J~L

Here's to the ones that we got

Um brinde às pessoas que temos

Cheers to the wish you were here, but you're not

Brinde ao desejo de que você estivesse aqui, mas não está

'Cause the drinks bring back all the memories

Porque as bebidas trazem todas as lembranças de volta

Of everything we've been through

De tudo que já passamos

Toast to the ones here today

Um brinde para aqueles aqui hoje

Toast to the ones that we lost on the way

Um brinde para aqueles que perdemos pelo caminho

'Cause the drinks bring back all the memories

Porque as bebidas trazem todas as lembranças de volta

And the memories bring back, memories bring back you

E as lembranças trazem, as lembranças trazem você de volta

(Maroon 5 - Memories)


15 anos depois…

Fraternidade: substantivo feminino. Do latim fraternitas, "relação de parentesco entre irmãos". Relação de parentesco estabelecida entre irmãos; irmandade. Convivência afetuosa entre irmãos.

Lily Evans poderia ficar o dia inteiro ditando todos os significados e exemplos sobre fraternidade que poderia encontrar na internet, dicionários e enciclopédias, porém, ela tinha um jeito melhor de explicar, um melhor substantivo. Ou ainda, tinha o nome, sobrenome e muitos outros detalhes: Sirius Black.

Se alguém não tivesse um irmão ou não compreendesse essa dinâmica, Lily sentaria com a pessoa durante uma tarde inteira para falar sobre o seu. E ela não precisaria de palavras difíceis, tradução do latim ou o que fosse, porque seus quinze anos vivendo com ele era fácil de explicar, ainda que tivesse muito a falar. Ah, como ela tinha o que falar.

Se qualquer um fosse irmão de Sirius, entenderia. Ou talvez não...talvez, ela havia sido a sortuda por ter aquela ligação com ele. Mas para ser simples, ao invés de perder uma tarde inteira falando dele, o resumo era: Lily amava Sirius como louca.

Louca: Adjetivo. Que deixou de ter razão; que se alienou; doida, maluca. Que se opõe à razão; absurda. Que não possui controle sobre os próprios comportamentos; descontrolada.

Lily amava sua mãe, Geneviève Evans, como qualquer um poderia e deveria amar uma mãe fantástica e maravilhosa como ela era. Lily amava seu pai - ela se negava a chamá-lo de padrasto -, Orion Black, por todo o amor e apoio que recebeu. Mas Sirius…

Antes de partir para Sirius, é importante dizer como eles acabaram nesta situação. E, honestamente, Lily só conseguia pensar que ter alguém tão especial em sua vida só viria de algo tão simples quanto o amor entre duas pessoas.

E esse foi o caso entre Geneviève e Orion, que se encontraram após estarem completamente desiludidos no amor. O ex-marido da bela Geneviève era mais apaixonado por garrafas de álcool do que pela mulher e muito menos interessado em sua única filha do que nas reuniões dos Alcoólicos Anônimos. Essas combinações fizeram mãe e filha serem obrigadas a fugir, quando Lily tinha apenas um ano de vida, para escapar de um futuro perigoso que se aproximava. Geneviève conseguiu dar a volta por cima, conseguindo um bom trabalho no ramo da moda de luxo de Londres, o que a levou até Orion.

O amor entre os dois foi imediato, apesar de ambos estarem com o pé atrás para uma nova pessoa em suas vidas. Orion foi o primeiro a acordar e recusar perder um amor daqueles por conta de alguém sem alma, como foi Walburga. Mas lhe custou convencer Geneviève a abrir-se para aquilo.

Após a barreira do coração, criada por péssimas experiências amorosas, ter sido vencida após alguns meses de muita luta da parte de Orion, uma outra barreira surgiu: os filhos. Esta foi mais fácil de lidar, apesar das crianças serem as coisas mais preciosas para eles, porque eles já tinham todo o amor que precisavam para se acolherem como uma nova família.

Talvez se seus pais não fossem apaixonados loucamente um pelo outro, aquilo não teria funcionado tão bem...ou talvez, os irmãos teriam qualquer forte aliança independente de qualquer sentimento à sua volta, porque algo aconteceu quando Sirius e Lily se encontraram anos atrás, naquela mesma casa em que viviam. Não poderia dizer que recordava de seu primeiro encontro, mas sua mãe adorava contar para todos, inclusive para os dois, que foi algo mágico, um amor tão forte em um simples abraço, que tirou toda e qualquer dúvida ou receio que os dois pais tinham em relação aquela nova família surgindo.

Agora, partindo para Sirius: era apenas três meses mais velho do que ela, mas adorava jogar de "irmão mais velho" como se anos os separassem, e Lily tinha que lembrá-lo daquilo constantemente. Ele era o tipo de pessoa que estava sempre sorrindo, querendo fazer as pessoas ao seu redor rirem - apesar de levar algumas brincadeiras além do limite, às vezes -, a alma do ambiente. Quem o conhecia, sabia que era impossível ficar entediado ao seu lado, mas você teria que conseguir seguir seus passos, sua mente incansável e seu espírito sempre jovem. Para a sorte de Lily, que apesar de amá-lo, às vezes ficava cansada, Sirius tinha amigos perfeitos para isso.

A infância não poderia ter sido a melhor para ambos. Envoltos em uma família que queria fazer aquilo dar certo, nada faltou para eles em muitos aspectos na vida, mas principalmente o que eles mais precisavam: amor. Geneviève costumava dizer que por isso os filhos não haviam se tornado uns mimados babacas, pois havia algo muito mais importante na vida deles do que todo o material que os rodeavam.

E, no final, eram irmãos. O que significava que nem tudo eram flores o tempo todo. Sirius a irritava, Lily o irritava, brigas ocorriam aqui e ali. Quando chegaram na adolescência, a coisa piorou quando as opiniões divergiam, mas eles não passavam mais do que algumas horas brigados, nunca podendo ficar longe um do outro...

Principalmente depois da morte de Orion quando tinham treze anos, o acontecimento que tinha tudo para destruir a todos na casa, mas que apenas os trouxeram mais perto e fizeram aquela família de três se tornar mais forte do que antes.

Orion havia sido uma fortaleza para todos, o homem que qualquer membro da família recorria em qualquer momento, seja feliz ou triste. Suas palavras eram sempre gentis, mas profundas. Quando ele começava a discursar, não importava o assunto, todos paravam para ouvir, porque ele sabia como chegar até a sua alma. Ela lembrava quando ouvia seu pai no trabalho e pensava que gostaria de ser como ele: mão firme, sabendo como lutar por suas ideias e como ajudar a todos no meio do caminho. Não acumulou a fortuna por dormir no ponto, então era o maior exemplo de trabalhador que tinham, além de Geneviève que dava tudo o que tinha para o seu trabalho tão amado, mesmo sabendo que não precisava colocar o pé para fora para trabalhar.

Sirius era bem parecido com Orion, mas apenas fisicamente. Os dois eram tão bonitos, elegantes e charmosos, que era impossível dizer que não eram pai e filho. Porém, Sirius era muito mais tranquilo com a vida, querendo deixar as coisas acontecerem de acordo com o tempo passando, sem planejamentos, sem preocupações absurdas. Eram duas almas completamente diferentes, mas que podiam reagir do mesmo jeito caso algum membro da família estivesse em risco. Os Black eram apaixonados por aqueles ao seu redor e isso era algo do pouco que os dois homens da casa se pareciam e Lily sentia que sua vida nunca poderia ser tão repleta de felicidade e amor sem eles.

Mas, apesar de Lily poder passar um dia inteiro falando de Sirius, seu irmão não era a pessoa mais perfeita da face da Terra e vinha com os seus defeitos...alguns mais irritantes do que o outro, mas como ela acabou por descobrir alguns anos atrás, um deles era o pior para ela.

Mas para compreender melhor, o dia teria que, finalmente, começar. Pois aquela quinta-feira seria bem diferente de todas as outras, dando o pontapé em algo que mudaria completamente a vida deles com o passar dos próximos dias.

O relógio da cozinha fez um singelo anúncio do horário: 8 da manhã.

Lily Evans estava levemente atrasada, mas não por ter acordado tarde, corrido com o café da manhã ou qualquer coisa do tipo, porque estava acordada desde às 6h, com o estômago embrulhado e nervosa, trocando de roupa a toda hora, penteando o cabelo para fazer a hora passar, massageando sua perna machucada. Tudo isso para tentar se acalmar com o dia que teria pela frente, pela novidade na sua vida que começaria em alguns minutos.

Voltou sua atenção para a tigela com frutas inacabadas em sua frente e apenas brincou com elas. Já havia escovado os dentes e estava pronta, mas teria que fingir estar terminando seu café da manhã ainda para a pequena cena que teria que fazer. Odiava deixar comida no prato, mas sabia que elas não durariam muito ali.

Começou a ouvir passos nas escadas e se ajeitou no banco do balcão da cozinha. Sabia que ele passaria ali antes de sair, mesmo já tendo tomado café da manhã, porque ele nunca saía de casa antes de vê-la. Ouviu quando ele entrou na cozinha e, alguns segundos depois, recebeu um beijo na bochecha.

- Bom dia. - Sirius disse indo até a geladeira.

- Bom dia. - Lily respondeu e bateu com os dedos no balcão. - Quem era ela? - Perguntou sem rodeios. Aquilo não era parte da cena que precisava fazer, mas a curiosidade estava bem alta.

O irmão se virou para ela e sorriu falsamente.

- Do que está falando?

- Da garota que trouxe ontem e ajudou a escapar há uma hora. - Ela levantou a sobrancelha para ele, um sorriso sarcástico se abrindo.

- Droga. Por que você tem essa mania de deixar seus sapatos por todo o lugar? Eu chutei sua maldita bota no meio do corredor e quase caí.

- E a garota riu. Bem alto. - Lily acrescentou se lembrando do momento quando estava se arrumando em seu quarto e ouviu um barulho no corredor, acompanhado de uma risada feminina logo depois. Uma risada que não era da sua mãe.

- Ela estava feliz. Pode culpá-la? - Ele deu um longo gole na garrafa d'água.

Ela não respondeu, se limitando a revirar os olhos.

- Não era aquela lambisgoia, certo?

- Não, Lily, não era Parkinson.

- Ótimo!

Ouviram a porta da frente abrir e não se importaram em checar quem era, já que tinham uma forte ideia. Como continuava de costas para a porta da cozinha, só podia ouvir os passos, assim como aconteceu com a chegada do irmão. Eles chegavam cada vez mais perto e viu uma grande mão entrando em seu campo de visão e roubando um morango de sua tigela. Tão previsível.

- Bom dia, Sardenta.

- Bom dia, Descabelado.

James Potter sorriu e foi até Sirius, o cumprimentando.

Todo santo dia da semana era a mesma coisa. Não se lembrava da única vez em que Sirius havia ido para Hogwarts sem James, revezando os dias que Sirius passava na casa do amigo e vice-versa, mesmo cada um indo com o seu próprio carro - ou transporte, quando ainda não tinham a carteira de motorista. Os dois se conheceram na primeira semana de aula, quando tinham apenas cinco anos e não se desgrudaram desde então. Remus Lupin, o outro melhor amigo, chegou ao mesmo tempo e era tão grudado quanto os outros dois, mas morava do outro lado da cidade, o que o impedia de passar por ali de manhã.

O grupo de amigos, até quatro anos atrás, contava com outro integrante, mas que Lily não gostava de pensar. Sempre que o nome Peter Pettigrew surgia em sua mente, ela o jogava para longe.

- Bem, vou terminar de me arrumar. Vejo os dois bocós em Hogwarts. - Ela começou a sair da cozinha, começando a sua cena.

- Você vai se atrasar.- Sirius disse olhando para o relógio. - Se atrasar mais, na verdade.

- E você se importa? Vocês estão atrasados também.

- Você é a garota exemplo, eu não. Corre e eu te dou uma carona.

- Primeiro, você me pedir para correr é muito engraçado. Há há. - Ela fez uma careta para ele.

- Eu não disse nesse sentido, sua tonta. - Sirius revirou os olhos.

- Segundo, eu sou o exemplo? Eu não fui aceita em Oxford no começo do ano letivo.

Sirius deu de ombros.

- Você sabe que foi o meu sobrenome que me colocou lá.

- Não foi e você sabe. Você conquistou isso sozinho. - Ela deu um aperto forte no ombro do irmão, orgulhosa. - Não ouse dizer o contrário.

- Eu ainda não sei como você conseguiu essa façanha, mas a gente sabe que foi por mérito seu. - James dizia enquanto roubava um outro morango da tigela de Lily.

- Diz o cara que tem Oxford e Cambridge disputando por si. - disse Lily

- O fato de eu ser muito bom não tem nada a ver com Sirius ser bom, mas menos do que eu. - James deu de ombros comendo outra fruta. - Mas você está tão dentro de Oxford quanto Sirius, então se apresse…- Ele deu uma olhada para a perna dela. - Do jeito que puder. A gente te dá uma carona.

- Por que vocês não vão logo e, por uma vez, chegam na hora?

- Velhos hábitos são difíceis de quebrar. - James respondeu comendo a última fruta do café da manhã de Lily. Debruçando-se no balcão, o moreno de cabelos bagunçados e olhos castanho-esverdeados a encarou. - Mas você se atrasar é novidade. O que 'tá rolando?

- Nada. - Ela respondeu rapidamente. Precisava mudar o rumo da conversa, porque ainda não era hora. - Você saberia dizer quem o meu irmão trouxe ontem para casa?

James se virou para Sirius antes de perguntar.

- Você estava com alguém ontem? - Sirius apenas deu uma olhada incrédula para o amigo, que pareceu entender na hora.

Lily não sabia como eles conseguiam fazer aquilo, se comunicar apenas com o olhar. Ela tinha alguns desses momentos com Alice, é verdade, mas o que ocorria entre aqueles dois era outro nível. Parecia que James tinha o nome, sobrenome, R.G e o endereço da garota apenas naquela troca de olhar com Sirius.

- Parece que eu sei quem é. - James sorriu, virando-se para ela. - Mas acho que o seu irmão não quer expor a garota.

- HÁ! - Ela soltou bem alto. - Está tentando fazer a imagem de santo do meu irmão para mim? Me conta outra. Pelo visto, devia ser Parkinson, por isso não quer falar.

- Eu já falei que não era ela. - Sirius respondeu, se fazendo presente na conversa.

O celular de Lily apitou com uma mensagem e ela tirou o aparelho de fora do alcance do irmão, que tentou ver quem era. Limpou a garganta e levantou o olhar para os dois garotos.

- Alice está vindo me buscar, não me esperem. Eu só preciso escovar os dentes e estarei logo atrás.

Sem esperar mais, ela saiu da cozinha e foi para a escada. Fingia que subia, tomando cuidado com a perna machucada. Ouviu quando o irmão e James passaram pela sala, pelo saguão da entrada e saíram. Lily desceu os primeiros degraus e correu como pôde até a janela, vendo o carro de ambos saírem do pátio da casa, passando pelo portão e sumindo pela rua.

Foi até sua bolsa na porta de entrada e saiu mancando até o portão dos carros, que ainda fechava, e passou por ele.

Assim que saiu na calçada, um carro estacionado no fim da rua ligou e parou em sua frente.

- Por que eles estão sempre atrasados? - Edgar Bones perguntou quando ela entrou no carro e o beijou.

- Porque são Sirius e James. - ela respondeu.

- Não vamos ter tempo para nada. - Edgar engatou a marcha e saiu pela rua.

- Você dirige e eu me ocupo. - Lily dizia enquanto se aproximava do banco dele e lhe dava um beijo no pescoço.

- Você vai me fazer bater o carro, isso sim. - Apesar de dizer isso, Edgar sorriu e deu mais acesso a seu pescoço. - Falando nisso, como está a sua perna?

Há dois meses, Lily havia sofrido um acidente de carro que causara um pequeno problema com a sua perna direita. Não havia sido algo violento e nem sua culpa, já que o idiota havia cruzado o sinal vermelho e atingido o carro de Lily, mas havia sido o suficiente para que ela tivesse que ir ao hospital, engessar a perna por algumas semanas, fazer sessões de fisioterapia semanais e sentir dores esporádicas. Ainda tomava remédios para dor e inflamação que ajudavam bastante, mas se sentia em um estado melhor do que o outro motorista que, além de ter se machucado também, teve que enfrentar a fúria de Sirius.

Nada do que os seguranças do hospital não conseguiram lidar, mas o motorista talvez nunca se esqueceria das palavras (leia-se: ameaças) nada gentis do irmão.

- Boa, na medida do possível. Acordei com menos dor hoje, então vejo como uma vitória. - Ela respondeu ainda em sua missão em beijar o namorado.

- Bom saber. - Edgar limpou a garganta, tentando pensar corretamente com os lábios de Lily nele. - Está pronta? Não vai dar para trás, certo?

- Claro que não. Preferia que fizéssemos isso com o carro parado, mas não temos tempo. - Ela disse investindo mais nos beijos.

- Não. Não falo disso. - Edgar soltou o ar e quase fechou os olhos com os beijos dela. - Eu falo de chegar em Hogwarts juntos.

Aquilo era perfeito para Lily perder a vontade e se sentar corretamente no banco.

- Nos preparamos por uma semana para isso, não? Você não quer um relacionamento escondido o tanto quanto eu.

- Acho que está na hora de assumir, não acha? Não precisaremos mais perder oportunidades, não ficarmos juntos etc. - Edgar comentou prestando atenção no caminho, mas lançando olhares esporádicos para ela.

- Eu sei, eu sei. - Lily respirou fundo e olhou pela janela.

- Está na hora disso acabar. Não é justo não podermos ser um casal normal. - Ele sorriu e passou as mãos pelos cabelos dela. - Eu quero fazer tudo com você, eu te falei isso. No começo era legal, engraçado, mas agora começa a ficar complicado. Não posso te levar nos jogos de Hogwarts, tenho que entrar escondido no cinema para ninguém me ver chegando com você, ficar só te olhando de longe…

- Você fala como se eu ficasse feliz da vida fazendo tudo isso assim.

- Eu não disse que você não passa por maus momentos também.

Aquilo seria tão complicado, ela sabia. Estava pisando em um território desconhecido e não saberia no que ia resultar. Tantos cenários surgiram em sua cabeça e nenhum deles tinha um final em que tudo estava bem.

Edgar deu uma rápida olhada para ela e, vendo que a namorada parecia nervosa, tentou brincar um pouco.

- Será que eu vou morrer?

- Eu não vou deixar. - Ela respondeu um pouco sem emoção.

Hogwarts não era longe da casa dos Black-Evans, então não faltava mais do que cinco minutos. Lily pegou seu celular, achando melhor tentar conseguir aliados.

Lily: Preciso de você como um diplomata hoje.

Não demorou mais do que dois minutos para a resposta:

Remus: Do que você está falando?

Lily: Preciso de você. Hoje é o dia.

Remus: Dia do quê? Por favor, não diga que vai fazer o que eu estou pensando!

Lily deu uma olhada para o lado, para Edgar, antes de responder.

Lily: Apenas me ajude. Estou entrando no estacionamento em um minuto.

Remus: NÓS ESTAMOS NO ESTACIONAMENTO!

Melhor ainda, pensou ela. A técnica do band-aid: quanto mais rápido, menos dor. Ou no caso, quanto mais rápido a dor vem, mais rápido poderia se livrar daquela tensão e nervosismo.

Mas Edgar estava certo sobre tudo, por isso aceitou que aquele relacionamento de meses fosse exposto à luz naquele dia. Era legal no começo, mas com o relacionamento deles progredindo cada dia mais, ficava cada vez mais chato ter que esgueirar-se pela cidade (Lily não sentia-se a vontade de se esgueirar por Hogwarts com ele) e esconder as coisas.

Quando o carro de Edgar entrou no estacionamento, não foi muito difícil encontrar o grupo que Remus comentou. Os três não estavam longe de entrarem nos jardins da escola, conversando entre si. Remus foi o único que grudou os olhos no carro de Edgar e levou as mãos ao rosto, sem acreditar.

Edgar saiu do carro primeiro e Lily logo depois, jogando a bolsa pelo ombro e sorrindo para o namorado.

- Agora que estamos aqui, vamos fazer isso direito. - Ela disse.

Ofereceu a mão para ele, que pareceu pensar por um segundo, antes de aceitar. Tentando olhar pelo lado positivo de tudo aquilo, Lily começou o seu caminho por entre os alunos com um sorriso no rosto, cumprimentando um ou outro. Alguns deles comentavam e apontavam para eles, mas ela sabia que não era maldade.

Eles estavam apenas esperando pelo show, o mesmo que ela vinha imaginando em sua mente há uma semana.

- Pelo menos vai ficar claro os meus sentimentos para todos deste lugar, porque só alguém para gostar muito de você para estar aqui agora. - Edgar disse, brincando.

- Para de exagerar.

Mas ela sabia que dizia tudo aquilo para encorajar a ambos, não só a ele.

Quando estavam se aproximando, Remus engoliu em seco e deu um passo para trás, depois outro. Rapidamente, ele se virou para frente e começou a empurrar Sirius e James, apressando-os. James se virou para o amigo e bateu em sua mão, pedindo para parar de empurrá-lo, e seus olhos foram além dos ombros de Remus, sendo pegos pelas figuras de Lily e Edgar. Remus percebeu que o amigo viu a mesma coisa que ele e continuou a empurrar os dois, mas dessa vez James não reclamou e apertou o passo.

Sirius reclamou e, assim como James, bateu em Remus para impedir o amigo de quase arrastá-lo pelo chão, o que lhe fez olhar para trás também.

Ele estancou no lugar. Remus tentou fazê-lo continuar, mas agora nem um guincho o tiraria dali.

- O que…? - Foi a única coisa que Sirius conseguiu dizer. Lily segurou a mão de Edgar ainda mais forte, mas foi ele quem quase teve que forçá-la a continuar o caminho.

- Olá de novo. - A ruiva os cumprimentou e passou por eles.

Ela passava por James agora, que ainda os encarava de boca aberta, quando sentiu que seu braço esticou e Edgar não a acompanhava mais. Lily virou para trás e viu que Sirius se colocou na frente do namorado, uma mão bem espalmada no peito dele.

- Sirius, não começa. - Lily pediu e puxou Edgar, mas o irmão não o deixou continuar.

- O que você está fazendo, Bones? - Ignorando Lily, a voz de Sirius estava estranhamente calma.

- Estou acompanhando a minha namorada, Black.

Sirius soltou uma risada forçada e nem um pouco divertida.

- Você é tão engraçado. Não sabia que podia dizer esses tipos de coisas...pensei que era só idiota mesmo.

- Terá mais oportunidades para me conhecer, Black. Já que, bem…- Edgar levantou as mãos entrelaçadas com Lily. - Você tem um cunhado agora.

- Por cima do meu cadáver! - A voz de Sirius abandonou toda aquela calma anterior, deixando claro o que realmente sentia.

- Sirius! - Lily foi até ele. - Estão todos olhando. Pare com essa cena, por favor.

- Que todos olhem. - Sirius respondeu e firmou o olhar em Edgar. - Largue a mão dela.

- Vai a merda. - Lily praguejou baixinho para o moreno. - Você não manda em mim.

- Não mando. Sou o seu irmão.

- Exato. E como meu irmão, você vai sair da frente e deixar que Edgar me acompanhe.

- Como seu irmão, eu digo que esse cara nunca vai me chamar de cunhado.

Com a voz de Sirius aumentando um pouco mais a cada nova frase, Remus se aproximou, limpando a garganta e tentando chamar a atenção do grupo.

- Sirius, não vamos causar uma comoção aqui, não?

- Ah, vamos. Vamos sim. Adoro causar comoção.

- Black, eu gosto de Lily. Gosto o bastante para vir até aqui, arriscando meu pescoço, porque eu sei que você não aceita ninguém namorar a sua irmã.

- E mesmo sabendo que eu não vou aceitar você, ainda teve a coragem de vir? - Sirius se virou para Lily. - Não tinha ninguém pior para escolher quando saiu por aí procurando um perdedor?

Sem paciência mais para aquilo, Lily apenas puxou Edgar com mais força, mas isso apenas fez com que Sirius o segurasse com mais força também. O irmão e o namorado entraram em um bate boca agora, parecendo e soando como duas crianças mimadas e ela não via uma saída onde todos ficariam contentes.

- Vocês dois não falam nada? - Lily se virou para Remus e James que estavam quietos. - Tem como me ajudarem um pouco?

- Lily, o que você quer que eu faça? - Remus perguntou pelo canto da boca, não querendo que Sirius o ouvisse.

- Me apoie.

- Eu te apoio! - Ele respondeu.

- Então apoie mais!

Parecendo sair do choque de toda aquela cena, James, finalmente, pareceu querer colaborar.

- Sirius! - James chamou o amigo, que parou suas blasfêmias no meio e se virou. - Deixa pra lá, cara. Não há nada que você possa fazer, certo? - James se pendurou no ombro de Sirius e abaixando a mão dele que ainda estava espalmada no peito de Edgar Bones.

- Claro que há. - Sirius respondeu.

- Não há. Vamos, nós conversamos com Bones mais tarde e vamos fazer questão de saber quais as intenções dele. Até lá, vamos evitar uma cena. No final, todos esses seus xingamentos só atingem Lily e não esse idiota. E você sabe que, além disso, essa cena só irá chamar atenção negativa para ela. Você não quer as pessoas falando da sua irmã por aí, não é? - Ele falou baixinho a última frase.

Sirius se virou para Lily com os olhos bem abertos.

- Claro que não!

- Então vamos. Vá indo na frente e eu tomo conta do resto.

- Mas eu…

- Vai, Sirius. - James empurrou o amigo, que andava lentamente e olhando para trás. Quando seus olhos cruzaram com os de Bones, ele fez uma carranca enorme e murmurou "mais tarde".

James se virou para o casal e respirou fundo.

- Vocês não poderiam ter avisado? - Ele perguntou, cruzando os braços.

- Eu avisei Remus. - Lily apontou para o maroto citado.

- Eu estava com Sirius. Não conseguiria planejar nada com ele aqui e em menos de um minuto. - Remus se defendeu.

- Bem, em todo caso, obrigado pela ajuda. - Edgar agradeceu e deu um tapa no ombro de James, fazendo o moreno enviar um olhar enviesado, antes de olhar para a namorada e sorrir, parecendo mais relaxado. A ruiva sorriu de volta.

- Vamos. Já estamos atrasados o suficiente. - Ela disse.

Com as mãos dadas e mais tranquilos, o casal retomou o caminho, mas não antes de Edgar ser parado novamente. Desta vez, James quem segurava seu braço.

- Não pense que eu fiz isso por você. - James sussurrou para ele antes de soltá-lo com um pouco de força desnecessária. Lily pareceu não perceber o que aconteceu, pois acenava e falava com outra pessoa do outro lado do estacionamento. Edgar apenas assentiu e seguiu caminho com a ruiva.

James e Remus os assistiram partir, passarem pelo caminho dos jardins e desaparecerem para o interior da escola.

- Eu acho que Sirius está mordendo a própria mão lá dentro agora. Ele não vai aceitar isso facilmente. - Remus comentou.

- Não. Edgar Bones deveria esperar antes de agradecer. Ele mal sabe o que está vindo para ele. - James concordou.

Remus se virou para o moreno e o observou por alguns segundos.

- Você não deveria se meter nisso, muito menos entrar na onda de Sirius.

- Eu não me meto e não entro na onda dele.

- Mas aproveita.

Se virando rápido com a frase do amigo, James não conseguiria colocar melhor expressão de confusão do que a que tinha agora.

- Do que está falando?

- Você sabe...só, por favor, não deixe Sirius saber disso.

- Do que está falando? - James repetiu com mais veemência.

- Você sabe do que eu estou falando. - Remus começou a seguir seu caminho, o mesmo que todos os alunos pegavam para entrar no prédio de Hogwarts. - Sirius pode ser bem cego para isso, mas eu não sou.

- Não está falando nada com nada. - James bufou e saiu na frente, passando por Remus.

- Você acha que eu esqueci que na fatídica festa, você iria pedir para sair com…- Ele impediu-se de dizer o nome de Lily em voz alta. - ... ela?

Aquilo parou James no mesmo momento, mas ele não se virou.

- Isso foi há muitos anos, Remus.

- Eu sei. - Remus se aproximou e parou ao seu lado. - Você não gosta mais dela, então?

- Não. E isso não importa.

- Importa sim. Importa se Sirius descobrir.

- Não se preocupe, pois eu nunca fiz nada em relação à Lily e nem irei...essa história é velha e acabada. Eu sei o meu lugar, sei o que posso ou não fazer, Sirius deixou bem claro para todos nós depois do filho da puta do Pettigrew.

Remus respirou fundo e passou a mão pela nuca, olhando para James, vendo o seu amigo trancar a mandíbula de raiva.

- Não vamos falar dele. - Ele finalmente disse. - Pettigrew não deve estar no inferno, mas esperamos que esteja perto o suficiente.

- Não está. - James murmurou ainda raivoso.

- Não está? Você tem notícias dele?

As mãos de James voaram pelos cabelos, os bagunçando furiosamente, um hábito que era bem conhecido.

- Eu posso ter ido conferir o que ele anda fazendo da vida. Eu queria saber o quão miserável ele estava. - James soltou uma risada irônica. - Mas qual foi a minha surpresa ao descobrir que ele é quase um rei na nova escola. Ser filho de um juiz foi sempre a chave para muitas portas para ele, você sabe. E lá não foi diferente.

- Antes, mesmo sendo filho de juiz, ele não era tão popular, sempre na sombra das suas popularidades. - Remus meneava a cabeça, incapaz de acreditar naquilo. - Que filho da puta, eu podia jurar que ele estava mal.

- Da nossa popularidade. - Ele corrigiu o amigo. - Acho que ele aprendeu como se faz e não tendo nós para apagar a luz, ele está encontrando a sua própria lá.

Eles andaram pelo pátio em silêncio por alguns segundos, lembrando-se de Peter Pettigrew, o cara mais filho da puta que os marotos conheceram. O filho do juiz, o tímido pequeno Peter, o melhor amigo deles….

...o maldito e fudido tarado Peter Pettigrew.

- Por que não nos disse que tinha notícias dele? - Remus perguntou, a testa ainda franzida pelas novidades.

- Sirius nunca quis e nem quer falar dele, então achei melhor deixar para lá. Se ele souber da situação, você sabe o que aconteceria. Além do mais, se Sirius decidir ir atrás de Pettigrew para acabar o que ele começou há quatro anos, eu não iria impedi-lo e, sim, ajudá-lo.

- Eu sei. Acho que nenhum de nós iria impedi-lo. - Remus respirou fundo e abaixou a voz quando passavam pelos corredores da escola. - Então deixamos esse assunto para lá, antes de colocarmos mais álcool nessa fogueira.

- Quem vai queimar hoje será Bones. E eu quero estar por perto para ver.

Revirando os olhos, Remus empurrou James para dentro da classe.


No almoço, Lily estava quase acostumada com os olhares que vinha recebendo desde a manhã. Tentou prestar atenção nas aulas mais do que nos comentários e cochichos ao redor, saindo-se muito bem, apesar de ouvir alguns. Alice, sua melhor amiga, ficava olhando feio para todos, como se quisesse afugentá-los, mas nada adiantaria, ela sabia.

Honestamente, Hogwarts precisava de algumas novidades ou alguma boa fofoca, porque qual era o problema dela aparecer com um namorado? Não ajudava o fato do irmão ser daquele jeito, mas por que ela tinha que estar na boca daqueles alunos, ao invés de Edgar ou o próprio Sirius?

- Não podemos dizer que você não foi ousada. - Alice comentou em sua frente. - Nunca imaginaria que Edgar fosse realmente seguir em frente com esse plano.

- Ele tem interesse em deixar as coisas na luz, já que finalmente se declarou e disse que quer que isso seja para valer. - Ela sorriu levemente ao lembrar da noite algumas semanas atrás em que Edgar a pediu em namoro e Lily aceitou.

Porém ele queria um relacionamento normal...isso queria dizer que teriam que contar ao irmão que estavam juntos. Enquanto estavam apenas saindo, Lily não via sentido em causar uma dor de cabeça apenas por um cara que estava apenas curtindo, mas um namorado era diferente. Entendia o lado de Edgar e concordava, mas na hora de botar o plano em prática e aparecer para todos - tentando usar o público para ver se acalmava o irmão -, já era outra história.

Odiava ter que discutir ou brigar com Sirius, mas sobre aquele tema nunca seria diferente.

- Tem sido tão cansativo se esconder de Sirius nesses meses.

- Eu bem sei. Quantas vezes você dormiu em casa, mas sem dormir em casa? - A amiga riu. - E eu tendo que responder as mensagens de Sirius quando ele não conseguia falar com você, fingindo que você estava dormindo, ou no banheiro, ou passando mal.

- Você foi a minha heroína todas as vezes contra esse monstro que domina o meu irmão.

Além de todos os adjetivos e descrições sobre Sirius Black anteriores, ele também era o cara do grupo mais popular da escola, que conhecia todos, adorando sempre fazer pegadinhas com todo mundo, flertando com as garotas a torto e a direito, mas não existiria uma viva alma naquela escola que poderia encostar nela sem querer assinar seu atestado de óbito. Lily era sua protegida desde sempre, com Sirius lutando por ela mesmo quando não era chamado, mesmo quando não era necessário ou com Lily implorando para não se meter. Inclusive, achou uma jogada de mestre de James em usar isso mais cedo, tirando o irmão daquela discussão com Edgar.

Mas as coisas nunca foram sempre daquele jeito. Tudo era bem mais leve, mas tudo havia mudado há quatro anos, depois de Pettigrew, depois de…

Bebeu um longo gole de seu suco ao pensar naquela festa. Sirius sempre foi ciumento em um nível leve, querendo saber "O que aquele cara queria?", ou "Você deu o seu primeiro beijo? ONTEM? VOCÊ TEM QUATORZE ANOS!", ou até mesmo "Você deu o seu telefone para ele? O que ele tá querendo?". As respostas sempre eram muitas risadas da parte dela ou um revirar de olhos.

Mas depois daquela festa, algo não só mudou nela, como no irmão. Havia sido uma merda de experiência para ambos, até para James e Remus, já que Pettigrew era parte do grupo desde pequenos. Lily lidava com o fantasma daquilo, começou com terapia logo após o ocorrido, mesmo sua mãe não sabendo da situação, e sentia-se melhor para falar sobre isso, ainda que pudesse ter uma recaída de vez em quando.

Já Sirius...para ele, todo homem era sinal de perigo, como se qualquer pessoa com um pênis fosse matar Lily. Quando os anos foram passando e a vida social, romântica e sexual de Lily se desenvolveu ainda mais, Sirius parecia um louco. Eles já tinham dezoito anos agora, mas seu irmão morria de medo, de ciúmes e botava medo em cada garoto de Hogwarts caso eles apenas pensassem em Lily. Nada daquilo impediu que ela seguisse sua vida, mas era tudo feito em suas costas.

Ela o amava tanto, sem discernir e sem se importar que não era o mesmo sangue correndo em suas veias. Sirius era o seu irmão e o amaria e faria tudo por ele. Isso era o que doía quando tinha que viver parte da sua vida sem compartilhar com ele, pois ele tinha tantas boas conversas, bons conselhos…

- E então, tudo bem? - Edgar sentou-se ao seu lado na grande mesa do refeitório.

Eles não dividiram nenhuma classe até o momento, o que foi bom, evitando que as fofocas ficassem ainda mais intensas.

- Está tudo bem. Não falei com o meu irmão ainda. Ele foi atrás de você?

- Não. E olha que tivemos uma aula juntos. Acho que Potter e Lupin estão fazendo um trabalho espantoso para evitar que ele pule no meu pescoço…

- Se eu fosse você…- Alice olhava por cima do ombro de ambos. - Prepararia o meu pescoço neste exato momento.

O casal não teve tempo de checar e uma bandeja caiu com um baque forte ao lado de Edgar e foi empurrada para o meio da mesa, com Sirius sentando-se ao lado do suposto namorado da irmã. Edgar olhou para Sirius e forçou não deixar seu receio de perder uns dentes nos segundos seguintes ser tão aparente.

- Bones! Bom te encontrar aqui. Não estou afim de perder tempo, então vamos direto ao ponto. Está pronto? - A voz de Sirius soava falsamente calma e preocupada.

- Estava apenas esperando por você. - Ele respondeu.

- Acho ótimo que estamos na mesma página. Então…- Sirius apontou para Lily. - A minha irmã está ao seu lado, você pode começar. - O moreno pegou uma maçã da bandeja e deu uma grande mordida, esperando.

- Eu não tenho nada para conversar com Lily. Acredito que a coisa é mais entre nós, não?

- Conversar comigo para quê? Você não precisa da minha autorização para colocar um ponto final nessa pegadinha que resolveu criar, porque você já tem a minha bênção para fazer. Ou melhor, talvez Lily quem deveria acabar com isso. Não queremos ouvir que você quebrou o coração dela, não é mesmo?

A ruiva revirou os olhos.

- Ninguém vai terminar com ninguém aqui. - Lily interveio.

- Tem certeza? Então acho que as coisas vão complicar para você, Bones. - Sirius respondeu, se dirigindo para o garoto.

Lily curvou-se por cima de Edgar, querendo chegar mais perto do irmão e evitar que falassem alto demais para que os outros alunos ficassem tão a par da sua situação amorosa em Hogwarts quando Sirius começasse a ser um babaca. Porque ela tinha a impressão que ele alcançaria o nível extremo de babaquice.

- Por favor, Sirius, não vamos falar disso aqui, não faça essa cena. - Ela sussurrava para ele.

- Não estou fazendo cena, Lily.

- Sim, está. Todos estão olhando.

- A minha preocupação não é com eles, mas com você.

- Você não tem motivos para se preocupar comigo. Eu estou com Edgar há meses já e você me vê infeliz? Triste, pelos cantos?

A sombra que passou pelos olhos cinzas fez com que Edgar se inclinasse mais na direção de Lily, tomando distância de Sirius.

- Vocês estão juntos há meses? - Agora o seu tom aumentou ainda mais, fazendo com que Sirius se levantasse do banco. - Que porra é essa, Lily?

Sem anunciar suas presenças, James e Remus se aproximaram, ambos ainda carregando seus almoços.

- Sirius, para de gritar. - Remus pediu ao seu lado.

- Vamos levar isso lá para fora, pelo menos. - James propôs enquanto colocava sua bandeja na mesa e já se preparava para intervir.

- Você teve essa coragem mesmo, Bones? - Sirius, ignorando os amigos, pegou o garoto pelo colarinho, obrigando-o a se levantar. - Todos esses meses com a minha irmã, pelas minhas costas. Seu filho da puta.

- Sirius, pare. - Lily agarrou as mãos do irmão, tentando fazê-lo soltar o namorado.

- Se você fosse mais tranquilo, você saberia antes. - Edgar respondeu, estranhamente parecendo relaxado.

- Eu sou muito tranquilo, você é que não conseguiu ficar tranquilo com as suas mãos nela, não é?

Por que ele fazia isso? Por que Sirius tinha que agir dessa forma com os caras em relação à ela? Por deus, era uma relação que ambos queriam estar...nada comparado com Pettigrew.

- Você está parecendo um louco e um bem babaca. Larga ele e vamos conversar civilizadamente. - Ela pediu.

- Conversar sobre o quê? Sobre o fato de você estar com esse idiota por todo esse tempo, pelas minhas costas? Quem mais sabia? - Os olhos raivosos de Sirius se viraram para os dois amigos, que apenas negaram com a cabeça. Depois seus olhos desceram para Alice, mas era óbvio que a melhor amiga da sua irmã saberia disso.

- Solte o cara, Sirius. - Remus tentou novamente. - Literalmente, todo mundo está olhando.

- Você deixa todo mundo falar por você, Bones? - Sirius chacoalhou-o. - Você gosta dela o suficiente para vir aqui e mijar nas calças? Nem para se defender ou defender o que você, supostamente, diz sentir por ela?

- Eu não preciso provar o que eu sinto por ela, para você. Lily sabe o quanto eu gosto dela...eu falo e demonstro o tempo todo.

- Ah, você demonstra? Então deixa eu te demonstrar uma coisinha rapidinho no meio da sua cara.

- Não se eu te mostrar primeiro.

E então, Edgar fez algo que ela nunca esperava ver e, muito menos, saberia como iria reagir: seu namorado pegou o colarinho de Sirius também, pronto para partirem para as vias de fato. Aquilo pareceu divertir o irmão, que sorriu um segundo antes de levar um soco de Edgar.

Lily pulou nos braços do namorado, puxando-os para que ele soltasse o seu irmão.

- Está maluco? Você bateu no meu irmão. Meu irmão!

- Ele me agarrou primeiro! Ele iria me bater primeiro. - Edgar se defendeu.

- Não tem problema, Lily. Você não sabe a alegria que me dá por ele ter começado. - Sirius cuspiu um pouco de sangue no chão e deu um soco em Edgar de volta, fazendo-o cair nos braços de Lily. - Mas eu vou terminar, caso não se importe.

Ele estava prestes a dar outro soco em Edgar, mas James e Remus os separaram na hora certa.

- Parem, por favor. - A voz enérgica de Lily escondia completamente o horror que ela sentia por dentro. Não imaginava que as coisas iriam para aquela direção, nunca. Virou-se para o irmão - que estava sendo contido por James -, vendo que ele parecia ser o único sorrindo com aquela situação, mesmo sabendo que aquele sorriso era de raiva e de alguém que estava pronto para continuar a briga. - Lá fora. Agora. - Lily deu as costas e começou a ir em direção aos jardins. - Só você. - Ela incluiu rapidamente para Sirius.

Apesar do seu irmão parecer nervoso, sabia que ele a seguiria sem reclamar e não recomeçaria a briga estúpida. Empurrou a porta para o jardim e se afastou, encontrando um lugar longe da maioria dos alunos que aproveitavam o exterior e esperou. Mas não muito, já que Sirius saiu empurrando a porta muito mais violentamente do que ela e marchava em sua direção.

- Há meses, Lily? Desde quando essa palhaçada estava rolando, exatamente?

- Não te interessa! - Lily apontou um dedo no rosto dele, que agora tinha uma marca do lado esquerdo e parecia inchar. - Você não tem nenhum direito de fazer isso que está fazendo, você está me entendendo?

- Você viu que foi aquele imbecil que começou.

- Ele apenas deu o primeiro soco, mas você criou toda essa bagunça.

Sirius jogou as mãos no ar.

- Começou. Agora você vai defender aquele cara e ficar contra mim.

- Eu nunca vou ficar contra você, mas se você estiver errado, eu sempre vou te dizer. Você sabe disso, Sirius. E não se preocupe, porque Edgar ouvirá algumas poucas e boas também. Vocês dois foram inconsequentes por algo que não deveria tomar essas proporções.

- O que você quer que eu faça quando eu vejo a minha irmã chegando com aquele pedaço de meio homem?

- Eu quero que você cuide da sua vida amorosa e eu cuido da minha. Eu não fico reclamando ou bancando de louca com as garotas que você sai ou que leva para casa.

- Só se for Parkinson. - Ele tentou fazer uma piada, apesar de ainda estar nervoso, mas ela não iria segui-lo por ali.

- Quer saber? Foda-se se é Parkinson. Traga aquela idiota para as nossas vidas, deixe com que ela namore você e mais o resto da escola, já que fazia isso com o ex dela.

- Eu nunca irei namorar Parkinson, você sabe.

- Eu não sei de nada e, a partir de agora, não vou me importar. Me deixe em paz, Sirius.

Ela deu as costas, pronta para voltar, mas ele não parecia ter acabado.

- Eu estou apenas tentando te proteger desses idiotas.

- Não. - Ela disse, voltando até ele mancando. Sua perna latejava de dor agora, provavelmente pela confusão no refeitório, quando Edgar caiu em seus braços e ela teve que forçar a se manter em pé. - O que você está fazendo é me machucar. - Os olhos dela encheram de lágrimas e ficou com ainda mais raiva por isso. Sirius era uma das poucas pessoas que não a fazia chorar, podendo contar nos dedos de uma mão quando o fez e ainda sobrar dedos. - Você pensa que está tentando evitar que alguém me machuque, apenas para me machucar no lugar deles.

Aquilo pareceu fazer efeito, pois Sirius deu um passo para trás, surpreso. A raiva que estava bem instalada em seu rosto, deu lugar a incredulidade.

- Eu não quero te machucar, nunca.

- Mas você está fazendo. Você acabou de fazer, Snuffles.

O apelido que Lily lhe deu na infância com um tom de deboche havia sido a facada final, junto com as duas lágrimas que escorriam no rosto dela. Praticamente um tapa em sua cara por ela chamá-lo por um nome que, normalmente, a acalmava...mas que agora saía tanto do contexto, que Sirius não conseguiu responder.

Viu quando os lábios dela tremiam pelo choro que segurava, mas Lily deu as costas para ele e saiu, dando a volta pelo refeitório e partindo para o pátio da escola sob os olhares curiosos dos alunos que ouviram toda a briga.

- O que foi? Nunca brigou com alguém da sua família? Vocês são os perfeitinhos da Inglaterra? - Ele rugiu para os alunos, que rapidamente começaram a se dispersar. - Merda! - Ele passou as mãos pelo rosto, tentando se acalmar.

Ele ferrou tudo magistralmente. Que idiota!

Se Edgar saísse daquela situação como o herói, aí que ele iria explodir.

Não, sua irmã não podia ficar com ele, justo com Edgar Bones. A única coisa que ele podia fazer, era chutar a merda de uma bola no gol e tirar a virgindade das garotinhas inocentes e depois as descartar. Não que sua irmã fosse uma, mas o que esse imbecil estava querendo com ela? Lily não era o tipo que Bones gostava de se gabar nos vestiários, mesmo ela sendo linda, pois ele gostava das garotas mais novas, aquelas que ainda estavam criando suas mentalidades. Sua irmã estava longe de ser assim, tendo plena consciência de quem era, do que gostava e do que nunca aceitaria. Ter tido Orion em sua vida, mostrou a Lily que poderia encontrar alguém tão bom quanto ele mesmo e Sirius sabia que o pai lhe deixou claro isso quando a irmã começou a ter aquele interesse romântico nos garotos, mesmo antes de Sirius sair da fase de achar garotas nojentas.

Mas ela não via o que Bones era e duvidava que esse verme tivesse mudado da água para o vinho tão rápido assim.

E se ele fizesse algo contra Lily...Sirius nem gostava de pensar no que faria, pois achava que o que tinha entalado da última vez que alguém tentou tirar vantagem dela, viria à tona e ele iria destruir aquele muleque!

Pois era isso que Edgar Bones era: um muleque.

O ódio que subiu em seu peito agora lhe deu uma onda de calor só de lembrar de ser chamado de cunhado. Que filho da puta com um bom gancho de direita. Mas se precisasse escolher, preferia ser acertado por um soco todos os dias do que sua irmã sentir qualquer dor causada por quem quer que fosse.

Inclusive ele mesmo.

Não havia conhecido o amor de uma figura feminina até Lily e Geneviève entrarem em sua vida, mesmo não lembrando de sua progenitora sendo uma vadia com ele. Sabia que o trauma estava ali, pois apenas ele sabia o quanto sua vida poderia ficar bagunçada de vez em quando, escondendo isso de todos. Nunca sentia tanto amor quanto quando estava com Lily, nem mesmo com Orion ou Geneviève. Ela era a salvação para ele, sua irmã de verdade, e pensar que a machucava quando tentava ajudá-la, lhe quebrava. Não podia contar quantas inúmeras discussões eles já tiveram em suas vidas, mas eles sempre se apressavam para voltar um para o outro, nunca podendo ficar longe ou sem se falar por muito tempo. Sabia que o ocorrido de hoje iria passar, mas enquanto não passava, aquilo doía mais do que um soco no rosto.

Lily era a melhor e maior parte dele e, por isso, sentia-se em um impasse agora. Não conseguia aceitar Edgar Bones, mas não podia ver sua irmã chorando por suas ações.

- Sr. Black! - A voz da vice-diretora, Minerva McGonagall, lhe tirou dos pensamentos. - Queira me acompanhar até a sala do diretor, por favor.

- Mais essa agora.

Sua mãe iria arrancar seu couro mais tarde.


- Finalmente. - Disse Lily ao ver Edgar vir em sua direção no final do dia.

O namorado se destacava no corredor cheio de alunos com a sua atitude toda marrenta e sua beleza, mas Lily não queria pensar em nada daquilo agora.

- Terei detenção por três dias na semana que vem graças a ceninha no refeitório. - Ele reclamou parando em sua frente.

- O que você tinha na cabeça, afinal? Acertar o meu irmão daquele jeito foi ridículo.

- Eu não iria deixar que ele tomasse vantagem. Eu apenas fiz primeiro o que eu teria feito de qualquer jeito.

- Não, não venha com essa história de macho alfa que tem que dar o primeiro passo e bla bla bla. Você socou o meu irmão, Edgar.

- E ele me socou de volta. Olha que beleza essa marca no meu rosto. - Ele apontou para o lado direito de seu rosto onde estava ficando escuro e inchado. - Está do lado dele agora?

Lily deixou sua boca cair.

- Qual é a de vocês com essa história de tomar partido de alguém? Eu não vou me dividir entre o meu irmão e o meu namorado. Decidimos dar esse passo justamente para que pudéssemos ficar em harmonia e agora você começa com esse papo maluco?

Edgar suspirou e se deixou cair contra a parede.

- Era essa a intenção, mas não sei como vai ser com o seu irmão agindo assim o tempo todo.

- Eu vou me resolver com Sirius. Você, por favor, apenas me ajude.

- Ajudar como?

- Não encostando nele já é um bom começo, não acha?

- Seu irmão pode muito bem se defender, Lily, e você viu.

- Meu problema não é ele se defender ou não. - Lily deu duas cutucadas no ombro dele. - O problema é você brigar com alguém que eu amo. Isso, Edgar, eu não vou tolerar.

Eles se encararam por alguns instantes, antes dele parecer se dar por vencido.

- Olha, deveríamos estar comemorando que não estamos mais escondidos, e não brigando. - Ele tentou sorrir, mas a felicidade não alcançando totalmente seus olhos. - Foi um dia cheio e eu preciso ir embora. Amanhã eu tenho treino o dia todo, mas passo para te ver no fim do dia, ok? E então conversamos sobre a festa que Meadowes vai dar esse fim de semana. - Edgar pegou a mão dela e a puxou, encontrando seus lábios. - A primeira festa que poderemos ir juntos como casal.

Lily, ainda emburrada, aceitou o beijo dele mesmo assim.

- Claro. - Ela respondeu.

- Vamos aproveitar bastante. Vai ser na casa dela, então teremos bastante lugar para ficarmos juntos…- Ele encostou a boca em seu ouvido. - Vai ser ótimo levar o nosso tempo, finalmente. Sem precisarmos correr, sem ter que terminar as coisas rapidamente, porque alguém pode aparecer ou por ter que te levar de volta.

- Isso me parece bom. - A ruiva respondeu.

- Será ótimo, você verá. Vou garantir isso.

Soltando-a com uma mordida um pouco forte demais em seu pescoço, Edgar se ajeitou.

- Você está indo para casa agora?

- Não. Vou encontrar os caras do futebol, mas eu te vejo amanhã.

Deu um último beijo de despedida nela e desceu as escadas, cumprimentando alguns caras que ela sabia ser do time de futebol e se dirigiram para o estacionamento.

Lily ficou ali, parada, sem saber o que pensar. Sério mesmo que ele estava indo embora depois daquele dia tenso, mas que havia aberto o relacionamento deles para todos saberem? Jurava que iriam comemorar naquele dia mesmo, talvez até poderia levá-lo em casa pela primeira vez.

Isso e o fato de que Edgar acertou seu irmão mais cedo, lhe deu coceira atrás da orelha.

Ainda estava enfurecida com Sirius pelo o que aconteceu, mas enviou uma mensagem para ele, pedindo uma carona. Nem isso Edgar se importou, já que sabia que ela estava sem carro por enquanto. Ela estava exagerando com tudo aquilo? Tinha horror de pensar em ser uma namorada horrível, que pensar que tudo gira em torno de si ou qualquer coisa do tipo, mas estava sentindo-se estranha com tudo aquilo.

Emburrada e de braços cruzados, Lily esperava do lado de fora da escola, sentada nas escadarias. Odiava estar presa com alguém por não poder dirigir, tendo que ser levada para cima e para baixo sempre quando precisava fazer algo. Poderia chamar um táxi, mas iria demorar mais para um carro chegar do que esperar pela carona e chegar em casa.

- Que dia você nos presenteou hoje, Sardenta.

James sentou ao seu lado na escadaria, jogando sua mochila no degrau debaixo. A sua resposta foi um bufo nervoso.

- Cadê ele?

- Vindo. - James respondeu, colocando os cotovelos no degrau de cima e esticando as pernas. - Ele passou um dia de merda, já vou avisando. Acho que devo te agradecer por isso, porque eu não aguento mais ouvir a voz dele reclamando de tudo e todos.

- Essa culpa eu não levo. Ele é assim porque quer.

O garoto de cabelos bagunçados virou o rosto para ela, incrédulo.

- Você sabe que ele não faz isso por querer. - Ele respirou fundo e voltou sua atenção para os alunos que tomavam seu caminho de volta para casa agora. - Enfim...cadê o seu namorado?

- Foi embora. - Simplesmente respondeu.

- Ele te deu carona até aqui para fazer aquela cena todo ousado, mas não pode te levar até em casa, sabendo que você depende de carona?

Assim como Sirius, James podia ser tão irritante às vezes. Além de não ajudar com a paranoia dela enquanto falava aquilo.

- Ele tinha algo com os caras do futebol, assim como sabe que tenho meios de voltar para casa.

- Que idiota! - James meneou a cabeça. - Tem certeza que Bones é o cara certo para que você comece esta guerra?

- Não há guerra para lutar, apenas Sirius sendo exagerado.

Ele a observou por alguns segundos e Lily se remexeu no lugar. James poderia ter um olhar tão profundo, parecendo tentar arrancar algo de todos ou entender as pessoas invadindo suas almas. Adorava ver como ele fazia isso com alguém, mas odiava ser a vítima, pois sentia que as coisas simplesmente poderiam sair de sua boca sem nem perceber.

- Sabe que Edgar Bones é todo cheio de graça e pompa, mas está longe de ser o cara mais legal e correto dessa escola, não sabe? - Ele, finalmente, disse.

- Se ele cometeu erros, ele só é mais um humano nesta terra.

James soltou uma risada rouca.

- Há erros e erros, Sardenta. Você conhece os dele? - Ele sentou-se corretamente, apoiando os braços em seus joelhos. - Há coisas que acontecem nos bastidores que você, talvez, não saiba. - Ouviram que alguém se aproximava e eles sabiam, apenas pelo jeito de andar e o girar das chaves, quem era. - E se você diz que sabe e, ainda sim quer ficar com ele, eu diria que você não deve saber da mesma coisa que eu sei...porque a Lily que eu conheço, não ignoraria esses feitos.

Lily o encarou por alguns segundos, tentando desvendar o que levava James a lhe dizer tudo aquilo. Se conheciam há muitos anos e gostava bastante dele, de sua companhia e das suas conversas. Podiam discutir por horas sobre qualquer assunto, assim como era com Remus. Agradecia todos os dias por Sirius ter encontrado amigos inteligentes, legais e engraçados...só não agradecia por serem tão intrometidos.

- Está pronta?

A voz do irmão estava serena, de um jeito que apenas a culpa poderia fazer.

Sem responder, ela segurou no corrimão e se levantou rapidamente, ignorando o fato de que os dois estavam prontos para ajudá-la. Dane-se, não precisava deles, muito menos de Sirius. Então ainda muda, ela desceu os degraus devagar e caminhou sozinha até o carro, ouvindo os passos de Sirius e James em suas costas.

Estava possessa. Não vendo Sirius por boa parte do dia, tinha deixado sua raiva descansando, mas agora...apenas ouvir a voz do irmão, era como se o inferno abrisse na sua alma e estivesse pronta para explodir o mundo inteiro.

Ela o salvaria de qualquer jeito, mas ainda sim…

O alarme foi desativado de longe, então entrou no carro, colocou o cinto e cruzou os braços, esperando. Viu quando o irmão se despediu de James - este que deu uma olhada para ela pelo para-brisa como se despedindo - , e entrou no lado do motorista.

- Nós vamos conversar? - Sirius perguntou assim que ligou o carro. Como resposta, Lily se esticou e ligou o rádio no último volume, virando para a janela. Ainda conseguiu ouvir quando ele suspirou antes de ligar o carro e sair do estacionamento.

As ruas estavam tranquilas, então eles chegaram rapidamente em casa. Lily quase pulou para fora com o carro ainda em movimento, batendo a porta do querido carro do irmão.

- Quem está nervoso assim? - Escutou a voz de Geneviève vindo do escritório. - Eu ouvi a porta do carro bater daqui.

- Quem disse que tem alguém nervoso? - Lily respondeu enquanto passava pela mãe e ia na direção das escadas.

- Pare aí mesmo, mocinha.

Tinha que se lembrar que era a mãe ali e não qualquer outra pessoa. Falar mal ou não falar com Sirius era uma coisa, mas sabia que com os pais, era e seria sempre diferente. Então parou, ainda de costas, respirando fundo algumas vezes para se acalmar.

Neste meio tempo, Sirius entrou na casa e encontrou as duas ruivas paradas no corredor entre o escritório e as escadas.

- O que aconteceu com vocês? - A mãe perguntou, estancada entre os dois, olhando de um filho para o outro. Considerando a atitude da filha e a cara desolada do filho (inclusive, ficou alguns segundos a mais fitando o roxo no rosto deste), já imaginava quem magoou quem. Então se virou para o moreno. - Eu recebi uma ligação do diretor Dumbledore mais cedo, Sirius, e teremos uma conversa já já. Mas antes, eu quero saber o que está acontecendo aqui.

Sem delongas, Sirius deu um passo à frente.

- Você sabia que ela está namorando? - Ele soltou, apontando para a irmã, que permanecia de costas para os dois.

- Eu sabia que ela estava saindo com alguém, mas não namorando. - A boca de Sirius caiu.

- Você sabia?

- Sim, eu sabia, Sirius. Qual o problema?

Geneviève sabia qual era o problema e Lily queria gritar aquilo, mas se forçou a ficar quieta, deixando os dois conversarem.

- O problema é que...você sabe qual é o problema, mãe. - Lily poderia rir em como eles eram parecidos. - Bones é um idiota, ele está longe de ser bom para ela.

- Ele não me parecia nada disso quando eu o conheci.

Se antes a boca de Sirius caiu, agora ela estava entrando no núcleo da Terra.

- Você o conheceu? - Sirius desviou o olhar da mãe e focou nas costas de Lily, ainda parada no mesmo lugar. - Você apresentou esse idiota para a mãe e não falou comigo?

Lentamente, Lily se virou. Os olhos verdes poderiam se tornar vermelhos agora apenas com a raiva e a mágoa.

- Você ainda ousa me perguntar isso? - Se aproximou de ambos, ignorando o olhar preocupado da mãe. - Por que eu te contaria algo assim, sendo que você não ficaria feliz por mim? Eu respondo: porque você não pode ser essa pessoa sensata.

- Ninguém ficaria feliz por você enquanto namora aquele estrume.

- Ai que você se engana. Sabe quem ficaria feliz por mim? - A voz dela estava carregada de mágoa, encarando seu irmão e sua mãe. - Papai! Ele iria me chamar no escritório e conversaria comigo, mas iria querer conhecê-lo. - Lily deixou uma lágrima escapar, enxugando-a com raiva. Estava cansada de chorar naquele dia. - Me daria vários conselhos, e talvez até sermões, mas ele ficaria feliz por mim.

A menção de Orion trouxe uma atmosfera pesada, como se a casa tivesse sua própria condição climática e uma nuvem cinza pairasse sobre eles. Lily se arrependeu de dizer aquilo, porque a tristeza que via nos olhos de ambos era angustiante. A saudade que todos sentiam dele era quase palpável e queria poder voltar no tempo e retirar aquelas palavras, fossem elas verdadeiras ou não.

Mas como não tinha aquele poder, Lily apenas se virou e foi para o seu quarto.


Duas horas depois do jantar, o qual ela não participou, três batidas na porta finalmente a tiraram daquele transe que entrou desde que chegou em casa. Reconhecia as batidas, reconhecia tudo, absolutamente tudo. Não respondeu, apenas se virando na cama, encarando a janela e dando as costas para a porta.

-Eu sei que você está acordada. Me deixa entrar, por favor?

- Vai embora!

Ao invés de ouvir os passos se afastarem da porta, ela abriu. Lily se ajeitou ainda mais na sua posição, se fechando completamente. Sentiu quando o colchão ao seu lado baixou com o peso de Sirius e estava prestes a levantar e deixá-lo lá sozinho, quando ele começou a falar:

- Faz tanto tempo que você não me chama de Snuffles. - Aquilo a paralisou, mesmo ainda não tendo movido um músculo para sair, mas foi o suficiente para o seu cérebro obrigá-la a ficar. - Quando você começou a me chamar disso por conta daquele seu cachorro de pelúcia bizarro que desapareceu, eu fiquei em dúvida se gostava ou não. Ele era horrível e fedia.

- Snuffles não fedia! - Lily revirou os olhos quando percebeu que Sirius conseguiu o que queria: uma reação dela. - Apenas ficava sujo, porque eu carregava para todos os lugares.

- Até você perdê-lo.

- Até eu perdê-lo. - Ela concordou.

- Eu lembro até hoje daquele dia que você choramingou pela casa toda. Estávamos na Cornualha e, ao invés de aproveitar o sol, a praia e a piscina, ficou emburrada na sala, sem querer falar com ninguém. Eu só conseguia pensar que você era insuportável por fazer um drama por um cachorro fedido.

- Ele não era fedido. - Ela ralhou.

- Até eu ouvir você chorando a noite. - Sirius continuou. - Você só dormia com ele e não conseguiu pregar o olhar pelo Snuffles fedido…- Ainda continuava de costas para o irmão, então perdia o olhar cheio de nostalgia dele. - Eu entrei no seu quarto e, não sei o que deu em mim, eu só subi na sua cama e te abracei. Você adormeceu em cinco minutos.

Um sorriso escapou de Lily com a lembrança. Conseguia até lembrar que os cabelos do irmão cheiravam a sal por ter passado o dia todo na praia. Quando acordaram na manhã seguinte, ela choramingou novamente pelo cachorro de pelúcia, mas aquele Sirius de seis anos de idade apenas se virou para ela e falou "Eu posso ser o Snuffles, se você quiser, até você achá-lo."

Lily nunca achou Snuffles, o cachorro. Para ser sincera, depois daquela manhã, ela nunca mais procurou por ele.

- Ele merecia meu momento de luto.

- Que não durou muito. - Ele riu, fazendo Lily bufar.

Seu coração estava tão aquecido pelas lembranças, dolorido por Orion e sua ausência e um pouco raivoso por Sirius poder levá-la a loucura e, ao mesmo tempo, saber como entrar em sua pele.

- O que você fez hoje, Sirius... - Não sabia nem o que dizer, como continuar.

- Eu te machuquei. - Ele terminou por ela. - Eu não queria. Me desculpe.

- Você exagerou. Bastante. Foi além do que devia.

Sirius não respondeu de imediato. Ela não iria forçar uma resposta dele, esperando que ele estivesse considerando suas palavras, que eram quase como um pedido para que ele não forçasse mais a barra.

- Sabe aquela música do Bruno Mars? "Grenade"? - Lily franziu as sobrancelhas, tentando entender o que diabos Bruno Mars tinha haver com algo na sua vida e aquela conversa. - Você sabe que eu, literalmente, pegaria uma granada por você, não sabe? E todo o resto do refrão.

Lily fechou os olhos ao ouvir aquilo. Odiava quando ele fazia aquilo: dizia esse tipo de coisa, fazendo-a esquecer que ele era um babaca.

- Eu não sabia que gostava de Bruno Mars. - Ela respondeu com a voz ainda sinalizando o seu descontentamento.

- Eu não escuto de livre e espontânea vontade, mas eu não sou alienado sobre as músicas na rádio. - Ela quase podia dizer que ele deu de ombros após dizer isso e, se ela estivesse de frente para ele, saberia que foi exatamente o que ele fez. - O que interessa não é isso, mas que é verdade. A única diferença da música para a realidade, é que eu sei que você faria o mesmo.

Sirius era infernal. O que custava deixá-la passar a tarde e a noite toda xingando o irmão, ao invés de vir com aquelas coisas?

- Você se tem em grande valor, querido.

- Não tem como negar que você me ama depois de todos esses anos, Lily. - Tinha um tom de sorriso em sua voz. - De qualquer maneira, eu quero que saiba que a última coisa que eu quero, é que você se meta com o cara errado.

- Para você, todos eles são errados.

- Nem todos.

- Ah é? - Ela sentou na cama, se virando para ele pela primeira vez naquela conversa. Sirius não se mexeu muito da cama, continuando com seus braços atrás da cabeça e os tornozelos cruzados, bem confortável na cama que não era dele. - Me diga três nomes, então.

Fazendo uma careta pensativa, Sirius encarava o teto.

- Nem todos os caras são errados, eu só não os conheço ainda.

Ela revirou os olhos e levantou de vez, cruzando bem os braços e parando aos pés da cama.

- Você não é idiota assim, Sirius. Me diga um, apenas um.

- Certo. - Ele parou para pensar novamente. - Há Frank.

- Ele namora Alice, minha melhor amiga. - Ela respondeu, indignada.

- Isso não o faz ser menos merecedor.

- Isso é nojento. Frank é quase o meu irmão, ou mais para cunhado.

- Tem razão. Talvez fosse como você namorar James ou Remus.

- Que, aliás, você nem os acha bons o bastante, já que não comentou nenhum deles.

Sirius sentou na cama rapidamente.

- Claro que não comentei nenhum deles, isso é absurdo.

- Por que?

- Você está interessada em algum deles? - Ele perguntou de volta, a voz estrangulada.

- Eu estou querendo saber o motivo deles nem serem considerados, já que são os seus melhores amigos e você gosta deles.

- Justamente por eles serem os meus melhores amigos, é que não devem tocar em você.

- "Não devem tocar em você". - Ela o imitoucom uma voz engraçada. - Essa frase é ridícula. Você fala como se eu não soubesse o que estou fazendo e as pessoas tiram proveito de mim.

Eles se encararam, sabendo do que, no fundo, ela falava. As memórias de ambos voltaram para aquela tarde, há quatro anos. E, como raramente e ,provavelmente pela conversa ter ficado um pouco tensa enquanto ela já estava chateada, sua respiração saiu um pouco do compasso. Sirius deslizou na cama e pegou as mãos dela.

- Está tudo bem. Lembra de respirar fundo? - Ele respirou fundo para que ela o imitasse. Lily o fez, mas não o suficiente. - Vem. - Ele pegou as duas mãos dela e colocou em seu peito enquanto respirava fundo, fazendo Lily sentir seu peito expandir e o imitar. Eles soltaram o ar juntos, apenas para respirarem fundo novamente. - Muito bem, continua.

Aquela era a técnica que eles encontraram para quando Lily tinha aquele tipo de ataque de pânico. Havia começado logo após a morte de Orion e não era recorrente, mas Lily ficava nervosa quando os tinha, sentindo-se completamente sem controle de si...o que poderia só piorar a situação. Se não conseguisse controlar logo no começo, ela poderia até desmaiar com a falta de ar, por isso Sirius, sua mãe ou seus amigos agiam rápido para ajudá-la.

Foi a segunda vez que teve um pequeno ataque quando se lembrava do ocorrido há quatro anos com Peter Pettigrew. Se recusava deixar aquele acontecimento tomar sua vida, mas pelo visto, não era sempre que controlava isso.

Às vezes, pensava como sua vida estaria caso Orion ainda estivesse vivo. Talvez aquela festa não teria acontecido, Sirius não seria tão protetor como é hoje. Talvez Lily tivesse seguido para outro país para terminar a escola - como Orion vinha considerando fazer com ambos os filhos -, ela estaria ainda por dentro dos negócios do pai para, talvez, continuar seu legado depois.

- Não é justo que ele tenha ido tão cedo. - Ela comentou quando sentiu-se melhor. Sirius suspirou sabendo exatamente de quem ela falava.

- Eu sinto tanta a falta dele.

Sentiu a dor que vinha com aquelas palavras, pois ela também a sentia. Orion era a pessoa mais justa, leal, compreensiva e carinhosa que Lily teve a chance de conhecer e conviver. Lembrava quando passava tardes inteiras com ele, fosse no escritório com suas próprias atividades enquanto o pai trabalhava, ou longas caminhadas em Hampstead Heath, o parque logo em frente da casa da família. Orion gostava de sentar nos bancos de madeira no Parliament Hill, com a vista de Londres, e apontar para cada prédio e dizer seus nomes, quais empresas poderia encontrar lá dentro ou histórias mirabolantes de cada um deles.

Perdê-lo foi uma descoberta de quanto um coração poderia doer, o quanto Lily poderia aguentar na vida, porque se não tivesse morrido com aquela dor da saudade que sentia dele, então ela poderia aguentar qualquer coisa.

- Eu também. - Ela concordou.

- Ele estaria tão orgulhoso de você, Pequena. - Sirius continuou, aproveitando que Lily havia usado um antigo apelido para ele naquele dia, então ele usou o seu para ela. - Por tudo o que aconteceu, por como você aguenta as pontas quando estão difíceis, o quanto me ajuda quando eu preciso. Você pode parecer como mamãe no espelho, mas quando você fala, quando você anda, ou quando ajuda alguém, ou até mesmo sua determinação...você é o papai por completo. Ele criou um clone dele, mesmo sem querer, e acho que você nos ajuda a cada dia com a saudade, porque assim que você entra no ambiente, é como se ele entrasse com você.

Foi difícil segurar o soluço do choro que ela estava lutando contra. Sirius a abraçou, consolando-a, dando a chance das lágrimas tomarem conta dela enquanto o irmão acariciava seus cabelos.

Lily o abraçou forte de volta, se aconchegando nele. Odiava que Sirius conseguisse contornar as coisas com as palavras certas, mas odiava ainda mais estar brigada com ele, então se permitiu sentir todo o amor dele naquele abraço ao invés de passar a noite toda querendo esganá-lo.

- Eu vou estar sempre aqui, sempre. - Ele disse dando um beijo nos cabelos dela.

Ela sorriu. Sim, ela sabia. E ela faria o mesmo!


Enquanto isso, a 1km dali, James encontrava-se sentado na área da piscina da casa dos Potter, observando as estrelas com os pensamentos tão longe quanto elas.

Por anos ele não pensava naquilo. Por anos, sua cabeça havia sido esvaziada de pensamentos sobre Lily, pelo menos os pensamentos que costumava ter. Não foi até Remus abrir a boca sobre aquilo mais cedo, fazendo aquela onda de memórias lhe atingir, lembrando-o da oportunidade que perdeu. Agora, não adiantava pensar naquilo, não mais. Ele arrancou Lily de seu peito em qualquer sentido romântico que poderia existir, tendo que deixar apenas a amizade e a consideração enorme que tinha por ela por ser a irmã de Sirius. Remus não sabia de nada, falando muitas besteiras hoje.

Depois de Peter, ele havia entendido que, não importava o que sentia, Lily estaria fora de seu alcance. Talvez antes ela já estivesse, mas estava a ponto de tentar há quatro anos.

Se arrependimento matasse...por que não falou com ela primeiro? Qualquer interferência, qualquer coisa, por menor que fosse, inclusive dele, poderia ter impedido Peter. Se tivesse conversado com ela por mais tempo na cozinha, se tivesse aceitado falar com ela quando Lily propôs, ou se tivesse ficado para assistir o tal beer pong...tudo teria sido diferente. Qualquer mudança teria feito a diferença.

Mas não adiantava se torturar com aquilo, porque tudo aconteceu, foi do jeito que foi e ele não tinha mais nada a fazer sobre.

Aliás, desconsiderando o que Peter fez e voltando o pensamento sobre o que ele queria ter feito...quem garante que Lily teria aceitado sair com ele? Ela nunca havia dado indício de que gostava dele ou que o considerava daquela maneira. Poderia ter tentado, mas provavelmente recebesse um "não". Talvez recebesse um soco de Sirius, talvez não.

Mas, novamente, não importava o passado, porque ele não podia mudá-lo. O futuro era incerto, mas tinha certeza de uma coisa: Lily não gostava dele no passado, não gosta dele no presente e não gostará dele no futuro.

Isso nunca mudou. Por treze anos, ela nunca gostou dele ou nem perto disso. Não seria agora que Lily mudaria de ideia.

E mesmo se mudasse, James não poderia fazer nada, senão ele não veria o nascer do sol do dia seguinte.


N/A:

Oi, tudo bem? :D

Eu demorei, porque esse capítulo me deu um trabalho enorme em uma cena e eu simplesmente ignorei na época. Ai agora que começo a postar a fic, tive que encarar o problema e me levou algum tempo hahahaha Desculpem.

Estou postando porque não vou conseguir melhorar, então não desistam da fic por esse capítulo hahahaha O proximo, aliás, é o capitulo sobre Peter Pettigrew. Como explicado no epilogo, ele não é pesado, mas pode gerar gatilho. As cenas que eu acho mais complicadas, estarão em itálico, ok?

Reposta para reviews sem login:

Mah: Esse enredo é puro amoooooor. Eu amo demaaaaais *-* Espero que goste do desenrolar desta historia e para onde eu levar todos voces :D Fico feliz em postar e escrever fic JILY e saber que ajudo esse fandom que não é tão grande quanto deveria ser :)

Não esquece daquele comentário maroto ai ;)

Beijos ;****