Disclaimer: Saint Seiya não me pertence. Faço este fic sem fins lucrativos, apenas por diversão.

Uma Nova Vida

Capítulo II: Um Pesadelo

Foi com tranqüilidade que ela fechou os olhos ao deitar-se na cama no mesmo quarto simples que dormira na noite anterior. Mas aquela tranqüilidade não durou muito. Foi com a mesma velocidade que a escuridão invadiu seu sonho que a momentânea alegria se esvaiu.

Não estava mais deitada naquela pequena cama, envolta de construções esplêndidas, ao lado do Cavaleiro de Virgem que tanto lhe dava segurança. Estava sozinha, muito sozinha, e sentia frio. A sua respiração parecia ecoar no pequeno lugar que estava. Sentia que não podia se mover direito, e que cada centímetro do seu corpo estava dolorido… por que tinha que estar ali? Por que ninguém nunca aparecia para ajudá-la? Por que não podia simplesmente voltar para casa?

Deixou que um sorriso se espalhasse fracamente por seu rosto ao ver uma fresta de luz não muito distante. Havia vozes também, vozes alteradas. Será que finalmente tinham ido buscá-la? Tirá-la daquele lugar frio e escuro? A resposta veio com um movimento rápido e brusco, que por conta da escuridão, ela não percebeu. Fechou os olhos instintivamente, imaginando que não resistiria muito…

A mulher levantou-se com tanta urgência na cama que por pouco não caiu. Olhou ao redor várias vezes para ter certeza de que estava mesmo no Santuário de Athena e não naquela mesma sala escura. Passou a mão pelos cabelos para organizá-los e finalmente sentiu uma leve marca que havia atrás da orelha esquerda, sob os longos fios de cabelo. Não sabia o que era, e não sabia o que o sonho que acabara de ter significava… mas não duvidava nada que fosse parte de suas memórias tentando atormentá-la. Naquele segundo, observando o lugar em que estava, levemente iluminado pela luz do sol nascente, imaginou se realmente deveria lembrar do que a estava atormentando. Ao passar a mão pelo rosto, para tentar acordar por completo, notou que estava molhado numa mistura de lágrimas e suor.

Sem pensar duas vezes, levantou-se com urgência da cama e foi direto até o banheiro. Precisava apenas de um banho frio para acordar e esquecer tudo o que tinha acontecido. Sorriu diante do próprio pensamento. Ela estava tentando lembrar, e não esquecer mais coisas.

Depois do banho e de colocar outro dos vestidos de Saori, andou pelo caminho já conhecido até a sala de jantar. Mesmo tão cedo na manhã, a refeição matinal já estava servida, e ainda havia dois lugares à mesa. Sentou-se e ficou fitando a comida por algum tempo, depois daquele sonho estranho, perdera a vontade até de comer, mas nem podia pensar em desperdiçar comida.

– Você precisa se alimentar melhor. – a voz de Shaka invadindo o ambiente fez com que ela virasse os olhos para ele. O virginiano estava com uma camisa sem mangas dessa vez, e uma calça folgada, além de faixas enroladas em seus punhos. – Ainda precisa repor o sangue perdido.

Ele sentou-se à mesa e Alice apenas acenou positivamente com a cabeça, começando a se servir. Imaginou durante algum tempo se seria bom contar pra ele sobre o sonho, embora ele não significasse muita coisa. Depois de incômodos cinco minutos em silêncio, ela deixou um suspiro escapar apenas para chamar a atenção do loiro e começar a falar.

– Eu tive um sonho hoje… – ela deixou o pão que estava comendo no prato, evitando olhar para Shaka. Sabia que os olhos dele estavam fechados, mas ainda conseguia senti-lo com a atenção nela, com o rosto voltado para ela. – Não foi nada muito importante, nem que me fizesse lembrar alguma coisa concreta…

– O que era?

– Eu estava sozinha… presa em alguma sala escura. Não dava pra ver nada. Tinha vozes alteradas também em algum lugar fora da sala… então… alguém entrou e… tentou bater em mim com algum objeto. Eu acordei. – ela explicou, sentindo calafrios com as palavras pronunciadas.

– Foi só um pesadelo. – Shaka disse, não aparentando muito interesse.

– É. Foi só um pesadelo. – ela sorriu forçadamente, voltando a comer, quando o cavaleiro se levantou.

– Eu estarei treinando. Sinta-se à vontade. – Shaka disse, desaparecendo mais uma vez pelo portal que dava para a sala.

Alice terminou de tomar café da manhã, e instalou-se na sala de estar, lendo alguns livros que havia numa prateleira ali mesmo. Não se impressionou por não ter a chance de ver o loiro de novo até o almoço. Ele parecia até estar se esforçando para fazer-lhe companhia pelo menos nas refeições. Não tinha muito do que reclamar, afinal, estava atrapalhando a rotina dele com aquela idéia de ficar ali. Talvez se tivesse ido para o tal campo das amazonas, ele estivesse mais despreocupado e treinando o que devia treinar, seja lá onde fosse.

Na verdade, não sabia se tinha sido uma boa idéia ficar ali. Mesmo que o cavaleiro estivesse possivelmente por perto, ela continuava se sentindo sozinha, e precisou fazer um esforço sobre-humano para não se lembrar daquele maldito pesadelo e não deixar aquelas emoções confusas se descontrolarem para começar a chorar. Constantemente, olhava para os lados e para as frestas escuras dos portais e entre as colunas da casa, imaginando que alguma coisa fosse aparecer de repente. Ela mesma estava se sentindo incomodada com a situação, afinal, não fazia idéia de porque tinha aquele medo crescente… estava ainda mais insegura.

Depois do almoço, ela ainda andou pela Casa de Virgem para ficar um pouco do lado de fora, apenas observando os limites do Santuário. Havia algum movimento para além das Doze Casas, e talvez fossem os outros cavaleiros ou aspirantes, mas não dava para ver nada direito nem detalhes do que estavam fazendo com a distância. Não era de se surpreender que pudessem estar treinando.

Ela se sentia bem melhor ali fora. Talvez lhe desse mais sensação de liberdade do que quando estava lá dentro, embora aquela insegurança persistisse e parecesse que ia lhe seguir pelo resto da vida, mesmo se lembrasse de seu passado. Era tão calmo e silencioso ficar ali fora, que continuou ali por um longo tempo, até os raios de sol começarem a dar sinal de estarem mais fracos. Durante aquele tempo, quase adormeceu duas vezes, e teve a ligeira impressão de escutar sons de coisas sendo destruídas, explosões. Não fazia idéia de onde aqueles sons vinham ou se era apenas a sua imaginação, mas algumas vezes também achou ver a poeira subindo em algum ponto específico além das Doze Casas.

Quando a brisa começou a esfriar, entrou na casa de novo, para parar na sala de estar e se deitar confortavelmente no sofá grande. Ficou apenas tentado fitar o teto da casa, coberto pela escuridão, e antes que se desse conta, aquela escuridão tinha tomado conta de todo o seu corpo.

O lugar em que estava parecia ainda mais frio do que da última vez. As dores no corpo pareciam piores, as vozes não estavam mais alteradas, mas falavam algo em um tom que ela não conseguia definir se estavam dentro ou fora do lugar em que se encontrava. Tentou se levantar, mas suas pernas não tinham o mínimo de força para tal. Até mesmo seus olhos estavam cansados e ela sentiu que o rosto estava gelado ainda mais pelas marcas de lágrimas incontáveis. Tentou ver alguma coisa ao redor, mas a vista doía e estava tudo tão escuro… mas já se sentia acostumada àquilo.

Tentou tatear o chão ao seu redor, procurando pela parede mais próxima e não demorou a achá-la bem atrás de si. Apoiou-se nela e mais uma vez, esforçou-se ao máximo para se levantar.

Onde… onde eu estou? – a voz saiu num sussurro tão ínfimo que ela teve dúvidas se aquilo não tinha sido apenas um pensamento distante. Mesmo de pé, suas pernas tremiam muito e provavelmente ela cairia ao tentar dar o terceiro passo. Insistiu, e finalmente conseguiu arrastar-se alguns poucos metros, tateando a parede.

Quase caiu com o susto ao ouvir as vozes se alterarem novamente em algum lugar não muito distante. Havia muitos gritos e barulhos de coisa batendo. Sentiu o medo tomar conta de seu corpo, e então, o barulho de uma porta se escancarando com força.

A iluminação vinda da porta fez com que seus olhos ardessem, e precisou fechá-los por um momento para recuperar a visão.

O QUE VOCÊ ESTÁ TENTANDO FAZER, VADIA?!

O tom da voz a assustou e ela abriu os olhos de vez para ver uma figura masculina indistinta indo em sua direção. A vista ainda estava cansada demais, e não podia enxergar as coisas direito, mas conseguia ouvir ainda as ondulações na voz do homem ao gritar… ele estava visivelmente bêbado. Ela levantou os dois braços quando viu que ele tinha erguido o braço forte para desferir um golpe nela.

Antes que o braço a tocasse, Alice levantou-se com urgência do sofá, a respiração ofegante, o suor escorrendo pela testa, misturado a lágrimas que saíam em excesso de seus olhos arregalados. Fizera o movimento com tamanha rapidez que quase caiu do móvel. Depois que conseguiu normalizar a respiração, escondeu o rosto nas duas mãos, permitindo que mais lágrimas escapassem de seus olhos.

– Mas que inferno! – praguejou em voz baixa, contendo os soluços. – O que aconteceu comigo… o que aconteceu?

O medo invadia seu peito com mais força do que nunca. Shaka lhe dissera mais cedo que aquilo era só um pesadelo, mas não podia ser… era tão real. Tão real que quase conseguia sentir as mesmas dores de seu sonho mesmo depois de acordada.

Rapidamente, ela limpou o rosto e engoliu o choro, não queria que o Cavaleiro de Virgem aparecesse de repente para vê-la naquele estado. A única coisa que não conseguia disfarçar era o tremor nas pernas e o medo em seu peito… com os olhos fechados, ele não a veria tremendo, e o medo… ele não podia saber como ela estava se sentindo.

– Teve outro pesadelo?

Ela se sobressaltou ao ouvir a voz de Shaka e virou-se para ver que ele estava parado alguns metros de distância dela.

– Não… não foi nada. – esforçou um sorriso para que seu tom pudesse parecer mais convincente.

– Acha que são memórias? – Shaka se aproximou do sofá, e ela se impressionou com a pergunta.

– Eu queria que não fossem. – Alice abraçou as pernas junto ao corpo, encostando o queixo nos joelhos. – Mas elas são tão reais.

– O que você sonhou? – Shaka parou ao lado do sofá, de frente para a mulher.

– Uma coisa parecida com o pesadelo que tive de noite. Havia uma pessoa tentando me machucar também… se bem que acho que ela conseguiu. – Alice respondeu, e só de pronunciar aquelas palavras, sentiu o coração apertar ainda mais. Teve vontade de chorar de novo, mas sabia que o virginiano ia notar aquilo.

Shaka hesitou por um momento, e o silêncio tomou conta da sala. Alice não tinha vontade de falar, abraçava as pernas com força para que seu corpo parasse de tremer de uma vez. Ele finalmente se sentou no espaço vago do sofá.

– Para você ter perdido a sua memória… o motivo pode não ter sido só a pancada na sua cabeça. – Shaka começou a falar, e parecia incerto de suas palavras. – É muito provável que tenha apagado fatos traumáticos. Não é difícil deduzir pelo jeito que se sente e pelos sonhos que teve.

– Eu… sinto muito. – ela deixou escapar quase num sussurro.

– Pelo que? – o loiro perguntou, intrigado.

– Eu disse que logo recuperaria as minhas memórias… para não incomodá-lo. – Alice apertou as pernas com mais força. – Agora não tenho certeza… se quero me lembrar de alguma coisa.

– Talvez, perder a memória tenha sido bom pra você. – Shaka falou, depois de um tempo em silêncio. – Você conseguiu uma coisa que muita gente clama em vários momentos da vida: esquecer um passado difícil. A maioria delas, só quer na verdade esquecer os erros que cometeu. Eu não a culpo por não querer lembrar. Mas enfrentar seus medos é melhor do que tentar esquecê-los.

Alice não respondeu. Não se importava se era melhor enfrentar os medos, não tinha disposição para fazer aquilo naquele momento, com o corpo tremendo e o medo aumentando em seu coração.

– Venha…

Ela levantou os olhos para ver a mão do loiro estendida bem diante de si. Piscou duas vezes para ter certeza do que estava vendo.

– Um pouco de ar fresco vai lhe fazer melhor.

Hesitante, ela estendeu o braço para segurar a mão dele. Esperava que ele não notasse seus tremores, mas na verdade, percebeu que era uma sensação muito confortável. A mão dele era quente, diferente daquele lugar de seus pesadelos, onde era tudo frio. Ele apertou um pouco a mão dela e a ajudou a se levantar do sofá. A pressão que ele fazia não era suficiente para machucar, mas era o bastante para fazê-la parar de tremer. O calor da mão dele fez com que seu corpo se acalmasse um pouco… era uma mão que não estava tentando machucá-la.

Ela sorriu ao seguir o cavaleiro para fora da Casa de Virgem, onde o céu estrelado iluminava a noite do Santuário.

Alice sentou-se na beira dos degraus da Casa Zodiacal, cruzando os pés e fitando o céu. Shaka continuava de pé, e os olhos ainda estavam fechados. Ela não sabia se estava começando a se acostumar com aquilo, ou se estava se sentindo mais incomodada.

– Você realmente não abre os olhos? Nunquinha? – ela perguntou, o corpo já tinha parado de tremer, restava apenas a mesma insegurança de sempre e o medo daquele pesadelo, mas ele também estava se esvaindo aos poucos. Imaginava que aquilo tinha sido resultado da imagem de Shaka.

– Só durante batalhas. – ele respondeu.

– Nem pra ver o céu de vez em quando?

– Não.

– Deve ser solitário aí, não?

Shaka arqueou ambas as sobrancelhas. Não sabia o que exatamente ela queria dizer com aquilo… mas às vezes, apenas às vezes, talvez se sentisse sozinho naquela escuridão, e ele nem precisava estar nela.

– Não. – ele respondeu, finalmente. Desejou estar com os olhos abertos para ver a expressão que ela tinha no rosto. – Está se sentindo melhor?

– Sim. – Alice disse, respirando fundo e se levantando. – Acho melhor ir dormir agora.

Shaka apenas acenou com a cabeça em resposta. Começaram a andar até o interior da casa, e no centro do salão principal, desviaram-se para partirem até alas diferentes. Antes que Shaka sumisse entre os corredores da casa, ouviu a voz da mulher chamá-lo novamente, talvez num tom um pouco mais alto do que ela mesma queria.

– Ei… obrigada. – disse, mesmo estando a vários passos de distância dele, sabia que ele podia ouvi-la sem precisar aumentar ainda mais o tom de voz. – Eu vou me esforçar, para lutar contra o que quer que seja.

Ele não precisou responder. Ela também não precisou ouvir a resposta. Sabia que ele não falava muito, mas estava ligeiramente preocupado com ela. Infelizmente, na distância em que estava, não foi possível notar o pequeno sorriso que se formou nos finos lábios do loiro.

xXx

Aquela noite, como muitas que se seguiram, não foi muito confortável para Alice. Era comum que acordasse todos os dias tremendo, assustada, e com o coração acelerado, imaginando se não tinha sido realmente espancada, como nos sonhos. Não tinha nada muito mais nítido entre os seus pesadelos, havia sempre o mesmo tipo de cena, e às vezes ela se perguntava se eram a mesma cena ou se aquilo tinha acontecido incontáveis vezes. Tinha calafrios de pensar pelo que tinha passado naquele tempo… ou melhor, em sua vida toda. Ainda era incapaz de se lembrar de algo.

Agora ela tinha mais cuidado em dormir pelos cantos que não o próprio quarto. Não queria continuar preocupando Shaka, e precisava arrumar um jeito de não acordar dos pesadelos antes de descobrir alguma coisa. Mas aquele instinto de defesa era sempre mais forte. E precisava sempre ficar no quarto até se acalmar o suficiente para a intuição aguçada do loiro não notar como ela estava mal por conta dos pesadelos.

Por mais que tentasse lembrar, e por mais que se recuperasse, os pesadelos podiam ir embora, mas não adiantava, aquela maldita insegurança continuava perseguindo-a dia após dia, hora após hora, pesadelo após pesadelo. Não precisava ter nenhuma daquelas cenas assustadoras em mente, precisava apenas caminhar, respirar… sentia-se a pessoa mais frágil do mundo. Bom, não devia ser estranho ter aquele pensamento, se tinha sido tão espancada em sua vida, como mostravam os pesadelos. Já tinha encontrado até algumas cicatrizes pelo corpo enquanto tomava banho, mas não eram nada muito grave ou exagerado, exceto por uma em sua barriga, que parecia realmente ter lhe dado uma bela dor.

Foi com aquela insegurança a perseguindo constantemente, que ela seguiu decidida até a sala de meditação onde Shaka geralmente ficava. Ela não sabia muito do Santuário e do treinamento dos cavaleiros. Nunca se afastava da Casa de Virgem e só ficava nos degraus de entrada, no máximo. Mas não percebia se Shaka saía muito dali para treinar, ou se treinava ali tão silenciosamente quanto meditava… não sabia nada sobre o que ele fazia como Cavaleiro, na verdade. Esperava que ele pudesse lhe ajudar com aquilo.

Ao encontrá-lo sentado sobre aquela almofada vermelha, tão concentrado em sua meditação, parou de imediato, tentando se esconder parcialmente atrás de uma das colunas, esgueirando o rosto para poder encará-lo. Ele parecia tão incrivelmente inabalável ali, e transmitia uma sensação tão calma também. Sentiu o coração falhar uma batida ao notar aquilo. Sabia que sentia-se muito bem ao lado do virginiano, e queria poder ficar ao lado dele muito mais tempo… mesmo que ele fosse tão calado. E o melhor de tudo, ter um homem daqueles ao seu lado, lhe protegendo, ao menos amenizava aquela constante insegurança.

Ficar ali, observando-o, lembrou-lhe também da primeira vez que o vira ali, meditando. Não tinha sido uma boa situação, e acabara chorando de novo. Também tomava cuidado com aquilo, sempre que começava a se sentir sozinha e com medo, ficava no quarto, para que ele não notasse caso as lágrimas escapassem de seu rosto. Afinal, estava decidida a não preocupá-lo demais, embora seu plano envolvesse ocupá-lo.

– Você deseja alguma coisa? – Shaka finalmente perguntou.

Ela arregalou os olhos ao perceber que ele só podia estar falando com ela, afinal, ele voltara o rosto na direção dela, mesmo que ainda com os olhos fechados. Um dia ela descobriria como aquela coisa de cosmo funcionava para adivinhar como ele fazia aquilo. Sabia que tinha sido silenciosa o suficiente, ele só podia ter algum tipo de sexto sentido.

– Eu… atrapalhei de novo? – ela perguntou, finalmente tomando coragem para sair de trás da coluna em que tentara em vão se esconder.

– Não está se sentindo bem? – o loiro estrategicamente desviou-se da pergunta.

– Estou… estou ótima. – Alice sorriu sem graça, mexendo nos cabelos. Não sabia exatamente como pedir o que queria pedir.

– Vai ficar aí? – ele perguntou, e ela subitamente tomou aquilo como uma ordem para sair de lá e deixá-lo treinar em paz, mas logo ele completou. – Você pode vir até aqui.

Ela não falou nada. Ficou parada por alguns segundos e finalmente andou na direção dele. Meio incerta do que fazer, sentou-se bem diante dele, numa pose bem elegante e refinada, sem ao menos perceber aquilo.

– Você quer me dizer alguma coisa?

– Eu… bom. – ela respirou fundo. Não tinha muito que hesitar mesmo, o máximo que podia acontecer era ele negar. – Pensei se você não podia me treinar!

Shaka quase abriu os olhos para poder arregalá-los de leve. Entretanto, apenas arqueou as sobrancelhas com o súbito pedido da garota. Ele não fazia muito sentido, fazia?

– Treiná-la? – Shaka precisou repetir para ter certeza do que ouvia. – Como um cavaleiro de Athena?

– Não! Claro que não! – ela balançou as mãos para enfatizar a resposta. – Não é nada disso. Eu não quero ser o que quer que vocês sejam, bom, não sei. Eu só imaginei que…

– Imaginou…?

– Eu não consigo parar de sonhar que estou sendo espancada. – Alice finalmente deixou as palavras escaparem. – E mesmo que o medo dos pesadelos passe, os tremores… a angústia. Eu continuo me sentindo insegura. É como se a qualquer momento, quem quer que tenha feito isso comigo, pudesse voltar e me levar de novo, para passar pela mesma coisa. Então… eu pensei que talvez, só talvez… eu me sentisse melhor se soubesse pelo menos o básico pra me defender.

Shaka ficou calado por uns minutos. Não sabia que ela continuava se sentindo tão mal assim mesmo com o passar dos dias. Tinha estranhado realmente que ela passasse mais tempo no quarto, e às vezes se atrasasse para alguma das refeições. Então… ela provavelmente estava tentando esconder aquilo dele para não incomodá-lo.

– Não há ninguém que possa levá-la daqui. Você está mais segura aqui do que em qualquer lugar da face da Terra. – o virginiano respondeu, e mesmo que ela sentisse uma leve alegria por ouvir aquilo, por saber que estava segura com ele, devia admitir que estava desapontada por saber que ele muito provavelmente ia negar seu pedido. – Mas, se vai se sentir melhor, acho que podemos dar um jeito.

– Mesmo?! – ela não conseguiu conter a animação e quase pulou no lugar em que estava, mas logo sentiu a face corar e precisou se controlar. – Muito obrigada! Muito obrigada mesmo! Quando podemos começar?

Mais uma vez, o virginiano teve vontade de sorrir. Estava achando que estava sorrindo demais nos últimos dias, e não tinha uma razão óbvia. Mas aquela reação animada dela pedia por uma risada, ao menos.

– Bom… eu não sei se sou bom com técnicas de autodefesa, pelo menos não as convencionais. – ele falou, e ela teve vontade de perguntar o que ele queria dizer com aquilo, mas conteve a curiosidade momentaneamente. – Faz tempo que não tenho aprendizes, não sei se conseguiria treinar alguém que não é acostumado com a força de um cavaleiro. – mais uma vez, ela teve vontade de saber do que ele estava falando, mas mudou o assunto para o que era prioridade no momento.

– Então…?

– Eu arrumarei um bom mestre para você. – Shaka falou, finalmente. – Até lá, você ainda precisa se recuperar.

– Eu já me recuperei! – ela levantou os braços como quem estava mostrando os músculos, mas não adiantava muito para alguém que estava de olhos fechados.

– Seu corpo ainda está fraco. – o loiro disse, e hesitou um pouco antes de completar a sentença. – Deve ter passado por muita dificuldade para estar assim. Mas já está se recuperando. Precisa se alimentar melhor.

– Claro! Eu vou me recuperar. – Alice concordou, com a mesma animação. Ele imaginou que ela iria se sentir mal por ele lembrar daquilo, mas estava errado. Parecia que a vontade de aprender a se defender era bem maior do que o medo de lembrar o que passara. Talvez aquilo fosse bom… talvez não fosse.

– Até lá, terei encontrado alguém para ajudá-la.

– Eu vou deixar você meditando então. – ela se levantou finalmente, dando uns passos para trás. – Obrigada de novo. Acho que não sei o que seria de mim se não tivesse me encontrado… obrigada.

Ela saiu da sala antes de poder ouvir alguma resposta, afinal… ele nunca respondia, não era mesmo?

Foi um prazer… – Shaka deixou as palavras sussurradas sumirem na imensidão da Casa de Virgem. Agora, só precisava se certificar de que encontrasse alguém para treiná-la, e talvez o ânimo dela aumentasse mais. Ela parecia ser uma garota muito mais animada do que as vezes em que a vira lembrando-se do passado e do medo. Estava começando a ficar curioso para saber se aquele lado extrovertido realmente existia antes, e se era o verdadeiro.

xXx

Naquela noite, quando Alice finalmente fechou os olhos para dormir, não foi a mesma escuridão de sempre que invadiu seus pesadelos.

O lugar ainda estava um pouco coberto pelas sombras, mas ela conseguia ver agora o chão de madeira, uma mesa um pouco a frente de onde estava sentada e também um lance de escadas que levava até uma porta entreaberta.

Olhou para as próprias mãos e viu como estavam machucadas, principalmente os pulsos, presos pelo que pareciam ser correntes. Sua visão ainda era um pouco turva e não conseguia distinguir exatamente todos os detalhes da cena. A roupa estava rasgada e com inúmeras manchas vermelhas que ela não duvidava serem de sangue. Levantou as mãos para limpar os olhos, mas não conseguiu alcançar o rosto, quando a corrente que prendia as suas mãos chegou ao limite. Estava se sentindo ainda mais fraca e inválida ali. As pernas doíam muito e sabia que mesmo se tentasse, não conseguiria se levantar.

Oh, finalmente acordou, querida. Aqui, eu trouxe comida pra você.

A voz feminina aparentemente gentil invadiu seus ouvidos. Mas mesmo com aquele tom tão doce, ela instintivamente arregalou os olhos e sentiu o medo tomar conta do seu peito. Não queria levantar o rosto para ver a dona da voz, mas também não precisou. A mulher se abaixou bem diante dela e colocou um prato com um líquido marrom na sua frente.

Oh… veja só como você está. Não se preocupe, não vai acontecer de novo, logo você vai estar boa… agora, tome um pouquinho da sopinha que mamãe preparou para você…

A mulher encheu uma colher com o líquido e levou até a boca dela. Ela não abriu os lábios, não tinha vontade de comer, mesmo que estivesse se sentindo fraca demais. Não queria comer, não daquele jeito.

Não seja uma menina má. Vamos, eu estou lhe ajudando! – a mulher insistiu, tentando levar a colher até sua boca de novo.

Alice virou o rosto para o lado, sentindo-se incomodada com a presença da mulher que se dizia sua mãe. Talvez, não devesse ter feito aquilo. A reação dela não foi das melhores.

Menina má! Menina muito mal-criada! Você está merecendo mais castigos! – ela jogou a sopa em cima da garota e ela teve sorte de não estar quente.

Quando Alice voltou os olhos pra ela, a mulher desferiu a mão pesada em sua direção. Daquela vez, ela sentiu a pancada no rosto, mais pancadas sucessivas, a dor aumentando e a voz falhando ao tentar gritar. Foi quando a mulher segurou a tigela em que tinha a sopa, para usá-la como arma, que ela gritou desesperada…

Ela levantou-se rapidamente, escorregando pela cama até o chão frio de pedra. Estava com a respiração ofegante e as lágrimas corriam de seu rosto sem cerimônia. Não sabia se tinha gritado de verdade ou se só tinha acontecido no sonho. Completamente desesperada, abraçou as pernas junto ao corpo e escondeu-se no canto entre a cama e a parede, deixando que o choro continuasse, ao invés de tentar engoli-lo, como fazia nas noites anteriores.

A morena queria se lembrar, queria mesmo se lembrar, mas não esperava que pudesse sonhar com aquilo. Havia uma coisa presa em sua garganta, como outro grito de desespero que estava ansiando por se libertar, mas ela precisou contê-lo, na esperança de que o anterior fosse apenas do sonho.

Enganou-se, quando a porta do quarto foi aberta com certa urgência. Não sabia quanto tempo tinha se passado desde que acordara, mas sabia que era pouco demais. Não se importava se era Shaka que estava ali para tentar ajudá-la, nada ia fazer com que aquele sentimento ruim fosse embora naquele momento.

– O que aconteceu?

Ela ouviu a voz dele perto demais e não precisou levantar a cabeça escondida nos braços para saber que ele já estava ajoelhado bem a sua frente. Não conseguia responder, não conseguia pensar em mais nada além daquela cena que acabara de passar em sua cabeça. Os soluços apenas pioravam e o choro aumentava. Não queria ter se lembrado de uma coisa daquelas.

– Você está tremendo… – ele disse, permitindo-se colocar a mão no topo da cabeça dela. Não sabia exatamente o que fazer, mas não se sentia bem com ela daquele jeito. Era desesperador. – Diga-me o que aconteceu.

Ela tentou engolir o choro para ao menos responder a pergunta dele, mas até para fazer aquilo estava difícil. Apertou as pernas tão forte que imaginou se as marcas das mãos não ficariam em sua pele.

– Eu… eu não quero… – ela finalmente conseguiu falar, com a voz fraca, os soluços ainda atrapalhando sua sentença. – Se for desse jeito… eu não quero…

Ela não conseguiu completar a sentença, afundando ainda mais a cabeça até pressionar a testa contra os joelhos.

– O que você não quer…? – Shaka perguntou, deslizando a mão pelos cabelos escuros dela. Queria poder fazer alguma coisa para que ela parasse de chorar. Para que ela ficasse animada como no dia anterior ao saber do treinamento.

– Eu não quero… voltar para casa. – ela finalmente conseguiu engolir os soluços para completar a frase, sem coragem de levantar o rosto para encará-lo. – Me desculpe… me desculpe…

Alice finalmente levantou o rosto para encarar os olhos fechados e a expressão confusa do cavaleiro. O rosto dela estava completamente molhado pelos traços de lágrimas e os olhos estavam vermelhos.

– Me desculpe. – disse de novo, antes que ele tivesse a chance de falar. – É que… ela estava lá, e eu estava presa por correntes e… e ela estava me batendo muito! – mais uma vez a voz foi embargada pelo choro e ela não pôde completar a frase por uns minutos. – Desculpe!

Num ato completamente impensado, Shaka puxou-a pelo braço com certa urgência e abraçou-a forte, colocando uma das mãos sobre a cabeça dela. Ela conteve os soluços por um tempo, e então, segurou o tecido da camisa dele com força entre as mãos pequenas. Não conseguia abraçá-lo de volta, mas também não queria que ele a soltasse. Era confortável ali… e era seguro.

– Você pede desculpas demais. – o virginiano falou, num fio de voz. – Por coisas que não tem culpa. Não se preocupe… o que quer que tenha acontecido, ou quem quer que tenha visto, não vai acontecer de novo. Você está segura aqui.

A garota fechou os olhos com força e apertou mais o tecido da camisa dele, engolindo o choro de vez para poder completar o que tinha a dizer. Precisou de alguns minutos para poder falar aquilo em voz alta.

– Ela disse que era minha mãe. – a pronúncia da frase fez com que ela sentisse uma pontada forte no peito, era como se só precisasse daquilo para ter certeza. – Minha… mãe. – a repetição da frase parecia absurdamente sofrida.

Shaka não soube o que falar naquele momento. Ela tinha razão para estar tão apavorada. O que ela mais queria era lembrar-se de sua casa, para poder voltar para lá, não conseguia deixar de ressaltar que o único sentimento que tinha memória era de que precisava voltar para casa. Mas aquele sentimento acabara de ir por água abaixo… se ela realmente tinha se lembrado da própria mãe espancando-a.

– Vai ficar tudo bem. – as palavras que ele disse saíram mais por impulso do que pela razão. Ele não sabia se ela ficaria bem ao lembrar tudo e voltar para casa… mas tinha certeza de que queria fazer de tudo para que ela estivesse bem. Talvez aquilo bastasse.

Por um tempo indeterminado, ela ficou ali, protegida nos braços dele, sentindo sua angústia e insegurança passarem pouco a pouco. Quando o corpo tremia, ele a abraçava com mais força, para que ela se sentisse melhor. O silêncio permaneceu entre os dois por algum tempo, tempo o suficiente para Alice adormecer novamente, sem nem se dar conta daquilo.

Ao perceber que a respiração dela estava regular novamente, ele a colocou de volta na cama e apoiou-se no colchão. Desde que a reencontrara, Shaka finalmente voltou a abrir os olhos, e encarou o rosto com uma expressão agora calma. Ela estava bem mais recuperada do que quando a vira pela primeira vez, as maçãs do rosto estavam rosadas e os olhos agora com marcas vermelhas por conta do choro. O rosto ainda estava molhado das lágrimas e o cabelo castanho caía em alguns fios sobre o semblante dela.

O virginiano permitiu-se aproximar a mão do rosto dela, para tirar os fios de cabelo de lá. Lentamente, limpou os rastros de lágrimas, de modo que ela não acordasse com seu ato. Devia confessar que ela estava bem melhor no vestido branco de Saori do que nas roupas acabadas em que a encontrara. Ao perceber que tinha aproximado o rosto o suficiente para sentir o doce perfume da jovem, imediatamente se recompôs e fechou os olhos, andando até a porta e fechando-a com cuidado ao passar.

"No que estou pensando…", ele balançou a cabeça levemente para os lados, começando a andar para longe do quarto da visitante.

Quando Alice voltou a abrir os olhos, não sabia que horas eram exatamente. Piscou duas vezes, olhando para os lados e imaginando se o que acontecera fazia apenas parte de um sonho estranho, ou se era a realidade mesmo. Corou intensamente ao perceber que aquilo não poderia ter sido só o seu sonho… que ele realmente a tinha abraçado e protegido.

Dez longos minutos foram necessários para que ela finalmente decidisse tomar coragem e sair do quarto para comer algo. A probabilidade de encontrar com o virginiano era mínima, principalmente se o horário do almoço já tinha passado. Deixou um sorriso surgir em seus lábios quando lembrou o único sonho que tivera entre tantos pesadelos. Havia luz, sem sombras, sem dor… e ele estava lá para abraçá-la e protegê-la.

Ficou tão perdida em pensamentos sobre o sonho com Shaka que só percebeu que estava na sala de jantar quando ouviu a voz conhecida.

– Está se sentindo melhor?

A morena ficou extremamente feliz que o virginiano estivesse de olhos fechados, para não ter visto o sorriso abobalhado que tinha nos lábios. Em seguida, a expressão surpresa na face extremamente corada.

– Não achei que acordaria para o almoço.

– Eu… estou bem melhor. – ela disse, meio sem reação diante da presença dele.

– Sente-se para almoçar então. – Shaka indicou a cadeira habitual, a comida já estava servida e ele sentou-se também.

Alice se apressou para sentar-se e acompanhar o loiro na refeição. Como sempre, o ambiente era o mais silencioso possível.

– Eu sinto muito pelo que aconteceu mais cedo. – as palavras dela escaparam de sua boca num de repente, e mais uma vez, ela ficou feliz por ele manter os olhos fechados e não ver sua face ainda mais corada.

– Você se desculpa demais. – foi a resposta rápida dele. – Teve outro pesadelo?

– Não! Na verdade, tive um sonho muito bom. – Alice deixou o sorriso surgir nos lábios de novo.

– Uma lembrança?

– Duvido muito. – ela corou mais ao lembrar que sonhara com ele. – Só o resultado de um… sono tranqüilo.

Shaka não voltou a falar. Estivera tão desconcentrado a manhã inteira que nem conseguira meditar. Não esperava realmente que ela acordasse para o almoço, e agora não sabia o que dizer. Mais cedo ou mais tarde, teriam que conversar sobre o ocorrido, e especialmente sobre ela querer voltar para casa ou não.

– Eu vou para a sala de meditação. – o loiro disse, assim que terminou a comida, levantando-se de imediato.

– Certo. – Alice respondeu, antes que ele conseguisse escapar.

Shaka precisou apenas desaparecer do campo de visão para que ela deixasse os talheres caírem sobre o prato, suspirando pesadamente logo em seguida. Não sabia mais como agir diante dele e logo que tinha dormido abraçada a ele, assim como até mesmo sonhara com ele. Para completar tudo, tinha insistido que não queria mais voltar para casa. Aquela devia ser uma questão complicada para o Cavaleiro de Virgem.

Ela deixou a sala de jantar e seguiu para fora da Casa de Virgem, sentando-se no chão de pedra, encostada numa das grandes colunas, observando o horizonte. Durante boa parte do resto do dia, ela continuou ali, apenas sentindo a brisa leve, sua cabeça cheia de pensamentos confusos. O pesadelo que tivera aquela noite estava deixando-a completamente desnorteada. Mesmo com a surpresa momentânea e o medo por ter lembrado aquela cena com a sua suposta mãe, a vontade de voltar para casa ainda era estranhamente a mesma.

Quando finalmente decidiu voltar para dentro, o sol estava quase se pondo. Incrivelmente, encontrou Shaka ao alcançar o salão principal da Casa de Virgem.

– Eu achei que ainda estaria… treinando. – ela disse.

– Eu não… – Shaka hesitou por uns segundos, quase deixando escapar que estava completamente desconcentrado. – Pensei em procurar um mestre para você. Se ainda tiver int…

– Mesmo?! – o tom dela era notavelmente animado. – Isso significa que eu já posso começar então…

– Ainda não. – Shaka cortou a empolgação dela. A reação quase infantil o fazia sentir vontade de rir.

– Por que não?! – Alice protestou.

– Não se recuperou por completo.

– Claro que me recuperei! Não seja tão implicante. – a morena reclamou, cruzando os braços diante do corpo.

– Eu preciso sair para achar um mestre. – o virginiano disse, cobrindo a distância entre eles com uns poucos passos. – Vai ficar bem aqui? Sozinha?

– Vou sim. – Alice sorriu largamente, percebendo que o incômodo em se sentir sozinha tinha sido superado pela preocupação dele com seu estado.

– Estarei de volta antes do jantar. – Shaka passou direto por ela, seguindo na direção da entrada da casa.

Alice aproveitou a oportunidade para passar um longo tempo no banho. Enquanto isso, Shaka atravessava quatro Casas Zodiacais, até parar na Casa de Áries, seguindo até a sala de estar, onde Mu estava sentado, aparentemente descansando.

– Shaka de Virgem. Que surpresa. – Mu cumprimentou-o, sem se importar em se levantar. – Geralmente você sobe as escadas, não desce. Sente-se… o que o traz aqui?

– Seja bem-vindo de volta, Cavaleiro de Áries. – Shaka acomodou-se numa das poltronas.

– Não pude deixar de notar que o cosmo da garota está bem mais forte agora. E continua emanando da sua casa. – Mu comentou.

– Ela vai ficar na Casa de Virgem por enquanto. – Shaka respondeu apenas.

– Alguma razão específica?

– Não. – a resposta foi imediata.

– Ela conseguiu se lembrar de alguma coisa? – o ariano emendou o assunto.

– Algumas coisas. – Shaka ficou pensativo por um momento. – Coisas desagradáveis. Não sei o que fazer agora.

– Que coisas ela lembrou? – Mu franziu o cenho, curioso.

– A mãe dela a espancando, provavelmente. – o loiro respondeu. – Ela acordou desesperada, dizendo que não queria mais voltar para casa.

– Talvez não seja mesmo uma boa idéia. Ela teria que ir para algum abrigo ou orfanato. Quer dizer, ela ainda parece menor de idade. – Mu disse, assumindo também uma expressão pensativa.

Shaka ficou calado, pensando nas possibilidades. Se ela fosse mesmo menor de idade, os pais ainda teriam direito sobre ela, e poderiam continuar maltratando-a. Devia ter um jeito de evitar que aquilo acontecesse. Se ela ficasse no Santuário, estaria definitivamente protegida deles e de qualquer outro.

– Shaka. – Mu chamou o amigo pela terceira vez até que ele finalmente prestasse atenção. O ariano riu levemente. – Sinto muito, parece realmente preocupado com isso. O cavaleiro mais próximo de Deus está mesmo preocupado com coisas mundanas… está interessado numa humana!

– Não fale besteiras. – Shaka encostou-se na cadeira, levemente incomodado com as palavras do amigo.

– Mas então. O que realmente o traz aqui? Sei que tem algo em mente e definitivamente não era vir me dar as boas-vindas.

– Quero arrumar um mestre para treinar Alice.

– Alice? É o nome dela?

– Não, só escolheu um temporário enquanto não consegue lembrar. – Shaka explicou.

– Você disse que quer arrumar um mestre para treiná-la. De onde surgiu essa idéia? – mais uma vez, o ariano franziu o cenho, completamente confuso. – Ela quer ser amazona?

– Não. A única coisa que ela consegue lembrar é de pessoas batendo nela enquanto está presa num quarto escuro. Disse que não consegue deixar de se sentir insegura. Talvez, um treinamento de técnicas de autodefesa a ajudem. – Shaka voltou à expressão pensativa.

– Hm… entendo. – Mu balançou a cabeça. – Então por que você mesmo não a treina?

– Não tenho aprendizes há séculos. – o virginiano respondeu. – Não faço idéia de como treinar uma pessoa que não tem a resistência de um cavaleiro.

– Algum dos cavaleiros de ouro então…? O Milo?

– De onde surgiu essa idéia? – o tom de Shaka era completamente indignado e Mu conteve a vontade de rir da reação do amigo.

– Ele é um dos poucos entre nós que treina ataques básicos, com o Kanon e o Aiolia. – o ariano explicou. – Mas ultimamente Kanon está ocupado guardando a Casa de Gêmeos, já que o Saga é o Grande Mestre, e no momento, Aiolia viajou. Sobrou o Milo então.

– Não. – a resposta foi categórica, e Mu sorriu de novo. – Talvez não seja uma boa idéia treinar com um Cavaleiro de Ouro. É perigoso para uma pessoa normal.

– Claro, perigoso. Eu entendo perfeitamente. – Mu concordou, achando divertidas as reações passionais de Shaka, nunca vira aquilo antes. – Então, acho que o mais indicado seria falar com Marin de Águia.

– Marin?

– É. Ela é a líder das amazonas. Acho que não teria problema, não? E ela é de prata. – Mu explicou. – Acho que você não vai encontrar algum cavaleiro de bronze para treiná-la. Dificilmente eles ficam no Santuário e são mais inexperientes também.

– Vou procurar por Marin então. – Shaka se levantou, para sair da sala.

– Boa sorte. E até mais. – Mu acenou brevemente, quando o virginiano saiu da sala, e em pouco tempo, já tinha até alcançado a entrada da Casa de Áries. – Quem diria… realmente uma garota está transformando Shaka de Virgem em humano novamente.

Shaka alcançou o campo de treinamento das amazonas tão rápido que sequer dera chance ao sol se pôr. Havia ainda muitas aspirantes treinando. Ele parou no que seria o limite para a entrada do campo, cercada de arbustos e árvores. Não podia passar de lá, mesmo que mantivesse os olhos constantemente fechados.

Não demorou muito a uma das amazonas ir até ele. Com os cabelos castanhos e o rosto encoberto por uma máscara, Marin ficou ainda completamente surpresa de ver que o Cavaleiro de Virgem realmente estava ali.

– Shaka, Cavaleiro de Ouro de Virgem. – ela falou. – O que o traz aqui? Não estaria em busca de uma aprendiz, estaria?

– Você é Marin de Águia? – ele perguntou, ignorando parte das palavras dela.

– Sim. O que poso fazer por um Cavaleiro de Ouro?

– Gostaria que treinasse uma pessoa.

– Treinar? – Marin arregalou os olhos por trás da máscara. – Uma amazona? Um aspirante?

– Não, é uma jovem comum. Não é o treinamento de um cavaleiro de Athena, apenas um treinamento básico de autodefesa. – Shaka explicou.

– Ficaria honrada em ajudar um Cavaleiro de Ouro. – Marin respondeu, contendo a curiosidade de perguntar quem era a mulher, porque ele mesmo não a treinava e por que ela queria aprender autodefesa. Definitivamente não era uma boa idéia questionar um Cavaleiro de Ouro, especialmente se tratando do cavaleiro dito mais próximo de Deus, Shaka de Virgem. – Pode trazê-la quando desejar.

– Eu a trarei amanhã. – Shaka acenou com a cabeça rapidamente. – Obrigado.

Marin ainda piscou duas vezes, sem ter certeza se realmente ouvira um agradecimento do virginiano. Não teve como responder, ainda em transe, e ele partiu praticamente na velocidade da luz. A amazona ainda ficou curiosa para saber qual a tal mulher de que ele falara. O mais interessante era que ela não era amazona ou aspirante, então… o que fazia no Santuário? E especialmente, na companhia de Shaka?

Ela deixou a curiosidade de lado, ciente de que poderia tirar tudo a limpo direto com a fonte no dia seguinte. E então, voltou-se para as aspirantes que ainda treinavam duro.

Shaka voltou a Casa de Virgem já durante a noite, embora não fizesse muito tempo que o sol tinha desaparecido no horizonte. Encontrou Alice ainda no caminho para a sala de jantar. Ele quase abriu os olhos induzido pelo leve aroma de flores que vinha dela.

– Você já voltou! – ela parecia bem surpresa. – Foi rápido demais ou eu demorei demais?

– Eu arrumei uma mestra para você. – Shaka anunciou, voltando a andar até a sala, sentando-se numa das poltronas.

Alice adiantou-se animada para sentar no sofá de três lugares.

– Mesmo?! É uma mulher? Uma amazona? Quando eu posso…?

– É Marin de Águia. Ela é uma amazona de prata. – Shaka cortou-a antes que ela falasse demais. – Vou levá-la até lá amanhã.

– Isso é ótimo! – ela sorriu largamente e Shaka lamentou por um segundo não poder ver aquela expressão feliz.

– Vamos jantar, você ainda tem que se alimentar direito. – Shaka se levantou para ir até a sala de jantar, mas deteve os movimentos quando a voz dela invadiu seus ouvidos com certa urgência.

– Sobre mais cedo…

– Você não precisa pensar nisso.

– Não é isso. É que… mesmo com aquele sonho, não consigo deixar de sentir que preciso voltar para casa. – Alice tomou coragem para continuar. – Não é como se fosse um sentimento ruim. Mas me sinto confusa, querendo voltar para casa, se for aquilo que me espera…

– Não se preocupe com isso. Quando recuperar as suas memórias, descobrirá o que fazer. – Shaka parou exatamente diante dela.

– Sinto muito por ter dito que não queria voltar para casa, eu só trago problemas. – ela riu forçadamente. – Mas assim que eu lembrar tudo, eu vou voltar. Não importa para que tipo de lugar, e vou parar de incomod…

– Não seja tola! – Shaka a segurou firme pelos ombros e por pouco, não abriu os olhos para encará-la nos olhos assustados. – Acha que eu permitiria que voltasse para um lugar onde é tratada daquele jeito…?!

O virginiano se calou de súbito. Parecia ter percebido apenas naquele momento o quanto extrapolara. Não era o tipo de pessoa que perdia o controle das ações e até Alice já tinha se dado conta daquilo. Afastou-se rapidamente dela, dando as costas e seguindo até a sala de jantar.

– É melhor jantar, a comida vai esfriar.

Em segundos, ele já tinha sumido através do portal que dava na sala de jantar. Alice ainda ficou estática por longos cinco minutos com o excesso de informação, até perceber que tinha que correr para a sala de jantar e acompanhá-lo antes que ele sumisse. Não conversaram muito mais durante a refeição, e logo ele tinha sumido, como sempre, sem nem se despedir direito.

Final do Capítulo II