Capítulo 6

"Ele voltou para onde Tiamat jazia acorrentada, ele abriu as pernas da deusa e espatifou seu crânio (pois a clava não tinha misericórdia), ele cortou as artérias e o sangue dela jorrou na direção do Vento Norte para os confins desconhecidosdo Mundo Físico"

Trecho do "Enuma Elish"

Os dias se transformaram em meses e os meses em anos. A convivência campestre e simples de Inanna e Dumuzi junto dos demais dingir e dos sereshumanos transcorria bem. Ambos ficaram conhecidos como casal-modelo dentre os humanos, pois os demais casais não eram tão abertamente carinhosos ou unidos quanto eles.

Após esse tempo, muitos textos e canções seriam escritos sobre eles, e os reis humanos gostariam de ser amantes de Inanna. Mas ela só tinha olhos para Dumuzi.

Aquela bonança, no entanto, foi se tornando algo entendiante para ele, e sua esposa reparou. Um dia, inquieta, ela decidiu se abrir com ele.

- Meu amado, por favor não me esconda coisa alguma. Caso haja algo que queira realizar, me diga. Eu quero participar de tudo que for concernente a si.

- Está bem, eu direi.

Mas ele não dizia. Tinha planos os quais não contava a ela, pois se seu próprio nome um dia fora sujo, não queria que o dela também assim ficasse. Apesar de ser sua esposa, o máximo que ela fizera de reprovável fora aceitar ser sua esposa e dirigir os seus servos. Por falar nisso, apesar de morarem naquela residência campestre, mandavam mensagens à sua antiga residência e pediam relatórios aos subalternos e encarregados, governando assim suas terras, mantidas por Inanna na ausência dele na prisão, à distância.

Quando sua esposa dormia, ele ia ter com Tiamat, o terrível monstro cósmico. Dela muitos outros monstros se criaram, mas foi a ela a quem Dumuzi procurou.

Ela tomava a forma de um dragão enorme. Dumuzi a procurou porque sabia que ela era ousada e acima de tudo gananciosa; duas das características que ele precisava para aquela tarefa difícil.

Tiamat o mirou e perguntou:

- Que deseja de mim?

- Quero que me ajude a roubar o cinto de Marduk, o filho mais velho de Enki.

- E o que me dá em troca? Pois é muito ingênuo se acha que eu trabalharei para si de graça.

- Darei as demais joias dele que tirar da casa de Enki.

Tiamat sorriu e Dumuzi sorriu junto. Não eram sorrisos agradáveis.

-x-

Inanna permanecia inquieta. Sentia que algo estava para acontecer e que seu consorte não voltaria para casa tranquilamente. Um dia, ele lhe disse que Enki estava já afrouxando a vigilância sobre si, e que em breve poderiam voltar.

- Ele gostou de meu bom comportamento.

- Agora que estamos juntos e bem, poderíamos realmente sossegar. Cuidar de nossas terras, ficar em paz.

- Paz? Não sei. Sempre achei a paz muito entediante...

Aquela fala deixou Inanna ressabiada. Por isso, ela repetiu o que já havia dito:

- Por favor, caso haja algo que queira fazer, me avise.

- Eu avisarei.

Mas ele não avisou. Num dia em que dormiram juntos, enquanto sua esposa estava adormecida ao seu lado, ele tomou um dos travesseiros e colocou debaixo do braço dela. Em seguida, saiu furtivamente na noite, ao encontro de Tiamat.

Nessa noite, que foi uma das mais dramáticas para os dingir, Marduk estava a caçar e seu pai estava em casa. Sem cerimônia, Dumuzi entrou na casa de Enki e o atacou gravemente. Damkina veio em seu auxílio, mas foi agredida. Rapidamente, Dumuzi tomou as joias da casa, incluindo o cinto de Nergal, e oslevou para si.

Lá fora, Tiamat o esperava. Saíram furtivamente, correndo pela noite. Agora não podia mais voltar. Pensou em ir rápido até sua casa campestre para avisar Inanna de que precisavam sair, mas antes disso Tiamat o interpelou.

- Quero minhas joias. Você falou que eu as teria.

- E vai ter. Tome estas, bastam a si?

Dumuzi creu que as joias enviadas bastariam a ela, mas não. A avidez e ganância dela eram desmedidas. No final, ela queria também o cinto de Marduk.

- Não - replicou ele - Eu arrisquei a minha reputação por causa desse cinto. Não o darei a si.

- Sem mim não teria vindo aqui...!

- De qualquer forma, o cinto é meu.

- Eu o quero!

Diante da negativa de Dumuzi, Tiamat se acendeu em fogo destruidor e se colocou contra ele. Ele pensou poder lutar contra ela, mas não podia. Não tinha forças. De maneira surpreendente, Tiamat era mais forte.

No começo lutou bravamente contra ela, mas depois não conseguiu se colocar contra ela. No meio de seu fogo destruidor, ele gritou de dor, e com essa ação atraiu a atenção de Marduk e de Inanna.

Sua esposa estava dormindo, mas o sono era inquieto. Sua intuição ainda estava aguçada. Mas quando acordou, o travesseiro em seus braços e o grito de Dumuzi reverberando pela região, não teve dúvidas: seu marido fizera algo de mau e sem ela.

Levantou-se e rumou rapidamente para a direção dos gritos. Chegando lá, viu a seu consorte sendo atacado. Com sua voz poderosa, gritou para Tiamat:

- Pare!

O monstro parou na hora. Olhou para a mulher, a qual estava cheia de raiva. Inanna era inflamada no amor, terrível na guerra.

Mesmo assim, Tiamat lhe indagou:

- Quem é você para interferir na lida com meu prisioneiro?

- A esposa dele. Acha mesmo que eu deixaria barato ver a meu marido ser ferido por si?

Então o poder de Inanna explodiu, ela lançou suas luzes contra o fogo de Tiamat e a feriu nos olhos. Enquanto o monstro estava temporariamente cego, ela foi para outro canto e a atacou pelas costas. Inanna se movia tão rapidamente que Tiamat não conseguia se defender propriamente.

- Dance comigo! - declarou Inanna sarcasticamente, vendo seu triunfo sobre a besta.

Assustada, Tiamat tomou as joias e saiu para se esconder, antes que Inanna tomasse de si as joias que Dumuzi lhe dera de livre e espontânea vontade. Nas mãos dele, o cinto de Marduk ainda reluzia.

- Inanna...!

Dumuzi sussurrou, cansado e ferido porém feliz. Ela o salvara afinal...! Mas o olhar dela continuava cruel e frio. De repente, Inanna ergueu seu poder e parecia que ia golpeá-lo. Dumuzi clamou por clemência, não entendendo aquele repentino ataque de fúria de sua esposa, mas ela somente retirou o cinto das mãos dele.

Atordoado, ele olhou para Inanna, enquanto ela andava para longe e dizia:

- Isto eu tomo para mim.

- Espere!

Assim foram ambos andando, instintivamente, em direção a seu antigo lar. Pois para a residência campestre não poderiam mais voltar.

Logo, Marduk encontrou o monstro Tiamat, ferida, e a enfrentou. Reconheceu suas joias nas garras dela e as tomou de si. Antes de a matar e despedaçar seu corpo, no entanto a fez falar.

- Onde está meu cinto? Ele não está aqui.

As palavras que ela declarou antes de morrer foram:

- Dumuzi... ele as tomou. Ele tomou o cinto. Ele feriu seu pai e sua mãe.

To be continued