Outono estava chegando ao fim, e os dias se tornavam cada vez mais curtos e frios. As folhas das árvores, antes pintadas de fogo na exuberância do outono no Kakuryio, agora estavam quase todas no chão, deixando todo cenário nostálgico, levando todos a buscarem o aconchego dos espaços fechados. Em breve, os dias de neve chegariam também, no mundo oculto.

Aoi preparara vários pratos quentes, caldos, sopas, massas, para servir no Moonflower, aproveitando a demanda da época. O consumo de saquê e outras bebidas quentes também aumentara em seu estabelecimento. Os casais gostavam de refugiar-se no seu restaurante, por ter um clima aconchegante e bucólico, com pratos com sabor de comida caseira.

Em uma tarde, após servir um almoço movimentado, Aoi descansava assentada à porta, perdida em pensamentos, pensando em como sua vida mudou, e em como estes vários meses, estavam sendo inusitadamente felizes. A moça trazia nas mãos a presilha – objeto que fora a isca para leva-la ao mundo oculto – impressionada com a beleza de sua camélia, totalmente aberta em todo seu esplendor.

Não percebeu que Ginji se aproximava, e se surpreendeu com seu anúncio: "- Aoi, Odanna e Byakuya estão te esperando no escritório de contabilidade, pode ir, eu termino de organizar o que for necessário para o jantar". Aoi se sobressaltou, o que poderia ser? O restaurante ia bem... por que Odanna estaria presente?

Chegou ao escritório, e foi recebida com um sorriso do chefe de contabilidade, algo raro, uma vez que se tratava de um sujeito frio e sério, e extremamente direto. Odanna a saudou com uma reverência. Aoi sentiu algo estranho, ele parecia um pouco diferente do normal.

Sem delongas, Byakuya falou, com seu jeito de ir direto ao ponto: "- Aoi, te chamamos aqui para te parabenizar: você conseguiu com Moonflower, pagar a dívida de Shiro em tempo recorde! A divida de seu avô com o Tenjin'ya está completamente saldada! Em menos de um ano! Um feito nunca acontecido no Kakuryio. Parabéns!" A moça ficou sem palavras, gaguejou alguma coisa, olhou para Odanna, ele tinha um sorriso um pouco triste. Disse de seu jeito sereno: "- Parabéns Aoi, seu trabalho duro e sua dedicação te fizeram realizar o impensável." Se virou para o chefe de contabilidade, "- Se me dá licença, Sr. Byakuya, tenho alguns compromissos urgentes." Reverenciou novamente a moça atônita, e se retirou.

O chefe de contabilidade continuou com suas explicações de números, saldos, balancetes, e esclareceu à Aoi: "- A partir de agora, todo lucro do restaurante será seu pagamento, você não deve mais nada ao Tenjin'ya ou ao mestre ogro". Aoi sorriu, de certa forma se sentia aliviada, mas uma angústia apertava lá no fundo do seu coração, algo que ela não conseguia explicar.

Voltou para o restaurante, e comunicou a novidade a Ginji, que insistiu e fazerem um brinde a tamanho feito. Agora ambos eram sócios em um negócio muito bem sucedido. Durante o resto do dia, Aoi não teve notícias de Odanna, e a angústia em seu peito aumentava, da mesma maneira que o frio tomava a tarde e congelava a noite nublada de fim de outono.

Trabalhou durante o jantar perdida em pensamentos. Quando o expediente acabou, tomou um banho, e foi se deitar. Ao descansar seu corpo no futon, as lágrimas que segurou durante todo o dia, teimaram em cair, para aliviar o peso de seu coração. "- O que está acontecendo comigo? Por que não estou feliz? Terei de voltar ao reino aparente, já que o vínculo do meu avô foi saldado? Será que Odanna só esperava por isto, e uma vez cumprido o compromisso, não pertenço mais a este lugar?"

Odanna se recolheu ao seu refúgio próximo às fontes termais por toda a tarde, o fantasma da rejeição inicial de Aoi voltou a assombrá-lo. "Por que amar tanto alguém, trazia também uma parcela tão grande de dor?" Em sua imaginação, vários cenários se desenrolavam, e o pior deles era não ter conquistado o amor recíproco de sua amada, e agora livre, que ela decidisse voltar para o reino aparente. Ele não se sentia capaz de tirar-lhe a liberdade, pois a felicidade dela era a coisa mais importante de todas... mas não queria imaginar a imortalidade sem ela ao seu lado. Voltou para a suíte presidencial, e recolheu-se, fazendo as refeições lá mesmo, não queria ver ninguém, mas sabia, que sendo doloroso ou não, devia conversar com Aoi, para saber sua decisão final, agora que nenhum compromisso financeiro a prendia.

A manhã seguinte, surpreendeu com o céu azul, e trouxe novas esperanças ao casal inseguro, que passou noite mergulhado em várias cismas. Odanna, apesar de apreensivo, deixou seu lado sábio falar mais alto, e enviou cedo um recado para sua namorada: "Minha querida, hoje é dia de festival à noite na capital, gostaria de comemorar seu êxito comigo? Reservei uma sala de chá que acho que será de seu agrado. Me encontre na entrada do Tenjin'ya às 16h. Odanna"

O coração de Aoi falhou uma batida! Que alívio, ele ainda queria estar com ela!... A perspectiva de estar com ele na capital alegrou seus ânimos, mesmo que eles tivessem que tomar uma decisão sobre que caminho tomar a partir de agora, mas ela sabia que seu amor poderia vencer os obstáculos.

Pontualmente às 16 horas, Odanna esperava Aoi na porta do Tenjin'ya. Ela vestia um quimono de inverno vermelho de estampa floral, com uma estola de peles brancas para proteção contra o frio. Nos cabelos um coque adornado com a presilha de camélia, em todo seu esplendor. Ele tomou sua mão e beijou-a solenemente, elogiando sua beleza, e então abraçou-a para saltar e embarcarem no Kuukaky-maru.

Ver a paisagem de outono do Kakuryio do alto, era outro espetáculo para os olhos de Aoi, além do homem ao seu lado, que a cada dia lhe parecia mais belo e nobre. Ele usava um quimono masculino formal, de inverno, também adornado com peles para enfrentar o clima. Ela o observava absorto em seus pensamentos. Então, tocou sua mão, e ele olhou para ela e sorriu. Fizeram o restante da breve viagem em silêncio.

Chegaram à capital ao pôr do sol, e se dirigiram a uma casa de chá tradicional, na qual estava reservada uma sala inteira para os dois. O prédio contava com sacadas como as do Tenjin-ya, nos andares mais altos e requintados. Aoi e Odanna ficaram na cobertura, com ampla vista para o festival e a queima de fogos que aconteceria ao anoitecer.

Se acomodaram no cômodo luxuoso, e logo foi servido o chá, com toda cerimônia formal. Odanna parabenizou Aoi por seu sucesso, trabalho duro e esforço. Beberam o chá tranquilamente, se olhando amorosamente. Uma luz no exterior anunciou o início da queima de fogos, e o casal se dirigiu à sacada. Ficaram lado a lado assistindo ao espetáculo de uma beleza sobrenatural, não comparável a nada que acontecesse no reino aparente. Aoi se aproximou de Odanna, e reclinou a cabeça sobre seu ombro, quebrando a formalidade que havia se estabelecido entre os dois.

Ele passou o braço por sua cintura, e a abraçou com firmeza. Depois de assistirem muito tempo os fogos, Odanna se virou para Aoi ela também o fitou, as luzes de todas as cores refletindo no brilho de seus cabelos e seus olhos. Se aproximaram devagar e beijaram-se. Toda angústia, dúvidas, inseguranças, vieram a tona uma a uma, tornando o beijo urgente e de certa forma desesperado, Aoi não conseguiu controlar as lágrimas que teimavam em escorrer de seus olhos. Quando o beijo se encerrou, se olharam nos olhos por algum tempo, profundamente.

Odanna limpava as lágrimas do rosto de sua amada, perguntando: "- Qual o problema, meu amor?" Ela se agarrou às suas vestes, enterrando o rosto em seu peito, ele envolveu-a mais forte no seu abraço, enquanto ela falou abafadamente: "- Não quero me afastar de você, não conseguiria mais viver sem ter você comigo!" A fala encheu de alívio o coração do ogro, que levou a mão à lateral do rosto de Aoi, a obrigando a olhar para ele, e lhe disse "- Quem te disse que vou deixa-la se afastar de mim." Ela sorriu, e ficaram abraçados até a queima de fogos terminar.

Após o show pirotécnico, Odanna pegou Aoi pela mão e a guiou de volta à sala de chá. Se assentou, e disse: "- Aoi, é verdade que eu quero mais do que tudo você comigo, mas eu tenho que te dizer, que a decisão é sua. Saldada a dívida de seu avô, você é livre, se desejar voltar ao seu mundo, não te impedirei, por que sua felicidade é o mais importante para mim. Nunca te disse isto, mas eu te amo, você é a pessoa mais importante da minha vida! Se você ficar, sei que já fiz este pedido, mas reitero, com novas esperanças: Aceita se casar comigo?"

Diante da declaração, Aoi começou novamente a chorar, mas dessa vez de alegria, enlaçou os braços em torno do pescoço de Odanna, que assustou-se com a atitude inesperada, e beijou-o dizendo "- Claro que sim! Eu também te amo! Você me esperou pacientemente, e me ensinou tantas coisas, cuidou de mim todo esse tempo... não me vejo em nenhum lugar que não seja com você!"

Odanna então, pegou delicadamente a presilha dos cabelos de Aoi, soltando-os. Ao tocar a camélia totalmente aberta, ela soltou-se em sua mão. Ele colocou o grampo sobre a mesa, e fechou a flor dentro das palmas de suas mãos. Uma luz vermelha forte e vibrante, irradiou-se das mãos unidas de Odanna. Quando ele abriu, no lugar da camélia, havia um lindíssimo anel de noivado, adornado com vários rubis entalhados em formatos de pétalas, como uma miniatura da camélia da presilha. Ele colocou no dedo anular direito de sua amada: "-Aceite esse anel, Aoi, como o símbolo do meu eterno amor!"

Se beijaram apaixonadamente por um bom tempo, a sala estava alugada por toda a noite, e muitos casais costumavam passar a noite naquele lugar. No calor das emoções, as caricias começaram a ficar mais ousadas, mas Odanna interrompeu-se, antes que não tivesse mais controle. Falou ofegante para a moça com a face completamente afogueada: "- Aoi, agora que vamos nos casar, não quero que você se entregue à mim antes da cerimônia. Quando nos tornarmos um só através do casamento, o fato de você ser humana e eu akayashi não será um impedimento para nossa entrega..." A moça o olhou um pouco decepcionada, mas aceitou.

"– Vamos marcar a data, o que você acha de nos casarmos na primavera, na época do Hanami?" A moça sorriu feliz, seria como um sonho casar-se com seu amado sob as lindas cerejeiras do Tenjin'ya! Dormiram ali naquela noite especial, abraçados, compartilhando sonhos de seu futuro juntos.