Ranmaru mergulhou no trabalho depois da conversa com Hatori. O trabalho era algo como um porto seguro, sempre que não sabia o que fazer, ou sentia insegurança, o trabalho era seu remédio, sua válvula de escape. Não que não quisesse consertar as coisas com Suzuran, mas precisava de oportunidade se não quisesse parecer desesperado.

À tardinha do dia que Suzuran partiu, ele recebeu um recado inesperado de seu irmão, Ginji:

"Ranmaru,

Como vai?

Não sei como está sua agenda, mas Odanna-sama gostaria de marcar uma reunião para discutir o contrato de casamento da Suzuran com os herdeiros de ?. Você pediu informação a respeito, e eles encontraram detalhes importantes. Odanna está disposto a compartilhar com você pessoalmente. Se estiver tudo bem, ele disse que pode marcar a reunião para o final de semana. Você poderia estar aqui na sexta à noite?

Ginji."

A mensagem informal de seu irmão fez seu coração saltar. Passar o final de semana no Tenjin-ya? Reunião com o grande chefe e o seu contador?! Seria a oportunidade perfeita! Suzuran ainda estaria por lá? Se estivesse, não deixaria seu orgulho vencê-lo e atrapalhar sua vida de novo… pediria perdão e abriria seu coração, não tinha por que fazer diferente. Será que encontraram alguma brecha no contrato? Por que uma reunião urgente e presencial? Uma preocupação com a segurança da gueixa começou a surgir no fundo de seu coração, mas faria tudo que pudesse para ajudá-la, não permitiria em nenhuma hipótese que ela caísse nas mãos de outro homem!

Respondeu positivamente ao seu irmão, confirmando sua disponibilidade para a próxima sexta-feira. Queria ver Suzuran, mesmo que ela não o perdoasse, mesmo que ela não correspondesse de fato ao que ele estava sentindo, ajudaria Odanna a ajudá-la, a livraria desse fardo, mesmo que a liberdade a levasse para longe dele, ou que ela escolhesse outro homem.

Teria que trabalhar duro para deixar tudo organizado sob responsabilidade de Hideyoshi. Entretanto, com Ougon-Douji presente e em uma temporada tranquila, poderia se ausentar por alguns dias e o hotel estaria em perfeito funcionamento. Levaria consigo Hatori, o chefe de recepção demonstrou ser bom conselheiro em assuntos de relacionamentos, e caso necessitasse, o ajudaria a lidar com Akatsuki, o barulhento irmão de Suzuran… Teria de levar Tokihiko também, afinal, ficaria feliz em rever sua noiva e ex aluna: Shizuna.

A semana passou rapidamente, Suzuran procurava se distrair nas instalações do Tenjin-ya, ensaiando danças tradicionais, tocando seu shamizen, e passando muito tempo com Aoi no Dama da Noite, às vezes até cozinhava com sua amiga. Fizeram uma noite das meninas no restaurante de Aoi em sua noite de não funcionamento, as meninas do Tenjin foram dormir juntas, comer uns petiscos, beber, e falar sobre homens, romance e rir juntas.

Tudo isso foi apaziguando o coração da bela gueixa, já que se passaram vários dias, e não teve nenhuma notícia de Ranmaru, acreditava que foi ilusão sua esperar que ele a procuraria e se acertariam... No final das contas, o sentimento dele não era forte como o seu.

Ela ainda sonhava com os beijos que trocavam, acordada e dormindo. Nos sonhos seu romance florescia e se tornavam mais íntimos, declarando abertamente o quanto se gostavam. Esses devaneios, frustrados pela realidade, a entristeciam, e então, ela procurava algo para se distrair, o que funcionava, até que a imagem do lindo grande chefe de Orio-ya surgia novamente em sua mente, reiniciando o processo.

Na sexta à noite, Aoi a convidara para fazerem um jantar nostálgico juntas: preparar uma das receitas de Shiro. Suzuran se entusiasmou com a ideia, seria agradável cozinharem, depois jantarem entre amigas, certamente Odanna se juntaria a elas, e outros funcionários, criando aquele clima gostoso de família com a qual havia se acostumado, seria uma noite de sexta-feira especial!

Prendeu os cabelos em um coque, com a presilha de conchas arco-iris que comprou na feira em Orio-ya - que se tornara um amuleto especial para ela - e colocou um yukata leve, cor de rosa com estampa floral, para trabalhar com a amiga. Chegando no Dama da Noite, Aoi lhe emprestou um avental para não se sujar cozinhando, e a ajudou a prender as mangas do yukata.

O clima entre ela, Aoi e Ai estava muito agradável, lavando e cortando os ingredientes, misturando-os enquanto conversavam, provando e se deliciando. Ai cantarolava enquanto ajudava, e as adultas estavam com o foco na receita.

Suzuran já terminava de cozinhar as guiozas enquanto Aoi dava seus toques de tempero no molho especial, Ai havia ido no estoque buscar temperos que faltavam. Estavam tão distraídas que não perceberam que um grupo adentrava-se ao restaurante encabeçado por Ginji: Tokihiko, Hatori e para a surpresa de Suzuran: Ranmaru, trazendo Noburanga nos braços.

O coração da gueixa deu um sobressalto, ela custava a conseguir disfarçar a excitação, surpresa, apreensão… Aoi sorriu tomando frente nas boas vindas enquanto a amiga retomava o fôlego.

-Uau! Que surpresa agradável! O que traz nossos amigos do Sul ao Dama da Noite?

- Negócios senhorita Aoi! Infelizmente, gostaria que fosse lazer! - Disse Hatori brincalhão sorrindo para as duas mulheres que retribuíram o sorriso.

- Ranmaru-sama! Que honra sua presença aqui no meu restaurante… Aoi falou em tom de brincadeira deixando o grande chefe de Orio-ya um pouco desconcertado.

- Tenho negócios a tratar com seu marido, mas aproveitamos para passar aqui para parabenizá-la pela gravidez e trazer uma lembrancinha de nossas terras para seu restaurante. Disse enquanto Tokihiko entregava uma cesta repleta de iguarias luxuosas do Sul. Ranmaru não resistiu estender um olhar demorado à Suzuran, que sorriu tímida corando e olhando para baixo. Hatori não deixou de perceber o clima e puxou assunto com a gueixa:

- E a senhorita Suzuran, como esta? Fez boa viagem de volta? Vejo que continua bela como sempre…

O último elogio provocou um olhar irritado de seu chefe, que no mesmo instante disfarçou voltando à sua pose altiva de antes. Se preparava para dizer alguma coisa quando Ai adentrou pelo restaurante distraída, e vendo-o gritou animada "Senhor cachorrinho!" e correu pulando em seu pescoço dando-lhe um abraço como se fossem grandes amigos.

Ranmaru quase desequilibrou-se, e seu rosto demonstrava total confusão, olhou para Aoi como quem pedisse socorro, enquanto Ai sem a menor cerimônia deu-lhe um beijinho no rosto e pegou Noburanga no colo, saindo cantarolando com o cachorro pelo restaurante como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Hatori e Tokihiko seguravam risadas ao ver a cena de seu chefe turrão totalmente desarmado pela criança inocente. Suzuran sorria discretamente e Aoi tinha o semblante um pouco constrangido. Ranmaru recobrou a compostura e perguntou:

- Quem é essa menina? Ela me conhece?

- Ah, Ranmaru, peço mil desculpas!… Esta é "Ai", de certa forma vocês se conhecem sim, mas é uma longa história... Ela é um ayakashi que nasceu de uma chama do fogo de oni de Odanna. Ele deu a chama a mim como um amuleto para me proteger, mas ela acabou se alimentando de meu poder espiritual, podendo tomar forma humana. Enquanto me ajudava nos bastidores a realizar o banquete da cerimônia do sul, Odanna me ensinou a tirar Ai do amuleto, para me substituir. Inicialmente ela era igual à mim, assim eu podia sair e voltar sem que fosse impedida. Me desculpe ter feito isto debaixo de sua vigilância…!

Ranmaru pareceu pensar em algo, quando a consciência de algo lhe atingiu, e ele falou exaltado arregalando os olhos:

- Então, não era você que no auge da minha grosseria, quando fui lhe ofender no prédio velho, me abraçou e me chamou de "Senhor Cachorrinho"?

Aoi corou, mas agora ela que segurava uma risada, fez que não com a cabeça. Ranmaru suavizou a expressão do rosto, e sorriu olhando a menininha brincando distraída com Noburanga que parecia gostar da companhia.

- Sabe que eu gosto dela?! Mas por que agora ela parece com Odanna ao invés de você?

- É que em uma viagem que fizemos juntos, eu e Odanna a incentivamos a criar uma aparência própria, pois não fazia sentido que ela fosse idêntica a mim. Como nós dois éramos seus rostos mais familiares, ela decidiu misturar nós dois. Assim, acabou sendo essa versão feminina e adolescente de Odanna, com os meus olhos.

Hatori comentou:

- Então, ela é sua primeira filha, sua família cresceu mais rápido do que esperava, Aoi-chan!

Aoi sorriu, e chamou a pequena ayakashi:

- Ai, devolva Noburanga a Ranmaru, aonde estão seus modos?!

- Ah, Aoi chan! Mas ele é tão lindinho! E o Senhor Cachorrinho não se importa, não é?

Ranmaru sorriu, mas respondeu:

- Não me importo, Ai, e Noburanga certamente gostou de você. Mas eu acho que está na sua hora de jantar, e eu e meus amigos vamos para nossos aposentos descansar da viagem.

A mocinha devolveu o cachorro obedientemente, concordando. Aoi perguntou olhando de soslaio para Suzuran que permanecia em silêncio:

- Por que não ficam e jantam conosco? Fizemos comida o suficiente.

- Hoje não ficaremos, pois precisamos nos acomodar e descansar, mas faço questão de jantar no seu restaurante durante minha estada!

- Será uma honra!

- Então, senhorita Suzuran, senhorita Aoi, nos vemos durante o final de semana! Tenham uma boa noite!

As duas mulheres fizeram uma reverência, Ai dava pulinhos e tchauzinhos, os homens se retiraram elegantemente. Quando retiraram, Aoi sentiu Suzuran relaxar ao seu lado.

- Bom, acho que é melhor assim, não é Aoi? Quebrar o clima esquisito, agora pelo menos podemos nos encontrar e nos tratar como apenas conhecidos.

- Do que você está falando, Suzuran?

- Agora posso deixar para lá essas esperanças e o risco de sofrer…

Aoi sorriu acariciando sua barriga e disse:

- Você e ele correm o risco é de ficar ainda mais apaixonados do que já estão..

- Aoi, você está imaginando coisas, viu como ele foi formal?

- Suzuran, você não ousou encará-lo, mas Ranmaru não tirou os olhos de você um minuto, pra mim está muito claro o motivo que o fez desembalar do Sul para vir passar o final de semana na pousada rival, e esse motivo está vestida de rosa à minha frente!

Sururan corou da cabeça aos pés com o comentário franco da amiga.

- Eu acho que você está imaginando coisas, Aoi, mas tudo bem, sou uma mulher adulta, consigo lidar com isso sem fantasiar…

A frase de Suzuran foi interrompida por Hatori entrando de novo no Dama da Noite sorridente. O tengu olhou para as duas mulheres que o olhavam de volta, Aoi mal disfarçava um sorriso que dizia "eu já sabia".

- Senhorita Suzuran, meu mestre lhe enviou isto.

Disse entregando um bilhete para Suzuran fazendo uma leve reverência, saiu furtivamente como entrou. Aoi deu uma risadinha comentando com a amiga…

- Como você ia dizendo sobre não fantasiar, minha amiga?

- Você nem sabe do que se trata a mensagem…

- Então, o que está esperando? Abra logo!

Suzuran abriu o selo do pergaminho com as mãos trêmulas, e leu o recado escrito na letra elegante de Ranmaru que ela já conhecia bem:

"Senhorita Suzuran,

Preciso conversar com você, tenho um compromisso a tratar com Odanna-Sama e Byakyua san, mas não foi este o único motivo de ter vindo a Tenjin-ya.

Por favor, me dê uma chance de me explicar. Haveria algum lugar onde podemos ter alguma privacidade para conversarmos com tranquilidade?

Marque a hora e lugar e estarei lá.

Ranmaru."

O coração da gueixa disparou com esperanças novas, "me dê uma chance de me explicar", a frase ficou ecoando em sua mente. Aoi apenas observava a amiga em silêncio, o único som no restaurante era de Ai saltitando e cantarolando com Chibi.

- Aoi, haveria algum lugar onde eu e Ranmaru pudéssemos conversar sem sermos interrompidos?

Suzuran perguntou com olhos brilhantes de emoção, mostrando a mensagem de seu amado para Aoi.

- Eu sei de um lugar simplesmente perfeito!