Ranmaru na companhia de Tokihiko voltaram ao prédio principal, passando pela recepção e pegando a chave de seus aposentos, subindo em seguida. Adentraram-se à suíte de luxo da Tenjin-ya, a decoração era clássica, relembrando Kyoto antiga do reino comum. Nunca havia podido conhecer o interior da pousada rival, e não ousaria admitir que gostava do clima austero, tão diferente de seu vibrante hotel praiano.
O grande chefe de Orio-ya não se sentia cansado, apesar da semana de espera e da longa viagem, estava eufórico, ansioso para acertar-se com Suzuran. Ao vê-la tão linda, na cozinha com Aoi, seu coração ficou esperançoso e seu sentimento por ela parecia ainda mais profundo, mais verdadeiro. Será que o recado que pediu Hatori para entregar seria bem recebido? Ela perdoaria sua falta de experiência e tato na despedida do início da semana?
Hatori entrou um pouco depois pela recepção, para também seguir em direção aos aposentos, mas foi interceptado por Akatsuki:
- Tengu! Você e seu chefe estavam no Dama da Noite? Não vai me dizer que ele está se engraçando pra cima da minha irmã?!
- Onde está sua educação, Akatsuki? Um chefe de recepção não pode tratar assim seus hóspedes! Especialmente o alto escalão de outra pousada, e um dos oito Hachiyos. Tanta desconfiança, você está estressado demais! Estamos aqui à negócios, e como você sabe, a senhora do Tenjin-ya é uma amiga e benfeitora de nossa pousada.
- Vocês não me enganam… minha irmã voltou muito estranha de seu hotel, e de repente vocês tem negócios com Odanna-sama, outro dia eram hostis… tenham certeza que eu estarei de olho em vocês!
- Relaxa Akatsuki… você vai desgastar sua energia vital atoa! Além disso, sua linda irmã é adulta, e sabe muito bem o que quer, e é uma grande profissional. Você devia aprender com ela!
O tengu disse isso dando uma piscadela para um furioso Akatsuki - que falhava lamentavelmente em disfarçar seu desgosto - e subindo as escadas em direção ao seu quarto antes que ele tivesse tempo de dizer qualquer coisa.
Entrando na suíte executiva, encontrou seus dois amigos, assentados diante da janela. Ranmaru trazia Noburanga no colo e o acariciava distraidamente olhando pela janela como a paisagem noturna de Tenjin-ya era impressionante. Hatori diisse animado despertando os dois de seus devaneios:
- Missão cumprida, chefe!
Os dois se surpreenderam com sua entrada repentina, Ranmaru questionou:
- E ela respondeu?
- Calma Ranmaru! Entreguei a mensagem e saí. Ficar esperando daria uma impressão de ansiedade da sua parte, e não seria algo muito sedutor…
- Eu, eu estou lá preocupado com joguinhos de sedução? Seu mulherengo!
- Chefe, seja mais cortês, quem atravessou o Kakuriyo atrás de um rabo de saia não fui eu!
Ranmaru ficou vermelho, e levantou de uma vez, soltando Noburanga no chão. Hatori logo mudou de assunto, e apressado dirigiu-se a Tokihiko:
- Vamos para nosso quarto, colega? Quero me trocar para visitar às termas! Estou precisando relaxar, e você deve estar com saudades de sua noiva, não?
Tokihiko, desarmado pela menção da noiva, parecia dividido entre fazer companhia ao chefe e seguir o tengu. Ranmaru suavizou a expressão e fez um movimento com as mãos para os dois, como quem dissesse "podem ir"!
Hatori da porta ainda falou:
- Chefe, não se preocupe, ela abriu um sorriso lindo quando viu que a mensagem era sua…
- Pare de gracejos! Não durmam tarde demais, temos uma reunião com Odanna-sama e Byakuya amanhã bem cedo!
Hatori saiu rapidamente, seu chefe nem saberia dizer se ele escutou o que disse. Uma vez sozinho, Ranmaru deitou-se no futon olhando para o teto enquanto sonhava com o dia seguinte, passando por sua mente o que diria a Suzuran, como se faria mais claro para ela. Seu coração estava disparado, ansioso pela resposta ao bilhete… fazia menos de uma semana que não a via, mas sentiu muito sua falta, como podiam se dar tão bem? Como ela podia completá-lo desta maneira a ponto de sua ausência pesar para ele como se lhe faltasse algo vital?
Uma leve batida na porta lhe tirou do sonho acordado. Ele levantou-se, coração na garganta, "Seria ela?" Abriu a porta, e deparou-se com uma jovem funcionária da recepção.
- Ranmaru-sama, tenho uma mensagem da senhorita Suzuran para o senhor. Disse curvando-se solenemente e entregando-lhe um pequeno pergaminho e desenrolando-o:
"Ranmaru-sama,
É claro que poderei escutar o que o senhor tem a me dizer.
Me encontre na cabana na montanha aos fundos da propriedade do Tenjin-ya, ao entardecer. Estarei lá às 16:30.
Atenciosamente,
Suzuran."
Ranmaru sorriu lendo o bilhete da gueixa, a caligrafia delicada como ela. O tom formal o incomodou um pouco, afinal, durante a estada em Orio-ya tinham abandonado tamanhas etiquetas. Apesar de ficar apreensivo, não podia evitar se encher de esperanças de que tudo poderia dar certo, e dizia para si que aquela maneira de escrever era fruto da discrição e modéstia da moça.
Tomou um banho para relaxar das emoções do dia, e se recolheu para estar bem disposto para as emoções do dia seguinte. Demorou um pouco a pegar no sono, devido à euforia. No dia seguinte acordou com batidas na porta, eram seus funcionários, passaram para tomarem o desjejum juntos e conversarem sobre os últimos detalhes da reunião com Odanna.
Uma vez preparados, seguiram para a sala de audiências de Tenjin-ya. Três mulheres sem rosto lhe abriram a porta e saíram, deixando os homens procederem a reunião. A sala era ampla, Odanna encontrava-se assentado em lotus sobre um tablado, ao lado e abaixo encontrava-se Byakuya, como sempre em vestes imaculadamente brancas.
Os três convidados se assentaram em frente para os anfitriões, Odanna quebrou o silêncio.
- Bom dia Ranmaru-sama, Hatori e Tokihiko, como passaram a noite nas nossas humildes instalações?
- Muito bem Odanna-sama, as instalações são muito confortáveis e o serviço é de excelência. Respondeu educadamente Ranmaru, enquanto seus dois funcionários concordavam silenciosamente.
- Bom, não nos atrasemos com formalidades, vamos ao assunto principal, afinal, não gostaria de impedir que tenham um final de semana agradável em nosso hotel.
Os três homens concordaram fazendo uma leve menção com a cabeça, e Odanna prosseguiu:
- Então, vou deixar as explicações para o Sr. Byakuya que está inteirado de todos detalhes jurídicos da questão.
- Pois não, Odanna! Bom dia! Conforme o Ranmaru-sama nos questionou, fui buscar o arquivo do caso de contrato de casamento de Suzuran. Na época começamos o processo, mas com a ida da senhorita para o reino comum, acreditamos que estaria protegida. Ao retornar para o Kakuriyo e encontrar-se com o herdeiro de Yahata-ya em seu hotel, a questão infelizmente foi retomada. Desde antes da partida de Suzuran, ao estudar os documentos, encontrei várias irregularidades no contrato. A primeira delas, e mais óbvia é que os estudos de Suzuran como gueixa foram pagos pela Tenjin-ya, de forma que ela não teria os débitos alegados pela casa de gueixas.
- Mas há casos em que uma casa de gueixas pode ter propriedade sobre elas? Perguntou Hatori.
- Na verdade não, apesar da tradição ser ainda praticada, e as casas fazerem contratos de casamento para lucrarem como se as gueixas fossem suas escravas, na legislação do reino oculto, há a previsão da chance de saudar-se a dívida perante a instituição, especialmente na capital, a propriedade sobre mulheres não é bem vista, e ilegal já há 50 anos. Entretanto, há casas tradicionais que ignoram a lei moderna e ainda se guiam pela tradição.
- Mas o Sr. havia comentado que senhorita Suzuran não tinha dívidas com a casa de gueixas. Não foi mesmo? Perguntou Ranmaru interessado, com preocupação na voz.
- Esta é a irregularidade da qual eu falava. Nós da Tenjin-ya temos a documentação do pagamento dos estudos de Suzuran. Entretanto, no processo do qual consegui vistas na capital, encontram-se os treinamentos de Suzuran como se fossem uma dívida ativa. O que é algo calunioso, pois, mesmo que não houvéssemos pago os estudos dela, sendo uma das gueixas mais famosas e bem sucedidas da capital, Suzuran teria sua dívida mais do que paga.
Ranmaru estava transtornado de raiva, punhos e dentes serrados:
- Malditos!
- Precisamos agir friamente para resolver essa questão pelos meios legais, Ranmaru-sama. Nós também ficamos muito transtornados ao ver o processo, mas a família Yahata goza de muito prestígio perante a família real. Disse Odanna com sua calma característica.
Byakuya continuou:
- Acreditamos que ao perceber o sucesso e crescente fama de Suzuran, a casa de gueixas viu a oportunidade de um negócio milionário e fraudaram documentos de dívidas, alegando propriedade sobre ela, o que é um crime, pois em todos aspectos ela é uma mulher livre. Devido aos tabus e à delicadeza envolvidos em contratos de casamento, teremos de agir com muito cuidado, precisamos apelar para a família real para dissolver este contrato, o que pode parecer ofensivo para a família tradicional, baseando-se na rejeição de Suzuran por seu herdeiro. Precisaremos ajuntar os documentos e provas, para anular o contrato de casamento, baseando-nos nos aspectos legais e nos direitos sobre si mesmo das ayakashis.
- Sim, comprendido? E o que eu posso fazer para ajudar? - Questionou Ranmaru.
- Bom, acredito que se juntarmos dois hachiyos para apelar para a família real na audiência, e de posse da documentação suficiente, teremos mais chances de sucesso.
- Feito! Precisam que eu requisite a audiência?
- Ranmaru-sama, como Suzuran era nossa protegida, acho que seria mais adequado, e levantaria menos questionamentos, se nós da Tenjin-ya solicitássemos a audiência. Disse Odanna.
- Concordo, mas quero participar, e se for necessário gostaria de custear os gastos do processo.
- É muito generoso de sua parte, mas por que a preocupação com alguém que não é funcionária de sua pousada? Disse Byakuya incisivo.
Ranmaru respondeu levemente corado demonstrando um leve constrangimento perante a pergunta direta do contador do Tenjin, entretanto compreendia que era uma questão pertinente, uma vez que este não era para ser um assunto de sua alçada:
- Digamos que tenho interesses pessoais no assunto.
Hatori disfarçou um risinho como um engasgo, roubando um olhar mortífero de seu chefe.
- Ok, acho suficientemente justo! Então, procederemos com o andamento do processo e assim que a audiência seja marcada, informaremos ao senhor. Disse Byakuya com sua praticidade característica.
- Bom, agora que estamos com todos detalhes acertados, por que não vamos todos conhecer o escalda-pés ao ar livre que temos nas montanhas? Pedirei que nos tragam um saque de uma safra especial para degustarmos, é uma distração muito apreciada no outono aqui na Tenjin-ya. Convidou Odanna - ciente através de sua esposa, dos arranjos de seu convidado para mais tarde conversar e se acertar com Suzuran.
Ranmaru e seus amigos aceitaram de bom grado o convite, seria bom relaxar e passar o tempo, ainda teria todo dia até a hora de seu encontro, seria mais agradável passar o tempo conversando e se distraindo para não ser vencido pela ansiedade.
Suzuran passou o dia envolvida num clima de inquietação. O que Ranmaru queria lhe dizer? Seria má ideia ter expectativas sobre o encontro? Cometera um erro em aceitar o refúgio romântico de Odanna e Aoi? Seria forçar a barra criar tal tipo de clima?
Conforme o dia frio de outono avançava, e a hora marcada se aproximava, a gueixa combateu a ansiedade se aprontando para a conversa decisiva. Tentou não pensar em nada para falar, queria primeiro escutá-lo e depois decidir com seu coração o que fazer.
As irmãs sem rosto, à pedido da Aoi, vieram ajudá-la a se aprontar, trazendo um belo quimono de outono. O tecido mais encorpado cor de vinho com relevos de folhas da estação em tons ferrugem e dourado. Um obi dourado arrematava as vestes. Uma trança embutida lateral, enfeitada com flores em tons chá, enfeitava-lhe os cabelos, e uma maquiagem muito delicada realçava sua beleza. Colocou um pouco de seu perfume de sakuras para completar seu visual, e meia hora antes do marcado, seguiu para o local onde se encontraria o grande chefe de Orio-ya. Era um caminho de dez minutos, mas queria chegar antes, para se asserenar antes do encontro.
Suzuran não conhecia o refúgio romântico de sua amiga e Odanna-sama, mesmo morando tanto tempo no Tenjin-ya, não costumava se aventurar pelo seu território. Tinha de admitir, o grande chefe tinha um gosto requintado. A pequena cabana parecia uma jóia de ouro velho iluminada pelo fraco sol dourado do dia frio outonal. Árvores de folhas completamente vermelhas e ferrugem emolduravam-na, cobrindo também o chão em sua volta.
Enquanto esperava, Suzuran preparou um chá relaxante e se serviu, já era a hora marcada, ela então seguiu para varanda para observar o caminho que vinha do prédio principal para a cabana.
Ao longe ela viu destacar-se do caminho do bambuzal, um homem com vestes azuis celestes... Era ele! Seu coração deu um salto! O azul claro destacava-se na paisagem de tons avermelhados. Seus cabelos longos e ondulados, à contraluz do sol da tarde pareciam chamas a destacar seu lindo rosto masculino. Ele parecia ainda mais bonito, enquanto caminhava decidido em sua direção.
Ao se aproximar ele a vislumbrou, e seus olhos adquiriram um brilho mais marcante, era impossível tirar os olhos dele, o inugami parecia também não querer desviar os olhos dela. Finalmente se aproximou, subiu os pequenos degraus da varanda, e parou à sua frente, tomando sua mão solenemente, depositando um beijo suave e dizendo:
- Muito prazer em revê-la, Suzuran! Muito obrigado por aceitar meu convite. Este lugar é realmente magnífico! Somente alguém com seu gosto pensaria em algo assim.
Ela sorriu tímida respondendo:
- Bom, eu não conhecia esse lugar, foi uma indicação de Aoi.
- Vou lembrar de agradecê-la.
Os dois se silenciaram, e o silêncio cheio de palavras não ditas, parecia começar a ficar constrangedor. Suzuran abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Ranmaru a interrompeu de um arroubo, se curvando e dizendo tudo que vinha em seu coração de uma vez:
-"Suzuran, preciso dizer o meu motivo para vir até aqui: desde que você partiu, percebi como eu fui grosseiro na sua partida! Acabei agindo contra todos meus sentimentos e bom senso, e magoando você que se tornou tão preciosa para mim… inicialmente pensei que havia te ofendido sendo afoito na noite de nosso encontro, não resistindo e te beijando. Eu tinha certeza de que o motivo de sua rejeição final era o fato de eu ter interpretado mal seus sentimentos e você não desejar o mesmo que eu desejava. Em nenhum momento eu quis ser grosseiro, ou desprezar o tempo que passamos juntos, me desculpe! Eu não tenho muito traquejo para essas questões sentimentais, mas, se houver uma chance de eu ter te interpretado mal, e de meus sentimentos serem correspondidos… por favor me perdoe e me conceda uma segunda chance… vamos começar de novo?"
A declaração desajeitada e afoita, que não combinava nada com o Ranmaru seguro e confiante que ela conhecia, deixou Suzuran atordoada. Então, ele realmente achava que ela o rejeitara? E ela entendeu direito? Ele também gostava dela?
Ele havia se erguido da mesura formal, e agora a encarava expectante, como um menino que pedia permissão para fazer algo precioso. Os olhos azuis questionando-a, pedindo uma resposta… vê-lo assim a desarmou completamente e dissolveu todos seus medos e inseguranças. Uma felicidade - de amor correspondido - a invadia a alma, retornando-a à sensação de confiança e afeto que lhe inundava naqueles dias felizes em Orio-ya.
A moça então sorriu, e encurtou a distância entre os dois dando um passo em sua direção. Levou uma das mãos ao rosto de Ranmaru, olhando-o nos olhos falou:
- Tudo que eu desejava naquele dia, enquanto embarcava de volta para Tenjin-ya, era que Ranmaru-sama me beijasse daquela maneira de novo...
O sol poente coloria as vestes, os cabelos e olhos de Suzuran em um avermelhado sobrenatural, ela parecia ainda mais linda aos olhos de Ranmaru, o tempo parecia ter parado enquanto ele olhava aqueles olhos amorosos tão de perto, e os lábios entreabertos, tão próximos dos seus. Ele então não exitou mais, envolveu sua cintura delgada com as duas mãos, a estreitando contra si, e deixou seus lábios provarem os dela mais uma vez.
O beijo começou delicado, apenas permitindo que a textura dos lábios fosse percebida, mas a emoção do reencontro tomou conta do casal, intensificando a carícia, e então a tristeza, a dúvida foram vindo a tona e se dissolvendo em sensações de conforto, alegria, euforia e desejo que sentiam mutuamente.
Quando interromperam aquele beijo cheio de sentimentos, Ranmaru percebeu lágrimas nos olhos de sua gueixa. Ele então as limpou uma a uma, beijando-lhe o rosto, e aconchegou-a contra seu peito, acariciando-lhe as costas, com o rosto enterrado em seus cabelos, sorvendo seu cheiro para matar as saudades que sentia.
Ficaram por um longo tempo apenas abraçados se acariciando, confortáveis naquele sentimento de paz, vendo o sol se pôr no outono de Tenjin-ya. Quando as primeiras estrelas surgiram, Ranmaru quebrou o silêncio:
Suzuran, além de me esclarecer com você, eu vim aqui, por que quero ajudar a resolver suas pendências com Yahata-ya, não admitirei que aquele homem sequer lhe veja novamente!
Os olhos da gueixa voltaram a lacrimejar, ser protegida e considerada daquela forma, fazia nascer sentimentos que desconhecia em seu coração. Antes que eles transbordassem, Ranmaru capturou seus lábios em um beijo novamente, desta vez bem mais apaixonado e menos casto que o anterior, como que quisesse confirmar através da carícia o que havia dito. Ficaram um tempo se beijando, até que o cair da noite anunciou a necessidade de retornarem para o prédio principal para não levantarem suspeitas no irmão ciumento de Suzuran.
- Vou seguir para o Dama da Noite, se nos demorarmos mais, levantaremos suspeitas… disse Suzuran beijando de leve os lábios de Ranmaru.
- Sim, segurei em breve, mas já aviso que seu irmão insolente não me impedirá de ter você comigo. Enquanto resolvemos as pendências contratuais, manterei a discrição, mas depois ele terá de lidar com nosso relacionamento como um adulto.
Suzuran sorriu, sabia que não ia ser tão fácil lidar com Akatsuki, entretanto, sentia-se tão feliz, que não se importava com nada! Depois de tanto tempo, desde que veio pela primeira vez ao Kakuriyo e se afastando dos cuidados de seu pai adotivo - Shiro Tsubaki - nunca havia se sentido tão em casa no reino oculto, ou desejara tão urgentemente ter uma vida ali, como sentia com a perspectiva de estar nos braços de Ranmaru. A gueixa sorriu, deu um beijo no rosto de seu querido inugami, e despediu-se seguindo para o Dama da Noite.
Ranmaru ficou observando o céu de outono, enquanto cada estrela surgia no céu, um sorriso bobo no rosto… finalmente, depois de tanto sofrimento, via uma perspectiva de uma vida feliz.
Aoi olhava distraída pela janela do Dama da Noite, sem realmente enxergar o exterior. Pensava na novidade que sua amiga lhe contava de que agora tinha se acertado com o arisco grande chefe da Orio-ya (que aparentemente não era nada arisco com Suzuran), e finalmente estavam namorando.
Em seu coração, Aoi pensava que eram duas pessoas que mereciam a felicidade que esse relacionamento proporcionaria. Quando viu Ranmaru pela primeira vez, e experimentou sua personalidade espinhosa e hostil, nunca imaginaria que ele se apaixonaria pela doce gueixa, mas perante essa realidade, ela pesava o quanto eles se completavam, perceber isso a fazia feliz!
Ao vislumbrar Ranmaru se aproximando pela trilha lateral do restaurante, saiu na porta para chamá-lo, Ai a seguiu saltitante - com Chibi no ombro - para ver o que chamou atenção de Aoi. Quando ele se aproximou da entrada, Aoi o chamou, Ai saltitava de seu lado e falava eufórica "Sr. Cachorrinho, sr. Cachorrinho!" Ranmaru já parecia acostumado com a energia peculiar da jovem ayakashi, ao chegar aonde elas estavam, bagunçou-lhe de leve os cabelos, fazendo-a corar. Aoi sorriu e disse ao inugami:
- Ranmaru, até quando você ficará hospedado na Tenjin-ya?
- Parto amanhã de noite.
Aoi já acostumada com os horários noturnos dos ayakashis sabia que teria tempo perfeito para o que planejou:
- Então, antes de partir, gostaria de preparar um jantar para você e Suzuran.
Ranmaru ficou meio sem jeito, desconcertado coçava a nuca, mas antes que falasse qualquer coisa, Aoi emendou:
- Não precisa inventar desculpas ou ficar constrangido, a Suzuran é quase uma irmã para mim, faço questão de servir-lhes um jantar para comemorarem esse momento feliz!
- Então aceitarei de bom grado!
Ranmaru fez uma reverência formal e já i se retirando…
- Faça a minha amiga feliz! E se permita ser feliz também, ok, Ranmaru!? Disse Aoi sorridente dando-lhe uma piscadinha.
Ranmaru passou pela recepção para seguir para seu quarto e descansar, antes de subir, percebeu Akasuki o encarando com uma expressão nada amigável. Devolveu o olhar também hostil para seu desinformado cunhado, e então virou o rosto e subiu em direção ao seu destino, deixando para trás um recepcionista desconfiado e furioso.
No dia seguinte, o casal não se aguentava de alegria, custavam a disfarçar que estavam eufóricos não queriam se desgrudar, mas como ainda precisavam acertar os detalhes com o passado da moça, não podiam aparecer em público para não gerar comentários. Não ajudava muito, ter Akatsuki um tanto mal humorado e vigiando-os incessantemente. Logo cedo, quando Suzuran passou pela recepção e lhe deu bom dia, ele logo se aproximou com um interrogatório pronto:
- Estou te achando diferente hoje, aconteceu alguma coisa?
- Diferente? Estou do mesmo jeito de sempre!
- Nada disso! Você andava meio calada e séria nestes últimos dias, por que tá toda sorridente logo cedo hoje?
- Espera aí, irmão, eu estou feliz por estar em casa, entre amigos, ou você prefere que eu fique triste?
- Olha, vocês acham que eu sou bobo e me enganam, mas nada me tira da cabeça, que esse cachorrão da Orio-ya tem participação nessa sua mudança de temperamentos…
Suzuran ia responder à altura, já estava ficando irritada com o irmão, mas foi interrompida por Hatori que vinha descendo e passava pela recepção…
- Ora, ora! Mas que mal humor recepcionista chefe… assim você deve assustar até Odanna-sama!
- Não se intrometa seu tengu atrevido!
Hatori então se aproximou chamoso como sempre, e disse sorrindo:
- Não se esqueça que eu sou um hóspede, e você precisa me tratar com um sorriso! Não é isso, senhorita Suzuran?
- Claro que sim, Hatori! Irmão, onde está seu profissionalismo?
Akatsuki furioso e vermelho como um tomate não respondeu desta vez, tentando segurar seus nervos ao perceber a chegada de alguns hóspedes para fazerem check-in; se ele os espantasse com sua irritação, tomaria um sermão de Ginji, Odanna e até um desconto no salário por Byakuya… antes que os hóspedes chegassem ao balcão, Hatori envolveu os ombros de Suzuran e a convidou:
- Estava de saída para o Dama da Noite? Eu te acompanho senhorita…
Akatsuki apenas deu mais um olhar furioso para os dois antes de colocar de volta sua máscara de recepcionista sorridente… Uma vez fora do alcance do irmão ciumento, o tengu falou simpático para a moça:
- Acho que seu irmão estará bem ocupado por um tempo, meu mestre te espera no jardim dos fundos do Dama da Noite… Disse marotamente dando uma piscadinha para a moça que corou um pouco. - Não se preocupe, que se Akatsuki vier pra cá eu o distraio… Suzuran, completamente vermelha, sorriu e agradeceu ao amigo.
Ela caminhou pelos fundos do Dama da Noite, entre as árvores totalmente pintadas das cores de outono, até chegar a um pequeno quiosque, antes que subisse o degrau para adentrar-se, foi abraçada pelas costas por alguém, e soltou um gritinho de susto.
- Você não está aqui pra me encontrar? Falou Ranmaru em seu ouvido, com uma voz mais rouca e sugestiva que o normal. - Não precisa ficar assim tão assustada! Disse a apertando um pouco mais contra seu corpo de forma que Suzuran se sentiu totalmente envolvida por seu calor e seu perfume masculino. Fazendo-a se sentir profundamente protegida, mas trazendo um rubor em seu rosto perante a consciência do quanto aquela proximidade despertava também seu corpo.
Ranmaru virou-a pra si e colocou uma flor em seus cabelos, a envolvendo em um abraço. Na manhã fria e cinzenta de outono, o conforto de calor um do outro os protegiam do clima. Ele a puxou pela mão para se assentarem no quiosque.
- Aoi te falou que ela faz questão de nos preparar um jantar para comemorarmos?
- Ah, ela sempre faz isso, não precisava se incomodar…
- Eu disse isso a ela, mas se você a conhece bem, sabe que ela não vai abrir mão de fazer isto e nem Odanna a faria mudar de ideia.
Suzuran deu uma risadinha espontânea, e Ranmaru ficou a observando maravilhado. Sempre achou os casais um pouco constrangedores, até ridículos quando os via em situações tão "melosas" em seu hotel, geralmente em lua de mel. Por estar localizado em uma paisagem paradisíaca, Orio-ya era considerado um refúgio romântico famoso no Kakuriyo. Mas agora ele os compreendia, não conseguia se cansar da beleza de Suzuran, de sua doçura, seu riso era música para seus ouvidos e vê-la tão de perto era um deleite para seus olhos…
Num impulso, tocou-lhe o rosto, acariciando de leve, ela olhou encabulada para o olhar fixo de seu acompanhante que nada dizia. Ele então se aproximou devagar, não resistindo ao impulso de beijá-la - uma vez que tinha permissão para fazê-lo o quanto quisesse. Beijaram-se sem pressa, apesar de ter parecido encabulada com o olhar insistente de Ranmaru, Suzuran espelhava o mesmo desejo de beijá-lo, de forma que uma vez tomada a iniciativa, envolveu os braços em torno de seu pescoço aproximando seus corpos. Ficaram assim um tempo, matando as saudades e a vontade de estarem nos braços um do outro.
- Se eu pudesse te levava hoje a noite comigo para Orio-ya, sinceramente, não estou nem um pouco disposto a me separar de você… Disse Ranmaru com um olhar um pouco possessivo.
Suzuran tocou-lhe uma mecha de cabelos que caía por sobre os ombros, distraindo-se com a sua textura macia.
- Eu também queria ficar mais tempo com você, mas seguí-lo para seu hotel agora levantaria suspeitas desnecessárias…
- Sim! Por isso vou me empenhar, vou fazer tudo pra te livrar desse contrato de casamento infame! Então, ninguém irá nos separar.
Suzuran sorriu, pegando-lhe a mão e beijando-a, respondendo enquanto ainda segurava sua mão entre as suas:
- Eu também não vejo a hora disso acontecer, mas não vamos nos precipitar, enquanto esperamos a justiça, encontraremos maneiras de estarmos juntos.
- Falando nisto, no próximo mês, com o início do inverno, promovemos eventos de negócios em nosso hotel, e pensei que com o sucesso do festival de verão, poderia te contratar para passar uma temporada trabalhando conosco. Não é a melhor situação, mas não levantaria suspeitas pois seu trabalho foi muito bem aceito por minha equipe, além disto, a semana de encontro de negócios coincide com meu aniversário, e não gostaria de passar esta data longe de você. Já passei tantos aniversários tristes depois da partida da princesa Iso, agora quero passar esta data junto de quem eu gosto.
Suzuran sorriu e abraçou Ranmaru espontânea, feliz com essa prova de consideração e afeto. Deu-lhe um beijo no rosto dizendo:
- Acho que precisamos voltar, demorando assim os funcionários de Tenjin-ya podem acabar desconfiando e espalhando fofocas… e arruinaria nosso jantar mais tarde.
Deu mais um beijo de leve e levantou-se:
- Nos vemos mais tarde então… Deu um sorriso e seguiu serenamente de volta para o hotel.
Ranmaru apenas a observava em paz enquanto a via se afastar graciosamente. Não percebeu a chegada de de Hatori às suas costas assustando-se com seu comentário:
- É chefe, vai ser difícil te levar de volta para o trabalho hoje à noite!
Ranmaru com a mão no rosto para esconder a expressão de irritação apenas respondeu entre os dentes:
- Sorte sua tengu que estou de bom humor, senão te matava ou te demitia… mas da próxima vez que chegar e me assustar dessa maneira, vai se arrepender…
- Putz, se isso é você de bom humor…
Ao anoitecer tudo estava impecável no Dama da Noite, a sala privativa esperava seus convidados de honra, Aoi e Ai fizeram de tudo para criar um clima romântico: lanternas com velas suspensas em cantos estratégicos do ambiente, incensos com um suave aroma de canela que deixava o clima aconchegante e sensual.
Ranmaru chegou primeiro, Ginji lhe serviu um saque com um aroma especial da safra de outono de seus fornecedores. Suzuran não demorou, chegou em vestes tradicionais de gueixa, com coque elaborado e uma maquiagem mais suave. Ao vê-la, o inugami se levantou hipnotizado, lhe entregou uma rosa vermelha que tinha apanhado para lhe dar, e segurando sua mão a convidou para se assentar. Os dois não tiravam os olhos um do outro em uma conversa amorosa e silenciosa, confessando a cada momento seus sentimentos.
Aoi serviu a entrada, o prato principal… quando a sobremesa chegou, os dois já se encontravam nostálgicos, estava quase na hora de se separarem. Aoi, Ginji e Ai os deixaram à sós, percebendo que precisavam de privacidade.
- Já está no meu horário de retornar, queria saber sua resposta, você aceita meu convite para trabalhar novamente conosco?
- Sim, sem dúvidas! Não abriria mão de passar seu aniversário com você! Vou contar os minutos até nos reencontramos!
Ranmaru apenas a beijou possessivamente até serem interrompidos por Ai que gritou um "OOops!" e saiu de cena envergonhada resmungando algo como "o senhor Cachorrinho estava beijando a dona aranha", o que deixou Ranmaru vermelho e levemente irritado e roubou uma boa gargalhada de Suzuran.
- Bom, de qualquer forma, tenho que ir...
Levantou-se, e já ia se despedir de Aoi e seu irmão, mas a anfitriã lhe disse:
- Por que não vamos todos até o ponto de partida dos barcos, assim Suzuran poderá acompanhá-lo até a partida. O que acha Ginji-san?
- Sim, se formos todos, ninguém poderá fazer nenhum questionamento. E Odanna está lá te aguardando Aoi.
Aoi, Suzuran e Ginji se dirigiram ao pier para ver a equipe de Orio-ya embarcar, ao entrarem no Tenjin-ya, não passaram despercebidos por um observador Akatsuki. Ao passarem pela entrada das termas, Shizuna se ajuntou ao grupo, para se despedir de seu noivo. Antes de embarcarem, os casais se despediram, Ranmaru deu mais um beijo em Suzuran, prometendo vê-la em breve.
Odanna que se ajuntou ao grupo, abraçado com sua esposa, desejava boa viagem de volta, e que retornassem sempre que quisessem ao seu hotel. Trocou com Ranmaru informações sobre os próximos passos que Byakuya tomaria no processo de liberação do contrato de Suzuran.
Feitas as despedidas, e com todos embarcados, Akatsuki chegou ao pier ofegante de subir todas escadas correndo - por um minuto não pegou o beijo de despedida de sua irmã e o chefe de Orio-ya! Ao vê-la entre o seleto grupo que acompanhava a equipe da pousada do sul:
- O que você está fazendo aqui, Suzuran? Não vai me dizer que veio se despedir desse cachorrão!
Odanna segurou o riso, mas lhe chamou atenção:
- Mais respeito com nossos hóspedes, recepcionista chefe!
Ranmaru, esquentado com o temperamento horrível de seu cunhado, disse desafiador de seu barco já em movimento:
- E se eu estiver apaixonado por sua irmã? Qual o problema?
Suzuran ruborizou e Akatsuki ficou totalmente vermelho, queria pular no barco que já estava distante, sendo segurando por Ginji:
- Você está sendo irracional Akatsuki, qual o problema se meu irmão quiser cortejar a sua irmã?
Ranmaru já nem prestava atenção no conflito gerado por sua fala, apenas olhava para Suzuran até que ela desaparecesse de sua vista, e ela agia igualmente. Hatori provocador, apenas mostrou a língua para Akatsuki, irritando-o ainda mais:
- Já te falei que um recepcionista chefe precisa controlar seu temperamento!
Quando o barco saiu do campo de visão, todos foram descendo, deixando Akatsuki para trás, Suzuran saiu por último, dizendo:
- Francamente irmão, que papel foi esse? Eu não sou mais uma criança…
