Capítulo 7

"O dilúvio sobreveio... ninguém pôde ver ninguém
Eles não puderam ser reconhecidos na catástrofe
O dilúvio arrebatava como um touro
Como um animal selvagem gritando, os ventos uivaram
A escuridão era total, não havia sol"

Trecho do "mito de Atrahasis (Ziusudra)"

- Inanna, por favor, me escute!

Furiosa, a deusa andou por muito tempo com Dumuzi atrás de si, mas nada respondia. Até que voltou-se para trás e despejou tudo em cima dele, de uma vez:

- Você me enganou! Disse que não ia fazer nada sem mim!

- Desculpe. Eu não queria envolvê-la nisso.

- Como assim, não envolver? Não acabou envolvendo de qualquer modo? Não estou eu agora consigo, fugitiva? Pois afinal de contas, essas joias foram roubadas!

- Sim, foram. Não podemos mais voltar para a casa campestre.

- Por que? Por que quis roubar isso?

- Inanna, eles me fizeram mal. Esta é a compensação: o cinto de Marduk! Veja... tem três belas pedras preciosas nele.

E realmente elas brilhavam intensamente. Até mesmo Inanna se surpreendia com o brilho delas; ela que forjara grande parte das estrelas e não se surpreendia com qualquer coisa.

- Eu sei. Mas isso nos custou a reputação. Enki não nos perdoará, e também osoutros dingir. Seremos perseguidos outra vez.

- É verdade. Temos de nos aprontar.

- E por que não me chamou para o ajudar? Poderia ter pego essas joias de forma bem mais discreta. Sem tanto escândalo. Eu estudei muitas formas de magia nesses anos em que esteve preso, e poderia até mesmo o ter introduzido na casa de Enki sem ser visto.

- Está com ciúmes de Tiamat, é isso?

- Não exatamente ciúmes. É pensar que você confiou num monstro do caosem vez de na sua esposa!

- Eu não confiei. Apenas pensei que a ganância dela seria útil.

- Essa mesma ganância quase o matou. De qualquer forma, ela é mais forte que você! No casamento de Nergal você conseguiu expulsar os demais dingirsem dificuldade...

- Sim, meu amor. Mas o mais curioso é que você conseguiu vencê-la. Está, portanto, mais forte do que eu... embora no começo eu fosse muito mais forte que qualquer outro.

- Isso me intriga. Acho que ocorreram duas coisas. Uma: você me cedeu parte de seu poder ao manter relações sexuais comigo.

- Você acha?

- Sim. E a segunda é que você andou dispersando muita energia na sua fortaleza e nos seus domínios. Eu nunca dispersei. Isso fez com que você fosse enfraquecendo e eu, ficando mais forte. Sem contar os anos em que você esteve na prisão e eu estudei diversas formas de aumentar o meu poder pessoal.

- Compreendo. Talvez tenha razão. Mas poderemos pensar nisso mais tarde. Agora temos de ir embora. Em breve não só as hostes de Enki, mas de todosos outros dingir, virão atrás de nós.

- Sim. Vamos embora.

Mais apaziguado, o casal foi embora, furtivamente, usando dos poderes de Inanna para passar despercebido pelas sendas secretas que usariam para chegar em suas antigas propriedades.

-x-

Ninmah, a irmã de Enki, ajudou a cuidar dele e de Damkina. Marduk voltou para casa e declarou o que conseguira de informação de Tiamat.

- Ela me disse que ajudou a Dumuzi a invadir a casa e roubar as joias, bem como meu cinto.

Enki então perguntou a ele:

- O que você fez com ela, meu filho?

- Eu a matei.

Todos na sala se espantaram. Marduk matara a Tiamat sozinho! Poucos seriam capazes de tal façanha.

- E Inanna?

- Não sei.

Ninmah então chamou a algumas de suas aias e elas foram à antiga residência de Inanna e Dumuzi. A mesma se encontrava sozinha, desabitada, e portanto ela chegou à conclusão de que o casal fugira.

Quando ela voltou para a casa de Enki e contou à família o que ocorrera, Enki, o qual não era de se enfurecer facilmente mas também não era tolo, disse então:

- Esse casal não entra mais na minha casa. Estão banidos do meu convívio!

Marduk concordou com a cabeça. Enki continuou:

- O que eles fizeram não tem perdão. Dumuzi teve a sua chance de se recuperar e estava quase redimido aos meus olhos. Mas de Inanna eu não esperava isso. Ela parecia tolerar as coisas erradas que ele fazia apenas porque era sua companheira, mas agora demonstrou a continuar ser sua cúmplice, preferindo acabar com sua reputação em vez de repudiar os atos do consorte. Portanto, os dois não têm perdão!

Todos os de sua casa concordaram com seu pronunciamento. Logo a notícia se espalhara para os demais dingir, e em especial para os seres humanos. Osprimeiros não se surpreenderam muito, dado o passado de Dumuzi, mas osúltimos se sentiram como se fossem traídos por algum parente próximo. Pois a decepção nunca vem de alguém que não nos é querido.

Ereshkigal em seu íntimo parecia já saber há muito que Dumuzi faria esse tipo de coisa.

O único que realmente ficara feliz com aquilo fora Enlil. Aproveitaria a fragilidade e tumulto na casa de Enki para executar o que há muito planejava fazer.

Ele tencionava destruir os seres humanos através de um dilúvio.

-x-

Enki estava ainda se recuperando dos ferimentos infligidos por Dumuzi, ao lado de sua esposa e sendo assistido por sua irmã, quando de repente um mensageiro se apresentou à sua porta e pediu permissão para falar.

- Enlil disse que tem uma mensagem de Anu urgente a transmitir.

Enki a leu. E seu conteúdo o chocou.

- Como puderam fazer isso?

Damkina pediu para ler e ficou igualmente chocada. A mensagem dizia que Enlil conseguira autorização direta de Anu para destruir à raça humana através de um dilúvio a se realizar dentro de dois meses da Lua.

Consternado, o deus das águas convocou seus filhos para uma reunião e todos rumaram para as mansões de Anu e Antu. Lá, o deus dos céus lhes confirmou a mensagem.

- Seu irmão me disse que os seres humanos causam muitos problemas. Fazem muito barulho. São difíceis de ensinar e disciplinar. Ademais, muitos deles têm a Dumuzi como um... amigo, um tutor... e Inanna como mulher exemplar. Eles adoram e veneram a esse casal. Logo... não é seguro manter viva a uma raça que seja tão favorável assim a esse casal que, de resto, nos traiu novamente.

Enki pediu a seu pai para tomar a palavra:

- De todos, eu e minha família somos atualmente os mais feridos por Dumuzi e Inanna. Nós fomos duramente traídos por eles. Mas saibamos distinguir o joio do trigo. Nem todos os humanos são aliados deles. Nem todos devem ser castigados por causa desse casal funesto.

Enlil, impaciente, voltou a falar:

- É um risco deixá-los vivos. De resto, muitos deles fazem coisas ilícitas. E se multiplicam com muita rapidez... assim também é o mal no meio deles.

- Sim, mas cada um deveria ser julgado individualmente.

- Já são muitos. Seu número é muito grande. Não há mais como julgar um por um.

Anu então tomou a palavra novamente:

- Eu pensei que realmente os humanos estão dando mais trabalho que auxílio. Logo, autorizei a Enlil a preparar o dilúvio. Não voltarei atrás em minha decisão.

O deus das águas olhou a seu pai com angústia, mas nada mais pôde fazer.

Em seguida, Anu convocou aos dingir principais e os fez jurar que não salvariam nem avisariam aos seres humanos da hecatombe que em breve se realizaria. Nada restou a Enki e aos seus senão aceitar e fazer o juramento, caso contrário ficariam muito malvistos diante dos outros. Foi com lágrimas nos olhos que Ninmah proferiu o seu juramento, pois ela tinha especial amor pelos seres que seu irmão criara.

Quanto a Enki, conteve-se pois estava na frente de seus filhos. Porém em seu íntimo doía mais a si que a qualquer outro ver os seres que criara serem destruídos de maneira tão abrupta. De repente, teve uma ideia. Segundo o que estava pensando, poderia salvar aos seres humanos sem no entanto romper com o juramento que havia feito.

-x-

A chegada de Dumuzi e Inanna em suas antigas propriedades foi esplendorosa. Seus antigos e fieis servos continuavam lá, guiados pela vontade de Inanna, e pelas mensagens e diretrizes deles naquele período de ausência sob o qual o casal estivera sob a supervisão de Enki. Ele e Inanna deram uma festa e nela ele cingiu a si mesmo com o cinto de Marduk. A partir daquele dia, não o tirava a não ser para banhar-se ou para ficar com sua esposa, a única em quem confiava plenamente; em breve os rumores se espalharam e todos souberam que Dumuzi ostentava o cinto de Marduk como se fosse seu por direito.

Um dia, até mesmo a eles, os deuses proscritos, chegou a notícia de que osseres humanos seriam destruídos por um dilúvio vindo de Enlil. Inanna ficou consternada, pois amava aos seres humanos à sua maneira, e os considerava muito mais compassivos que os dingir em seu tratamento para consigo e seu esposo. Mas se Enlil tinha a aprovação de Anu, nada poderia ser feito. Ela, Inanna, amava aos seres humanos mas não iria contra a vontade do deus do céu apenas para salvá-los.

No dia marcado para tal intervenção, todos os dingir tiveram de deixar por um momento a seus corpos físicos e ficar apenas com os espirituais, a fim de que não sofressem danos causados pelo dilúvio.

Terrivelmente aborrecida, Ninmah se escondeu num local isolado dos demais e passou a chorar. Quando a chuva começara, ela principiou a chorar sozinha, dizendo de si para si:

- Eles estão se afogando e eu nada posso fazer!

Mas eis que a presença de Inanna foi sentida. Assustada, Ninmah se virou para trás e disse:

- Que faz aqui?!

- Aqui é perto de meu reino. Não direi onde se localiza, uma vez que eu e meu marido somos perseguidos pelos seus. Mas debalde.

Esquecendo por um momento a rivalidade, ambas as deusas se abraçaram e choraram juntas aquela tragédia.

- Meu irmão também é contra esta chacina - declarou Ninmah - Isso é coisa de Enlil.

- Eu também amo aos seres humanos, embora todos os dingir tenham me taxado de má por ter continuado ao lado de Dumuzi.

- Eu sei... é verdade que seu marido está com o cinturão de Marduk?

- Sobre isso, por lealdade a meu marido, nada posso dizer.

A partir daquele momento, ambas lamentaram juntas a perda dos sereshumanos. E por respeitar ao lamento uma da outra, não mais tocaram no assunto da rivalidade política. Quando as chuvas enfim cessaram, Ninmah deu adeus a Inanna e voltou aos seus sem nada dizer. Ao chegar na residência de Dumuzi, Inanna apenas dissera que se retirara em luto pelos humanos; mas nada falara sobre o lamento com Ninmah; e ela, por sua vez, procedeu da mesma maneira quando lidou com sua família.

A água demorou muito para descer, a ponto de matar a todo e qualquer ser humano. Após muitos dias, no entanto, os dingir finalmente se aperceberam que a água baixara. Enlil quis conferir por si próprio se o trabalho estava bem feito e se a raça humana realmente havia sido extinta. E eis que ele sentiu o cheiro de carne queimada e reparou que havia um grupo de humanosrealizando algo semelhante a uma oferenda aos deuses.

Enfurecido, Enlil bradou:

- O que é isso?!

Enki os observou e pensou que ao menos eles haviam se salvado.

O grupo era composto de Ziusudra e sua família. Enki, ao perceber que a destruição era iminente e inevitável, foi ter com Ziusudra, um dos humanospor quem tinha mais apreço e carinho, e disse, não a ele, mas à parede de sua casa, que haveria a chacina em breve. Deu a ele instruções de como fazer uma embarcação e nela colocar não somente sua família, mas também exemplares dos animais, os quais foram tomados por ele e Ninmah e depois direcionadospara a embarcação de Ziusudra, para que depois os mesmos fossem reproduzidos e novamente pudessem habitar a Terra.

- Não quebrei meu juramento ao fazê-lo - disse Enki, os olhos fitando os de seu irmão sem desviar.

Enlil se ergueu em fúria, porém teve de admitir que foi algo bastante engenhoso; e que os humanos presentes na verdade seriam muito espertos e dignos de sobreviver pois suportaram todo o tipo de privação e esforço para terem chegado vivos até ali.

- Ele merece viver, mas não só isso. Ziusudra merece ter a vida eterna.

Todos os demais dingir suspiraram de surpresa. Se aquele caso comovera até mesmo a Enlil, era porque Ziusudra e os seus eram realmente especiais.

- Mas somente ele - Enlil continuou - Seus filhos morrerão, assim como sua esposa e os demais seres humanos que vierem a ser sua descendência.

Enki sorriu. Pensou que a partir daí poderia ter alguma paz com seu irmão, mas infelizmente se enganava. Ziusudra, agradecido, se dirigiu a Enki.

- Meu senhor, foi como a um pai para mim. É com profunda devoção que ofereço a si esse sacrifício, a ser dado por nossa sobrevivência.

O sacrifício era feito com carne de novilho, a qual depois seria consumida pela família de Ziusudra e pelo mesmo. Enki sorriu e o abraçou, feliz pela raça humana não ter sido extinta.

Ninmah aproveitou e declarou:

- Senhores presentes, por favor, façamos uma declaração e um juramento de que jamais sacrificaremos a estas almas, as quais chamamos de humanos, à toa; jamais uma chacina como esta será feita outra vez!

Todos os demais dingir concordaram, e também Enlil foi obrigado a fazê-lo.

Quanto a Ninmah, por aquela ação ficou depois conhecida como Ninhursag, a pacificadora; e muito foi louvada pelos humanos e por sua família. Ziusudra, como prometido, teve sua vida prolongada até não precisar morrer, ao menosnão de velhice. Mas seu quinhão era ao mesmo tempo doce e amargo; pois se por um lado não precisava se preocupar com a morte como uma certeza, via aos seus parentes, e os que nasciam depois deles, morrer sem nada poder fazer. Apenas aos dingir ele tinha consigo sempre, pois estes também não morriam.

To be continued