Odanna já havia chegado no Tenjin'ya há dois dias, e ainda não haviam se visto. Aoi começava a se perguntar se algo no jantar que preparou, o desagradara... o que era estranho, pois ele elogiou seus pratos e até mesmo disse que quando retornasse a convidaria para jantar com ele. Este silêncio gerava uma certa ansiedade na moça, por mais que ela não quisesse admitir.

Na verdade, lá no fundo, as palavras dele mexeram com ela mais do que ela gostaria, e as vezes ecoavam na sua lembrança: "Sua comida é deliciosa, tão simples, fresca, este lugar tão aconchegante... chego a pensar em como seria viver a vida de um ser humano, ter você como esposa, para voltar para casa depois de um dia de trabalho – para você – todas as noites, jantar esta comida caseira, e depois dormir com você nos meus braços..."

Odanna por sua vez, se viu em uma enxurrada de trabalho desde que retornara, papéis para assinar, problemas pendentes para resolver, fornecedores com almoços e jantares de negócios marcados. Queria muito ver Aoi, conferir se estava bem, dizer de sua viagem, entregar o presente. Mas não queria que ela se entediasse, sendo sua acompanhante nos intermináveis jantares de negócios.

Teria a visitado no anexo na mesma tarde que chegou, mas foi surpreendido com um jantar marcado, sem seu consentimento, com recomendações de urgência. Respirou fundo, e abrandou sua irritação...o excesso de ansiedade em vê-la, também poderia ser interpretado como insegurança, precisava tomar as rédeas da situação.

No dia seguinte, planejava o esperado reencontro mas ficou ainda mais sobrecarregado, como toda vez que viajava a negócios, e os assuntos exclusivamente dele no hotel, se avolumavam o aguardando. À noite teria mais uma tediosa visita: mais um nobre akayashi, apresentando sua família, provavelmente outras insinuações de casamento das quais ele se esquivaria elegantemente, para manter as boas relações diplomáticas.

Finalmente, Odanna vislumbrava na noite seguinte à próxima, uma folga das obrigações. Enviaria um convite a Aoi, com uma certa antecedência, como seu cavalheirismo exigia. Na manhã imediata, a moça recebeu feliz, a correspondência de Odanna, ficou um pouco decepcionada por ter de esperar até a noite seguinte para vê-lo... "Que excesso de formalidade! Não era ele que queria as coisas menos formais entre nós?" Pensava. "Talvez ter viajado por tanto tempo, tenha diminuído a importância de retribuir ao jantar".

Aoi procurou deixar tudo preparado para as reservas do dia seguinte em seu restaurante, não seriam muitas. Ginji serviria por ela, ele pediria ajuda a alguns colegas do hotel.

Conforme Kasuga havia lhe dito quando entregou seu convite, ao entardecer servas pessoais de Odanna foram até o anexo ajudar Aoi a se aprontar. A moça, escolheu, dentre os vestidos que comprou, um elegante vestido tubinho de renda vermelha escura, na altura dos joelhos. Havia uma delicada transparência no decote, nas mangas que iam até os cotovelos, e nas costas, tudo muito discreto. Optou por um sapato de salto alto nude, estilo ocidental.

Aoi queria mostrar-se da maneira como se veste no reino aparente, em sua época. As moças responsáveis por seus cabelos e maquiagem, fizeram-lhe uma trança embutida lateral, finalizando-a com a presilha que Aoi ganhara de Odanna. A maquiagem ficou bem natural, apenas realçando a beleza dos olhos e dos lábios da moça.

Ao se olhar no espelho, até mesmo Aoi ficou surpresa! Não tinha hábitos de jantares sociais e elegantes, ou de vestir-se para encontrar-se com alguém, então, toda aquela produção era novidade para ela. A moça não pensava muito se era bonita ou não, ou se era atraente aos olhos masculinos, mas ao olhar seu reflexo no espelho aquela noite, se achou uma linda mulher.

Saindo do anexo para se dirigir ao prédio principal do hotel, Aoi roubou olhares por onde passava, o que a deixou até um pouco encabulada, não estava acostumada a ser o centro das atenções. Uma das recepcionistas a acompanhou até o restaurante do Tenjin-ya, e o host do restaurante a levou até a sala Vip.

O cômodo era elegante, decorado na tradição japonesa, com piso em madeira maciça impecavelmente encerado, uma mesa posta de acordo com a etiqueta formal, belas flores em vasos caros, e uma janela circular por onde se observavam as pétalas das cerejeiras caírem sob a luz da lua cheia. Algumas velas iluminavam o ambiente, mas a luz da lua majestosa era a principal fonte de iluminação da sala.

Odanna a esperava à mesa, ao vê-la, levantou-se e fez uma profunda reverência. Somente neste momento, pode perceber a beleza de sua convidada naquela noite. Já havia a visto paramentada no estilo tradicional, mas nada se comparava àquela visão. A moça tomou seu lugar, e os serviçais trouxeram a entrada. Aoi se mantinha em silêncio, perante à etiqueta do ambiente formal, o ogro então quebrou o gelo, oferecendo-se para servir-lhe saquê.

Ambos brindaram, e beberam enquanto apreciavam as iguarias servidas, as quais Aoi elogiava entusiasmada. Conforme passava o tempo, a moça relaxava mais na companhia de Odanna, o que a tornava mais fascinantemente linda aos seus olhos.

Aoi também aproveitava a oportunidade para admirar seu acompanhante de perto: seus olhos daquela cor irreal, a pele branca como porcelana, os cabelos negros, sedosos. Hoje especialmente, sem a capa que sempre usava, parecia mais jovem, menos formal. Tinha de admitir, ele era muito bonito!

Naquela noite, especialmente, ele parecia mais sério e silencioso do que estava acostumada, apenas a escutando contar as histórias que aconteceram durante sua ausência, sem piadinhas ou insinuações. Parecia que guardava algo para si, mas o seu olhar era de infinita ternura, o que a deixava irracionalmente feliz.

Já haviam comido o prato principal, uma iguaria elegante, que Aoi nunca tinha experimentado, quando Odanna tirou uma caixinha do bolso, e lhe disse: "- Pode não parecer, devido a tantos imprevistos que tive nos últimos dias, que não senti sua falta, ou não priorizei te encontrar. Mas... durante minha viagem, meu pensamento esteve sempre aqui, com você, foi o que me ajudou a vencer tantas reuniões de trabalho intermináveis: esperar para te receber aqui hoje."

Aoi sentiu o rosto corar, podia escutar seu coração em seus ouvidos... como uma simples conversa podia fazer este efeito? Ele se aproximou e se assentou ao seu lado, dizendo "- Antes de vir embora, quis trazer uma lembrança para você da capital." E abrindo a caixinha, mostrou à moça um lindo conjunto de brincos e colar de uma pedra verde, com um brilho irreal, que ela ainda não havia visto. Ele disse "- Esta joia não é apenas um ornamento, esta pedra no pescoço, é um amuleto de proteção, para que você possa transitar pelo reino oculto, e eu saiba caso corra perigo."

O cuidado de Odanna pegou Aoi de surpresa, ela se emocionou quase às lágrimas. Desde que seu avô partiu, não se sentia assim, acolhida e especial. "Posso colocar em você?" Ele perguntou, sua voz tão próxima lhe causou uma sensação de borboletas no estômago... apenas meneou a cabeça dizendo que sim.

Ele então colocou um brinco de cada vez, e delicadamente, tocou seu pescoço para abotoar o colar. Aoi podia sentir sua respiração em sua nuca, o que lhe causava involuntariamente arrepios prazerosos. Quando ele terminou, ela virou-se para encará-lo, seus rostos estavam tão próximos, seus narizes praticamente se tocavam.

Os olhos de Odanna se prenderam aos dela, quase que hipnotizados, e ele fez um movimento suave em sua direção, perante o qual a moça automaticamente fechou os olhos, e entreabriu os lábios... chegou a sentir seu hálito em sua boca, quando alguém bateu na porta, quebrando encanto do momento: "- Mestre, posso entrar para servir a sobremesa?" Numa fração de segundos, Odanna se recompôs e respondeu "- Entre! Pode servir..."

Terminaram a refeição em silêncio, ambos tentando racionalizar o quase beijo que trocaram. Aoi mal conseguia concatenar os pensamentos, Odanna tinha dificuldades em se controlar e não beijá-la com todo seu desejo, ali mesmo, sem se importar com quem quer que pudesse chegar. Quando tudo foi retirado, os dois foram para o deque da pousada, observar a noite agradável, haviam vários hospedes curtindo a vista, alguns casais namorando, alheios à tudo, e eles dois, que ficaram um pouco mais, apreciando a companhia um do outro, não querendo que aquela noite terminasse.

Já era bem tarde, e Odanna resolveu acompanhar Aoi até o anexo. Caminhavam lado a lado, tranquilamente, e surpreendendo-a, ele pegou sua mão, e seguiram assim, de mãos dadas, até a ponte por sobre o lago que adornava a entrada do seu restaurante.

Ele então segurou as duas mãos da moça, agradecendo pela sua delicada companhia... "- Há muito tempo que não me sinto tão bem!" Ela respondeu "- Eu também, há muito não passo uma noite tão especial, obrigada pelo convite, e pelo presente, eu realmente apreciei todos os detalhes!" Ele sorriu sincero, e convidou: "Aoi, na próxima semana haverá um grande baile no monte dos Tengus, todos do hotel estão convidados, inclusive você. Mas eu gostaria que você fosse comigo, como minha acompanhante, você aceita?" Ela sorriu e respondeu "- Claro, será um prazer!" Ele então se aproximou, e deu-lhe um beijo amoroso na testa... "- Boa noite, Aoi!" Retornando assim para o prédio principal.

Ambos se separaram naquela noite, sentindo nos lábios, o desejo daquele beijo interrompido, sem coragem de tomar iniciativa para concretizá-lo.