Capítulo 4

"Ele foi feliz comigo. Ele me trouxe para sua casa.
Ele me deitou no leito perfumado de mel
Meu doce amor deitou-se junto a meu coração
E me cobriu de beijos
Meu adorado Dumuzi fez amor comigo cinquenta vezes"

Trecho de "A corte de Inanna e Dumuzi"

Inanna de fato estava feliz com a nova vida. Mas com o tempo passou a sentir algo intenso queimar dentro de si. Desde de manhã até a noite, se mantinha ocupada no palácio, e apesar de tudo aquela queimação, como se fosse um fogo dentro de si, não passava.

Resolveu falar disso com uma de suas aias.

- Eu sinto algo queimando em mim que não passa, por mais que me ocupe. Será isso normal? Será isso algo bom? Como poderei aliviar o que sinto?

- O que é, exatamente, essa queimação, minha senhora?

- É semelhante ao que eu sentia antes de me casar. Naquela época eu desejava a Dumuzi, aquele que atualmente é meu marido. Mas agora eu o tenho através do matrimônio, e do dia a dia. O que poderia ser então?

A aia sorriu.

- Está apaixonada. É comum nas esposas que recém contraíram matrimônio.

- Mas por que isso não passa mesmo quando estou com ele?

- Porque é para ser assim, ao menos no começo. Com o tempo, quem sabe, fique mais leve.

E a sensação permanecia. Tentando ainda descobrir a natureza do que seria aquilo, Inanna achegou-se ao marido numa noite e disse a ele que estava com muito desejo.

- Será inadequado a uma dama declarar que está assim tão desejosa de um homem...?

- Claro que não, desde que ele seja o seu homem - disse ele, divertido, e então ambos tiveram uma longa noite de amor.

Pela manhã, Inanna estava completamente satisfeita, mas o fogo interior não havia cessado. Pensou então que era outra coisa. Decidiu ficar junto do marido o dia todo, se inteirando do que ele fazia com os generais e demais servidores. Como ela havia sido tão bem sucedida na defesa do último ataque de Anu, ele não se opôs de forma alguma e até se alegrou.

Mas o fogo interior ainda não findara.

Inanna passou, então, a desvendar os segredos da magia, e com eles potencializar todos os feitos do local. Encantava objetos, fazia-os poderosospara os guerreiros locais e dava conselhos aos que a procuravam.

Aí descobriu ela o que era aquele fogo. Era necessidade de fazer Dumuzi e seu poder crescer, e não somente paixão, como dissera a aia. Inanna era dama muito poderosa para sentir apenas paixão: precisava ela de mais. Muito mais.

Precisava ser o pilar de todos os feitos de Dumuzi.

Naquele mesmo dia, vieram espiões e declararam a ela que haveria um casamento dentre os dingir. Ereshkigal e Nergal iam se casar. Dumuzi lembrou então de todo o rechaço que recebera dos outros, bem como o recente ataque que sofrera da parte de Anu, e portanto resolvera se vingar.

- É chegada a hora de você se revelar, Inanna. Já chega de se esconder. Neste casamento, você aparecerá a eles, e em seguida entro eu. Entendido?

- Tome cuidado. Nergal e Ereshkigal são vingativos e não deixarão barato qualquer intervenção que seja feita.

- Pois quero ver se conseguem se vingar.

Dumuzi sorriu de forma sinistra, e Inanna nada mais disse.

No dia da cerimônia, a qual seria feita num campo aberto, estavam presentes todos os dingir e seus protegidos, somando um número bastante alto de convivas. As festas se iniciaram, houve dança e música, e todos se alegraram por muitas horas, até o momento em que Antu, esposa de Anu, viu Inanna ali perto.

- Inanna! Inanna, é você mesma ou uma ilusão causada por alguém?

Antu foi correndo até a dama das estrelas, despertando assim a atenção dosdemais, mas quando chegou perto o suficiente, percebeu.

- Dumuzi...! A presença dele em você! Você... se deitou com ele!

Todos os que estavam perto e a escutaram ficaram boquiabertos. Inanna nada negou. Em sua mão esquerda rebrilhou o anel que ele lhe dera no dia do casamento.

E logo em seguida ele se fez presente. Em todo seu poder e majestade, Dumuzi apareceu em uma forma mais intimidadora que nunca.

Todos o observaram; após muito tempo de reclusão, ele se demonstrava outra vez.

- Que feliz ocasião é esta onde todos estão reunidos e não me chamam? - declarou ele, de forma obviamente sarcástica.

Anu tomou a palavra.

- Poderia ter sido bem vindo entre nós, caso não fosse tão destrutivo no começo.

- Destruí o que não me deram por direito. Nunca pude tomar lugar com meus irmãos sem ser rechaçado! Mas não tem problema. Anu, eu soube que tentou invadir minhas propriedades em busca de Inanna. Pois aqui está ela.

Dumuzi colocou-se lado a lado com a mulher, abraçou-a pela cintura e a beijou no rosto.

- As demais dingir se negaram a ser minhas esposas, mas ela não. Eu as agradeço por isso. Inanna é a melhor companheira que eu poderia desejar.

- Inanna! - bradou Anu, como que ignorando a Dumuzi - Ele a tomou a força, como intencionou fazer com Damkina? Diga a verdade.

- Não - ela falou pela primeira vez na noite - Ele me pediu como esposa e eu aceitei.

Um murmúrio de assombro passou por todos. Anu e Antu cobriram o rosto.

- É uma perda muito grande! Por que não percebemos antes e a impedimosde tomar esse caminho?

- Eu o amo há muito em segredo - declarou ela, arrancando mais um murmúrio de espanto de todos - Ele me cortejou quando eu já o amava há tempos, e agora quero retribuir a esse amor. Meu esposo não me trata mal e me dá bastante autonomia e amor. Talvez se o tivessem tratado melhor...

- Deixa estar - disse Dumuzi - Não preciso do apreço de quem não o dá de livre e espontânea vontade. Mas também não os deixarei sem sentir o meu poder!

Num só gesto muito forte, Dumuzi lançou uma grande bola de fogo contra dois luzeiros que Antu havia feito para dar de presente a Ereshkigal e Nergal, e os destruiu. O poder foi tão grande, que Inanna teve de se esconder atrás dele para que tal energia não a atingisse.

- Agora ficarão no escuro. E para que não mais me importunem - vão embora!

Dumuzi, sozinho, lançou tal onda de poder e terror que todos saíram correndo - menos os seus aliados, os quais estavam presentes. Nenhum dos dingir antes havia visto semelhante poder vindo dele. Era o ódio, o terror, que o fazia agir daquele jeito.

- Não será esse o final da sua história - clamou Nergal, virando-se para trás - Nenhum de nós foi estragar o seu casamento. Por que então estraga o meu?

- Por vocês, nem esposa eu teria tomado. Tive de fazer tudo de forma clandestina, a fim de que não me importunassem. E agora vão! Vão onde quiserem, mas não me importunem mais!

Aterrorizados, os dingir e seus protegidos correram e se refugiaram no submundo. Lá, Ereshkigal e Nergal estabeleceram seu reinado, pois grande ainda era a escuridão e a lembrança do ataque de Dumuzi. Em seu coração, Ereshkigal prometeu a si mesma que ia se vingar - não em Dumuzi, mas em Inanna, a qual aparecia resplandecente e bela, rainha do céu enquanto ela se tornava rainha do submundo. E ainda afrontando destruir a sua festa de casamento com semelhante crápula! Mas eles iam ver...

Após ter varrido o gramado do local da festa com destruição, Dumuzi ficou feliz, riu de forma perversa. Espalhou a seus aliados e fez com que eles se pusessem a destruir o trabalho dos demais dingir - e ensandecido, deitou-se e fez amor com Inanna no leito conjugal que seria de Nergal e Ereshkigal. Profanou o local e o fez seu. A seguir, deixou que Inanna andasse livremente fora de suas propriedades, pois agora todos sabiam que ela era sua esposa, e dificilmente, após aquele ataque, a reclamariam outra vez.

Mas tudo ainda estava no começo... pois novos seres logo entrariam em cena e seriam alvo de grandes disputas entre todas as divindades.

Os seres humanos.

To be continued