Disclaimer: Saint Seiya não me pertence. Faço este fic sem fins lucrativos, apenas por diversão.
Uma Nova Vida
Epílogo: Um Recomeço
Já fazia mais de três meses que a Casa de Virgem estava tão silenciosa. A rotina de Shaka era a mesma, ou talvez, ainda mais alheia ao resto do mundo do que antes. Dia após dia, ele continuava apenas meditando, fazendo o treinamento que lhe cabia desde que se entendia por gente. Entretanto, por mais que ele tentasse, uma vez ou outra, ainda conseguia perder a concentração e relembrar dos momentos em que tanto tinha aberto os olhos alguns meses atrás, e como queria abri-los de novo, mas para ter uma visão que não podia ser encontrada ali, naquele momento.
Naquela manhã de sexta, em particular, estava se sentindo extremamente desconcentrado, e depois de tentar reiniciar sua meditação pelo menos quatro vezes, resolveu sair da posição de lótus, o rosário de contas negras enrolado em uma de suas mãos. A passos lentos, caminhou até sair da sala de meditação e logo alcançou as colunas que ladeavam a entrada da Casa de Virgem. Ficou parado ali, na plataforma de entrada, apenas sentindo a brisa leve balançando seus cabelos. Tudo silencioso demais… ninguém com quem conversar, ninguém a quem esperar. Era daquele jeito, todos os dias, e parecia que os dias demoravam cada vez mais a passar.
Alertou-se ao notar uma presença seguindo na direção da Casa de Virgem, mas logo se acalmou ao notar que era apenas Mu de Áries.
– Esperando por outra pessoa, imagino. – Mu sorriu ao alcançar o virginiano, a expressão de decepção era notável. – Minhas desculpas por atrapalhar a espera.
– Não estava esperando ninguém. – Shaka disse, descruzando os braços e já se virando para seguir para dentro da Casa de Virgem.
– Certamente. – Mu concordou, seguindo-o para entrar na casa. – Não espera ninguém há três meses.
Shaka não se preocupou em responder, continuou apenas seguindo para a sala principal da Casa de Virgem e Mu o seguiu.
– Eu acho que devia sair mais dessa casa. – disse o ariano, parando quando Shaka passou direto pela sala para ir até a ala de meditação.
– Não tenho razões para tal. – o outro respondeu simplesmente, ocupando a sua mesma posição de meditação, sem se incomodar com a presença de Áries. Na verdade, aquela atitude era mais um aviso para o outro deixá-lo sozinho.
– Só estive pensando que da última vez que decidiu que faria bem sair de casa, não voltou sozinho. – disse Mu, um sorriso simples surgindo nos lábios quando notou que Shaka hesitara por um segundo diante daquela afirmação. – Pense nisso. Estou seguindo agora até o templo de Athena, até mais, Shaka de Virgem.
Shaka apenas fez um aceno com a cabeça em despedida e sentiu o cosmo do amigo se afastar. Mais uma vez tentou inutilmente voltar a meditar, mas agora, além de ter a imagem da jovem surgindo constantemente em sua cabeça, a proposta de Mu parecia tão mais acertada que ele estava tentado a sair dali e andar pelo Santuário.
Repreendeu-se mentalmente por estar tão desconcentrado e durante tanto tempo. A maior parte do treinamento de toda a sua vida dependia basicamente de disciplina e concentração, e aquelas eram duas coisas que lhe faltavam desde que a jovem tinha voltado pra casa alguns meses atrás. Ela tinha levado consigo o Shaka que ele era antes de conhecê-lo, e havia deixado um Shaka incapaz de submeter suas emoções à sua razão.
Ele deixou um suspiro escapar aos lábios e finalmente se levantou. De nada adiantaria tentar meditar de novo naquele estado. Seguiu a passos largos até a saída da sexta casa zodiacal de novo e parou exatamente na plataforma de entrada. A brisa fresca fazia com que seus cabelos balançassem e disfarçava a sua respiração inquieta. Fora naquela casa que tinha se despedido dela, tinha sido ali que ela passara maior parte do tempo durante a estadia no Santuário, afastar-se de lá era como se afastar da possibilidade de que ela voltasse para encontrá-lo, mas como ela mesma tinha dito… depois de terminar de contar, ele teria que ir procurá-la.
Sem ao menos se dar conta, ele já tinha caminhado para longe da casa de Virgem. Seguiu pelos campos acidentados que cercavam o Santuário, ouvindo a vida no local, os treinamentos dos aspirantes, os trabalhos dos servos, tudo parecia movimentado demais comparado ao silêncio sepulcral de sua casa. Ele afastou-se do barulho e aproximou-se mais da floresta que limitava a área do Santuário e a separava do vilarejo… naquele momento, conseguiu lembrar claramente do motivo por ter encontrado Alice, naquele dia, ele também só queria se distanciar da vida conturbada do Santuário e chegar num lugar mais calmo. Ali, havia apenas o som das folhas das árvores que balançavam com o vento, o som de alguns poucos pássaros, e quase nenhuma presença que pudesse incomodá-lo.
Aproximou-se de uma das árvores e encostou a mão no tronco desta. Se bem lembrava do ambiente, sem ao menos precisar abrir os olhos para conferir, tinha encontrado Alice não muito longe dali, à beira da morte, com uma presença quase imperceptível. Era uma lembrança da qual ele certamente não conseguia se livrar, nem se quisesse. Depois de alguns minutos perdido em seus próprios pensamentos, um aroma invadiu o ambiente, confundindo seus sentidos junto a uma presença que jamais poderia pertencer a alguém que morasse no Santuário… era uma presença pequena demais para um aspirante e significativa demais para pertencer a um dos discretos servos.
No impulso, ele quase abriu os olhos para se certificar de que não estava tendo alucinações, mas pensou melhor, imaginando que não queria abrir os olhos para ver nada mais que as árvores e as folhas.
Ele deu um passo na direção daquela presença que ficava cada vez mais perto, cada vez mais ao seu alcance, mas se recusava a crer que ele, o homem mais próximo de Deus, realmente temia estar sendo enganado pelos seus próprios sentidos. Ficou parado no lugar que estava, concentrado em qualquer coisa ao seu lado, mas ela se aproximava cada vez mais e mais, mas de maneira tão lenta e cautelosa que ele esperou.
– Um…
A voz soou como melodia nos ouvidos do virginiano e o efeito que teve em seu corpo foi algo que ele não sentira jamais em sua vida. Ficou completamente estático, como se o mínimo movimento fizesse com que ela desaparecesse.
– Dois… – a voz continuou, vindo de um lugar diferente, enquanto ela mesma se movia entre as árvores da floresta. – Três…
Aos poucos, os números ficaram mais perto e mais audíveis, o oito foi o suficiente para que Shaka confirmasse que sua mente, mergulhada em escuridão por tanto tempo, não seria capaz de reproduzir aquela presença com tamanha perfeição. Ela não precisou pronunciar o nove, e certamente não precisou dar mais um passo na direção dele. Um pensamento foi o suficiente para que o virginiano tivesse sumido do lugar em que estava e para que aparecesse exatamente diante dela, prendendo a respiração por um segundo antes de abrir lentamente os olhos.
A primeira coisa que viu foi o sorriso perfeito que emoldurava o rosto dela, então, o nariz longo e afinado que levava até os olhos de um castanho claro vivo, tão mais vivo do que lembrava que eles poderiam ser. Os fios de cabelo castanho caíam pela testa dela e alcançavam os olhos numa franja curta, o resto do cabelo estava solto e balançava em ondas ao som do vento leve. Em sua mente, certamente, jamais teria imaginado como ela poderia ficar ainda mais perfeita do que se lembrava. Cuidou de analisar cada pedaço da feição dela, como se aquela fosse a última vez que a via e precisava guardar o rosto da jovem para o resto da eternidade em sua mente. Hesitante, levantou uma das mãos para tocar o queixo dela, passando os dedos levemente pela pele clara, até tocar os lábios ainda naquele belo sorriso que ele não lembrava ter visto.
– Dez… – foi a única coisa que saiu dos lábios dele de uma maneira quase automática. A mulher sorriu mais e seus olhos brilharam.
– Acho que você pulou um número. – disse Alice, levantando uma mão para colocar sobre a dele, que estava em seu rosto.
– Não importa. – respondeu Shaka, quase não acreditando que ela realmente estava ali. – Não importa… eu a encontrei.
– Desculpe a demora. – ela disse, levantando a outra mão para apoiar no peito dele, e foi fácil sentir as batidas aceleradas do coração. – Mas eu sabia que me encontraria.
– Espero que esteja certa de ter voltado aqui… – disse o virginiano, passando os dedos então pelos cabelos dela, para tirá-los da frente dos olhos. – Dessa vez, não pretendo deixar que vá.
– Eu não pretendo partir também, Shaka. – respondeu Alice, fechando a mão em volta do tecido da camisa dele. – Eu senti tanto a sua falta…
Se ela pretendia completar a sentença, Shaka não permitiu, colou os lábios aos dela numa urgência que precisava suprir pelos três meses que tinha passado sem tê-la ao seu lado. Os braços estenderam para envolver o corpo pequeno dela com firmeza, certificando-se de que ela não poderia jamais fugir de seus braços ou de perto dele. Os sentimentos que corriam seu corpo eram completamente novos e excitantes… passara uma vida inteira fugindo de qualquer coisa que o prendesse à sua condição humana, atingira o patamar do homem mais próximo de Deus, e naquele momento, entretanto, estava feliz por seus pés poderem tocar o chão e por seu corpo ser feito de carne e sangue… estava feliz por ter sido puxado de volta pra terra e para os sentimentos dos quais tinha se afastado, contanto que ela estivesse ali.
Quando os dois se afastaram, foi pela necessidade de respirar diante do ato tão urgente, mas Shaka não se preocupou em soltá-la de seus braços, ou em manter os olhos fechados, como de costume.
– Acho que ainda não fomos devidamente apresentados. – a mulher sorriu para ele, também mantendo os braços em volta do corpo dele. – Prazer, me chamo Suzanna Morris, mas pode me chamar de Alice.
Shaka apenas sorriu em resposta às palavras dela, sorriu de uma forma tão natural que nem sabia como conseguia fazer aquilo.
– Eu sou Shaka. – ele respondeu simplesmente.
– Bom, Shaka… obrigada por me salvar. – disse a mulher, segurando o rosto dele entre as mãos. – Graças a você… eu tenho minha vida de novo.
O cavaleiro devolveu o sorriso e fechou os olhos para apreciar o toque em seu rosto. Aproximou-se até que sua testa encostasse à dela, aproveitando a proximidade. O som da brisa nas folhas das árvores só foi substituído pela sua voz sussurrada em resposta.
– Agora eu também tenho uma…
FIM
