Após servir o almoço na manhã agitada do Moonflower e deixar tudo organizado, Aio foi se aprontar. Tomou um banho, era uma tarde fresca de início de outono, ela escolheu um vestido estilo Hanfu¹ para usar, pois era mais confortável. Estava cansada do dia cheio de trabalho, mas a perspectiva de passear às sós com Odanna a alegrava.
Escolheu uma veste que compunha-se de uma blusa, com mangas longas e com uma grande abertura como num quimono tradicional, porém de várias camadas de uma seda transparente, em um tom rosê elegante. Por cima da blusa, amarrado por uma fita negra contrastante, finalizada com laço sobre os seios, uma longa veste franzida também em várias camadas de seda transparente, da cor marfim, decorada com delicada estampa de flores de lótus no mesmo tom rosado da blusa, com suaves contornos dourados.
Os cabelos estavam mais longos do que quando chegou ao reino oculto, pouco percebeu a passagem do tempo trabalhando tanto como vinha fazendo. Deixou-os uma parte solta, cascateando lisos sobre suas costas, e uma parte formando um coque, que adornou com algumas flores brancas e sua presilha de camélia – que já não parecia mais um botão, e sim uma flor quase aberta. Penteou sua franja de lado, acomodando-a atrás das orelhas. O conjunto tinha um ar angelical, à luz do início da tarde, porém, a transparência criava uma certa aura de sensualidade à aparência da moça.
Odanna chegou pontualmente na hora marcada, vestia um quimono próximo às suas vestes habituais, porém em um tom de azul marinho, que lhe dava um ar de distinção, trazia uma sombrinha para protege-los do sol do início da tarde. Olhou impressionado sua dama vestida em estilo tradicional chinês e se surpreendeu com tanto bom gosto, se isso era possível, ela parecia cada dia mais linda aos seus olhos.
Seguiram de carruagem até à entrada da fazenda, que ficava no condado do "Portal do Ogro". Desceram e seguiram um caminho de pedra, que levava a um conjunto de edificações em formato de chalés, com o telhado no mesmo estilo de seu anexo no Tenjim-ya, porém bem maiores. O caminho de pedras e a entrada das edificações principais da fazenda eram adornadas por arbustos de camélias vermelhas, em plena floração.
Sr. Rokusuke os aguardava sorridente à entrada, e junto com alguns empregados da fazenda, os levaram para conhecer tudo que produziam. Seguiram para o cultivo de hortaliças, canteiros verdes a perder de vista, e legumes viçosos e coloridos em toda parte. Aoi e Odanna foram convidados a degustar vários, a moça se divertiu colhendo alguns no pé e colocando em uma cesta, sorria e caminhava livre entre os canteiros, alegrando também o Oni por vê-la assim, feliz por algo tão simples.
Em seguida, foram ver os campos alagados onde se cultivava o arroz, uma paisagem de encher os olhos e perder de vista. Foram aos galpões de produção de suco de cereja, do qual se serviram ainda fresco retirados dos galões. Odanna fazia encomendas enormes para o restaurante da pousada, Aoi tomava nota mental de tudo que poderia implementar em seu restaurante.
Aos fundos das casas principais, havia um riacho de águas transparentes, repleto de carpas, que foram convidados a conhecer, em torno do qual criaram um belo jardim zen, com ponte, e vários bonsais, tudo remetendo à calma e serenidade. Aoi estava impressionada com um lugar de tanta beleza, tão perto de onde estava, achava que nada se assemelharia ao Tenjin-ya, mas aquela propriedade rural tinha uma beleza bucólica e aconchegante.
Depois de toda excursão e encomendas, o casal foi convidado a se acomodar em um banco próximo à entrada da fazenda, entre as camélias. Enquanto o anfitrião se retirava para mandar os empregados lhes servirem chás, Odanna colheu uma camélia para Aoi.
A moça ficou surpresa com o gesto espontâneo, ele lhe falou: "- Você sabe por que eu escolhi uma presilha de camélia como símbolo de nosso compromisso, Aoi?" A moça meneou a cabeça demonstrando não saber, ele continuou: "- Na linguagem das flores, camélias vermelhas são as flores do desejo, e do amor verdadeiro... eu não trouxe você para o Kakuryio por acaso, ou por questões financeiras, já te observava no reino aparente há bastante tempo, e meu coração – não sei te explicar racionalmente – sempre quis você... há muito tempo ele escolheu você como minha amada!"
Aoi ficou sem palavras, diante daquela declaração tão apaixonada, e o abraçou forte, aconchegando-se em seu peito. Sentia o coração de Odanna batendo rápido, sorriu pensando "Ele é tão experiente, e ainda assim, sempre se demonstra tão emocionado, assim como eu..." Ele a envolveu com seus braços, e ficaram uns momentos, sentindo as batidas do coração um do outro. Os empregados da fazenda chegaram com o chá, interrompendo o momento, eles sorriram e se afastaram meio ruborizados, agradeceram pelo chá, e se assentaram para degusta-lo.
Enquanto Odanna acertava os últimos detalhes das compras e negócios da visita, Aoi caminhou para o fundo da construção. Um pouco além do jardim zen, havia um vale, para o qual se dirigia o riacho, formando uma delicada queda d'água. Daquela parte se via o vale, as montanhas ao longe, e o sol que começava a se por, pintando o céu de tons dourados, laranjas e rosados.
A moça ficou imóvel, respirando o ar puro, agora mais frio, começando a lhe dar arrepios, e vendo a natureza pintada pelo sol poente. Odanna terminara as despedidas, e procurava Aoi pela fazenda. Ao longe observou sua silhueta contra a luz dourada, o jogo de transparências da sua veste ficava mais evidente, mostrando-lhe as curvas de mulher que a moça escondia em seu yukata de trabalho cotidiano.
Ele se aproximou, tocou de leve a sua cintura para não a assustar, com a outra mão, acariciou seus cabelos acobreados, sentindo o perfume floral que exalava de sua amada. Sentindo sua presença, Aio deu um passo atrás, relaxando seu corpo contra o corpo de Odanna. Ele passou seus braços pela cintura, entrelaçando as mãos sobre o ventre da moça, encaixou o rosto entre seu pescoço e ombro, e ficaram um tempo apenas observando aquele espetáculo visual.
Quando os últimos raios de sol avermelhavam o céu e tingiam tudo de escarlate, Aoi virou-se, para admirar os olhos de seu amado, sob aquela luz que coincidia com sua cor tão exótica. Ele sorriu amorosamente para ela, os olhos repletos de paixão. Ela então levou suas mãos dos dois lados do seu rosto, trazendo-o para si, tocando-lhe os lábios com os seus, em um beijo que procurou traduzir todo amor, admiração e gratidão que ela sentia naquele momento por ele.
Notas FinaisHanfu é um estilo de veste tradicional chinesa. Estas vestes me agradam muito visualmente, e é comum observá-las em mangás e doramas. Achei que não seria incoerente este intercâmbio cultural, especialmente no mundo oculto, que tem suas próprias tradições.
