Hannibal Lecter e Chiyoh faziam parte do público que visitava o Museu Kuwana, na província de Mie, Japão. Eles estavam ali para ver a coleção de Katanas Muramasa, consideradas malditas. Katanas são espadas japonesas comumente utilizadas por samurais no passado, peças incrivelmente belas, transmitindo um conjunto de tradições culturais profundas e valores estéticos. No entanto, algumas katanas diferem não só pela obra de arte visual, mas sim pelo poder e afiação de sua lâmina, forjadas especialmente para batalha, ou seja, matar, porque isso é precisamente o que elas são projetadas para ser. Símbolos de prestígio e poder, muitas das katanas mais preciosas do Japão foram feitas especificamente para servir como herança de família ou como objetos cerimoniais mantidos em santuários xintoístas.

Segundo a lenda, um dos famosos artesões de espadas no Japão era Soshu Muramasa. Ele forjava lâminas capazes de cortar tubos de cobre sem perder o fio. Algumas pessoas começaram a suspeitar da qualidade das espadas de Muramasa, pois, elas pareciam desafiar a física do metal a partir do qual elas foram forjadas. Boatos começaram a surgir de que sangue fresco era utilizado na fabricação das lâminas e rumores diziam que cadáveres eram frequentemente encontrados perto da oficina de Murasama. A partir dali, atribuíram as obras do artesão às forças demoníacas, quem possuísse uma de suas katanas se tornaria perigoso. Em 1603, o imperador Shogunato Tokugawa proibiu os samurais de empunhar as espadas, sendo retiradas de circulação e apreendidas. Um número significativo dessas katanas foi preservado por colecionadores na época e agora estavam em exposição.

Chiyoh quando soube, sugeriu a Lecter que fossem conferir as tais espadas malditas de perto. Ela recordou-se de ter visto uma réplica de uma das espadas na casa do penhasco, nos Estados Unidos. Infelizmente, a réplica tinha sido deixada para trás.

Devaneando sobre o passado, a oriental pensou nas as águas que rodeava aquele local.

O profundo mar azul dolorosamente salgado.

E então, o passado veio até ela, trazendo de volta aquela noite.

A costa íngreme erodiu e em breve, tudo aquilo seria engolido pelo oceano. A maresia seria capaz de corroer não só o concreto e gesso da casa, mas também oxidaria os momentos vividos ali. Havia mais terra compondo a falésia quando Abigail esteve lá. Enquanto aquele local serviu de cativeiro para Miriam Lass, as ondas marítimas colidiram com menos força contra as rochas. Chiyoh zelava o local, mesmo após a prisão de Hannibal Lecter. Ela não poderia voltar para a Lituânia e ficar no Castelo Lecter após o suposto assassino de Mischa — que foi mantido preso por longos vinte anos — ter sido morto por suas próprias mãos. E ela estaria lá sempre, como um cão fiel e vigilante, pronta para proteger Hannibal quando necessário, mesmo que custasse a sua vida garantir o bem estar do homem.

Chiyoh conheceu Hannibal quando ainda trabalhava como empregada para sua tia, a senhorita Murasaki. A japonesa tinha mais ou menos a mesma idade de Hannibal quando ele chegou até a casa de seus tios. Uma jovem criada, órfã como ele.

Murasaki Shikibu era uma bela mulher, além de ser extremamente educada e compreensiva. Se Chiyoh tivesse conhecido sua mãe, gostaria que ela fosse que nem a lady. Robert Lecter tivera sorte ao se casar com a oriental. Para agradar a sua esposa havia convertido a prensa de vinhos da casa em uma sauna japonesa, o tanque de pressão estava cheio de água quente, graças a um aquecedor de pressão Goldberg adaptado a partir de uma destilaria de conhaque feita de cobre. A sala cheirava a lenha e alecrim.

Lecter parecia um gato arisco, não falava sequer uma palavra. Magro, pálido e desconfiado. À noite sempre chamava por sua irmã. Mischa. Certa vez, Robert — agora conde Lecter após a morte de seu irmão — e Murasaki tiveram que invadir o quarto de Hannibal . Ele havia rasgado o travesseiro com os dentes e as penas voaram pelo cômodo, pareceu estar nevando por conta da penugem alva. Rosnava como um animal e gritava de forma contínua. A jovem serva ouvindo todo o barulho causado pela confusão atravessou os corredores de pedra até presenciar a cena de perto.

— Calma, Hannibal, calma ! — Conde Lecter colocou seu peso em cima do garoto, prendendo os braços com o cobertor e ajoelhando-se sob suas pernas, evitando que continuasse a se debater de forma incontrolada.

Temendo que o menino mordesse a língua por estar trincando os dentes, lady Murasaki arrancou o cinto de seu robe, apertando o nariz do garoto até que lhe faltasse ar e abrisse a boca para respirar. Assim que Hannibal o fez, ela enfiou o tecido entre seus dentes. O menino estremeceu e ficou imóvel como um pássaro quando morre. A senhorita Shikibu segurou o garoto contra si, que estava com penas grudadas no rosto por sua face estar encharcada pelas lágrimas que escorriam mesmo contra a sua vontade.

O conde respirou fundo, enchendo os pulmões com ar após ter perdido tanto folego tentando imobilizar o rapaz. Assim que percebeu uma Chiyoh curiosa espiando através da fresta da porta, olhou-a com seriedade. Foi o bastante para que ela percebesse que não deveria estar ali e foi embora. Na manhã seguinte, Hannibal levantou cedo e lavou o rosto normalmente. Ele só tinha uma lembrança vaga e embaralhada da noite posterior. Ao explorar os cômodos da casa, deparou-se com uma combinação de estúdio com sala de jantar e um bastidor para bordado perto da janela junto de um cavalete para pintura.

Lady Murasaki estava sentada tomando chá verde, separando ramos de flores. Os fios de seus cabelos longos e escuros estavam jogados sobre seus ombros. A criada tocava alaúde suavemente, no canto da sala, enquanto olhava de soslaio para o menino de cabelos lisos, quase loiros. Ela não se sentia incomodada com a falta de palavras do novo integrante da casa, na verdade, até se identificou com ele.

Chiyoh durante o tempo que ainda não conhecia a família Lecter, era uma escrava em Kobe, cidade japonesa na província de Hyogo. O casal a comprou na sua viagem de lua de mel. Antes de relacionar-se com as gentilezas de Murasaki e Robert, sofria abusivos físicos e psicológicos de seus antigos donos. Os seus pais foram mortos pela máfia japonesa, a Yakusa, como forma de cobrança pela dívida que obtiveram por contrabando de armas na América. Um dos membros do grupo levou-a de casa após a execução de seus pais, quando ainda tinha dois anos. Ela foi vendida como mercadoria no mercado negro da cidade, criada por uma instituição que explorava sexualmente de crianças e adolescentes. A pequena e frágil menina vivenciou o pior do ser humano, desde nova.

Murasaki a resgatou quando explorava a parte pobre da cidade, junto com o futuro conde Lecter. Uma das ruas do distrito abrigava uma pequena feira, onde vendiam temperos, flores, tecidos e as crianças. A polícia da província pouco se importava com as atividades ilegais na época, pela maioria dos funcionários serem corruptos, aliados da Yakusa e outras gangues rivais, denunciar era uma perda de tempo. Chiyoh era a mais nova entre as pobres almas infantis expostas. As crianças estavam visivelmente desnutridas e sujas, algumas sentadas no chão abraçando os joelhos com os braços, outras de pé encarando o vazio. A menina fitava a banca de uma senhorinha que vendia tortas. Seu estômago implorava por comida.

Tomou um susto ao ser surpreendida pela dama bem vestida que tocou seu ombro delicadamente, um anjo no meio daquela imundice. A mulher estendeu uma maçã para a menina, que se encolheu com medo da desconhecida. Murasaki afagou seus cabelos mesmo com o seu jeito arredio perante a moça. Naquela tarde, Robert e sua esposa compraram todas as crianças. Ao viajarem de volta para França — onde o futuro conde Lecter vivia e trabalhava como pintor — o casal garantiu que todos teriam uma boa vida, um ensino de qualidade, e o mais importante: uma família. Eles adotaram Chiyoh, passando o legado Lecter adiante, já que a lady não podia ter filhos. Mesmo tendo sido acolhida a pequena não se aproveitou de seus bem feitores e decidiu trabalhar como uma serva, por mais que os dois relutassem contra isso.

Até aquele instante, Chiyoh Lecter, não sabia o que o jovem Hannibal teria passado antes que Robert o resgatasse também; mas ela enxergava o sofrimento naqueles profundos olhos cor âmbar.

Perdida em seus próprios devaneios e ainda dedilhando o alaúde, não ouviu a conversa da lady com o garoto. A jovem oriental só voltou à realidade quando ouviu a dama chamando por Hannibal.

Murasaki havia o convidado para decorar arranjos de flores que Robert havia encomendado para adornar a casa. Quando ele era pequeno, seu pai costumava enviar os desenhos que ele fazia para seu tio. Era um jovem promissor com um bom olho para as artes. Como ela estava arrumando algumas das flores, achou que seria uma boa ideia perguntar-lhe como o menino organizaria as plantas no jarro. Hannibal ponderou por minutos, pegou duas flores e uma faca, cortou o caule das rosas e colocou-as no vaso, criando um harmonioso vetor para o arranjo e para o estúdio. Lady Murasaki pareceu satisfeita, elogiando o bom desempenho que obtivera.

Na lareira, um samovar — utensílio culinário de origem russa utilizado para aquecer água e servir chá — fervia e atingia a ebulição. O jovem Lecter ouviu a água fervendo e sua mente o recordou.

O crânio de Mischa chocalhando na água turva juntamente com seus restos mortais. Cozinhando como se fosse uma carne bovina.

Hannibal fechou o punho contra a lâmina que segurava, manchando o carpete com gotas de sangue. Instável, tentou deixar o estúdio antes de ser interrompido pela adulta, que parou ao seu lado antes que ele abrisse a porta.

— Você precisa levar pontos. — Ela olhou fixamente para o ferimento em sua mão. — Vou chamar um dos criados para nos acompanhar até a cidade.

Hannibal balançou a cabeça, negativamente, apontando o queixo para uma moldura de bordado. Lady Murasaki levou um tempo para entender o que ele estava tentando dizer.

— Chiyoh, ferva uma agulha e fio. — Ordenou.

— Senhorita ? — A serva questionou, incrédula. A lady não poderia estar falando sério.

— Agulha e fio, rápido. Não sabemos o quão profundo está, ele pode perder muito sangue ! — Vociferou.

Ela obedeceu, levando até a dama uma agulha e linha fumegando por conta da água fervente. Shibuku hesitou perfurar a pele do garoto, que estava olhando-a fixamente, como que assentisse com os olhos, dando permissão para que fosse em frente. E então, costurou a palma de sua mão, seis pontos caprichados. Hannibal parecia estar distante, sem demonstrar nenhuma reação ou dor. Chiyoh enfaixou a mão dele e logo após terminar inclinou-se como sinal de respeito para sua ama, apresentando um mínimo sorriso com os lábios para Lecter, fazendo menção de que iria sair da sala. Foi interrompida pela madame, que puxou-a pelo braço, delicadamente.

O olhar indagador de Chiyoh para a lady fez o jovem sentir-se um intruso por um momento.

— Chiyoh tem uma prima em Hiroshima chamada Sadako. — Inventou a mais velha. — Ela está morrendo por causa da radiação, causada pelas bombas. Sadako acredita que ao fazer mil garças de papel ela vai melhorar. Sua energia é limitada, e nós a ajudamos a cada dia fazendo os origamis. Se eles possuem mesmo um poder para cura-la ou não, enquanto fazemos, ela permanece em nossos pensamentos; junto com outros em cada lugar envenenado pela guerra. — Fitou a jovem criada por segundos, logo passando a observar o garoto acuado. — Você poderia fazer garças para nós, Hannibal, e nós as faríamos para você.

Os familiares de Murasaki que moravam em Hiroshima durante o atentado causado pelos Estados Unidos, se foram num relâmpago após a guerra. O mundo de Hannibal Lecter fora arrancado dele também, durante o período da Guerra Fria. E Chiyoh, nunca teve algo para se perder no passado. Tudo o que ela conhecia e gostava fazia parte do futuro.

A história que acabara de ser contada para o garoto era mentira. Apenas uma metáfora, um costume que tinha ao fazer analogias, que logo mais seria passado para Lecter em sua vida adulta. A esposa do conde Lecter era muito culta e paciente, diferente de Simonetta, a mãe de Hannibal. Todavia, mesmo com personalidades tão distintas, ele podia sentir em seu peito o mesmo calor que a presença de sua falecida mãe causava quando estavam próximos. Sentia o afeto que aquela agradável mulher transmitia.

O seu tio Robert, era mais caloroso e menos reservado do que seu pai tinha sido. Ele tinha perdido o seu lar, mas ganhou aquela família que era um tanto que peculiar. O seu tio, agora conde, reservou um cômodo somente para que Hannibal se expressasse artisticamente enquanto ainda permanecia mudo e acanhado. Chiyoh dava-lhe aulas em casa, por não ter se adaptado a convivência com outras pessoas de sua idade. Ele foi enviado para uma escola e foi tratado como objeto de curiosidade por não comunicar-se verbalmente. No segundo dia em que esteve por lá um valentão cuspiu em seu cabelo e o rapaz quebrou o cóccix e o nariz do baderneiro, sendo suspenso e enviado para casa com uma expressão inalterável durante o percurso.

Quando o outono chegou, Hannibal ainda não falava, porém, já se enturmava com os residentes do local. A jovem serva passava bastante tempo com ele, ensinando japonês e como tocar um alaúde. Um dos locais que ele ainda não havia frequentado na mansão era o sótão. Juntos, eles subiram as escadas que levavam a parte superior da casa, sem serem vistos por ninguém. Passaram por uma coleção de centenas de itens, baús, enfeites de Natal, móveis, trajes de teatro e quadros de Robert. O local era mal iluminado e Chiyoh teve que acender uma vela ao chegar perto do altar, que abrigava retratos de ancestrais da família de Lecter e diversas garças de papel. Também continha um porta-retratos com a imagem dos pais de Hannibal no dia de seu casamento. Sua mãe parecia muito feliz.

— É aqui que a lady e eu rezamos por você. Pedimos sempre para os espíritos ancestrais enviarem força e sabedoria para sua alma. — Por cortesia ela inclinou a cabeça para o altar, sendo imitada pelo garoto ao seu lado. — Peço que você reze por si mesmo também.

Na cultura japonesa é comum ter em casa um memorial ou altar para os entes queridos e ancestrais. O altar Butsudan significa literalmente "Altar do Buda" e é visto como um item essencial na vida de uma família japonesa tradicional, pois é o centro da fé espiritual dentro do núcleo familiar. Este pequeno santuário se assemelha a um armário com portas que geralmente são fechadas a noite, após a última oração. Dentro do Butsudan, encontra-se normalmente o Gohonzon, que é uma estátua ou fotografia com a imagem do Buda. Fotografias dos antepassados também são colocados dentro do Butsudan, assim como uma série de artigos religiosos como sino, velas, incensos e plataformas para as oferendas, como frutas, chá ou arroz.

Ao lado do altar, uma armadura estava assentada sobre uma plataforma elevada. Diante a ela, espadas de samurai estavam expostas. Aquilo despertou a curiosidade do jovem, que tentou tocar nas peças, porém, foi impedido por Chiyoh.

— Esta armadura ficava na embaixada em Paris quando o pai da madame foi embaixador na França antes da Segunda Guerra. Está aqui desde então, escondida dos nazistas. A lady só podia tocar uma vez por ano nela, no aniversário de seu tataravô. — Acendeu um dos incensos que estavam ali, enquanto falava. — É uma honra poder limpar suas peças e lubrificar as katanas com óleo de camélia e cravo-da-índia, um adorável aroma.

Além das espadas, pergaminhos antigos jaziam próximos às peças encouraçadas. Hannibal desenrolou um pergaminho que estava aberto o suficiente para mostrar a primeira gravura: o samurai usando a armadura em uma recepção a seus convidados. Na outra seção, a figura apresentava cabeças decepadas de samurais inimigos. Cada uma estava etiquetada com o nome do falecido. A empregada tomou-lhe o papel gentilmente, enrolando-o de novo.

— Há outros pergaminhos mais agradáveis que captariam seu interesse de forma mais adequada do que este. — Disse ela. — Foi após a batalha no castelo de Osaka. É o ancestral da lady.

Os dois ficaram por segundos admirando a armadura do samurai, até ouvirem uma das governantas chamarem pela madame, procurando os meninos.

Naquele mesmo dia, o conde e sua esposa levaram Hannibal ao psiquiatra local, Dr. Rufin a fim de tentar recuperar a habilidade de fala do menino por meio da hipnose. Tudo que conseguiram foi um olhar decepcionado do profissional com PHD em medicina. O doutor pediu para conversar em particular com o casal enquanto Lecter observava o relógio vitoriano em cima da mesa de centro ao lado da cadeira de espera.

— Para ser franco, ele é completamente obscuro para mim. Examinei-o e fisicamente ele está bem. Encontrei cicatrizes em seu couro cabeludo, mas nenhuma evidência de traumas ou contusões no corpo. Ele segue vários rumos de raciocínio ao mesmo tempo. Um garoto esperto. — Enquanto tagarelava ajeitava o paletó que estava um pouco amarrotado. — Eu não o forçaria a tentar contar o que aconteceu com a irmã. E é inútil tentar hipnotiza-lo. Já vi outros pacientes com comportamento semelhante, os sobreviventes dos campos de concentração da guerra.

O casal assentiu e o psiquiatra abriu a porta do consultório, despedindo-se de Hannibal com um sorriso falso e amarelo.

Às quintas-feiras os funcionários costumavam caminhar pela feira da cidade, para fazer compras. Raramente Murasaki ou Robert deslocavam-se de sua propriedade para obter algo, mas, naquela tarde, o surpreendente foi Hannibal ter se oferecido silenciosamente para acompanhar Chiyoh. Os dois se entendiam mesmo sem qualquer palavra pronunciada pelo garoto. Uma bela amizade. O objetivo da serva era a melhor barraca de vegetais da região, para conseguir aipos frescos, que costumava acabar cedo. Hannibal seguia atrás dela, carregando um cesto. Mesmo os dois tendo chegado prontamente até a banca, Chiyoh não avistou nenhum aipo.

Em frente à barraca do verdureiro, o açogueiro Paul Richards, dono da 'Carnes Nobres' observava que nem uma águia a jovem asiática, quase babando ao contornar a extensão do corpo jovem com seus olhos. O garoto notou isso, comparando o homem grande e carnudo com um porco roliço. O avental sujo de sangue salientava ainda mais sua barriga flácida pela gordura. O irmão de Paul, Nicholas Richards, trouxe-lhe um ganso para que fosse depenado.

O garoto com olhos claros aproveitou a deixa para puxar Chiyoh e tentar sair dali antes que o açougueiro tentasse algo.

— Ei, japonesa !

A menina olhou para trás, dando atenção para Paul, que logo continuou:

— Me diga, é verdade que as bocetas das japas são todas cabeludas? — Cuspiu as palavras, enquanto o irmão divertia-se com a cena e Hannibal inchava de raiva. — Você precisa de ajuda para dar uma aparada na sua, docinho ? Estou à disposição. Aposto que você é uma vadiazinha apertada.

Foi o bastante para que o jovem Lecter tentasse ir para cima dele. Chiyoh, apenas abaixou a cabeça e segurou o braço do menino, fazendo menção para que ele continuasse andando e esquecesse o que aconteceu ali.

Mas ele não esqueceria.

A voz dele estava fraca e enferrujada pelo desuso, entretanto a serva entendeu. Ele sibilou 'animal' muito calmamente.

Quando a lady ficou viúva, após um acidente fatal que o conde sofrera, Hannibal aos dezesseis anos, irritava-se com os gemidos e lamentos durante o velório. Agora conseguia comunicar-se vocalmente, depois de um longo tempo. Sua tia e a criada não esconderam a felicidade quando ouviram a voz rouca e serena saindo de seus lábios. Um bando de repórteres e a imprensa de Paris estavam presentes para cobrir o espetáculo fúnebre de um artista que os evitava em vida. Murasaki não tinha nada a dizer para eles. Na tarde deste dia que pareceu não terminar nunca, o advogado de Robert foi até a casa conversar sobre os bens que o falecido deixou. À noite, o garoto acordou no escuro após sonhar com o açougueiro e esgueirou-se até a porta da mansão, saindo sem ser notado.

Horas depois, ao alvorecer, Chiyoh ouviu uma movimentação estranha no porão. Respirou profundamente antes de tocar o piso gélido com os pés, vestiu seu quimono e ajeitou o cabelo, pegando um castiçal enquanto subiu as escadas para a parte de cima da casa. A cabeça de Paul estava em cima do altar Butsudan, como uma oferenda. Uma etiqueta estava pregada ao cabelo do defunto: 'Paul, Carnes Nobres'.

A adolescente analisou todo o cenário. A espada curta estava em seu lugar, mas a longa, não.

A madeira do piso estalou. Havia mais alguém lá. Ela inspirou fundo. Se precisasse, poderia alcançar a espada curta que estava em sua prateleira diante a armadura.

— Ohayou Gozaimasu. — Da escuridão, ele disse 'bom dia' em japonês.

— Ohayou, Hannibal. — Respondeu.

Ele veio para a luz, então, carregando a espada longa e um pano de limpeza.

— Eu poderia ter usado a faca do açougueiro. Mas usei a espada porque parecia mais adequada. Espero que isso fique entre nós. Creio que minha tia não iria gostar. — Um sorriso malicioso brotou em seus lábios. — Ele era mole como manteiga.

— Não precisava fazer isso por mim.

— Fiz por mim mesmo. — Tossiu, limpando a garganta. — Por causa do valor de sua pessoa para mim. Você é parte da minha família agora. E nós devemos proteger quem é da família, não acha ?

Família.

O ambiente familiar é um local onde deve existir harmonia, afetos, proteção e todo o tipo de apoio necessário na resolução de conflitos ou problemas de algum dos membros. Aquilo que Chiyoh nunca teve. As relações de confiança, segurança, conforto e bem-estar proporcionam a unidade familiar. Aquilo que lhe foi oferecido pelos tios de Hannibal, e agora, ele estava estendendo uma mão para garota, considerando-a parte de sua vida.

Apesar da oriental carregar o sobrenome Lecter, nunca considerou-se parte daquele núcleo familiar. O fato imutável era que aquele momento se tornaria algo que ela guardaria para todo o sempre, pois, foi ali que começou a considerar Hannibal parte de sua kazoku também — que quer dizer, família. Mas a partir daquele dia, prometeu proteger aquela família. Custe o que custar.

Enquanto a garota divagava, Hannibal lembrava-se do rodopiar que a espada fez ao afundar-se na epiderme de Paul. O grito do açougueiro agitou as árvores que rodeavam a propriedade do comerciante. Lecter não teve trabalho para encontrar o endereço da casa que cheirava a cadáver e putrefação. Richards tentou conter o sangramento que esguichava como uma mangueira ao ser ligada. O garoto deu um passo para o lado e os dois golpes seguintes atingiram os tendões do homem adulto, aleijando-o e fazendo que ele mugisse como um bezerro. Paul tentou se proteger, rastejando sobre a grama e gritando por socorro. Por último, fora atingido no pescoço. O sangue arterial espirrou por toda a face de Hannibal Lecter, que deleitava-se pela cena, com os olhos fechados.

A morte violenta de Paul não foi nenhuma tragédia para os que conheciam o homem asqueroso. Nem mesmo seu irmão deu falta, que acabou herdando o negócio do açougue e todo o dinheiro.

Antes que a lady acordasse ou algum empregado encontrasse a cabeça do açougueiro, a criada e o garoto envolveram a parte do corpo de Richards por uma longa extensão de tecido que havia por ali, no meio da bagunça do porão. Ficou parecendo uma bola. A cabeça ficou escondida em um baú trancado por Chiyoh que escondia a chave como se sua vida dependesse daquilo. Até que, foi prometida ao filho de um diplomata no Japão. Quando ela preparou a sua partida, Hannibal abriu-se com ela. Contou sobre o que acontecera com ele e sua família, e que tinha sido obrigado a canibalizar a própria irmã. Também, lhe deu a localização exata do Castelo Lecter na Lituânia, caso ela planejasse fugir ao invés de aceitar o casamento forçado e especulou que talvez soubesse quem tinha assassinado sua irmã e buscava vingança. Ela fez uma promessa com o menino diante ao altar do sótão e um juramento de sangue que envolvia furar seus dedos com alfinete, jurando lealdade à Hannibal e a lady, comprometendo-se a sempre zelar por eles, mesmo de longe. No dia em que embarcou no trem para a Àsia, levou consigo o baú com a cabeça de Paul. O garoto a observou do lado de fora da locomotiva, até o último minuto enquanto despedia-se de sua ama dentro do trem.

Hannibal e a lady Murasaki sentiram agudamente a ausência de Chiyoh. Agora só restavam-lhe a companhia um do outro. O pior veio depois que, a notícia de que a jovem nunca havia chegado ao Japão tornou-se do conhecimento de Murasaki. Mas Lecter sabia para onde a garota tinha ido e aonde a encontrar. Passou a mandar uma quantidade razoável de dinheiro em segredo, para que ela sobrevivesse.

Anos mais tarde, Hannibal mandou-lhe uma carta detalhando que havia caçado cada um dos soldados soviéticos que o fizeram mal durante sua infância, os assassinos de sua família. Porém, somente um havia escapado, Vladis Grutas. Ele deixou o seu destino nas mãos de Chiyoh, pedindo para a mesma decidir o que fazer com o homem e dando todas as informações que havia coletado sobre Grutas. Ela o capturou, prendendo ele no Castelo Lecter, sendo incapaz de mata-lo, passou a vigia-lo. Com o tempo, ela acabou se tornando prisioneira de seu prisioneiro. Não podia sair dali pois tinha que tomar de conta de Vladis Grutas, até Will Graham aparecer em seu caminho.

Desde então, quando livrou-se do peso de ter que tomar de conta do prisioneiro e percebeu que William era uma ameaça para Hannibal, lembrou-se da promessa que fizera quando mais nova. Proteger sua família.

Horas antes de Hannibal se entregar para a polícia depois dos acontecimentos na Fazenda Muskrat, Chiyoh havia conseguido rastrear os rastros que ele deixou até Wolftrap, a antiga residência de Will. Ela encontrou Lecter sentado na varanda de Graham, com o olhar distante. Não precisava olhar muito ou questionar para entender que ele estava de coração partido. Após os dois terem discutido e Chiyoh querer eliminar Will Graham, Hannibal fez um pedido. Contou para ela que iria se entregar para o FBI e confiou a localização de uma propriedade que não estava em seu nome. Lá ela poderia acompanhar seus passos de longe, mas ao mesmo tempo, estaria perto o bastante caso ele precisasse de ajuda. Também entregou-lhe todos os cartões de débito que conseguira usando uma identidade falsa e mandou fazer retirada de todo o dinheiro ali. Anotou um número de telefone como um contato de emergência caso ela precisasse de ajuda ou de algo enquanto ele estivesse na prisão.

Ao anoitecer, Hannibal deixou que o FBI finalmente colocasse algemas em volta de seus pulsos. Naquele instante, ela manteve seu fuzil de precisão sob mira na cabeça de Graham, que parecia observar a cena um tanto infeliz. Ela desistiu. Saiu do local e procurou a tal propriedade que Hannibal falara. A casa da falésia.

A costa íngreme erodiu e em breve, tudo aquilo seria engolido pelo oceano. A maresia seria capaz de corroer não só o concreto e gesso da casa, mas também oxidaria os momentos vividos ali. Por três anos, ela cuidou de tudo, com esperança de um dia receber Hannibal naquela casa. E de fato, ela recebeu. Chiyoh não se importava que Will Graham morresse durante um confronto com Francis Dolarhyde. O que ela queria a salvo estava resguardado em uma instituição para criminosos insanos, era o bastante para deixar que ela dormisse tranquila todas as noites. Até que ouviu sobre o plano do FBI de deslocar Hannibal de Baltimore para atrair o Dragão Vermelho, graças a um rádio que captava a frequência da polícia.

A distância entre o Hospital Estadual de Baltimore para Criminosos Insanos e a casa na costa de um penhasco era relativamente pequena. Se Hannibal precisasse de um local para ficar caso conseguisse fugir, seria ali. Pareceu até uma localização premeditada, escolher uma casa logo naquela região. Com certeza ele estaria acompanhado do ex-agente do FBI, o Graham. Eles iriam querer privacidade. O Dragão costumava atacar famílias.

E uma coisa que poderia ser amarga para Chiyoh engolir, mas que era verídica, é que Hannibal também considerava Will Graham, sua família.

Naquele dia, ela se ausentou do local que guardava com tanto carinho. Ao retornar, na calada da noite, ela encontrou um banho de sangue. Francis Dolarhyde, o Grande Dragão Vermelho, parecia exibir um par de asas feitas pelo próprio sangue, como na pintura de William Blake. Ele estava morto. A quantidade de sangue que lavava a entrada da casa não batia somente com a do cadáver. Chiyoh temeu pelo pior. Procurou Hannibal dentro da casa, aos redores, investigou para ver se encontrava uma mensagem subliminar. Nada.

Ela ficou em pé, na ponta do penhasco. E então, finalmente entendeu o que havia acontecido. Uma pontada lancinante em seu coração foi dada. O mundo de Chiyoh, assim como os mundos de lady Murasaki e Hannibal, foi destruído pela guerra. A guerra que os dois haviam travado naquela noite, sob o luar. A oriental gritou, despejando para fora toda a sua angústia enquanto apertava seu peito. Ela nunca chorou por ninguém, como estava chorando naquele momento. O seu lamento poderia ser ouvido mesmo a quilômetros de distância do local. Ela voltou a não ter família.

Kieuseru, significa 'desaparecer' em japonês. Era o que Chiyoh Lecter queria no momento.

A mulher entrou na casa, rumou até o quarto que costumava ocupar. Pegou a réplica da 'Katana Muramasa', que decorava a parede do cômodo. Caminhou lentamente até beira da falésia, retirando a bainha da katana.

Seppuku, é o ritual suicida que samurais cometem por estripação. O método apropriado de execução consistia em um corte horizontal na zona do abdómen, abaixo do umbigo. Partindo do lado esquerdo e cortando-o até o lado direito, deixando assim as vísceras expostas como forma de demonstrar pureza e caráter. Tratando-se de um processo extremamente lento e doloroso de suicídio, o seppuku foi utilizado como método de demonstrar a coragem, o auto controle e a forte determinação característicos de um samurai. Era uma prática comum entre os samurais que consideravam a sua vida como uma entrega à honra de morrer gloriosamente, rejeitando cair nas mãos dos seus inimigos.

E era ali, que o soldado mais fiel de Hannibal, encerraria sua vida com honra, rejeitando cair nas mãos de seus inimigos. Com as mãos trêmulas sobre o cabo da espada e o rosto preenchido pelas lágrimas salgadas e abatidas, engoliu seco o pouco de saliva que tinha dentro de sua boca. Levantou a katana até a altura de sua cabeça, com os olhos fechados. Pronta para aceitar o seu destino, foi interrompida pelo timbre que chamava por seu nome tão gentilmente.

Chiyoh ?

Ikiru, significa 'viver' em japonês. Chiyoh Lecter, queria viver.

Ela retornou a ter sua família.