ALÉM DO HORIZONTE

— Capítulo 5 —

O Fantoche do Mago

O ar da sala pareceu se comprimir ainda mais. Pude ouvir o vento ressoar pela janela do clube, automaticamente, engoli em seco. Queria não pensar em nada, mas os olhares que Eriol e Kinomoto sustentavam em silêncio tinham me mantido em transe. Era quase como observar uma luta entre caubóis, o primeiro que atirasse ganharia. Felizmente, nada disso aconteceu, e mesmo assim isso não me deixava nem um pouco tranquilo. Foi a pose descrédula de Meiling que quebrou o silêncio que pareceu durar décadas.

— O que você está falando Eriol? Todos sabem que Clow Reed está morto há décadas.

— Não, Meiling — rebateu calmo, voltando seu olhar para Meiling — Clow desapareceu, seu corpo nunca foi encontrado. Você não acha que com o poder que ele tinha, não era possível estender sua vida até a imortalidade?

Meiling pareceu entender isso, apesar da sua postura contrariada, ela sabia que Eriol estava falando a verdade. Mesmo que essa afirmação não fizesse sentido nenhum naquele momento. Pude sentir o olhar de Meiling em mim nesse tempo. Ah sim, afinal, Clow era como eu.

— E como você pretende encontrá-lo?

— Vamos perguntar ao seu seguidor que nos atacou.

— Você vai perguntar ao inimigo?

— Você tem alguma ideia melhor? — Eriol suspirou cansado.

Meiling deu ombros se dando por vencida e Eriol sorriu com isso. Em pouco tempo a porta se abriu novamente, o corpo estranho estava sendo carregado por uma jovem mulher de cabelos castanhos longos.

— Poxa vida Eriol, você demorou demais para terminar a kekkai.

Eriol esboçou seu sorriso habitual.

— Me desculpe Nakuru, mas você parece satisfeita ainda assim não é?

— Na verdade, eu pensei que isso seria mais difícil, mas foi mais fácil do que eu pensei — disse Nakuru, dando de ombros. Colocou o corpo imóvel em cima da mesa se sentindo vitoriosa com o feito.

— Akizuki Nakuru? — murmurou Meiling surpresa com o cenho franzido.

— Ah! Meiling-chan, há quanto tempo! Você realmente cresceu, não é? Eriol, porque você não disse que Meiling-chan estava aqui também?

Meiling continuou encarando silenciosamente Eriol com suspeita. Bom, até eu estava fazendo o mesmo. Ele parecia estar cada vez mais se tornando o que sempre quis ser, uma incógnita. Agora, Akizuki Nakuru. Eu não a conheço, mas sei pelo seu nome deve ser algum subalterno dos Hiiragizawa.

— É mesmo, eu devo ter esquecido.

Enfim o olhar de Akizuki caiu sobre mim e Kinomoto, mas Kinomoto em especial pareceu aguçar sua curiosidade além do normal. O olhar dela continuava sem hesitação, mesmo depois de Eriol baixar a guarda. Da mesma forma que agora há pouco, pude sentir o prenúncio de um combate começar a qualquer momento. Akizuki se aproximou devagar como um caçador faz a sua presa.

Então ela pulou no pescoço de Kinomoto.

— Ahhh, que linda! Quem é essa Eriol!?

Kinomoto claramente não sabia como reagir a esse ataque inesperado. Ela permaneceu imóvel, com os olhos arregalados incrédula, enquanto Akizuki a apertava em seus braços. Certamente não esperava por um ataque desses. Se não fosse toda essa situação, eu poderia até ter rido com a cena, mas ter um corpo meio morto no meio da sala não ajudava em muita coisa. Eriol voltou a tomar a palavra.

— Ah sim, você não a conhece Nakuru. Essa é Kinomoto Sakura e aquele é Li Syaoran.

Akizuki desgrudou de Kinomoto e me lançou um olhar zombeteiro.

— Aaah, Syao-chan?

Ah, que inferno!

— Eu pensei que iríamos fazer perguntas ao intruso — argumentei mudando o rumo da conversa, as coisas estavam calmas demais para quem acabara de sair de uma luta.

— Bom, parece que saímos mesmo um pouco do assunto principal. Como ele está Nakuru?

Akizuki soltou Kinomoto e se aproximou novamente do corpo.

— Apenas desacordado, mas deve acordar logo.

Akizuki ficou próxima ao capuz que escondia o rosto do atacante. Toda a nossa atenção estava no corpo desacordado. Quando o ar pesado pareceu ter se cortado em dois, foi quando percebi que Kinomoto tinha refeito sua espada e estava em posição de combate atraindo atenção do grupo como da ultima vez.

Então, pude ver algo tão bizarro quanto a habilidade de Kinomoto com seu sangue. Uma sombra por baixo do corpo se movia lentamente. Não uma sombra normal, é claro, mas algo vivo. De súbito, se expandiu como elástico e se transformou em várias lanças negras ao redor do corpo atacando a todos ao mesmo tempo. Kinomoto ergueu uma barreira protegendo a mim e Meiling enquanto o resto conseguiu se desviar. Isso era diferente do que tinha acontecido na primeira vez.

O corpo que estava inerte foi imerso pela sombra negra e se desprendeu dos fios que o seguravam, voltando a vida outra vez. Desta vez, atacou com tudo. Talvez estivesse esperando uma brecha para poder escapar. Aproveitando o ataque surpresa, as lanças ao redor do corpo se recolheram, girando em si e ele se levantou em direção a porta a destruindo em pedaços.

— Nakuru!

Eriol gritou enquanto preparava sua famosa teia invisível, algo que ele só podia usar dentro de uma kekkai, isso nos deixa em vantagem. Por instinto, fiquei na entrada do clube como um escudo para Meiling e Eriol. Kinomoto estava ao meu lado em posição de ataque.

Mais a frente Akizuki correu perseguindo o corpo possuído até a metade do corredor. Ela fez vários pequenos cristais aparecem no alto da sua mão esquerda e os jogou na única saída principal do fundo impedindo a fuga do corpo. Ele girou e voltou a correr em sua direção, as garras em suas mãos surgiram novamente por baixo da capa. Akizuki se esquivou evitando as garras com dificuldade entre as lanças negras do braço direito dele que fincaram com força na parede, imobilizando parte de seu corpo.

Akizuki se agachou e rolou para o lado oposto, e o oponente seguiu seus movimentos, mas não rápido o suficiente. Os cristais de Akizuki se espalharam pelo seu braço esquerdo invalidando a outra mão de garras e finalmente ele parou de se mover.

Satisfeita consigo, Akizuki se levantou e bateu um pouco o pó das suas roupas. Contra a luz, era possível ver vários minúsculos feixes brilhosos ao redor do corpo do oponente que podiam imobilizá-lo ou o usar como um fantoche qualquer. Aquela era a teia que Eriol estava preparando na sala assim que o inimigo tentou fugir.

— Mas o quê…? — ouvi Eriol murmurar no fundo, Meiling voltou sua atenção para ele.

— O que houve Eriol?

Antes que ele pudesse explicar, Kinomoto saltou em direção a Akizuki com a espada em punho para atacá-la de frente. Não havia muito tempo para que Akizuki pudesse se proteger com os cristais, então ela rolou para frente saindo da sua mira. O perigo era iminente, mas Kinomoto avançou sem hesitação quando o corpo voltou a se mexer mesmo preso aos fios invisíveis de Eriol.

— Espere Sakura-chan!

As linhas de Eriol foram quebradas e o corpo se libertou, mas agora seu foco era Kinomoto. Porém, ela habilmente pulou por cima de seu ombro e girou seu corpo o partindo em dois pedaços que caíram em um baque silencioso a sua frente. Estava aliviado por isso, mas não houve tempo para brigar com Eriol quando o corpo mesmo dividido em dois se regenerou como se não tivesse levado dano algum.

— O que é essa coisa? — Meiling perguntou assombrada.

— Eu não sei, mas precisamos pará-la agora — Eriol retrucou — Nakuru, Sakura-chan, vocês ficam com o outro lado! Nós vamos cuidar desse!

Akizuki assentiu. Ela e Kinomoto cercavam a parte dividida de cima que criara pernas negras por baixo da túnica. Akizuki conseguiu acertar o corpo com seus cristais imobilizando outra vez, porém eles eram quebrados com facilidade e se dividiam cada vez mais que Kinomoto o acertava com sua espada dourada.

Os truques de Eriol também não estavam funcionando contra a outra metade por mais que Meiling pudesse contê-lo para não se aproximar demais, tudo o que eu pude fazer foi agir como escudo humano para que ninguém fosse acertado fatalmente. Eu não podia ficar parado assistindo sem fazer nada.

— Meus ataques não funcionam! Como vamos derrotar algo que não pode ser atingido?

Eriol parecia visivelmente apreensivo.

— Droga, não vamos poder continuar atacando dessa maneira.

— Estamos na escola! Porque você não pensou nisso antes de colocar uma armadilha aqui!?

— Não se trata disso, Meiling.

— Você sabe o que é Eriol? — Akizuki perguntou.

Eriol ficou em silêncio e contraiu os dentes. Sua postura não estava mais séria e concentrada, posso dizer, que ele estava realmente abismado com esse oponente, tanto quanto com as habilidades de luta de Kinomoto.

Não, esse oponente não era um feiticeiro comum. Acho que você também deve ter percebido isso. Ninguém pode ser partido em várias partes e regenerar partes perdidas de um corpo como ele faz, apenas com mágica, nem mesmo eu posso fazer algo assim. Ficou claro desde o primeiro momento que o corpo em si estava morto, mas algo o estava manipulando. Aquela sombra. Eu não podia dizer com certeza se fazia parte do corpo e era a forma com que algum outro feiticeiro podia estar o usando como marionete igual os fios mágicos de Eriol.

— Parece que eu subestimei demais nosso inimigo — comentou Eriol afobado ao desviar de mais um ataque.

— Subestimou?

— Eu também não esperava por isso.

Meiling e Akizuki estavam confusas, ao contrário de Kinomoto.

— Se estamos lutando com uma marionete, o que é isso afinal?

Eriol respirou fundo. Encarando o inimigo a frente com o rosto impassível, pude confirmar minhas suspeitas. Era surreal o suficiente que preferi esperar Eriol falar em voz alta. Meiling vai ficar com raiva. Bom, eu mesmo estou muito furioso agora.

— A marionete é um youkai, Meiling.

Meiling arqueou as sobrancelhas, espantada.

— Mas como?

Eriol franziu o cenho desviando o olhar, não era disso que queria falar. Meiling suspirou exasperada com as sobrancelhas inclinadas. Eriol tinha cometido um erro absurdo, mas essa não era a hora de discutir. O olhar de Meiling era gélido, pronta para argumentar. Me obriguei a interrompê-la, por mais que entendesse sua fúria.

— Esse não é o problema.

— É claro que é!

Meling tentou argumentar, Eriol a interrompeu desta vez.

— Ele está certo. Esse é o menor dos nossos problemas agora.

Eriol estava preocupado. Nenhum de nós tinha o poder necessário para destruir um youkai. Além do mais, ele estava sendo controlado, o que tinha levado todo o plano de Eriol pelo ralo.

De toda forma, isso era um completo desastre.

Eu sei o que você deve estar pensando. Se somos feiticeiros como não poderíamos derrotar um youkai aqui? Bom, a resposta é bem simples. Um youkai, como eu já devo ter dito, é um espírito oriundo das emoções negativas das pessoas. Ele não é um monstro corpóreo, ele é tal qual um fantasma. Mas a diferença é que ele pode atacar fisicamente, mesmo não sendo corpóreo como uma gosma.

Por isso o fato dele estar sendo controlado é preocupante o suficiente para deixar todos em alerta. Essa pessoa não é alguém comum. Apenas um mago extremamente poderoso deve conseguir realizar um feitiço desse nível. Mesmo assim, destruir um youkai sem deixar danos ao redor é ainda mais impossível.

— Eu vou ter que desfazer a kekkai.

— Não! Estamos na escola! Mesmo que os Hiiragizawa consertem isso depois, não podemos dizer o mesmo se pessoas normais forem atingidas por um youkai!

— Não podemos derrotar um youkai aqui, Meiling!

— Isso foi antes de você planejar uma emboscada na escola. Vamos ter que resolver de outra forma.

Eriol não estava satisfeito, desfez a rede de linhas e se preparou para um ataque mais ofensivo. Toda essa situação não era nada agradável, a precipitação de Eriol poderia levar a um conflito desnecessário. Ele não estava acostumado a perder estavam seu próprio jogo. Por mais que sentisse uma imensa satisfação em ver Eriol derrotado por si, o que está em jogo é mais preocupante do que inflar meu ego agora.

— Meling está certa, não podemos fazer algo assim na escola sem chamar atenção, então não há como resolver isso sem a kekkai. O problema é que não há como derrotar um youkai dentro de uma kekkai. Não podemos fazer nada do que vocês dois querem.

Eriol suspirou.

— Tudo bem Meiling, você está certa. Vou manter a kekkai.

— Não, me desculpe, se não fosse o youkai estaria tudo resolvido.

Não pude evitar um sorriso de canto.

— Eu posso tentar segurar ele por um tempo até vocês decidirem o que fazer. Não sou tão inútil assim.

Eriol concordou. Enfim, pude respirar relaxado outra vez, agora preciso me focar no youkai. Discussões não iriam ajudar em nada. Akizuki e Kinomoto continuavam a manter o youkai à distância, também sem muito sucesso.

— Podemos tentar selá-lo — Meiling observou — se isso não diminuir os danos, pelo menos ele não vai poder se dividir.

— Sim, isso pode dar certo, mas primeiro temos que juntar todas essas partes.

— É melhor que você faça Eriol.

— Tudo bem, eu só preciso de algum tempo para preparar o selo.

Eu e Meiling ficamos a frente de Eriol. Ele fez seu báculo voltar a forma original e começou a traçar vários caracteres pretos no ar.

— Certo. Nakuru, Sakura-chan! — Eriol chamou as minhas costas — Nós precisamos juntar todas as partes do youkai, não ataquem mais! Meiling e Syaoran, vão ajudar vocês!

Akizuki concordou sem hesitação e seguiu uma linha ofensiva de luta, sem usar mais os cristais róseos, Kinomoto a imitou desfazendo a espada. Meiling usava o mesmo tipo de luta que eu estava acostumado a treinar, por causa disso, nossa sincronização era quase que perfeita. Ela parecia ter perdido o medo inicial agora que começava a se acostumar com a batalha.

O plano estava seguindo com sucesso até agora, mas existiam muitos pedaços separados uns dos outros do youkai original. Eu pude sentir a kekkai oscilar por um instante. Pela janela do corredor dava para ver uma corrente elétrica percorrer pelas paredes translúcidas. Essa pequena oscilação distraiu Meiling, mas foi Akizuki quem perguntou.

— O que está acontecendo Eriol?

— Alguma coisa está tentando penetrar na kekkai!

Meiling girou o chute, dando um duplo carpado em seguida para perto de Eriol. Como se esperasse por isso, a sombra a seguiu. A massa densa rapidamente se transformou em uma lâmina afiada e estava prestes a alcançar seu braço quando consegui pular entre os dois, empurrando Meiling para trás.

A ponta rasgou queimando de leve meu ombro direito. Senti o sangue escorrer pelo braço. Aproveitei para agarrar o braço do youkai e chutá-lo em direção a outro que seguia Akizuki. Os dois bateram na parede oposta. Kinomoto tinha indo em direção deles, segurando-os pelas roupas com uma pirueta, arremessou contra os três que lutava.

— E o selo?

— Estou quase terminando. Só mais um pouco...

Uma pequena pilha de corpos deformados se juntava no meio do corredor, presos uns nos outros. Todos estavam ofegantes. Akizuki se afastou ainda esperando que outro youkai a seguisse.

— Não vamos poder aguentar por muito tempo Eriol! Você precisa prendê-lo agora!

A kekkai oscilou com mais força dessa vez, as paredes reluziam na luz do sol, prestes a desabar. Uma luz dourada crescia as minhas costas, o selo que Eriol estava preparando devia estar quase completo. Os youkais não estavam mais se mexendo para nos atacar.

— O selo está terminado! Vão agora!

Vi as correntes do selo subirem pela pilha de corpos do youkai. Não havia nenhum tipo de resistência, pelo contrário, a cada corrente que surgia ao redor do youkai, ele parecia se misturar ainda mais em si mesmo. Mas, quando percebi já era tarde demais.

— Não! Espere!

Ao mesmo tempo a kekkai desabou.

— Droga! Ele desfez a kekkai!

Sem nenhuma dificuldade o youkai se livrou do selo de Eriol quando estava prestes a selá-lo. Akizuki tentou fechar todas as brechas possíveis do corredor enquanto Sakura e Meiling pularam ao encontro do youkai. Infelizmente os ataques não tinham efeito contra ele e logo os cristais começaram a rachar como aconteceu com a kekkai.

— Syaoran, eu cuido da Meiling — Eriol me chamou — ajude Sakura-chan!

Acenei em resposta. Enquanto seguimos para direções diferentes invoquei um talismã de vento. Quando vi o leque de Meiling imagino que ela tenha pensado o mesmo, o encontro das rajadas de vento fez o youkai debater em si mesmo perdendo um pouco da sua força inicial, isso fez com que conseguíssemos nos afastar dele. Kinomoto, no entanto, partiu a frente de encontro com o youkai. Enquanto ele se transformava, ela conseguiu desviar de seus golpes com facilidade, até ser atingida e cair no chão com força.

A garra tentou feri-la, mas Kinomoto usou seu sangue para criar uma barreira sólida deitada no chão. Logo ela rolou para o lado quando o sangue começou a rachar antes de conseguir chegar a sua forma definitiva. Eu pude ver outra garra se aproximar e me joguei contra antes de pudesse chegar até ela. Senti o corte no abdômen arder e ignorei o acertando com um talismã de raio.

Lancei outro talismã, tentando ganhar algum tempo antes de me aproximar de Kinomoto. Após se esquivar dos ataques, ela conseguiu ficar de pé e pulou colocando a mão no peito, do lado direito dela, pude ver outra garra ameaçando se aproximar. Não pensei duas vezes antes de me jogar contra as garras. Estava pronto para empurrar Kinomoto para longe quando ela se afastou de mim e deu uma cambalhota em direção as garras.

— Não se aproxime Li!

Kinomoto me empurrou com força contra a parede oposta que caí por cima do meu braço direito. Além do ombro cortado e o abdômen ferido, senti minhas costas ardendo e o gosto de sangue na boca. Tentei me levantar, mas minha habilidade de cura tinha acabado de começar. Embora meu corpo queimasse como o inferno, consegui me apoiar na parede. Não pude fazer nada além de a observar se aproximar mais do youkai.

Um mahoujin brilhou em seus pés, enquanto ela se desviava de outro ataque. Pude ver sua mão entrar no uniforme sujo de poeira e manchas de sangue, tirando o pingente de dentro do pescoço quebrando o fecho do colar. Essa era mais uma daquelas cenas desagradáveis que vi desde o dia em que nos conhecemos. Como se estivesse vivo o sangue envolveu a luz do pingente e começou a se espalhar ao redor de Kinomoto, dessa vez não se transformou na espada dourada. As gotas continuaram a se espalhar flutuando ao redor. Até atingirem o youkai.

Diferente dos outros ataques, quando o sangue caiu e se espalhou por todo o corredor, o youkai começou a se desmanchar e ferver com um urro alto e agonizando. Me obriguei a cobrir meus ouvidos e fechar meus olhos até que a fumaça cinza começou a se dispersar. Senti o ar comprimir novamente ao redor, Eriol estava armando outra kekkai. Quando voltei a abrir os olhos o youkai havia sumido. Não sei bem se pelo ataque de Kinomoto ou se enfim tinha conseguido fugir.

— Estão todos bem?

— Sim! — Akizuki respondeu do lado oposto do corredor — Conseguimos derrotá-lo?

— Não. Ele fugiu — retrucou Eriol andando até a janela próxima a porta do clube. Seu olhar frio e analítico percorreu de Kinomoto para algo do lado de fora — mesmo assim, coloquei um rastreador nele. Não deve demorar para sabermos quem está por trás disso.

Uma vez que as janelas estavam semi-abertas agora, pude ver com mais clareza o corredor. Akizuki começou a desfazer seus cristais, liberando a saída. Voltei meu olhar para Kinomoto. Parece que ela tinha se sobrecarregado para tentar limpar suas impressões negativas. Estava muito próxima do limite que qualquer pessoa devia aguentar. Caminhei até Kinomoto e ela sorriu desajeitadamente.

— É apenas anemia. Afinal, eu uso o meu sangue…

Seu rosto estava pálido. No entanto, ela era corajosa. Mesmo em um estado de tal agonia que não podia ficar — e, ainda assim, sorriu para não me preocupar. Coloquei um joelho no chão para ficar mais próximo dela e peguei a mão suja de sangue onde o corte estava profundo. Kinomoto recuou assustada.

— Não! Se você tocar nele, você vai…

— É apenas sangue — interrompi tomando sua mão de volta nas minhas. Com um lenço do meu bolso, fiz um curativo envolvendo seu machucado para que estancasse a ferida.

De repente, Kinomoto caiu. Coloquei meus braços para pegá-la. Eu podia sentir o peso do seu corpo magro. Ela me deu um sorriso gentil com o rosto encostado em meu peito, e então, desmaiou em meus braços exausta. Foi esse lado dela que nunca me fez querer abandoná-la. Não importa o que aconteça… Eu quero protegê-la.

— A propósito, Syao-kun.

Eriol me chamou do nada. Me virei para olhar seu rosto desagradável, embalando Kinomoto em meus braços o tempo todo.

— Você viu o que estava debaixo do sobretudo?

— Sim. Fios.

Minha voz quebrou no final. Eu imagino que meu rosto esteja com um olhar azedo também.

— Você não precisa ficar assim. Eu não penso mal de você.

Apenas feiticeiros com um poder mágico muito alto podem usar um youkai dessa forma, ainda assim um acontecimento raro. Por isso, quando uma marionete assassina um humano, há sempre aqueles que me vêem como uma ameaça. Este incidente, entretanto, me deixou com uma sensação desagradável quando ao meu próprio passado.

— Sim, não estou preocupado com você. Você não vê o problema? Estamos lidando, provavelmente, com alguém que devia estar morto há décadas que está escondido em algum lugar por aí e que ainda pode controlar Youkais. Esses dois lados não deviam ser antagônicos? O que diabos vocês estão atrás?

Era tudo o que eu queria saber. Eriol cruzou os braços com aquele olhar superior de novo.

— Você não sabe do que fala, e é por isso que eu coloquei uma armadilha — para descobrir. Se soubéssemos nada disso seria necessário.

Eriol fitou Meiling antes de fixar seu olhar em Kinomoto.

— Sakura-chan está bem?

— Sim. É só anemia.

— Bom, graças a deus estamos todos vivos. Precisamos de reforços agora.

E assim, ele encerrou o assunto. Isso me deixou nervoso.

— O que, você vai me deixar no escuro?

— Não. Estamos todos nervosos, não sei o que seria uma boa decisão agora mesmo. Além disso, não sabemos o que está realmente acontecendo, mas até chegarmos lá você vai ouvir tudo querendo ou não.

Eriol hesitou, e seu olhar desceu para o corpo de Kinomoto em meus braços. Meus sentidos estavam alerta — nada de bom poderia vir de Eriol em relação a Kinomoto aqui.

— Talvez seja melhor que Sakura-chan fique conosco por um tempo.

— Não.

— Syaoran, é melhor para todos que...

— Não, não isso.

Eriol me fitou com o rosto sério e impassível.

— Eu sei que você está nervoso agora Syaoran, mas Sakura-chan é a única que pode estar ligada à quem está por trás desses ataques nós não podemos deixar alguém assim andando sozinha por aí. Então…

Eu o interrompi.

— Se esse é o caso, eu posso vigiá-la. Isso não viola o trato, não é?

— Não exatamente… — Eriol suspirou alto e cruzou os braços — Eu sei como você se sente, mas não posso fazer uma exceção de algo assim.

— Sim, pode. Eu tenho uma idéia.

Eriol me estudou por um momento com as mãos no queixo, então acenou a cabeça com um suspiro alto, enfim se dando por vencido.

— Tudo bem então — disse andando na minha direção até parar do meu lado, terminando a frase — Porém, é melhor que depois disso você não viole o nosso trato.

Depois disso Eriol se afastou e foi em direção à Meiling, falando algo sobre entrar em contato com alguma equipe auxiliar. Seria perda de tempo pressioná-lo mais. Eu olhei para Kinomoto, que ainda estava inconsciente. Seu rosto parecia um pouco mais rosado, obviamente porque seu sangue estava de volta em circulação. Em seguida, olhei ao redor do corredor. As marcas de sangue estavam por todo o lugar. Pequenas poças de sangue se estendiam pelo piso até a dois metros das paredes, onde os rastros ficavam ainda mais confusos e violentos. Não parecia nada com um corredor de uma escola comum.

— … Li-kun?

Ouvi uma voz fraca. Aparentemente, Kinomoto estava consciente outra vez.

— Você está bem?

— Sim, estou bem…

Ela fechou os olhos e murmurou como que para ela mesma.

— Porque você faria algo tão perigoso…?

— Eu queria te salvar.

Minha voz pareceu acordá-la para a realidade e Kinomoto se levantou de novo, recostando-se na parede do corredor colocando uma distância entre nós como um gato assustado.

— Mas eu fui treinada para o combate.

— Sim, eu sei. Mas quando eu pensei que você seria atacada de novo… Meu corpo simplesmente se moveu sozinho e… e eu...

Me calei por completo tentando achar as palavras que eu queria dizer a ela. Queria dizer o quanto eu me sentia impotente se ela se machucasse quando eu podia fazer algo. Só que isso era tão… tão… vergonhoso a se dizer. Eu não faço ideia de como ela reagiria se eu dissesse algo assim.

Bom, só de sequer pensar em algo assim já me deixava nervoso.

Kinomoto permaneceu em silêncio e um sorriso gentil cruzou seu rosto me encarando mesmo depois do que eu tinha acabado de falar. Engoli em seco. Eu não posso mentir em dizer que aquilo não tinha me surpreendido.

— Você é gentil, Li-kun.

— P-porque você está dizendo isso?

Ah não! Minha voz quebrou, droga, eu imagino que meu rosto esteja completamente vermelho. Eu não posso encará-la, por isso, tive que virar meu rosto.

— Você me trata normalmente, mesmo depois de ver o que eu fiz.

Eu a fitei pelo canto do olho. Seu sorriso era tão fugaz que desapareceu completamente. Eu não conseguia sorrir de volta para ela. Eu via tanto de mim nela.

— Li-kun.

— Sim? O quê?

— Você acha que eu… pareço uma pessoa comum?

Que pergunta. Eu não pude deixar de sentir um peso em meu peito.

— É claro que sim.

Seus olhos baixaram para o chão desviando dos meus, enquanto ela aumentou ainda mais a distância entre nós. Kinomoto se virou dando as costas para mim, os braços pendendo de lado.

— Seria bom... se isso fosse verdade… — ela murmurou tão baixo que só eu devo ter escutado, mesmo assim sua voz era suave apesar da rejeição.

Ela só podia encontrar um lugar onde pudesse ser útil aos outros. Senti vislumbrando a mesma escuridão que eu carregava em Kinomoto. Ela só queria ser tratada como alguém comum, e, mesmo assim, as pessoas ao seu redor não a aceitavam como uma.

Ela só queria ser comum.

Eu entendi esse desejo… Dolorosamente bem.

Eu simplesmente não iria conseguir abandonar uma garota que teve que lutar contra tudo isso sozinha. Isso era muito parecido como ela não poder ignorar qualquer ameaça estranha. Porque algo assim tinha que acontecer… Sorri secamente. Kinomoto começou a caminhar em direção às vozes de Eriol e Akizuki e eu a segui.

Não demorou muito até que os reforços dos Li chegassem. Meling chamou um grupo especial com limousines dos Li para todos até um pequeno conjunto de apartamentos com roupas limpas, afinal, não podíamos andar por aí completamente sujos de sangue e poeira. Depois disso, podíamos ir para casa. Sakura recusou a carona e saiu em direção a seu apartamento a pé. Eu a segui outra vez.

Por muito tempo, eu só andei atrás dela um pouco distante. Ainda assim tenho certeza de que ela sabia da minha presença. Eu não sabia bem se ela estava me ignorando ou apenas esperando ver até onde eu iria. De qualquer modo, quando chegamos próximo a um edifício de pequenos apartamentos amarelos, Kinomoto parou. Imagino que seja aqui que ela mora.

— Porque você está me seguindo? — perguntou Kinomoto, sem se virar.

— Porque você está indo atrás do "Além do Horizonte"?

Sua postura se manteve, mas eu esperei. Ninguém além de Kinomoto poderia me dizer porque ela estava fazendo tudo aquilo.

— Há algo que eu preciso fazer.

Só havia uma coisa que eu poderia arriscar em dizer. Eu não tenho certeza de que o que estou pensando é o certo, muito menos que seja o que Kinomoto esteja pensando. Primeiro, deixe-me explicar.

Um sonho.

O que alguém que perdeu tudo poderia querer com um sonho que pode realizar o que você quisesse? Você também deve ter entendido. É algo óbvio. Podia entender os motivos que Kinomoto tinha para alcançar esse sonho. Era algo que também havia dentro de mim. De alguma forma, o silêncio que ela deixou entre nós fez com que alguma coragem chegasse a minha voz.

— Um acidente aconteceu.

Kinomoto não se moveu e isso aumentou minha coragem de continuar.

— Você perdeu o controle dos seus poderes e machucou alguém.

Esperei alguma reação de Kinomoto, mas ela continuou de costas para mim. Eu não podia ver seu rosto, então me precipitei em sua direção até que ela voltou a falar. Sua voz ainda era distante, no entanto havia certa tom irritado na forma que as palavras soaram.

— Isso não é da sua conta.

— Capturar "Além do Horizonte" não vai mudar nada! Os mortos não voltam! Tudo o que você vai viver... é uma mentira.

— Eu sei disso...

— Então porque...?

Kinomoto me interrompeu.

— Por favor, vá embora, Li-kun.

Em poucos passos Kinomoto calmamente alcançou a porta de seu apartamento, sem virar o rosto para trás nenhuma vez. Ela sabe que eu ainda estou aqui. Por isso, mesmo quando a porta se fechou, continuei a sentir sua presença ali, ainda no hall de entrada inerte. Não conseguia tirar meus olhos dali. O vento da noite correu outra vez mexendo os galhos das árvores, mas para mim todo o resto estava mudo. Porque justo algo assim tinha que acontecer? Eu devia me manter longe de problemas.

Mas o que eu estou dizendo? Agora é tarde demais.

Não quero abandoná-la, mas com as coisas desse jeito… eu sou inútil para alguém como Kinomoto. Se eu pudesse realizar um desejo, algo que eu sempre quis, nada nem ninguém iria me impedir de conseguir isso. E ela parecia estar mais perto disso do que qualquer um. Será que eu posso dizer que algo assim está certo?

Kinomoto tinha algo que queria recuperar. Algo que deve ser muito importante para ela. Suspirei fundo quando percebi minhas mãos tremerem de tanto apertá-las. Mesmo assim, não foi o suficiente para conseguir mexer meus pés. O que exatamente eu estou fazendo? Que patético. Engoli em seco. Toda essa situação está me deixando impaciente, mesmo que eu insista, Kinomoto não irá desistir de algo que quer tanto recuperar. Talvez, desta vez Meiling esteja certa, eu estou mesmo me metendo em algo que não deveria.

A brisa tentou me acalmar outra vez. Quando consegui dar meia volta ao caminho que fiz seguindo Kinomoto, me deixei distrair com o nada. Infelizmente sem sucesso algum.

Aliás, já era tarde. Vasculhei meus bolsos procurando por algum trocado que pudesse comprar meu jantar. Não ia dar tempo chegar em casa e fazê-lo eu mesmo. Voltei meu olhar para a porta e suspirei. Mas que droga, porque estou hesitando? Mesmo que eu vá até lá, ela não vai abrir a porta. Não adianta persistir nisso. Kinomoto continuava parada à porta como eu estava em frente ao poste de luz em frente ao conjunto de apartamentos.

Eu não sei bem o que pensar, mas sei que definitivamente, Kinomoto não deve estar envolvida com Clow Reed. Que motivo teria ele em atacá-la dentro de uma kekkai? Eriol deve estar certo quando disse que alguém tinha a traído. Depois de hoje, talvez ela possa ter percebido.

Meus sentidos gritaram outra vez — podia sentir o perigo no ar. A presença de mais cedo tinha surgido outra vez, vindo da direção que se encontrava o apartamento de Kinomoto. Não precisei pensar duas vezes para dar a volta e sair correndo apesar do meu estômago roncar alto.

Tudo aconteceu tão rápido quanto na luta mais cedo. Alguns barulhos altos vieram do apartamento e pararam de súbito quando parei em frente a porta fechada. Inspirei todo o ar que consegui, apertei a campainha e esperei impaciente.

Algo estava estranho.

Eu não sentia mais a sua presença.

Então o que aconteceu parecia que tinha saído de um filme de terror. Quando toquei na porta ela se abriu sozinha, rangendo com um som alto e estrangulado. Eu a abri ainda mais por puro instinto e a chamei:

— Kinomoto-san?

Esperei. Nada se mexia. As luzes estavam apagadas deixando todo o lugar no breu. Tirei os sapatos na entrada e entrei um pouco hesitante encontrando o interruptor na pequena cozinha. Nada ali parecia anormal. Dei mais dois passos quando senti pisar em algo viscoso no chão e abaixei o olhar onde o meu pé esteve. No chão, tinha ficado uma mancha pequena e escura. Enquanto eu as acompanhava com o meu olhar, vi outra e outra de tamanhos diferentes indo em direção a sala.

Segui a trilha subindo o olhar e entendi o que eram. Quando finalmente cheguei a sala janela de vidro estava aberta com os ferros amassados e infinitos pedaços de vidro se dispersaram pelo chão junto com a trilha de poças de sangue.

Continua…