"A crueldade possui um coração humano,
O ciúme, um rosto humano,
O medo, a divina forma humana,
E a intimidade, o aspecto humano.
O aspecto humano é ferro forjado,
A forma humana, uma forja ardente,
O rosto humano, uma fornalha restrita,
E o coração humano, sua garganta esfomeada.
— William Blake, Cantos da Experiência (A Divina Imagem)."
"Ex-agente especial do FBI enlouquece e é despachado para hospício.
Matéria por: Freddie Lounds.
No meio desta semana o ex-investigador especial e instrutor de medicina forense em Quântico, Virgínia, foi internado em uma instituição para doentes mentais por um período indeterminado. A natureza do suposto problema mental de Graham não foi revelada, todavia um psicólogo do instituto a qual entrevistei denominou-a de 'depressão profunda'. Nada mais nem a menos esperado de um homem com histórico de instabilidade mental.
O famoso e polêmico William (Will) Graham já fora citado em meu tabloide, quando acusado de cometer inúmeros assassinatos que ao tardar foram descobertos serem obras de seu antigo psiquiatra, Dr. Hannibal Lecter, cujo suas práticas terríveis deixaram um legado sangrento em Baltimore.
Infelizmente, Lecter encontra-se foragido e seu paradeiro continua sendo um mistério mesmo após três anos de sua fuga. Muitos ainda insistem em especular que Graham tenha o auxiliado, por conta de seu relacionamento bastante duvidoso com o canibal genocida. Seria a causa de sua loucura, o mal oculto cultivado por Hannibal Lecter ?"
Alana Bloom estava agitada, esgotada e apelando para sua benevolência interior. A maior de suas vontades neste momento era de esganar a Jack Crawford. Ignorou totalmente os funcionários que a alertaram para não entrar no gabinete do homem, pois o mesmo estava tendo uma reunião com alguns agentes da Bureau, o que parecia ser de extrema importância. Nem ao menos chegou a anunciar sua entrada ou bater na porta do escritório, deixando todos ali dentro estarrecidos olhando para a imagem da mulher enraivecida. Bloom trouxe consigo a edição impressa do TattlerCrime que a esta altura com certeza estava amassada por conta de sua frustação. Jack rapidamente se desfez de todos os agentes presentes na sala, envergonhado pela atitude de Alana. O escritório estava notoriamente bagunçado. Papéis jogados em cima da mesa e cadeiras desorganizadas.
— Boa tarde, Alana. — Saudou rispidamente. O homem estava com uma aparência nada agradável. Bolsas enormes escuras sob seus olhos avermelhados, roupas amarrotadas e seu hálito cheirava a café, provavelmente uma tentativa de manter-se acordado. — A que devo sua ilustre visita ?
Os olhos claros se estreitaram, salientando mais ainda sua indignação. Como Jack poderia estar sendo tão cínico ? Um verdadeiro duas caras egoísta. Não hesitou em jogar o tabloide medíocre em sua direção. A notícia da primeira página vulgarmente estampada com uma foto de Graham e ao lado uma foto que mostrava o Hospital Naval Bethesda[1]. O homem negro soltou um suspiro em negação ao que estava lendo. Posteriormente ao ataque tempestuoso de Bloom ao jogar o jornal praticamente em sua cara, pegou-o calmamente e se pôs a ler.
— Maldita parasita. — Massageou as têmporas com os dedos. Ele estava cansado. Mal havia dormido. — Graças aos céus que ela ainda não sabe sobre a tentativa de suicídio dele. Aí sim eu teria uma grande dor de cabeça.
Alana estava incrédula. Como ele conseguia ficar tão tranquilo por Freddie Lounds não ter adicionado o fato da tentativa de auto extermínio, mas sobre espalhar que Will é um louco dissimulado e instável, era algo totalmente 'aceitável'. Os lábios carmesim demonstravam o descontentamento, a ira e decepção.
— E quando foi que você tomou a magnífica decisão de o internar numa ala hospitalar psiquiátrica ? Não é exagero demais da sua parte ? — A mulher estava visivelmente irritada e com as mãos repousadas em sua cintura.
— Ele não está jogado em qualquer lugar, o Hospital Naval Bethesda é considerado um dos melhores centros médicos nos Estados Unidos. E é por tempo limitado, ele precisa se recompor.
— Então talvez você também devesse tirar férias lá, que tal ? — Bloom cuspiu as palavras grosseiramente, debochando de Jack. — O Will não está louco nem muito menos é um doente mental. Está feliz ao ver a imagem dele ser mais manchada do que já é ?
Crawford mentalizou um mantra para acalmar-se. Seus nervos estavam a flor da pele, porém não seria nada vantajoso discutir com Alana. Era compreensível que ela estivesse zangada por sua decisão, já que o fez sem a consultar. Além disso, Bloom só sabia da primeira tentativa de suicídio de Will, e mesmo que inconscientemente ela nutria sentimentos mal resolvidos pelo ex-agente. Obviamente estava preocupada com seu bem estar.
— Estou inclinado a acreditar que ele está melhor aonde está, do que solto por aí.
— Ele é um adulto, Jack ! — Vociferou. — Quem decide isto não somos nós e sim o próprio Will !
— Então, no caso, seria bem melhor ir ao seu enterro do que cuidar dele em vida, não é ? — Perdeu a paciência e gritou com a mulher. — Ele nem ficou vinte e quatro horas sozinho, Alana ! E sabe o que aconteceu ? Ele não hesitou de enfiar um bisturi no próprio pescoço ! É isso que você chama de 'adulto' que pode cuidar da própria vida ?
A feição que antes carregava o ar de rancor aos poucos transformou-se em pura angústia. O baque da notícia dada fez com que ela perdesse as forças de suas pernas, vacilando um pouco na compostura. Provavelmente teria caído se não estivesse recostada a parede. Alana levou uma de suas até boca, tampando-a. Os olhos estavam marejados, mas ela não permitiria que as lágrimas saíssem.
— Como ? — Indagou, com a voz trêmula.
— Após receber alta e a avaliação psicológica dele estar dentro da 'normalidade' decidiram liberar ele. Provavelmente Will mentiu ou omitiu algumas informações para poder sair da clínica...Ou houve negligência por parte da equipe. — O timbre estava embargado em um misto de tristeza e exaustão. Limpou a garganta antes de prosseguir. — E nenhum funcionário poderia o prender ali, já que se tratava um hospital comum. O único dever da equipe era cuidar da saúde física. Mas no próprio hospital ele surtou e conseguiu surrupiar um bisturi cirúrgico de alguma sala sem ser visto, parou no meio do corredor e cortou a garganta sem nem ao menos vacilar. Além disso teve um ataque de histerismo mesmo após de terem conseguido suturar a laceração, tiveram que sedá-lo. Tentaram comunicar Molly, mas ela não atendeu nenhum dos telefonemas e então me chamaram. Provavelmente ela mesma adicionou o número do meu telefone, o que estranhei, já que me odeia.
Bloom sentou-se em uma das cadeiras da sala, ainda mantendo uma boa distância de Jack. Precisava recuperar-se do choque provocado pela notícia. Mesmo após ter conhecimento disso, não era uma razão de ter ocultado e orquestrado uma internação que muito provavelmente não fora voluntária de Graham. Ela sentia-se traída por Crawford, de modo algum agiria por trás das costas de Will novamente. A gota d'agua ocorreu quando concordou com a soltura de Hannibal Lecter do Hospital Estadual de Baltimore para criminosos insanos. Alana sabia dos riscos, até mesmo aceitou que Graham morresse em uma das possibilidades de falha do plano. Uma decisão inconveniente e individualista para o seu próprio bem estar, por buscar uma vingança contra Lecter pelo passado onde a manipulara bem debaixo de seu próprio nariz.
— E por qual motivo você não me comunicou ?
— A última vez que nos encontramos você fez questão de deixar claro que o assunto 'Hannibal Lecter' e tudo que o acompanhava não era da sua conta. — Jack respondeu secamente.
— E aonde Will se encaixa nesse assunto ?
— Não sei se você está se fazendo de desentendida ou está com amnésia, mas ele tem mais a ver com o Hannibal do que você imagina, Alana. E nós temos culpa por isso.
— Não existe nós, Jack. Eu te alertei desde o início para que não o deixasse chegar perto demais, não venha me culpar por seus erros.
É isso. Se Jack não tivesse permitido a aproximação entre Will e Hannibal, extrapolado os limites e o usado como um boneco sem se importar com as consequências, jamais estaria acontecendo essas coisas. Graham a essa altura estaria em sua pequena casa em Maryland, cuidando de seus cachorros e feliz com a sua pacata vida. Sem preocupações, sem assassinos perturbando a sanidade de sua mente, e sem Hannibal ocupando todos os seus pensamentos. Ou até mesmo, se tivesse impedido a tempo. Notado que o amigo não estava bem. Que a depressão e o alcoolismo estavam o afundando cada vez mais. Todavia, todos ao redor de Will o ignoraram, talvez por pena, do homem que estava matando a si mesmo a cada dia que se passava e virando uma casca oca sem vida e sentimentos nulos.
— Isso me recorda, sobre a proposta que te fiz. — Jack agora ostentava um sorriso irônico. — Nunca é tarde para reconsiderar.
— Você não aprendeu a sua lição, não é ? — A mulher levantou-se da cadeira em que estava sentada e foi em direção a porta do gabinete. — Eu não vou te ajudar. As coisas estão ótimas como estão. Mexer no passado só vai piorar. Deixe Will em paz, isso é uma ordem, não um pedido. Você está mal acostumado a usar ele como seu escudo. Ele sempre leva a pior e você continua como está, com o ego nas alturas. — Cruzou os braços ao lado da porta, com o semblante sério.
Assim como Alana, Jimmy Price invadiu o recinto sem antes se anunciar, com uma pasta cheia de documentos na mão. Aquele estava sendo oficialmente o dia em que todo mundo resolvera entrar sem ser chamado. Um fato bastante inconveniente, aos olhos de Jack.
— Oh, perdão. Achei que você estava sozinho. — Jimmy deu um sorriso torto e sem graça para Alana e voltou a atenção diretamente a Jack, ignorando a presença da mulher na sala. — Eu estou com o laudo da autópsia, ele é completo. As fotos estão nas últimas páginas da ficha, impressões digitais foram encontradas do corpo mas aparentemente nosso amigo teve o trabalho de tentar limpa-las e estão borradas. Porém não foi esperto o bastante. Encontramos saliva, parece que ele é um beijoqueiro.
— Espere um minuto do lado de fora. Já falo com você. — Disse para Price. Afinal, ele estava no meio de uma conversa/discursão com Bloom.
Jimmy obedeceu, saindo do gabinete sem relutar.
— Um dia Hannibal irá voltar por Will. Ou vise versa. Não só por Will, como para todos nós. E eu não irei te socorrer quando ele finalmente conseguir por as mãos em você. Deveríamos ter morrido naquela noite, em sua casa. Desde então o tempo que estamos vivendo é emprestado. E Hannibal virá cobra-lo. — Crawford alertou após ter certeza de que Price não estava mais por perto. — Se eu fosse você, teria ficado escondida com o rabo entre as pernas com Margot e seu filho. Foi um erro voltar para Baltimore.
Alana estaria sendo ingênua demais ao achar que Lecter não viria atrás dela algum dia. E extremamente estúpida em não querer o ajudar. Todos sabiam que no passado ela reclamou o posto antigo de Chilton para poder manter os olhos bem abertos em Hannibal, que estava preso no manicômio. Não faria sentido agora apenas ignorar o fato dele estar por aí fazendo novas vítimas e manipulando pessoas com seus jogos mentais. Chegou até a pensar que de alguma forma ela estivesse o protegendo em troca de sua imunidade. Mas fazer um acordo com o Hannibal era a mesma coisa que vender a alma ao Diabo. Talvez ainda pior.
— E eu vou fazer questão de assistir quando o teu orgulho e falta de empatia pelos outros destruir tudo o que te resta. — Disse em alto e bom tom. — Coloque todas as despesas de Will no meu nome, tudo o que ele precisar, vou providenciar. Mas não volte a me procurar com seus planos ridículos e conspirações inventadas dentro da sua cabeça, que provavelmente está num estado mais crítico do que a mente do Will. Adeus, Jack.
O homem lançou um olhar escarnecido para Bloom. Desejou profundamente que o canibal massacrasse Margot e depois ela, posteriormente servisse aos cães. A observou sair da sala com o nariz empinado, pisando fortemente no chão com os saltos pretos de seus pés. Jimmy Price adentrou o ambiente novamente, desta vez curioso com o teor da conversa entre Jack e Alana, porém preferiu não perguntar nada. Entregou o laudo para o agente e discutiu sobre o caso com ele por algum tempo.
Hospital Naval Bethesda, Maryland.
Clarice Starling sentia-se constrangida. O diretor geral do Hospital não queria permitir a entrada da jovem simplesmente por constar que ela era uma estagiária e estudante. Mesmo após ter conseguido passagem liberada por conta do FBI, ainda tivera que passar por esse constrangimento.
'Eu estou quase certo que Freddie Lounds possuí contatos dentro do hospital, e ela acabará sabendo que você estará indo para lá assim que eu marcar o encontro.' Crawford inclinou-se para frente encarando-a. 'Cuidado com a imprensa quando entrar e sair. Eles irão tentar sugar o máximo de informação que puderem'
'E se ele se negar a conversar comigo?'
Jack suspirou.
'Ele vai. Não estou pretensioso que ele vá cooperar, já se recusou antes. E é por isso que não iremos avisa-lo que você irá vê-lo. Quando você já estiver lá, os funcionários irão movê-lo para uma sala onde você possa ter uma conversa supervisionada, é claro.'
Mesmo após Jack ter a instruído completamente como agir, ela não deixava de sentir um certo incômodo. A entrada da ala decorada com algumas plantas tinha no final um guarda e atrás dele uma porta gradeada metálica. O homem olhava pra ela seriamente. Quando Clarice se aproximou, ele fez as mesmas perguntas genéricas. Se ela estava armada, pediu para ver a autorização e distintivo. Passou um detector de metais e a revistou.
— Lembre-se bem das regras. Não entregue nada a ele a não ser papel liso. Nada de caneta, lápis e muito menos objetos cortantes. Os papéis que você estiver carregando não podem conter adereços. Nada de grampos, alfinetes ou clipes. Está entendendo? — Após terminar de olhar dentro de sua bolsa de médio porte, a devolveu para jovem.
— Claro.
— Você terá uma hora. Nada mais. Ele vai estar o tempo todo algemado e sentado à mesa. Haverá um outro guarda do lado de fora da sala, por precaução. Há um espelho de dupla face, ele poderá ver vocês mas não os ouvir. Isso se o paciente resolver falar algo, o que acho impossível. — Terminou finalmente de dar as instruções e liberou a passagem para Starling.
Atrás da porta havia um outro corredor em formato de 'L', porém desta vez menor que o outro. Os saltos dos sapatos estalavam no piso, produzindo um ruído oco. Suas mãos estavam suando de ansiedade e medo. O segundo guarda que a aguardava sorriu para ela, destravando a porta. Em sua cintura era possível notar facilmente a presença de um taser elétrico e a pistola de gás tranquilizante. Em um gancho ao lado da entrada estava pendurada uma camisa-de-força. Seu coração deu um salto e o estômago formigava. Clarice estava deveras nervosa.
O interior do ambiente estava bem iluminado. Paredes brancas com uma única listra horizontal preta. Uma mesa centralizada branca, presa ao chão. Mãos atadas a algemas, que estranhamente também prendiam-se à mesa metálica. Starling pôde observar o abatido e franzino homem com o olhar perdido. Assim que caminhara para dentro, a porta atrás de si foi fechada, dando privacidade a ambos.
— Meu nome é Clarice Starling. — Disse, bastante cortês. — O senhor poderia ceder-me um pouco de seu tempo ?
William finalmente levantou o olhar para a ruiva. Por um rápido momento tivera a impressão que os olhos profundamente azuis produziram uma espécie de estalo que arrepiou todo o seu corpo. Aquele seria um longo dia.
