N/a: Este capítulo demorou mais a sair, mas por motivos nobres, uma vez que viajei. Com as baterias recarregadas venho desejar a todos um ótimo 2023. E trago também um capítulo que precisei ponderar e editar bastante até ficar satisfeita. Agradeço à review anônima deixada no último capítulo com uma correção, já editei o texto.


Capítulo 13 - Duas cartas de Pemberley

Em meio à bagunça que sua vida havia virado, haviam pequenos momentos de alegria. Em uma carta que recebera de Jane, ela foi informada que Mr. Bingley havia voltado para Netherfield e lhes feito uma visita. Sua irmã não poderia estar mais feliz, ela sabia, e ela não se impressionaria se a próxima carta anunciasse seu noivado. Ela se perguntava se o fato tinha algo a ver com a conversa dela com Mr. Darcy.

Ela não havia tido notícias dele ou de Georgiana por semanas, a última comunicação com a menina havia sido quando falaram do noivado entre Charlotte e o Coronel Fitzwilliam. Em julho uma nova carta dela chegou e Elizabeth subiu as escadas sentindo a grossura dela, imaginando se ela havia tirado o atraso de todo o tempo que não escrevera. O pensamento a divertiu. Georgiana era uma menina de tão poucas palavras que suas cartas eram sempre curtas.

Ela entrou no quarto e fechou a porta e qual não foi sua surpresa ao notar que, dentro da carta marcada pela letra leve e elegante de Georgiana havia outro papel dobrado, mais grosso. Ela não reconheceu a letra, mas um leve passar de olhos pelas linhas fez seu coração bater mais rápido.

Cara Mrs. Sheffield,

Peço desculpas se considerar meu comportamento inapropriado. Não a julgo se queimar essa carta no momento que perceber a quem pertence, e o artifício que usei para que ela chegasse até a senhora. Se, no entanto, perdoar meu atrevimento e me permitir lhe expor o que gostaria, ficarei imensamente grato. E prometo não mais importuná-la, já que sua opinião a meu respeito ficou bem clara em nosso último encontro. Não se preocupe, não pretendo repetir meus sentimentos proferidos em tal encontro. No entanto, você me fez três acusações na ocasião, diferentes em natureza e importância. Me acusou de separar sua irmã de Mr. Bingley, de proibir meu primo de ver sua amiga Miss Lucas, e me acusou de julgar a forma como cria sua filha, considerando-a uma terrível mãe. Espero no futuro ser salvaguardado da severidade das censuras que me foram feitas com tanta veemência após a explicação de meus atos e motivos.

Eu percebi, em Netherfield, que Mr. Bingley estava se apaixonando por sua irmã. Posso dizer isso com certeza pois já o vi sob a influência de tal sentimento algumas vezes. No entanto, quando falei com ele a respeito após o baile de Netherfield percebi que, dessa vez, os sentimentos pareciam mais fortes. Eu observei sua irmã atentamente, Mrs. Sheffield e, apesar dela sempre se demonstrar agradável e parecer feliz na companhia de Bingley, não me pareceu que demonstrasse qualquer tipo de afeição. Pelo contrário, ela sempre se mostrou totalmente serena. Imagino que você, como sua irmã, tenha um conhecimento mais profundo de sua disposição, por isso, se fiz uma leitura errada, peço desculpas. Minha intenção nunca foi separar um casal cujas afeições cresciam de ambos os lados – da forma como eu via, estava protegendo meu amigo de um coração partido que, achava eu, com certeza viria.

Quanto a meu primo... ele me confessou, certo dia, que pretendia fazer uma visita à Portland Place pois não conseguia mais conter seus sentimentos. Foram dias em que eu estava completamente distraído, minha senhora, pois planejava com cuidado como poderia declarar meus sentimentos a você. Posso ter perdido parte do que Richard falou, mas quando ele mencionou visitar Portland Place e fazer uma proposta, foi como se lesse meus pensamentos. E eu interpretei mal suas intenções, achando que era à senhora que ele gostaria de propor casamento, e me excedi em minha resposta. Eu já esclareci o assunto com ele. E, digo com sinceridade, estou extremamente feliz por ele e Miss Lucas.

Quanto à última acusação que me fez, de que sempre julgo você, sua filha, e a forma como se relacionam: para isso preciso contar um pouco da minha história. A senhora sabe que já fui casado. E é possível que também tenha ouvido algumas histórias acerca de minha falecida esposa, muitas delas pura fantasia. Eu me casei jovem, obedecendo aos desejos de meu pai, que estava então doente. Sophia era a filha de um antigo amigo dele e na época acreditei que deveria confiar no julgamento de meu pai, que a afeição surgiria entre nós depois de nos casarmos. O casamento foi extremamente vantajoso e apreciado por ambas as famílias, mas meu pai não viveu muito depois da união que era de seu desejo. Minha mãe havia morrido anos antes, pouco após o nascimento de Georgiana e foi assim que me vi repentinamente assolado por todos os compromissos que exigiam minha atenção. Minha irmã era ainda uma criança, o que tornava ainda maior o peso de minhas responsabilidades.

Sophia, logo entendi, não tinha interesse nenhum na vida que foi escolhida para ela. Ela passava longos períodos sozinha e raramente cumpria com suas próprias responsabilidades. Quando ela engravidou, alguns anos depois, imaginei que o fato a faria finalmente se responsabilizar por suas tarefas e retomar o rumo de sua própria vida. No entanto, estava enganado. Ela se trancou ainda mais em si mesma. E um dia simplesmente desapareceu. Trancou sua dama de companhia no quarto, pagou uma boa quantia a um valete, e sumiu. Ela estava grávida de 7 meses. Me coloquei no encalço dela, mas consegui traçar sua rota somente até Londres, depois perdi seu rastro. Por meses a procurei sem sucesso, até finalmente receber a carta que mudou minha vida. Nela, Sophia dizia que não suportava mais viver e que mataria a si mesma e ao bebê. Àquela altura, se ela realmente tivera a criança, o pequeno deveria estar com dois ou três meses de vida. Tentei retraçar o rumo da carta, mas foi impossível.

Por mais alguns anos tentei desesperadamente encontrar pistas a seu respeito, para ao menos saber onde ela e o bebê estavam enterrados, mas nunca achei nenhum indício. E a fixação por encontrá-la fez com que eu negligenciasse outras responsabilidades, o que teve consequências desastrosas para minha irmã. Peço desculpas, mas esta não é uma história que irei entrar em detalhes agora. Diante de tudo isso, cara Mrs. Sheffield, peço desculpas se observei a você e sua filha interagirem com maior atenção do que seria adequado, com certeza fi-lo sem pensar. Quando vejo você com Lucy imagino como poderia ter sido minha vida caso meu filho não tivesse sido tirado de mim em tão tenra idade – eu sequer sei se fui pai de um menino ou uma menina. E peço desculpas por meu comportamento no dia em que a menina desapareceu, acredito que fui extremamente rude com a senhora, mas foi só porque o desespero, tão conhecido meu, mais uma vez me assolou. Me assustou terrivelmente a perspectiva de você também ser uma mãe sem filho.

Esta é, minha senhora, a total verdade.

Fitzwilliam Darcy

A carta foi lida e relida. Depois de algumas releituras, Elizabeth começou a se sentir estúpida. Talvez ela não fosse tão diferente de sua mãe afinal. Se apressara em julgar o caráter de Mr. Darcy, cada nova característica que ela observava somando para formar uma figura da qual ela não gostasse. Era verdade que ele havia errado ao separar Mr. Bingley e Jane, mas não era a sua irmã tão reservada em seus afetos que às vezes era difícil até mesmo para ela, Elizabeth, notá-los? E o que aconteceria então se fosse um querido amigo seu que estivesse na situação em que ela acreditasse, se magoaria? Não teria Elizabeth feito o mesmo?

E quanto à Lucy... A história que Darcy compartilhara fazia com que todos os seus atos fossem postos sob nova luz. É claro que ele olhava a garota com atenção, assim como a interação dela com a menina. Era um lembrete da vida que poderia ter tido. E Elizabeth entendia aquilo muito bem, não? Quando ela e James foram para Norfolk sob as recomendações do médico e, ainda assim, ela perdeu o bebê. Ela nunca imaginou que seria capaz de sentir tal tristeza, mas ao menos ela havia visto seu filho. Como seria não saber onde sua criança está, se viva ou morta?

Ela via agora, havia julgado Mr. Darcy mal. Ela não o culparia se nunca mais quisesse vê-la.

Ela levou mais um dia inteiro digerindo a carta de Darcy antes de decidir ler a carta da irmã mais nova dele. Georgiana dizia que o irmão estava em Pemberley, o que fazia sentido, pensou Elizabeth, uma vez que ele conseguiu colocar sua própria carta dentro do envelope da irmã. Ele ficaria por mais algumas semanas antes de voltar a Londres a negócios e Georgiana mencionava que não veria Elizabeth por longos meses, então por que ela não visitava Pemberley?

Elizabeth fechou a carta rapidamente, tentando pensar que desculpa poderia usar para educadamente declinar o convite. Era óbvio que Georgiana não sabia nada do que havia transpirado entre o irmão dela e Elizabeth, ou não teria feito o convite. Mas Elizabeth não queria que a menina pensasse que a amizade das duas pouco importava para ela.

Então ela se lembrou do convite dos tios de viajar para o norte, para a região dos lagos. Ela havia declinado o convite pela mesma razão - a região dos lagos significava os arredores de Pemberley, uma vez que era o lugar onde sua tia havia crescido. E a região de Pemberley significava, obrigatoriamente, uma passagem pela antiga propriedade.

Oras, talvez uma passagem fosse melhor que ficar várias semanas como hóspede de Georgiana. Ao menos ela poderia usar a desculpa de que tinha que seguir o cronograma dos tios para minimizar o tempo que passariam com a família Darcy.

Se fosse uma opção, Elizabeth preferia não ver Darcy novamente. Mas ela sabia que isso seria impraticável, uma vez que, mesmo conhecendo-a por tão pouco tempo, ela amava Georgiana como uma de suas irmãs mais novas e não seria justo puni-la pela confusão que ela mesma criara com o irmão dela. Talvez encarar o desconforto fosse melhor mais cedo do que mais tarde.

Ela ainda levou alguns dias para escrever de volta à Georgiana. Depois de muito pensar, finalmente se satisfez com a resposta, de que agradecia imensamente o convite, mas já havia aceitado o convite dos tios de viajar pela região dos lagos e que eles passariam por Pemberley se tivessem a chance, mas não teriam mais do que dois dias devido ao cronograma já planejado.

Feito isso, ela falou para os tios que havia mudado de ideia e iria com eles afinal. Mr. Gardiner, sempre feliz em passar um tempo com a sobrinha, ficou radiante.

-Lucy ficará bem? - perguntou Mrs. Gardiner, uma vez que eles haviam combinado antes que as crianças ficariam em Longbourn.

-Fará bem a ela passar um tempo com os primos. Além do que, Jane estará lá, lhes fazendo companhia. Não imagino uma situação em que Lucy ficaria mais feliz.

-Como ela está?

Elizabeth havia contado à tia da fuga da menina, mas sem maiores detalhes sobre o envolvimento de Darcy na procura e de sua surpreendente visita no dia seguinte. Ela também não havia contado que finalmente descobrira o que vinha atormentando a menina. Sua tia realmente acreditava, assim como toda sua família, que Lucy era sua filha biológica. Ela e James haviam ficado em Norfolk por vários meses, e voltaram com a bebê nos braços. Ninguém desconfiara que aquela não era a criança que Elizabeth carregara, e essa havia sido a intenção exata dos dois.

Mas agora… agora que James estava morto e Lucy sabia da verdade, ela se sentia extremamente solitária. Ela não tinha com quem conversar a respeito de como abordar a questão com a criança. Ela olhou para a tia, incerta. Ela a ajudara tantas vezes desde que ela se casara e mudara para Londres. Mas, ainda assim, guardar o segredo era uma grande responsabilidade.

-Lizzy, você está com aquela expressão de que quer me contar algo mas não sabe muito bem como. - disse a tia, sorrindo.

Foi o incentivo que ela precisava.

-Posso conversar com você, tia? Em um lugar onde possamos ter total privacidade?

As duas se fecharam no quarto, dizendo que iriam experimentar alguns vestidos e não gostariam de ser incomodadas. Elizabeth pediu para a tia se sentar e contou a história na íntegra. Mrs. Gardiner permaneceu em silêncio, reagindo com surpresa quando era necessário, ou segurando a mão da sobrinha com carinho quando achava que ela precisava do toque para continuar. Uma vez que Elizabeth começou a contar a história, não conseguiu parar. Mesmo que o assunto não estivesse relacionado, ela falou de Darcy, de seu pedido de casamento, das primeiras impressões equivocadas que ela tivera dele. Quanto mais ela falava, mais conseguia colocar tudo em perspectiva, e seu peito ficou mais leve. Quando a história chegou ao final sua tia ficou alguns segundos em silêncio, antes de murmurar:

-Sempre me preocupei com você durante seu casamento com James, ouvia relatos tão contraditórios a respeito dele. Mas ao menos ele parecia ter o coração no lugar.

Elizabeth sorriu minimamente, pensando em outro homem cujos relatos lhe pareciam contraditórios. A tia, parecendo ler seus pensamentos, completou:

-E o mesmo se pode dizer de Mr. Darcy.

-Você acha que agi de forma errada, ao tratá-lo como tratei?

-Não, querida. Sua reação foi adequada às informações que tinha a respeito dele. E, apesar de me parecer que ele é bem-intencionado, sua habilidade em comunicar o que sente precisa ser melhorada.

A isso Elizabeth riu.

-Me lembra um homem que me cortejou, antes de eu me casar com seu tio. Ele parecia sempre aéreo em minha presença, mas as coisas que escrevia… era a forma como ele melhor conseguia se comunicar.

Elizabeth sorriu, achando difícil imaginar a tia com alguém que não fosse seu querido tio.

-Eu não imagino a força e a coragem que você precisou ter, ao tomar as decisões que tomou. - disse a tia baixinho - Eu a admiro por isso.

Elizabeth sorriu, sabendo muito bem que não mudaria tudo que acontecera por nada. As duas ficaram em silêncio, cada uma com seus pensamentos, quando Mrs. Gardiner disse de repente:

-Por isso que você voltou atrás em sua decisão de viajar conosco! Dessa forma você tem um real motivo para declinar o convite de Miss Darcy!

-Sim, esse foi um dos motivos para termos essa conversa. Acredito que não poderemos evitar de passar por Pemberley, considerando a região que vamos visitar. Mas talvez você possa me ajudar a limitar a visita ao mínimo de tempo necessário para não sermos mal-educados.

-Mr. Darcy estará em Pemberley? Talvez ele venha para Londres após o casamento do primo.

-O casamento! - disse Elizabeth, espantada por não ter pensado nisso antes. O casamento do Coronel e Charlotte seria na próxima semana, em Hunsford. É claro que Mr. Darcy compareceria ao casamento do primo!

-Talvez seja melhor assim, Lizzy. Encontrá-lo em um evento, cercada de pessoas conhecidas.

Ela esperou alguns segundos, perguntando timidamente:

-Como você se sente em relação a ele?

Elizabeth piscou várias vezes, decidida a não chorar.

-Eu não sei. A última vez que o vi, ainda estava inflamada por minha opinião enviesada dele. Oh, eu não acho que conseguiria encará-lo de novo!

-No casamento você não conseguirá evitar. Mas caso não queira viajar conosco, fique em Londres. Você pode dizer à Miss Darcy que Lucy não está bem, o que não é uma mentira total.

-Eu não quero que Georgiana ache que nossa amizade não tem importância para mim. - ela disse, ao que a tia sorriu. Ela havia percebido que ela se referia à menina de forma carinhosa. - É como… é como quando eu estava com James, e, não importando como estivesse o nosso relacionamento, nunca descontamos nossos problemas em Lucy. Georgiana não tem culpa nenhuma em tudo isso, e sinto que, por algum motivo, ela realmente precisa de amigos verdadeiros.

-Ela tem sorte em tê-la como amiga, Lizzy.