Na madrugada seguinte ao jantar de Aoi no anexo, Odanna seguiu para capital. Passara a noite atordoado por ter dito à ela, tão despreocupadamente, sobre seus devaneios de uma vida à dois - quando se tornou um bobo romântico? Se autocensurava. Prometera a si mesmo que não a forçaria a se casar com ele, caso ela não quisesse... mesmo que tenha prometido à Shiro que a protegeria no Reino Oculto.
Havia superestimado seus poderes de atração, iludido com a estima das mulheres do reino akayashi, sempre o cobrindo de mimos e desejando secretamente serem suas amantes. Até a chegada de Aoi, não tinha pensado seriamente sobre romance, casamento, amor. Em sua vida de administrador, só gastava mesmo energia e tempo com trabalho, as outras necessidades, as satisfazia assim que elas surgiam, e desta maneira, era sua relação com as mulheres: ele as solicitava, elas se entregavam a ele.
Mas havia arranjado com o avô da menina este casamento, pois ela era demasiado poderosa e valiosa para ficar sozinha, fosse no mundo aparente ou no oculto, sem alguém que lhe tutelasse, até que soubesse controlar seus poderes. Para ele seria algo simples: nada de sentimentos envolvidos, quando a moça soubesse da dívida, aceitaria as condições e se casaria com ele, sem maiores dramas ou vontades... mas não foi assim! A menina se atreveu a barganhar com ele! Era mesmo neta de Shiro! Seu primeiro impulso, foi seguir o orgulho... "- Sem a minha proteção, não reclame se alguém te devorar..."
Ele sabia que foi demasiado cruel, e a fala do mestre Tengu lhe trouxe de volta ao bom senso... a menina não tinha culpa de nada. Resolveu então, abrir um pouco o coração para conhecer as razões de sua recusa, e passou a perceber uma personalidade gentil e ao mesmo tempo energética, e um otimismo que beirava à inocência. No final das contas, seria interessante ver todo aquele entusiasmo pelo trabalho em ação.
Esta inocência, entusiasmo, acabaram por serem um bálsamo na vida de Odanna, há tantas décadas vivendo indefinidamente a mesma rotina, às vezes insossa. Na primeira vez que conversaram, havia dito a Aoi, que seu valor para ele era devido à tortura de querer devorar uma menina humana, e não poder... mas ele nunca houvera pensado nisto de fato, era um akayashi muito civilizado para devorar uma humana. A moça humana era valiosa para ele, exatamente por trazer vida a seus dias, desafio à sua rotina...
Decidiu que a deixaria trabalhar para pagar a dívida, e este seria o tempo que teria, para tentar conquistar-lhe o amor... desejava que ela ficasse em Kakuriyo, por vontade própria, e se caso fosse se casar com ele, que fosse por amor.
Portanto, ter dito de maneira tão despreocupada, que gostaria de poder dormir todas as noites com ela em seus braços, era algo que fugia aos seus planos... era tão experiente! Por que deixou escapar algo tão íntimo? Como pode agir de maneira tão imatura?
Os dias na capital estavam o matando de cansaço, tantas reuniões, tantos encontros, jantares de negócios... a sucessão de poder no reino se aproximava, trazendo vária festas e cerimônias. Com sua influência política, era necessário que acompanhasse tudo que acontecia de perto. Se posicionando, aconselhando as pessoas certas, observando os meandros do poder no reino oculto.
Mas vez ou outra, se perdia em pensamentos, imaginando o que Aoi estaria fazendo, o que estava vestindo? Quem estaria jantando ou almoçando no seu restaurante? Estariam cuidando bem dela na sua ausência? Em cada jantar de negócios, que lhe apresentavam filhas de akayashis importantes, a cada dama da sociedade, requintada e bem vestida que se insinuava para ele, somente os olhos violetas de Aoi ocupavam sua mente... estaria enfeitiçado pelos poderes espirituais da menina?
Não era raro ter sonhos durante a noite, em que a abraçava e beijava, e dormiam juntos em sua cama. Acordava atordoado, não queria desejar algo, tanto assim, pois sabia que seria frustrante se não fosse correspondido...
Finalmente seus compromissos na capital terminaram, compraria um presente para sua amada antes de voltar, não resistia em cobri-la com seu carinho, sempre que pudesse. Escolheu algo belo, delicado e precioso, como ela era para ele. Entregaria no jantar que lhe prometera, há semanas atrás.
