Os dias se passavam com muitos compromissos para Aoi e Odanna, o restaurante demandava cada vez mais, e apenas a moça com auxílio de Ginji (que se dividia entre "Moonflower"¹ e suas tarefas no Tenjin'ya.) custavam a dar conta de todas as reservas, o que de certa forma era muito bom, pois o estabelecimento estava tendo sucesso.

Odanna, que gerenciava o hotel e governava toda região do "Portal do Ogro", também se desdobrava entre tantos compromissos. Haviam semanas que ficavam dias sem se ver, mas o ogro nunca deixava Aoi se esquecer de seu cuidado para com ela, fosse um dia lhe enviando um doce fino do restaurante do hotel, com um bilhete carinhoso, ou um ramalhete de flores delicadas... ou quando podia, passando por alguns minutos para ver como ela estava, mesmo que fosse tarde da noite, ou muito cedo antes das atividades do Tenjin'ya começarem.

Desde aquela noite, não trocaram mais beijos e carícias tão íntimos, o relacionamento se tornara mais calmo e romântico, levando cada coisa a seu tempo. Odanna não queria que Aoi se entregasse a ele num arroubo de momento, mas que sua decisão de permanecer em Kakuryio com ele, fosse o aceite de seu pedido de casamento. Mas agora, não por uma dívida, mas por seu desejo e afeto por ele. Desta forma, ele procurava demonstrar seu amor dando-lhe espaço. Se ela assim decidisse, queria que ela fosse sua, depois que se casassem.

Numa destas noites, de uma semana agitada no restaurante e na pousada, Aoi já havia terminado as atividades, tomado seu banho, e vestira um yukata de seda fina para dormir, seu corpo exalava um suave perfume de lavanda, os cabelos presos em um coque desordenado com a camélia dada pelo Oni. Ouviu uma suave batida no sino de sua porta, e foi atender. De pé, na porta do restaurante, deparou-se com Odanna, no degrau em que ela estava, encontravam-se na mesma altura, cara a cara.

Ele lhe sorriu e perguntou: "- É muito tarde para matar as saudades da minha amada?" Aoi sorriu, abriu os braços envolvendo-o num abraço, deitando-lhe em seu ombro, falou em seu ouvido enquanto acariciava os cabelos sedosos: "- Claro que não!" Ele envolveu os braços na sua cintura, e ficou um pouco desfrutando do carinho em seus cabelos, relaxando de toda tensão de dias e dias de trabalho pesado e preocupações enquanto sentia a fragrância floral de sua querida. Ela depositou um beijo em sua testa, e chamou: "- Vamos entrar, relaxe um pouco aqui comigo." Ele entrou, e se assentou no chão de onde Aoi costumava montar seu futon para dormir, enquanto ela buscava algo na cozinha. A moça retornou em seguida, com um pote generoso de sorvete e duas colheres.

Ficaram um tempo, apenas conversando, degustando a sobremesa. Aoi também estava cansada, e a presença calma de Odanna a relaxava, sentia-se como se o tempo não existisse, como se nada de mal pudesse acontecer... era como no tempo em que seu avô vivia com ela, mas haviam outros sentimentos envolvidos, além da admiração, sentia uma atração muito grande, desejava que ele a beijasse de novo como naquela noite, adorava acariciar seus cabelos, sua pele. Eram sentimentos novos, que nunca ninguém lhe havia despertado, e as vezes a assustavam por sua intensidade.

A conversa se prolongou, e aos poucos, foram relaxando, até que Aoi estava assentada em seu futon com o Oni deitado em seu colo, enquanto ela mexia em seus cabelos. Ele não se lembrava de ter sido tão feliz, como nestes momentos, com sua noiva humana... (namorada, como ela preferia), justo ele, que nunca havia se deixado levar pelos encantos do amor... estava totalmente entregue a Aoi, aos seus desejos, seus sonhos, suas vontades.

Já era muito tarde, quando ele levantou-se para voltar ao Tenjin'ya. Não viram o tempo passar. Na porta do restaurante, olharam-se nos olhos, e deixando-se levar por todas palavras ditas silenciosamente através daquela troca de olhares, beijaram-se intensa e demoradamente, despedindo-se.

Enquanto se retirava, lembrou-se de algo e virou-se para ela dizendo. Gostaria de ir comigo no domingo conhecer a Fazenda Mizumaki, de nosso fornecedor Sr. Rokusuke? Não é um dia comercial, mas como você fecha o restaurante mais cedo, podemos passar a tarde lá, quero que você conheça de perto o lugar, e também tenha independência para solicitar seus ingredientes preferidos. Ficaram portanto, combinados de tirar a tarde só para estarem juntos, em alguns dias.