- Quem sabe se você tivesse me beijado assim, quando estávamos em Orio-ya, ou antes, no festival de verão do Tenjin as coisas não tivessem se desenrolado mais rapidamente?…
Odanna ficou surpreso, sem resposta, olhando para ela com olhos arregalados. Aoi ria divertida, era muito raro conseguir pegá-lo nestas situações, mas ela adorava quando acontecia. Tocou-lhe o rosto de leve e deu-lhe mais um beijo.
- Sente-se, vou te servir almoço.
O Oni sentou-se, conforme pediu sua mulher, observando-a graciosa na cozinha. Ai já havia lavado tudo e brincava com Chibi que estava em cima do balcão, em sua inocência, sequer percebera o clima de flerte entre seus pais. Ele então lembrou-se da conversa de sua esposa com Suzuran.
- Aoi, na verdade eu vinha pra cá mais cedo, e chegando na porta, percebi que vocês estavam tendo uma conversa mais privada. De qualquer forma eu ouvi uma parte… e acabei tomando providências.
- Providências? A respeito de quê?
- Há mais de uma semana, Hatori entrou em contato com Byakuya a pedido de Ranmaru, ele queria saber detalhes sobre o contrato de compra de Suzuran por Yahata-ya.
Aoi serviu a refeição ao seu marido, olhando-o atenta e interessada no assunto.
- Mesmo sem saber qual interesse Ranmaru teria neste assunto, Byakuya secretamente levantou detalhes e documentação sobre o contrato… ele me procurou perguntando se deveria confiar e repassar para o chefe da pousada rival, eu dei permissão. Eu imaginei que Ranmaru perguntou por algum interesse dele em Suzuran, e parece que eu estava certo…
- Sim, pelo que observei, e pelo que Suzuran me contou, parece que há um interesse mútuo, mas também um pouco de mal entendido…
- Pois bem, minha querida, não sei se agi corretamente, mas pedi a Ginji que convocasse uma reunião com Ranmaru aqui no Tenjin-ya. Pedi que o convidasse para passar o final de semana inteiro… fiz bem?
Aoi sorriu, passou a mão pelos cabelos sedosos do marido que estava assentando almoçando, abaixou-se e deu-lhe um beijo no rosto.
- Você foi perfeito!
Ele apenas sorriu e pensou "aparentemente é também dever do marido, ser cupido das amigas de sua mulher." Se Ranmaru aceitasse o seu convite - e se estivesse interessado em Suzuran como ele imaginava - o casal teria o final de semana inteiro para se acertar.
