Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Barbara Cartland, que foi publicado na série homônima de romances, da editora Nova Cultural.


Capítulo 6

- Que maravilha, senhorita ! - exclamou Minako. Olhando-se no espelho, Usagi constatou que estava, de fato, muito bonita. O colete justo realçava sua cintura fina, e a blusa decotada punha em evidência uma pele alva e transparente.

O lenço vermelho escondia completamente os cabelos, e seus olhos ficaram ainda mais brilhantes na face pequena e delicada.

- Ponha a máscara, senhorita - sugeriu Minako.

A máscara que a empregada trouxe era de veludo com uma barra de renda que vedava todo o rosto. Ninguém descobriria sua identidade.

- Agora, vá ao baile ! - insistiu Minako.

- Não posso. Você sabe que não posso !

- Por que não ? Ninguém a reconhecerá, e garanto que vai ficar encantada com as fantasias, como eu fiquei no ano passado. Eu vou lhe contar um segredo: o patrão está fantasiado de Aristocrata Inglês, do século passado.

Usagi decidiu tirar a fantasia e ir para a cama. Depois, pensou melhor:

"Fui convidada. O que me faz desistir de comparecer ? Timidez, vergonha, covardia ? Talvez timidez, mas covardia, não ! Nunca fui covarde, sempre me considerei valente e aventureira. Não obstante, receio embarcar numa aventura eventualmente perigosa, ainda que interessante. Mas, por que não ser apenas espectadora de uma festividade tipicamente argentina ? Será só por alguns minutos. Só para ver o jardim, as luzes, a decoração da sala".

Percebendo a hesitação de Usagi, Minako insistiu mais uma vez:

- Vá, senhorita ! Vá depressa ! O único perigo é ser vista descendo a escada, mas eu a levarei por um caminho diferente. Uma vez na sala, ficará perdida no meio da multidão.

E foi o que aconteceu cinco minutos mais tarde. Usagi viu-se perdida no meio da multidão.

Ninguém a notaria entre a infinidade de pessoas dançando pelo jardim, ou conversando em grupos.

Havia muitas mulheres sozinhas, iguais a ela, procurando, talvez, seu acompanhante entre os muitos espalhados pelo recinto e difíceis de serem identificados.

Minako acertara em dizer que as fantasias eram fascinantes. Havia uma infinidade de colombinas, dançarinas de balé, arlequins e palhaços.

Havia também mulheres de anáguas engomadas e enormes perucas do século XVIII, no estilo de Maria Antonieta.

De repente, Usagi viu Mamoru Chiba. Ele dirigia-se ao jardim escoltando uma Carmen escandalosa.

Mamoru vestia uma casaca preta e pantalonas justas de cor champanhe. O plastrão branco chegava até o queixo, e ele usava máscara. Usagi reconheceu-o imediatamente; ela o reconheceria em qualquer lugar do mundo.

Mamoru falava com a Carmen e ambos passeavam ao longo dos canteiros floridos onde havia apenas a velada luz das lanternas. Lentamente, sumiram na escuridão, no meio das árvores.

Usagi imaginava que desculpa a moça dera a Mamoru para seduzi-lo. Depois, concluiu que não haveria necessidade de desculpas. Mamoru levara uma vida de monge nos dias de viagem e, na certa, agora procurava os charmes de mulheres sedutoras.

Resolveu não pensar nele e entrou no salão iluminado somente por velas. Os pares deslizavam no chão polido. Havia flores por toda parte; as guirlandas das paredes quase escondiam a orquestra que tocava numa pequena plataforma.

O odor das flores, o aroma de perfumes caros e o vozerio misturavam- se à sentimental melodia.

Tudo era lindo e ao mesmo tempo emocionante para Usagi, que jamais fora a um baile de adultos. Ela via pela primeira vez como uma mulher elegante dançava: a saia ampla girava em volta dela como pétalas de uma flor.

A valsa chegava ao fim, e os pares foram para o jardim ou para a sala do bufê.

Usagi preocupou-se por estar sozinha e resolveu ir embora.

Mas a música começou de novo; e era um tango. Ficou então apreciando a graça com que os pares se movimentavam nos passos difíceis da dança. Foi quando ouviu uma voz que lhe dizia, em espanhol:

- A senhorita quer me dar o prazer desta dança ?

Ela estremeceu. Sabia quem a convidava, e foi incapaz de responder. Mamoru tomou o silêncio como aceitação, passou o braço em volta de sua cintura e levou-a para o meio da pista.

Usagi quase não respirava.

"Tenho medo de nem conseguir dançar bem", pensava ela.

Mas os dois se entrosaram com perfeição. Usagi meio que adivinhava os passos que Mamoru iria dar. Talvez a pressão dos dedos dele na sua cintura ou o fato de dançarem colados contribuísse para isso ! E ela não pensava em nada mais além do prazer de dançar !

- Está gostando da festa ? - Mamoru lhe perguntou.

- Estou encantada, senhor - replicou Usagi em italiano, após certa hesitação. Tentara também disfarçar a voz.

Não falava tão bem o italiano, como e espanhol e o português. O pouco que sabia aprendera com Giovanna, sua antiga empregada em Buenos Aires.

Kenji Tsukino insistira para que a filha tivesse aulas de italiano, mas Usagi limitara-se a aprender o dialeto falado por Giovanna, o italiano dos imigrantes que se estabeleceram na Argentina e usado nas canções populares, especialmente nas letras do tango.

- Mora em Buenos Aires, senhorita ? - indagou Mamoru, também em italiano. Mas num italiano puro, dos aristocratas.

- Sim, senhor, moro em Buenos Aires - respondeu Usagi.

Rezava para que ele não lhe fizesse muitas perguntas. Afinal, não era correto, durante o Carnaval, tentar descobrir a identidade das pessoas. A diversão da festa consistia em ser anônimo.

Para uma mulher argentina, o Carnaval representava uma oportunidade de arranjar um novo parceiro, ou descobrir um admirador inesperado.

Mamoru e Usagi continuaram dançando em silêncio, usufruindo o prazer da dança.

"Não errei nenhuma vez", pensava Usagi quando a música parou. Mamoru conduziu-a ao jardim, para um lugar deserto.

- Dança maravilhosamente bem, senhorita - elogiou-a.

- Grazie - agradeceu ela, em italiano.

Não conversaram mais. Para ela, esse silêncio teve um sentido todo especial. Mas… que sentido ? Ela não poderia explicar, apenas sabia que algo diferente se passava.

- Vamos… entrar ? - gaguejou ela, enfim.

- Se é o que prefere...

Usagi achou que Mamoru fitava-a atentamente, procurando ver por detrás da máscara, procurando talvez adivinhar quem era sua parceira. Num dado momento ele tomou-lhe a mão e beijou-a.

- Obrigado - disse.

A pressão dos lábios dele provocou-lhe uma sensação semelhante à de um raio percorrendo-lhe o corpo.

Assim que entraram no salão, uma mulher fantasiada de Dama das Camélias foi ao encontro de Mamoru, exclamando:

- Procurei você por toda parte !

Usagi, sem olhar para trás, escapou. Ela subiu a escada correndo e foi para o seu quarto. Vibrava ainda com a música e o encantamento da dança. Ela dançara o tango com Mamoru ! Dançara como sempre quisera, com um homem cujos passos se harmonizavam com os dela e que deslizara pelo salão com uma agilidade de dançarino.

Lentamente, ela se despiu. Pôs a camisola e soltou os cabelos. Podia ainda ouvir a orquestra tocando à distância. Deitou-se, revivendo os incidentes da noite. Nunca imaginara que um homem segurasse uma mulher tão junto de si ao dançar o tango. Houve qualquer coisa de muito íntimo no contato de seus seios junto ao corpo de Mamoru.

Quase não conversaram durante a dança. Na verdade, seria difícil falar enquanto executavam os passos complicados e graciosos do tango.

O que estaria a Dama das Camélias fazendo naquele instante ? "Com certeza oferecendo os lábios vermelhos a Mamoru, como fez a sra. Hernández", pensava Usagi.

Quase lamentava não ter feito o mesmo. Mas a masculinidade poderosa de Mamoru sempre a perturbara. Pensou que o odiasse, Porém, naquele momento, não tinha tanta certeza assim. Sentia ainda na mão o calor dos lábios de Mamoru.

"Eu não devia ter ido ao baile", concluiu. "Ele traiu papai, e eu devia odiá-lo."

Não obstante, na escuridão de seu quarto, não pensava em outra coisa além do beijo de Mamoru.


Usagi levantou muito cedo na manhã seguinte. Não conseguira dormir bem; culpava-se por seu procedimento na noite anterior.

Encontrou muitos cabogramas sobre a escrivaninha. Abriu-os, e decifrou-os.

Meia hora mais tarde o sr. Kou entrou em sua sala de trabalho e disse:

- Buenos dias, señorita. Espero que tenha dormido bem, e que a música não a tenha perturbado.

- De forma alguma, senhor. Dormi muito bem - mentiu Usagi.

- Que bom ! Vejo que está pronta para o trabalho.

- Sem dúvida. O sr. Chiba encontra-se no escritório ?

- Não, foi cavalgar - o sr. Kou sorriu e acrescentou: - Geralmente, depois de uma noite de festa, ele faz isso. Alega que é bom para o fígado.

- É o que meu pai sempre dizia - exclamou Usagi. Arrependeu-se logo de ter dado uma informação sobre o seu passado; mas era tarde demais.

- Seu pai gostava de cavalgar, senhorita ?

- Sim, como todo inglês. Mas espero que o sr. Chiba não se demore. Há alguns cabogramas que requerem resposta urgente.

- O sr. Chiba jamais se atrasa. Se bem que hoje muitas estradas estão bloqueadas. Houve alguns tumultos ontem à noite, e a União Cívica Radical pôs barricadas em vários pontos da cidade.

- Coisa grave ? - ela ficou aflita.

- Um pouco mais grave que em geral. Não sei se a senhorita ouviu falar sobre esse novo movimento revolucionário da Argentina.

- Revolucionário ? Não, não ouvi falar nada. É perigoso ?

- Mais ou menos. Tudo começou em 1889, com a revolta dos nouveaux riches que não eram aceitos pela aristocracia intransigente. Esses novos-ricos juntaram-se aos operários para lutar contra os aristocratas.

- E formaram uma organização - adiantou Usagi.

- Sim, uma organização chamada União Cívica Radical, aliás muito violenta.

- E tem obtido sucesso ?

- Causou já muitos distúrbios. Houve enormes demonstrações populares pelas ruas, e iniciou-se um movimento de oposição ao governo , com o apoio da Marinha.

- A Marinha traiu o governo ? - interrogou Usagi, escandalizada.

- De certa maneira, pois o presidente viu-se forçado a reconsiderar sua posição. Tentou se manter, mas foi inútil, e teve de renunciar.

Na verdade, Usagi ouvira falar sobre a tal União Cívica Radical antes de sair de Buenos Aires com os pais, mas não supôs que crescera tanto ou que fosse um partido a ser encarado com preocupação.

- Naturalmente, como sempre acontece com essas coisas - prosseguiu o sr. Kou com um suspiro - Há elementos arruaceiros que escapam ao controle da polícia; e ocorre o que ocorreu ontem à noite.

- O que fizeram ?

- Quebraram as vidraças dos edifícios públicos, e são responsáveis por várias mortes.

- Vamos esperar que o sr. Chiba não encontre esses desordeiros em seu caminho - comentou Usagi.

- Não acho provável. É até possível que ele tenha ido à sua fazenda.

- Mas fica a duas horas de distância daqui, não é mesmo ?

- Não para o sr. Chiba, que cavalga com muita rapidez. Porém isso é apenas uma suposição, e ele pode chegar a qualquer momento.

Ela foi dar uma volta pelo jardim. Os empregados punham a casa em ordem. As flores eram retiradas do salão de baile, os pratos e copos recolhidos. Os jardineiros removiam as lanternas das árvores.

Usagi, sem se dar conta do que fazia, foi para o mesmo lugar onde estivera com Mamoru na véspera.

"Por que falamos tão pouco ?", ela se questionava. "Estaria ele sentindo a mesma emoção que eu senti, enquanto caminhávamos pelo jardim ?"

Fora maravilhoso para Usagi ter dançado aquele tango com Mamoru !

"Combinamos tão bem, nós dois !", confessava ela a si mesma.

Voltou para o interior da mansão. Pôs sua escrivaninha em ordem, apanhou um livro sobre Economia e tentou ler. Mas estava o tempo todo de olho no relógio.

Seu almoço foi servido. Pelas janelas abertas via a linda fonte entalhada, e ouvia o som da água caindo no pedestal de mármore.

Findo o almoço, escreveu uma longa carta para a mãe. Procurava lembrar-se de cada pequeno detalhe: como estava Buenos Aires, como era a casa do sr. Chiba, a alegria do baile.

"Dancei com o sr. Chiba", começara ela a escrever, arrependendo-se em seguida.

Não sabia por que, mas não desejava que a mãe soubesse que haviam dançado juntos.

Usagi terminou a carta, fechou o envelope, endereçou-o e o pôs no lugar da correspondência a ser remetida.


Eram já quatro horas da tarde quando Seiya Kou voltou ao escritório, naturalmente depois da sesta.

- Nem sinal do sr. Chiba - disse ele - Deve ter ido à estância. Isso me intriga, pois falou que iria lá amanhã, e não hoje.

- Talvez estivesse ansioso por ver seus empregados de volta ao trabalho - comentou Usagi com um sorriso - Imagino que a turma da fazenda também tenha festejado a data de ontem.

- Sem dúvida, senhorita. A pequena aldeia deve ter sido decorada, e houve fogos de artifício providenciados pelo patrão. Todas as pessoas do local trabalham para ele.

- Há muitos empregados na fazenda ?

- Mais de duzentos. Moram numa aldeia modelo, construída ao redor de uma velha igreja.

- Gostaria de ver isso tudo algum dia - observou Usagi.

- Garanto que o sr. Chiba a levará.

Quando ela preparava-se para responder, um empregado entrou na sala. Tinha uma expressão preocupada quando disse:

- Sr. Kou, Toshio está aqui e deseja falar com o senhor.

- Toshio ?

No escritório apareceu um homem em trajes de montaria, que foi logo falando:

- Sr. Kou, não pode imaginar o que aconteceu ! Trouxe comigo um recado, e o senhor precisa agir rapidamente.

- Fale logo, homem ! - insistiu Seiya Kou, alarmado.

- Aprisionaram o sr. Chiba. Havia no mínimo quinze homens. Não pudemos fazer nada, nada !

Usagi ergueu-se enquanto Toshio entregava ao sr. Kou um pedaço de papel.

- O que houve? O que é isso ? - indagou ela a Toshio.

- Os guerrilheiros, senhorita ! Os guerrilheiros da União Cívica Radical. Pegaram o sr. Chiba como refém.

- Não acredito ! - gritou ela.

O sr. Kou passou-lhe o papel que Toshio lhe dera. Era, de fato, a letra de Mamoru e, por segundos, as palavras dançaram sob os olhos de Usagi antes de começar a ler:

"Fui aprisionado pelos membros da União Cívica Radical. Eles querem um resgate de um milhão de pesos, metade em ouro. Informaram que, se o dinheiro não for obtido até o meio-dia de amanhã, eu serei um homem morto. Toshio tem instruções sobre como comunicar-se com eles.

Mamoru Chiba".

Usagi leu a nota devagar e relutava em crer.

- Não pode ser verdade. É impossível ! - exclamou o sr. Kou.

- É verdade, senhor - insistiu Toshio - Eles se aproximaram de nós inesperadamente. Voltávamos da estância, galopando, mas eles nos alcançaram. No começo nem sabíamos quem eram.

- Você disse que havia quinze homens ? - indagou Seiya Kou.

- Mais ou menos, talvez mais, não contei. Fiquei com tanto medo ! Eles nos cercaram.

- O que fez o sr. Chiba, Toshio ?

- Perguntou o que queriam. Os homens conversaram com o patrão por muito tempo. Não achei que se tratava de assunto sério, pensei que quisessem alguma informação.

- Entendo - replicou o sr. Kou - Como poderia você supor que seu patrão estaria em perigo ?

- Os homens disseram que a briga não tinha nada a ver com ele - continuou Toshio - Precisavam de dinheiro e decidiram seqüestrar o primeiro homem rico que aparecesse.

- Mas você e o sr. Chiba tinham armas, não ? - Usagi resolveu entrar na conversa.

- Tínhamos. É que éramos apenas dois, senhorita. Só dois ! E não havia razão para arriscarmos nossas vidas. Poderíamos matar talvez dois deles, entretanto os outros nos matariam !

- O que houve quando seu patrão percebeu o que desejavam ? - interrogou Usagi.

- Ficou muito calmo e tentou dissuadi-los. Mas os homens não cederam, e o patrão sugeriu então que eu trouxesse o recado. Claro, eu teria preferido ficar, mas ele gritou: "Não!" Mandou-me de volta dizendo que o sr. Kou saberia o que fazer.

- Eu saberia o que fazer ! - repetiu Seiya Kou - O que fazer ? Como posso dar um milhão de pesos a esses criminosos, a essa ralé ? Vão usar o dinheiro para comprar mais armas e matar mais gente !

- Não seria interessante avisar a polícia ? - aventou Usagi. O sr. Kou sacudiu a cabeça, num gesto negativo.

- A polícia não conseguiria fazer nada. Os pampas estendem-se a perder de vista, e esses canalhas escondem-se nos lugares mais difíceis. No ano passado seqüestraram um político - prosseguiu o sr. Kou - O partido ao qual o homem pertencia não tinha suficiente capital. Pois bem, quando os canalhas viram que o dinheiro tardava a chegar, começaram a mandar os dedos do pobre homem, um a um, aos familiares.

- Oh, não ! - gemeu Usagi, horrorizada.

- Enfim, o dinheiro foi providenciado, a vítima liberada, porém sem cinco de seus preciosos dedos.

- Isso é horrível ! Terrível ! - bradou Usagi, indignada. Pensava em Mamoru sem os dedos que a tocaram no baile da véspera. Não agüentava imaginá-lo um homem mutilado !

- Temos de conseguir esse dinheiro, custe o que custar, sr. Kou - declarou ela. - Não é uma quantia tão astronômica assim para o sr. Chiba.

- Não é - concordou o sr. Kou - Vou ao banco já e explicarei o que houve.

- Há mais uma coisa que os homens me disseram, antes de eu partir - declarou Toshio - Informaram-me que, se soldados me acompanharem, eles matarão o patrão imediatamente.

- Que desgraça ! - exclamou Seiya Kou - Uma verdadeira desgraça. E pensar que, nos dias de hoje, num país civilizado como o nosso, tenhamos de experimentar esse ultraje. Dar-lhes dinheiro e incentivá-los a cometer mais crimes, até que ninguém mais possa viver em paz e com segurança.

- Contudo, nesse meio tempo, sr. Kou, precisamos salvar o sr. Chiba ! - observou Usagi.

- Vou ao banco já !

Ela preveniu-o para que conversasse em particular com o gerente.

- Há sempre a possibilidade de que muitas pessoas pensem como o senhor, que dar dinheiro a guerrilheiros é encorajá-los. A polícia, se descobrir, insistirá em mandar um pelotão atrás deles. E isso significará morte certa para o sr. Chiba.

- Entendo - refletiu o sr. Kou - Vou fazer o que me recomenda, senhorita. Apenas espero que, recebido o dinheiro, esses bandidos soltem o patrão.

O sr. Kou retirou-se, porém Toshio permaneceu na sala. Usagi desconfiou de que ele quisesse se desculpar por não ter atacado os guerrilheiros. Consolou-o então:

- Não havia nada que você pudesse fazer, Toshio.

- Eu morreria pelo patrão ! Mas, quando pus a mão na minha pistola, ele gritou: "Não, Toshio !" E eu obedeci.

- Seria absurdo arriscar assim a sua vida.

- Obrigado, senhorita, por me compreender.

- Para onde você acha que eles levaram o sr. Chiba, Toshio ? Onde o esconderam ?

- Há muitos lugares possíveis, senhorita, próximo aos pântanos, à margem do rio, ou junto às praias.

- Quinze homens, dezesseis com o senhor, formam um grupo muito grande. Mesmo o capim alto dos pampas não os esconderia por completo.

- Tem razão, senhorita - concordou Toshio - Eu não creio que eles tenham ido aos pampas. Essa ralé cozinha suas próprias refeições e precisa de lugar para os cavalos. Eles têm necessidade de um esconderijo.

- Mas… onde ? Quando você deixou o patrão, olhou para trás para ver que direção tomavam ?

- Sí, señorita. Primeiro, foram para o sul. Depois, seguiram para o leste. O patrão sempre cavalgava no centro, pois acho que tinham medo que ele fugisse.

Usagi sentiu uma espécie de pressentimento, adivinhando o lugar para onde Mamoru fora levado. E perguntou para Toshio:

- Ouça, você iria comigo hoje à noite procurar o sr. Chiba ? Resgatá-lo ?

- Resgatá-lo ? - repetiu Toshio, os olhos arregalados de espanto - Mas não sabemos ao certo onde ele se encontra !

- Desconfio de que sei, Toshio… mas não conte aos empregados da casa que vamos procurá-lo. Tentariam nos impedir.

- Acha que somente a senhorita e eu poderemos salvá-los ?

- Acho, Toshio, nós dois sozinhos. Seria perigoso mais de duas pessoas aproximaram-se do esconderijo dos guerrilheiros.

- Que tal, senhorita, informarmos o sr. Kou ? - sugeriu Toshio.

- Não ! Não falaremos nada a ninguém ! Você tem de me dar sua palavra de honra, Toshio, de que guardará segredo. É o único meio de salvarmos seu patrão.

- Para isso, senhorita, estou pronto. Sei que todo mundo me chamará de covarde porque abandonei o sr. Chiba. Vão dizer que eu deveria ter matado os guerrilheiros do grupo, todos eles. Preciso tomar alguma medida para que não me acusem de ser medroso.

- Você não é medroso e nem covarde. Fez o que deveria ser feito. Agora, preciso de sua ajuda, e sei que posso confiar em você.

- Pode confiar, senhorita.

- Então, vá descansar. À noite, encontro-me com você nas estrebarias. Precisamos de três cavalos.

- Três, senhorita ?

- Um para você, um para mim e um para o sr. Chiba voltar para casa.

- Espero que a senhorita esteja certa de que vai trazer o sr. Chiba para casa sem pagar o resgate. Será uma grande vitória !

- O problema não é o dinheiro em si. Não quero é que os guerrilheiros vençam, que continuem a usar desses métodos cruéis para conseguir dinheiro. Precisamos derrotá-los !

- E tem fé de que poderemos derrotá-los, senhorita ?

- É bem possível. Nós dois traremos o sr. Chiba para casa esta noite mesmo. Mas, silêncio, Toshio. Não conte nada a pessoa alguma, ouviu ? Tudo depende desse silêncio.

- Juro que nada sairá de minha boca !

- Combinado, Toshio. Estarei nas estrebarias assim que anoitecer - Toshio retirou-se.

Usagi tremia. Tinha dificuldade em acreditar que Mamoru estivesse preso, que tivesse de se submeter à humilhação de ceder às exigências dos guerrilheiros.

Além disso, mesmo que pagassem o resgate, quem poderia garantir que os criminosos não o matariam ? Vivo, Mamoru reconheceria os homens e o local onde fora escondido. Arriscariam eles a vida soltando Mamoru são e salvo ?

"Tenho de encontrá-lo ! Tenho de salvá-lo !", pensava Usagi.

Em seguida, subiu para o quarto. Encontrou no guarda-roupa um traje de montaria, elegante, confeccionado por um famoso costureiro de Londres. De suede verde-escuro, compunha-se de jaqueta e saia, esta aberta de lado, permitindo à cavaleira que montasse como homem. Seria inconveniente, para percorrer longas distâncias, sentar-se na montaria como convinha às mulheres.

Tentou descansar antes de se vestir. Necessitaria de toda sua energia para a missão que a aguardava.

"Preciso salvá-lo. Meu Deus, ajude-me a salvá-lo ! Salve-o !", rezava Usagi. "Não posso imaginá-lo nas mãos e à mercê de guerrilheiros".

Na véspera, enquanto caminhavam pelo jardim, ele parecera-lhe poderoso, indestrutível. E ela estivera tão perto desse Mamoru cheio de vida… "Amanhã, ele poderá estar morto !", pensava com desespero. "É inconcebível ! Isso não pode acontecer ! Preciso salvá-lo ! Oh, meu Deus, ajude-me !"

Usagi apertou os dedos com força até que ficaram sem cor. Então descobriu: Ela o amava ! Sim, ela o amava ! E esse amor a dominara pouco a pouco, sorrateiramente.

Por instantes, ela não pôde acreditar que isso fosse verdade.

Talvez estivesse dramatizando a situação e exagerando seus sentimentos.

Mas, não, ela o amava mesmo, e havia algum tempo.

Ela o amara enquanto discutiam durante os jantares. Ela o amara a bordo. Ela o amara quando, segurando o bebê no colo, na cabine do navio, vira nos olhos de Mamoru uma expressão diferente, uma expressão apaixonada. Ela o amara na noite da véspera dançando tango; e a sensação que teve quando as mãos de Mamoru a tocaram, não foi de medo, mas… de amor !

"Que tola fui por não ter percebido antes !"

Com tremenda agonia, deu-se conta de que esse amor era vergonhoso. Como poderia amar o homem que traíra seu pai ?! Que o abandonara à própria sorte ?! Um Judas ?!

Mamoru Chiba portara-se como um traidor. Mamoru, o homem que um dia ela odiara, que desejara ver humilhado !

E, agora, o amava ! Sentia um desejo ardente de salvá-lo, mesmo que morresse nessa tentativa perigosa !


P. S.: Nos vemos no Capítulo 7.