ALÉM DO HORIZONTE

— Capítulo 3 —

Identidade Secreta

Escola ginasial de Tomoeda, 12:05.

Já se passaram alguns dias que visitei Yuuko. Desde então, comecei a tomar cuidado nas noites de lua cheia e li alguns livros que falam sobre sonhos. Nada desse assunto era fácil de se entender, porque existiam muitos tipos de sonhos e diversos propósitos postos a eles.

Um exemplo, "Um sonho na terra pode ser real dentro do mundo dos sonhos, mas não na realidade" que Yuuko tinha dito. Significava que dentro de um sonho podem acontecer coisas como no mundo exterior, mas que esse mundo exterior não era afetado por ele. Poderia ser entendido como dimensões diferentes, afinal, entre dimensões também existem ligações entre si. Mas dimensões e sonhos são diferentes… certo? Eles devem ser, eu acho.

Mesmo assim, os livros que consegui ler não sanaram minhas dúvidas. Principalmente a de que poderia ser possível "conseguir" um sonho. Foi então que decidi partir para a história. Dentro do que eu li sobre lendas, algumas coisas começaram a se encaixar com os livros mágicos sobre sonhos.

Inclusive as lendas do período Sengoku que estávamos lendo.

Lembro que ter passado dias lendo sobre elas até sugerir a Meiling para separarmos em tópicos. É claro que essa tinha sido a minha estratégia desde que ouvi de Yuuko sobre "Além do Horizonte". Não sei dizer se isso deixou Meiling desconfiada, já que ela apenas aceitou sem muita relutância.

Durante o almoço, como de hábito, depois de comprar meu lanche na cafeteria passei no clube. Meiling estava onde sempre sentava, de costas à janela, lendo "As dez noites de sonhos" com o chá de pêssego ao lado.

Sentei na cadeira do outro lado e peguei uma das antologias da coletânea que estávamos lendo. Abri o livro com uma das mãos enquanto comia meu almoço com a outra. No título estava escrito "O Sonho em Meio a uma Noite de Verão". Decidimos dividir todo o período por tópicos específicos, por isso há algum tempo estou lendo os arquivos sobre história da magia que se refere a sonhos mágicos.

— Essa não é uma obra de William Shakespeare?

Meiling voltou seus olhos para mim.

— Apenas no título, baka. Ela estava na coletânea de melhores contos do ano passado.

— Eu sei disso. Só não lembrava de ter lido até agora — comentei despreocupadamente. A expressão de Meiling não pareceu mudar, então continuei — Então alguns sonhos podem ir além dos que temos quando dormimos...

— Nesse caso, não passa de uma ilusão.

— Sonhos em si são uma ilusão, não?

Meiling me encarou por cima da antologia que lia. Sustentei o olhar. Havia algo que queria confirmar.

— Isso depende.

Ela sabe do que estou falando. E é óbvio que Meiling não ia deixar passar em branco meu interesse.

— Então quer dizer que mesmo sendo um sonho, ele pode ser real?

— O quê? — Meiling abriu um sorriso irônico — você nunca teve a sensação de estar dentro de um sonho e achar que é a realidade? Que decepção.

Sua postura me confundiu, Meiling estava fazendo pouco caso do que eu estava pensando. Será que estou errado? Cruzei os braços por puro reflexo me encostando na cadeira. Ainda faltava pouco para terminar meu almoço quando retruquei:

— Por que?

— Pensei que você teria já que não consegue confessar seu amor por mim.

Tsc. Não acredito que caí como pato nessa conversa fiada.

— Isso não tem nada a ver!

Voltei a fechar a cara mordendo o penúltimo pedaço do pão de yakisoba. Não sei se Meiling sabia sobre a existência do "Além do Horizonte" e sobre ele ser um sonho, então essa era a hora de confirmar até onde os Li sabiam. Claro que se Eriol escondia esse tipo de informação e que os Li e Hiiragizawa trabalhavam juntos por conta de sua aliança, ela também saberia.

Meiling recomeçou a falar. Eu estava disposto a protestar, porém, percebi que agora ela voltou sua atenção ao chá, sem aquele olhar impiedoso de sempre.

— Então, Syaoran.

— O quê?

— Porque você quer saber sobre isso?

Nossos olhos se encontraram. Mesmo que eu não soubesse dizer o quanto ela tinha noção do que estava acontecendo, meus instintos estavam alerta. Eu os ignorei por hora me mantendo o mais calmo possível.

— Pensei que os sonhos que os humanos têm fossem diferentes dos feiticeiros.

Meiling colocou uma mecha atrás da orelha, despreocupada.

— Para alguns, eles são — Ela me encarou, séria outra vez, enquanto colocava a antologia que lia em cima da mesa — Porquê? Você está tendo sonhos de novo?

Dessa vez, respondi rápido.

— Não.

— Isso é bom então, não?

Inspirei fundo. Não sei se isso pode ser considerado bom, mesmo que eu agradeça que isso não esteja mais acontecendo. De qualquer forma, esse é assunto para outra hora. Estava pronto para continuar quando senti uma certa presença se aproximar no corredor.

A porta do clube se abriu e Eriol surgiu atrás dela. Ele a fechou em seguida e colocou sua bolsa sobre a mesa. Droga, toda a minha estratégia foi por água abaixo por causa da chegada dele. Até parecia que ele tinha consciência do que eu planejava em seguida.

Por outro lado Meiling continuou com a antologia a sua frente, quieta, mas seus olhos gélidos que encaravam os meus, se desviaram para a figura de Eriol que tinha sentado agora ao meu lado, despreocupado.

— Eu sinto muito por não ter vindo nestes últimos dias — Eriol começou a dizer, indiferente ao olhar de Meiling em sua direção — E então? O que foi decidido para o festival?

— Você chegou em uma ótima hora, Eriol — falei, atraindo a sua atenção. Meiling continuou a observar enquanto eu pegava boa parte da minha pilha de antologias e coloquei para o seu lado. Essa era a minha vingança interna por ele ter chegado em uma hora tão oportuna — Aqui está a sua parte da triagem.

O semblante de Eriol se tornou cansado, mas não surpreso.

— Nós vamos fazer isso de novo? Outra seleção?

— Não é outra seleção. Vamos abordar o período Sengoku.

— Sengoku, hein? É um período interessante — Eriol retrucou pegando alguns livros. Mesmo que minha ideia fosse de lhe passar um pouco mais da metade da minha parte da triagem, a contragosto tive que concordar com ele. Internamente — Entendo o que vocês querem fazer, porém o período Tokugawa seria melhor para isso, não?

— Se você tivesse vindo a reunião que isso foi decidido, sua opinião seria válida — Meiling retrucou. Algo em sua voz tinha tinha um leve tom de acusação. Então eu me perguntei se aquilo devia ser algum tipo de tortura dirigida — Aliás, esse não é o objetivo dessa pesquisa.

— É claro. Mas você sabe a minha condição, só posso aprovar isso se houver princesas ou gueixas nos contos.

Meiling rolou os olhos e eu tive que me conter para não a imitar em seguida. Pensei novamente na tortura dirigida. Se sim, não havia qualquer motivo para me incluir. Logo eu, o único que comparecia a todos os encontros do clube, até mesmo quando Meiling não ia! Bom, sempre tive bastante tempo de sobra mesmo. O que não queria era gastá-lo junto com alguém como Eriol.

Principalmente agora.

Eu não posso dizer se Eriol realmente tenha algum tipo de fetiche por princesas ou algo do gênero. Afinal, ele sempre se aproxima de todas as garotas com sua postura ridícula de cavalheiro. Normalmente, ele faz apenas insinuações e elabora algumas mentiras para se divertir. Como eu o conheço há muito tempo, posso dizer que ele só deve estar brincando agora.

— Se for assim, sua contribuição será irrelevante — Meiling retrucou, estava mesmo enojada pela resposta de Eriol — este clube não serve para alimentar seus fetiches, Eriol.

— Fetiches? Eu só estou enaltecendo a figura feminina, isso pode abrir mais portas do que você pensa, cara Meiling-chan.

Tive que me interpor entre os dois.

— Isso não é motivo para excluir outras personagens femininas.

— Mas é uma ação que causa bastante impacto, não? — Eriol retrucou sorrindo de lado, sabia que estava entrando no jogo dele ao interferir — É isso o que prende o leitor. Você nunca leu romeu e julieta?

— Sim, mas o que devia prender o leitor aqui é a história, não simplesmente um romance entre duas pessoas de idades ou classes diferentes.

— Esse é apenas um dos fatores relevantes para atrair a atenção do público. Eu pensei que você soubesse disso melhor que ninguém Syao-chan — Eriol disse me encarando dessa vez.

Segurei minha vontade que jogar meu chá em sua cara quando ele mencionou a porcaria do apelido.

— O que você está falando? Isso é óbvio.

— Ora, ora. Mas a presença de uma mulher já traz o sentimento de mistério, não importa qual seu perfil. Por exemplo, você sabia que as geishas precisavam se pintar completamente de branco para começar o ritual e se ela não fizesse isso, era considerado um sinal de má sorte.

— É mesmo!?

Puxa, eu não sabia disso. Meiling suspirou do outro lado.

— Ei, se vocês estão tão dispostos a discutir sobre isso deviam usar isso para a triagem das antologias — Meiling disse, fechando o livro que lia sobre a mesa.

— Por mim tudo bem, mas não vou poder vir ao clube com frequência. Há muita gente vindo para Tomoeda neste período.

Me limitei a ouvir a conversa entre os dois, mas estava claro que eu estava ignorando o livro aberto a minha frente. Anotei mentalmente que os dois clãs estavam trabalhando juntos nessa tarefa, como o esperado, bastava apenas descobrir até que ponto. Então perguntei casualmente:

— O que essas pessoas querem aqui?

Imaginei que Eriol responderia, mas foi a voz de Meiling que ouvi.

— Um fenômeno raro está para acontecer aqui em Tomoeda. Isso está trazendo feiticeiros de todos os lugares.

Além do Horizonte. O sonho poderoso, segundo Yuuko, que todos estavam atrás para obter e tornar seu desejo real. Então, os Li e os Hiiragizawa estavam monitorando esse evento. Acho que esse era um momento oportuno para tentar descobrir mais. Não vejo motivos para esconder que estava um pouco consciente do que estava acontecendo.

— É o "Além do Horizonte", não é? Minha mãe falou sobre isso na última carta que recebi.

Não houve nenhuma reação de surpresa dos dois após a minha frase.

— O que você sabe sobre "Além do Horizonte"? — perguntou Eriol.

— É um sonho precioso que realiza um desejo. Muitos feiticeiros estão vindo aqui disputando para tentar capturá-lo, mas é preciso um grande poder para conseguir ele.

— Parece que você tem uma visão geral — Eriol respondeu, convencido.

Ele sorriu de lado enquanto cruzou os braços.

— Acho que não há mais motivos para esconder o que estamos fazendo. De qualquer forma, estamos apenas observando.

Arqueei uma sobrancelha, intrigado. Óbvio que eles tinham que controlar a área, mas pensei que agissem de forma mais direta do que isso. Eriol percebeu minha confusão, mas Meiling quem falou de novo.

— Isso mesmo. Todos os grupos suspeitos estão sendo monitorados por feiticeiros dos Li e Hiiragizawa neste momento — disse Meiling em um tom cansado, organizando as folhas ao seu redor — Não existe nenhuma ameaça.

— Quer dizer que não existem feiticeiros perigosos aqui?

— Não é isso. Eles só não estão agindo.

Não acho que algum deles irá agir sabendo que essa área é controlada pelos Li. Seria muito arriscado mesmo em grupo. Como eu já disse, o clã dos Li é um dos mais fortes, talvez do mundo, nos dias de hoje.

Por esse motivo, a maior parte dos grandes clãs reconhecidos e os menores se aliaram a eles. Clãs e quais quer feiticeiros que fossem contra os Li eram facilmente eliminados e o mundo mágico estava em "paz". Então, se algum feiticeiro que não aceitasse as regras dos Li o mais fácil a se fazer para evitar problemas era se exilar.

— Então se não há nada com o que se preocupar, Eriol pode ser útil e fazer a triagem como foi decidido.

Eriol suspirou e tentou mudar de assunto.

— Nós precisamos de novos integrantes.

— Mais um motivo para fazer seu trabalho.

— Ah, sobre isso… Eu tentei chamar Kinomoto-san para entrar no clube, mas ela não aceitou.

— "Kinomoto-san"? — indagou Eriol.

— Sim, Kinomoto Sakura. Ela entrou na minha turma um dia depois do primeiro dia de aula.

Meiling agiu normalmente arrumando os papéis a sua frente, mas foi a reação de Eriol que prendeu minha atenção. Ele me fitou com as sobrancelhas franzidas e o rosto sério. Algo na minha frase o deixou incomodado, mas ele permaneceu quieto, por isso continuei:

— Acho que seria útil se ela se juntar ao clube.

— Quer dizer que você vai a fazer mudar de ideia?

Dei de ombros. Não tinha certeza se ela mudaria, mas tinha algo em mente. Se a família Li estava investigando Kinomoto quer dizer que ela também deve esteja entre os feiticeiros que estão vindo para Tomoeda. Quanto mais perto estivesse, mesmo com sua reputação, era menos problemático para ela.

— Eu não sei, mas posso tentar.

Meiling não pareceu concordar nem discordar. Apenas pegou o bloco de folhas que tinha arrumado e os colocou em cima da mesa que ficava ao lado da nossa, agarrando sua bolsa em seguida.

— Tudo bem. Mas se ela entrar no clube será sua responsabilidade — disse Meiling antes de passar pela porta. Logo voltou para um último aviso — e não deixe que Eriol saia desta sala sem terminar a triagem.

Suspirei. Quando Eriol queria ele detectava ouro como se fosse um imã por natureza, mas não parecia interessado em rever tudo novamente. Nem eu, mesmo que ame história. É claro que mentir diretamente a Meiling era algo muito arriscado, então decidimos separar as boas antologias que conhecíamos com algumas ruins e médias entre elas. Estávamos quase terminando quando senti como se o ar diminuísse de repente. Eriol estava criando uma kekkai.

Não entendi bem o porque, mas antes que pudesse questionar, Eriol falou antes.

— Syao-chan. Quem é Kinomoto Sakura?

Franzi o rosto. Ele estava me sacaneando ou o quê? Expliquei isso apenas há algumas horas.

— Eu já te disse.

Eriol suspirou.

— Sim, eu lembro. Mas não recordo de nenhuma Kinomoto Sakura na escola.

Oh. Será que ele está deprimido por ter perdido a chance de se aproximar de uma garota nova? Bom, é um pouco reconfortante saber que Kinomoto não encontrou ele até agora.

— Isso porque ela foi transferida depois do primeiro dia.

— Não, não é isso — Eriol balançou a cabeça, olhava para a janela com os braços cruzados apoiados na mesa — Ela é uma feiticeira, não é?

Eriol estava me irritando. Até porque todas essas perguntas, se ele sem dúvidas sabia do que se tratava?

— É claro. Que outros motivos ela teria para poder entrar no clube?

— Kinomoto Sakura… Eu não lembro desse nome.

— O que você está dizendo?

Eriol inspirou profundamente e se virou para mim com uma das mãos no queixo, mas parecia estar falando consigo mesmo.

— Eu não tinha ouvido falar nesse nome até hoje. Nem mesmo quando começamos a monitorar os grupos que estão vindo para Tomoeda… Que tipo de feiticeira ela é?

— Espera, quer dizer que você não sabia nada sobre ela?

Eriol pareceu confuso pela primeira vez.

— Não até algumas horas atrás.

— Então, quando eu fui ao telhado naquele dia… Não era sobre ela que você estava falando?

— Não.

Então sobre o que era? Pensei comigo mesmo. Pensei que Eriol saberia sobre uma feiticeira como Kinomoto, principalmente por causa de seu poder, sua maldição. Ela não era alguém normal que pudesse passar despercebido. Mas como ele não sabia sobre Kinomoto e Meiling sim? Isso é um mistério por ora. Sinto que posso lidar com essa situação matando dois coelhos numa cajadada só.

— Tudo bem, mas eu tenho uma condição.

Eriol levantou o rosto prestando atenção.

— Eu falo tudo o que sei sobre Kinomoto Sakura e você me diz o que não podia ter dito naquele dia do telhado.

— Certo. Logo não vou ter mais porque esconder isso mesmo.

Comecei a contar sobre o nosso primeiro encontro, sobre seus poderes mágicos que utilizavam o sangue e a linhagem amaldiçoada que Kinomoto carregava por conta desse poder. Os Li estavam a vigiando por algum motivo e isso foi o bastante para deixar Eriol interessado.

— Hmm. Uma linhagem amaldiçoada, né? Isso realmente é um problema. Clãs amaldiçoados são abominados desde a era feudal.

— É por isso que eles estão a vigiando?

— Não. Estão vigiando todos os feiticeiros que estão vindo a Tomoeda como Meiling-chan falou. O mais estranho é não ter nenhuma Kinomoto Sakura entre eles…

Imagino porque o clã Li estava escondendo a identidade de Kinomoto dos Hiiragizawa se ambos eram aliados. Eriol também deve estar questionando a mesma coisa. Além do mais, Kinomoto disse que tinha vindo a Tomoeda por uma razão.

— Tem certeza de que ela está falando a verdade?

— Sobre o que?

— Ela pode estar usando um nome falso.

— Não acho que ela mentiria sobre algo assim.

— Syao-chan, não é porque uma garota te persegue pela primeira vez que você deve atuar o papel de cavaleiro da princesa em perigo.

— Não é isso!

Eriol colocou aquele maldito sorriso no rosto de como quem sabia os meus reais motivos de fazer aquilo. Não estou preocupado com Kinomoto por ela ser uma garota ou por ela estar em perigo, mesmo que esse último seja um pouco verdade. Foi ela quem tentou me matar a princípio de conversa e mesmo assim, ela também tinha me salvado.

— Bom Syao-chan — Eriol voltou a falar — Pelo que você me disse, Kinomoto Sakura parece ser alguém interessante. Posso fazer uma pesquisa sobre ela e vemos se ela está falando mesmo a verdade.

Sustentei o olhar de Eriol. Estava claro que ele planejava algo. Descobrir porque Kinomoto não estava sendo monitorada pelos Li e Hiiragizawa como os outros feiticeiros. Não acho que ela esteja mentindo, Kinomoto não parece ser esse tipo de pessoa. Ela pode ser uma tonta e uma grande feiticeira, mas quais motivos ela teria para mentir?

É uma dura decisão a fazer. Eu não sei se posso confiar nele. Eriol continuou a me observar com aquele olhar misterioso que eu detesto. Estava estudando minha reação. Ele sabia que eu era teimoso o suficiente para discordar dessa ideia, mas a curiosidade sobre o que Kinomoto veio fazer aqui também era verdadeira. Ele devia ter uma condição.

— Então?

— Você não pode se afastar dela, por enquanto.

Cruzei os braços e suspirei concordando com ele.

— Não acho que isso seja algo difícil.

— Ótimo — disse Eriol, satisfeito — Bom, quando ao outro assunto. Por enquanto é apenas uma teoria minha. Como você sabe Além do Horizonte é o sonho que pode se tornar realidade, mas é preciso muito poder mágico para o conseguir. Ele não tem forma física então as pessoas comuns não podem vê-lo, apenas feiticeiros.

— Como ayakashis?

— Isso mesmo. Mas sonhos não têm forma física como ayakashis, eles são psíquicos. A única forma que sabemos para conseguir um sonho é dentro de outro. Poucos feiticeiros podem fazer algo assim.

— Yumenis.

Eu devo explicar para você que o mundo mágico funciona dessa maneira: No mundo humano existem os feiticeiros, humanos e as criaturas mágicas. As criaturas mágicas malignas, ou monstros como você deve conhecer, e que trazem infortúnios são chamados de youkais. Porém, existem criaturas mágicas que estão na mesma categoria dos youkais. Nós os chamamos de ayakashis.

Essa diferença existe porque youkais são entidades malignas criadas dos pensamentos ruins das pessoas, enquanto o outro pode ser qualquer criatura mágica, como guardiões. Estou dizendo isso, porque também existe uma classificação parecida dentro do grupo dos feiticeiros. Um dos vários deles são chamados de yumenis, os feiticeiros que podem ver o futuro através de um sonho.

Se sonhos são psíquicos quer dizer que feiticeiros podem sentir sua presença, mas não podem vê-lo. Mas isso não se aplica aos yumenis. Como podem ver o futuro, eles são os únicos que tinham como saber encontrar o Além do Horizonte.

Eriol concordou.

— Isso. Mas não parece ainda ter nenhum yumemi nos feiticeiros que estamos observando, até agora.

Eu entendia o raciocínio de Eriol. O motivo de tantos feiticeiros virem para uma pequena cidade como Tomoeda era porque eles sabiam que o Além do Horizonte estava ali. Em outras palavras, era lógico que um yumemi tinha trazido essas pessoas até aqui.

Não falamos mais nada sobre o assunto, quando enfim percebemos que estava anoitecendo guardamos as antologias ao lado da pilha de papel de Meiling. Quando cheguei em casa e liguei a TV o jornal já tinha começado. Comecei a fazer o jantar decidindo fazer uma sopa de miso, por causa do clima frio e acabei assistindo ao noticiário. Pensei que estavam passando a mesma notícia sobre o desaparecimento da semana passada, mas dessa vez outra pessoa tinha sumido.

Depois de alguns dias, não pude deixar de pensar nos grupos suspeitos que os Li estavam monitorando ligados a nesses desaparecimentos. Eu não podia ver mais isso com algo normal depois dessa semana. Se eles que estivessem por trás disso, certamente os Li tomariam uma atitude. Por outro lado, esses grupos devem saber que essa área é controlada pelos Li, então não havia motivos para agirem de forma tão imprudente.

Alguém estava agindo com permissão dos Li? Não, pensar nisso é tão absurdo quanto achar que os grupos anti-Li estavam agindo. Meiling deixou isso bem claro, não havia nenhuma ameaça. Enquanto eu continuava a quebrar minha cabeça para tentar juntar todos esses pontos, dei a volta no prédio principal com o meu almoço e fui até a sala do clube.

Nem Meiling nem Eriol estavam lá hoje. Portanto, eu ficaria sozinho durante todo o intervalo do almoço fazendo a minha parte enquanto comia. Não demorou muito para que eu sentisse uma presença atrás da porta do clube.

— Mudou de ideia, Kinomoto-san?

A figura de uma garota pequena surgiu atrás da porta me fitando com o olhar curioso e instigador. Não era como se eu tivesse mentido para ela que conseguia sentir sua presença desde o primeiro dia. Kinomoto parecia um pouco surpresa, no entanto.

— Como você sabe que eu estava aqui?

— Eu posso saber. Pela sua presença.

— Que sou eu?

— Sim — respondi observando Kinomoto entrar na sala e suas bochechas coraram. Imagino se ela estava pensando nas diversas vezes que me perseguiu como se eu não pudesse saber que ela estava lá, agindo como uma tonta — Então você decidiu se juntar ao clube?

Kinomoto respondeu rápido.

— Não.

— Então alguém pediu que você vinhesse aqui?

Ela me fitou um pouco confusa.

— Foi você Li-kun. Nós fizemos um trato.

Ah. Isso é verdade. Não esperava que ela fosse vir ao clube de interesses históricos para me questionar sobre minha imortalidade. Além do mais, só eu estava aqui hoje.

— Ah, é mesmo. Então, o que você quer saber hoje? — perguntei e larguei meu almoço ao lado da pilha que papéis que estava lendo, preparado para mais uma seção de perguntas. Bom, pelo menos era bem melhor do que sair por aí sendo espetado por uma espada. Kinomoto observou o local distraidamente e andou até as prateleiras até perguntar:

— Porque você entrou em um clube como esse?

— Esse é basicamente um clube para feiticeiros. Bom, eu não tive escolha.

Ela parecia absorta enquanto olhava entre as prateleiras de livros no fundo da sala. Não tive certeza de que ela realmente tinha me ouvido até voltar a perguntar:

— Porquê? Você é imortal.

— É porque eu sou imortal.

Kinomoto surgiu entre as prateleiras com um sorriso triste nos lábios e se curvou em minha direção.

— Muito obrigada. Eu não vou mais perseguir você, então não se precisa mais se preocupar porque não vou mais atacá-lo.

Espera, espera… O que ela está dizendo? Ela está desistindo? Isso me pegou de surpresa. Não vou mentir que por um lado me senti muito aliviado, afinal, era uma situação que já estava acostumado. Não devia estar surpreso se isso acontecesse mais cedo ou mais tarde. Mas Kinomoto tinha sido a primeira contra todas as estatísticas, imaginei que ela não fosse igual aos outros.

Não. Eu não estava surpreso. De alguma forma, me senti um pouco desapontado. Kinomoto devia ser diferente. Espera, diferente? O que eu estava esperando? Quer saber, vamos esquecer isso. Já não sei o que estou pensando. Se Kinomoto decidiu isso não importa.

— Li-kun?

Eu tinha chamado sua atenção, então percebi que balançava o rosto sem perceber. Parei e a encarei colocando os cotovelos em cima da mesa.

— Tem certeza de que é o suficiente?

— Sim.

— Você também não vai voltar a me atacar, não é?

— Não.

— Mesmo assim, você não vai entrar no clube? — indaguei tentando parecer o mais casual possível — Estou falando sério, precisamos de novos membros.

Kinomoto baixou seus olhos verdes para o chão com o rosto sério.

— Me desculpe, mas eu não posso.

Tentei analisá-la o máximo que pude. Ela parecia estar em outro mundo além deste, assim como eu estava apenas há alguns minutos.

— Tudo bem. Bom, pode vir aqui sempre que quiser.

Kinomoto agradeceu mais uma vez e saiu pela porta. O silêncio que ficou na sala depois que ela saiu não conseguia conter meus pensamentos. Mesmo o pouco que eu conheça Kinomoto, qualquer um concordaria que sua atitude foi muito suspeita. É claro que eu não queria suspeitar dela, mas com as coisas indo nesse ritmo, só aumentava a minha desconfiança.

O que fazer agora, o que fazer… Se ela tivesse aceitado entrar no clube seria mais fácil vigiá-la de perto. Eriol não podia estar certo. Kinomoto não podia estar mentindo já que sua maldição não era algo que podia esconder sem chamar atenção. Não, talvez não fosse isso. Mas a questão é o quê exatamente?

Agora uma coisa é certa. Não acho que seja coincidência Kinomoto ter vindo a sala do clube hoje se não soubesse que eu estava sozinho. Tivemos duas semanas desde o nosso acordo e essa foi a primeira vez que ela entrou aqui.

Kinomoto veio atrás de algo, sem dúvidas.

Continua...


Voltei! Um pouco mais cedo dessa vez rsrsrs

Bom, como eu disse, o mistério vai se centralizar na nossa Sakura, e, logo, logo, vamos saber o que ela tanto esconde e porque ela age assim. No próximo teremos mais ação! Eu sei que tem muito mistério ainda, muitas dúvidas, perguntas kkk mas peço só um pouco de paciência que serão recompensados :D

aaaaaaa muito obrigada a fofa da Lina.86 pelo review e pelos elogios, fiquei muito feliz ❤

Bom, isso é tudo por ora, até o próximo capítulo gente! :D