Capítulo 8

"No abismo profundo ele foi concebido, Marduk foi concebido no coração do Apsu, Marduk foi criado no coração do Apsu sagrado. Enki é seu pai e Damkina a ele deu à luz, pai e mãe; ele foi amamentado pelas deusas., suas amas dotaram-no com grande poder."

Trecho do "Enuma Elish"

Muito tempo se passou sem que Inanna ou Dumuzi fossem vistos novamente dentre os demais deuses ou mesmo no meio dos seres humanos. Cuidaram de seus negócios e particularmente Inanna considerou um contratempo aquele roubo do cinturão de Marduk, pois assim ficavam outra vez malvistos dentre todos os dingir. Mas com o tempo os humanos se proliferaram rapidamente, e por isso o casal pôde sair de suas propriedades e lidar com eles. Mais uma vez foram amados por eles e ficaram contentes em saber que nem todos haviam morrido, e agora novamente voltavam a se espalhar em numerosa descendência.

Vários altares e templos foram erigidos para conseguir o favor dos deuses, e muitos para Inanna e Dumuzi, uma vez que ambos se davam bem com oshumanos. Com o tempo, os dingir passaram a contrair união com as humanas, pois elas eram belas a seus olhos.

Um dos casais híbridos de maior destaque foi Marduk e Sarpanit. Ela era humana, porém alta e bela, e além disso tinha uma personalidade agradável e leal. Eles se apaixonaram um pelo outro, e Marduk então decidiu tomá-la como esposa. A fim de cumprir com os procolos, anunciou a sua família que estava noivo dela.

A família de Sarpanit viu aquilo com bons olhos, uma vez que Marduk era um dos principais dentre os dingir. Mas Enki, pai de Marduk, a princípio não aceitou.

- Meu filho, há ainda mulheres dentre as dingir bastante boas para serem desposadas. Por que não casa com uma delas?

- Porque eu amo a Sarpanit, meu pai. Nem humana ela parece; seu semblante é luminoso como se a luz das próprias estrelas nela estivesse, uma vez que seu próprio nome significa "Aquela que brilha".

- Não deixa de ser humana. Se está tão encantado assim com ela, por que não a toma para amante?

- Porque a amo como esposa. Quero que os filhos que tiver com ela herdem o meu legado.

Aborrecido, Enki mandou chamar a moça. Era realmente linda e muito afável. Era duro a si, que tanto amava aos humanos, ter de rejeitar aquela união. Mas como aceitar, se ela um dia morreria de morte natural? E os filhos de ambostambém morreriam portanto.

- Sarpanit - disse Enki - muito me agrada a sua pessoa. Mas os humanos e osdingir são muito diferentes entre si.

Marduk interveio:

- Como pode dizer isto, meu pai, se o senhor mesmo criou aos sereshumanos? O senhor salvou aos antepassados de Sarpanit do dilúvio de Enlil, arriscando-se contra o juramento que prestou perante Anu. Por que agora faz isso?

- Meu filho, nunca antes houve uma união desse tipo entre nós e os humanos. Não darei a minha bênção caso continue com esse plano.

Marduk ficou aborrecido com seu pai e por isso, por um tempo, não mais dirigiu a palavra a ele. Mas Damkina, sendo mulher e tendo compaixão por todas as formas de amor, chamou a seu filho e a sua candidata a esposa. Dirigiu-se primeiramente a ela:

- Sarpanit, você o ama? Corresponde aos sentimentos de meu filho?

- Sim, minha senhora.

- Então não devem ser separados. Enki ama aos humanos, mas não consegue quebrar certas tradições. Podem não ter a bênção dele para esta união, mas tem a minha.

O casal sorriu. A partir daquele dia, Damkina reservou a um aposento para o casal viver como marido e mulher. E ali, numa noite de paixão, Marduk deflorou a donzela e a tomou para si, mesmo sem cerimônia oficial de casamento.

Após alguns meses nessa condição clandestina, a família dela sem saber que não eram oficialmente casados, Enki se deparou com a porta do aposento entreaberta. Espiou para dentro e viu o casal nu, na cama. Damkina deixara a porta aberta de propósito durante a noite, para Enki ver, pois aquela situação de clandestinidade não poderia continuar por muito tempo.

Exaltado, Enki acordou a ambos e com eles ralhou; ele, que não era dado a desavenças, muito menos entre seus filhos.

- O que fazem aqui, na minha casa, dormindo como se fossem um casal?

Marduk falou, impetuoso:

- Somos um casal e obtivemos a bênção de minha mãe. Apenas ainda não obtivemos a sua.

- E a família da moça? E se ela engravidar? Você assumirá os filhos dela?

- Sim. Serão meus filhos.

- Serão bastardos? Meu filho terá bastardos com uma humana?

- Bastardos ou não, serão meus filhos. Portanto, meu pai, peço-lhe por favor que me dê a bênção e me deixe casar com Sarpanit, a fim de que os filhosmeus e dela não estejam fora da minha futura herança.

Enki suspirou. A moça não era mais donzela; se fosse devolvida à família, segundo os costumes correntes, provavelmente não se casaria. Ele não queria fazer essa desfeita para com uma família de humanos que nunca lhe fizera mal. E seria escarnecido por Enlil, o qual sempre fora contra os humanos. Certamente seu irmão diria que os humanos davam mais problema do que outra coisa, baseado naquele incidente.

Mas se por outro lado a aceitasse, haveria filhos híbridos de deuses com humanos. Eles morreriam e Sarpanit também. Ela era jovem e linda, mas um dia envelheceria; e Marduk continuaria vigoroso. Além do que, não poderia dar assim a imortalidade a ela, uma vez que se o fizesse, teria de fazer o mesmo com todos os demais seres humanos.

Marduk e Damkina haviam sido realmente engenhosos. Haviam colocado a ele numa situação sem saída!

Porém, se a vida eterna fora dada a Ziusudra, em face do ato de sobreviver ao dilúvio, por que não fazê-lo com Sarpanit caso houvesse uma razão realmente digna para fazê-lo? Sim, ele poderia dá-la, caso ela desempenhasse a um ato realmente heróico.

E foi assim que Enki declarou a sua resolução:

- Eu aceito o casamento de vocês.

O casal já sorria e se via feliz, mas Enki continuou a falar:

- Aceito com uma condição.

Tomado pela emoção de assalto, Marduk disse:

- Qualquer coisa, meu pai!

Enki sorriu. Ao que não se dispunha um coração apaixonado? Continuou:

- Sarpanit deve ir até a residência de Inanna e Dumuzi e tomar dele o cinturão de Marduk.

Ao ouvir aquilo, o sorriso no rosto de seu filho se transformou num esgar de indignação:

- Como pode exigir isso dela? É uma humana, vai lutar contra toda a corte dosinimigospara reaver a um cinto atrás do qual nem eu fui atrás?

- É a minha condição. Ela, conseguindo o cinto, é sua esposa e ganhará a vida eterna dos deuses. Não conseguindo, não poderá mais entrar em minha casa. Isso se conseguir sair viva de lá. Tenho dito.

Sendo assim, Enki virou as costas ao casal e se retirou. Sabia ser praticamente impossível a moça conseguir cumprir com o denominado, e por isso mesmo pensava enviá-la a uma morte certa porém digna. Não o agradava fazer isso, mas se não o fizesse, seria pior para si. Ela morrendo, Marduk um dia a esqueceria e desposaria a uma igual. E se ela por uma sorte miraculosa sobrevivesse, seria digna da vida eterna. Nem mesmo Enlil ousaria contestar doar a vida eterna a uma jovem tão valorosa.

Mas por ora Enki contava com a morte dela em ação, ou com a desistência ante a dificuldade da empreitada.

Sarpanit, no entanto, amava realmente a Marduk. Aceitou portanto a condição dada e se preparou para partir.

Ao saber do ocorrido, tanto Damkina quanto Ninmah deram suas bênçãossobre o casal e principalmente sobre a moça. Marduk a advertiu:

- Não será nada fácil passar por eles. Dumuzi um dia já foi mais forte que todos nós. Hoje ele tem Inanna ao seu lado, a rainha das estrelas, uma das feiticeiras mais poderosas dentre as deusas. Meu pai nada falou sobre você ir sozinha, logo a acompanharei. Não posso deixar que vá só para esse martírio.

- Não. Ele exigiu que eu buscasse o cinturão, então eu vou só.

- Você o busca, eu apenas darei alguma cobertura bélica caso seja necessário lutar e não haja escolha entre isso e a morte para você. Não deixarei minha noiva morrer.

Ela sorriu e o beijou, mas mesmo assim ainda o contestou:

- Meu bem amado, você é alto príncipe, acostumado com toda uma bela corte. Não deve ir para lá comigo.

- Eu matei a Tiamat e sou caçador. Se uma mulher dentre os humanos vai até a casa de Inanna e Dumuzi requerer algo que me pertence, não serei eu, varão vigoroso, a deixá-la ir só.

Mais uma vez ela sorriu e mais uma vez o beijou. E dessa vez não contestou a ida dele. Para finalizar, Marduk declarou:

- Meu pai ainda se orgulhará muito em tê-la como nora.

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Numa determinada noite, o casal partiu. Damkina e Ninmah observaram a eles de longe, mas em sua casa também o fez Enki. Reparou que seu filho ia junto dela e não o impediu. Era da índole de Marduk não deixar os seus sem auxílio, e isso demonstrava que ele realmente queria bem à moça.

A viagem foi longa e penosa. A moça, sozinha, talvez houvesse mesmo morrido no caminho. Inanna e Dumuzi moravam muito longe dos demaisdingir e no caminho havia muitos monstros, alguns dissidentes da própria energia caótica de Tiamat. Mas Marduk era guerreiro forte e protegeu a sua dama.

Ao chegar perto das propriedades de Inanna e Dumuzi, Sarpanit decidiu separar ambos em seus caminhos, uma vez que ela desejava primeiro desarmar a Inanna e depois seguir para Dumuzi propriamente dito. Mas Marduk disse a ela para fazerem de modo diverso.

- Deixe-me primeiro desarmar Inanna, depois iremos juntos a Dumuzi.

- Não confia que eu possa desarmar a Inanna por mim mesma?

- Ela é muito poderosa. Melhor será nos livrarmos dela primeiro.

Sarpanit ficou aborrecida, uma vez que não queria ser vista por ele como uma inútil. Mas se ele insistia, seguiria do modo que ele desejava.

Assim foi. Naquele tempo, as propriedades de Dumuzi estavam bastante aumentadas em número e poder, pois Inanna, como já dito antes, não ficara ociosa durante a prisão de seu marido. Portanto, fortificara e edificara as construções com forte magia e poderes secretos. Por isso, as regiões dominadas por eles eram muitas. Inanna encontrava-se gerenciando a uma das fortalezas ao sul das edificações principais. Lá, deixara muitos soldados e subalternos de guarda, bem como desenvolvera o hábito de fazer alianças com os povos humanos que ali perto residiam. Muitos deles pagavam tributosa ela e faziam ritos e oferendas em templos.

Levou algum tempo até o casal descobrir onde era essa fortificação. Chegar à dona seria, naturalmente, difícil; deveriam lidar com seus soldados primeiro. Marduk deixou a Sarpanit escondida num bosque ali perto e decidiu penetrar na fortificação sozinho. Após dominar a Inanna e aos seus principais servidores, viria ter com Sarpanit outra vez para juntos irem à moradia principal de Dumuzi.

Porém a investida não foi de primeira tão bem sucedida. Como Inanna anteriormente presumira, ela tomara muito da força de Dumuzi para si, não somente através das relações sexuais, mas através de outros meios, de forma involuntária. Dumuzi espalhava seu poder pelas suas propriedades a fim de dominá-las melhor, e Inanna não espalhava o seu próprio, mas tão-somente direcionava certos encantamentos para dar às propriedades as características que desejava.

Portanto, quando adentrou à fortaleza se passando por um soldado local, Marduk foi interpelado por um dos verdadeiros servidores da deusa e levado até a presença dela. Observando-o bem com seus olhos dourados, Inanna percebeu que ele na verdade mentia.

- Não é meu guerreiro. Mostre-se!

O poder presente na voz dela era demasiado forte e o subjugou. Seu disfarce caiu na hora e Inanna percebeu que ele era o filho de Enki.

- O que faz aqui? Os seus nos repudiam.

- Repudiam porque são ladrões. Onde está meu cinto?

Ele decidiu, e com razão, não revelar a verdadeira razão de sua vinda; se soubessem que vinha para obter dote de casamento para ele e Sarpanit, com certeza fariam algum mal à sua noiva.

Mas Inanna riu.

- Meu marido pode ser ladrão sim. Mas depois do que fizeram com ele também não podiam ficar incólumes. O cinturão que tiramos de si nada mais é do que uma compensação por toda a penúria que nos fizeram passar anteriormente.

- Eu nada fiz contra vocês. Portanto, exijo o que é meu de volta!

Marduk confiava em seu poder, uma vez que matara e despedaçara a própria Tiamat. Mas Inanna estava fortalecida. Seu ponto forte não era a força bruta, e sim a magia. Lançou nele um feitiço que o imobilizou. Marduk por um tempo se debateu, e algumas vezes conseguiu se livrar daquela influência. Mas ela o prendeu com palavras mágicas. Em seguida chamou a seus guardas.

- Levem-no e em seguida mandem mensagens a Enki. Digam que somente o libertarei em troca de um salvo conduto para mim, meu marido e nossosaliados.

Assim foi feito. Marduk foi preso e os mensageiros reportaram a mensagem a Enki, o qual não esperava que Inanna derrotasse a seu filho. Sem saber o que fazer, consultou a irmã e a esposa. Ninmah e Damkina o olharam e advertiram:

- Se tivesse permitido o casamento antes de eles partirem, nada disso estaria acontecendo. Inanna não fala de Sarpanit ter sido feita prisioneira, portanto talvez ela possa interferir para a libertação dele.

- Se Marduk que é um deus não pôde derrotá-la, que se dirá de uma humana?

- Talvez ela tenha poderes que desconhecemos. Não é somente a força que ganha uma batalha. Esperemos para ver se ela faz algo antes de dar o salvo conduto ao casal que, de resto, não merece recebê-lo.

Contrariado, Enki esperou. Não confiava em Sarpanit e pensava que a moça morreria em sua missão, porém preferiu esperar até receber a notícia do que aconteceria com ela a fim de saber que atitude tomar em seguida.

Quanto à moça, esperara por quase dois dias inteiros no bosque. Como Marduk não voltava, pensou que ele podia estar em apuros e foi ela mesma para a morada de Inanna.

- Afinal de contas, eu me propus a vir sozinha no início. Se ele sofreu algum revés, devo terminar o serviço por mim mesma! - disse de si para si.

E foi. Disfarçou-se de aliada, pois conseguiu matar a um dos guardas do local e se vestiu como ele. Em breve, porém, a descobriram como estranha e a levaram à presença de Inanna, assim como fizeram anteriormente com Marduk. Ao vê-la sem disfarce, Inanna se surpreendeu grandemente; seu semblante era belo e superior ao dos demais humanos.

- Que faz aqui?

- Procuro a meu noivo, Marduk.

- Ele invadiu as minhas propriedades e por isso foi preso. Caso seja essa também a sua intenção, também vai presa.

- Quero a meu companheiro de volta e o obterei, mesmo que tenha de usar de meios drásticos.

Ao ouvir isso, Inanna riu de desdém.

- Quem é você pra usar de qualquer meio comigo? Sou Inanna, a Rainha das Estrelas, a esposa de Dumuzi e detentora de seu reinado! Lute comigo se considerar que é capaz!

Para fazer com que a luta fosse minimamente justa, Inanna mandou osguardas soltarem a Sarpanit a fim de que ambas se embatessem em condições iguais. Mas Inanna já estava certa da vitória, uma vez que era bem mais poderosa e experiente que a rival.

O que a Rainha das Estrelas não sabia é que Sarpanit vinha de uma família a qual dominava magia melhor que os demais humanos e também tinha boas relações com os demais dingir, e por isso ela sabia de uma coisa ou outra. Precavida, assim que a viagem com Marduk fora iniciada, trouxera consigo um véu que havia sido consagrado ao próprio Anu, anterior tutor de Inanna. E esse véu a fazia ter acesso ao poder que um dia dera bases ao de Inanna.

A luta delas fora de poder mental, não de forças. Entoando uma canção de poder, Sarpanit falou da libertação da fortaleza do poder de Inanna e em seguida a envolveu com seu véu. Três vezes Inanna ergueu sua voz contra ela e conseguiu se libertar, e três vezes Sarpanit quase caiu sob os poderes dela.

Na quarta, porém, Sarpanit a sobrepujou. Conseguiu fazer com que tanto ela quanto seus servos ficassem cativos de seu poder. E como Inanna, aquela que conseguira mesmo afugentar a Tiamat, estava àquele momento como imobilizada e sem conseguir mais se erguer contra a outra, Sarpanit lhe declarou:

- Dê-me o poder sobre a fortaleza, e as chaves da masmorra onde Marduk se encontra, ou a enviarei a Anu para que ele a castigue por permanecer ao lado de Dumuzi mesmo após tanta maldade da parte dele.

Temendo não o castigo, mas a perda do amor de seu esposo, Inanna cedeu e lhe deu as chaves da masmorra. No entanto, em secreto ainda esperava vingar-se dela.

Quanto aos servos da fortaleza, foram libertados e Inanna saiu a vagar enfraquecida, ainda sob grande efeito dos feitiços da outra.

Assim que encontrou a Marduk, Sarpanit o tomou nos braços, o beijou e aplicou nele algumas fórmulas mágicas para que recuperasse as forças. E apósambos terem descansado e se refeito um pouco, saíram juntos em busca de Dumuzi para reaver o cinto.

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A fortaleza principal, na qual residia Dumuzi, ficava longe daquela. Portanto demorou mais de um dia de marcha para que o casal enfim se aproximasse de lá. Não poderiam entrar com as aparências que tinham, portanto mais uma vez tomaras os disfarces de dois guardas locais.

Porém, Dumuzi reconheceu de pronto que aqueles não eram dos seus, e osdespiu de seus disfarces sem grande esforço. Assim que viu a Marduk seu semblante se carregou de raiva, mas ao ver Sarpanit, seu rosto se encheu de surpresa. Era a mulher dentre os humanos mais bela e resplandecente que vira.

- O que fazem os dois em minha morada? - indagou o deus.

A moça sabia que provavelmente não poderiam vencer a Dumuzi pela força, e mesmo que seu noivo assim tentasse não seria prudente; portanto, prostrou-se aos pés dele e perguntou de forma humilde:

- Meu senhor, por acaso já conheceu a enorme força do amor?

Ele parou e pensou que enfim com Inanna conhecera ao amor, e que era a si melhor do que antes tentara conceber com outras mulheres. Mas não compreendendo onde a jovem queria chegar, incitou-a a continuar.

- Amo a minha mulher e isso não é segredo para ninguém. Por que me pergunta isto portanto?

- Enki, o pai de Marduk, exige que, para que nos casemos eu e ele, seja dado a si o cinto que anteriormente foi de Marduk tirado. Por favor, tenha piedade de uma mulher que donzela já não é mais, porém esposa também não é; para que sua honra seja reparada, apenas um simples ato seu pode colocá-la em boa situação. Pois outros cintos podem cingir a Dumuzi, mas apenas um esposo pode servir a Sarpanit.

A fala da moça agradava ao esposo de Inanna, porém ele ainda não se dava por vencido. Uma porque não gostava dos dingir, embora dos humanos ele gostasse e Sarpanit fosse uma delas; outra porque o cinto de Marduk era realmente único e ele provavelmente não conseguiria outro semelhante.

Enfim se decidiu e declarou:

- Para conseguir a este cinto, tem de me dar três coisas. Uma é um objeto qualquer que pertença a minha esposa Inanna; a segunda é um objeto que tenha sido consagrado pelos próprios dingir; e a terceira é um raio da própria lua. Os três devem ser entregues em minhas mãos.

Tal complicação poderia constranger a mulher, mas ela apenas sorriu.

- As chaves de sua consorte já tenho eu; o raio da lua os deuses colocaram em meus cabelos assim que nasci, por isso eles são da cor do luar e por isso Sarpanit me chamo eu; o objeto consagrado é o véu que minha família tem e foi sagrado pelo próprio Anu, o qual me dá poderes que os outros humanosnão possuem.

Maravilhado, Dumuzi pediu para ver aqueles objetos. Ela de bom grado osmostrou, um a um. Deu a ele um fio de seu cabelo, as chaves que tomara de Inanna e o véu. Ainda admirado, o deus tomou esses três artefatos em mãos. Ficou se perguntando como ela tomara as chaves de Inanna, mas antes de chegar a qualquer conclusão, o poder do véu de Sarpanit o atingiu e ele, antes que pudesse dar por qualquer coisa, caiu no sono e em cheio no chão.

Rapidamente, Marduk tomou a seu cinto de volta e já ia sair com a companheira do local, quando Sarpanit quis pegar ao véu de volta, pelo qual tinha muito apreço. Na hora em que o retirou dele porém, o deus acordou. Mas assim que o fez, Dumuzi começou a gritar:

- O cinto! Eu não o entreguei! Embusteiros! Voltem aqui!

O casal correu como pôde. Os guardas os interceptaram na porta da fortaleza, porém um feitiço de Sarpanit os fez adormecer enquanto lhes deixavam o caminho livre.

Dumuzi, enquanto isso, em seu salão, raciocinava e pensava que se tomaram as chaves de Inanna, ela poderia estar em perigo. Saiu em desabalo da fortaleza e saiu a procurá-la, chamando por ela e mobilizando a um grande número de servidores para que a procurassem também. Mas Inanna estava envergonhada da derrota e mesmo quando aquele clamor chegou a seus ouvidos, não atendeu a ele.

Enquanto isso, Marduk e Sarpanit se escondiam dos guardas de Dumuzi. Apósum certo tempo, sentiram-se mais seguros e foram banhar-se num rio ali perto, cuidando para que o cinto ficasse em local visível e ninguém o tentasse roubar. Ali no lago, sob a luz da lua, a pele de Sarpanit parecia ainda mais luminosa e sobrenatural.

Devagar, Marduk se acercou dela e a envolveu com seus braços fortes.

- O que será que seu pai vai dizer quando chegarmos com o cinto? - perguntou ela, virando-se para trás a fim de beijá-lo nos lábios.

- Ele vai falar que você é digna de mim. Meu pai pode ser duro às vezes, mas sabe reconhecer o valor de alguém que merece ser reconhecido.

Sarpanit sorriu, pois imaginar-se aceita pela família dele a fazia feliz. Logo eles passaram a se acariciar na água. Sorrindo, ela o tomou pela mão e o levou até a margem do rio, para que não ficassem por muito tempo longe do cinto. Lá, ele a estimulou em seu órgão do prazer e ela fez o mesmo com o dele. Quando Marduk percebeu que ela estava começando a gemer, e portanto seu prazer começava a se acentuar, ele interrompeu a estimulação. Ficou então sentado sobre seus próprios joelhos, trouxe-a de costas também sobre osjoelhos, com as pernas um pouco mais abertas do que as suas, e então a penetrou com seu membro de uma só vez.

Ela gemeu, enquanto acomodava melhor os quadris sobre o membro dele. Marduk então a abraçou e disse em seu ouvido:

- Em teu ventre, ó mulher, eu semearei toda a uma nova linhagem, a qual será mais extensa que o número de estrelas que Inanna plantou no céu.

Após dizer isso, passou a entrar e sair devagar de dentro dela, e ela gemeu mais alto e de forma mais pungente ao sentir os dedos de seu amante a acariciar seu órgão do prazer no mesmo ritmo em que o membro dele a penetrava. Não tardou para que ela gozasse a primeira vez na noite, contraindo-se em volta do membro dele, o qual a permaneceu penetrando em sua virilidade pujante de deus forte.

Marduk a esperou atingir o clímax mais duas vezes antes de se derramar dentro dela, indo em seguida banhar-se com ela novamente sob a lua e as estrelas, celebrando antecipadamente a boda que os esperava para ser realizada na residência de seus parentes.

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Após uma longa porém feliz marcha, Marduk e Sarpanit chegaram até a residência da Enki. Damkina e Ninmah os receberam muito bem, abraçando-osefusivamente, desejosas do casamento que eram. Enki, embora a considerasse uma mortal e não quisesse que o casamento se realizasse, teve de reconhecer que ela tinha um grande valor, e portanto cumpriu com sua palavra.

- Grande é o amor de meu filho e Sarpanit. Grandes são os fios do destino que os unem, a ponto de ela ter conseguido buscar o cinto de seu amado das mãos de um deus inimigo. Grande feiticeira, grande amante é Sarpanit! Que seja portanto dado a si o dom da imortalidade e ela se torne uma de nós.

Todos gritaram em júbilo e um grandioso banquete foi dado em homenagem ao casal. Tal banquete durou vários dias e noites, e assim a segunda dentre oshumanos, após Ziusudra, ganhou a imortalidade física.

Quanto ao cinto, para que a cobiça não mais fizesse com que fosse roubado ou alguma guerra fosse feita por ele, Enki resolveu lançá-lo aos céus e fazer com que todos, humanos ou dingir, contemplassem a refulgência do cinto no céu¹. Assim ele seria de todos e ao mesmo tempo de ninguém, e todos ao olhá-lo se lembrariam do esforço e do amor de Sarpanit.

O casal teve a partir daí muitos filhos e honrou a casa e a família de Enki como poucos casais viriam a honrar suas famílias depois disso.

To be continued