Capítulo 33 - Sozinha

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De todos esses anos acadêmicos eu nunca havia me sentido tão sozinha como estava me sentindo naquele momento. Eu não havia conseguido processar os últimos acontecimentos daquela semana que me fez acabar sem nenhuma amiga.

As minhas amizades que sempre tive todo zelo de cultivar e dando o meu melhor havia escapado de minhas mãos como fumaça. E pela primeira vez, eu não tinha nenhuma amiga. Eu estava sozinha com aquele sentimento sufocante de solidão que me fazia morder o lábio com força para reprimir as lágrimas que insistiam em querer cair. Eu não queria chorar, não mais, não naquele momento. Por que chorar não iria fazer com que Ino me perdoasse ou fazer com que Hinata parasse de me boicotar. Mas estava difícil para mim passar aquele intervalo com aquele peso nas costas.

Eu havia me refugiado em um canto fora do prédio, ao lado de um arbusto aonde eu sabia que ninguém iria em encontrar. Tinha sido covarde o suficiente para não entrar no refeitório e dar de cara com Hinata e Ino. Não queria que Hinata visse o quanto ela havia me afetado por ter envenenado Ino contra mim. Não queria dar o gostinho de sua vitória com a minha derrota.

Não mesmo.

Encolhi-me, segurando minhas pernas dobradas contra meu peito, minha testa descansando nos joelhos. Primeira semana de aula e estava terminando de uma forma ruim, e ainda era quinta-feira.

Choraminguei baixinho.

- O que está fazendo aqui sozinha? – A voz grave de Sasuke me fez levantar a cabeça e enxergá-lo de pé a minha frente.

- É bom ficar sozinha as vezes – murmurei, desviando meus olhos para o lado.

Desde ontem eu meio que estava o evitando para não perceber o quão mal estava com o fim da minha amizade com Ino. Não queria que ele se preocupasse comigo, e me refugiar perto dos arbustos havia sido um meio de ele não notar o quanto estava mal.

Mas parece que meu plano foi por água baixo.

- Não era para você está passando o intervalo com sua amiga? – Perguntou enquanto jogava a mochila no chão e sentava ao meu lado.

- Não tenho mais amiga.

Senti a mão de Sasuke segurar o meu queixo, puxando meu rosto para poder fitá-lo. Seu rosto era sério, as sobrancelhas franzidas.

- O que aconteceu dessa vez? Você está estranha desde ontem.

Suspirei profundamente e estiquei um pouco as minhas pernas.

- É problema meu, Sasuke. Não se preocupe.

Sasuke me deu um leve cascudo no topo da minha cabeça, trazendo minha atenção de volta para ele.

- Você é minha garota, cabeçuda. É claro que me preocupo com você. Eu nunca te vi passando o intervalo sozinha e ainda escondida pelos cantos com essa cara de enterro. Então pode abrindo o bico.

Sasuke tinha um jeito único de me fazer sentir especial e o incrível era que eu achei fofo quando meu xingou. Abri um pequeno sorriso comprimido, sentindo meus olhos arderem, mas estava conseguindo prender àquelas lágrimas de querer escapar.

- Acho que... perdi a amizade da minha melhor amiga.

- Você fala da loira maluca? – Assenti com a cabeça e desvirei meus olhos para meus joelhos. – E por que você acha isso?

- Ela sabe que estamos juntos.

- Ih?

Ergui meus olhos para ele.

- Ela ficou chateada por que eu não contei nada a ela.

As sobrancelhas negras de Sasuke ergueram-se para cima.

- Você não é obrigada a contar a sua vida inteira para ela. Se você não sabe ainda, temos algo se chama privacidade.

Suspirei, balançando minha cabeça para os lados.

- Você não entende, Sasuke. Nós somos amigas desde que me entendo por gente. Sempre contamos tudo uma para outra. Eu nunca escondi nada dela e nem ela escode nada de mim. O meu silêncio foi como uma prova de que não confio nela plenamente.

- E por que você não contou para ela?

Mordi o lábio e fitei a árvore que estava muito distante de aonde estava.

- Eu não sei – murmurei. – Eu acho que... fiquei com medo da reação dela...

- Que você está namorando com um ex-presidiário.

Meus olhos arregalaram e meu coração acelerou.

- Não! Eu não disse isso!

- Mas foi o que pareceu – sua voz saiu cortante.

- Mas você não é um ex-presidiário, não é? Isso são boatos.

E seu rosto aproximou perigosamente do meu. Seus olhos negros e intensos fitava o mais profundo que conseguia enxergar o fundo dos meus olhos.

Prendi a respiração.

- Eu fui preso sim, Sakura – seu tom soou baixo e forte. – Mas não pelos motivos que todos dessa escola estupida pensam.

A surpresa era nítida em meu rosto. Então os boatos tinham que Q de verdade.

Minha nossa!

- Você... foi... – não consegui terminar a frase, pois o choque estava estampado em minha cara.

Sasuke umedeceu os lábios e afastou seu rosto para trás, sem tirar os olhos de mim.

- Sim – declarou. – Tem vergonha de mim? Quer terminar comigo?

Ele foi preso.

Sasuke foi preso.

Preso.

A palavra ficou ecoando por minha mente, impedindo de reagir, me deixando de alguma forma alienada. Observei seu rosto sério, as expressões tensas e o cenho meio que franzido. E por mais que meu coração esteja batendo de uma extremidade fora do normal e que minha mente estivesse fervilhando sobre ele ter sido preso, uma coisa eu tinha certeza; Sasuke havia me amarrado de todas as formas possíveis. Ele havia se cravado dentro de mim como uma planta com raízes fortes.

Sasuke havia transformado o medo que sentia por ele em confiança, o repúdio por admiração, a raiva em... amor.

Eu o amava e junto desse sentimento vinha a admiração e a confiança. Eu sabia que ele não estava contando tudo, que só havia jogado a bomba, respondendo uma pergunta que havia feito a ele a muito tempo atrás e que soou como ofensa.

Eu confiava em Sasuke para saber que tem história no meio disso tudo.

Vergonha?

Eu o admirava por ele ser uma pessoa que não se importa com a opinião alheia.

Terminar?

Jamais.

Então a minha resposta a seguir soou tão firme como uma rocha sólida e impenetrável:

- Não.

E o silêncio se formou entre a gente, ambos se fitando, perdidos em seus próprios pensamentos. Uma decisão crucial diante de uma revelação que poderia abalar o que temos e o que sentimos um pelo outro.

Eu não quero me separar dele.

E como se tivesse lendo o meu último pensamento, a sua expressão tensa relaxou e aquele pequeno sorriso no canto esquerdo de sua boca se fez presente. E eu tive a comprovação com àquele mínimo gesto que estávamos bem e sem mais perguntas sobre seu passado, pois era tudo que eu iria ter naquele momento.

- Sabe qual é o seu problema? – Sua voz soou pouco descontraída, tocou a minha testa com seu dedo. - Você pensa demais. Você se importa demais com a opinião alheia. Apenas mande tudo e todos pro caralho.

- Eu não sei ser que nem você, despejar um quilo de palavrões e deixar por si só.

- Eu sei – sorriu -, e é por isso que eu sou louco por você.

E nem foi preciso dizer que meu coração acelerou algumas batidas e meus olhos fitaram sua boca agora curvada para cima.

- Você está me fazendo ter vontade de beijá-lo.

- Essa é a minha intensão – e sua mão afagou o meu rosto.

Afastei sua mão de meu rosto e olhei para os lados, constatando que estamos sozinhos... quer dizer, quase sozinhos, pois visualizei algumas pessoas passando ao longe.

- Estamos na escola.

- Estamos escondidos atrás de uma moita.

Voltei a fitá-lo e franzi o cenho, achando pouco engraçado a sua falta de senso de botânica.

- É um arbusto.

- É tudo mato para mim.

Apertei os olhos, fingindo indignação.

- Você é ridículo.

E como consequência ele me roubou um beijo, mas logo afastei-me e empurrei-o para trás com minhas mãos em seu ombro.

- Você está louco?

- Relaxa, Sakurinha – e apertou minha bochecha, dei um tapa em sua mão. – Au.

- Não sei como consegue passar de fofo para inconsequente e finalizar sendo babaca.

- Não tem como evitar, é um dom.

- De ser babaca? – Provoquei e seu sorriso se tornou malicioso.

- De ser gostoso o suficiente para deixá-la louquinha por mim.

Ah meu Deus.

Não consegui evitar e acabei por gargalhar, tentando desfocá-lo, por que ele estava daquele jeito insuportavelmente confiante que só fala besteiras que me deixaria constrangida.

- Você é definitivamente inacreditável.

E seu rosto se aproximou e sussurrou com sua voz rouca e sedutora no meu ouvido:

- Sou inacreditável em várias formas possíveis, .ra.

Arrepiei.

Afastei-me um pouco para o lado.

- Ok.

Ele riu baixinho e voltou ao seu lugar, devolvendo o meu espaço pessoal.

- Como foi que ela soube? – Perguntou de repente, e demorei uns dois segundos para situar que ele se referia o assunto anterior.

- A Ino? – Ele assentiu com a cabeça. - A Hinata contou.

- Aquela filha da puta de novo? Quer que eu dê uns sacodes nela?

- O quê? – Meus olhos arregalaram, e a imagem veio na minha cabeça dele segurando Hinata pelos ombros e a sacudindo até fazê-la desmaiar. Minha nossa. – Claro que não! Qual foi, Sasuke? Você vai chegar na Hinata e bater nela?

- Eu não disse bater nela, mas um susto para que ela te deixe em paz, sim.

- Não quero que você faça nada com ela.

Ele revirou os olhos e os desviou para frente, o rosto numa leve careta.

- Bem que aquela garota merece – murmurou, pegando a mochila e colocando no meio de suas pernas.

Apertei os olhos, segurei seu queixo e puxei seu rosto para me fitar, meu polegar e o indicador compressando suas bochechas.

- Você não vai mexer com a Hinata, está me entendendo? – Meu tom soou lento, baixo e repreendedor. - Ela é assunto meu. E vai ser eu que vou resolver. Então prometa.

- Tá, tá.

Soltei o seu rosto.

- Não quero você metido em confusão por minha causa.

- Tsc.

Sasuke desviou sua atenção novamente para mochila e abriu o bolso da frente, remexendo em algo. E foi só agora que prestei atenção naquela mochila e me perguntei o que ele fazia com ela na hora do intervalo.

- E essa mochila aí? – Perguntei. - Está pretendendo fugir?

- Eu vou sair mais cedo – respondeu, sem me olhar. - A secretaria do cursinho mandou um e-mail ontem avisando que a prova seria agora de manhã e só visualizei esse e-mail agora pouco.

- Caramba. Você estudou alguma coisa?

- Estudei ontem. A prova era para ser a tarde, eles apenas adiantaram por que o prédio vai entrar em manutenção elétrica por três dias.

- Entendi, boa sorte.

Ele ergueu a cabeça para mim e fechou o zíper da mochila.

- Você pode pegar a matéria de matemática para mim?

- Claro.

E jogou a chave de seu armário na minha mão.

- O caderno está lá dentro do armário. Você sabe aonde é, né?

- Como poderei esquecer que seu armário é embaixo do meu, depois daquele dia que você usou a desculpa de pegar o boné só para escutar minha conversa?

- Eu não estava escutando sua conversa, Sakurinha – e cutucou minha bochecha com o dedo.

- Para de gracinhas – dei um tapa em sua mão.

Ele apenas sorriu daquele jeito safado.

- O que vocês estão fazendo aqui escondidos?

Viramos a cabeça para o lado automaticamente, dando de cara com Naruto de frente para gente.

- Naruto? – Fiquei de pé rapidamente como se eu tivesse sido pega fazendo algo de errado.

Percebi que Sasuke também tomou impulso para ficar de pé, se postou a minha frente e usou o seu modo "gentil" para abordá-lo:

- O que você quer?

- Calma aí, cara – e sorriu. – Eu só estava passando e vi vocês aqui.

- Não tem nada para você aqui, então vaza.

- Sasuke! – O repreendi, contornando o seu copo e ficando ao seu lado.

Naruto coçou a cabeça.

- Liga não Sakura, conheço esse humor azedo de longas datas. Não é, brow?

Sasuke revirou os olhos.

-Tsc.

- Algum problema, Naruto? – Perguntei, imaginando se Naruto havia presenciado alguma cena íntima minha e de Sasuke.

Ele sorriu daquele jeito descontraído.

- Nenhum...

E o sinal do término do intervalo soou, interrompendo-o.

- Temos biologia agora – ele disse para mim. – Vamos para a aula?

- Ah... – desviei meus olhos por um segundo para Sasuke e a cara que ele fazia me fez hesitar. Voltei a fitar Naruto e sorri nervosamente: - C-claro.

Naruto fitou Sasuke nenhum pouco abalado por ele ser alvo daquele olhar fuzilador.

- Aí, brow, hoje não temos treino.

- Não pretendia ir mesmo – sua voz foi cortante, passando por nós, indo em direção aos portões de saída.

- Ele vai embora? – Naruto perguntou, fitando as costas de Sasuke, levemente confuso.

- O Sasuke tem uma prova do curso de inglês agora.

- Ah!

- Vamos?

Ele me fitou e assentiu com a cabeça. Fomos pela direção oposta, entrando no prédio e nos misturando no meio dos alunos.

- Vocês realmente se dão bem, não é? – Ele perguntou, me fitando de lado.

- Tentamos viver de forma pacífica um com o outro.

Com muitos beijos e amassos, mas ele não precisava saber.

- Deve ser legar ter um irmão – comentou meio que aleatoriamente.

- O Sasuke não é meu irmão.

- Eu sei, mas é como se fosse. Ter alguém que possa conversar, chatear – sorriu – vice e versa. Sasuke tem cara que te chateia muito.

Sorri e fitei o chão por aonde estavamos caminhando.

- No começo sim, mas agora... acho que nos acostumamos um com o outro.

Sim, havia me acostumado com Sasuke, e revendo minha vida lá atrás, sem ele presente ou a Mikoto, eu podia notar o quanto era solitário só eu e papai.

Quando levantei meus olhos para cima, meu coração deu um salto, pois quem vinha em minha direção era Hinata e ao seu lado estava Ino. Engoli a seco observando o jeito que Hinata ficou me olhando ao lado de Naruto, ele tagarelando algo que eu não escutava mais. Ino ficou séria e desviou o olhar para o lado e puxou o braço de Hinata, desviando de alguns alunos e passando por mim como se não me conhecesse.

Eu não sabia se eu estava mais chocada era por Ino ter me ignorado de uma forma covarde ou de Hinata me fuzilando com o olhar por eu estar ao lado de Naruto. Sem querer eu havia provocado ela, eu sei que a provoquei, pois Hinata era daquele tipo ciumenta. Era um ponto para mim, e só torcia para não vir chumbo grosso de sua parte.

Suspirei pesadamente e fitei Naruto, ele não havia notado a tensão, apenas comentava sobre o quanto queria ter um irmão.

Fomos para a sala e minutos depois o professor entrou deixando todos quietos.

A aula se arrastou por quarenta minutos e estava pouco tediosa, e no final dela o professor alegou um trabalho sobre Fisiologia Humana que seria em dupla e para ser entregue na próxima aula, que no caso seria segunda-feira. Claro que ele escolheu as duplas e confesso que fiquei surpresa por Naruto ser a minha dupla.

Meu Deus.

Depois que o sinal do término da aula tocou, Naruto me chamou lá no fundão, me fazendo esperá-lo.

Ele se aproximou, enquanto fechava a mochila, meio que desajeitado.

- Seremos duplas.

- Sim – disse, pegando minha mochila e colocando nas costas. – Como iremos fazer esse trabalho? E já digo que amanhã não posso, tenho aulas de ballet.

- Amanhã também não posso e nem final de semana – fez uma pequena careta, coçando atrás da cabeça -, vou viajar.

Ergui minhas sobrancelhas, prevendo aonde aquela conversa poderia chegar. Eu fazendo o trabalho sozinha.

- E agora?

- Pode ser hoje? – Propôs, pouco esperançoso.

- Hoje? Ahn, acho que sim.

Ele coçou o queixo.

- Pode ser na sua casa? Sabe, o meu avô estava com... – Hesitou, e novamente a careta se formou em seu rosto – duas namoradas...

- Seu avô tem duas namoradas?! – Minha voz saiu pouco alta pela incredulidade que estava.

Duas Namoradas!

- Na verdade é a namorada e a namorada amante.

Minhas sobrancelhas ergueram para cima. Minha nossa!

- Seu avô... ele é bem... – fiz um movimento com as mãos para frente – popular.

- Ele é um puto, Sakura. Mas acontece que a namorada oficial sabia da amante e a amante não sabia que era amante. – Quê? – E ontem meu avô bebeu demais e convidou as duas enganadamente e as duas se encontraram pela primeira vez e você pode imaginar a confusão.

- Eu estou tentando imaginar – murmurei, estava tentando processar aquela loucura toda.

- Meu avô está quebrado e a casa está quebrada. Tenho vergonha de te levar lá... para falar a verdade, tenho vergonha de levar qualquer pessoa lá.

- Tudo bem, Naruto – toquei o seu ombro. – Respire fundo, você está falando rápido demais.

Ele ficou até vermelho enquanto fazia aquele esforço.

- Desculpe.

- Nós fazemos o trabalho na minha casa – eu disse.

Naruto apenas suspirou e depois sorriu cansado, um sorriso que me derreteria se fosse meses atrás. Agora era diferente, pois eu apenas enxergava Naruto como um amigo. Um amigo como qualquer outro garoto que passava por problemas.

- Então nos encontramos na hora da saída.

Assenti com a cabeça, sorrindo comprimido.

- Ok.